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domingo, 25 de maio de 2014

Golpes e terror: os frutos da guerra da OTAN contra a Líbia

22/5/2014, [*] Seumas Milne, The Guardian
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No Iraque os EUA primaram pelo assassinato de civis e pelo uso de urânio empobrecido para envenenar a população civil
O Iraque pode ter sido desastre encharcado de sangue; e o Afeganistão, fracasso militar e político acachapante. Mas da Líbia esperava-se que fosse diferente. A guerra da OTAN para derrubar o coronel Gaddafi em 2011 foi saudada como intervenção liberal que teria funcionado.

As potências ocidentais podem ter distorcido o significado da Resolução da ONU sobre proteger civis, a cidade de Sirte pode ter sido reduzida a ruínas, houve limpeza étnica em grande escala e milhares de civis foram assassinados. Mas sempre se disse que a causa teria sido nobre e alcançada sem mortos nos quadros da OTAN.

Afinal, não foi mortandade promovida por Bush e Blair, mas por Obama, Cameron e Sarkozy. As pessoas foram “libertadas”; o ditador, morto; massacre ainda pior teria sido evitado – e tudo isso sem qualquer coturno visível em solo. Até o ano passado, o Primeiro-Ministro ainda dizia que teria valido a pena, e prometia defender os líbios “em cada passo do caminho”.

Mas... três anos depois de a OTAN ter declarado vitória, a Líbia afunda-se outra vez em guerra civil. Nos últimos dias, o general Hiftar, ligado à CIA, lançou sua segunda tentativa de golpe em três meses. Supostamente, para salvar o país de “terroristas” e islamistas. No domingo, suas forças golpistas atacaram o Parlamento nacional em Trípoli, depois que 80 pessoas foram assassinadas em lutas em Benghazi, dois dias antes.

Na Líbia os bombardeios efetuados pelos EUA-OTAN ocasionaram
mais de 150.000 mortes diretas, 285.000 ferimentos incapacitantes
e destruição quase completa da infraestrutura do país.
Objetivos: ROUBAR o petróleo e a água.
(clique na imagem para aumentar)
Agora, o chefe do governo líbio chamou milícias islamistas para defender o governo, antes de novas eleições. Dado que o país está tomado por milícias muitas vezes mais poderosas que o exército oficial, que está dividido em mil grupos e facções, e que é presa de interferência externa que nunca termina, as chances de evitar-se guerra total são mínimas e diminuem rapidamente.

Mas esses são só os confrontos e atrocidades mais recentes que assolam a Líbia desde a “libertação” pela OTAN: bombardeios, assassinatos, sequestro do Primeiro-Ministro, invasão e ocupação de terminais de petróleo por bandos de mercenários a serviços de senhores-da-guerra, expulsão de 40 mil líbios (quase todos negros) de seus lares e assassinato de 46 manifestantes nas ruas de Trípoli num incidente – e tudo ignorado pelos estados que, supostamente, foram à guerra para proteger esses mesmos civis que, hoje, aqueles mesmos estados deixam morrer aos magotes.

General Khalifa Hiftar, golpista
De fato, o ocidente aproveitou a oportunidade para intervir na Líbia e assumir algum “comando” dos levantes árabes. O poder aéreo da OTAN em apoio à rebelião líbia fez multiplicar por 10 o número de mortos, mas teve papel decisivo na guerra – o que implica reconhecer que nenhuma força política ou militar havia lá que pudesse ocupar o vácuo político. Três anos depois, há milhares de presos sem julgamento, há cada dia mais divisões e o dissenso mais furioso, e as instituições que não entraram em colapso estão à beira do colapso.

Pois os EUA e a Grã-Bretanha continuam a treinar soldados líbios, para que assumam o controle! Antes de Gaddafi ser derrubado, Hiftar comandava a ala militar da Frente de Salvação Nacional apoiada pela CIA. Antes de sua mais recente tentativa de golpe, EUA simpáticos enviaram uma força de marines à Sicília para intervir; e John Kerry prometeu ajudar a Líbia com “securança e extremismo” [sic].

Gen. al-Sisi, golpista
Ambos, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, estão apoiando abertamente o golpe de Hiftar, como também Sisi, o general golpista do Egito. Depois de prender, encarcerar e abater a tiros número impressionante dos próprios islamistas egípcios, Sisi e seus apoiadores do Golfo estão decididos, agora, a impedir que eles se consolidem no poder da Líbia, rica em petróleo. Há sinais de que Sisi – que reclama que o ocidente teria abandonado a Líbia depois de derrubar Gaddafi – quer usar a crise líbia, para mobilizar suas próprias forças.

