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terça-feira, 9 de junho de 2015

Pepe Escobar – E o vencedor da Copa do Mundo Terrorista é...


5/6/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
ISIS/ISIL/Daesh desfilam por vilas na Síria
A coalizão de vontades que os EUA reuniram e que – supostamente – estaria combatendo contra os terroristas do ISIS/ ISIL/ Daesh em todo o “Siriaque” reuniu-se em Paris essa semana. Em teoria, examinaram o que fazer a seguir, depois de perderem Ramadi no Iraque e Palmyra na Síria.
Mas o roteiro parece saído diretamente do Manifesto Surrealista.
O nº 2 do Departamento de Estado dos EUA, Tony Blinken, jurou que Washington não tem qualquer dúvida quanto à sua estratégia “vencedora”. Insistiu que a estratégia “vencedora” matou no mínimo 10 mil jihadistas do Califato fake. Um coro de espiões da CIA foi obrigado a arregalar os olhos.
Blinken também insistiu no “progresso”. Deve ter confundido essa história e o caso do FBI resolvendo prender uns figurões da FIFA. A coalizão, como era de esperar, apoiou Bagdá – com muita retórica e vagas promessas de mais armas, e exortou o governo a ser mais inclusivo na relação com tribos sunitas.
Ninguém tratou do assunto de que foi a base de apoio de Ba’athists entre os sunitas – pode-se chamá-los, à moda Donald Rumsfeld, de “remanescentes” do governo de Saddam – que assegurou o sucesso do Califato fake na província de Anbar. E por isso Bagdá não pode ser muito “inclusiva”.
A coalizão, também previsivelmente, praticamente nem falou da Síria. Não há absolutamente qualquer diferença ideológico-religiosa entre a Frente al-Nusra – ramo da al-Qaeda na Síria – e o ISIS/ ISIL/ Daesh. Pois o Qatar e a Turquia dormem na mesma cama com a Frente al-Nusra, ao mesmo tempo em que fazem crer que se oporiam ao Califato fake.
Permanece a ficção de que a coalizão apoiaria “rebeldes moderados” remanescentes do Exército Sírio Livre. Não resta nenhum rebelde “moderado”; todos eles migraram para a Frente al-Nusra ou para o ISIS/ ISIL/ Daesh, porque é onde está a ação – de toneladas de armas, a verdadeiras proezas militares em solo.
E então há também o Jaish al-Fatah – o Exército da Conquista; fantástico híbrido gerado em novilíngua, que encobre o fato de que o Ocidente “progressista” – mancomunado com as proverbiais petromonarquias do Golfo vassalas – faz chover armamento e dinheiro sobre a Frente al-Nusra. O Exército da Conquista não passa de coletivo nebuloso de formações variadas de takfiris dentre as quais a Frente al-Nusra; quaisquer supostas “alianças” que pareça haver entre eles somem sempre nas areias do deserto.
A coisa fica ainda mais feia quando se sabe que Doha – via al-Jazeera Arabic – posa agora como patrocinadora oficial da Frente al-Nusra, convidando seus líderes e tentando empenhadamente erigir uma (virtualmente inexistente) barreira entre a Frente al-Nusra e o ISIS/ ISIL/ Daesh. Numa daquelas entrevistas, al-Nusra disse-o claramente:
(...) o Ocidente não será atacado, à moda al-Qaeda, enquanto continuar a chover armas por lá, além de muitos dólares norte-americanos e euros.
A “missão” deles na Síria continua a ser “mudança de regime”; exatamente o que Doha, Ancara, Riad, Telavive e – por falar nisso – também Washington desejam.
A nova normalidade chama-se al-Qaeda
O jornal turco Cumhuriyet publica um vídeo em que se vê a agência turca de espionagem MIT entregando armas à al-Qaeda na Síria, em caminhões.
