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domingo, 9 de dezembro de 2012

Meshaal já está em Gaza


O líder do Hamas no exílio já está em Gaza.

Khaled Meshaal chegou, este sábado, ao enclave palestino para assinalar os 25 anos do partido islâmico. Uma visita histórica festejada nas ruas por milhares de pessoas.

O líder do Hamas exilou-se com a família depois da guerra de 1967 e não tinha, até hoje, pisado o território palestino.

A visita ocorre cerca de duas semanas depois da última operação israelense e do apelo à unidade Hamas-Fatah lançado pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

Meshaal é considerado um elemento chave na reconciliação com a Fatah.


Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

sábado, 8 de dezembro de 2012

Não precisamos do apoio nem esqueceremos o rancor de vocês


3/11/2012, Abdel Bari Atwan, (ár.), Al-Quds Al-Arabi; e 12/1/2012 (esp.), Rebelión, trad. do árabe, J. Sadaka)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Abdel Bari Atwan nasceu em Gaza. Vive em Londres desde 1979. Foi editor do diário Al-Quds al-Arabi, que se publica em Londres, em árabe, desde 1989. É autor de The Secret History of al-Qaida e de Country of Words, de memórias.



Observação da redecastorphoto: Este artigo foi escrito pouco antes da apresentação do pedido da Palestina à ONU como estado observador.

O voto contra, de EUA, Grã-Bretanha e Alemanha, ao pedido que os palestinos apresentaremos à Assembleia Geral da ONU, para que a Palestina seja reconhecida como Estado observador não membro, não é só atitude vergonhosa, que revela degeneração moral e ética: também é atitude de hostilidade contra os árabes e muçulmanos.

É difícil para nós entender as razões pelas quais esses países opõem-se ao pedido dos palestinos, se se considera os reiterados chamamentos que fazem ao diálogo, contra a violência e pelo respeito às normas do Direito Internacional. Esses países que prometeram apoiar a criação de um verdadeiro Estado palestino mostram suas reais intenções ao se oporem à concessão de status de Estado observador, sem direitos concretos e como medida, de fato, mais, simbólica.

O atual governo dos EUA, governo de Obama, que iniciou o primeiro mandato comprometendo-se a criar um verdadeiro Estado palestino, não se limitou, dessa vez, a pressionar fortemente o presidente Mahmud Abbas para que renuncie ao pedido oficial, ameaçando, até, pôr fim à ajuda que dá aos palestinos. Foi mais longe: escreveu a vários governantes europeus, pedindo-lhes que votem contra o pedido dos palestinos e, inclusive, que usem sua influência para obter que outros países façam o mesmo.

Ignoramos as causas desse rancor contra os palestinos, submetidos à fome e a um bloqueio total, privados dos mais elementares direitos humanos, com a cumplicidade dos EUA, que ainda se apresentam como grande defensor da democracia e da justiça em todo o mundo.

O que fizemos, os palestinos, contra os EUA, para merecer tanto ódio, tanto rancor? Nenhum exército palestino jamais invadiu os EUA, jamais ocupou território norte-americano.

Mas, cúmulo dos cúmulos, é a posição da Grã-Bretanha e seu atual governo, manifestada pelo ministro do Exterior, William Hague, que anunciou ao Parlamento que seu governo poderia apoiar o pedido dos palestinos, com duas condições: que os palestinos se comprometam a jamais recorrer ao Tribunal Penal Internacional para denunciar os crimes de guerra de Israel; e que voltem às negociações sem condições prévias.

William Hague
William Hague, palestinófobo, que se integrou ao lobby israelense ainda adolescente, aos 16 anos, apresenta-se, com essas “condições”, como um dos personagens mais cínicos da história contemporânea: com moral dupla e hipocrisia, tenta impor “condições” prévias aos palestinos, em troca do reconhecimento fictício de um Estado; e, ao mesmo tempo, pede que voltemos à mesa de negociações sem condiciones previas. Difícil imaginar desfaçatez mais completa.

A Grã-Bretanha, país que desempenhou papel fundamental na entrega da Palestina como presente ao sionismo, deveria sentir-se culpada pela tragédia dos palestinos. Seria de esperar que confessasse e buscasse redenção para suas culpas, que indenizasse os palestinos, vítimas de crime histórico – como fizeram muitas potências colonialistas.

Os palestinos, ao apresentar seu pedido à Assembleia Geral da ONU, para que nos reconheçam como Estado observador, não precisamos do voto da Grã-Bretanha, nem do voto dos EUA, nem, sequer, do voto da Alemanha. Já temos os 135 votos mínimos necessários, suficientes para a aprovação.

Mas não esqueceremos a oposição desses países e de outros que nos deram as costas, quando mais os palestinos precisávamos deles, nesse momento histórico crucial.

Esses países não conhecem os princípios da justiça universal, nem valores humanos básicos. Alinharam-se à ilegalidade, à repressão, ao bloqueio, ao roubo de terras, à tirania da colonização, apoiando a agressão, os crimes de guerra, o assassinato de crianças, a destruição de casas, derrubadas sobre famílias inteiras.