Mas não é só a Líbia que tem de conviver com o fracasso da intervenção da OTAN. O “revide” da guerra líbia já se disseminou por toda a África, desestabilizando a região do Sahel e para além dela. Depois da derrubada de Gaddafi, o povo tuaregue que lutara por Gaddafi voltou para suas terras no Mali, levando consigo suas muitas armas. Em poucos meses, todo o norte do Mali estava envolvido em total rebelião armada, tomado por combatentes islamistas. O resultado foi a intervenção militar francesa do ano passado, apoiada por EUA e Grã-Bretanha. 

Mas o impacto da Líbia vai muito além disso. Um dos grupos cuja campanha armada foi estimulada e inflada pelo armamento pesado obtido dos arsenais de Gaddafi – é o grupo Boko Haram.

O apoio popular à seita de terroristas nigerianos fundamentalistas – que sequestraram 200 meninas de uma escola mês passado e foram responsáveis por mais de 1.500 mortes desde o início do ano – foi cevado pela miséria, pela fome, pela seca e pela repressão brutal contra o norte muçulmano.

Bombeiros atuam na cidade de Jos na Nigéria após atentado do  grupo Boko Haram
Mas, como em todos os demais pontos na África e no Oriente Médio, cada intervenção externa só faz ampliar o ciclo da guerra do terror. Assim, a conclamação à ação, depois do sequestro das meninas pelo Boko Haram, levou as forças dos EUA, da Grã-Bretanha e da França à Nigéria, rica em petróleo, assim como a crise no Mali, ano passado, levou uma base de drones militares norte-americanos para dentro do vizinho Niger.

Forças armadas dos EUA estão agora envolvidas em 49 dos 54 estados africanos, além das ex-potências coloniais de França e Grã-Bretanha, no que já é uma nova onda de saque contra o continente: uma caça aos recursos e uma caça a influência maior ante o crescimento incessante do papel econômico da China, acionadas por presença militar em escalada frenética que espalha o terror por onde passa e onde chega. Tudo isso gerará seu específico revide, como aconteceu na guerra da Líbia.

Apoiadores da guerra da OTAN na Líbia argumentam que não houve intervenção militar ocidental na Síria, mas o país, mesmo assim, está tomado pelo caos e pela violência e já morreram mais de 150 mil naquela guerra horrenda. Mas é claro que, sim, há intervenção clandestina gigante, sim, em apoio aos terroristas na Síria: os estados da OTAN e os estados do Golfo, sim, estão lutando, na Síria, ao lado dos terroristas.

Um dos aspectos mais repugnantes da política ocidental para a Síria é o mecanismo de “liga/desliga” do apoio que o “ocidente” dá a grupos armados envolvidos naquele confronto, para manter os seus grupos favoritos sempre ativos no jogo – e sem dar a nenhum deles qualquer vantagem decisiva. De fato, o apoio de EUA, Grã-Bretanha e Golfo cresce sempre, nos últimos tempos, por causas dos resultados positivos que o exército de al-Assad está obtendo em campo.

Na Síria os EUA "et alii"  ja causaram mais de 150.000 mortes e 1.500.000 de refugiados
É impensável, não faz qualquer sentido, supor que o número de mortos na Síria seria menor, ou o conflito sectário menos brutal, se EUA e aliados tivessem lançado ataque militar de grande escala na Síria, em qualquer estágio do conflito. A experiência do Iraque – onde se estima que a guerra tenha feito 500 mil mortos – mostra isso, bem claramente.

Mas há essa expectativa de fazer mais e mais guerras, guerras de rotina, entre partes da elite ocidental que já estão impacientes para conseguir alguma nova intervenção. “Por qual causa os EUA lutarão?” perguntava, patética, a revista The Economist, no início desse mês, repetindo as queixas dos Republicanos nos EUA, de que a Casa Branca de Obama é “frouxa”. Para o resto do planeta, a realidade da Líbia e as consequências desastrosas do que o ocidente fez contra a Líbia deveriam ser resposta suficiente.
__________________


[*] Seumas Milne (nascido em 1958) é um jornalista e escritor britânico. Muito respeitado como colunista e Editor associado do jornal The Guardian. Também autor de um best-seller sobre o 1984–5 British miners' strike, The Enemy Within: The Secret War Against the Miners, focalizando o papel do MI5  e do Special Branch na disputa.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A guerra do ocidente contra a África


20/2/2013, Dan Glazebrook, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dan Glazebrook

A destruição, pelos EUA-OTAN, do sistema de segurança do Sahel-Saara beneficiou aqueles que desejam ver a África permanecer no papel de fornecedor subdesenvolvido de matérias-primas baratas, escreve Dan Glazebrook



A imagem clássica da África, difundida pela imprensa-empresa ocidental – um saco gigante, cheio até a boca de guerras infindáveis, fome, crianças abandonadas – cria a ilusão de um continente que dependeria existencialmente do que lhe dê a caridade ocidental.

