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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Paul Craig Roberts: Já é tempo do Irã dizer “adeus” ao ocidente

26/1/2015, [*] Paul Craig Roberts  Institute for Political Economy
Traduzido por Mberublue


Em lugar de ficar cortejando o ocidente, o Irã precisa mesmo é rejeitá-lo. O tempo histórico do ocidente já passou.


Aiatolá Ali Khamenei
Pelo visto, as negociações do regime de Obama com o Irã e com supervisão da Rússia, estavam próximas do fim de um assunto nuclear claramente forçado. Para o governo israelense, assim como para seus agentes neocons nos Estados Unidos um final para essa confrontação é inaceitável. O partido político republicano, totalmente dominado pelo lobby de Israel, convidou apressadamente Netanyahu, o líder insano dos dois países, Estados Unidos e Israel, para que rapidamente viesse dizer ao Congresso majoritariamente republicano que os indiferentes eleitores norte americanos instalaram no poder legislativo, que é estritamente proibida qualquer acomodação com o Irã.

Ao observar o Congresso Republicano, controlado por Israel, e que não passa de uma coleção de belicistas que se direcionam para impedir uma solução pacífica para um problema artificial, o líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei, mandou uma carta para os jovens ocidentais, advertindo sobre a descaracterização do Islã pelos propagandistas ocidentais.

Respeito os esforços de Khamenei no sentido de tentar resgatar a consciência dos jovens ocidentais ensinando-os a diferenciar a realidade do Islã do retrato demonizado com que se apresenta o Islã pelos políticos e pela mídia ocidentais.

A questão é: Qual o impacto que pode ter Khamenei? Ainda que se leve em consideração que a voz de Khamenei é importante, ela se torna mínima em comparação com os mentirosos e propagandistas ocidentais. Mesmo a voz de um líder representativo como é Khamenei, dificilmente poderá ser ouvida para além do barulho ensurdecedor causado pela propaganda ocidental contra seu país e sua religião, ambos demonizados.

Ademais, as organizações secretas ocidentais podem desfechar operações terroristas em nome do Islã, como provavelmente já aconteceu com os eventos de 9/11, o atentado da Maratona de Boston e Charlie Hebdo [e agora com a morte de Alberto Nisman, na Argentina (Nrc)].



Apesar de se dizer ao mundo inteiro que o Islã está por trás destes acontecimentos, osexperts afirmam que jamais foi apresentada qualquer evidência válida. Apenas assertivas oficiais, como as que foram fornecidas incorretamente sobre as armas de destruição em massa no Iraque, o uso por Assad de armas químicas na Síria, as falsas acusações contra Kadafi na Líbia e as acusações falsas lançadas à Rússia na Ucrânia. Os propagandistas ocidentais têm muitas vozes e seus trompetes estridentes encobrem a voz do líder iraniano.

Em lugar de ficar cortejando o ocidente, o Irã precisa mesmo é rejeitá-lo. O tempo histórico do ocidente já passou.

O ocidente se transformou em um estado policial no qual os governos não mais se responsabilizam quer pelo povo, quer pela aplicação correta da lei. Não há emprego para os jovens nem segurança financeira para os idosos. O ocidente se encontra em processo de saque de si mesmo. Olhe para o que está acontecendo neste mesmo instante com a Grécia. Para garantir os lucros dos bancos privados fora da Grécia, o povo grego viu suas pensões diminuídas, os empregos sumirem, o corte de serviços sociais e acabaram por forçosamente vender suas propriedades para investidores privados estrangeiros a preço vil. O mesmo tipo de rapinagem está acontecendo agora na Ucrânia, enquanto a Itália, Espanha e Portugal esperam sua vez.

Mesmo nos Estados Unidos a política econômica está inteiramente voltada para ao benefício do “um por cento” obscenamente ricos.

Caso usemos o livro “O Senhor dos Anéis” de J.R.R. Tolkien como metáfora, o ocidente seria Mordor e os Estados Unidos, Sauron.

Sauron
Mordor
Não há sentido nas negociações levadas a efeito pelo Irã no anelo de ganhar aceitação pelo ocidente. O Irã faz parte da mesma lista fatídica onde estão Saddam, Kadafi e Assad. Só há um meio de ser o Irã aceito pelo ocidente: basta concordar em abdicar de sua soberania para se tornar apenas mais um estado títere de Washington. A desconfiança em relação ao programa de energia nuclear do Irã é totalmente artificial. Caso não fosse isso, seria qualquer outro “problema” tão artificial quanto, como armas de destruição em massa, uso de armas químicas, terrorismo e assim por diante. Os líderes iranianos precisam entender que o problema real é a independência do Irã em relação à política externa de Washington e de suas políticas econômicas. Como Washington não pode declarar abertamente que deseja a mudança de regime no Irã para que este se torne apenas mais um estado fantoche de Washington, então simplesmente finge que o Irã é uma ameaça a ser eliminada.

Caso o Irã realmente admire tanto assim o decadente e corrupto ocidente a ponto de admitir ser um servo obediente para provocar a aceitação do ocidente, tudo o que tem a fazer é capitular de sua soberania e alinhar-se com as políticas hegemônicas de Washington.

Mas se o Irã, uma das mais antigas culturas e civilizações do planeta, deseja continuar sua existência sem estar debaixo da dominação dos “excepcionais” norte americanos, deve então virar as costas ao ocidente e aliar-se à Rússia, China, Índia e aos outros países BRICS, afastando-se das políticas criminosas do ocidente. Está fora de qualquer explicação porque uma civilização antiga como a iraniana veria qualquer coisa no ocidente à qual considerasse digno associar-se.

BRICS
Acima de tudo, o Irã precisa parar de lutar contra outros muçulmanos, mesmo aqueles extremistas que traem o profeta Maomé e o solo do Islã. O Irã não deve aceitar o papel que Washington lhe reservou, de mercenário na luta contra o Estado Islâmico. Jamais deve o Irã ajudar Washington a assassinar muçulmanos, mesmo aqueles desorientados que traem o profeta. Em vez disso, o Irã deveria entender que o Estado Islâmico, mesmo sendo originalmente uma criação de Washington, está no momento desfrutando de seu sucesso apenas porque o povo muçulmano está cansado de ser dirigido pelo ocidente, que usa o antagonismo entre sunitas e xiitas para governá-los.

Mesmo sendo verdade que o Estado Islâmico é criação de Washington, os muçulmanos que o apoiam não são. O Estado Islâmico é apoiado pelos muçulmanos porque eles estão cansados de ser governados e arruinados ao mesmo tempo pelos Estados Unidos, Grã Bretanha e a França.

O melhor que Khamenei tem a fazer é esquecer os Estados Unidos, onde o mal já tomou conta, e quanto a isso, Khamenei nada pode fazer. Khamenei deve tentar unir os povos muçulmanos na tentativa de uma nova direção.

O Islã só é fraco porque é desunido. Por séculos, os muçulmanos, divididos por questões políticas antigas, tem permitido que suas diferenças religiosas os tornem meros peões de outros poderes. Eles necessitam de uma liderança que flexibilize essas divisões sectárias, e o Irã pode prover essa liderança. Mas a liderança iraniana não pode surgir a partir de uma imposição de seus pontos de vista. É preciso um compromisso entre muçulmanos que tenha o condão de uni-los. Lutar ao lado dos americanos contra o Estado Islâmico perpetua essa divisão e ratifica o fato de que os muçulmanos não passam de colônias do ocidente.

São grandes os problemas a serem enfrentados pelas lideranças muçulmanas para retificar o que está errado. Não apenas são castigados por suas divisões internas como as populações muçulmanas no ocidente estão em posição tão delicada que seus líderes se veem compelidos a apoiar a guerra contra o Estado Islâmico a fim de proteger a população ocidental de muçulmanos de pogroms. Pode a propaganda e a história fazer dos muçulmanos um povo para sempre colonizado?


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street JournalBusiness Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia,  Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elites árabes insistem em repelir o Islã político

7/8/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito - Cairo -Praça Tahrir em 11/2/2011
As estações vão e vêm, e os países árabes continuam em convulsão sem fim. Falou-se muito de “Primavera Árabe”. Mas ainda que tivesse sido algum tipo de primavera, como a empresa-imprensa a pintou, não prosperou. E, hoje, já está metamorfoseada em algo muito mais complexo.

Mas tampouco se vê algum “Inverno Islâmico”, expressão muito apreciada por políticos e analistas israelenses. A dimensão islâmica das rebeliões árabes – algumas das quais convertidas em sangrentas guerras civis ou regionais – deveria ser muito clara e palpável, desde o início, para quem compreenda as realidades políticas além do modo como são usadas como ferramentas políticas.

