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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

quarta-feira, 20 de março de 2019

A Arte da Guerra - "Partido EUA" ativo nas instituições da União Europeia




18/3/2019, Manlio Dinucci, Il Manifesto 
Original: blog O Empastelador

“A Rússia já não pode ser considerada parceira estratégica, e a União Europeia deve estar pronta para lhe impor novas sanções, se o país continuar a violar o Direito Internacional”: esta é a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu, em 12 de Março, por 402 votos a favor, 163 contra e 89 abstenções.

A resolução, apresentada pela deputada letã, Sandra Kalniete, nega principalmente a legitimidade das eleições presidenciais na Rússia, definindo-as como “não democráticas”, apresentando assim o Presidente Putin como um usurpador.
·        Acusa a Rússia não só de “violar a integridade territorial da Ucrânia e da Geórgia”, mas de “intervir na Síria e interferir em países como a Líbia” e, na Europa, de “interferir com o objectivo de influenciar as eleições e aumentar as tensões”.
·        Acusa a Rússia de “violar acordos de controle de armas”, atribuindo-lhe a responsabilidade de ter prejudicado o Tratado INF.
·        Acusa a Rússia, também, de “extensas violações dos Direitos Humanos dentro do país, incluindo tortura e execuções extrajudiciais”, e de “assassinatos cometidos pelos seus agentes, com armas químicas, em solo europeu”.

No final destas e de outras acusações, o Parlamento Europeu declara que o Nord Stream 2, gasoduto destinado a duplicar o fornecimento de gás russo à Alemanha pelo Mar Báltico, “deve ser interrompido, porque aumenta a dependência da UE do fornecimento de gás russo, ameaçando o seu mercado interno e os seus interesses estratégicos”.

A resolução do Parlamento Europeu repete fielmente, não apenas no conteúdo, mas usando as mesmas palavras, as acusações que EUA e OTAN fazem à Rússia. E, o mais importante, repete fielmente o pedido para bloquear o Nord Stream 2: objetivo da estratégia de Washington visando a reduzir o fornecimento de energia da Rússia à União Europeia e substituí-lo por energia proveniente dos Estados Unidos ou mesmo, de empresas americanas.

No mesmo âmbito, enquadra-se a comunicação da Comissão Europeia aos países membros, dentre os quais, a Itália, sobre a intenção de aderir à iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda:
·        A Comissão adverte que a China é parceira, mas também concorrente econômico e, mais importante, “rival metódico que promove modelos alternativos de governança” – em outras palavras, que promove modelos alternativos à governança dominada até agora pelas potências ocidentais.
·        A Comissão adverte que é necessário antes de tudo “salvaguardar as infraestruturas digitais críticas, de ameaças potencialmente perigosas para a segurança”, derivadas das redes 5G fornecidas por empresas chinesas como a Huawei, banida nos EUA.
·        A Comissão Europeia repete fielmente o aviso de EUA aos Aliados.

O Comandante Supremo Aliado na Europa, o General americano Scaparrotti, alertou que as redes móveis ultra rápidas da quinta geração desempenharão um papel cada vez mais importante nas capacidades bélicas da OTAN, de modo que não se admitem “descuidos” da parte dos aliados. Tudo isto confirma qual é a influência que o “partido americano” exerce – forçar um poderoso alinhamento transversal que orienta as políticas da União, em simultâneo, pelas mesmas linhas estratégicas EUA/OTAN.

Ao construir a imagem falsa de Rússia e China ameaçadoras, as instituições da UE preparam a opinião pública para aceitar o que os EUA estejam em preparativos para “defender” a Europa:

"Os EUA" – declarou à CNN um porta-voz do Pentágono – "preparam-se para testar mísseis balísticos com base em terra" (proibidos pelo Tratado INF destruído por Washington), isto é, novos mísseis europeus que novamente converterão a Europa em base e ao mesmo tempo em alvo de uma guerra nuclear.

Sanções ocidentais afetam a economia libanesa - EUA empurram o Líbano para os braços de Irã e Rússia




O Líbano espera essa semana a visita do secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, num momento em que o mapa político econômico do Líbano está sendo redesenhado, e o Líbano sofre o mais grave revés econômico de sua história recente.

