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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

sexta-feira, 15 de março de 2019

Rouhani e Sistani, Irã e Iraque Visita histórica

(enquanto o mundo se reorganiza sem EUA & Brasil) 

EUA e Brasil vergonha do mundo 



13/3/2019, 
Al-Monitor (do correspondente) [dica de Pepe Escobar, pelo Facebook]
Traduzido pelo pessoal da Vila Mandinga e publicado pelo blog O Empastelador

A visita de estado de Hassan Rouhani ao Iraque foi um sucesso para o presidente iraniano. Em termos de cooperação política e econômica, foram assinados vários memorandos de entendimento para facilitar o comércio, os investimentos, as conexões logísticas e as viagens entre os dois vizinhos. Além disso, foi divulgada importante declaração conjunta sobre o compromisso dos dois países para implementar 
os Acordos de Argel 1975 e anexos relacionados, que enfrentam questões sensíveis e gravemente deterioradas como a demarcação de fronteiras.

São passos da maior importância para Rouhani. Mas o coroamento dessas démarches foi a audiência do dia 13 de março – evento sem precedentes – com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani em Najaf — primeira vez que presidente iraniano em exercício é recebido pelo clérigo de mais alta hierarquia no Iraque. Sistani “acolheu com satisfação todos os movimentos para fortalecer as relações entre o Iraque e seus vizinhos para promover interesses mútuos e a partir do respeito à soberania dos estados e da não intervenção em assuntos internos". Também "expressou a necessidade de políticas regionais e internacionais moderadas nessa região, para evitar mais tragédia e danos." Para compreender a significação desse encontro, é preciso considerar a influência de Sistani no Irã.

Ano passado, houve 
110 mil alunos seminaristas no Irã, concentrados principalmente na cidade sagrada de Qom. Segundo dados do gabinete de Sistani, 49 mil alunos em 300 seminários no Irã receberam bolsas de estudos do Grande Aiatolá em 2013: 35 mil em Qom, 10 mil em Mashhad e 4.000 em Isfahan (muitos seminaristas recebem bolsas-auxílios de várias autoridades clericais. Além desses, também há estudantes no Irã que não recebem nenhum tipo de bolsa. Assim sendo, pode-se assumir que proporção significativa de seminaristas iranianos são mantidos diretamente por Sistani, o qual, embora viva há muitos anos no Iraque é cidadão iraniano. Essas redes têm grande influência no Irã, onde o sistema prevalecente, dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica [ver também Guardianship of the Jurist (ing.)] — embora só imponha disciplina política, não religiosa – repousa sobre a legitimidade religiosa.

Muçulmanos xiitas tendem a seguir autoridades religiosas no que tenha a ver com como conduzir a própria vida pessoal pelo que determine a religião. Esses altos jurisconsultos são chamados maraji al-taqlid ("fontes a serem imitadas"). Para manter serviços de caridade e estudos, recolhem um 'imposto', khums — imposto de 20% sobre a riqueza — além de doações dos fiéis. Embora não haja estatísticas de quanto seguidores tem cada marja, um 
estudo pioneiro lançou alguma luz sobre o tema.

Uma equipe do MIT [Massachusetts Institute of Technology] analisou milhares de peregrinos iranianos e iraquianos que fizeram a peregrinação do 
Arbaeen em 2015. O evento anual atrai milhões de peregrinos. Os iranianos que fazem a viagem ao Iraque não podem ser tomados como representantes do iraniano médico. Mesmo assim é interessante considerar que a distribuição dos Reformistas, em relação aos conservadores entre os iranianos pesquisados, foi quase sempre igual. Além disso, 19% dos respondentes iranianos eram de Teerã; 12,2% de Isfahan e 11,28% de Qom; na população iraniana as porcentagens respectivas foram 16,2%; 6,5% e 1,53%.

Porcentagem ligeiramente superior a 60% dos pesquisados disseram que seguem Khamenei; 20% que seguem o Grande Aiatolá Nasser Makarem Shirazi; e 15% seguem Sistani; 80% dos iraquianos declararam-se seguidores de Sistani.

Mas quanto a pagar o khums — considerando-se que cerca de metade dos entrevistados não quiseram responder – só 22% dos iranianos disseram pagá-lo a Khamenei, e 9% a Makarem Shirazi. Por sua vez, 11% dos iranianos disseram que pagam seu khums a Sistani, além de 46% dos iraquianos pesquisados, que também pagam a taxa sobre a riqueza a Sistani.