O Islã sempre foi e sempre será componente da modelagem das compreensões coletivas das nações árabes. O Islã político está no coração da luta em curso, a qual, em alguns sentidos, é manifestação de um século de lutas entre o Islã como plataforma de expressão política, governança e jurisprudência, contra tendências ocidentais e ocidentalizantes.

Ao longo da história, jamais houve sequer uma união estável e bem-sucedida entre o Islã e as classes governantes árabes – bem-sucedida no sentido de ter contribuído para o progresso, para avanços nos direitos e para a prosperidade para todos. Ou os islamistas foram cooptados, ou reinou o conflito. A atrocidade dos resultados desses conflitos variou conforme a arte e a esperteza, maiores ou menores, dos governantes árabes aos quais coube gerir os conflitos.

Na Jordânia, sempre houve discórdia nos baixos escalões, entre partidos da oposição islâmica e a classe governante. Oscilou entre inclusão parcial de forças islâmicas num Parlamento que operava com pouca autoridade e surtos ocasionais ou crises políticas de pequenas consequências.

Mas nem todos os experimentos falhados falharam com o mesmo custo relativamente baixo. Na Argélia, uma tentativa de harmonização deu terrivelmente errada. A guerra civil argelina de 1991 durou mais de uma década e fez 200 mil mortos. E nada começou com sangue; as coisas começaram com uma eleição. A Frente Nacional de Libertação que governava cancelou as eleições depois do primeiro turno, temendo o que parecia ser sua derrota certa nas mãos da Frente de Salvação Islâmica.

Prisioneiros argelinos vigiados por soldados franceses
Guerra da Argélia 1954-1952 
A promessa converteu-se no segundo pior pesadelo da Argélia; o primeiro fora a luta ainda mais sangrenta, de 1954 a 1962, de libertação colonial, contra o império francês. Naquele momento, reuniam-se todos os ingredientes para um desastre completo. Havia um exército forte que governava o país mediante partido que enriquecera muito; uma oposição política que estava a um passo de alcançar o poder político pela via eleitoral; e uma massa de cidadãos prontos para avançar além de slogans gastos e da miséria econômica.

Ainda mais, uma geração de jovens radicalizados tinha sérias dúvidas, para começar, quanto à sinceridade da classe governante. O cancelamento das eleições foi a gota d’água, e o derramamento de sangue parecia ser o único denominador comum. Até hoje, a Argélia ainda vive enredada nas consequências daquele conflito, num impasse político sem mapa do caminho para lugar algum.

Por mais que não se deva generalizar, sabendo o quanto a imprensa-empresa obra para meter todos os árabes e muçulmanos num só e conveniente discurso, as similitudes entre a experiência argeliana e a experiência egípcia são espantosas.

Dia 25/1/2011, os egípcios revoltaram-se, com a esperança de que afinal romperiam o jugo das elites reinantes, do Partido Nacional Democrático e de seus aliados – o exército e a classe comercial-empresarial – que operavam como se toda a economia egípcia fosse eles e só deles.

Hosni Mubarak
Mas, por extensão, a revolução teria de ter mirado também o conglomerado mais amplo, regional e internacional, que apoiou e ajudou o regime de Hosni Mubarak e todo seu massivo aparelho corrupto de poder. De fato, sem elaborada rede de apoiadores, sob o comando dos EUA, Mubarak jamais se teria sustentado no poder durante 30 anos. Mas os egípcios não tiveram nem o tempo nem os necessários recursos para desenvolver uma agenda de política externa, e sua revolução já enfrentava obstáculos terríveis e empenhadas tentativas de sabotagem.

Por um lado, o exército continuava no poder, embora se autoproclamasse guardião da nação e de sua revolução, servindo-se para isso da mesma velha empresa-imprensa corrompida. Por outro lado, jamais houve qualquer estrutura coesa que permitisse que os egípcios traduzissem sua aspiração coletiva em algo tangível.

Os únicos fóruns disponíveis eram as eleições e os referendos, e todas as eleições e todos os referendos foram sempre, infalivelmente e democraticamente vencidos por partidos islamistas. Eleições justas e transparentes, sim, talvez; mas graças a elas, o regime de Mubarak ressurgiu à superfície da vida do Egito.

Servindo-se dessa infraestrutura jamais desmontada, com destaque para o aparato da empresa-imprensa mais corrupta, cujos empresários-proprietários eram industriais e comerciantes poderosos, o velho regime conseguiu inverter o sinal da revolução e virou-a contra ela mesma. Espertamente, venderam os protestos de 30/6/2013 como se fossem a via para corrigir o caminho errado tomado depois da revolta do 25/1/2011.

Mohamed Mursi
Numa estranha sucessão de eventos, milhões dos mesmos que haviam protestado contra Mubarak voltaram às ruas para protestar contra um Mohamed Mursi democraticamente eleito, aliados às mesmas velhas forças políticas que durante anos haviam devastado a economia do país; convocando o exército ao poder; e aliados às hordas de baltajiya – gangues de criminosos que, apenas dois anos antes, haviam aterrorizado os manifestantes.

Agora, o Egito está dando seus primeiros passos para tornar-se outra Argélia durante a guerra civil. Os líderes do golpe entenderão, de fato, as verdadeiras repercussões do que fizeram?

A Tunísia, a pequena nação que inspirou o mundo em dezembro de 2010, não está muito distante desse ponto, nessa triste saga. Houve recentemente mais um assassinato, dessa vez de um político nacionalista, Mohamed Brahmi, logo depois de outro assassinato de outro político muito conhecido, Chokri Belaid. A Tunísia permanece dividida entre os que querem derrubar o governo e os que insistem em defender seu direito democrático de governar. De um modo ou de outro, não há dúvidas de que mãos suspeitas tentam empurrar a Tunísia para um abismo chamado de “islamistas versus secularistas”.

A Síria é, de longe, o exemplo mais sangrento. Embora na guerra civil síria as apostas tenham subido muito mais e muito rapidamente, assim como a correspondente discussão, a guerra muito rapidamente assumiu traços de um perigoso conflito sectário, cujas implicações se ressentem na região e também longe dali.

Por uma via atormentada, os regimes árabes estão acumulando ganhos. Alguns os estão obtendo mediante guerra; outros mediante golpes militares; e alguns conspiram ativamente, na esperança de conseguir começar a jogar as próprias cartas.

Mas, por mais alto que seja o preço pago e a pagar pelas revoltas, uma coisa é certa – o velho paradigma do Oriente Médio, de elites poderosas apoiadas em aliados poderosíssimos e a oprimir povos enfraquecidos não parece estar dando sinais de que possa ser ressuscitado.
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[*]Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A cosmopólis persa revisitada

19/7/2013, [*] Richard Eaton, Asia Times Online 
Revisiting the Persian cosmopolis
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Já há vários séculos, o trabalho de escrever a história do sul da Ásia mostra a fatídica tendência de ver o passado pelas lentes da religião – sobretudo o Hinduísmo e o Islã, as religiões quase sempre vistas e apresentadas como essencializadas, fora do tempo e presas numa oposição binária, ou em relação de mútua hostilidade.

Sheldon Pollock
Para sugerir abordagem radicalmente diferente na teorização desse espaço cultural, Sheldon Pollock cunhou recentemente a expressão “cosmópolis sânscrita”, que designa o vasto cenário geográfico de cultura índica que se estendeu, do século 4 ao século 14, do Afeganistão até o Vietnam.

Para Pollock, o que caracteriza essa cosmópolis foi não a religião, mas as ideias elaboradas no próprio corpus de textos sânscritos, os quais, por mais de um milênio, circularam através e acima do mundo vernacular das línguas [o órgão da fala: no orig. tongues (NTs)] na região.

Esses textos abraçavam tudo, de regras de gramáticas a estilos de reinados, arquitetura, comportamento recomendado, objetivos da vida, regulação da sociedade e a aquisição de riqueza e poder. Fundamentalmente, a cosmópolis sânscrita tratava, sobretudo, de definir e preservar a ordem moral e social, mas sem privilegiar nenhuma comunidade religiosa ou étnica particular.

De crucialmente importante, que se expandiu por grande parte da Ásia, não pela força das armas, mas por imitação, e sem quaisquer centro de governo ou fronteiras fortificadas. Quanto a isso, se compara ao mundo helenizado, que envolveu a bacia mediterrânea e o Oriente Médio depois de Alexandre o Grande.

Quanto à Índia, pelo menos, historicamente, Pollock só teorizou uma instância dessa formação transregional. Porque a cosmópolis sânscrita antecipou em cerca de 500 anos o advento de outro fenômeno similar, uma “cosmópolis persa”, que se expandiu por grandes porções da Ásia Ocidental, Central e do Sul, mais ou menos do século 9 ao século 19.

