Mostrando postagens com marcador Alemanha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alemanha. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Thomas Piketty: “Alemanha dando lições sobre pagar dívida externa? É piada...”



6/7/2015, [*] Tyler Durden, Zero Hedge (original - Die ZEIT)
Traduzido do alemão para inglês por Gavin Schalliol e para português pela Vila Vudu
[excluídos os comentários do blog Zero Hedge]

[*] Thomas Piketty

DIE ZEIT: Os alemães podemos ficar satisfeitos por até o governo francês estar alinhado ao dogma alemão pró-austeridade? [não é "austeridade": é ARROCHO (NTs)].
Thomas Piketty: Não. Absolutamente não. Não há razão nenhuma, nem para a França, nem para a Alemanha, e especialmente não há razão alguma para a Europa, ficarem “satisfeitas”. Temo muito nesse momento que os conservadores, especialmente na Alemanha, estejam a um passo de destruir a Europa e a ideia europeia, e tudo isso por causa de uma chocante ignorância da história.
ZEIT: Mas nós, alemães, já nos reconciliamos com nossa história.
Piketty: Não. Não se reconciliaram com coisa alguma que tenha a ver com pagar dívidas. O passado da Alemanha, nesse quesito, deveria ser objeto de atento estudo dos alemães de hoje. Veja a história da dívida externa, por exemplo: houve um momento em que Grã-Bretanha, Alemanha e França estavam, esses três países, na situação em que a Grécia está hoje. Na verdade, estiveram muito mais endividados que a Grécia hoje. A primeira lição a extrair da história de dívidas governamentais é que esse problema absolutamente não é novo. Houve muitos modos para pagar dívidas, não um só. Isso é que Berlim e Paris deveriam estar dizendo aos gregos.
ZEIT: Mas... E não têm de pagar o que devem?!
Piketty: Meu livro reconta a história da renda e da riqueza, inclusive de nações. Quando estava trabalhando naquele livro, muito me chamou a atenção a evidência de que a Alemanha é, na verdade, o único bom exemplo de país que, em toda sua história, jamais pagou qualquer dívida nacional. Nem depois da 1a. e da 2a. Guerra Mundial. Mas muito frequentemente a Alemanha obrigou outras nações a pagarem, como depois da Guerra Franco-Prussiana de 1870, quando cobrou reparações massivas da França, e recebeu integralmente.
O estado francês padeceu ao longo de décadas, sob o peso dessa dívida. A história da dívida pública é cheia de ironias. Só muito raramente acompanha o que se entende por ordem e justiça.
ZEIT: Mas com certeza não se pode concluir daí que nada se poderia fazer, de melhor, hoje...
Piketty: Quando ouvi que os alemães dizem que mantêm posição de alta moralidade sobre dívidas e que entendem que dívidas têm de ser pagas, pensei: É piada! A Alemanha é o país que nunca pagou suas dívidas. Nunca. Alemanha não tem competência para dar lições de moral sobre pagar dívida externa.
ZEIT: O senhor está tentando apresentar como vencedores estados que não pagam o que devem?
Piketty: Pois a Alemanha é o melhor exemplo que há de, precisamente, isso de que você fala: estado vencedor que não paga o que deve. Mas, calma.
A história mostra que há duas vias para que um estado endividado saia da condição de delinquente. Uma foi demonstrada pelo Império Britânico no século 19, depois das dispendiosas guerras com Napoleão. É a via lenta, que agora está sendo recomendada à Grécia. O Império pagou o que devia mediante rígida disciplina orçamental. Funcionou, mas demorou tempo extremamente longo. Durante mais de 100 anos os britânicos cederam 2-3% de toda a economia deles para pagar as dívidas – mais do que gastaram com escolas e educação. Isso não tinha de acontecer, e não se pode deixar que aconteça hoje.
O segundo método é muito mais rápido. A Alemanha é prova disso no século 20. Essencialmente, há três componentes nesse método: inflação, um imposto especial sobre riqueza privada e alívio na dívida.
ZEIT: O senhor está dizendo que o Wirtschaftswunder [“milagre econômico”] alemão foi baseado no mesmo tipo de alívio na dívida que hoje negamos à Grécia?