O que nos dizem esses dados? Claro que há várias dimensões a considerar – incluindo a consideração de que peregrinos religiosos não são amostra da maioria da população, especialmente no Irã. Mesmo assim, é possível extrair algumas inferências razoáveis:
  • Sistani conta com número considerável de seguidores empenhados no Irã.
  • Quem queira ser bem-sucedido no governo iraquiano precisa das bênçãos de Sistani.
  • Quem queira operar com sucesso no Iraque também precisa das bênçãos de Sistani.
  • Considerando-se que Sistani rejeita a teocracia, suas bênçãos podem também servir como guia em ocasiões em que seja relevante ganhar a classe média iraniana e outros estratos da sociedade menos ligados ao pensamento dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica.

Na verdade, muitos dados empíricos garantem evidências para tudo que acima se resumiu. Seja o governo em Bagdá, ou mesmo as autoridades de EUA e Irã, todos já aprenderam e aceitaram que é necessário evitar a oposição da suprema autoridade religiosa em Najaf, Iraque.

A grande influência que Sistani tem na política iraquiana (também extra-constitucional) ficou evidente seja quando conclamou o país a participar no processo eleitoral depois da invasão comandada pelos EUA, suas opiniões sobre primeiros-ministros ou até na luta contra o 'Estado Islâmico'. Essa influência ampliou-se para a política iraniana, onde várias facções buscaram o apoio dele para promover as respectivas posições e respectivos capitais políticos – especialmente em tempos de crise.

Por exemplo, 
Sistani recusou-se a receber o conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) quando visitou o Iraque — inclusive em 2008, na primeira viagem de presidente iraniano ao Iraque. Mas o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, político moderado veterano, que por muito tempo apoiou Rouhani, sim, foi recebido por Sistani quando Rafsanjani visitou o Iraqueem março de 2009. No verão daquele ano, vários grupos em Teerã tentaram convencer o Grande Aiatolá a apoiá-los, num momento em que a República Islâmica enfrentou o momento mais grave de agitações internas desde a Revolução de 1979, logo depois da disputada reeleição de Ahmadinejad.

Em telegrama que vazou do Departamento de Estado dos EUA, alguém 
bem próximo de Sistani dizia que o alto clérigo dissera que recebera cartas de todos os principais grupos envolvidos no conflito de facções no Irã, que "queriam que eu dissesse o que mais interessava a cada um". Sistani manteve-se neutro, em parte movido pelo desejo de não se deixar respingar por desdobramentos.

A cautelosa preferência de Sistani por forças pró-reforma no Irã transparece também no relacionamento muito próximo que mantém com o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, que, desde que assumiu o ministério em in 2013, já foi várias vezes recebido pela suprema autoridade religiosa do Iraque. Na primeira visita de Zarif como ministro de Relações Exteriores, Sistani, 
segundo uma fonte, disse a Zarif que “Li quase todo o seu livro, Mr. Ambassador,[1] e valorizo sua experiência e entendo que o senhor merece a posição que tem, de ministro de Relações Exteriores." E o Iraque foi o primeiro país que Zarif visitou, depois de assumir o ministério.

Em mais um sinal da influência de Najaf na política iraniana, não se deve ignorar que uma das figuras mais poderosas e bem relacionadas no Irã é o representante pessoal de Sistani, o Aiatolá Jawad Shahristani. Fosse nas negociações sobre quem comandaria o governo em Bagdá, ou na mobilização para a luta contra o 'Estado Islâmico', Shahristani sempre teve papel de destaque, com acesso à mais alta liderança no Irã, o que, provavelmente, está além do alcance da maioria dos membros do Gabinete iraniano.

A influência que facilita esses poderosos canais de atuação surge, em parte, das complexidades de laços de família (e políticos): Shahristani é genro de Sistani; Shahristani também é sogro de Ali Khomeini, neto do Aiatolá Ruhollah Khomeini — fundador da República Islâmica.

Sobre esse pano de fundo, a decisão da suprema autoridade religiosa de conceder uma audiência a Rouhani e Zarif informa aos líderes iraquianos que se devem engajar no governo Rouhani, mesmo que contem com o apoio de centros rivais de poder em Teerã, como o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Mais que isso, os feitos de Rouhani essa semana devem ter deixado bem claro para o governo Trump e seus aliados árabes, que o Irã nem abandonará nem será abandonado pelo Iraque, embora não se deva interpretar essa posição, de Bagdá ao lado de Teerã, como Bagdá ter posto Teerã acima de Washington.

Por fim, e talvez o mais importante de tudo, o encontro de Rouhani e Sistani foi uma injeção muito necessária de capital político, em momento de crise doméstica. De fato, Rouhani vem enfrentando fogo incessante de seus inimigos de linha-dura, revitalizados pela saída do governo Trump do Plano Amplo de Ação Conjunta [o chamado 'acordo nuclear do Irã].