Mapa político da região considerada
(clique na imagem para aumentar)
Esses dois modelos de cultura cosmopolita exibiram paralelos impressionantes. Ambos se expandiram e floresceram até bem além das respectivas terras originais, dando às duas culturas um traço transregional – de fato, um traço de “lugar nenhum” [orig. placeless]. Os dois modelos têm seus fundamento numa língua e literatura de prestígio que conferiam status de elite aos falantes e leitores. Ambos articularam o poder sobre o mundo – especificamente, o domínio universal. E, embora as duas cosmópolis tenham elaborado, discutido e criticado tradições religiosas, nenhuma estava plantada sobre alguma específica religião, e, bem diferente disso, adotavam ponto de vista distanciado, “superior” a tudo que todas as religiões pregavam.

Mas o que, exatamente, foi a “cosmópolis persa”? Depois da conquista do planalto iraniano, no século 7, a recusa dos iranianos a permanecer sob governo e cultura árabes resultou em tentativas para recuperar uma civilização rica, mas submergida, persa pré-islâmica – movimento que levou, na dimensão linguística, à emergência do [idioma] novo persa.

Mapa do Irã destacando o Curasão
Esse idioma apareceu primeiro como lingua franca falada em todo o planalto iraniano. Em meados do século 10, surgiu uma forma escrita, derivada de uma escrita arábica modificada, quando escritores persas no Curasão – nordeste do Irã, oeste do Afeganistão e Ásia Central – começaram a apropriar-se de uma herança híbrida do Islã árabe e do Irã pré-islâmico.

De início, pelo menos, o patrocínio da corte – a saber, a corte da dinastia samanida dos reis do Curasão (819-999) – teve importante papel nesses desenvolvimentos. Com base em Bukhara (no sul do Uzbequistão), a corte samanida controlava as grandes rotas comerciais que conectavam o planalto iraniano com a Índia para o sul, a Ásia Central turca para o norte e, pela Rota da Seda, com a China, para o leste. Bukhara era pois uma vibrante zona de comércio, onde se falavam muitas línguas.

À altura do século 14, contudo, em toda uma vasta porção do território entre a Anatólia e o Leste da Ásia, o novo persa já se tornara prestigiada língua literária, principal veículo usado pelas burocracias estatais e língua de contato usada na diplomacia interregional. Na China, serviu não só como lingua franca, mas também foi o idioma oficial durante os séculos 13 e 14. Marco Polo usou predominantemente o persa na China e, de fato, em todas as suas viagens pela Rota da Seda.

Rota da seda de Marco Polo (marítima e terrestre)
(clique na imagem para aumentar)
O que explica esse notável desenvolvimento? Um dos fatores foi o ambiente cosmopolita no qual o idioma novo persa fora incubado. O Khurasão na era samanida não era diverso apenas em termos linguísticos, mas também em termos religiosos, com comunidades de cristãos, zoroastristas, judeus, budistas, pagãos e xamanistas, todos convivendo com muçulmanos xiitas e sunitas.

O novo idioma, assim, serviu como denominador comum linguístico, numa sociedade multiétnica. Além disso, dado que não servira como veículo para nenhum tipo de liturgia ou escritoras sagradas, o novo persa não implicava nenhum ameaça ideológica ao árabe – a língua dos islamistas vitoriosos no século 7, no Irã.

A poesia persa também teve papel importante na difusão da cosmópolis persa, especialmente o grade poema épico do Irã, Shahnama. Iniciado no final da dinastia samanida e completado em 1010, o épico de Firdausi, com cerca de 60 mil dísticos rimados, canonizou conscientemente a história dos reinos iranianos pré-islâmicos.

Mahmud de Ghazni
(Clique na imagem
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Como a língua na qual foi composto, o Shahnama tampouco ameaçava o sentimento árabe ou islâmico; ao contrário, elogiava o monarca reinante Mahmud de Ghazni (997-1030) como alguém em que se combinaram, somando-se, as virtudes de soberanos iranianos e islâmicos.

Também assimilava o ethos guerreiro dos turcos da Ásia Central e a herança da civilização grega. Nas mãos de Firdausi, o próprio Alexandre foi convertido em grande rei iraniano; sua mãe, em princesa iraniana; e os heróis pré-Zoroastro foram preservados como análogos aos deuses védicos indianos. No Shahnama, em resumo, acomodaram-se umas às outras as culturas grega, turca e indiana.

Como acontecia com textos escritos em sânscrito, que circulavam livremente por todo um vasto território, depois do século 11 textos escritos em novo persa viajaram distâncias surpreendentemente longas, saltando por cima de fronteiras étnicas e políticas, além de ultrapassar inúmeras fronteiras naturais. A produção de literatura persa tampouco teve algum epicentro geográfico único, nem depois que os mongóis invadiram o Khurasão, no século 13.

Povos em regiões como o Cáucaso ou o Sul da Ásia ainda conservam em seus idiomas locais, cultivando-os e também produzindo, grandes trabalhos de literatura persa. “Contadores” tamiles e malaios do popular One Thousand Questions apresentam o texto como de origem persa, que pode ser rastreada até o sul da Índia do século 16. Assim também, romances persas como o Haft Paykar de Nizami Ganjavi (m. 1209) foram traduzidos no século 17 para o bengalês para os reis de Burma [hoje Myanmar] da costa Arakan.

Por essa via, formas vernacularizadas da cosmópolis persa viajaram para os mundos burmeses e malaios do sudeste da Ásia. A portabilidade da literatura persa por todo esse vasto espaço geocultural foi mais uma dimensão da cosmópolis persa que, também essa, tem perfeito paralelo com a cosmópolis sânscrita que a precedera.

No plano político, o mesmo ambiente que nutrira o uso literário e burocrático do idioma novo persa – o ambiente culturalmente diversificado dos séculos 9 e 10 no Khurasão – também modelou uma concepção específica do “governante do universo”, o “sultão”.

Concebida para ocupar um espaço político que ficava além e acima de todos os grupos étnicos e todas as comunidades religiosas, essa figura era entendida não como apenas universal, mas, sim, como verdadeiramente suprema. Nos séculos 9 e 10 no Khurasão da dinastia dos samanidas, onde se estavam revivendo memórias do Irã pré-islâmico, os sultões tinham poderes de soberanos universalistas que, antes, já apareceram associados aos imperadores persas pré-islâmicos.

Essa concepção acompanhava a ideia da cosmópolis persa, que resistia contra qualquer reivindicação de território soberano. O mesmo, vale lembrar, aplicava-se também à cosmópolis sânscrita. Assim como os sultões de Delhi apresentavam-se como “senhores da superfície da Terra”, os maharajas indianos apresentavam-se, quase todos, como “asilo do mundo inteiro”.

Ibn Balkhi
Ainda mais significativo, já no século 12, o historiador iraniano, Ibn Balkhi revelou uma separação, de fato já existente, entre religião e estado. Escreveu que o reinado no Irã pré-islâmico baseava-se no princípio supremo da justiça, e que todos os reis daquela era transmitiam como lição ao herdeiro coroado a seguinte máxima:

Não há reino sem exército, nem exército sem riqueza, nem riqueza sem prosperidade material, nem prosperidade material sem justiça.

Vê-se bem que se trata de esquema globalizante: economia, moralidade e política, todas integradas num só ideário coerente. Chama a atenção também o lugar central que o autor dá à ideia de justiça – e que não se faz aí qualquer referência a Deus ou à religião. Como ideologia de governo, essa fórmula viria a ser tema sempre recorrente no mundo que falava persa, repetida com apenas pequenas variantes por legiões de autores de literatura cortesã.

Assim também, uma ideologia de governo que também acomodava-se à diversidade cultural e focava o princípio da justiça facilitou a incorporação da Índia na cosmópolis persa. Por um lado, aquela ideologia persa de inclusão dos diferentes era útil para governar uma sociedade do norte da Índia, ela também extraordinariamente diversa em termos de religiões, idiomas e arranjos sociais.

Por outro lado, em 1206, apenas poucas décadas depois que os mongóis na Ásia Central e no Irã produziram um holocausto e muitos milhares de refugiados turcos e iranianos, já havia um estado persianizado estabelecido no coração da planície indiana. Foi o sultanato de Delhi (1206-1526), que herdou as tradições e ideologias de governo do persianato, as quais, por sua vez, haviam prosperado no Curasão dos governantes samanidas.

A existência desse sultanato permitiu que os que fugiam das invasões mongóis migrassem da Ásia Central e do Irã para o norte da Índia, onde foram recebidos por funcionários do sultanato. Naturalmente, esses refugiados implantaram na Índia o conjunto completo da cultura persa que traziam da Ásia Central e do Irã.