Entre as razões da deterioração da economia local, está não só a corrupção da liderança política e do 'baixo clero' do governo libanês, mas também as recentes sanções, as mais duras jamais impostas. E afetarão dramaticamente o Líbano enquanto o presidente Donald Trump permanecer no poder, se o Líbano não seguir a política e as ordens dos EUA.

Se como foi previsto, Washington declara guerra econômica ao país, as sanções deixarão poucas alternativas ao Líbano. Podem forçar o Líbano a voltar-se para a indústria civil iraniana, para sobreviver à pressão econômica dos EUA, e a depender da indústria militar russa para equipar as forças de segurança do Líbano. Acontecerá precisamente isso, se Pompeo insistir nas ameaças a funcionários libaneses, como assessores dele têm feito em visitas anteriores ao país. A insistente mensagem de funcionários dos EUA tem sido: ou você está conosco, ou contra nós.

Politicamente, o Líbano está dividido entre duas correntes, uma pró-EUA (e Arábia Saudita) e outra fora da órbita dos EUA. A situação econômica pode bem aprofundar a divisão interna, a ponto de a população reagir com fúria, para que se excluam do Líbano os EUA e aliados.


ImagemSaid Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, reunido 
com seu mais próximo aliado, presidente libanês Michel Aoun

Esse cenário pode também ser evitado, se Arábia Saudita injetar suficiente investimento que consiga religar a agonizante economia local. Mas a Arábia Saudita teme que todos os não alinhados às suas políticas e às políticas dos EUA possam extrair benefícios do apoio dos sauditas. Até aqui, Riad ainda não compreendeu completamente a dinâmica interna libanesa e o que é possível ou impossível alcançar no Líbano. O sequestro do primeiro-ministro Saad Hariri foi a mais flagrante indicação da ignorância saudita quanto à política libanesa. O mais provável é que a nenhuma visão estratégica dos sauditas para o Líbano venha a impedir qualquer apoio à periclitante situação econômica libanesa e pode levar o país a instabilidade grave.

Antes de 1982, 1 EUA-dólar equivalia a 3 libras libanesas. Aconteceu em parte porque a Organização de Libertação da Palestina (OLP) estava gastando dezenas de milhões de dólares no país, em benefício preferencial das famílias palestinas que viviam no Líbano. Além disso, organizações da ONU (UNRWA) e outras ONGs também distribuíam apoio financeiro a refugiados palestinos cujos lares foram tomadas por Israel, o que forçou muitas famílias a deixar o próprio país.

Depois da invasão israelense ao Líbano em 1982, a OLP foi forçada a deixar o país. Não muito depois, o EUA-dólar alcançou taxa de câmbio de 3.000 liras libanesas, depois desvalorizada, para estabilizar na taxa atual de 1 EUA-dólar por 1.500 liras libanesas. O Irã entrou em cena para apoiar os combatentes libaneses (a Resistência Islâmica no Líbano, i.e. o Hezbollah) a recuperar o próprio território então ocupado por Israel. No ano 2000, o Irã começou a investir pesadamente no Hezbollah, e o grupo conseguiu expulsar os israelenses de praticamente todo o território libanês. O investimento financeiro iraniano alcançou nível muito alto na época da guerra de 2006, quando Israel tentou e não conseguiu desarmar o Hezbollah, que manteve seus foguetes e mísseis fora do alcance de Israel.


Imagem: Said Nasrallah, líder do Hezbollah, com seu mais 


Em 2013, o governo sírio convocou o Hezbollah para apoiar o Exército Sírio que combatia para impedir a desintegração do país e impedir que os militantes takfiri ganhassem o controle do país. O Irã bombeou bilhões de dólares para derrotar ISIS e al-Qaeda e impedir que esses grupos se impusessem na Síria e Iraque, sabendo sempre que o alvo seguinte seria o Irã. O orçamento para as tropas do Hezbollah subiu à estratosfera. Apoio à movimentação de tropas, logística e pagamentos diários aos próprios combatentes, contribuíram para 'animar' a economia libanesa. O orçamento do Hezbollah subiu bem acima de $100 milhões por mês.

Mas depois da chegada de Donald Trump ao poder, e de os EUA terem desertado do acordo nuclear com o Irã, o governo dos EUA impôs àquele país as sanções mais severas de todos os tempos, e cortou as doações às organizações da ONU que apoiam os refugiados palestinos (UNRWA). As sanções contra o Irã forçaram o Hezbollah a viver sob novo orçamento: um plano de austeridade de cinco anos. As forças foram reduzidas a um mínimo na Síria, o movimento das tropas foram reduzidos conforme a verba mais curta, e todos os pagamentos adicionais foram suspensos. O Hezbollah reduziu o próprio orçamento a ¼ do que havia sido, sem suspender salários mensais e assistência médica a militantes e fornecedores, por ordem pessoal de Said Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah.

