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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Massiva “Intifada” popular: a guerra que derrotará Israel

18/7/2014, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Quando os cadáveres de três colonos israelenses – Naftali Frenkel e Gilad Shaar, ambos com 16 anos, e Eyal Yifrach, 19 anos – foram encontrados dia 30/6/2014 perto de Hebron no sul da Cisjordânia, Israel entrou em luto profundo, e uma onda de simpatia cresceu em todo mundo. Os três estavam desaparecidos havia 18 dias, em circunstâncias até hoje não esclarecidas.

Todo o episódio, sobretudo depois do fim triste, pareceu traumatizar os israelenses a ponto de não verem, ali, algumas duras verdades sobre os colonos e a militarização da sociedade israelense. Além das fotos dos três infelizes jovens (o mais velho dos quais era soldado profissional), os “analistas” nada ofereceram que ajudasse a ver o contexto dos eventos. Raros comentaristas, se algum o fez, culpou o culpado mais flagrantemente visível – as políticas expansionistas de Israel, que semearam e continuam a semear ódio e violência extrema, com vastos derramamentos de sangue.

Antes de os cadáveres serem encontrados, já se conhecia a face real do governo de extrema direita do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Poucos, algum dia, tiveram qualquer ilusão sobre a possibilidade de alguma ocupação “pacífica”, por governo que incluía figuras como Avigdor Lieberman, no Ministério de Relações Exteriores; Naftali Bennett, como ministro da Economia; e o vice-ministro da Defesa Danny Danon. Mas como havia “crianças” – foi a palavra que o próprio Netanyahu usou – envolvidas, nem os mais críticos esperaram qualquer tipo de análise propriamente política.

Até entre os palestinos houve onda de simpatia e preocupação com os colonos desaparecidos. Mas evanesceu rapidamente, ante a violência da resposta israelense (na Cisjordânia, em Jerusalém e, na sequência, com guerra total contra Gaza) – que toda a opinião pública respeitável, em todo o mundo, considerou desproporcional e cruel. Aquela resposta nada teve jamais a ver com a morte trágica dos três jovens. A guerra de Israel contra Gaza é obra de Netanyahu, de demorados e bem elaborados planos políticos.

Enquanto esquadrões-da-morte formados por israelenses partiam em surto alucinado de linchamento e limpeza étnica de palestinos, por toda Israel, em Jerusalém e na Cisjordânia – e surto de tais dimensões que houve quem o comparasse a um “pogrom” –  soldados israelenses da ocupação executavam operação de prisões em massa de centenas de palestinos, a maioria dos quais membros e apoiadores do Hamás.

O Movimento da Resistência Islâmica Hamás declarou que nada tivera a ver com a morte dos colonos, o que parece plausível, porque o Hamás jamais deixou de exigir os créditos das ações executadas pelo braço armado do Movimento. Claro que os estrategistas militares israelenses sabiam que o Hamás nada tivera a ver com as mortes.

Mas a atual guerra contra o Hamás tem pouco a ver com os colonos mortos. A atual guerra da Israel ocupante contra o Hamás só tem a ver com as circunstâncias políticas que antecederam o desaparecimento dos colonos.

Dia 15/5/2014, dois jovens palestinos, Nadim Siam Abu Nuwara, 17 anos, e Mohammed Mahmoud Odeh Salameh, 16 anos, foram assassinados por soldados israelenses, quando participavam de uma manifestação de protesto, parte das atividades do aniversário da Nakba, a Grande Desgraça, a Grande Catástrofe. Há vídeos que mostram que Nadim aproxima-se andando normalmente na direção de um grupo de amigos, até que cai, repentinamente, atingido por uma bala do exército de Israel. Vídeo e fotos a seguir:


Os assassinatos de Nadim Siam Abu Nuwara, 17 anos, e Mohammed Mahmoud Odeh Salameh, 16 anos pelos soldados de Israel

A Nakba aconteceu há 66 anos, quando emergiu o hoje chamado “conflito” árabe-israelense. Uma grande onda de judeus sionistas invadiu a Palestina e expulsou de suas casas estimados um milhão de palestinos. Israel foi implantada sobre as ruínas daquela Palestina.