O aspecto talvez mais notável da cosmópolis persa, contudo, é a rapidez com que suas ideias centrais difundiram-se para territórios ainda mais remotos, além das fronteiras de estados persianizados como o sultanato de Delhi. Uma ideia-conceito claramente persa, que privilegia a noção de justiça e a conecta à economia, à moralidade e à política, já chegar à Índia peninsular, quando aquela região ainda era governada por soberanos hindus. 

Baddena (poeta telugo)
Em algum momento no século 12 ou 13, o poeta telugo Baddena, que vivia na corte Kakatiya em Warangal, escreveu os seguintes, surpreendentes versos:

Para conseguir riqueza: que o povo prospere. Para o povo prosperar: o instrumento é a justiça. O, Kirti Narayana! A justiça é o tesouro dos reis.

São linhas que revelam claramente a influência do mundo do persianato, porque o conceito de justiça como principal patrimônio dos governantes absolutamente não aparece nos escritos do pensamento político em sânscrito. E sobretudo: como na cosmópolis sânscrita, essas são ideias tomadas por empréstimo cultural; jamais foram impostas.

Além da ideologia política, outros itens componentes da cosmópolis persa também chegaram até a Índia e ali se disseminaram depois do século 13, entre os quais arquitetura, vestiário, comportamento na corte, culinária e, especialmente, palavras.

Assim como se expandia o alcance geográfico das letras persas, assim também se expandiu a produção de dicionários, cujos compiladores tinham a tarefa de tornar legível e compreensível para todos toda a literatura produzida em diferentes pontos do mundo persa. A partir do século 14, começaram a ser produzidos dicionários na Índia. Esses dicionários e respectivos construtores geraram equivalentes às palavras persas não só nas línguas da Índia, mas também em turco, pashtum, aramaico, grego, latim e siríaco.

Império Mughal (Índia)
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Entre os séculos 16 e 19, a maior parte de todos os dicionários de língua persa eram produzidos na Índia. A partir do século 14, a língua persa já se generalizara e era a mais usada para os contatos diplomáticos e de governo em todo o subcontinente, com muitos indianos empregados nas burocracias judiciária e financeira no sultanato de Delhi, mais tarde, no império Mughal (1526-1858) e nos estados que o sucederam.

Resultado desse processo, palavras em persa infiltraram-se no vocabulário de praticamente todas as grandes línguas regional do Sul da Ásia. Línguas vernaculares como o bengalês ou o telugu são fartas em palavras persas, não só na comunicação oficial, mas também no comércio, literatura, culinária, música, tecelagem e tecnologias de todos os tipos.

Para concluir, ao mesmo tempo em que partilhou tantos traços em comum com a cosmópolis sânscrita, a cosmópolis persa, diferente nisso da índica, apropriou-se de culturas anteriores cosmopolitas culturalmente prestigiadas – o Irã pré-islâmico, o Islã árabe e o helenismo. Assim sendo, quando o Islã como sistema religioso difundiu-se pelo norte da Índia e Deccan, ele avançou como que encapsulado no interior de um barco muito maior, da tradição e da história persa.

De tudo isso, o mais crucialmente importante é o caráter não religioso dessa cosmópolis persa mais ampla que permitiu que não muçulmanos tão rapidamente assimilassem muitos de seus aspectos. Por mais que seja clara, muitos estudiosos modernos parecem não se dar conta dessa peculiaridade. E continuam a ler a história do sul da Ásia pelas lentes estreitas da religião e, em particular, do confronto entre hinduístas e muçulmanos. E assim perpetuam os tropos do despotismo oriental do século 19; os tropos do “choque de civilização” do século 20; ou as ansiedades ocidentais do século 21, em torno do ativismo islamista.



[*] Richard Eaton é professor de História na University of Arizona. É autor, dentre outros livros, de Slavery and South Asian History (Indiana University Press) e Islamic History as Global History (American Historical Association).

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Jihad: a trilha do Islã político


Jeremy Harding, London Review of Books, vol. 24, n. 14, 25/7/2002, pp. 6-9
The Great Unleashing [aprox. “O grande desencaminhamento”]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de KEPEL, Gilles. Jihad: The Trail of Political Islam. Paris: Tauris, 454 pp, Jun. 2002

Jeremy Harding
Em 1989, um terremoto em Tipasa, a oeste, bem próximo de Argel, deixou milhares de pessoas desabrigadas. Três anos depois, outro terremoto atingiu subúrbios densamente povoados no Cairo. Nos dois casos, a resposta do Estado não foi melhor do que seria em qualquer país em desenvolvimento, com altas concentrações de população urbana e praticamente nenhum serviço público. Estava aberto o caminho para a intervenção de organizações privadas ricas e eficientes. Na Argélia, quem tomou a iniciativa foi a Frente de Salvação Islâmica, FSI [ing. Islamic Salvation Front, ISF]; no Egito, a Fraternidade Muçulmana. 

Quando o terremoto atingiu Tipasa, a FSI havia sido fundada havia apenas seis meses. Mandou para as áreas atingidas suas equipes de resgate, enfermeiras e médicos, em ambulâncias identificadas com o logotipo do grupo. Foi amplamente elogiada por seus esforços. No Egito, a Fraternidade Muçulmana também foi muito elogiada. Depois de anos de incerteza e perseguições desde os anos 1950s, os Irmãos, afinal, entravam em ascensão. Haviam obtido muitos sucessos nas associações profissionais: controlavam a Ordem de Advogados, os hospitais e a Associação de Engenheiros. Quando aconteceu o terremoto, já haviam erguido uma “cidade de tendas” para alojar muçulmanos na Bósnia. Apenas deslocaram parte daquelas tendas para o Egito. A dedicação e a eficiência dos Irmãos depois do terremoto do Cairo valeu-lhe quantidade imensa de doações (dinheiro que o governo Mubarak imediatamente congelou nos bancos).

Nesse estudo extraordinário sobre o Islã militante ao longo do século 20, Gilles Kepel contrasta a forte imagem da FSI em Tipasa e da Fraternidade Muçulmana no Cairo, com a marcada ausência de organizações muçulmanas de auxílio e caridade durante os terríveis terremotos na Turquia em 1999. São dados de campo para apoiar sua tese, empenhada e trabalhosamente testada ao longo do livro, de que os islamistas perderam impulso: que seus grandes avanços foram obtidos nos anos 1970s e 1980s, e que, no início dos anos 1990s, o projeto já estava em declínio. 

Gilles Kepel
Kepel, professor do Institut d’Etudes Politiques e figura destacada no CNRS, foi criticado pela ideia, básica em seu pensamento, de que o Islã está destinado a um confronto aberto com a modernidade. Na França, onde é hoje o mais afamado de vários especialistas em “mundos árabe e muçulmano”, a suposição foi considerada prematura, à luz do 11/9. E o mesmo se ouviu nos EUA. Mas desde o lançamento desse livro, há mais de dois anos, Kepel simplesmente incorporou os ataques da al-Qaeda no corpo de sua ambiciosa tese: apresenta a al-Qaeda como um último terrível estertor que confirma sua hipótese. Por si sós, aqueles ataques não podem deter a difusão de uma cultura pós-islamicista – de fato, provavelmente a estimularam – e, seja como for, mantêm conexão muito tênue com o ideal de um Estado islâmico que havia congregado milhões de muçulmanos radicais e conservadores, antes de perder o rumo.

O estudo de Kepel sobre a Argélia mostra como esse ideal pode implantar-se entre grande número de muçulmanos; como o projeto pode desdobrar-se e em que ponto deve-se prever que se desencaminhe. O longo e estéril comando da Frente de Liberação Nacional, que expulsou os franceses da Argélia e assumiu o poder quando da independência em 1962, é importante parte da história. Nos anos 1980s, a FLN foi objeto de ampla hostilidade. O papel dela numa luta anticolonial que mudou (com a mudança demográfica, cada vez menos argelianos lembravam-se dela) deixou de ser fonte de legitimidade. No final da década, acompanhando o firme crescimento da taxa de natalidade, 40% dos 24 milhões de habitantes do país tinham menos de 15 anos. Mais da metade da população vivia em cidades, e o desemprego alcançava os 20%. Em 1989, cerca de 2/3 dos argelianos jovens frequentavam a escola secundária, preparando-se para empregos inexistentes.

Taxas de natalidade crescentes na segunda metade do século; movimentos descontrolados de deslocamento do campo para a cidade; um modelo nacionalista pós-independência que fracassara mais ou menos gravemente; pobres nas cidades com altas expectativas alimentadas pela educação: esses fatores, que explicam o crescimento do ideal islamista na Argélia durante os anos 1980s, operam em praticamente todos os países que Kepel analisa, no Maghreb, no Egito, no Sudão, no Líbano e na Palestina, no Irã, Afeganistão, Paquistão e Malásia.