Apesar de a viagem de Rouhani ao Iraque já estar planejada há mais tempo, a agenda foi, parece, impactada pela dinâmica de poder em Teerã – e pela a visível preferência de Sistani por moderação e reforma no Irã. Esse detalhe não escapou aos rivais do presidente do Irã, como já se viu na 
cobertura doméstica polarizada de sua audiência com Sistani. Assim, com Rouhani e Zarif manobrando para reafirmar sua autoridade sobre a política exterior da República Islâmica, há vários indicadores a serem observados em busca de sinais sobre o comando que tenham nas questões das agendas regionais. Dentre esses, a possibilidade de uma visita à Síria em futuro próximo, que também seria a primeira de Rouhani como presidente.


[1] Āqā-ye Safir: Goftogu bā Mohammad-Javād Zarif, Safir-e Pishin-e Irān dar Sāzemān-e Mellal-e Mottahed [Mr. Ambassador: A Dialogue with Mohammad Javād Zarif, the Former Ambassador of Iran to the United Nations], MohammadMehdi Rāji (ed.), Tehran: Nashr-e Ney, 2013, ISBN 978-964-185-298-8 (paperback), 368 pp. Aqui, resenha em inglês [NTs].

domingo, 21 de junho de 2015

Pepe Escobar: Partição do “Siriaque”


19/6/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Atual partição do Siriaque
(clique na imagem para aumentar)

Faltando menos de duas semanas para um possível acordo nuclear entre o Irã e o P5+1, a arriscada diplomacia que opera nesse “deserto de espelhos” [orig. wilderness of mirrors] que é a inteligência sobre o Oriente Médio chega a picos sem precedentes de atividade febril. E nada é o que parece ser.
É claro que muito que hoje depende desse acordo nuclear com o Irã tem a ver com o Oleogasodutostão. O Irã, assumindo-se que as sanções entrem rapidamente em colapso, poderá afinal vender gás natural à União Europeia – fazendo, teoricamente, concorrência à Gazprom; mas demorará muito, até que a arruinada infraestrutura iraniana seja recuperada.
E há também o futuro do proposto gasoduto chave Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – rival de um projeto do Qatar. É fácil identificar os que não querem saber de Iraque estável, capaz de implantar gasodutos por todo o próprio território. O Qatar jacta-se de ter mais gás (que possa ser entregue) – e melhor infraestrutura que o Irã. A viabilidade de construir dutos desde o Qatar, via Arábia Saudita, Jordânia e Líbano já foi estudada. Se Teerã quer resultados rápidos, muito melhor negócio será exportar diretamente para a União Europeia (UE), via a Turquia, do que atravessando Iraque e Síria.
Quanto ao hegemon, as coisas eram muito mais fáceis antes da [operação] Choque e Pavor em 2003. Naquele momento, Washington era dona do mundo; era marchar e ocupar (e destruir) o que quisesse. Disso, afinal, tratava a Dominação de Pleno Espectro. Durou apenas uma fração (histórica) de segundo.
Agora, o autodescrito governo de “Não faça merda coisa estúpida” [orig. Don’t Do Stupid Stuff] de Obama praticamente já quase nem se qualifica, sequer, como espelho quebrado, naquele deserto de espelhos.
Aremos pois o deserto do “Siriaque”
Funcionários da OTAN em Bruxelas parecem crer nos sunitas linha-duríssima treinados pelo Pentágono na província de Anbar para usarem armamento pesado e com esse armamento derrubarem o governo do ex-Primeiro Ministro al-Maliki em Bagdá – que vinha causando problemas a Washington. Mas fato é que o treinamento facilitou a posterior “fusão” desses sunitas com o ISIS/ISIL/Daesh.
Oleogasoduto em operação no deserto

O Pentágono – ou, pode-se dizer, de fato, a OTAN – poderia facilmente esmagar o falso Califato. Não esmagam, porque não querem. Muito melhor é deixar prosperar o caos, a perfeita tática de Dividir para Governar que tão bem serve aos suspeitos de sempre. Já arruinaram a Síria. Já arruinaram o Iraque. Os comboios de suprimentos para o ISIS/ISIL/Daesh partem da fronteira de OTAN e Turquia-Síria, protegidos pela Força Aérea turca; o que equivale a dizer que a OTAN – e a CIA – estão “apoiando” de fato o Califato fake. O Egito está falido. O Irã, quase quebrado. As coisas nunca estiveram tão bem para os suspeitos de sempre.
Agora, vamos até uma alta fonte na inteligência saudita para complicar ainda mais o imbróglio. Segundo aquela fonte, Palmyra foi “dada” ao ISIS/ISIL/Daesh na Síria, assim como cidades chaves na província de Anbar no Iraque:
O Daesh já não é segredo, e os EUA têm tanto interesse nele quanto no [ex-] eixo do mal.
O fato de que o ISIS/ISIL/Daesh, depois de cada vitória em campo, rapidamente incorpora para si grandes quantidades de armamento norte-americano muito avançado, cuja operação exige meses de treinamento intensivo, pode sem dúvida indicar que os capangas do Califa sim, foram adestrados por gente da inteligência ocidental.
Ao mesmo tempo, a fonte na inteligência saudita alimenta a fantasia de um Califato de duas cabeças: uma na Síria, ligada ao governo de Assad em Damasco – o que é perfeita tolice, porque o Califato, no Iraque, combate contra o Irã.
O Presidente Barack Obama dos EUA, entrementes, procrastina e disse que:
(...) o ISIS/ISIL/Daesh pode ser derrotado, mas ao longo dos próximos três anos. Mais uma vez, como sempre, por que não deixar que viceje o caos?
Outra fonte na inteligência saudita está pelo que se poder ver muito desanimada: “Os EUA nunca permitirão mudança de regime” na Síria. Para esse agente, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teria a função de “salvar a Síria”, e ele culpa a CIA por “interferir na transferência de armas para o Exército Sírio Livre”. No final, as petromonarquias do CCG “mudaram as rotas das entregas de armas, para evitar as obstruções da CIA”. Quer dizer: atualmente, os islamistas linha-duríssima da Frente al-Nusra, estão, pode-se dizer, armados como melhor se recomenda.
Terroristas da Frente al-Nusra, mantidos por EUA- Arábia Saudita - Qatar, juntaram-se ao ISIS/ISIL/Daesh