Essa nova situação financeira, de fluxo de dinheiro reduzido e sem moeda estrangeira, afetará a economia do Líbano. Prevê-se que as consequências sejam mais visíveis nos próximos meses, o que pode levar a possível reação doméstica, quando a população sentir o peso da dificuldade econômica.

EUA e Europa estão impondo controle estrito sobre ativos que entrem e saiam do Líbano. O país está numa lista negra financeira e todas as transações são fiscalizadas em detalhe. Doações religiosas de outros países estão proibidas, na prática, posto que expõem os doadores a acusações graves, por países ocidentais, de apoio ao terrorismo.

Enquanto Trump permanecer no poder, Hezbollah e Irã avaliam que a situação permanecerá crítica; estimam que, muito provavelmente, o presidente dos EUA será reeleito para um segundo mandato. Os próximos cinco anos serão muito provavelmente difíceis para a economia libanesa, especialmente se a visita de Pompeo trouxer mensagens e ordens às quais o Líbano não pode atender.





Pompeo quer que o Líbano desista da demanda de redefinir suas disputadas fronteiras líquidas com Israel, cedendo à entidade sionista os blocos 8, 9 e 10. A demanda não será atendida, e funcionários libaneses disseram em várias ocasiões que contam com os mísseis de precisão do Hezbollah para impedir que Israel continue a roubar água do Líbano.

Pompeo também quer que o Líbano exclua o Hezbollah do governo. Outra vez, o establishment norte-americano ignora que o Hezbollah é quase 1/3 da população do Líbano, apoiado por mais da metade dos xiitas, cristãos, sunitas e drusos libaneses, com cargos noExecutivo e no Legislativo do país.

Qual, então, a alternativa? Se Arábia Saudita entrar no jogo, o Líbano não precisa de um ou dois ou cinco bilhões, mas de dezenas de bilhões de dólares para ressuscitar a economia. E também precisa que de uma política de 'tirem as mãos daqui' para o establishment dos EUA, para que o país consiga se autogovernar.





Os sauditas já estão sofrendo com os abusos de Trump, e o dinheiro saudita está desaparecendo. E se os sauditas decidirem investir no Líbano, tentarão impor termos não muito diferentes do que os EUA exigem. A Arábia Saudita delira, se conta com bloquear, no Líbano, a influência do Irã e a ação dos apoiadores do Hezbollah: é objetivo completamente inatingível.

Quanto ao Líbano restam-lhe poucas escolhas. O Líbano pode aproximar-se ainda mais do Irã pensando em reduzir gastos e o preço de bens de consumo; e pode pedir à Rússia que apoie o exército libanês, se o ocidente não o fizer. A China prepara-se para entrar no país e, sim, pode ser alternativa positiva para o Líbano, usando o país como plataforma para chegar à Síria e, dali, ao Iraque e à Jordânia. Sem isso, o Líbano terá de preparar-se para juntar-se à lista dos países mais pobres da região e do mundo.

Um sombra paira sobre a terra dos cedros, que já teve de lutar pela própria sobrevivência no século 21. O Hezbollah, agora sujeito às sanções de EUA e Reino Unido, é a mesma força que já protegeu o país contra combatentes takfiri do ISIS e outros, que ameaçavam expulsar do país os cristãos. Esse foi o conselho que o presidente Sarkozy da França deu ao patriarca libanês, que os cristãos libaneses deixassem as suas casas. Os jihadistas takfiri e a OTAN têm precisamente os mesmos planos para o Líbano. 

O fracasso do plano do establishment dos EUA, de dividir o Iraque e criar um estado falhado na Síria, como parte de um "novo Oriente Médio" despertou o urso russo de sua longa hibernação. Hoje, a Rússia compete com os EUA pela hegemonia no Oriente Médio, obrigando Trump a tentar absolutamente tudo, sem limite, para quebrar a frente anti-EUA.

É batalha sem regras, vale-tudo no qual se permitem todos os golpes. Os EUA estão empurrando o Líbano para um beco, onde não lhe restará alternativa que não seja firmar uma íntima parceria com Irã e Rússia.