Cerca de dez anos depois da independência da Argélia, quando visitei o país pela primeira vez, viam-se grupos de homens jovens circulando soturnamente pela capital, reclamando de não terem o que fazer. Não se viam moças e, naqueles dias – antes do sucesso comercial da rai music [1] – não se via nenhuma alternativa à moda ocidental, de bebedeiras generalizadas, vandalismo e indústria de pornografia soft. A FLN arava a areia (na Argélia, areia não falta): consumia os lucros do petróleo, então usados para pagar importações da Europa, do Bloco Oriental e dos EUA. De substituir importações não se cogitava. Apesar de haver uma classe média moderadamente próspera, havia a elite política, altos burocratas e um variado estrato gerencial das empresas estatais, os que mais se beneficiavam da situação. O controle pela FLN do processo de importação-exportação, e os modos pelos quais se beneficiava dele, ficou conhecido como a falcatrua “import-export”. Em meados dos anos 1980s, os grupos de jovens a vagar pelas cidades eram ainda maiores, um pouco mais intimidativos – e à altura de 1986, com o colapso dos preços do petróleo, havia ainda menos, para eles, que na década anterior.

Sob o socialismo, reza a piada, não há desemprego. A Argélia era estado socialista. Logo, aqueles jovens aparentemente sem rumo tinham, é claro, de estar trabalhando. Dizia-se que estavam erguendo paredes. A palavra em árabe para “parede” é hit, e o homem jovem urbanizado e miseravelmente pobre na Argélia ficou conhecido como “hitista” [fr. ing. hittiste]. Em outubro de 1988, os hitistas pararam de contar moscas e promoveram um tumulto: destruíram o shopping center onde os tchi-tchi – a juventude rica do país – reuniam-se e consumiam. Para expor a própria situação de desespero, rasgaram a bandeira nacional e hastearam um saco vazio de cuscuz. Antes do final do mês, houve grandes confrontos com a polícia, nos quais morreram centenas de hitistas. Nas palavras de Kepel, os tumultos de 1988 “marcaram a emergência do jovem urbanizado pobre como uma força a ser levada em conta.” Mas, sozinhos, não poderiam montar qualquer desafio coerente contra a FLN.

Essa foi a tarefa do Islã militante, e havia muitos militantes islamistas disponíveis, muitos dos quais professores e alunos já ativos na pregação e nas escolas religiosas que proliferavam nas periferias de operários – e de hitistas. A fé, nesse caso, havia sido nutrida, como de fato aconteceu, por um influxo de Irmãos da Fraternidade Muçulmana que fugiam de Nasser. Os Irmãos foram recrutados pela FLN para ajudar a implementar sua política de arabização (ou de “des-francesamento” [ing. “de-Frenchification”) nas escolas. “O contingente egípcio”, diz-nos Kepel, “treinou uma geração inteira de professores estritamente arabófonos, que concordavam com as ideias deles e, mais tarde, formaram a base da ampla intelligentsia islamista que formou a FSI”.

A via da confrontação violenta que os islamistas argelianos estavam começando a tomar não era nova, mas, até então, permanecera confinada ao interior do país. Quando começaram os tumultos, já havia um maquis islamista que operava há seis anos. Originalmente, um grupo de fiéis fanáticos altamente belicosos, liderados por um herói da luta anticolonial e empurrados para a clandestinidade pela FLN, apareceu afinal em 1982, como o Movimento Armado Islâmico [ing. Armed Islamic Movement, MIA]. O MIA lançou operações esporádicas nas áreas do país controladas pela FLN durante a guerra contra a França. Assim fazendo, reivindicaram para eles uma continuidade moral entre a luta de libertação nacional e sua própria jihad contra regime “ímpio”. (A hipótese de Kepel é que houve também um paralelo político com o Afeganistão na cabeça dos ideólogos do MIA, dado que, depois da invasão soviética, os mujahidin afegãos eram os “heróis do mundo islâmico”; e Moscou era boa amiga da FLN. “Para os islamistas radicais argelinos” – escreveu ele – “a luta contra os primeiros foi prelúdio para a luta contra os segundos.”) Enquanto Mubarak pôde convocar o clericato conservador contra a sedição dos jovens guerreiros santos, a FLN não encontrou establishment religioso que a ajudasse. Ao contrário: muitos dos “barbudos”, o Barbèfèlène [fr.], que havia cooptado para o Partido, logo depois já estariam aliados à FSI.

A FSI varreu as eleições municipais e regionais de 1990 e começou a instalar seus quadros jovens e ardentes nas prefeituras e conselhos, ao lado de simpatizantes arrancados da devota classe média de pequenos comerciantes e homens de negócios. Tudo isso foi amplamente popular entre os pobres e os crentes fiéis. Diferentes da maioria dos que os antecederam, os funcionários da FSI eram, em geral, bastante justos. Não eram tentados nem seduzidos pela corrupção; levantavam dinheiro para trabalho caritativo e o canalizavam corretamente, sem desperdícios nem “porcentagens”; organizaram uma versão de “sopa pública” para os cidadãos mais pobres. Estava selada a aliança entre intelectuais islamistas, os hitistas e a burguesia religiosa.

Assim sendo... o que deu errado? Para Kepel, a medida do “sucesso” dos islamistas radicais é a Revolução Iraniana. Segundo esse metro, os líderes da FSI estavam à disposição, em vários aspectos. Para expulsar o Xá em 1979, o aiatolá Khomeini teve amplo apoio popular dos pobres das cidades, do clericato e da burguesia – não só das classes médias religiosas, mas também de ateus e até de materialistas dialéticos. Khomeini tomou o cuidado de manter coesa a aliança até estar firmemente instalado no poder; então agiu contra a oposição, real ou potencial, e encontrou meio para eliminar dezenas de milhares de militantes leais das classes baixas urbanas, aos quais o Supremo Líder afinal de contas, nada deu, despachando-os para as terras minadas de Saddam. O erro da FSI, pela hipótese de Kepel, foi recair, nos dias de sucesso, na direção de sua base “natural” de apoio, e ter alienado a classe média secular francófona:

No Irã, a burguesia secularizada apoiara Khomeini porque prometia abertura e a inclusão de todos os elementos da sociedade em seu projeto revolucionário. (...) Na Argélia, ao contrário, logo que a FSI assumiu o controle do poder local (...) os pregadores que falavam aos jovens pobres nas cidades entraram em confrontação, não só com o regime, mas com todo um setor da sociedade que acusavam de “afrancesamento”. Essa noção imprecisa, mediante a qual a FSI expôs todo um substancial setor da classe média urbana à ira dos hitistas, foi – não irracionalmente – construída como ameaça.

As sempre deploráveis práticas ocidentais foram postas sob a mira de atento escrutínio. A FSI introduziu banhos separados nos resorts que controlavam e pressionou quiosques que vendiam vídeos e bebidas alcoólicas a fechar as portas. Foi o desagradável preço a pagar por melhor justiça e melhores serviços providos pelas prefeituras. Nas palavras de Kepel, profundamente realistas, a barreira de proibições antilibertárias e antiliberais “deu aos jovens empobrecidos, humilhados, forçados à abstinência ou à miséria sexual pelas condições em que viviam sufocados em famílias supernumerosas, a chance de se tornarem heróis da castidade que passaram a condenar firmemente os prazeres dos quais haviam sido tão desgraçadamente privados”.

A FSI também caíra na armadilha de atacar simultaneamente dois alvos: o governo e os setores não chauvinistas, não religiosos da sociedade argelina. Khomeini evitou tais tolices. Para aumentar os próprios problemas, os líderes da FSI sequer conseguiam pensar em romper claramente com o regime – única opção para os iranianos nos últimos dias do Xá –, porque seus seguidores estavam ocupados em perseguir a FLN. De fato, os líderes do movimento algumas vezes optaram por ceder ao partido governante, apresentando a luta anticolonial da FLN como uma espécie de jihad – contaminada, infelizmente, por “comunistas francófonos”.

Quando a Guerra do Golfo começou em 1991, houve grandes manifestações de apoio a Saddam. Ali Benhadj, o mais carismático dos dois líderes da FSI – jovem entusiasta, que viajava de motocicleta de uma congregação de hitistas a outra – convocou brigadas de voluntários argelianos para lutar ao lado dos iraquianos. Foi problema para Abassi Madani, o outro líder da FSI, mais conservador. A convocação feita por Benhadj pôs a FSI contra os sauditas, já então o eixo de transmissão da coalizão anti- Saddam: Madani e seus recrutados da FSI, membros cuidadosamente cortejados pela classe média, dependiam do dinheiro e do apoio ideológico dos sauditas. No final, Benhadj, mais radical, levou a palma. Foi momento assustador para todos que, na Argélia, sentiam que os hitistas mal podiam esperar para unir-se a eles.