Piketty: Exatamente. Depois que a guerra acabou, em 1945, a dívida alemã chegava a mais de 200% do PIB alemão. Dez anos depois, já restava pouco: a dívida pública já era inferior a 20% do PIB. Mais ou menos no mesmo tempo, a França conseguiu virada também muito semelhante, também ardilosa. Ninguém jamais teria conseguido redução tão inacreditavelmente rápida no montante da dívida, com essa “disciplina fiscal” que hoje recomendamos à Grécia. Em vez de fazer o que aconselham que a Grécia faça, os nossos dois estados, Alemanha e França, empregaram esse segundo método, com os três componentes que mencionei, inclusive o alívio da dívida. Considere o Acordo da Dívida, de Londres, em 1953, pelo qual 60% da dívida externa da Alemanha foi cancelada e as dívidas internas foram restruturadas.
ZEIT: Aconteceu, porque o povo reconheceu que as altas reparações que estavam sendo cobradas da Alemanha depois da 1a. Guerra Mundial foram uma das causas da 2a. Guerra Mundial. Dessa vez o povo quis perdoar os pecados da Alemanha!
Piketty: Bobagem. Nada disso tem qualquer coisa a ver com limpidez moral. O que houve foi uma decisão política e econômica racional. Reconheceram, corretamente, que depois de grandes crises que tenham criado cargas gigantescas de dívidas, as pessoas são obrigadas, em algum ponto da crise, a pensar sobre o futuro. Ninguém pode exigir que novas gerações paguem por décadas de erros acumulados dos próprios pais. Claro que os gregos cometeram erros gigantescos, não há dúvidas disso.
Até 2009, o governo em Atenas “maquiou” seus livros contábeis. Mas nem por isso a jovem geração de gregos teria mais responsabilidade pelos erros dos que a precederam, que os jovens alemães, nos anos 1950s e 1960s. Todos temos de olhar à frente. A Europa foi criada sobre perdão de dívidas e investimento no futuro. Não foi criada sobre a ideia de padecimento infinito. É o que todos temos de ter em mente.
ZEIT: O fim da 2a. Guerra Mundial foi como a demolição de uma civilização. A Europa era um campo de morte. Hoje é diferente.
Piketty: É erro negar os paralelos históricos com o período do pós-guerra. Considere a crise financeira de 2008/2009. Não foi simples crise como qualquer outra: foi a maior crise financeira desde 1929. A comparação entre os dois momentos, portanto, é válida. E é também válida para a economia grega: entre 2009 e 2015, o PIB grego caiu 25%. São números comparáveis às recessões na Alemanha e na França, entre 1929 e 1935.
ZEIT: Muitos alemães creem que os gregos ainda não reconheceram os próprios erros e querem continuar a gastar sem qualquer moderação.
Piketty: Se o mundo tivesse dito a vocês, alemães, nos anos 1950s, que vocês ainda não tinham reconhecido os próprios erros e fracassos, vocês estariam até hoje pagando dívidas. Por sorte, o mundo foi mais inteligente.
ZEIT: O Ministro das Finanças alemão, por outro lado, parece entender que a saída da Grécia, da Eurozona, pode acelerar a unidade dentro da Europa.
Piketty: Se começarmos a chutar países para fora, a crise de confiança na qual a Eurozona já se debate hoje só piorará. Os mercados financeiros imediatamente procurarão o país vizinho. Assim começaria um longo, esgotante período de agonia, a cujas garras estamos correndo o risco de sacrificar o modelo social europeu, a democracia, toda a civilização europeia, sacrificada no altar de uma política conservadora e irracional de ARROCHO.
ZEIT: O senhor acha que nós, alemães, não somos suficientemente generosos?
Piketty: Mas... que conversa é essa? O que você quer dizer com “generosos”? Hoje, a Alemanha está lucrando muito sobre os empréstimos prorrogados a taxas de juros comparativamente altas.
ZEIT: Que solução o senhor sugere para essa crise?
Piketty: Temos de organizar uma conferência sobre todas as dívidas da Europa – como foi feito depois da 2a. Guerra Mundial. Uma restruturação de toda a dívida, não só da Grécia, mas de vários países europeus, é inevitável. Mesmo agora, perdemos seis meses nas negociações absolutamente sem nenhuma transparência, com Atenas.