Nadim e Mohammed, como jovens de várias gerações desde a Nakba, foram mortos a sangue frio, quando caminhavam para relembrar aquele êxodo. Em Israel praticamente não houve reação alguma às duas mortes. Mas a revolta palestina, que parece viver em processo de constante acumulação – sempre sob ocupação militar, e sob condições econômicas dificílimas – estava alcançando, mais uma vez, o ponto de explosão.

De certo modo, a morte desses dois jovens palestinos serviu como fator de “distração” e “desligou” a atenção dos palestinos da complexa desunião política que aflige há anos a liderança e a sociedade palestina. Aquelas mortes foram como um lembrete de que a Palestina, como ideia, como luta e como lócus de ação criminosa de castigo coletivo, ultrapassa em muito os limites da política e, até, os limites de qualquer ideologia.

A morte daqueles dois jovens nos relembrou que há muito mais na Palestina que as ideias e planos do “presidente” da velha Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e seu subtimoneiro na sede em Ramallah; e muito mais, também, que os cálculos estratégicos regionais do Hamás sobre ascensão e queda da Primavera Árabe.

Funeral de Nadim Siam Abu Nuwara e  Mohammed Mahmoud Odeh Salameh
A reação israelense à morte dos colonos foi muito diferente. Depois de encontrados os cadáveres, a direita e a extrema-direita israelenses puseram-se a exigir vingança contra as comunidades palestinas. Os esquadrões-da-morte israelenses organizaram-se sob o slogan “morte aos árabes”, revivendo uma velha noção de identidade palestina que existia antes de haver Fatah e Hamás.

Talvez paradoxalmente, a dor e a fúria geradas pela morte de Mohammad Abu Khdeir, 17 anos, queimado vivo por colonos, como parte do surto de violência dos esquadrões-da-morte israelenses, reforçou ainda mais esse renascimento da antiga identidade nacional árabe palestina.

Essa identidade muito sofreu por causa dos muros israelenses, das táticas militares e da própria desunião entre os palestinos; mas voltou a se recompor, colando novamente seus próprios pedaços, num processo que faz lembrar os eventos que precederam o primeiro e o segundo levantes – as Intifadas de 1987 e 2000.

Porém, diferente das Intifadas anteriores, as dificuldades para encontrar uma voz de comando unificada, dessa vez, parecem insuperáveis. Abbas é líder muito fraco, que já cedeu demais às exigências da “segurança” israelense e fez muito pouco para defender os direitos de seu próprio povo. É espécie de relíquia de era já passada, que só sobrevive porque é a melhor opção com que Israel e os EUA contam nesse momento.

Depois da violenta resposta israelense à morte dos colonos, Abbas tentou coordenar buscas com os israelenses. Várias vezes os funcionários do governo do Fatah tiveram de afastar-se, para não serem testemunhas da violência brutal dos soldados israelenses contra civis palestinos, na Cisjordânia.

Colonos israelenses em Shufat e Jerusalem raptaram e queimaram viva esta criança mártir palestina
É perfeitamente claro que não haverá terceira Intifada que deixe intactos Abbas e seu destroçado aparelho político. Por isso, precisamente, os soldados da Autoridade Palestina impediram que palestinos se manifestassem na Cisjordânia contra a violência israelense nos territórios ocupados, violência sem limites que culminou numa guerra total contra Gaza, que já matou e feriu centenas de palestinos.

Fosse qual fosse o crédito que Abbas tivesse acumulado por aproximar-se do Hamás e constituir um governo de unidade em junho passado, ele já o perdeu e também rapidamente. Aquela “ação política” já foi encoberta pelos próprios fracassos de Abbas, que não cumpriu as promessas do acordo de unificação. Além disso, a relevância da “autoridade” de Abbas foi rapidamente eclipsada pela violência israelense, o que expõe a total irrelevância de seu governo, para o cálculo político dos israelenses. 

Quando Israel lançou sua campanha massiva de prisões que visou o Hamás na Cisjordânia, o braço político do Hamás já analisava “alternativas” para substituir o governo de unidade em Ramallah.

Os objetivos do Hamás não estavam sendo alcançados. O acordo de unificação visava a vários objetivos: pôr fim ao isolamento político do Hamás em Gaza, resultante do cerco crescente feito pelo Egito do general-ditador al-Sisi; resolver a crise econômica na Faixa; e, também, permitir que o Hamás voltasse a ser, sobretudo e antes de tudo, movimento de resistência, como antes.