Soldados tuaregues malianos patrulham as ruas de Gao, norte do Mali, no sábado 
A verdade é exatamente o contrário disso. O ocidente é que depende existencialmente do que extráia da África. O que o ocidente obtém da África é obtido de várias, muitas maneiras. Dentre essas maneiras, os fluxos ilícitos de recursos; os lucros que, invariavelmente, acabam nos cofres dos bancos ocidentais pelas trilhas dos paraísos fiscais, como já está fartamente documentado no livro Poisoned Wells [Poços envenenados], de Nicholas Shaxson. Ou pelo mecanismo de extorsão do sistema das dívidas nacionais, pelo qual bancos ocidentais emprestam dinheiro a governantes militares, quase sempre postos no poder com a ajuda de forças ocidentais, como Mobutu, ex-presidente do Congo; esses governantes apropriam-se do dinheiro emprestado, quase sempre em contas privadas no próprio banco que emprestou ao país, cabendo ao país a missão de pagar juros exorbitantes que crescem exponencialmente.

Pesquisa recente de Leonce Ndikumana e James K. Boyce descobriu que mais de 80 centavos de cada dólar emprestado deixaram o país devedor em “voos do capital”, no período de um ano, sem jamais terem sido investidos no país devedor; e que $20 bilhões são drenados da África, por ano, como pagamento “do serviço da dívida” desses “empréstimos” essencialmente fraudulentos.
Latuff  2013 (Opera Mundi)
Outra via pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário, é o saque de minérios. Países como a República Democrática do Congo são saqueados por milícias armadas que roubam recursos naturais do país e os revendem a preços inferiores aos dos mercados a empresas ocidentais; muitas dessas milícias são controladas de países vizinhos, como Uganda, Ruanda e Burundi, os quais, por sua vez, são patrocinados pelo ocidente – como relatam rotineiramente os relatórios da ONU.

E há também a via, talvez a mais importante, pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário: os preços escandalosamente baixos pagos na compra de matérias primas da África e, sempre, da força de trabalho africana que minera minérios, cultiva o que seja cultivável ou colhe o que tenha de ser colhido. Assim acontece que a África, de fato, subsidia os altos padrões de vida no ocidente e as empresas e corporações ocidentais.

Esse é o papel atribuído à África pelos donos da economia capitalista ocidental: fornecedora de recursos e de mão de obra de baixo preço. Para que o trabalho e os recursos continuem baratos, exige-se, basicamente, que a África continue subdesenvolvida e pobre; se prosperar, os salários crescem; se se desenvolver em termos tecnológicos, os preços dos recursos se somarão ao valor agregado antes da exportação; e valor agregado tem de ser pago.

Assim sendo, a extração de petróleo e de recursos minerais a baixo preço depende de manter os estados africanos frágeis e desunidos. A República Democrática do Congo, por exemplo – cujas minas produzem dezenas de bilhões de dólares de minérios todos os anos – só arrecadou, em recente ano fiscal, miseráveis $32 milhões de impostos sobre material extraído das minas, por causa das guerras por procuração que o ocidente mantêm ativas na região, entre milícias patrocinadas pelo ocidente.

União Africana
A União Africana (UA), criada em 2002, surgiu como ameaça nova contra tudo isso: um continente africano mais integrado e unificado, não seria tão facilmente saqueado. O que mais preocupou os estrategistas ocidentais foram os aspectos financeiros e militares da unificação africana. Num nível financeiro, os planos para a constituição de um Banco Central Africano (que criaria uma moeda africana única, o dinar, com lastro-ouro) ameaçariam gravemente a capacidade de EUA, Grã-Bretanha e França para continuar a saquear o continente. Todo o comércio africano feito mediante o dinar-ouro implicaria, em última instância, que os países ocidentais teriam de pagar em ouro por recursos africanos que comprassem, não mais, como até agora, em libras, francos ou dólares que, bem feitas as contas, sempre podem ser impressos em papel podre.