Para tentar justificar o alinhamento ao sionismo, alegam que o Estado palestino será criado mediante negociações e acordos. Então, cabe perguntar: e onde estão as tais ditas “negociações”? Quem é o responsável pelo fracasso de todas as negociações, além de Israel?
O presidente Abbas negocia há mais de 20 anos. Israel infligiu-lhe todos os tipos de humilhação. E onde está o estado palestino que tantos dizem apoiar?

Pessoalmente, não sou entusiasta desse movimento diplomático e seus ganhos modestos: um Estado fictício. Porque sou claramente consciente de que só se respeitam direitos internacionais quando beneficiam Israel e os EUA. Mas já que o presidente Abbas decidiu-se por essa via, temos de reconhecer que, no mínimo, sobreviveu às pressões de EUA e Israel; e que voltou a pôr o problema palestino no centro da atenção mundial, depois de marginalizado por árabes, antes de marginalizado também por outros.

Mahmoud Abbas
O presidente Abbas terá de recorrer ao Tribunal Penal Internacional imediatamente depois de obter o ingresso na ONU, para ligar-se àquele tribunal e iniciar o processo para condenar os sionistas criminosos de guerra, com os informes, dados e provas dos crimes israelenses já reunidos no Relatório Goldstein.

O reconhecimento internacional da Palestina, que acontecerá hoje, e a mudança no voto de países como Espanha, França e Portugal, jamais teriam sido possíveis sem a heroica resistência na Faixa de Gaza e sua resposta dissuasiva à agressão, agora que, pela primeira vez, a Resistência atingiu Telavive. Essa Resistência custou-nos a vida de 170 palestinos, dessa vez; muitos dos quais, como sempre, crianças.

O povo palestino continuará a gritar contra o muro da hipocrisia ocidental e contra a injustiça universal, até alcançar seus objetivos: até recuperarmos todos os territórios que nos foram usurpados. E obrigaremos países como os EUA ou a Grã-Bretanha, alinhados com nosso inimigo, a pedir desculpas e a pagar as correspondentes indenizações. Quanto a Israel e seu regime de apartheid, o castigo será maior, resultado de seus crimes horrendos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O verdadeiro “grande feito” de Mahmoud Abbas


2/12/2012, Ali Abunimah, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ali Abunimah
Um dia depois da votação na ONU que admitiu a “Palestina” como estado não-membro, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton elogiou publicamente a Autoridade Palestina (AP) liderada por Mahmoud Abbas, por sua colaboração com o exército israelense ocupante.

Falando num think-tank sionista em Washington, na 6ª-feira, Clinton defendeu a AP, que havia sido criticada pelo ministro israelense de Negócios Exteriores, Avigdor Lieberman. Segundo o jornal Ha’aretz, Clinton disse que “... com muito pouco dinheiro e sem recursos naturais, eles [a Autoridade Palestina] conseguiram muito, construindo uma força de segurança que trabalha junto, todos os dias, com as IDF (Israel Defense Forces [nome oficial do exército de Israel]). Obtiveram vários sucessos empresariais. São nacionalistas – mas amplamente seculares. Israel deve apoiá-los”. [1]

São as mesmíssimas “forças de defesa de Israel” que há apenas alguns dias estavam massacrando famílias palestinas em Gaza e assassinando palestinos na Cisjordânia que se atreveram a protestar contra os crimes de Israel.

E durante e depois do mais recente ataque contra Gaza, o mesmo exército israelense entrou em surto de prender gente na Cisjordânia, e prendeu centenas, por manifestarem sua opinião.

À luz do comentário de Clinton, é hora de perguntar até que ponto a Autoridade Palestina participou daquelas ações de ódio e vingança, resultado da fúria de Israel por ter sido derrotada em Gaza.

Hillary Clinton comenta...
Clinton poderia ter acrescentado que a colaboração diária com a força ocupante não foi o único “feito” notável da Autoridade Palestina de Abbas apoiada pelos EUA. Durante anos, a Autoridade Palestina foi armada e treinada sob supervisão dos EUA para agir como força auxiliar da ocupação israelense, para reprimir todas as várias faces da Resistência palestina; para espancar e reprimir palestinos que manifestassem sua opinião e para prender e perseguir jornalistas que se atrevessem , a criticar a mesma Autoridade Palestina e a mesma ocupação.

O governo da Autoridade Palestina é precisamente o tipo de governo-cliente repressor que os EUA sempre apoiaram em outros países árabes, razão pela qual Clinton recomendou que sua parceira Israel apoie a Autoridade Palestina.

Mahmoud Abbas por Latuff
O currículo da Autoridade Palestina de Abbas, no campo da colaboração com Israel, contra o desejo e os interesses dos palestinos, é longo, vergonhoso e muito bem documentado. Inclui conluio com Israel, EUA e o já deposto governo de Mubarak no Egito, para derrubarem o governo eleito do Hamás depois de 2006; conluio com Israel para enterrar o Relatório Goldstone sobre os crimes de guerra de Israel em Gaza em 2008-2009; súplicas para que Israel não libertasse prisioneiros palestinos, o que daria crédito ao Hamás; e, mais recentemente, a renúncia pública, por Abbas, ao direito de retorno dos palestinos – posição aliás já antiga da Autoridade Palestina, em todas as negociações.