A noção que o Eurogrupo cultiva, de que a Grécia alcançará 4% do PIB como superávit no orçamento e pagará suas dívidas dentro de 30-40 anos ainda está sobre a mesa. Supostamente, haverá superávit de 1% em 2015, depois 2% em 2016, e 3,5% em 2017.
Tudo isso é completamente ridículo! Jamais acontecerá. E continuamos a adiar o debate necessário, até o dia de são-nunca.
ZEIT: E o que pode acontecer depois de grandes cortes na dívida?
Piketty: Terá de haver uma nova instituição europeia, para determinar o máximo de déficit admissível no orçamento, para impedir que a dívida volte a crescer. Por exemplo, poderia ser uma Comissão do Parlamento Europeu, formada de deputados eleitos nos Parlamentos nacionais. Os parlamentos devem poder tomar decisões orçamentárias.
É grave e caríssimo erro minar a economia europeia – que é o que a Alemanha está fazendo hoje, ao insistir que outros estados permaneçam na miséria, oprimidos por mecanismos pelos quais só Berlim se fortalece.
ZEIT: O seu presidente, François Hollande, deixou recentemente de criticar o pacto fiscal.
Piketty: É coisa que não melhora nada. Se, nos anos passados, as decisões na Europa tivessem sido tomadas por meios mais democráticos, a atual política de ARROCHO na Europa seria menos rígida.
ZEIT: Mas nenhum partido político francês está envolvido nessa discussão. Na França, a soberania nacional é coisa santificada.
Piketty: É verdade. Há muito mais gente na Alemanha dedicada a pensar em meios para restabelecer a democracia europeia, na comparação com a França e seus incontáveis crentes da religião da soberania. E mais: nosso presidente apresenta-se como prisioneiro do referendum de 2005 sobre uma Constituição Europeia, que fracassou na França. François Hollande não compreende que muita coisa mudou por causa da crise financeira. Todos temos de superar nosso egoísmo nacional.
ZEIT: Que tipo de egoísmo nacional o senhor vê na Alemanha?
Piketty: Em minha opinião, a Alemanha foi grandemente modelada pela reunificação. Temeu-se durante muito tempo que levasse a estagnação econômica. Mas afinal a reunificação foi grande sucesso, graças a uma rede de segurança social funcional e a um setor industrial intacto. Enquanto isso, a Alemanha passou a orgulhar-se tanto do próprio sucesso, que agora dá lições de moral a outros países. Há certo infantilismo nessa atitude. Claro que compreendo o quanto uma reunificação bem-sucedida acrescentou à história pessoal da chanceler Angela Merkel. Mas agora a Alemanha tem de repensar as coisas. Ou repensa, ou a posição da Alemanha na crise da dívida passará a criar grave perigo para toda a Europa.
ZEIT: Que conselho o senhor teria para a chanceler?
Piketty: Os que hoje tentam expulsar a Grécia para fora da Eurozona acabarão na lata de lixo da História. Se a Chanceler tem interesse em garantir para ela melhor lugar nos livros de História, como [Helmut] Kohl, durante a reunificação, nesse caso cabe a ela forjar uma solução para a crise grega, incluindo uma conferência para discutir a dívida, a partir da qual poderemos começar de posição mais limpa, mais clara. Mas com disciplina fiscal renovada, muito mais respeitável.
___________________________________________

[*] Thomas Piketty (nasceu em Clichy, França em 7/5/1971) é um economista que se tornou figura de destaque no meio acadêmico internacional com seu livro O capital no século XXI (2013), no qual defende, através da análise de dados estatísticos, que o capitalismo possui uma tendência inerente de concentração de riqueza nas mãos de poucos. Sua obra mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico1. Segundo Piketty, tal tendência é uma ameaça à democracia e deve ser combatida através da taxação de fortunas.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Grécia e Luta de Classes Global


3/7/2015, [*] Rob Urie, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Truques da cultura de guerra, que fazem convergir e confundem:
(I) a expansão de instituições conservadoras como casamento e serviço militar 
e
(II) políticas libertadoras, são usadas para distrair a atenção e impedir que se veja a rápida consolidação da economia e do poder político totalitários.