As duas outras instituições financeiras previstas pela União Africana – o Banco Africano de Investimentos e o Fundo Monetário Africano – também comprometeriam fatalmente a capacidade de instituições como o Fundo Monetário Internacional para manipular as políticas econômicas dos países africanos mediante seu monopólio das finanças. Como o economista Jean-Paul Pougala mostrou, o Fundo Monetário Africano, com capital inicial previsto de $42 bilhões “rapidamente suplantará as atividades africanas do Fundo Monetário Internacional, o qual, com apenas $25 bilhões, conseguiu pôr de joelhos o continente inteiro e obrigou a África a engolir um processo muito questionável de privatizações, forçando os países africanos a converter-se em monopólios privados”.

Além desses desenvolvimentos fiscais potencialmente ameaçadores, houve também movimentos no front militar. A reunião de cúpula da União Africana em 2004 em Sirte, Líbia, decidiu elaborar uma Carta de Defesa e Segurança Comum Africana, que incluía um artigo que estipulava que “qualquer ataque contra um país africano é considerado ataque contra o continente como um todo” – copiada, de fato, da Carta da OTAN. Em seguida, em 2010, foi criada uma Força Reserva Africana (FRA), com delegação para defender e fazer valer as definições da Carta de Defesa. Bem evidentemente, se a OTAN tivesse de desmontar a unidade africana pela força das armas, quanto mais depressa agisse, melhor para a OTAN.

Mas a constituição da Força de Reserva Africana representou, além de uma ameaça, também uma oportunidade. Embora houvesse, sem dúvida, a possibilidade de ela vir a ser força genuína para a independência, para resistir ao colonialismo e para defender a África contra a agressão imperialista, criava-se, simultaneamente, a possibilidade de, adequadamente manobrada e sob a liderança adequada, aquela mesma força converter-se em seu oposto – uma força para promover a subjugação colonial, ligada numa cadeia de comando ocidental. As apostas eram – e são – altíssimas.

Os preparativos militares dos ocidentais na África

O ocidente também já iniciara seus preparativos militares para a África. O declínio econômico do ocidente, além da ascensão da China, indicava que o ocidente já não poderia depender tão essencialmente da chantagem econômica e da manipulação financeira para manter o continente fraco e subjugado. Vendo claramente que isso implicava a necessidade crescente de ação militar para manter a dominação, documento publicado em 2002 pela Iniciativa Grupo de Política para o Petróleo Africano [orig. African Oil Policy Initiative Group] recomendava que “um foco novo e vigoroso sobre a cooperação militar dos EUA na África subsaariana inclua o projeto de uma estrutura de comando militar subunificada que possa produzir dividendos significativos na proteção dos investimentos dos EUA”. Essa estrutura veio à luz em 2008, sob o nome de Comandos dos EUA na África, AFRICOM.

Contudo, os custos – econômicos, militares e políticos – da intervenção direta no Iraque e no Afeganistão (só o custo da guerra do Iraque já ultrapassa os 3 trilhões de dólares) indicavam que o AFRICOM teria de depender basicamente de tropas locais, para o serviço de guerrear e morrer. O AFRICOM teria de ser o corpo que coordenaria (e coordenou) a subordinação de exércitos africanos presos a uma cadeia ocidental de comando. Isso, em outras palavras, converteu exércitos africanos em exércitos ocidentais “por procuração”.

Mapa das riquezas minerais do Sahel/Saara com o Mali ao centro
O maior obstáculo a esse plano era a própria União Africana, que, em 2008, categoricamente rejeitou qualquer presença de militares dos EUA em solo africano, o que forçou o AFRICOM a instalar seu quartel-general em Stuttgart, Alemanha, humilhação para o presidente G. W. Bush, que já anunciara, pessoalmente, sua intenção de implantar o AFRICOM em território africano. O pior viria em 2009, quando o então líder líbio Muammar Gaddafi – o mais empenhado inimigo das políticas imperialistas no continente – foi eleito para presidir a União Africana. Sob o comando de Gaddafi, a Líbia já se convertera em principal mantenedora e financiadora da União Africana. Agora, o mesmo Gaddafi propunha processo rápido de integração africana, que incluía a constituição de exército africano unificado, moeda única e passaporte único.

O destino de Gaddafi já é de conhecimento público. Depois de montar a invasão da Líbia a partir de um pacote de mentiras ainda maior do que o que servira de pretexto para a invasão do Iraque, a OTAN destruiu a Líbia, reduziu o país à condição de mais um estado africano falhado e facilitou a tortura e o assassinato de Gaddafi. Assim se viu livre de seu principal opositor.