Essas duras realidades devem fazer ver sob outra luz as mal-orientadas celebrações pelo resultado da votação na ONU, a qual, como já expliquei em Al Jazeera é, no melhor dos casos, equivalente a vencer um jogo de futebol internacional; e, no pior, como Joseph Massad explicou no The Guardian, oficializa um status quo de racismo.

Jogar a isca e fisgar o peixe

Apesar disso, muita gente tentou pintar a votação na ONU como grande vitória, reagindo aos céticos com a ideia de que o resultado daria acesso aos palestinos à Corte Criminal de Justiça [orig. International Criminal Court (ICC)], para processar Israel por crimes de guerra. Quem, em sã consciência acreditaria que a Autoridade Palestina de Abbas, que fez tudo o que fez, e que Clinton elogia pela estreita colaboração com o exército ocupante, algum dia processará Israel por algum crime de guerra?

Mas, sim, jogaram a isca e fisgaram o peixe. Imediatamente, apenas um dia depois da votação na ONU, Abbas já jogava água fria em qualquer esperança desse tipo. “Agora, temos o direito de recorrer à ICC, mas não usaremos esse direito agora e só o usaremos no futuro, no caso de agressão israelense” – Abbas disse a jornalistas. Em Gaza ainda há palestinos em luto, e, na Cisjordânia outros palestinos lutam para não perder suas terras, no assalto diário praticado pelos colonos israelenses. Mas o líder aparente dos palestinos ainda não viu qualquer “agressão israelense”.

Estratégia oca

A vacuidade da votação na ONU [2] não poderia ser mais claramente ilustrada, do que no que todos viram acontecer – ou não acontecer – depois dela.

Na 5ª-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou a admissão da “Palestina”, estado inexistente, como estado não membro. Na 6ª-feira, Israel anunciou a intenção de construir mais milhares de casas para mais milhares de colonos israelenses em território do suposto estado não membro e sem direito a voto. Qual será, agora, a resposta internacional, depois da votação na ONU?

Além das condenações rituais rotineiras, haverá, pergunto, alguma ação efetiva, específica, real, inclusive sanções, por iniciativa de qualquer dos 138 países que votaram a favor do pedido da “Palestina”, para fazer parar a nova agressão israelense e para fazer reverter a colonização ilegal que prossegue, ininterrupta, desde 1967, nos territórios ocupados? Infelizmente, é pouco provável que haja. Sinal bem claro de que a votação na ONU não passou de gesto oco e substituto pressuposto de qualquer ação efetiva para pôr fim aos crimes de Israel.

Ajuda a lembrar que já não existe “solução dos dois estados”. Na Palestina histórica continua a haver uma única entidade geopolítica. Não é possível que o mundo admita que Israel continue a entrincheirar-se, com seu estado de apartheid, racista e colonialista, naquela terra.

Os palestinos ainda arrancam alguma esperança, não de gestos cenográficos ocos na ONU, mas do movimento de base de solidariedade, que insiste em denunciar os crimes de Israel e exigir que sejam punidos. Esse movimento, sim, marcou um belo tento essa semana, quando o cantor Stevie Wonder cancelou sua participação em evento previsto para arrecadar fundos para o exército de Israel, e que foi alvo de intensa campanha de protestos. [2]

Ações como essa, de figuras do mundo cultural, indicam que a campanha pelo boicote, desinvestimento e sanções [orig. boycott, divestment and sanctions (BDS)], campanha que reproduz o que foi feito contra e ajudou a derrubar o regime de apartheid da África do Sul, vem ganhando força e legitimidade maiores a cada dia.

É campanha que não depende de negociar pressupostos direitos para criar algum miniestado na Cisjordânia, que já nascerá sitiado por regime repressivo apoiado pelos EUA, mas que visa a restaurar plenamente os direitos de todos os palestinos, estejam onde estiverem.

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Notas de rodapé

[1] 1/12/2012, Há’aretz, Natasha Mozgovaya  em: “Clinton calls on Israel to embrace moderate Palestinians, negotiations”

[2] Vídeo (em inglês) a seguir: “Inside Story - Palestine: The meaning of a status upgrade”

[3] Há notícia sobre o cancelamento em: 30/11/2012, Huffington Post: “Stevie Wonder & Israel Defense Forces: Singer Cancels Concert In Light Of Conflict”

sábado, 1 de dezembro de 2012

A nova realidade em Gaza


1/12/2012, Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ramzy Baroud
Há fenômenos que não se explicam pela lógica ordinária, nem em linguagem técnica, muito menos em discursos oficiais. Como Gaza conseguiu reagir e resistir com tal vigor, enfrentando Israel e sua mais recente guerra, apesar dos anos de sítio sangrento e sob agressão ininterrupta, ainda mais enfraquecida, como parecia, depois dos ataques israelenses de 2008-9? Impossível explicar, na linguagem fora de moda dos “analistas” e “especialistas” da imprensa-empresa que há hoje. Por menos que digam, porém, muitos já viram que está emergindo em Gaza uma nova realidade.