Os comandantes do Exército, o qual enquanto isso havia sido tão incensado por Benhadj, que falou em frente ao Ministério da Defesa, resolveram dar um basta nas manifestações e, sem dúvida, também na própria FSI. Para Kepel, esse movimento, muito mais que o cancelamento de eleições parlamentares, nas quais a FSI teria obtido interessante maioria, marcou o ponto de virada.

Foi implantado um estado de emergência; Benhadj e Madani foram presos; os hitistas foram varridos das ruas e o logotipo da FSI foi arrancado das prefeituras virtuosas. Sete meses depois, sob liderança substituta, a FSI disputou eleições para o Parlamento da Argélia. No primeiro turno, obteve um milhão de votos a menos do que alcançara nas eleições locais, mas mesmo assim continuava na disputa, com 118 deputados com votos; a FLN mal chegou a 20. Outra vez, o Exército fez o serviço. O segundo turno das eleições foi cancelado, a FSI foi dissolvida e, poucos meses depois, os dirigentes e milhares de seguidores dos movimentos de base foram enviados para campos de prisioneiros no Sahara.

Para Kepel, a FSI mostrara-se “incapaz de tomar o poder”, quer dizer: não controlou o putsch, não cultivou a classe média secular e não controlou os hitistas. É tese discutível: é possível que a via democrática para estabelecer governo teocrático jamais tenha sido possibilidade real; que o segundo turno das eleições parlamentares tivesse sido cancelado, fossem quais fossem os sentimentos da burguesia secular argeliana; que, em outras palavras, a FSI sempre seria incapaz de quebrar o monopólio estatal da violência (e essa parece ser a versão mais acertada, se se analisam as coisas, em retrospectiva).

Kepel prefere a visão esquemática mais ampla. Daí a referência constante, país a país, aos jovens pobres das cidades e à classe média desiludida, parceiros esquisitos que teriam de dançar em torno do mesmo fogo, se se tratasse de implantar governo conforme aos desejos de Deus. É também mestre da narrativa, exímio cão farejador político que sabe seguir uma trilha até a origem, dando a devida atenção aos veementes pequenos detalhes que confirmam sua hipótese central ou, vez ou outra a negam, ajudando a comprová-la. Ao mesmo tempo, seu trabalho é extremamente útil para encadear as grandes derivas que se movem pelo mundo muçulmano, superando desapontamentos e frustrações e demarcando a incansável caminhada em busca de supremacia, que encorajou o surgimento dos guerreiros de Deus.

Os motivos recorrentes nessa narrativa são o fracasso do projeto nacionalista e a fortuna mutável da Arábia Saudita, regime com pretensões missionárias no mundo muçulmano, que sempre se viu desafiado, dos anos 1950s em diante, por desenvolvimentos no Egito e em outros pontos do Oriente Médio. Muitas das robustas ideias seculares que uma vez circularam nos estados árabes pós-coloniais já estavam exauridas à altura da metade da Guerra Fria. Depois da derrota árabe em 1967 e do Setembro Negro – a derrota dos palestinos na Jordânia em 1970 (ano, também, em que Nasser morreu) – o nacionalismo tornou-se escudo oco. Havia agitação nas universidades, mas a Esquerda no Egito, e seus imitadores em outros estados de maioria muçulmana, já não conseguia alcançar o mesmo poder de disseminação que ainda se via na Esquerda europeia. Na avaliação de Kepel, suas posições já eram, então, radicais demais para a classe média, e ‘teórico-rarefeitas’ demais para as massas.

À altura dos anos 1970s, a maré já estava virando a favor das ideias teocráticas. Quando Sadat mandou libertar das prisões os Irmãos da Fraternidade Muçulmana, eles imediatamente se encaminharam para as universidades e iniciaram o trabalho de conquistar terreno à Esquerda. Sadat, enquanto isso, atacava a oposição secular e apertava o cerco contra a imprensa. Em pouco tempo, as mesquitas já eram o único espaço de real debate político no país.

Os sauditas sentiram-se aliviados de ver Nasser pelas costas. Haviam tentado promover sua visão conservadora de mundo contra a visão nasserista carismática de um Islã firmemente associado ao socialismo, ao panarabismo, ao Terceiro-Mundismo e a outros credos congêneres. O Reino saudita lançara incontáveis contraofensivas nos anos 1960s, inclusive a criação da Liga Mundial Muçulmana [orig. Muslim World League], da qual choviam fundos e proselitismo, promovendo assim a causa saudita contra qualquer nacionalismo progressista. Com a guerra de outubro de 1973 e o embargo do petróleo, o equilíbrio do poder tendeu naturalmente a favor de Riad. A decisão de sequestrar e tornar refém o ocidente inflou imensamente o prestígio dos sauditas e, no vácuo deixado pelo panarabismo, garantiu maior audiência para a tradição do Islã wahhabista professada no Reino Saudita, com sua preferência ultraconservadora, doutrinária, monolítica; seu desprezo por variantes e sincretismo locais; e seu ódio a imagens santas e santuários.

O prestígio internacional veio acompanhado por aumento nos lucros do petróleo. Os bons serviços caritativos dos wahhabistas redobraram em casa e noutros países: mesquitas, casas de caridade, manuais de bom comportamento, produção infindável e incansável distribuição de Corãos gratuitos e disseminação do mais sombrio wahhabismo em todo o mundo muçulmano sunita.

Simultaneamente, começou a deportação, de volta aos países de origem, de trabalhadores migrantes que haviam acorrido ao Reino Saudita. Durante o resto da década, quando os próprios trabalhadores expatriados voltavam para casa, no Cairo, em Amã, em Rabat, em Khartoum ou Karachi, chegavam já equipados não só com uma visão wahhabista de mundo, mas também com o dinheiro correspondente às primeiras recompensas a que haviam feito jus no plano terreno.

A Revolução Iraniana de 1979 foi duro golpe contra a tão custosa hegemonia que os sauditas haviam construído – o mais duro golpe, de fato, desde Nasser. (Houve até manifestações de peregrinos iranianos radicais em Meca.) A derrubada do Xá aterrorizou muitos governos em países muçulmanos, porque deu status extraordinariamente importante a Khomeini, não só nas terras do Islã, mas em todo o planeta. Despachara para longe os EUA e, então, incitava os muçulmanos de todo o mundo a levantarem-se contra seus governos ímpios. Os sauditas haviam consumido os anos recentes e bilhões de dólares, tentando espantar, precisamente, esse tipo de inimigo. Os sunitas concentraram-se então na evidência de que os muçulmanos iranianos eram xiitas e, em termos rigorosos, aos olhos da maioria sunita internacional, infiéis. E, na contramão do gigantesco sucesso político que foi a Revolução Iraniana, que parecia, pelo menos naquele momento, eclipsar a questão da ortodoxia, introduziram a ideia de que o novo governo em Teerã seria veículo do “nacionalismo persa”.

Mas o contra-ataque dos wahhabistas, primeiro contra Nasser e seus seguidores, e então contra Khomeini, não surtiu o efeito com o qual Riad contara. Kepel lembra que os jovens, em todo o mundo, foram expostos à ideologia wahhabista, “e absorveram devidamente a mensagem moral e conservadora. (...) O problema era que também prestavam extrema atenção ao seu subtexto desestabilizador.” Esse subtexto tinha longas raízes ancestrais.

Os escritos de Ibn Taymiyya, o puritano anti-intelectual do século 14 cultuado pelos wahhabistas, foram amplamente divulgados durante os anos 1970s e 1980s. O problema era que Ibn Taymiyya podia muito facilmente ser absorvido no pensamento do campo radical do final do século 20, tanto quanto havia sido incorporado 600 anos antes: não bastava professar o Islã; exigia-se observância total dos preceitos. Se se pudesse demonstrar – mesmo que só argumentalmente – que algum inimigo fosse não islâmico, sempre seria justo guerrear contra ele. Quantos reis, príncipes, presidentes vitalícios, comandantes-em-chefe, políticos e homens de Estado nos países pós-coloniais de maioria muçulmana escapariam desse juízo sem concessões? Quais teriam, durante todo o governo e toda a vida, seguido, sem deslize, o Islã ‘do livro’? – E, fosse como fosse, qual era esse livro? De que Islã se tratava?