Mas mesmo que o Hamás conseguisse “reposicionar” a própria marca, baseado no seu próprio modelo político e de resistência, Israel estava decidida a desmontar qualquer possibilidade de haver qualquer governo de unidade palestina real. Acabar com aquela unidade converteu-se, de fato, em quase obsessão para Netanyahu.

O desaparecimento dos três colonos deu novo ímpeto à determinação de Netanyahu de pôr fim a qualquer “unidade”. Imediatamente iniciou campanha massiva para pressionar Abbas a romper com o Hamás.

Mas há ainda mais que isso, na guerra de Israel contra Gaza. Netanyahu teme mortalmente uma Intifada que una os palestinos, se oponha à Autoridade Palestina e impeça a progressão das construções ilegais nos territórios ilegalmente ocupados: a guerra contra Gaza tem o objetivo de criar uma outra “via”, algo que desconcentre a atenção da população, que a distraia do processo de construir e deixar crescer um sentimento coletivo entre todos os palestinos: na Palestina e também entre os cidadãos palestinos em Israel.

Essa unidade é muito mais alarmante para Netanyahu que algum acordo político entre Fatah e Hamás, ditado por circunstâncias regionais. O ataque ao Hamás é tentativa, por Israel, de contra-atacar a nova narrativa, que já não diz respeito exclusivamente a Gaza e ao cerco de Gaza, mas envolve agora toda a Palestina e seus coletivos, independente de que lado estejam do “muro de separação” dos israelenses.

Uma verdadeira unidade dos palestinos, que culmine em massiva Intifada popular, é o tipo de guerra que Netanyahu de modo algum conseguirá vencer: é a guerra que derrotará Israel.




[*] Ramzy Baroud, palestino da diáspora, é colunista internacional e editor do site Palestine Chronicle. Seu mais recente livro é My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold History [Meu pai era um revolucionário: a história não contada de Gaza], publicado pela Pluto Press.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Iraque paga o preço da intervenção sectária dos EUA

18/6/2014, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guerreiros xiitas preparam-se para a luta em Bagdá - 13/6/2014
Xiitas armados cantavam “Labeiki ya Zaynab”, brandindo os rifles frente às câmeras de TV em Bagdá, dia 13/6/2014. Aparentemente, se preparavam para a luta difícil que tinham pela frente. Para eles, seria como se um canto de guerra respondesse ao chamamento de Zaynab, filha do Imã Ali, o grande califa muçulmano que viveu em Medina há 14 séculos. Foi o período durante o qual a seita xiita emergiu lentamente, baseada numa disputa política cujas consequências se sentem ainda hoje.

O canto, só ele, basta para demonstrar a feia natureza sectária da guerra no Iraque, que nos últimos dias atingiu ponto sem precedentes. Menos de mil combatentes do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ing. ISIL) avançaram contra a maior cidade do Iraque, Mosul, dia 10/6, forçando duas divisões do exército iraquiano (cerca de 30 mil soldados) a uma retirada caótica.

Aiatolá Ali al-Sistani
O chamado às armas foi feito por um dos mais reverenciados clérigos xiitas do Iraque, o Grande Aiatolá Ali al-Sistani, e lido num dos sermões da oração da 6ª-feira (13/6/2014) em Kerbala:

(...) Todos os que tenham condições de portar uma arma e lutar contra os terroristas em defesa do próprio país (...) devem unir-se como voluntários às forças que já combatem para alcançar esse objetivo sagrado – dizia um trecho do sermão.

Os terroristas dos quais falou Sistani são o ISIL, estimados em apenas 7 mil terroristas na região. São bem organizados, muito bem equipados e muito cruéis.

Para conservar os seus já consideráveis ganhos territoriais, o ISIL moveu-se rapidamente para o sul, aproximando-se de outras cidades iraquianas. Atacaram e tomaram Baiji, dia 11/6/2014. No mesmo dia, tomaram Tikrit, cidade do ex-presidente Saddam Hussein do Iraque, onde receberam reforços de ex-combatentes ba’athistas.

Por dois dias tentaram tomar Samarra, sem conseguir; voltaram-se então para o leste de Bagdá, contra as cidades de Jalawala e Saaddiyah. Não há como verificar a veracidade do noticiário sobre o que está acontecendo nas cidades que caem sob controle do ISIL, mas a considerar o legado sangrento que deixaram na Síria, e o que o próprio ISIL noticia das suas atividades, deve-se esperar pelo pior.