Na “Operação Chumbo Derretido” [ing. Cast Lead] de 2008-09, Israel matou mais de 1.400 e feriu mais de 5.000 palestinos. Foi como pescar num barril. A maioria das vítimas foram civis, como sempre é, nas guerras de “autodefesa” de Israel. Investigação conduzida pela ONU, cujo relatório foi publicado em setembro de 2009 concluiu que há “provas de graves violações de direitos humanos e de leis humanitárias cometidas por Israel durante o conflito de Gaza; de que Israel praticou atos que se definem como crimes de guerra; e, possivelmente, também cometeu crimes contra a humanidade”.

Não faltaram indiciamentos e condenações, como certamente também não faltarão nas análises que se façam dos mais recentes oito dias de guerra de Israel contra Gaza. Muitos já falam de o quanto a opinião pública começa a virar-se contra Israel; de que o autodeclarado Estado Judeu está perdendo o controle sobre a velha narrativa, sempre repetida, de David versus Golias; ou de como os EUA já não conseguem proteger Israel, ante a angústia profunda de milhões de palestinos que vivem sitiados, implorando ajuda e solidariedade ao mundo.

Tzipi Livni
Boa parte disso tudo é, sim, verdade. Mas também é verdade que Israel conseguiu arrastar Gaza e o resto da Palestina de volta ao status quo – apesar dos crimes hediondos que cometeu há quatro anos – que precedeu a guerra. A ex-ministra de Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni disse a jornalistas, dia 12/1/2009, que Israel deliberadamente “enlouqueceu” em Gaza, para “restaurar (...) o poder de contenção de Israel. O Hamás entende hoje que, se atirar contra israelenses, Israel reage enlouquecidamente. E isso é ótimo”.

Foi bom, sem dúvida, para os EUA e para muitas potências europeias que jantaram e tomaram vinho alegremente com Livni em Bruxelas, pouco depois da guerra, como se não houvesse milhares de mortos e outros milhares de feridos, ou como se famílias inteiras não tivessem sido assassinadas sem ter praticado crime algum; e como se uma nação inteira não estivesse ainda em luto pelos seus filhos, homens e mulheres.

Não é que Israel tenha sido especialmente competente no trabalho de restaurar a própria posição entre os círculos oficiais ocidentais nos últimos quatro anos, o que lhe daria confiança para novamente assaltar Gaza. De fato, Israel jamais perdeu essa posição. Aquelas potências (a começar por Washington e Londres) nunca deixaram de apoiar Israel com tecnologia assassina de ponta, estimulando a economia de Israel, apesar de, internamente, suas economias estarem em frangalhos e, claro, sempre apoiando, em todas as oportunidades, o direito de Israel “se autodefender”.

Os 22 dias de guerra de Israel contra Gaza em 2008-09 foram, de fato, uma continuação de outra guerra, longa, tão longa que é difícil demarcar datas. Palestinos em Gaza (e em todos os territórios ocupados) morrem ininterruptamente, em levas de mortos que aumentam ou diminuem, conforme o humor político reinante em Telavive.

Em 2008, o enfraquecido partido Kadima usou a guerra para ganhar votos, entre eleitores obcecados por segurança. Em 2012, outra vez, aí estão as eleições gerais em Israel. Nos dois casos, Israel derramou sangue palestino, no mesmo jogo da mesma política sangrenta. E as estrelas em ascensão na política israelense lá estavam, para impressionar seus eleitores subjugados.

Gilad Sharon
Quando “mais de 90% dos judeus israelenses apoiam a guerra de Gaza” (Ha'aretz, 19/11), é menos chocante ler Gilad Sharon (filho do ex-primeiro-ministro de Israel e várias vezes acusado de crimes de guerra, Ariel Sharon) escrever no Jerusalem Post: “Gaza deve ficar sem eletricidade, sem gasolina, sem carros que andem, nada, nada. Então, eles pedirão o cessar-fogo (...). Temos de arrasar, pôr no chão quarteirões inteiros de Gaza. Gaza no chão, toda Gaza, nada em pé. Os americanos não pararam em Hiroshima – os japoneses estavam demorando para render-se – então destruíram também Nagasaki”. [1]

Pois o que estava previsto para ser mais uma temporada de caça de civis e de combatentes em Gaza, como se fossem todos a mesma coisa, não saiu como estava previsto. A “Operação Pilar de Nuvem” foi pensada como coleção de oportunidades que o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu e seu ministro da Defesa, Ehud Barak colheriam festivamente, enquanto erguiam os dedos em gestos ameaçadores, e ganhariam o máximo de pontos políticos possíveis, antes de que a pressão internacional começasse a crescer. Não aconteceu assim. A guerra contra Gaza em 2012 foi fracasso político de proporções históricas para Israel.

Os balões de ensaio de Israel foram postos abaixo por centenas de foguetes palestinos que já chegaram bem perto no norte de Telavive e a oeste de Jerusalém. O que foi planejado para quebrar a resistência, para que nenhum palestino jamais voltasse a ousar reclamar da ocupação, do isolamento político imposto por Israel, do sítio sufocante, nem das guerras “de contenção” de Israel, resultou numa nova estranha realidade que forçou israelenses, por todos os cantos, a buscar abrigo. Quando as sirenes soaram, Israel parou; os israelenses afinal conheceram bem de perto o que os palestinos vivem praticamente sempre, todos os dias.