A Casa de Saud continua obcecada com derrubar Assad (e “o exílio dele para um enclave que resultará da redivisão da Síria”). Seria golpe mortal contra o Hezbollah, combinado à divisão do Iraque “que dizimaria o sonho de Teerã de restabelecer o império farsi, que Obama ajuda obsessivamente”.
Os sauditas também parecem crer na noção fantasiosa de que os sunitas na província de Anbar teriam descoberto que o ISIS/ISIL/Daesh é uma espécie de cover – alimentado simultaneamente pelo ocidente e pelo Irã – para “provocar disputas sectárias e acelerar a decisão por uma partição do país”. Na verdade, a Casa de Saud não quer qualquer partição do “Siriaque.” Quer dois regimes fantoches e total controle sobre eles. Para dizê-lo em termos suaves, Riad está bastante “frustrada” com as trapalhadas que já são marca registrada de Washington.
Nossa fórmula é caos, cada vez mais caos
Digam o que disserem os “especialistas”, o remapeamento do Oriente Médio pós-Sykes-Picot prossegue sem parar.
A Frente al-Nusra e o grupo Ahrar al-Sham – outro grupamento de jihadismo linha duríssima – continuam a ser integralmente armadas por Turquia, Arábia Saudita e Qatar. É coisa diretamente conectada ao proverbial “papel ativo” do novo capo da Casa de Saud, rei Salman. Assim se vê que Assad em Damasco enfrenta ataque em movimento de pinça: ISIS/ISIL/Daesh no leste, controlando pelo menos metade do país (OK, quase toda essa área é deserto); e Frente al-Nusra, controlando uma “coalizão jihadista de vontades” no norte e no centro. Quanto àquelas armas que o Pentágono forneceu aos incansavelmente elogiados e promovidos “rebeldes moderados”, já foram todas absorvidas pela Frente al-Nusra.
Sabe-se que durante aquela reunião do dia 2/6/2015, perfeita “coalizão de vontades” em Paris, co-patrocinada meio a meio por EUA e França para discutir ISIS/ISIL/Daesh, houve uma discussão “secreta”, de portas fechadas, na qual as petromonarquias do Golfo exploraram características que um acordo para a Síria teria de ter.
A Rússia também está muito ativa nesse front, especialmente com Arábia Saudita e Qatar, tentando conseguir que levassem seus respectivos grupos para a mesa de negociações.
Países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo

O problema é que o CCG não se satisfaz com menos do que exílio para Assad – na Rússia ou no Irã. E Washington, como se poderia adivinhar, só aceita golpe: “mudança de regime” light, a ser perpetrado por oficiais alawitas já familiarizados com a operação da máquina administrativa do estado sírio.
Nem uma nem outra ideia parece ser sequer remotamente exequível, uma vez que Arábia Saudita, Qatar e Turquia têm agendas muito profundamente diferentes e estão obcecadas com assegurar que os respectivos próprios e específicos rebeldes que recebem ordens de cada um desses estados, os rebeldes “deles” – de jihadistas linha super dura a falsos “moderados” – sejam as únicas e indiscutíveis futuras potências por ali.
E isso nos leva de volta para o possível acordo nuclear Irã/P5+1, dia 30/6/2015. A Síria é moeda crucial de barganha discutida em salas fechadas. Mas no que tenha a ver com o Império do Caos – para nem falar das petromonarquias do Golfo – o melhor negócio é a situação atual, mutável, extremamente confusa: um “Siriaque” completamente enfraquecido, guerra em dois fronts, o Irã na defensiva, e o Califato fake impondo a partição em solo, como realidade consumada.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books