Antes
Em 2008, corria incólume o projeto neoliberal, que vinha sendo movido a conversa fiada, pensamento desejante e quantidades copiosas de dinheiro dos bancos distribuído sem que ninguém nem fingisse que algum dia aquele dinheiro poderia ser pago.
O mesmo “favor” que os emprestadores para hipotecas nos EUA haviam feito a comunidades de negros pobres nas periferias dos EUA, encontrou “líderes” políticos e plutocratas europeus prontos, querendo e podendo tomar emprestado dinheiro que tinha mínima chance de algum dia ser pago.
Logo que se tornou publicamente evidente que o mais provável era que trilhões em empréstimos bancários não fossem jamais pagos, banqueiros e funcionários dos governos a serviço dos mesmos banqueiros olharam em volta, para ver que grupos eram
(I) capazes de pagar pelo menos os juros e eventualmente também o principal, de dívidas das quais não haviam obtido qualquer benefício direto; e
(II) incapazes de mobilizar poder político contra serem obrigados a pagar aqueles empréstimos.
Por mais que pareça diabólico demais para ser plausível, esse é o modelo básico de empréstimo que tem sido usado por banqueiros ocidentais e apoiado por governos ocidentais (ditaduras e, igualmente, os mais “democráticos”!) e as instituições “independentes” que eles controlam já há cerca de seis décadas. EUA, Alemanha ou França há muito tempo emprestam dinheiro para projetos de infraestrutura para ‘upgrades’ como a Revolução Verde e compra direta de tecnologia e/ou munições.
Assim foram endividados os cidadãos de estados–nação, internamente e externamente organizados, ao mesmo tempo em que se geravam grandes lucros para as corporações que podiam vender seus tanques–mercadoria à “prodigalidade” de estados e bancos ocidentais.
Essa prática em alguma medida explica como funcionários públicos e plutocratas corruptos e/ou incompetentes no governo grego conseguiram forrar os próprios bolsos, ao mesmo tempo em que endividavam para sempre os bons cidadãos daquela nação sofrida.
Do ponto de vista de um emprestador, bolsões de riquezas, como aposentadorias, depósitos bancários e fundos de assistência à saúde tendem a ser fungíveis e, portanto, sempre parecem estar caindo de maduros, prontos a serem colhidos.
Que cidadãos comuns em muitos casos tenham trabalhado a vida toda, e esperem compensação em troca de contribuição já feita, tem pouca ou praticamente nenhuma influência para impedir que a contribuição deles seja tomada para pagar dívidas que outros fizeram, não eles.
Por mais que pareça selvagemente primitivo, atos à moda fundo do poço, a atual batalha pelos fundos públicos e privados de pensões e aposentadorias nos EUA é precisamente e exatamente isso. E embora por enquanto o governo federal apoie a garantia limitada que o FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) dá a depósitos bancários nos EUA, as “Grandes Barganhas” [acertos entre o presidente dos EUA e o Congresso] e detalhes negociados recentemente de próximos “resgates” de bancos sugerem que depósitos bancários em breve poderão já ser tão “sacrossantos” quanto a Seguridade Social e as aposentadorias do setor público, já na próxima crise.
Os “resgates” em grande escala mais corruptos foram arquitetados nos EUA pelo Presidente democrata dos EUA, Barack Obama, e seus ajudantes-de-ordens Timothy Geithner e Larry Summers, na sequência dos esforços empreendidos pelo governo de (George W.) Bush-Filho.
A decisão foi tomada antes, de restaurar integralmente Wall Street, deixando no lugar dela os grandes atores que haviam destruído a economia global “real”.
As ditas potências europeias substituíram atores chaves e impuseram restrições mais onerosas que as dos norte-americanos. Esse tratamento diferenciado entre emprestadores “internos” e tomadores “externos” definiu o comportamento do Estado, tanto entre nações ocidentais como dentro de cada uma delas.
A diferença confirma em parte a importância que Wall Street e grandes bancos com base nos EUA, França e Alemanha têm nas empreitadas neoimperialistas.

Pensei que só estava comprando uma casa!
(9/2008)

Hoje
Nestes tempos em que políticas liberticidas são distribuídas pela Suprema Corte e o liberal-democrata, Barack Obama, mete goela abaixo do Congresso acordos “comerciais” que ninguém jamais leu, o poder do dinheiro não poderia ser mais evidente.
