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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Egito: Golpe militar com rosto civil e cobertura religiosa

3/7/2013, Abdel Bari Atwan عبد الباري عطوان (Excerto)
Al-Quds, Grã-Bretanha (em árabe
Traduzido para o espanhol por Al Fanar Traductores,
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

General  Abdelfattah al Sisi
Abdelfattah al Sisi, comandante geral das Forças Armadas, demonstrou que é o presidente de facto do Egito, e a instituição militar demonstrou que é a única instituição sólida capaz de inverter, a qualquer momento, os resultado das urnas, a título de “responder às aspirações do povo e salvaguardar seus interesses nacionais”.

Sheikh Al-Azhar
Trata-se de um golpe de estado militar com rosto civil, cobertura religiosa e promessas democráticas, o que explica a presença do Sheikh Al-Azhar e do papa da igreja copta na tomada de decisão de derrubar o presidente e seu grupo, os Irmãos Muçulmanos, para lançá-los em destino ignorado, talvez na prisão, na cela ao lado da do presidente Mubarak e os seus.

Quando falamos de rosto civil de um golpe de Estado militar, nos referimos à eleição de um presidente civil provisório, o presidente do Tribunal Constitucional, à convocação de eleições presidenciais e legislativas dentro de seis meses, e à formação de um grupo de especialistas que redijam uma nova Carta Constitucional (…)

A instituição militar pôs-se ao lado da parte mais capacitada para reunir milhões de pessoas nas praças e ruas do Egito, como reza o comunicado divulgado pelos militares. Mas não há dúvidas de que o movimento dos Irmãos Muçulmanos, que esperou 90 anos para chegar ao poder, sentir-se-á agora, concordemos ou não com o que dizem e pregam, como a vítima à qual roubaram a presidência (…)

O exército egípcio planejou bem o dia de ontem (…) E quando dizemos que planejou bem, nos referimos ao fato de que cuidou de garantir a lealdade e o apoio da instituição de Al-Azhar, da Igreja copta, da Frente de Salvação opositora e do movimento Tamarrud, que inclui a geração mais jovem, e usar todos esses lados e setores e seus simpatizantes, para garantir respaldo à sua intervenção crucialmente decisiva.

Entrada da Praça Tahrir na noite de 3/7/1013
A pergunta agora é como Al Sisi venderá esse mapa do caminho à parte prejudicada, aos Irmãos Muçulmanos, e qual será a resposta deles, que desfrutam de grande popularidade em todo o mundo rural, depois de terem dito – tanto Mursi, como Al Baltagui e Al Arián, que não se calarão e que lutarão para defender a própria legitimidade até a última gota de sangue (…)

O Egito estava dividido antes do comunicado dos militares, de ontem. Agora, está mais dividido do que nunca, e por isso não nos surpreenderá, nem descartamos a ideia de que os papéis se invertam: a oposição deixará as praças, para ser substituída pelos ofendidos e prejudicados, talvez mais numerosos.

O precedente da Argélia repete-se literalmente no Egito, com pequenas diferenças, a saber, a instituição militar argelina abortou o processo eleitoral no qual os islamistas venceram, antes de os resultados serem anunciados, enquanto os militares egípcios abortaram o processo eleitoral depois de conhecidos os resultados (…)

Somos contra o derramamento de sangue e o uso de armas, seja qual for a justificativa (…) por isso esperamos que os Irmãos Muçulmanos aceitem o que aconteceu, bebam o veneno e preparem-se para as próximas eleições presidenciais e parlamentares, para assim confirmar seu espírito cívico, seu empenho em preservar o Egito e não desperdiçar o sangue de seus filhos, fazendo o que, até agora, seus detratores nunca fizeram: vencer nas urnas.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão

sábado, 8 de dezembro de 2012

Não precisamos do apoio nem esqueceremos o rancor de vocês


3/11/2012, Abdel Bari Atwan, (ár.), Al-Quds Al-Arabi; e 12/1/2012 (esp.), Rebelión, trad. do árabe, J. Sadaka)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Abdel Bari Atwan nasceu em Gaza. Vive em Londres desde 1979. Foi editor do diário Al-Quds al-Arabi, que se publica em Londres, em árabe, desde 1989. É autor de The Secret History of al-Qaida e de Country of Words, de memórias.



Observação da redecastorphoto: Este artigo foi escrito pouco antes da apresentação do pedido da Palestina à ONU como estado observador.

O voto contra, de EUA, Grã-Bretanha e Alemanha, ao pedido que os palestinos apresentaremos à Assembleia Geral da ONU, para que a Palestina seja reconhecida como Estado observador não membro, não é só atitude vergonhosa, que revela degeneração moral e ética: também é atitude de hostilidade contra os árabes e muçulmanos.

É difícil para nós entender as razões pelas quais esses países opõem-se ao pedido dos palestinos, se se considera os reiterados chamamentos que fazem ao diálogo, contra a violência e pelo respeito às normas do Direito Internacional. Esses países que prometeram apoiar a criação de um verdadeiro Estado palestino mostram suas reais intenções ao se oporem à concessão de status de Estado observador, sem direitos concretos e como medida, de fato, mais, simbólica.