Em poucos dias, o ISIL já controlava grande extensão de terra, suficiente para alterar o mapa político do Oriente Médio previsto pelas potências coloniais França e Grã-Bretanha há quase um século.

É difícil antever o que o futuro guarda. O governo dos EUA está petrificado ante a ideia de voltar a envolver-se no Iraque.

Mas foi a ação dos EUA – em nome dos neoconservadores que em larga medida determinavam a política exterior dos EUA durante o governo de George W. Bush – que pôs fogo nesse conflito e gerou o incêndio que arde até hoje.

Em dezembro de 2011, os EUA reconheceram o próprio fracasso e retiraram-se do Iraque, na esperança de mesmo assim conservarem alguma influência sobre o governo iraquiano dos xiitas do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki. Falharam miseravelmente mais uma vez; hoje, é o Irã que tem influência considerável sobre o governo em Bagdá.

De fato, a influência e os interesses iranianos no Iraque são tão poderosos que, apesar das muitas “declarações” de arrogância e provocação que têm sido feitas pelo presidente Barack Obama dos EUA, os EUA não têm meios para intervir na mutável realidade no Iraque, sem a ajuda dos iranianos. Notícias que circulam na imprensa-empresa de EUA e Grã-Bretanha falam da possibilidade de uma “parceria” EUA-Irã para enfrentar os terroristas do ISIL, não só no Iraque mas também na Síria.

ISIL fuzila sumariamente a população xiita em Mosul (Iraque)
A história está-se acelerando a velocidade frenética. Alianças aparentemente impossíveis começam a criar-se muito rapidamente. Os mapas são apagados e redesenhados por linhas determinadas por combatentes mascarados armados com armas automáticas montadas em carrocerias de caminhonetes. É verdade que ninguém poderia prever esses eventos; mas quando alguns disseram que a guerra do Iraque poderia “desestabilizar” o Oriente Médio por décadas futuras, estavam falando precisamente do que hoje todos veem.

Quando Bush inventou sua guerra contra o Iraque para combater “al-Qaeda”, não havia “al-Qaeda” no Iraque; a guerra de Bush, sim, levou a “al-Qaeda” para o Iraque.

Um misto de húbris e ignorância – e nenhuma compreensão da história do Iraque – levou o governo Bush a inventar e manter aquela guerra horrível. Morreram centenas de milhares de iraquianos naquela aventura militarista imoral dos EUA. Os que não foram mortos foram presos, espancados, torturados, violentados ou fugiram, numa odisseia iraquiana sem fim.

Os norte-americanos brincaram levianamente com o Iraque, em vários sentidos. Dissolveram o exército; destroçaram todas as instituições políticas; tentaram refazer uma “nova” sociedade seguindo fórmulas do Pentágono e de analistas da CIA em Washington e na Virginia. Oprimiram os muçulmanos sunitas, deram poder aos xiitas e assim alimentaram a fogueira do sectarismo, sem medir qualquer consequência. Quando as coisas não saíram como o planejado, tentaram dar poder a alguns grupos xiitas e outros; e armaram grupos sunitas para combater a resistência iraquiana contra a guerra.

As consequências disso tudo são um mar de sangue. A guerra civil iraquiana de 2006-07 custou dezenas de milhares de mortos, que se somam à lista sempre crescente de vítimas de toda aquela aventura militarista dos EUA. Não houve eleição que não tenha sido fraudada, no esforço para remediar o irremediável; nenhuma técnica de tortura deixou de ser usada contra a rebelião; nenhuma “acordo” servil com os grupos sectários ou étnicos deixou de ser feito; não se economizou em nenhuma corrupção; e nem assim foi possível criar sequer algum arremedo verossímil de “estabilidade”.

Em vermelho, área do Iraque e da Síria atualmente ocupada pelo ISIL/ISIS
Em dezembro de 2011, os norte-americanos fugiram do inferno iraquiano, deixando para trás uma luta ainda em andamento e sem conclusão à vista.

O que se vê hoje no Iraque é parte integral da desgraça que os EUA distribuíram na região. Basta dizer que o líder do ISIL, hoje, Abu Baker al-Baghdadi, é iraquiano de Samarra, que combateu contra os EUA e foi preso e torturado em Camp Bucca – a maior prisão dos EUA no Iraque – por cinco anos.