Uma evolução da “libertação pelos mercados” de Reagan/Thatcher encontra uma classe empresarial global interessada na predação de alvos neoimperiais mediante mecanismos recém-construídos de subjugação econômica.
Essa classe profissional que se autossatisfaz tem agora o mesmo direito de dormir em caixas de papelão e pedir esmolas que os economicamente excluídos, os privatizados e os capturados por mercados.
Políticos alemães autossatisfeitos unem-se a aposentados gregos autossatisfeitos, no gozo de direitos cada dia mais etéreos, ao mesmo tempo em que se engalfinham na guerra de classes global.
O alcance global conecta polícia privatizada e repressão racial em Ferguson, Missouri, a mercados cativos e dívidas perpétuas em Atenas, Grécia.
Não é absolutamente por acaso que alemães erguem caricaturas racistas de gregos “preguiçosos, perdulários”, assim como a narrativa da “responsabilidade pessoal” define a base de classe exclusionária/inclusionária para o encarceramento em massa racista e para os esquemas de privatização predatória nos EUA.
Essa é a linguagem usada para “explicar” a dominação imperial que definiu o ocidente durante grande parte dos séculos 18, 19 e 20, agora atualizada para público moderno. Truques da cultura de guerra, que fazem convergir
(I) a expansão de instituições conservadoras como casamento e serviço militar, e
(II) políticas libertadoras, são usadas para distrair a atenção e impedir que se veja a rápida consolidação da economia e do poder político totalitários.
O processo crescente de servidão da dívida em fase terminal não é difícil de descrever. Um estágio anterior análogo é o dos empréstimos a “mercados emergentes” feitos por grandes bancos norte-americanos nos anos 1970s e 1980s que foram rapidamente redepositados nos mesmos bancos em nome de funcionários estrangeiros corruptos, mas para serem pagos pelos cidadãos “deles”.
Passo dois é a inserção de instituições ocidentais “auxiliares” como o FMI e o Banco Mundial, para induzir países devedores a abrir mercados a monopólios multinacionais, para matar a concorrência econômica local, para garantir recursos locais a serem saqueados, para assegurar a propriedade de indústrias e fábricas chaves a agentes externos e para usar políticas de ARROCHO [não são políticas “de austeridade” são políticas de ARROCHO] para “construir” agentes locais para o capital internacional, a partir de objetivos neoimperiais.
Discurso do “arrependimento” racista/imperialista garante argumentos capazes de dividir a sociedade, primeiro passo para divisões econômicas.
A atual discussão dominante de “negociações” que estariam acontecendo entre um governo grego confiável e a Troika – FMI, BCE (ECB, European Central Bank) e a União Europeia (UE) – está focada nas “maquinações” dos gregos, apesar de serem os gregos os que têm opções limitadas, e de a Troika poder fazer sumir todos os seus termos neoimperialistas numas poucas pulsações.
As ditas limitações políticas da Troika – eleitores aos quais teriam de responder – não passam do produto de discurso racista reforçado, usado para reunir a opinião pública em torno dos objetivos neoimperiais da própria Troika.
Ocupação NAZISTA (atual)

Na história, a Ocupação Nazista da Grécia criou dívidas morais e factuais, em haver, hoje, a favor do povo grego, e que nem em séculos poderão ser pagas. Essa história inclui dezenas, se não centenas, de milhares de gregos mortos de fome para alimentar o povo alemão e seus exércitos, e dezenas, se não centenas, de milhares de gregos enforcados, ou mortos a tiros ou executados em “caminhões da morte”.
A circunstância grega foi recentemente (8/6/2015) resumida num pedido feito pelo Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis (vídeo no fim do parágrafo - em inglês, ao vivo, sem edição - gravado ao vivo: ~ 2h50’), de que a Troika ajudasse o SYIZA a reorganizar a governança na Grécia, de modo a obrigar os plutocratas locais a desembuchar os ganhos mal havidos, em benefício do povo grego.

A metáfora do interesse de classe que o Ministro Varoufakis usou, liga a evolução de dívida claramente odiosa, a favor de bancos franceses e alemães, à renegociação feita em 2010.