Naquele momento, tudo levava a crer que a União Africana teria sido domada. Três de seus membros – Nigéria, Gabão e África do Sul – votaram a favor da intervenção militar na Líbia, no Conselho de Segurança da ONU; e o novo presidente, Jean Ping, apressou-se a reconhecer o novo governo que a OTAN impôs na Líbia e pôs-se a denegrir as realizações de Gaddafi. Fez mais: proibiu a assembleia da União Africana de fazer um minuto de silêncio, depois do assassinato de Gaddafi.

Sahel/Saara - Região objeto da cobiça dos EUA-OTAN
Mas esse quadro não durou. Os sul-africanos foram os primeiros a arrepender-se do apoio à intervenção; nos meses seguintes, o presidente Zuma e o ex-presidente Thabo Mbeki fizeram sérias críticas à OTAN. Zuma disse – com razão – que a OTAN agira ilegalmente ao impedir o cessar fogo e as negociações que a Resolução da ONU exigia, já intermediados pela União Africana e com os quais Gaddafi já concordara. Mbeki foi além: disse que o Conselho de Segurança da ONU, ao ignorar as propostas da União Africana, estava tratando “os povos da África com absoluto desprezo”, o que fez aumentar “a sanha das potências ocidentais para intervir em nosso continente, inclusive com força armada, para proteger os próprios interesses, sem considerar a posição dos próprios africanos”.

Experiente diplomata sul-africano, do Departamento de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da África do Sul, disse que “muitos estados da Comunidade Sul Africana de Desenvolvimento [orig. Southern African Development Community, SADC], sobretudo África do Sul, Zimbábue, Angola, Tanzânia, Namíbia e Zâmbia, que tiveram papel chave nas lutas de libertação sul-africanas, não estavam satisfeitos com o modo como Ping conduziu a questão do bombardeio da Líbia pelos jatos da OTAN”. Em julho de 2012, Ping foi forçado a deixar a presidência da União Africana e foi substituído – com apoio de 37 estados africanos – por Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-ministra de Relações Exteriores da África do Sul, braço direito de Mbeki e, bem claramente, militante do campo oposto ao dos capitulacionistas de Ping. Mais uma vez, a União Africana estava sob comando de forças comprometidas com genuína independência.

O assassinato de Gaddafi, porém, não tirou de campo apenas um poderoso membro da União Africana; removeu também o eixo em torno do qual girava todo o sistema de segurança regional na região do Sahel-Sahara. Usando cuidadosa e complexa mistura de força, projeto e desafio ideológico e negociação, a Líbia de Gaddafi sempre foi a cabeça de um sistema de segurança transnacional que conseguira impedir que milícias salafistas se implantassem na região – como reconheceu, em 2008, o embaixador Christopher Stevens, dos EUA:

Christopher Stevens
O governo da Líbia empreendeu operações agressivas para interromper o fluxo de combatentes estrangeiros, inclusive com monitoramento cerrado dos portos e aeroportos de entrada, e rechaçou o apelo ideológico do Islã radical (...). A Líbia coopera com estados vizinhos no Saara e Sahel, para conter o fluxo de combatentes extremistas e terroristas transnacionais. Muammar Gaddafi negociou recentemente um muito divulgado acordo com líderes tribais tuaregues da Líbia, Chade, Niger, Mali e Argélia, conseguindo que desistissem de suas aspirações separatistas e das práticas de contrabando (de armas e de extremistas transnacionais) em troca de assistência para o desenvolvimento dos seus países e apoio financeiro (...) Nossa avaliação é que o fluxo de combatentes estrangeiros da Líbia para o Iraque e o fluxo reverso de veteranos do Iraque para a Líbia diminuiu por causa da cooperação entre a Líbia e outros estados – disse Stevens.

Essa “cooperação entre a Líbia e outros estados” refere-se à CEN-SAD (Community of Sahel-Saharan States / Comunidade de Estados Sahel-Saarianos), organização lançada por Gaddafi em 1998 visando ao livre comércio, livre movimentação de pessoas e desenvolvimento regional de seus 23 estados-membros, mas com foco principal na segurança mútua e na paz. Além de conter a influência das milícias salafistas, a CEN-SAD desempenhou papel chave mediando conflitos entre Etiópia e Eritreia e na região do rio Mano; e negociou solução duradoura e sustentável para a rebelião no Chade. A CEN-SAD tinha sede em Trípoli e a Líbia, sem dúvida, era a principal força do grupo. De fato, o apoio da CEN-SAD foi fator determinante para a eleição de Gaddafi à presidência da União Africana em 2009.