Postado há 17 hours ago por  O Empastelador

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Grécia e Luta de Classes Global


3/7/2015, [*] Rob Urie, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Truques da cultura de guerra, que fazem convergir e confundem:
(I) a expansão de instituições conservadoras como casamento e serviço militar 
e
(II) políticas libertadoras, são usadas para distrair a atenção e impedir que se veja a rápida consolidação da economia e do poder político totalitários.





Antes
Em 2008, corria incólume o projeto neoliberal, que vinha sendo movido a conversa fiada, pensamento desejante e quantidades copiosas de dinheiro dos bancos distribuído sem que ninguém nem fingisse que algum dia aquele dinheiro poderia ser pago.
O mesmo “favor” que os emprestadores para hipotecas nos EUA haviam feito a comunidades de negros pobres nas periferias dos EUA, encontrou “líderes” políticos e plutocratas europeus prontos, querendo e podendo tomar emprestado dinheiro que tinha mínima chance de algum dia ser pago.
Logo que se tornou publicamente evidente que o mais provável era que trilhões em empréstimos bancários não fossem jamais pagos, banqueiros e funcionários dos governos a serviço dos mesmos banqueiros olharam em volta, para ver que grupos eram
(I) capazes de pagar pelo menos os juros e eventualmente também o principal, de dívidas das quais não haviam obtido qualquer benefício direto; e
(II) incapazes de mobilizar poder político contra serem obrigados a pagar aqueles empréstimos.
Por mais que pareça diabólico demais para ser plausível, esse é o modelo básico de empréstimo que tem sido usado por banqueiros ocidentais e apoiado por governos ocidentais (ditaduras e, igualmente, os mais “democráticos”!) e as instituições “independentes” que eles controlam já há cerca de seis décadas. EUA, Alemanha ou França há muito tempo emprestam dinheiro para projetos de infraestrutura para ‘upgrades’ como a Revolução Verde e compra direta de tecnologia e/ou munições.
Assim foram endividados os cidadãos de estados–nação, internamente e externamente organizados, ao mesmo tempo em que se geravam grandes lucros para as corporações que podiam vender seus tanques–mercadoria à “prodigalidade” de estados e bancos ocidentais.
Essa prática em alguma medida explica como funcionários públicos e plutocratas corruptos e/ou incompetentes no governo grego conseguiram forrar os próprios bolsos, ao mesmo tempo em que endividavam para sempre os bons cidadãos daquela nação sofrida.
Do ponto de vista de um emprestador, bolsões de riquezas, como aposentadorias, depósitos bancários e fundos de assistência à saúde tendem a ser fungíveis e, portanto, sempre parecem estar caindo de maduros, prontos a serem colhidos.
Que cidadãos comuns em muitos casos tenham trabalhado a vida toda, e esperem compensação em troca de contribuição já feita, tem pouca ou praticamente nenhuma influência para impedir que a contribuição deles seja tomada para pagar dívidas que outros fizeram, não eles.
Por mais que pareça selvagemente primitivo, atos à moda fundo do poço, a atual batalha pelos fundos públicos e privados de pensões e aposentadorias nos EUA é precisamente e exatamente isso. E embora por enquanto o governo federal apoie a garantia limitada que o FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) dá a depósitos bancários nos EUA, as “Grandes Barganhas” [acertos entre o presidente dos EUA e o Congresso] e detalhes negociados recentemente de próximos “resgates” de bancos sugerem que depósitos bancários em breve poderão já ser tão “sacrossantos” quanto a Seguridade Social e as aposentadorias do setor público, já na próxima crise.
Os “resgates” em grande escala mais corruptos foram arquitetados nos EUA pelo Presidente democrata dos EUA, Barack Obama, e seus ajudantes-de-ordens Timothy Geithner e Larry Summers, na sequência dos esforços empreendidos pelo governo de (George W.) Bush-Filho.
A decisão foi tomada antes, de restaurar integralmente Wall Street, deixando no lugar dela os grandes atores que haviam destruído a economia global “real”.
As ditas potências europeias substituíram atores chaves e impuseram restrições mais onerosas que as dos norte-americanos. Esse tratamento diferenciado entre emprestadores “internos” e tomadores “externos” definiu o comportamento do Estado, tanto entre nações ocidentais como dentro de cada uma delas.
A diferença confirma em parte a importância que Wall Street e grandes bancos com base nos EUA, França e Alemanha têm nas empreitadas neoimperialistas.