Conversações entre “negociadores” alemães recentemente reveladas sugerem que estava  muito claramente entendido em 2010 que o montante da dívida era alto demais para ser pago, e que os termos eram economicamente destrutivos para a Grécia.
O que poderia parecer inexplicável em termos nacionais – o governo grego absolutamente não ter meios para pôr de joelhos os plutocratas gregos – encontra perfeita semelhança no modo como se exerce o poder dos EUA ao longo de décadas.
É muito importante compreender esse último ponto – o argumento de que norte-americanos poderiam forçar os plutocratas norte-americanos a agirem a favor do interesse nacional, em vez de agirem só em interesse próprio, é desmentido pela história do último meio século.
A Guerra Americana no Sudeste Asiático [“Guerra do Vietnã”, nos EUA] tornou ricos os que lucram com guerras, ao mesmo tempo em que o país já sabia que era guerra perdida durante toda a última década.
As guerras que se seguiram por todo o Oriente Médio foram vendidas como se atendessem a algum interesse nacional norte-americano, ao mesmo tempo em que se sabia que o objetivo predominante daquelas guerras era/é garantir petróleo e gás para empresas multinacionais.
Wall Street foi desregulada e autorizada a fazer os empréstimos mais predatórios, que custam a milhões de pessoas o próprio lar e as economias de vidas inteiras.
Quando Wall Street implodiu por efeito de seus próprios excessivos erros, as vítimas foram forçadas a reconstruí-la. Se nada disso convencer, há incontáveis pesquisas que mostram que os interesses dos plutocratas determinam as políticas de governo, contra os interesses da mais ampla maioria dos cidadãos.
O pedido do Ministro Varoufakis, capitulação ante 98% da política prejudicial aos gregos imposta a eles pela Troika, em troca de proteção razoável, sustentável às aposentadorias dos gregos, ao emprego e com impostos regressivos, dispôs a imaginação política contra a longa história e curta memórias dos “negociadores” alemães que parecem decididos a ver a Alemanha reocupar a Grécia mediante políticas econômicas punitivas e a venda forçada de patrimônio do estado grego.
As políticas que estão sendo impostas escancaram o jogo que está sendo jogado – neoliberalismo travestido como imperialismo fantasiado em toga acadêmica. Por mais que haja quem só veja má intenção, estupidez, ignorância ou cegueira ideológica de olhos arregalados, a gênese da dívida grega sugere que o alvo do ataque é o governo que, com seu Ministro Varoufakis, já identificou uma classe dominante global.
A tática da Troika para encobrir essa gênese põe o “resgate” de 2010 no centro. Ao desviar os riscos gregos, das folhas de balanço de bancos privados para a Troika (com desconto), as dívidas impagáveis foram atadas a economia totalmente implausível, para fingir que algum acordo mutuamente benéfico teria sido obtido. O paradoxo está na intersecção do que foi acordado em termos, e a transparência democrática.
Tudo muito bom, tudo muito bem, que as elites gregas aceitem termos que os cidadãos gregos teriam de suportar, mesmo que sob a mira de metafórico canhão. Mas quem formalizará a culpa dos banqueiros franceses e alemães que distribuíram empréstimos que de nenhum modo jamais poderiam ser quitados?
Analogamente, em 2007 os banqueiros de bancos hipotecários norte-americanos sabiam que grande parte dos empréstimos que estavam distribuindo não seriam jamais quitados. Para encobrir esse crime, o Presidente Obama e seu Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, criaram programas de resgate em várias camadas, para poder fazer chegar os recursos até os bancos e banqueiros culpados. E nos casos em que não funcionou, os riscos bancários foram transferidos diretamente para o balanço das contas públicas.
A diferença central entre EUA e Grécia, além da posição na hierarquia neoimperial, é que os EUA não têm limite algum na capacidade para inventar dólares norte-americanos para substituir os que foram torrados pelos banqueiros.
Vive la différence!

Centenas de bilhões, se não trilhões, de dólares de empréstimos bancários podres foram enterrados em agências federais do governo nos EUA.
A escolha grega é entre deixar a União Monetária Europeia e pôr as contas numa moeda terciária, o DRACMA, o que seria desenvolvimento incontrolável; ou continuar a usar o euro como moeda “externa”, que os EUA não podem imprimir em casa.