E isso enquanto Ancara insiste na ficção de que estaria treinando “moderados” para lutar com o Califato fake. Nonsense: mais uma vez, não há mais “moderados”, só formações takfiris. E só os “moderados” cruzarem a fronteira turco-síria, que viram takfiris.
Siriaque - situação em campo (31/5/2015)
(clique na imagem para aumentar)
Entrementes, o ISIS/ ISIL/ Daesh prossegue firmemente em direção a Aleppo, tentando tomar vilas no nordeste da cidade. Desnecessário dizer, a “coalizão” só assiste ao movimento. O que torna tudo ainda mais absurdo é que uma série de grupos de oposição que se recusam a deixar-se rotular como takfiris – por exemplo os Revolucionários Sírios ou a Frente do Levante – mas estão lutando ao lado dos takfiris – pediram ao Pentágono que bombardeie sem piedade os bandidos do Califa.
Assim, enquanto o Pentágono reclama que está ficando sem alvos, e ao mesmo tempo em que é incapaz até para bombardear colunas de caminhonetes brilhantes no meio do deserto, e enquanto prosseguem as “conversações” em Paris, o ISIS/ ISIL/ Daesh está próximo de conquistar área extremamente estratégica, de Aleppo no norte, direto até a fronteira turca.
Se isso acontecer, todos – de soldados de Assad aos supostos “moderados” rebeldes – estarão sitiados.
Outro grupamento “moderado”, a Frente al-Izz, está perto de separar-se da coalizão. O líder, Mustafa Sijari, fez uma declaração extraordinária: disse que teria recebido ordens do Pentágono para dar combate ao ISIS/ ISIL/ Daesh e esquecer Damasco. Assumindo que não seja mentira, será mais uma prova de que o Pentágono age como espectador – tipo “árabes que matem árabes”, qualquer árabe e acredite no que acreditar.
Quanto à “estratégia” de Washington, não há estratégia nenhuma. Os conselheiros de política exterior do autodescrito governo “Não faça merda coisa estúpida” de Obama são piada.
Facções pró-governo no Departamento de Estado argumentam que Washington não pode alienar Teerã, atacando Damasco, porque os EUA precisam do apoio iraniano – e farto sortimento de milícias xiitas – para dar combate ao ISIS/ ISIL/ Daesh no Iraque. Mesmo assim, na Síria, os EUA dependem dos tais impalpáveis “moderados” não só para lutarem contra do Califato fake, mas também para ferir Damasco.
Pode-se começar a contar desde já as múltiplas variantes de tiros pelas culatras nesse cenário turvo. O Império do Caos é excelso fomentador – e do que seria? – de Caos. E quanto à destruição resultante, os locais que carreguem às costas as ruínas, enquanto o Império observa das coxias.
É sempre importante lembrar que as milícias tribais sectárias soltas no Iraque – e, em seguida, anos depois, na Síria – são consequência direta da “política” Made in USA de Dividir para Governar, posta em ação depois da destruição inicial do estado no Iraque.
Resumo disso tudo: o caos continuará prevalente. O ISIS/ ISIL/ Daesh continuará a avançar na Síria, imune ao poder de fogo do Pentágono; mas pode ser efetivamente contra-atacado no Iraque, graças a milícias xiitas, não ao poder de fogo do Pentágono. Isso é o que o Departamento de Estado define como “estratégia vencedora”.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pepe Escobar – “Falso Califato: perfeito ativo estratégico dos EUA”

26/5/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Manifestantes pro-ISIS/ISIL/Daesh em Mosul, Iraque
O ocidente “civilizado” chora abundantes lágrimas de crocodilo, quando a pérola do deserto da Antiga Rota da Seda, Palmira, cai sob as garras do ISIS/ISIL/Daesh.
Contudo, nem o Presidente Barack Obama dos EUA nem qualquer de suas 22 nações-vassalas pesadamente armadas que formam teoricamente a coalizão de vontades dele mandou para lá um drone equipado com míssil Hellfire, que fosse, contra os bandidos vestidos de negro do falso Califato.
