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domingo, 23 de fevereiro de 2014

A diferença entre os idiomas ucraniano e russo

19/1/2013, [*] Vasylyna Golovnya, Journal Francophone d’Ukraine 
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu


Este artigo é excerto traduzido para o francês por Vasylyna Golovnya de um ensaio publicado em ucraniano por Yuri Shevelov (enviado por Fausto Giudice – Tlaxcala)

Ucrânia e principais cidades
Perguntam-me frequentemente em que consiste a diferença entre os idiomas russo e ucraniano. É questão ao mesmo tempo simples e complicada. É verdade que, se se está na Ucrânia, falam-se as duas línguas e ninguém se detém para pensar por que se é bilíngue e qual a diferença linguística entre essas duas línguas eslavas. Quase sempre, respondo que são línguas da mesma família linguística, mas que há diferenças gramaticais, fonéticas, alfabéticas. Outras vezes, respondo também que a diferença está em que os ucranianos compreendem o russo, e os russos nem sempre compreendem o ucraniano. Mas nada disso é resposta muito séria, para a qual é preciso pesquisa mais avançada.

Russo e ucraniano são línguas que se parecem muito. Têm na base a mesma língua – o ruteno antigo, uma das línguas eslavas orientais, como o russo, o ucraniano, o bielorrusso. Foi falada no Rus’ de Kiev, e hoje é língua extinta.

A partir dos séculos IXº − Xº, essas línguas separaram-se e começaram a desenvolver-se de modo autônomo, em função do próprio desenvolvimento das sociedades ucraniana e russa.

A nação russa foi constituída em torno do principado de Moscou que invadiu terras vizinhas (principalmente terras de populações turcas e fino-úgricas) e impôs-lhe sua cultura e, notadamente, a língua russa. Por causa desses contatos há, hoje, na língua russa tantas palavras de origem não eslava. A nação ucraniana, por sua vez, formou-se da união de populações eslavas provenientes do sul da Ucrânia. Diferente do russo, o ucraniano conservou mais radicais da língua antiga e, quantos aos empréstimos, vêm principalmente de outras línguas eslavas. Nesse sentido pode-se dizer que o ucraniano é mais “eslavo” que o russo.

Uso da língua russa nas macro regiões da Ucrânia
Estudantes estrangeiros que vêm estudar na Ucrânia, dizem que o ucraniano é muito mais próximo das línguas europeias. Embora não haja graus comparativos de ‘europeização’ de língua alguma, pode-se, sim, encontrar no ucraniano grande número de palavras emprestadas de línguas indo-europeias, que se consideram empréstimos linguísticos ocultos. Por que ocultos? Simplesmente porque os ucranianos consideram essas palavras como ‘puramente’ ucranianas e desconhecem as origens delas. Por exemplo, a palavra ucraniana “ліжко” (pronuncia-se /lijko/ e significa “cama”) vem da palavra francesa “lit”. Os intérpretes dizem que é mais fácil a tradução francês-ucraniano ou inglês-ucraniano, que francês-russo ou inglês-russo.

Em praticamente todos os casos, é fácil explicar de fato a diferença entre o ucraniano e o russo. Às vezes, nem os ucranianos se apercebem da mistura das duas línguas, a tal ponto que já se vê o nascimento de uma nova “língua”, chamada “Surjik” (uma mistura intermediária entre o russo e o ucraniano).

Embora todos os ucranianos sejam bilíngues, há um problema real não só entre o russo e o ucraniano, mas com o próprio idioma ucraniano. Em diferentes regiões da Ucrânia, e principalmente no oeste do país, há diferentes dialetos e falares. Para os habitantes do leste da Ucrânia, é difícil compreender o que dizem os moradores de pequenas vilas dos Cárpatos. Por sua vez, os habitantes do leste do país (a região de Donetsk) e da Crimeia consideram o russo sua língua materna, porque é a língua da vida diária e, na maior parte dos casos, também na escola.