Não seria muito exato dizer que o ISIL nasceu num calabouço de uma prisão norte-americana no Iraque. Seria preciso examinar com mais detalhe a história do ISIL, porque tem raízes que vão ao fundo desse conflito. É história tão cheia de mistérios quanto as figuras mascaradas que explodem gente e degolam gente sem nenhuma atenção aos elevados valores da religião que eles dizem representar.

Mas não há como negar que a orquestração ensandecida e ignorante que os EUA promoveram, para opressão em massa dos iraquianos – e contra, sobretudo, os sunitas, principalmente na guerra de 2003, antes de os EUA terem de bater em retirada apressada, foi fator importante, dos principais, na formação do ISIL – e para os horrendos níveis de violência do grupo extremista.

Não se sabe ainda se o ISIL conseguirá manter os territórios que tomou, nem se terá meios para enfrentar combate na Bagdá xiita controlada por EUA e Irã. Mas algumas coisas são certas:

A marginalização política sistemática das comunidades sunitas iraquianas é, ao mesmo tempo, sem sentido e insustentável. Um novo contrato social e político é indispensável, para reorganizar o que foi destruído pela invasão norte-americana e outras interferências externas, inclusive do Irã.

A natureza do conflito tornou-se tão complexa, que um acordo político no Iraque terá de ser amparado em acordo similar na Síria – que está servindo como criadouro de brutalidades, como o ISIL. É hora de começar a cuidar de tratar das feridas sírias e das feridas iraquianas, para que, afinal, possam começar a cicatrizar.



[*] Ramzy Baroud, palestino da diáspora, é colunista internacional e editor do site Palestine Chronicle. Seu mais recente livro é My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold History [Meu pai era um revolucionário: a história não contada de Gaza], publicado pela Pluto Press.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Redesenhando o Oriente Médio novamente - A Guerra Sectária disponível


24/10/2013, [*] Ramzy Baroud (Doha) – Counterpunch
Traduzido por João Aroldo  

http://www.raceforiran.com/wp-content/uploads/2010/04/Middle-East-Theatre-of-War-map2.jpg

Doha. As águas quentes do Golfo parecem tranquilas de onde estou sentado, mas tal tranquilidade dificilmente reflete os conflitos que esta região continua a gerar. A euforia da chamada Primavera Árabe já passou faz tempo, mas o que restou foi uma região que é rica em recursos oprimida com uma história facilmente manipulada que está em um estado de transição imprudente. Ninguém sabe como será o futuro, mas as possibilidades são amplas e, possivelmente, trágicas.

Em minhas muitas visitas à região, eu nunca encontrei tal falta de clareza quanto ao futuro, apesar do fato de que linhas de batalha foram traçadas como nunca antes. Governos, intelectuais, seitas e comunidades estão se alinhando em ambos os lados de várias divisões. Isto está acontecendo em diversos graus em todo o Oriente Médio, dependendo da localização do conflito.

Alguns países são diretamente engolidos em conflitos sangrentos e definidores – revoluções desencaminhadas, como no Egito, ou revoltas que se transformaram em guerras civis das mais destrutivas como na Síria. Inversamente, aqueles que foram poupados até agora da agonia da guerra, estão bastante envolvidos no financiamento de várias partes em conflito, transportando armas, treinando combatentes e liderando campanhas midiáticas em apoio de uma facção contra outra. Já não existe um conceito como objetividade midiática, nem mesmo em termos relativos.

No entanto, em alguns casos, as linhas também não são traçadas com nenhum grau de certeza. Dentro das fileiras da oposição síria ao regime Baath em Damasco, os grupos são muito numerosos para serem contados, e suas próprias alianças mudam em direções que poucos na mídia parecem notar ou se importam em noticiar. Nós arbitrariamente escrevemos sobre uma ‘'oposição'’, mas na realidade não há plataformas políticas ou militares verdadeiramente unificadoras, seja o Conselho Militar Supremo, Conselho Nacional Sírio ou a Coalizão Nacional Síria. Em um mapa interativo, formulado pela Al Jazeera provavelmente a partir do que parecem ser conclusões por atacado, o conselho militar “alega comandar em torno de 900 grupos e um total de 300.000 combatentes”. A alegação de controle real sobre esses grupos pode ser facilmente contestada, e há diversos outros grupos que operam baseados nas suas próprias agendas, ou unificados sob plataformas militares diferentes com nenhuma obediência a qualquer estrutura política, não àquelas em Istambul ou qualquer outro lugar.