Pensei que só estava comprando uma casa!
(9/2008)

Hoje
Nestes tempos em que políticas liberticidas são distribuídas pela Suprema Corte e o liberal-democrata, Barack Obama, mete goela abaixo do Congresso acordos “comerciais” que ninguém jamais leu, o poder do dinheiro não poderia ser mais evidente.
Uma evolução da “libertação pelos mercados” de Reagan/Thatcher encontra uma classe empresarial global interessada na predação de alvos neoimperiais mediante mecanismos recém-construídos de subjugação econômica.
Essa classe profissional que se autossatisfaz tem agora o mesmo direito de dormir em caixas de papelão e pedir esmolas que os economicamente excluídos, os privatizados e os capturados por mercados.
Políticos alemães autossatisfeitos unem-se a aposentados gregos autossatisfeitos, no gozo de direitos cada dia mais etéreos, ao mesmo tempo em que se engalfinham na guerra de classes global.
O alcance global conecta polícia privatizada e repressão racial em Ferguson, Missouri, a mercados cativos e dívidas perpétuas em Atenas, Grécia.
Não é absolutamente por acaso que alemães erguem caricaturas racistas de gregos “preguiçosos, perdulários”, assim como a narrativa da “responsabilidade pessoal” define a base de classe exclusionária/inclusionária para o encarceramento em massa racista e para os esquemas de privatização predatória nos EUA.
Essa é a linguagem usada para “explicar” a dominação imperial que definiu o ocidente durante grande parte dos séculos 18, 19 e 20, agora atualizada para público moderno. Truques da cultura de guerra, que fazem convergir
(I) a expansão de instituições conservadoras como casamento e serviço militar, e
(II) políticas libertadoras, são usadas para distrair a atenção e impedir que se veja a rápida consolidação da economia e do poder político totalitários.
O processo crescente de servidão da dívida em fase terminal não é difícil de descrever. Um estágio anterior análogo é o dos empréstimos a “mercados emergentes” feitos por grandes bancos norte-americanos nos anos 1970s e 1980s que foram rapidamente redepositados nos mesmos bancos em nome de funcionários estrangeiros corruptos, mas para serem pagos pelos cidadãos “deles”.
Passo dois é a inserção de instituições ocidentais “auxiliares” como o FMI e o Banco Mundial, para induzir países devedores a abrir mercados a monopólios multinacionais, para matar a concorrência econômica local, para garantir recursos locais a serem saqueados, para assegurar a propriedade de indústrias e fábricas chaves a agentes externos e para usar políticas de ARROCHO [não são políticas “de austeridade” são políticas de ARROCHO] para “construir” agentes locais para o capital internacional, a partir de objetivos neoimperiais.
Discurso do “arrependimento” racista/imperialista garante argumentos capazes de dividir a sociedade, primeiro passo para divisões econômicas.
A atual discussão dominante de “negociações” que estariam acontecendo entre um governo grego confiável e a Troika – FMI, BCE (ECB, European Central Bank) e a União Europeia (UE) – está focada nas “maquinações” dos gregos, apesar de serem os gregos os que têm opções limitadas, e de a Troika poder fazer sumir todos os seus termos neoimperialistas numas poucas pulsações.
As ditas limitações políticas da Troika – eleitores aos quais teriam de responder – não passam do produto de discurso racista reforçado, usado para reunir a opinião pública em torno dos objetivos neoimperiais da própria Troika.
Ocupação NAZISTA (atual)

Na história, a Ocupação Nazista da Grécia criou dívidas morais e factuais, em haver, hoje, a favor do povo grego, e que nem em séculos poderão ser pagas. Essa história inclui dezenas, se não centenas, de milhares de gregos mortos de fome para alimentar o povo alemão e seus exércitos, e dezenas, se não centenas, de milhares de gregos enforcados, ou mortos a tiros ou executados em “caminhões da morte”.
A circunstância grega foi recentemente (8/6/2015) resumida num pedido feito pelo Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis (vídeo no fim do parágrafo - em inglês, ao vivo, sem edição - gravado ao vivo: ~ 2h50’), de que a Troika ajudasse o SYIZA a reorganizar a governança na Grécia, de modo a obrigar os plutocratas locais a desembuchar os ganhos mal havidos, em benefício do povo grego.