Morreram 167 palestinos e mais de 1.000 foram feridos. Seis israelenses morreram, entre eles um soldado ferido que morreu depois de implantado um cessar-fogo, mediado pelo Egito, dia 21 de novembro. Mas não é a quantidade de sangue derramado que torna diferente essa guerra, porque a proporção de mortos manteve-se horrendamente a mesma.

A guerra de 2012 foi diferente por causa da natureza da mensagem que o Hamás e outros grupos da Resistência tornaram, afinal audível.

Mesmo sitiados e famintos, os habitantes de Gaza são capazes de resistir, mesmo depois de seis anos de bloqueio hermético que os forçou a cavar centenas de túneis pelos quais buscaram salvação no vizinho Egito.

Mahmoud Abbas (Latuff)
Em Ramallah, a Autoridade Palestina – já com baixa credibilidade, deve-se dizer – tornou-se ainda mais irrelevante que nunca. Mahmoud Abbas tentou impor-se, ele mesmo, como um lado do conflito, falando de uma resistência popular, mas pacífica, em discurso televisionado. Convenientemente, explicou que a guerra israelense era tentativa de coagi-lo a não reivindicar o status de membro (quase) sem direitos para a Palestina, na ONU. E, enquanto os líderes israelenses tentavam entender a nova variável na velha equação israelense sempre injusta da guerra contra os palestinos, altos dignitários árabes não paravam de desembarcar em Gaza, sinal de que viam, também, que daquela vez as coisas seriam diferentes. Os norte-americanos também perceberam.

Ao mesmo tempo em que a mídia nos EUA falava sobre uma mudança na política externa dos EUA, que passaria a focar-se no sul e sudeste da Ásia, a alarmante natureza da nova guerra obrigou a secretária de Estado Hillary Clinton a voar para Israel, a oferecer mais apoio e mais solidariedade. Líderes europeus fizeram o mesmo, forçados a redemarcar as linhas. Dessa vez, Gaza foi um ponto de divisão e virada, na política regional e na política internacional: a resistência de Gaza foi fator decisivo, numa mudança tectônica.

Muitos em Israel tentaram distorcer os fatos, explicando que um cessar-fogo com o Hamás seria bom para Israel, porque daria “sossego” às comunidades de fronteira. E os objetivos de Israel teriam sido alcançados, de certo modo. O correspondente militar do jornal Ha'aretz, Amos Harel muito se esforçou para suavizar o golpe, dizendo que “A arte de medir o nível do poder de contenção não é ciência exata. Ninguém esperava que ações falhadas contra o Hezbollah em 2006 levariam a seis anos e meio de calma (que por hora ainda persiste) na fronteira do Líbano”.

Mas a questão é que Israel não tinha intenção alguma de obter paz e tranquilidade. Por décadas, Israel obrou para assegurar monopólio completo da violência e, com ele, o poder de punir, prender, intervir, ocupar e “dar lições” a quem bem entendesse, quando quisesse. Os ataques recentes de Israel contra o Sudão, os ataques passados contra o Iraque, a Tunísia, a Síria, as horrendas guerras contra o Líbano e as infinitamente repetidas ameaças ao Irã são eventos vivos na memória.

Não há dúvidas de que houve mudança, e grande. Não que os palestinos tenham conseguido reduzir o desequilíbrio do poder, mas conseguiram impor sua resistência como fator na equação da “segurança” de Israel que, antes, sempre foi determinada exclusivamente por Israel.

Palestinos festejam trégua na Faixa de Gaza
Apesar das pesadas perdas, milhares de palestinos dançaram de alegria em toda a Faixa de Gaza. Ajoelharam-se e rezaram ombro a ombro com os combatentes, agradecendo a Deus pela “vitória”. Havia homens armados, com o rosto coberto, às centenas, entre os gazenses em festa unidos aos combatentes. Israel e seus protetores começaram logo a apontar dedos acusatórios na direção, sobretudo, do Irã. Mas suas palavras naufragaram nos ecos dos cantos palestinos.

Todos os partidos e lados sabem que algo fundamental mudou, embora a batalha esteja longe de decidir-se. Está para começar guerra de outro tipo.



Nota de rodapé
[1] 19/11/2012, The Telegraph, Demien McElroy em: Ariel Sharon's son Gilad calls on Israel to “flatten Gaza”.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que Israel atacou Gaza... outra vez?


29/11/2012, Hamid Dabashi, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hamid Dabashi é professor da cátedra Hagop Kevorkian de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade Columbia, NY. Acaba de lançar seu novo livro – Arab Spring: The End of Postcolonialism – pela editora Zed.