O atual governo dos EUA, governo de Obama, que iniciou o primeiro mandato comprometendo-se a criar um verdadeiro Estado palestino, não se limitou, dessa vez, a pressionar fortemente o presidente Mahmud Abbas para que renuncie ao pedido oficial, ameaçando, até, pôr fim à ajuda que dá aos palestinos. Foi mais longe: escreveu a vários governantes europeus, pedindo-lhes que votem contra o pedido dos palestinos e, inclusive, que usem sua influência para obter que outros países façam o mesmo.

Ignoramos as causas desse rancor contra os palestinos, submetidos à fome e a um bloqueio total, privados dos mais elementares direitos humanos, com a cumplicidade dos EUA, que ainda se apresentam como grande defensor da democracia e da justiça em todo o mundo.

O que fizemos, os palestinos, contra os EUA, para merecer tanto ódio, tanto rancor? Nenhum exército palestino jamais invadiu os EUA, jamais ocupou território norte-americano.

Mas, cúmulo dos cúmulos, é a posição da Grã-Bretanha e seu atual governo, manifestada pelo ministro do Exterior, William Hague, que anunciou ao Parlamento que seu governo poderia apoiar o pedido dos palestinos, com duas condições: que os palestinos se comprometam a jamais recorrer ao Tribunal Penal Internacional para denunciar os crimes de guerra de Israel; e que voltem às negociações sem condições prévias.

William Hague
William Hague, palestinófobo, que se integrou ao lobby israelense ainda adolescente, aos 16 anos, apresenta-se, com essas “condições”, como um dos personagens mais cínicos da história contemporânea: com moral dupla e hipocrisia, tenta impor “condições” prévias aos palestinos, em troca do reconhecimento fictício de um Estado; e, ao mesmo tempo, pede que voltemos à mesa de negociações sem condiciones previas. Difícil imaginar desfaçatez mais completa.

A Grã-Bretanha, país que desempenhou papel fundamental na entrega da Palestina como presente ao sionismo, deveria sentir-se culpada pela tragédia dos palestinos. Seria de esperar que confessasse e buscasse redenção para suas culpas, que indenizasse os palestinos, vítimas de crime histórico – como fizeram muitas potências colonialistas.

Os palestinos, ao apresentar seu pedido à Assembleia Geral da ONU, para que nos reconheçam como Estado observador, não precisamos do voto da Grã-Bretanha, nem do voto dos EUA, nem, sequer, do voto da Alemanha. Já temos os 135 votos mínimos necessários, suficientes para a aprovação.

Mas não esqueceremos a oposição desses países e de outros que nos deram as costas, quando mais os palestinos precisávamos deles, nesse momento histórico crucial.

Esses países não conhecem os princípios da justiça universal, nem valores humanos básicos. Alinharam-se à ilegalidade, à repressão, ao bloqueio, ao roubo de terras, à tirania da colonização, apoiando a agressão, os crimes de guerra, o assassinato de crianças, a destruição de casas, derrubadas sobre famílias inteiras.

Para tentar justificar o alinhamento ao sionismo, alegam que o Estado palestino será criado mediante negociações e acordos. Então, cabe perguntar: e onde estão as tais ditas “negociações”? Quem é o responsável pelo fracasso de todas as negociações, além de Israel?
O presidente Abbas negocia há mais de 20 anos. Israel infligiu-lhe todos os tipos de humilhação. E onde está o estado palestino que tantos dizem apoiar?

Pessoalmente, não sou entusiasta desse movimento diplomático e seus ganhos modestos: um Estado fictício. Porque sou claramente consciente de que só se respeitam direitos internacionais quando beneficiam Israel e os EUA. Mas já que o presidente Abbas decidiu-se por essa via, temos de reconhecer que, no mínimo, sobreviveu às pressões de EUA e Israel; e que voltou a pôr o problema palestino no centro da atenção mundial, depois de marginalizado por árabes, antes de marginalizado também por outros.

Mahmoud Abbas
O presidente Abbas terá de recorrer ao Tribunal Penal Internacional imediatamente depois de obter o ingresso na ONU, para ligar-se àquele tribunal e iniciar o processo para condenar os sionistas criminosos de guerra, com os informes, dados e provas dos crimes israelenses já reunidos no Relatório Goldstein.

O reconhecimento internacional da Palestina, que acontecerá hoje, e a mudança no voto de países como Espanha, França e Portugal, jamais teriam sido possíveis sem a heroica resistência na Faixa de Gaza e sua resposta dissuasiva à agressão, agora que, pela primeira vez, a Resistência atingiu Telavive. Essa Resistência custou-nos a vida de 170 palestinos, dessa vez; muitos dos quais, como sempre, crianças.

O povo palestino continuará a gritar contra o muro da hipocrisia ocidental e contra a injustiça universal, até alcançar seus objetivos: até recuperarmos todos os territórios que nos foram usurpados. E obrigaremos países como os EUA ou a Grã-Bretanha, alinhados com nosso inimigo, a pedir desculpas e a pagar as correspondentes indenizações. Quanto a Israel e seu regime de apartheid, o castigo será maior, resultado de seus crimes horrendos.