A metáfora do interesse de classe que o Ministro Varoufakis usou, liga a evolução de dívida claramente odiosa, a favor de bancos franceses e alemães, à renegociação feita em 2010.
Conversações entre “negociadores” alemães recentemente reveladas sugerem que estava  muito claramente entendido em 2010 que o montante da dívida era alto demais para ser pago, e que os termos eram economicamente destrutivos para a Grécia.
O que poderia parecer inexplicável em termos nacionais – o governo grego absolutamente não ter meios para pôr de joelhos os plutocratas gregos – encontra perfeita semelhança no modo como se exerce o poder dos EUA ao longo de décadas.
É muito importante compreender esse último ponto – o argumento de que norte-americanos poderiam forçar os plutocratas norte-americanos a agirem a favor do interesse nacional, em vez de agirem só em interesse próprio, é desmentido pela história do último meio século.
A Guerra Americana no Sudeste Asiático [“Guerra do Vietnã”, nos EUA] tornou ricos os que lucram com guerras, ao mesmo tempo em que o país já sabia que era guerra perdida durante toda a última década.
As guerras que se seguiram por todo o Oriente Médio foram vendidas como se atendessem a algum interesse nacional norte-americano, ao mesmo tempo em que se sabia que o objetivo predominante daquelas guerras era/é garantir petróleo e gás para empresas multinacionais.
Wall Street foi desregulada e autorizada a fazer os empréstimos mais predatórios, que custam a milhões de pessoas o próprio lar e as economias de vidas inteiras.
Quando Wall Street implodiu por efeito de seus próprios excessivos erros, as vítimas foram forçadas a reconstruí-la. Se nada disso convencer, há incontáveis pesquisas que mostram que os interesses dos plutocratas determinam as políticas de governo, contra os interesses da mais ampla maioria dos cidadãos.
O pedido do Ministro Varoufakis, capitulação ante 98% da política prejudicial aos gregos imposta a eles pela Troika, em troca de proteção razoável, sustentável às aposentadorias dos gregos, ao emprego e com impostos regressivos, dispôs a imaginação política contra a longa história e curta memórias dos “negociadores” alemães que parecem decididos a ver a Alemanha reocupar a Grécia mediante políticas econômicas punitivas e a venda forçada de patrimônio do estado grego.
As políticas que estão sendo impostas escancaram o jogo que está sendo jogado – neoliberalismo travestido como imperialismo fantasiado em toga acadêmica. Por mais que haja quem só veja má intenção, estupidez, ignorância ou cegueira ideológica de olhos arregalados, a gênese da dívida grega sugere que o alvo do ataque é o governo que, com seu Ministro Varoufakis, já identificou uma classe dominante global.
A tática da Troika para encobrir essa gênese põe o “resgate” de 2010 no centro. Ao desviar os riscos gregos, das folhas de balanço de bancos privados para a Troika (com desconto), as dívidas impagáveis foram atadas a economia totalmente implausível, para fingir que algum acordo mutuamente benéfico teria sido obtido. O paradoxo está na intersecção do que foi acordado em termos, e a transparência democrática.
Tudo muito bom, tudo muito bem, que as elites gregas aceitem termos que os cidadãos gregos teriam de suportar, mesmo que sob a mira de metafórico canhão. Mas quem formalizará a culpa dos banqueiros franceses e alemães que distribuíram empréstimos que de nenhum modo jamais poderiam ser quitados?
Analogamente, em 2007 os banqueiros de bancos hipotecários norte-americanos sabiam que grande parte dos empréstimos que estavam distribuindo não seriam jamais quitados. Para encobrir esse crime, o Presidente Obama e seu Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, criaram programas de resgate em várias camadas, para poder fazer chegar os recursos até os bancos e banqueiros culpados. E nos casos em que não funcionou, os riscos bancários foram transferidos diretamente para o balanço das contas públicas.
A diferença central entre EUA e Grécia, além da posição na hierarquia neoimperial, é que os EUA não têm limite algum na capacidade para inventar dólares norte-americanos para substituir os que foram torrados pelos banqueiros.
Vive la différence!