Permanecer dentro da moeda da UE deixa a fabricação de dinheiro nas mãos do BCE, que vê a união monetária como um padrão quase-ouro, exceto quando se trata de salvar bancos europeus predatórios.
Que o “problema” grego, pelo menos no que tenha a ver nominalmente com a Troika, possa ser resolvido mediante criação de dinheiro pelo BCE, denuncia diretamente a natureza política imperialista das políticas da Troika.
Nas atuais circunstâncias, há um referendum convocado pelo Syriza para o domingo, 5/7/2015, para que os gregos se manifestem sobre o pacote de resgate já rejeitado e depois parcialmente aceito pelo Syriza [os gregos rejeitaram o pacote (5/7/2015, 17h03), com maioria de 61%].
Foi implantado o controle de capitais e as retiradas de dinheiro de contas bancárias estão severamente limitadas, o que causou pânico econômico imediato e severo.
Não só os cidadãos gregos estão sendo individualmente afetados, todo o conjunto das relações econômicas necessárias para que a produção econômica aconteça (cadeia de suprimento) foi interrompida e há risco de que seja perdida.
A troca que se discute nesse momento parece ser aceitar os termos da Troika, seja pelo governo do Syriza ou por outro governo que o suceda, com miséria continuada; ou imediatos e severos deslocamentos econômicos, com um plano de recuperação gradual.
A única coisa garantida é que a prevalência continuada das políticas da Troika só significará miséria econômica perpétua para o povo grego.
A opinião prevalente parece ser que o governo Syriza teria desperdiçado uma oportunidade para arrancar (magras) concessões da Troika, porque foi inconsistente.
Ao convocar o referendum depois de os controles de capitais terem sido implementados, a questão que o Syriza parece estar propondo ao povo grego é se aceitarão dor econômica severa no curto prazo, em troca de algum possível poder de barganha.
O argumento de que o Syriza teria desperdiçado boa vontade assume que, inobstantes os últimos oito anos, a estrutura viciosa da união monetária seria coisa inesperada, e que as negociações da Troika nunca teriam passado de política de poder imposta, para obter ganho político e dominação no campo político.
As motivações podem ser complexas, mas as atuais circunstâncias carregam com elas outras intenções, declaradas e ocultadas. A história encontra a Alemanha agora no papel de força ocupante, só que sem que aconteça ocupação real, completada com caricaturas racistas que regridem aos primeiros anos da década dos 1940s.
Independente de se Syriza “jogou” com esperteza ou sem, a evidência de que Yanis Varoufakis identificou uma classe governante global, não como interesses singulares unificados, mas como um artefato da economia política predominante da época, lança as questões em jogo para fora da moldura estreita “Troika-Gregos”; e as apresenta no quadro da Luta de Classes Global.
O centro – parâmetro periferista que tem sido usado para definir relações políticas e econômicas europeias – aparece ressignificado como metáfora nas relações de classe nos EUA.
Já na periferia da União Europeia...

Por mais que se fale de uma suposta recuperação econômica desde meados de 2009, ela emanou em vasta medida de um núcleo extremamente concentrado – de Wall Street e dos executivos de corporações multinacionais gigantes – para seletos grupos burgueses do bairros ricos, deixando de fora os tradicionais grupos “marginais”. Ainda se veem os detritos da finança predatória, nas comunidades que habitam os centros miseráveis das cidades e periferias, onde os malefícios praticados pelos bancos nunca foram prevalentes.
Que um Presidente Democrata liberal tenha implementado políticas de “trickle-down” [lit. “gotejamento”; são políticas nas quais, por teoria, as vantagens asseguradas aos mais riscos “gotejariam” pela pirâmide social e chegariam aos mais pobres] demonstra bem o alcance do projeto neoliberal.
Por mais que em algum relato extraterrestre e inextrincável para nós meros mortais, os gregos comuns possam ter passado semanas no início e meados dos anos 2000s, caminhando depressa para passar logo pelos mais necessitados, para se empanturrarem de comprar quinquilharias burguesas só para provar que podiam, a circunstância atual da Grécia é mais sistêmica que particular.
Bancos franceses e alemães fizeram os mesmos empréstimos predatórios por toda a periferia europeia. Estupidez, ignorância, e/ou cegueira ideológica pode explicar tudo, tanto ou mais que alguma má intenção. Mas expertise para avaliar a capacidade de um tomador para pagar o empréstimo que tome é o negócio dos banqueiros, não de quem toma emprestado.