Os escritos de um intelectual medieval, altamente letrado, altamente político, estavam-se convertendo rapidamente em fundamento e ponto de referência para qualquer justificativa que qualquer um alinhavasse a favor de derrubar, pela violência, governos “ímpios” em pleno século 20. A tal ponto que Abdessalam Faraj, engenheiro-eletricista egípcio, cujos escritos inspiraram o assassinato de Sadat em 1981, pôde chamar o presidente de “faraó” e de “apóstata do Islã, alimentado nas mesas do imperialismo e do sionismo”, em escrito recheado de citações de Ibn Taymiyya – fonte à qual teve acesso, provavelmente, nos manuais de divulgação distribuídos fartamente sob patrocínio dos sauditas.

Conforme a palavra de Ibn Taymiyya circulava pelo mundo muçulmano não se pode dizer que muito moderno, e abria caminho até Riad, ela foi ganhando toques agressivamente antissauditas, resultado da penetração crescente dos escritos de outra figura canônica (muito posterior), Sayyid Qutb, Irmão da Fraternidade Muçulmana enforcado por ordem de Nasser em 1966. Qutb, também, invocou a palavra de Ibn Taymiyya, e clamava pela derrubada dos governantes e governos sem deus que via à sua volta, fossem seculares ou – como na Arábia – fingissem ser crentes. Era pensamento antiocidente, pesado, nada imaginativo; e, nos últimos escritos, já era declaradamente anticristão e antijudeu – embora, como acontece muito entre islamistas radicais, seus mais odiados inimigos fossem outros muçulmanos. Para a Arábia Saudita, é má notícia que os escritos de Qutb estejam cada dia mais em voga em Riad. Os escritos de Ibn Taymiyya e Sayyid Qutb frutificam e refrutificam em textos jihadistas radicais, inclusive no tratado “Expulsem os politeístas dos lugares sagrados”, de 1996. Autor: Osama bin Laden.

A invasão soviética do Afeganistão em 1979 foi propícia para o regime saudita. Permitiu ao reino identificar-se moralmente e financeiramente com a resistência afegã e, assim, operar contra a ameaça que vinha do aiatolá. Os sauditas coordenaram a organização de uma espécie de brigada de voluntários dos estados do Golfo, do norte da África e de outros pontos; comandaram a constituição de facções afegãs às quais faltava dinheiro, e passaram a manter as madrassas no Paquistão (onde nasceram os Talibã). Quanto terminou a guerra no Afeganistão, contudo, outra vez a fé fanatizante tão cara aos wahhabistas e seus príncipes voltou-se contra eles, com os árabes veteranos da campanha do Afeganistão zanzando por Peshawar sem ocupação. E, para piorar, a CIA decidiu fechar a torneira.

Nesse ponto, escreve Kepel, nasceu o “salafismo-jihadista” – uma nova “ideologia islamista híbrida, cujo primeiro princípio doutrinal é racionalizar a existência e o comportamento dos militantes”. Salaf significa “parente ancestral”; “salafismo” denota adesão estrita e sem concessões ao pensamento de pensador muito antigo, medieval – caso de Ibn Taymiyya.

Pela definição de Kepel, os jihadistas-salafistas são grupo de guerreiros sem raiz, que não contam nem com o apoio dos pobres nas cidades nem de qualquer segmento de classes médias; são “elétrons livres da jihad”, como se autodenominam, deixados soltos por uma série de eventos no mundo muçulmano, entre os quais a explosão populacional nos estados pós-coloniais; a pobreza relativa entre a maioria dos muçulmanos (apesar do “milagre asiático” dos anos 1990s); inúmeras guerras contra Israel; uma guerra no Líbano; uma revolução no Irã; a invasão do Afeganistão; a Guerra do Golfo e a ininterrupta cadeia de microeventos de violência nos territórios palestinos ocupados por Israel. [2]

Kepel explica que os veteranos em Peshawar distinguiam atentamente entre uma espécie “certa” de salafismo – o deles – e uma espécie errada: uma modalidade “xeiquista”, orientada por intelectuais islamistas cujo pensamento foi modelado para atender às vaidades da Casa de Saud. A ira desses veteranos, que Washington abandonou completamente no final da guerra, manifestou-se no apoio que deram a Saddam antes e durante a Operação Tempestade de Deserto [1991], que eles e muitos outros antes clientes agradecidos dos sauditas, interpretaram como golpe movido por EUA e Israel para dominar todo o Oriente Médio. A arrogância de Nasser e Khomeini foi nada, se comparada àquele novo show de hostilidade. Enquanto isso, no interior do país, a presença das tropas da coalizão polarizara a opinião pública. Quando sauditas liberais – as “prostitutas comunistas”, por exemplo, que fizeram manifestação motorizada em Riad, contra leis que proíbem as mulheres de dirigir carros – tentaram extrair alguma vantagem da situação, foram vaiadas e demitidas dos empregos. (As divisões na sociedade saudita persistem, praticamente invisíveis aos olhos ocidentais.) Dado que os jihadistas-salafistas supervisionam o mundo com foco fechado a partir de Peshawar – ambiente, nas palavras de Kepel, “separado da realidade social” – só viram jaliyya: o estado de barbárie que havia antes de as verdades de Deus serem reveladas. Não é diferente na Arábia Saudita, onde os Locais Sagrados vivem hoje repletos de infiéis.

Interessante, portanto, que no momento da grande dispersão, quando os jihadistas-salafistas começaram a espalhar-se, para o Paquistão, a Argélia, o Sudão, o Egito, o Reino Unido e a Bósnia, e no ponto em que a Guerra do Golfo já desacreditara a opção islamista conservadora aos olhos de tantos crentes, Kepel conclua, com algum alívio, que todo o negócio da jihad jaza em ruínas. O que ele quer dizer é que a aposta de tomar o poder pela força e governar segundo as leis de Deus fracassara em todos os locais, exceto no Irã; e não terá sucesso em nenhum outro ponto no futuro previsível: em lugar algum se veem evidências da aliança de classe que só Khomeini conseguiu forjar.

Para Kepel, o ponto mais alto da maré montante do islamismo foi atingido em 1989, com a retirada soviética do Afeganistão, com a chegada ao poder no Sudão de um regime islamista, com a fatwa contra Rushdie, com a FSI em posição de governar e com a emergência da Fraternidade Muçulmana palestina (o Hamás) depois da 1ª Intifada para desafiar a agenda nacionalista da OLP. Sacudiu até o “secularismo francês tão profundamente enraizado”: “o ano em que todos os partidos deveriam celebrar os 200 anos da Revolução Francesa em espírito de consenso, foi ano de duríssimas críticas contra o uso do véu nas escolas”.

Depois, sobreveio uma década de derrotas. A FSI chegou a ponto de quase ser desmantelada. Mubarak usaria o Exército e o clericato do establishment para marginalizar os engenheiros barbudos, os cientistas de computação barbudos, os médicos barbudos que haviam sido tão ativos no Egito em vários movimentos islamistas, enquanto os atentados com assassinato de turistas de 1993 a 1997 custaram os empregos a egípcios demais, para que deles surgisse algum apoio. O Hamás e outros nos Territórios Ocupados seriam deslocados pela OLP (a OLP, para Kepel, seria o único projeto “nacionalista progressista” sobrevivente), e Arafat recuperaria alguma coisa semelhante a algum controle. Na Bósnia, os destacamentos árabes em torno de Zenica mal deixaram vestígio quase invisível de sua presença depois do Acordo de Dayton. Na Turquia, o Partido Refah, que venceu as eleições parlamentares de 1995, seguiu a via secular forçado pelo governo de coalizão no ano seguinte: Necmettin Erbakan, líder partidário, sobreviveu menos de 12 meses como Primeiro-Ministro. O partido que sucedeu o Refah, sobreviveu recebeu menos de 15% dos votos nas eleições gerais de 1999. Na Malásia, os islamistas que haviam forjado a aliança estudantes/operários nos anos 1970s, consolidados nos anos 1980s, seriam cortejados pelo Primeiro-Ministro, Mahathir Mohamad e em seguida neutralizados em 1998, quando Mohamad esmagou sua principal figura no governo, Anwar Ibrahim. Em 1999, Hasan al-Turabi, principal força do governo islamista no Sudão, despachado para o interior do país. Mais recentemente, os Talibãs, uma espécie de não governo instalado pelo Paquistão, seriam explodidos para fora dos negócios no Afeganistão.