Centenas de bilhões, se não trilhões, de dólares de empréstimos bancários podres foram enterrados em agências federais do governo nos EUA.
A escolha grega é entre deixar a União Monetária Europeia e pôr as contas numa moeda terciária, o DRACMA, o que seria desenvolvimento incontrolável; ou continuar a usar o euro como moeda “externa”, que os EUA não podem imprimir em casa.
Permanecer dentro da moeda da UE deixa a fabricação de dinheiro nas mãos do BCE, que vê a união monetária como um padrão quase-ouro, exceto quando se trata de salvar bancos europeus predatórios.
Que o “problema” grego, pelo menos no que tenha a ver nominalmente com a Troika, possa ser resolvido mediante criação de dinheiro pelo BCE, denuncia diretamente a natureza política imperialista das políticas da Troika.
Nas atuais circunstâncias, há um referendum convocado pelo Syriza para o domingo, 5/7/2015, para que os gregos se manifestem sobre o pacote de resgate já rejeitado e depois parcialmente aceito pelo Syriza [os gregos rejeitaram o pacote (5/7/2015, 17h03), com maioria de 61%].
Foi implantado o controle de capitais e as retiradas de dinheiro de contas bancárias estão severamente limitadas, o que causou pânico econômico imediato e severo.
Não só os cidadãos gregos estão sendo individualmente afetados, todo o conjunto das relações econômicas necessárias para que a produção econômica aconteça (cadeia de suprimento) foi interrompida e há risco de que seja perdida.
A troca que se discute nesse momento parece ser aceitar os termos da Troika, seja pelo governo do Syriza ou por outro governo que o suceda, com miséria continuada; ou imediatos e severos deslocamentos econômicos, com um plano de recuperação gradual.
A única coisa garantida é que a prevalência continuada das políticas da Troika só significará miséria econômica perpétua para o povo grego.
A opinião prevalente parece ser que o governo Syriza teria desperdiçado uma oportunidade para arrancar (magras) concessões da Troika, porque foi inconsistente.
Ao convocar o referendum depois de os controles de capitais terem sido implementados, a questão que o Syriza parece estar propondo ao povo grego é se aceitarão dor econômica severa no curto prazo, em troca de algum possível poder de barganha.
O argumento de que o Syriza teria desperdiçado boa vontade assume que, inobstantes os últimos oito anos, a estrutura viciosa da união monetária seria coisa inesperada, e que as negociações da Troika nunca teriam passado de política de poder imposta, para obter ganho político e dominação no campo político.
As motivações podem ser complexas, mas as atuais circunstâncias carregam com elas outras intenções, declaradas e ocultadas. A história encontra a Alemanha agora no papel de força ocupante, só que sem que aconteça ocupação real, completada com caricaturas racistas que regridem aos primeiros anos da década dos 1940s.
Independente de se Syriza “jogou” com esperteza ou sem, a evidência de que Yanis Varoufakis identificou uma classe governante global, não como interesses singulares unificados, mas como um artefato da economia política predominante da época, lança as questões em jogo para fora da moldura estreita “Troika-Gregos”; e as apresenta no quadro da Luta de Classes Global.
O centro – parâmetro periferista que tem sido usado para definir relações políticas e econômicas europeias – aparece ressignificado como metáfora nas relações de classe nos EUA.
Já na periferia da União Europeia...