Bombardeio de Israel sobre as áreas civis de Gaza
Falando numa conferência de imprensa depois do anúncio do cessar-fogo na 4ª-feira, 21/11, o ministro da Defesa Ehud Barak disse que: “Todos os nossos objetivos foram alcançados, acabar com os foguetes Fajr, plataformas de lançamento e escritórios do Hamás”. Mas em seguida, ele mesmo se autodesmentiu: “E mesmo agora, nesse momento, tarde da noite, continuam a cair foguetes em território israelense. As comunidades do sul de Israel continuarão a ser atacadas nos próximos dias”. E, no frigir dos ovos, concluindo, Barak “agradeceu ao Exército de Israel e seus comandantes, e ao governo Obama pela ajuda para financiar o “Domo de Ferro” [antimísseis]”. [1]

Pelo menos, não se vangloriou de ter assassinado 161 palestinos, no mínimo; entre os quais 71 civis. [2]

Por hora, à parte a evidência de que o ministro de Defesa de Israel não consegue engatar duas frases consecutivas sem se autodesmentir, o que, precisamente, os israelenses teriam conseguido nessa mais recente rodada de bombardeio assassino contra Gaza – e por que, para começo de conversa, lançaram esse novo ataque?

O ministro da Defesa diz que alcançaram “todos os seus objetivos”, a começar por “destruir os Fajr rockets”; em seguida, na linha adiante, admite que “os foguetes Fajr continuam a chover sobre Israel”. Quem produz essas história alucinadas? Quem acredita nessas conversas – por que se preocupar com isso? De fato, para quem tente entender o ataque israelense contra Gaza, o que digam os senhores-da-guerra de Israel não faz, mesmo, diferença alguma.

Assassinaram o agente que fazia o acordo de paz

“Acho que Israel cometeu erro estratégico grave e irresponsável ao assassinar o comandante Jaabari”. Não é avaliação feita por palestino, ou árabe, ou muçulmano, em artigo publicado por revista esquerdista, islamista ou anti-Israel. É a avaliação de Gershon Baskin, o negociador israelense que estava em contato com o Hamás; e essa avaliação foi publicada no New York Times  [3]. Baskin diz mais:

Gershon Baskin
Passando mensagens de um lado para o outro, constatei, pessoalmente, que o comandante Jaabari não estava interessado apenas em algum cessar-fogo de curto prazo; foi também o homem encarregado de implementar outras negociações anteriores negociadas com a agência de inteligência egípcia. O comandante Jaabari implantou e fez valer aqueles acordos de cessar-fogo só depois de confirmar que Israel, sim, concordara em suspender os ataques contra Gaza. Na manhã do dia em que foi assassinado, o comandante Jaabari recebera minuta de acordo para um cessar-fogo de longo prazo com Israel – que incluía mecanismos para fiscalizar os movimentos e ações dos dois lados e assegurar o cumprimento do que fosse acordado. Essa minuta de acordo fora negociada por mim e pelo vice-ministro de Relações Exteriores do Hamás, Sr. Hamad, na semana anterior, quando nos encontramos no Egito.

Assim, se Israel está de fato interessada em paz e em proteger seus próprios cidadãos, como Barack Obama e outros sionistas norte-americanos vivem a repetir que estaria, nesse caso por que assassinar a sangue frio a única pessoa capaz de construir paz efetiva e, imediatamente depois, lançar ataque massivo contra alvos civis, ataque que, sem possibilidade de dúvidas, desencadearia resposta de vingança feroz? Nada disso faz qualquer sentido.

Esse fato, agora corroborado por um alto funcionário israelense, expõe o contexto mais amplo no qual se vê que Israel se interessa por qualquer coisa, menos pela paz, conclusão inescapável e claramente evidente no assalto incansável contra terras palestinas, roubadas, de fato, dia a dia, todos os dias, sem que algum governo dos EUA ou a chamada “comunidade internacional” tenham jamais tido força para impedir a ação criminosa dos colonos israelenses, violentos, assassinos, verdadeiras gangues organizadas para roubar terras palestinas. Nada mais distante, portanto, dos planos de Israel que paz nem, sequer, algum arremedo de paz – o que se viu ainda recentemente na nova rodada de atrocidades contra Gaza.

Cada vez que há um ataque militar, contra o qual não se vê qualquer reação, é sinal de que, enquanto Israel bombardeia Gaza, em outros pontos da Palestina há israelenses roubando terras palestinas. As gangues de colonos vivem dia de ação intensa, sempre que há essas ‘'operações militares'’ israelenses: enquanto duram os ataques, o roubo de terras palestinas pode avançar sem qualquer tipo de obstáculo ou impedimento. Essa ação de roubo ininterrupto de terras – que se faz à luz da história – é absolutamente oposta a qualquer noção (ou desejo) de paz.

Obama gosta de repetir que os israelenses tem (teriam) o direito de se defenderem. É o mesmo que dizer que tem(teriam) pleno direito de roubar cada dia mais terra palestina, aterrorizar os palestinos e continuar a consolidar o estado de apartheid racista de Israel. É estado de apartheid tão racista que, enquanto Obama defende Israel, o próprio aparelho de propaganda e os próprios agentes de propaganda-em-chefe em Israel zombam, pelas redes sociais, do próprio Obama e fazem piada sobre a cor da pele do presidente dos EUA! [4]

Será que a África do Sul também tem (teria) direito de defender o seu próprio estado racista de apartheid? Ou o sul racista dos EUA tem (teria) direito de defender o seu próprio estado de apartheid escravista? E a Índia tem (teria) também direito de pregar o fundamentalismo hindu?