A própria eficácia desse sistema de segurança local foi um duplo golpe contra a hegemonia do ocidente na África: não apenas aproximou a África de uma condição de paz, na qual a prosperidade local tornava-se possível, como, também, simultaneamente, esvaziava o pretexto chave para todas as intervenções militares do ocidente no continente. Os EUA haviam criado uma sua “Parceria de Contraterrorismo Trans-Saara” [orig. “Trans-Sahara Counter-Terrorism Partnership” (TSCTP)], mas, como Mutassim Gaddafi (conselheiro de Segurança Nacional da Líbia) explicou à ex-secretária de Estado Hillary Clinton em Washington em 2009, a “Comunidade de Estados Sahel-saarianos (CEN-SAD) e a Força de Reserva tornam dispensável qualquer TSCTP”.

Enquanto Gaddafi esteve no poder e comandou um efetivo e poderoso sistema de segurança regional, as milícias salafistas no Norte da África não podiam ser usadas como “terrível ameaça” para justificar invasões e ocupação pelo ocidente, para salvar os nativos desamparados. Ao conseguir fazer o que o ocidente diz desejar (mas, em todos os pontos, fracassa sempre) – neutralizar o “terrorismo islamista”– a Líbia tirou dos imperialistas um pretexto chave para todas as guerras que fizeram contra a África. Ao mesmo tempo, impediram que as milícias continuassem a desempenhar outra função histórica que sempre tiveram, servindo ao ocidente como força “alugada”, que agia por procuração, para desestabilizar estados seculares independentes, como Mark Curtis documentou em seu excelente Secret Affairs. O ocidente apoiou esquadrões da morte salafistas em campanhas para desestabilizar a URSS e a Iugoslávia, com grande sucesso; e planejava fazer o mesmo contra a Líbia e a Síria.

A África depois de Gaddafi

Com a OTAN trabalhando para fazer da Líbia estado falhado, esse sistema local foi destroçado. As milícias salafistas não receberam só equipamento militar ultra moderno, cortesia da OTAN; receberam também carta branca para saquear os arsenais do governo líbio e um paraíso seguro a partir do qual organizar ataques por toda a região. As fronteiras entraram em colapso, com a aparente conivência do novo governo líbio e de seus patrocinadores na OTAN – como registra um trágico relatório da empresa de segurança global Jamestown Foundation.

Segundo esse relatório, “Al-Wigh era importante base estratégica do regime Gaddafi, localizada em região próxima das fronteiras com Niger, Chade e Argélia. Depois da queda de Gaddafi, a base passou a ser controlada por combatentes da tribo Tubu, sob comando nominal do Exército Líbio, mas sob comando local de um comandante tubu, Sharafeddine Barka Azaiy, que reclamou que “durante a revolução, controlar essa base era assunto de máxima importância estratégica. Conseguimos ocupar a base. Agora nos sentimos abandonados. Não temos equipamento suficiente, nem viaturas nem armas para proteger a fronteira. Embora sejamos parte do exército nacional, ninguém nos paga soldo”.

O relatório conclui que “o Conselho de Governo Nacional Líbio (GNC) e o que havia antes dele, Conselho Nacional de Transição (TNC), falharam na segurança de importantes instalações militares no sul e permitiram que a segurança de vastas porções de fronteira no sul fossem, de fato, “privatizadas” nas mãos de grupos tribais, conhecidos há muito tempo pela prática, ali tradicional, de contrabando. Isso, por sua vez, põe em risco a segurança da infraestrutura do petróleo líbio e a segurança das regiões vizinhas. Com a venda e o transporte de armas líbias já convertidos em mini-indústria na era pós-Gaddafi, as imensas quantidades de dinheiro com que conta a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM) conseguem abrir muitas portas, em região empobrecida e subdesenvolvida. Ainda que a invasão francesa no norte do Mali consiga desalojar os militantes islamistas, nem assim haverá o que impeça os mesmos grupos de estabelecer novas bases nas áreas mal controladas do deserto selvagem no sul da Líbia. Enquanto não houver estruturas de segurança controladas por autoridade central na Líbia, o interior desse país continuará a ser ameaça de segurança para todas as demais nações na região”.

Mali e fronteiras. O trecho hachurado em vermelho é a área  tomada pelos salafistas
A vítima mais óbvia dessa desestabilização foi o Mali. Não há analista sério que não saiba que a tomada do Mali pelos salafistas é consequência direta da ação da OTAN na Líbia. Um dos resultados do avanço da desestabilização promovida pela OTAN no Mali é que a Argélia – que perdeu 200 mil cidadãos numa guerra civil contra os islamistas nos anos 1990s – está hoje cercada por milícias salafistas pesadamente armadas em duas fronteiras: ao leste (fronteira com a Líbia) e ao sul (fronteira com o Mali). Depois da destruição da Líbia e da derrubada de Hosni Mubarak no Egito, a Argélia é hoje o único estado do norte da África ainda governado pelo partido anticolonialista que conquistou a independência contra a tirania das forças coloniais europeias.