Por mais que se fale de uma suposta recuperação econômica desde meados de 2009, ela emanou em vasta medida de um núcleo extremamente concentrado – de Wall Street e dos executivos de corporações multinacionais gigantes – para seletos grupos burgueses do bairros ricos, deixando de fora os tradicionais grupos “marginais”. Ainda se veem os detritos da finança predatória, nas comunidades que habitam os centros miseráveis das cidades e periferias, onde os malefícios praticados pelos bancos nunca foram prevalentes.
Que um Presidente Democrata liberal tenha implementado políticas de “trickle-down” [lit. “gotejamento”; são políticas nas quais, por teoria, as vantagens asseguradas aos mais riscos “gotejariam” pela pirâmide social e chegariam aos mais pobres] demonstra bem o alcance do projeto neoliberal.
Por mais que em algum relato extraterrestre e inextrincável para nós meros mortais, os gregos comuns possam ter passado semanas no início e meados dos anos 2000s, caminhando depressa para passar logo pelos mais necessitados, para se empanturrarem de comprar quinquilharias burguesas só para provar que podiam, a circunstância atual da Grécia é mais sistêmica que particular.
Bancos franceses e alemães fizeram os mesmos empréstimos predatórios por toda a periferia europeia. Estupidez, ignorância, e/ou cegueira ideológica pode explicar tudo, tanto ou mais que alguma má intenção. Mas expertise para avaliar a capacidade de um tomador para pagar o empréstimo que tome é o negócio dos banqueiros, não de quem toma emprestado.
O fracasso de governos de “centro”, que não conseguiram manter a confiabilidade de banqueiros mal-intencionados e/ou incompetentes, ao mesmo tempo em que empurravam as consequências dos maus negócios deles para cima do lombo dos menos capazes de resistir contra eles, associa os “excessos” dos anos 1990s e 2000s ao meio século anterior de banking predatório a serviço da conquista neoimperial.
Nesse contexto, nem importa muito se Syriza fez mal ou fez bem, porque o jogo já vinha viciado desde o começo. Se a ideia da esquerda é prover moldura crítica e princípios amplos para a organização social – política e econômica – nesse caso abandonar o movimento Syriza e o povo grego à sua própria sorte absolutamente não parece ser o melhor caminho construtivo a seguir.
Se a análise que desenvolvi aqui tem sentido e sustenta-se de pé, então o povo de Baltimore, Detroit e Filadélfia partilha mais interesses com o povo grego do que com os representantes do capital internacional em Washington e Nova Iorque. O fator que os unifica é a economia política neoimperialista imposta, como liberdade a escolher, nos reinos do político e do econômico.
A seguir
Dado que a recuperação econômica não passa de esperança cega de que a história tivesse mesmo acabado, crises sempre renovadas combinam bem com as tendências históricas que foram recuperadas e fortalecidas depois da mais recente crise.
Que a Grécia, e mais provavelmente sim, que não, todo o resto da periferia europeia, está em declínio em proporção aproximada a o quanto cada país seja periférico, para começar, mostra o beco sem saída em que se meteram, há algum tempo, os políticos gregos hoje já fora do poder.


O próprio FMI declarou publicamente que a dívida grega, no valor a que chegou hoje, é impagável.
De conversas recentemente divulgadas entre os principais “negociadores” alemães, tudo já estava perfeitamente combinado desde antes de ser assinado o “acordo” de 2010 entre Grécia e Troika. E nos níveis de atacado e varejo, Wall Street, grandes bancos norte-americanos, franceses e alemães sabiam que muitos dos empréstimos feitos não podiam ser e, pois, não seriam, pagos.
Para quem tenha esquecido, no auge das dificuldades financeiras em 2008, o FMI fez um mea culpa público, pedindo perdão por décadas de afirmar as mesmas políticas de “resgatar” plutocratas que eram a primeira escolha dos funcionários de governos ocidentais. Isso, para sugerir que é exatamente porque todas as partes envolvidas nas “negociações” gregas sabem, e já sabiam há muito tempo, que as dívidas gregas não podem ser pagas, elas até agora jamais se levantaram contra as políticas punitivas impostas ao povo grego.
A dívida é a arma do imperialismo moderno.
Se EUA e Alemanha tivessem estendido os mesmos termos de “resgate” à periferia doméstica e global, que foram aplicados a bancos “de casa”, a crise econômica estaria acabada em 2009.
A diferença pode ser aferida em termos de classe econômica ou de centro–periferia imperialista.
De um modo ou de outro, a história é melhor guia que a teoria econômica dominante, para determinar a trajetória da economia política que agora nos confronta todos, em diferentes graus.
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[*] Rob Urie é artista, Economista Político e Músico atualmente trabalhando e morando em Nova Iorque. Depois de viver como artista e fundador e co-fundador várias bandas de punk rock de Nova Iorque no início de 1980, Rob completou sua educação obtendo grau de Bacharel em Economia e Filosofia no Albright College e Mestrado em Economia pela Universidade da Carolina do Norte. Posteriormente, Rob realizou uma série de trabalhos acadêmicos, incluindo Pesquisa Quantitativa, no negócio de Asset Management antes de iniciar um fundo mútuo Global-Macro bem sucedido e escrever um blog sobre Finanças e Economia Política globais. A consciência das consequências catastróficas das “recuperações” das Finanças globais em particular, e do capitalismo ocidental de forma mais ampla, e liderada Rob, o fez deixar deixar o negócio do Asset Management em 2011. Vive atualmente – escreve e pinta – com sua esposa Erika em Manhattan superior.