Grande parte das pessoas que hoje vivem em Gaza provêm, de fato, de áreas que os sionistas hoje chamam de “Israel”. Tiveram suas terras roubadas e foram empurrados para um grande campo de concentração, no qual, hoje, são bombardeados pelos jatos de Israel. Israel controla todas as entradas e saídas e todas as fronteiras desse campo de concentração e decide, até, a quantidade de calorias que os homens, mulheres e crianças palestinos podem comer.

A militarização radical

Segundo relatórios recentes [5], “cerca de 10% das crianças palestinas em Gaza, com menos de cinco anos de idade, já tiveram o crescimento comprometido pela desnutrição. Relatório recente de Save the Children e Medical Aid for Palestinians constatou que, além da desnutrição, a anemia alastra-se na população, afetando 2/3 dos bebês, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de 1/3 das mulheres grávidas”. Será essa a “tática” dos israelenses para promover a paz?

Por tudo isso, pode-se dizer que desde o primeiro dia de existência, até hoje, Israel jamais, nem por um só dia, interessou-se por construir qualquer paz. O único interesse de Israel sempre foi expulsar e assassinar mais e mais palestinos, e roubar suas terras – e o presidente Obama, “Mr. Audácia da Esperança” aí está, hoje, dedicado ainda a promover o projeto sionista israelense, apesar de soldados israelenses racistas zombarem do presidente e de milhões de cidadãos norte-americanos por serem negros, nas mais repugnantes manifestações imagináveis de racismo.

E voltamos sempre à pergunta inicial: por que, afinal, Israel atacou Gaza... outra vez?! Há um traço bem evidente de ambição eleitoreira aí operante – como Marwan Bishara escreveu em Al-Jazeera, [6] imediatamente depois de Israel ter (re) começado a bombardear Gaza: 

Marwan Bishara
Netanyahu, como seus predecessores, está usando o assassinato do líder do Hamás, Ahmed al-Jaabari e a subsequente escalada militar para minar as lideranças políticas na Palestina (do Hamás e do Fatah) e aumentar suas chances de reeleição, incendiando as questões de segurança nacional de Israel, pondo-as em evidência acima das questões de segurança econômica, na mente dos eleitores israelenses.

Bishara lembra que: “Há seis anos, escrevi um artigo sob o título Oriente Médio: o ciclo das retaliações tem de acabar [7] (em inglês) que se aplica hoje, com pequenas correções de datas, alguns nomes etc. Dado que os fatos não mudam e repetem-se incansavelmente, repito também a análise”.

A vantagem de reler o artigo de Bishara é ver com perfeita clareza o ciclo vicioso de desculpas e mentiras que Israel continua a impingir ao mundo: Israel não tem nenhuma intenção de fazer ou tentar qualquer tipo de paz. A única intenção de Israel é assassinar o maior número possível de palestinos para roubar e confiscar suas terras.

Outra consequência óbvia desse ciclo de mentiras que sempre se repete é a militarização radical da Resistência palestina, que vê as crianças palestinas serem programática, sistematicamente assassinadas por esse inimigo pervertido – militarização radical a qual, por sua vez, é pretexto perfeito para justificar a massa de bilhões de dólares em ajuda militar que Obama oferece a Israel, armamento tão poderoso que, por sua vez, explica que a República Islâmica também continue a ter imenso poder em Gaza, como ajuda à Resistência.

E assim está criado o ciclo vicioso e/ou a profecia que se autorrealiza. A propaganda pró Israel intensifica-se em Washington, DC; e, em todo o mundo árabe cresce a fúria antissionista, a começar por Teerã – o que é exatamente o de que precisam Israel e a República Islâmica para se manterem relevantes nas questões da Região.

Muitos lembraram que com certeza haveria meios melhores para testar o novo sistema antimísseis de Israel, “Domo de Ferro” – sistema de defesa antiaérea considerado à prova de ataques –, presente que Obama deu a Israel, pensando em instalá-lo ali para ser usado, adiante, num possível futuro ataque dos EUA contra o Irã.

A explicação talvez seja essa. Cercado já por pesados muros de apartheid, Obama agora protegeu toda a empreitada colonial israelense com um “Domo de Ferro” de vários bilhões de dólares. Ah! E o quanto é simbólico o tal “domo”!

Agora, Israel está completamente, não só metaforicamente, convertida em máquina autista, autocentrada, encapsulada dentro de seus próprios muros inexpugnáveis e, ainda, com uma cúpula de ferro a proteger-lhes a cabeça, como uma nave militar espacial vinda de planeta estrangeiro e distante, com o objetivo de matar a maior quantidade de seres humanos, adultos e crianças, e, sempre, em total impunidade. Agora, com o tal Domo instalado, talvez Obama espere que, pelo menos, no caso de algum país da região jogar alguma bomba sobre Israel, os senhores-da-guerra israelenses tenham alguns minutos para pensar e, com sorte, talvez decidam não se pôr a bombardear Gaza.

Obama pescando
Tudo faz crer que a principal função da operação Gaza é mostrar a superioridade militar de Israel: conseguiram cercar 1,7 milhão de seres humanos no maior campo de concentração que o mundo jamais viu, para poder bombardeá-los sem qualquer “risco” de punição. Enquanto isso, Barack Obama, depois de dar luz verde a Israel, viajou para pescar em Myanmar.