Pode-se argumentar que o ocidente “civilizado” prefere negociar com um Califato cheio de wahhabistas medievais intolerantes, a negociar com um “ditador árabe” secular que “se recusa a prostrar-se de joelhos ante o altar do neoliberalismo ocidental”.
Paralelamente, já se disse que os que armaram os degoladores da Frente Al-Nusra, também conhecida como al-Qaeda na Síria, ou ISIS/ISIL/Daesh são predominantemente sauditas – os maiores importadores de armas do planeta – que compram armas principalmente dos EUA, mas também da França e da Grã-Bretanha.
E agora, documento de agosto de 2012, da Agência de Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA [Defense Intelligence Agency (DIA)] que circulou por todas as mãos, do CENTCOM à CIA e ao FBI, obtido por ordem judicial pela empresa Judicial Watch, finalmente confirma o que passa por “estratégia” de Washington no Levante e na Península Árabe.
E, assim como a proto-Al-Qaeda original fundada pela CIA, estabelecida nos anos 1980s em Peshawar, o ISIS/ISIL/Daesh, também conhecida como al-Qaeda 2.0, serve ao mesmo objetivo geopolítico.
O resumo é que o ocidente “civilizado”, ombro a ombro com vassalos tipo Turquia e petromonarquias do Golfo, “deram apoio” ao braço da al-Qaeda na Síria para desestabilizar Damasco – apesar de o Pentágono estar prevendo o resultado sinistro que disso adviria, como a emergência do ISIS/ISIL/Daesh (ver também matéria detalhada de Brad Hoff, em 22/5/2015, EUA – Agência de Inteligência da Defesa, 2012: Ocidente facilitará ascensão do Estado Islâmico para isolar regime sírio, Levant Report [traduzido em redecastorphoto NTs]).
Pelo raciocínio do Pentágono, aí estaria um ativo estratégico de valor incalculável, a ser usado para “isolar o regime sírio”.
É irrelevante que o relatório da Inteligência da Defesa dos EUA não diga, com todas as letras, que o governo dos EUA inventou o ISIS/ISIL/Daesh, ou que favorece a al-Nusra na Síria ou o falso Califato no Iraque.
O ponto chave é que o documento mostra que governo dos EUA fez nada, absolutamente nada, para impedir que a Casa de Saud, os vassalos no Conselho de Cooperação do Golfo e a Turquia “apoiassem” a “oposição” síria – naquele ardente desejo desses todos de facilitar a emergência de um estado salafista à parte no leste da Síria e atravessando a fronteira, incluindo território iraquiano.
ISIS/ISIL/Daesh recebe armas sofisticadas dos EUA
Agora, já não há observador bem informado que não saiba que a “guerra ao terô” iniciado pelo governo Cheney é completa fraude. Assim sendo, não é surpresa que a destruição planejada do “Siriaque” [orig. “Syraq”] atualmente em andamento ofereça ao complexo industrial militar dos EUA o pretexto perfeito para super armar, com bilhões de dólares em armas, a Casa de Saud, outros vassalos reunidos no CCG, Israel e Iraque.
Essa confluência de interesses – geopolíticos, para o Pentágono; comerciais, para o complexo industrial militar – completa o cenário da Casa de Saud virtualmente ditar a política exterior do governo autodefinido de Obama como “Não faça merda coisa estúpida” no Levante e na Península Árabe.
No início de junho/2015 haverá em Paris uma reunião de todos os 22 estados membros da coalizão de Obama. Até lá, o Pentágono terá de ter algum plano de o que fazer do seu ISIS/ISIL/Daesh; ir ao tudo ou nada e tentar aniquilá-lo (muito improvável), ou empurrar os esquadrões de paus-mandados na direção do Cáucaso (nada improvável). O mais provável, em todos os casos, é que a coisa continue como está.