Mas, se a história estava mesmo para acabar no final de 1989, como aconteceu de a fúria dos veteranos árabes no Afeganistão – fúria inflada com dinheiro da CIA e pela Guerra do Golfo – converter-se em exaltação megalomaníaca? Em parte, foi triunfalismo. A vitória contra o comunismo anti-Deus deu lugar ao sentimento de que tudo era possível: emoção que muitos viajantes daquela viagem não sentiam desde a derrubada do Xá (e, por extensão, a derrota dos EUA). Teve também algo a ver com farejar um traidor entre os crentes: quase sempre, os effete, hipócritas sauditas, que conduziram o Satã norte-americano e seu aliado judeu, até os locais sagrados. À época em que alguns desses cavaleiros errantes começavam a unir-se ao que restava dos islamistas – por exemplo, na Argélia –, o potencial para algum movimento de massas em qualquer dos países envolvidos já deixara de existir. Para jihadistas, que jamais estão sós, nada disso foi problema.

Em vários sentidos, o resto da história tem a ver com como aqueles jihadistas e seus camaradas que permaneceram no Afeganistão optaram por fazer valer em casa as próprias desvantagens. E por levar com eles tantos inimigos quanto possível – também seus inimigos imaginários.

Veio então o 11/9, que Kepel vê como “tentativa para reverter um processo de declínio, por um paroxismo de violência destrutiva.” Assim também os tumultos que se seguiram ao cancelamento das eleições na Argélia em 1992 e a abolição da FSI – muitíssimo mais destrutivos, muitíssimo mais patológicos que os ataques da al-Qaeda aos EUA.

Kepel trata detalhadamente desse período. Para ele o surgimento do Grupo Islamista Armado [em fr. Groupe Islamique Armée], GIA, é desenvolvimento da tendência hitista da FSI, bem como, pouco depois, a criação de outro grupo armado que reunia elementos menos “duros” do movimento, para desafiar o GIA e pôr em prática alguma espécie de balcão de negócios, para o caso de o governo algum dia querer negociar algum acordo. O GIA rejeitou todos os tipos de concessões. Um de seus vários líderes, ou amirs – eram assassinados em rápida sucessão – declarou, pouco depois de constituído o grupo, que o objetivo do GIA não era implantar “regime islâmico moderado apoiado pelo ocidente, mas limpar a terra de todos os ímpios”. Era objetivo que implicava torrencial derramamento de sangue. O Exército engajou-se com furor na perseguição dos dois grupos e sobreveio um conflito de três pontas; no centro, os cidadãos comuns. Em pouco tempo, qualquer tipo de rixa pessoal e de rivalidade doutrinária ou de facção era posta (e decidida) em nome de ou jihad ou antiobscurantismo. Morreram, de 1993 a 1997, mais de 100 mil, contados por alto, no pior período da guerra.

Kepel subestima o papel do Exército naquelas mortes, quando soldados travestiam-se de jihadistas e promoviam vastos surtos de assassinatos, para aumentar a confusão e minar o apoio de que usufruíam os jihadistas. Mas destaca, com precisão, que um Amir do GIA era tão sectário em seu fanatismo, que era considerado, praticamente por todos, como agente dos Serviços Especiais.

Esse é terreno sinistro, em que predominou a violência mais cega, mas Kepel anda por ele com passos frios e atentíssimos. Sente que a agenda de reformas jamais chegou a decolar na Argélia, e que as condições que encorajaram o islamismo desde o primeiro instante ainda permanecem ativas. Mas duvida que os islamistas consigam recobrar-se de uma guerra na qual suas ambições acabaram “literalmente afogadas em sangue”. Apesar do fato de terem obtido apenas 15% dos votos de eleitores alistados, a FLN conquistou mais da metade dos assentos com votos na Assembleia Nacional. Mas, como Kepel seria o primeiro a reconhecer, a violência, embora menos frenética que nos cinco anos passados, ainda está viva. Talvez argumente, com a eloquência de sempre, que não existe o tal “fim limpo”.

Seja como for, o livro é tão persuasivo, tão impecavelmente bem construído, que é difícil resistir a algumas perguntas. Se o islamismo está de fato acabado, o que, digamos, conseguirá minar os pilares básicos da Casa de Saud? Um movimento democrático secular? Seria um alívio. Quanto a isso, será que o Hamás, cujos líderes deixaram-se ficar, lixando a unha do dedo mindinho e perdendo tempo até que os israelenses esmagaram a Jihad Islâmica no início de 1988, será condenado ao fracasso eterno, se Arafat for encurralado, como Bush e Sharon gostariam que seja [3] – e, com ele, todos os palestinos seculares que, por regra, apoiam o Fatah?

E se todas as lutas dos últimos 30 anos são fracassos apenas no sentido de que nenhum governo de homens de Deus é possibilidade real hoje, temos mesmo de considerar a espetacular violência dos jihadistas como o segmento final de uma longa cauda, uma coda, como diz Kepel? Ou deve-se vê-la como antecipação de alguma nova campanha de atrito e de mau governo religioso? O que impedirá que prossigam as matanças sancionadas pelos “ancestrais”, e ameaças esporádicas de destruição em larga escala, que continuarão a disparar as rodadas usuais de contramedidas “de vigilância” e de “segurança preventiva” – não só no ocidente, mas também nos países de maioria muçulmana?

A certeza na qual Kepel opera, de que prossegue a busca, por ex-islamistas e seus parceiros de jornada, por alguma via democrática para avançar, não fecha o caminho das outras possibilidades.

Ou a existência ininterrupta de comunidades sectárias que se afundam na própria retidão, como al-Takfir wa-l Hijra, movimento marginal no Egito que decidiu excomungar todo mundo – é o significado da palavra takfir – e passou a viver em cavernas; ou bandos de proselitistas de longo alcance, como os al-Muhajiroun no Reino Unido, tão ferozes observadores da Xaria. (Os dois tipos, infelizmente, tendem a seguir um grande plano: os quadros dos al-Muhajiroun explicarão detalhadamente por que o Secretário do Interior deve punir com pena de morte a homossexualidade. E quando Shukri Mustafa assumiu o comando do grupo al-Takfir no final dos anos 1970s, preparou sua pequena seita para conquistar o Egito). E há também indivíduos dotados, cheios de energia, que são, eles sós, mini-estados islâmicos ambulantes, nos quais a intolerância e a atenção aos direitos humanos parecem ter atingido a perfeita conciliação. É o caso de Muhammad al-Masari, que a Anistia Internacional considera “prisioneiro de consciência”, defensor incansável de lá uma ou outra “plena liberdade”, mas que excomungou todos os muçulmanos que obedeçam às leis de Riad, e cujas revoadas fantásticas de comunicados enviados do exílio em Londres só se comparam, segundo Kepel, à quantidade ainda mais fantástica de dinheiro que ele deve à British Telecom. Por mais que se deve repensar o mundo muçulmano, alguns desses grupos de um homem só persistirão – na Grã-Bretanha e em outros pontos do mundo.

Kepel é suficientemente sério e cuidadoso para não dizer que o terrorismo jihadista desaparecerá para sempre. Enquanto isso, é difícil saber se fazer guerra a regimes cúmplices, como o dos Talibã – ou, no geral, fazer guerra a regimes ao qual outro regime se oponha, por exemplo, à ditadura no Iraque – conseguirá conter a maré residual da violência islamista. Ou se, dado o extraordinário trabalho que Kepel cumpriu para mostrar o vínculo que há entre miséria moral e miséria material, por um lado, e o desejo por estado de Deus, por outro lado, haveria algo mais imaginativo que o mundo não islâmico possa fazer para minorar aquela miséria e assegurar que, dia a dia, menor e menor e menor número de “elétrons livres” entrem em circulação. São raros, praticamente não há, dentre os jihadistas surgidos nos últimos 30 anos, homem tão rico ou tão influente quanto Osama bin Laden.

Pois uma das lições desse livro é que o islamismo conservador milionário do tipo que põe seus lucros do petróleo a serviço da causa, ao lado da própria teologia, pode gerar desgraça equivalente à que o Xá gerou, ou à que gera um partido independente, a provocar seu contraparte igualmente radical. Enquanto examinamos o horizonte, tentando adivinhar onde a al-Qaeda atacará novamente, pode-se bem concluir que o inimigo do nosso inimigo no Golfo é, também, uma das nossas maiores dívidas jamais saldadas.



Notas dos tradutores

[1] Os companheiros da Argélia podem explicar o que seja. Para ouvir, http://www.al-fann.net/path/Algeria/Rai/

[2] Esse artigo é de 2002: ainda não haviam acontecido a Guerra do Iraque (2003), a Guerra da Líbia (2011) nem a Guerra do Mali (2013), dentre outras guerras que poderiam, até hoje, entrar nessa mesma lista macabra.

[3] Arafat morreu dois anos depois desse artigo, dia 11/11/2004, supostamente de morte natural, mas provavelmente assassinado, como hoje se suspeita e investiga-se.