A verdadeira ameaça existencial

Esses e talvez outros fatores estão todos no campo das possibilidades – mas nenhuma delas dá conta, nem singularmente nem coletivamente, dos motivos pelos quais Israel sempre, de tempos em tempos, põe-se a assassinar palestinos. Portanto, a pergunta continua: por quê?

Netanyahu jamais se teria atrevido a atacar Gaza quando a Primavera Árabe estava em plena floração. Nada disso. Naquele momento, dedicou-se a ameaçar invadir o Irã. Teria sido uma segunda linha de ataque de seu governo. – Mas não deu certo; Adelson e Murdoch não conseguiram comprar-lhe um presidente Republicano o qual, aí sim, teria presenteado Netanyahu com sua sonhada guerra ao Irã. E lá está Obama, outra vez, no Salão Oval. Então... Netanyahu atacou Gaza, como sempre, para mostrar que ele manda, que é o chefão, que imensa superioridade militar é a dele! Eis aí, afinal, porque as coisas sempre se repetem e Israel sempre volta e volta a atacar Gaza.

Mas, por baixo de todos esses fatores, há sempre o medo instintivo de Netanyahu, que treme de medo das revoluções árabes – dos levantes democráticos de ponta a ponta no mundo árabe.

Mahmoud Ahmadinejad
Porque esses levantes e essa democracia, sim, são A ameaça existencial que pesa contra Israel. Fantasiar que Mahmoud Ahmadinejad ou, mesmo, a República Islâmica seriam ameaça existencial contra Israel é piada perversa, doentia, que a máquina de propaganda israelense transformou em bicho-papão assustador, horrendo, apavorante.

As revoluções árabes, mesmo no estágio nascente, turbulento em que estão (ou principalmente nesse estágio) são, sim, ameaça existencial contra as colônias de apartheid exclusivas para judeus [orig. are the existential threat to the Jewish apartheid settler colony]. Para piorar, nem o partido Likud, nem os sionistas liberais parecem ter qualquer ideia sobre o que fazer ou propor para redesenhar o destino de mais de 6 milhões de judeus colhidos na armadilha do sionismo, essa ideologia falida, que tenta sobreviver cercada por trás de seus muros-armadilhas de apartheid e, agora, também coberta por um Domo-armadilha de Ferro.

Fazer chover bombas assassinas sobre palestinos inocentes em Gaza foi mais uma tentativa desesperada para fazer o relógio andar para trás, fazê-lo voltar a dezembro 2008/janeiro 2009, apenas um ano antes de as revoluções árabes eclodirem. Foi ato de nostalgia assassina pervertida, de sionistas alucinados, que se veem atropelados pela história.

É possível que Netanyahu também estivesse testando Mursi? Mas, nesse caso, não teria sido o único: egípcios e árabes em geral também estão testando Mursi (...).

Mas, de fato, o medo de Netanyahu e a causa de ter perdido o rumo e o prumo, não é Mursi. O que transtorna Netanyahu é, isso sim, a erupção vulcânica que, para começar, levou Mursi ao poder, em eleições livres. A Israel que Netanyahu governa, além da Arábia Saudita e outras petroditaduras retrógradas do Golfo Persa, e além dos EUA, por um lado, e, por outro, também o clericato que governa o Irã e a ditadura síria, todos esses temem um único e inegável fato: as revoluções árabes, que – mais dia menos dia, imediatamente ou dentro de algum tempo – porão abaixo todos esses regimes de opressão.

Nas excelentes palavras de of Haidar Eid [8], professor da Al-Aqsa University, em Gaza:

Haidar Eid
Agora é a hora da verdade, hora de mandar mensagem bem clara ao novo mundo árabe: a era Mubarak e Abu el-Gheit é passado. O poder de “contenção” que dependia do massivo desequilíbrio de poder entre Israel e os palestinos, já não está nas mãos de Israel e dos seus aliados ocidentais. Esse poder hoje está com os homens e mulheres comuns nas ruas de Túnis, Cairo, Rabat, Doha, Amã e Muscat. As manifestações, que irromperam em Londres, New York, Glasgow e outras cidades, todas elas, se traduzirão em nova realidade, concreta. Nesses novos tempos, palestinos e árabes, os egípcios em particular, devem ser parceiros da paz, não mediadores em negociações que os povos não controlam.




Notas de rodapé

[1]  21/11/2012, Jerusalem Post, em: “Barak: We achieved all our goals against Hamas”
[2]  21/11/2012, Associated Press, Josef Federman,em: “Cease-fire begins between Israel and Hamas”
[3]  16/11/2012, New York Times, Gershon Baskin em: “Israel’s Shortsighted Assassination”
[5]  17/11/2012, Informed Comment, Juan Cole: “Top Ten Myths about Israeli Attack on Gaza”
[6]  18/11/2012, redecastorphoto, Marwan Bishara, em: “Oriente Médio redux: O Hamás é consequência, não causa, da violência da ocupação” (português)
[7]  30/6/2006, New York Times, Marwan Bishara em: “Mideast: End the cycle of retaliation - Editorials & Commentary - International Herald Tribune” (em inglês).
[8]  19/11/2012, Al Jazeera, Haidar Eid, em: “Gaza 2012!”