É fácil, contudo, associar conflito perpétuo com o Oriente Médio supostamente inerentemente violento. Por quase duas décadas, muitos avisaram que a intervenção norte-americana no Iraque eventualmente ‘'desestabilizaria'’ toda a região. O termo ‘'desestabilizar'’ foi certamente relevante, já que Israel fez mais que sua parte para desestabilizar diversos países, ocupar alguns e destruir outros. Mas os prospectos de desestabilização política eram muito mais ameaçadores quando o país mais poderoso do mundo investiu muito de seu poder e recursos financeiros para fazer o trabalho.

Em 1990-91, depois novamente em 2003, e mais uma vez em 2006, o Iraque foi usado como um campo gigante de experimentações de guerra, “construção de estado” e guerra civil provocada pelos EUA. A região nunca havia passado por tal divisão para acomodar linhas sectárias como então.

O discurso que unificou a guerra norte-americana foi descaradamente sectário da maioria xiita oprimida pela minoria sunita. Eles reorganizam uma das paisagens políticas mais complexas do mundo dentro de algumas semanas, com base em um modelo imaginado por “especialistas” em Washington, com pouca experiência de vida real. Não só o Iraque foi feito em pedaços, mas foi refeito várias vezes para acomodar a compreensão inepta da história pelos EUA.

O Iraque continua a sofrer, mesmo depois que os EUA supostamente retiraram suas forças armadas. Milhares de pessoas morreram no Iraque nos últimos meses, com as vítimas identificadas como membros de uma seita ou de outra. Mas a doença do Iraque tornou-se uma doença regional. E como os EUA quando invadem países soberanos e reorganizam as fronteiras políticas, grupos como o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (ISIS) operam onde quer que encontrem sua vocação, sem respeito pelas fronteiras geográficas.

Formado no Iraque, em 2006, como uma plataforma para vários grupos jihadistas como a al-Qaeda no Iraque, ISIS tem sido um componente poderoso da selvagem guerra em curso na Síria. Apesar de sua má reputação, parece ter poucos problemas em encontrar o acesso e recursos. Pior ainda, em algumas partes da Síria, ele opera uma economia pouco estável, que lhe dá maior privilégio do que os grupos sírios caseiros.

Combatentes da al-Qaeda treinados na Somália combatendo na Síria
Esses grupos nunca teriam existido no Iraque, ou passariam com relativa facilidade para outros países, se não fosse pela invasão dos EUA. Eles funcionam como exércitos particulares, divididos em bandos menores de combatentes aguerridos que são capazes de se orientarem através das fronteiras e tomar o controle de comunidades inteiras. Al-Qaeda, um grupo pouco conhecido há 12 anos, tornou-se uma das partes interessadas no futuro de todos os países do Oriente Médio.

Para os países que não estão submetidos ao tipo de agitação que está sendo experimentado na Síria e no Iraque, eles, no entanto, entendem que é tarde demais para desempenhar o papel de espectador. É uma guerra total se desenvolvendo, e não há tempo para a neutralidade. Preocupantes previsões da mudança da paisagem física da região estão em andamento e poucos países parecem ser poupados.

A recente peça de Robin Wright no The New York Times, “Imagining a Remapped Middle East”, é uma especulação típica feita pelas elites políticas e meios de comunicação americanos sobre o Oriente Médio. Eles aplicaram a sério antes e depois da invasão dos EUA no Iraque, onde eles retalharam o país árabe de qualquer modo que fosse de acordo com os interesses dos Estados Unidos, na típica fórmula dividir para governar. Desta vez, porém, as perspectivas são assustadoramente sérias e reais. Todos os grandes jogadores, mesmo que aparentemente opostos uns aos outros, estão de fato contribuindo para a divisão plausível. De acordo com Wright, não só os países poderiam se tornar menores, alguns dos territórios retalhados poderiam fazer parte de países vizinhos.