Esse postura de independência ainda está bem evidente na atitude da Argélia em relação à África e à Europa. No front africano, a Argélia é forte apoiadora da União Africana, contribuindo com 15% do orçamento da organização; e tem 16 bilhões de dólares empenhados na constituição do Fundo Monetário Africano, o que faz dela o maior contribuinte do FMA. E nas relações com a Europa, a Argélia tem-se recusado repetidamente a fazer o papel de nação subordinada que a Europa espera dela. Argélia e Síria foram os dois únicos países da Liga Árabe que votaram contra o bombardeio da OTAN contra a Líbia e a Síria. E, como se sabe, a Argélia deu abrigo a membros da família Gaddafi que fugiam de ser massacrados pela OTAN.

Mas, do ponto de vista dos estrategistas europeus, muito mais preocupante que tudo isso é, provavelmente, que a Argélia – com o Irã e a Venezuela – constituem o que eles chamam de uma “[Organização dos Países Produtores de Petróleo] OPEC linha dura”, empenhados em vender caro o acesso aos seus recursos nacionais. Como se lia recentemente em furibundo artigo publicado no London Financial Times, “o nacionalismo dos recursos” impera. Resultado disso, “as Grandes do Petróleo padecem muitas dificuldades na Argélia; as empresas reclamam da burocracia que as esmaga, dos controles fiscais duríssimos e do comportamento abusivo da Sonatrach, a empresa estatal de energia, que participa de quase todos os contratos de petróleo e gás”. Na sequência, o artigo observa que a Argélia implementou “um controverso imposto monstro” em 2006, e cita um executivo de petroleira ocidental em Argel, que disse que “as empresas [de petróleo] estão fartas da Argélia”.

É instrutivo observar que o mesmo jornal também acusou a Líbia de “nacionalismo dos recursos” – ao que parece, o crime mais hediondo, na avaliação daqueles leitores – apenas um ano antes da invasão da OTAN.

Evidentemente, “nacionalismo dos recursos” significa precisamente que os recursos de uma nação sejam usados, em primeiro lugar, para promover o desenvolvimento em benefício da própria nação, não em benefício de empresas estrangeiras e, nesse sentido, a Argélia bem merece a “acusação”. A Argélia exporta mais de cerca de $70 bilhões em petróleo por ano, e muito desse dinheiro tem sido usado em investimentos massivos em moradia e saúde pública, além de um financiamento recente de $23 bilhões, num programa de estímulo para pequenos comerciantes. De fato, esses altos níveis de investimentos sociais são considerados por muitos como a principal razão pela qual não se viram levantes da “Primavera Árabe” na Argélia, em anos recentes.

A mesma tendência de “nacionalismo dos recursos” também aparece anotada em recente material distribuído por STRATFOR, empresa de inteligência global, que escreveu que “a participação estrangeira na Argélia sofreu, em larga medida, por causa de políticas protecionistas aplicadas pelo governo militar fortemente nacionalista”. Seria evento particularmente preocupante, diz STRATFOR, em momento em que a Europa aproxima-se de situação em que se tornará muito mais dependente do gás argelino, com as reservas no Mar do Norte em processo de esgotamento. “Desenvolver a Argélia como grande exportador de gás natural é imperativo econômico e estratégico para os países da União Europeia, em momento em que a produção da commodity entra em declínio terminal na próxima década. A Argélia já é importante fornecedor de energia para o continente, mas a Europa precisará de acesso expandido àquele gás natural, para suprir o declínio de suas reservas indígenas” – diz STRATFOR.

Os planos das Grandes do Petróleo para a África

Prevê-se que as reservas britânicas e holandesas de gás no Mar do Norte estarão esgotadas no final dessa década; e que as da Noruega entrarão em acentuado declínio a partir de 2015. Com a Europa temerosa de tornar-se superdependente do gás da Rússia e da Ásia, o relatório anota que a Argélia – com reservas de gás natural estimadas em 4,5 trilhões de metros cúbicos, e reservas de gás de xisto de 17 trilhões de metros cúbicos – tornar-se-á fornecedora essencial. Mas o maior obstáculo para que a Europa controle esses recursos ainda é o governo da Argélia – com suas “políticas protecionistas” e seu “nacionalismo dos recursos”.