O fracasso de governos de “centro”, que não conseguiram manter a confiabilidade de banqueiros mal-intencionados e/ou incompetentes, ao mesmo tempo em que empurravam as consequências dos maus negócios deles para cima do lombo dos menos capazes de resistir contra eles, associa os “excessos” dos anos 1990s e 2000s ao meio século anterior de banking predatório a serviço da conquista neoimperial.
Nesse contexto, nem importa muito se Syriza fez mal ou fez bem, porque o jogo já vinha viciado desde o começo. Se a ideia da esquerda é prover moldura crítica e princípios amplos para a organização social – política e econômica – nesse caso abandonar o movimento Syriza e o povo grego à sua própria sorte absolutamente não parece ser o melhor caminho construtivo a seguir.
Se a análise que desenvolvi aqui tem sentido e sustenta-se de pé, então o povo de Baltimore, Detroit e Filadélfia partilha mais interesses com o povo grego do que com os representantes do capital internacional em Washington e Nova Iorque. O fator que os unifica é a economia política neoimperialista imposta, como liberdade a escolher, nos reinos do político e do econômico.
A seguir
Dado que a recuperação econômica não passa de esperança cega de que a história tivesse mesmo acabado, crises sempre renovadas combinam bem com as tendências históricas que foram recuperadas e fortalecidas depois da mais recente crise.
Que a Grécia, e mais provavelmente sim, que não, todo o resto da periferia europeia, está em declínio em proporção aproximada a o quanto cada país seja periférico, para começar, mostra o beco sem saída em que se meteram, há algum tempo, os políticos gregos hoje já fora do poder.


O próprio FMI declarou publicamente que a dívida grega, no valor a que chegou hoje, é impagável.
De conversas recentemente divulgadas entre os principais “negociadores” alemães, tudo já estava perfeitamente combinado desde antes de ser assinado o “acordo” de 2010 entre Grécia e Troika. E nos níveis de atacado e varejo, Wall Street, grandes bancos norte-americanos, franceses e alemães sabiam que muitos dos empréstimos feitos não podiam ser e, pois, não seriam, pagos.
Para quem tenha esquecido, no auge das dificuldades financeiras em 2008, o FMI fez um mea culpa público, pedindo perdão por décadas de afirmar as mesmas políticas de “resgatar” plutocratas que eram a primeira escolha dos funcionários de governos ocidentais. Isso, para sugerir que é exatamente porque todas as partes envolvidas nas “negociações” gregas sabem, e já sabiam há muito tempo, que as dívidas gregas não podem ser pagas, elas até agora jamais se levantaram contra as políticas punitivas impostas ao povo grego.
A dívida é a arma do imperialismo moderno.
Se EUA e Alemanha tivessem estendido os mesmos termos de “resgate” à periferia doméstica e global, que foram aplicados a bancos “de casa”, a crise econômica estaria acabada em 2009.
A diferença pode ser aferida em termos de classe econômica ou de centro–periferia imperialista.
De um modo ou de outro, a história é melhor guia que a teoria econômica dominante, para determinar a trajetória da economia política que agora nos confronta todos, em diferentes graus.
_____________________________________

[*] Rob Urie é artista, Economista Político e Músico atualmente trabalhando e morando em Nova Iorque. Depois de viver como artista e fundador e co-fundador várias bandas de punk rock de Nova Iorque no início de 1980, Rob completou sua educação obtendo grau de Bacharel em Economia e Filosofia no Albright College e Mestrado em Economia pela Universidade da Carolina do Norte. Posteriormente, Rob realizou uma série de trabalhos acadêmicos, incluindo Pesquisa Quantitativa, no negócio de Asset Management antes de iniciar um fundo mútuo Global-Macro bem sucedido e escrever um blog sobre Finanças e Economia Política globais. A consciência das consequências catastróficas das “recuperações” das Finanças globais em particular, e do capitalismo ocidental de forma mais ampla, e liderada Rob, o fez deixar deixar o negócio do Asset Management em 2011. Vive atualmente – escreve e pinta – com sua esposa Erika em Manhattan superior.