Mesmo cidades-estados - oásis de múltiplas identidades, como Bagdá, enclaves bem armados como Misrata, a terceira maior cidade da Líbia, ou zonas homogêneas como Jabal al-Druze no sul da Síria - podem ter um ressurgimento, mesmo que tecnicamente dentro de países, escreveu Wright.

O infográfico que acompanha foi intitulado: “Como 5 países poderiam se tornar 14”.

Se tais eventos nunca vão se realizar, a previsão mesma fala da inegável natureza mutante do conflito no Oriente Médio, onde os países estão agora envolvidos em guerra. As novas linhas de batalha são agora sectárias, carregando os sintomas de uma guerra civil implacável do Iraque. Na verdade, os jogadores são mais ou menos os mesmos, exceto que agora o “jogo” se espalhou para ultrapassar fronteiras porosas do Iraque até espaços muito mais amplos onde os militantes têm o domínio.

Daqui, as águas quentes do Golfo parecem calmas, mas só aparentemente.
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[*] Ramzy Baroud é editor do Palestine Chronicle.com. É autor de The Second Palestinian Intifada: A Chronicle of a People’s Struggle e de My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold Story (Pluto Press,London).


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elites árabes insistem em repelir o Islã político

7/8/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito - Cairo -Praça Tahrir em 11/2/2011
As estações vão e vêm, e os países árabes continuam em convulsão sem fim. Falou-se muito de “Primavera Árabe”. Mas ainda que tivesse sido algum tipo de primavera, como a empresa-imprensa a pintou, não prosperou. E, hoje, já está metamorfoseada em algo muito mais complexo.

Mas tampouco se vê algum “Inverno Islâmico”, expressão muito apreciada por políticos e analistas israelenses. A dimensão islâmica das rebeliões árabes – algumas das quais convertidas em sangrentas guerras civis ou regionais – deveria ser muito clara e palpável, desde o início, para quem compreenda as realidades políticas além do modo como são usadas como ferramentas políticas.

O Islã sempre foi e sempre será componente da modelagem das compreensões coletivas das nações árabes. O Islã político está no coração da luta em curso, a qual, em alguns sentidos, é manifestação de um século de lutas entre o Islã como plataforma de expressão política, governança e jurisprudência, contra tendências ocidentais e ocidentalizantes.

Ao longo da história, jamais houve sequer uma união estável e bem-sucedida entre o Islã e as classes governantes árabes – bem-sucedida no sentido de ter contribuído para o progresso, para avanços nos direitos e para a prosperidade para todos. Ou os islamistas foram cooptados, ou reinou o conflito. A atrocidade dos resultados desses conflitos variou conforme a arte e a esperteza, maiores ou menores, dos governantes árabes aos quais coube gerir os conflitos.

Na Jordânia, sempre houve discórdia nos baixos escalões, entre partidos da oposição islâmica e a classe governante. Oscilou entre inclusão parcial de forças islâmicas num Parlamento que operava com pouca autoridade e surtos ocasionais ou crises políticas de pequenas consequências.

Mas nem todos os experimentos falhados falharam com o mesmo custo relativamente baixo. Na Argélia, uma tentativa de harmonização deu terrivelmente errada. A guerra civil argelina de 1991 durou mais de uma década e fez 200 mil mortos. E nada começou com sangue; as coisas começaram com uma eleição. A Frente Nacional de Libertação que governava cancelou as eleições depois do primeiro turno, temendo o que parecia ser sua derrota certa nas mãos da Frente de Salvação Islâmica.

Prisioneiros argelinos vigiados por soldados franceses
Guerra da Argélia 1954-1952 
A promessa converteu-se no segundo pior pesadelo da Argélia; o primeiro fora a luta ainda mais sangrenta, de 1954 a 1962, de libertação colonial, contra o império francês. Naquele momento, reuniam-se todos os ingredientes para um desastre completo. Havia um exército forte que governava o país mediante partido que enriquecera muito; uma oposição política que estava a um passo de alcançar o poder político pela via eleitoral; e uma massa de cidadãos prontos para avançar além de slogans gastos e da miséria econômica.

Ainda mais, uma geração de jovens radicalizados tinha sérias dúvidas, para começar, quanto à sinceridade da classe governante. O cancelamento das eleições foi a gota d’água, e o derramamento de sangue parecia ser o único denominador comum. Até hoje, a Argélia ainda vive enredada nas consequências daquele conflito, num impasse político sem mapa do caminho para lugar algum.