E a Rússia sabe de tudo
O coronel-general Igor Sergun, chefe do Diretorado Superior de Inteligência [orig. Main Intelligence Directorate (ru. GRU)] do Comando Geral das Forças Armadas da Rússia praticamente jamais fala em público. Por isso, quando ele fala, as placas geopolíticas tectônicas se agitam.
A análise de Sergun encaixa-se perfeitamente ao relatório da AID. Já há anos a inteligência militar russa concluiu – e agora está divulgando publicamente – que “o terrorismo islâmico” ou, de fato, a “guerra ao terô” toda ela, é ferramenta ocidental usada para esmagar nações soberanas que se atrevam a fazer oposição ao hegemon.
E como todos nós sabemos, é claro que é muito mais fácil subverter e/ou esmagar Iraque, Líbia ou Síria, que Rússia ou China. Ou, por falar disso, o Irã.
ISIS/ISIL/Daesh ataca vilas no Siriaque
Entrementes, o Império do Caos tem de se empenhar muito para conseguir lidar com – ou exibir cara de quem estaria conseguindo lidar – com o revide gerado por sua posição de Dividir e Governar. No Iraque, a queda de Ramadi deu ao ISIS/ISIL/Daesh um grande impulso de Relações Públicas, em termos de alcance estratégico, para recrutar novos soldados e para levantar cada vez mais dinheiro. Fizeram a equipe-aquela, de “Não façam merda coisa estúpida”, de idiotas.
E os EUA não foram sequer espectadores secundários da queda. Ramadi caiu porque o governo de Bagdá recusou-se a dar armas às tribos sunitas da província de Anbar. O falso Califato atacou a cidade com uma frota de 30 caminhões carregados de explosivos e com suicidas-bomba ao volante. As tribos que defendiam a cidade tiveram de desaparecer, porque sabiam que seriam massacrados pelos bandidos do Califato.
E o que fazia o Pentágono naquele momento? Nada – contradizendo a errada acusação do El Supremo do Pentágono, Ash Carter, para quem as forças iraquianas não tinham “vontade de lutar”. O Pentágono também nada fez em Tikrit, quando os norte-americanos recusaram-se a lutar contra o falso Califato ao lado de milícias xiitas comandadas por oficiais vindos do Irã e que se reportavam diretamente ao famosíssimo super comandante da Força al-Quds, brigadeiro-general Qassem Suleimani.
É Irã contra os degoladores
Agora a queda de Ramadi deixa bem claro que a verdadeira potência que está dando combate ao ISIS/ISIL/Daesh no Iraque é o Irã, não os EUA. Milícias xiitas já estão sendo incorporadas às forças de segurança do Iraque.
Milícias xiitas defendem Ramadi
Ezzat al-Douri, ex-n.2 de Saddam Hussein – que os EUA não prenderam até hoje – tem distribuído mensagens sobre a urgente grande necessidade de ajuda armada que venha dos suspeitos de sempre, Arábia Saudita, ainda que os sauditas tenham tentado armar as tribos em Anbar, através da Jordânia. Adivinhem quem disse “não”? Washington. Segundo as tortuosas e vacilantes regras do governo Obama, a Jordânia só poderia fazer o jogo dos sauditas se viesse uma autorização de Bagdá, que nunca veio.
Essa confusão quase impenetrável é só um exemplo do jogo duplo que o Império do Caos joga nessa “guerra ao terô” – que se resume à elaborada farsa que é a “luta” contra o ISIS/ISIL/Daesh em todo o “Siriaque”.
Aconteça o que acontecer em Washington no futuro próximo, sob Hillary “Viemos, vimos, ele morreu” Clinton ou sob Jeb “Meu irmão acertou na invasão” Bush, não se vê nem sinal de que o governo dos EUA pare algum dia de usar o “terrorismo islamista” como ativo estratégico.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.