Mapa legendado da Argélia  elaborado pelo Repsol (petróleo & gás) 
Sem dizê-lo abertamente, o relatório conclui sugerindo que uma Argélia desestabilizada e convertida em “estado falido” seria sempre preferível a uma Argélia sob governo “protecionista”. E sugere que “o envolvimento que se vê hoje das majors de energia da União Europeia em países de alto risco, como Nigéria, Líbia, Iêmen e Iraque, indica saudável tolerância à instabilidade e a problemas de segurança”.

Em outras palavras: em tempos de segurança privada, o Big Oil já não carece de estabilidade ou da proteção do estado para seus investimentos. Zonas de desastre são toleráveis. Intoleráveis, só estados fortes e independentes.

Já aparece, portanto, no radar dos interesses estratégicos da segurança energética do ocidente, uma Argélia reduzida a estado falhado, exatamente como o Iraque, o Afeganistão e a Líbia um dia apareceram no mesmo radar.

Com isso em mente, é fácil ver como a política aparentemente contraditória de armar milícias salafistas num primeiro momento (na Líbia) e imediatamente depois passar a bombardeá-las (no Mali) faz, de fato, perfeito sentido. A missão francesa de bombardeio visa, nas próprias palavras dos franceses, à “total reconquista” do Mali. Na prática, implica empurrar os rebeldes gradualmente para o norte do país. Quer dizer: diretamente para a Argélia.

Vê-se afinal que a deliberada destruição do sistema de segurança que a Líbia coordenava em toda a região do Sahel-Saara trouxe vastos benefícios para os que contam com que a África permaneça presa no papel de fornecedora subdesenvolvida de matéria prima barata. O processo já armou, treinou e assegurou território para milícias que, em seguida, serão usadas na destruição da Argélia – o único grande estado rico em recursos naturais do norte da África ainda empenhado numa genuína unidade africana, com independência. A operação também persuadiu alguns africanos de que – diferente da rejeição unânime contra o AFRICOM, há pouco tempo – eles realmente precisam, hoje, de que o ocidente os “proteja” daquelas milícias.

Como a clássica venda de proteção à moda das máfias, o ocidente cuida de tornar sua proteção “necessária”: arma e atiça ele mesmo as forças contra as quais, adiante, as pessoas terão de ser protegidas.

Agora, a França está ocupando o Mali; os EUA estão montando uma nova base de drones no Niger; e o primeiro-ministro britânico David Cameron fala de seu compromisso com uma nova “guerra ao terror” que se alastrou sobre seis países e durará décadas.

Mas nem tudo caminha bem, no front imperialista. Longe disso, porque o ocidente, sem dúvida alguma, contava com não ter de mobilizar seus próprios soldados. O objetivo inicial era sugar a Argélia e colhê-la exatamente na mesma armadilha já usada com sucesso contra a União Soviética nos anos 1980s – exemplo anterior de Grã-Bretanha e EUA, patrocinando violenta insurgência sectária nas fronteiras do território inimigo, para atrair o inimigo-alvo para guerra destrutiva de retaliação. A guerra da URSS no Afeganistão, no final, não apenas fracassou: ela também, no processo, destruiu a moral e a economia do país e foi fator chave por trás da autodestruição do estado soviético em 1991.

Mas a armadilha para pegar a Argélia não funcionou. A jogada de Clinton e François Hollande, fazendo a cena do “policial bonzinho” e “policial durão” – uma “pressionando para a ação” em Argel, em outubro; e as ameaças dos franceses, dois meses depois – deu em nada.

Simultaneamente, em vez de se manterem fiéis ao roteiro, os imprevisíveis salafistas, na função de simulacros locais do ocidente, optaram por expandir sua base no norte do Mali, não na direção da Argélia, como previsto, mas para o sul, rumo a Bamako, ameaçando desestabilizar um regime aliado do ocidente, ali instalado, por golpe, menos de um ano antes. Os franceses foram obrigados a intervir, para mandar os salafistas de volta para o norte, de volta contra o estado que, desde o início, deveria ter sido seu alvo real.

Até aqui, essa invasão parece contar com certo nível de apoio entre os africanos que temem os salafistas simulacros do Ocidente, ainda mais do que temem os próprios soldados ocidentais. Mas, à medida que a ocupação se aprofunde, desconstruindo a credibilidade dos salafistas e ultrapassando-os em número de soldados ocupantes, ao mesmo tempo em que se for conhecendo a brutalidade dos ocupantes e de seus aliados... então, veremos.

Veremos quanto tempo durará tudo isso.