Por mais que não se deva generalizar, sabendo o quanto a imprensa-empresa obra para meter todos os árabes e muçulmanos num só e conveniente discurso, as similitudes entre a experiência argeliana e a experiência egípcia são espantosas.

Dia 25/1/2011, os egípcios revoltaram-se, com a esperança de que afinal romperiam o jugo das elites reinantes, do Partido Nacional Democrático e de seus aliados – o exército e a classe comercial-empresarial – que operavam como se toda a economia egípcia fosse eles e só deles.

Hosni Mubarak
Mas, por extensão, a revolução teria de ter mirado também o conglomerado mais amplo, regional e internacional, que apoiou e ajudou o regime de Hosni Mubarak e todo seu massivo aparelho corrupto de poder. De fato, sem elaborada rede de apoiadores, sob o comando dos EUA, Mubarak jamais se teria sustentado no poder durante 30 anos. Mas os egípcios não tiveram nem o tempo nem os necessários recursos para desenvolver uma agenda de política externa, e sua revolução já enfrentava obstáculos terríveis e empenhadas tentativas de sabotagem.

Por um lado, o exército continuava no poder, embora se autoproclamasse guardião da nação e de sua revolução, servindo-se para isso da mesma velha empresa-imprensa corrompida. Por outro lado, jamais houve qualquer estrutura coesa que permitisse que os egípcios traduzissem sua aspiração coletiva em algo tangível.

Os únicos fóruns disponíveis eram as eleições e os referendos, e todas as eleições e todos os referendos foram sempre, infalivelmente e democraticamente vencidos por partidos islamistas. Eleições justas e transparentes, sim, talvez; mas graças a elas, o regime de Mubarak ressurgiu à superfície da vida do Egito.

Servindo-se dessa infraestrutura jamais desmontada, com destaque para o aparato da empresa-imprensa mais corrupta, cujos empresários-proprietários eram industriais e comerciantes poderosos, o velho regime conseguiu inverter o sinal da revolução e virou-a contra ela mesma. Espertamente, venderam os protestos de 30/6/2013 como se fossem a via para corrigir o caminho errado tomado depois da revolta do 25/1/2011.

Mohamed Mursi
Numa estranha sucessão de eventos, milhões dos mesmos que haviam protestado contra Mubarak voltaram às ruas para protestar contra um Mohamed Mursi democraticamente eleito, aliados às mesmas velhas forças políticas que durante anos haviam devastado a economia do país; convocando o exército ao poder; e aliados às hordas de baltajiya – gangues de criminosos que, apenas dois anos antes, haviam aterrorizado os manifestantes.

Agora, o Egito está dando seus primeiros passos para tornar-se outra Argélia durante a guerra civil. Os líderes do golpe entenderão, de fato, as verdadeiras repercussões do que fizeram?

A Tunísia, a pequena nação que inspirou o mundo em dezembro de 2010, não está muito distante desse ponto, nessa triste saga. Houve recentemente mais um assassinato, dessa vez de um político nacionalista, Mohamed Brahmi, logo depois de outro assassinato de outro político muito conhecido, Chokri Belaid. A Tunísia permanece dividida entre os que querem derrubar o governo e os que insistem em defender seu direito democrático de governar. De um modo ou de outro, não há dúvidas de que mãos suspeitas tentam empurrar a Tunísia para um abismo chamado de “islamistas versus secularistas”.

A Síria é, de longe, o exemplo mais sangrento. Embora na guerra civil síria as apostas tenham subido muito mais e muito rapidamente, assim como a correspondente discussão, a guerra muito rapidamente assumiu traços de um perigoso conflito sectário, cujas implicações se ressentem na região e também longe dali.

Por uma via atormentada, os regimes árabes estão acumulando ganhos. Alguns os estão obtendo mediante guerra; outros mediante golpes militares; e alguns conspiram ativamente, na esperança de conseguir começar a jogar as próprias cartas.

Mas, por mais alto que seja o preço pago e a pagar pelas revoltas, uma coisa é certa – o velho paradigma do Oriente Médio, de elites poderosas apoiadas em aliados poderosíssimos e a oprimir povos enfraquecidos não parece estar dando sinais de que possa ser ressuscitado.
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[*]Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.