Seja como for, o problema das línguas na Ucrânia é agravado pela situação política e econômica. Apesar de a língua ucraniana ter permanecido proibida pelo Império Russo durante vários séculos, mesmo assim conservou sua originalidade e riqueza vocabular.

Hoje, o ucraniano é a língua oficial do país. É ensinada na escola, os documentos são redigidos em ucraniano, 95% dos jornais são publicados em ucraniano.

Mapa  étnico-linguístico da Ucrânia
A opinião difundida, segundo a qual o russo e o ucraniano seriam quase línguas similares não foi confirmada pela maioria de linguistas e filólogos. Entre o russo e o ucraniano, há só 62% de palavras comuns (diferença de 38%). O russo está na 5ª posição por critérios de semelhança linguística, depois do polonês, do tcheco, do eslovaco e do bielorrusso. Para dar uma ideia mais precisa dessa diferença, sabe-se que, entre o inglês e o holandês há 37% de diferença e entre o sueco e o norueguês, 16%. A diferença de vocabulário entre a língua provençal e o catalão é de 5%, entre o eslovaco e o tcheco, 15%, e entre o ucraniano e o bielorrusso, 16%. Detalhe interessante é que o ucraniano e o polonês têm entre elas 30% de diferença; a mesma diferença que há, no nível vocabular, entre o francês e o italiano.

Se se faz pesquisa rigorosa e precisa, veem-se muita outras coisas interessantes nas diferenças percentuais entre essas línguas. O mais importante a reter é que o ucraniano e o russo são línguas diferentes no plano do vocabulário, da gramática, da construção das frases e, sobretudo, no plano da pronúncia. Sim, o ucraniano e o russo são línguas fortemente aparentadas, mas são, ainda assim, muito diferentes. O fato de que os ucranianos compreendam as duas línguas e vivam em duas línguas tem história complexa, a partir do século 17, quando a Ucrânia dependia de vários países, o que impediu que a língua e a cultura se desenvolvessem exclusivamente dentro delas mesmas.



[*] Vasylyna Golovnya é fluente nos idiomas: russo, ucraniano e francês; conhecimentos e alguma fluência em inglês e alemão. É tradutora de diversos artigos e ensaios notadamente para o Journal Francophone d’Ukraine. Formada em Linguística pela Université de Poitiers, Bretanha, França. Especializada em tradução e composição de textos para websites e gerenciamento de conteúdo em páginas científicas.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A cosmopólis persa revisitada

19/7/2013, [*] Richard Eaton, Asia Times Online 
“Revisiting the Persian cosmopolis”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Já há vários séculos, o trabalho de escrever a história do sul da Ásia mostra a fatídica tendência de ver o passado pelas lentes da religião – sobretudo o Hinduísmo e o Islã, as religiões quase sempre vistas e apresentadas como essencializadas, fora do tempo e presas numa oposição binária, ou em relação de mútua hostilidade.

Sheldon Pollock
Para sugerir abordagem radicalmente diferente na teorização desse espaço cultural, Sheldon Pollock cunhou recentemente a expressão “cosmópolis sânscrita”, que designa o vasto cenário geográfico de cultura índica que se estendeu, do século 4 ao século 14, do Afeganistão até o Vietnam.

Para Pollock, o que caracteriza essa cosmópolis foi não a religião, mas as ideias elaboradas no próprio corpus de textos sânscritos, os quais, por mais de um milênio, circularam através e acima do mundo vernacular das línguas [o órgão da fala: no orig. tongues (NTs)] na região.

Esses textos abraçavam tudo, de regras de gramáticas a estilos de reinados, arquitetura, comportamento recomendado, objetivos da vida, regulação da sociedade e a aquisição de riqueza e poder. Fundamentalmente, a cosmópolis sânscrita tratava, sobretudo, de definir e preservar a ordem moral e social, mas sem privilegiar nenhuma comunidade religiosa ou étnica particular.

De crucialmente importante, que se expandiu por grande parte da Ásia, não pela força das armas, mas por imitação, e sem quaisquer centro de governo ou fronteiras fortificadas. Quanto a isso, se compara ao mundo helenizado, que envolveu a bacia mediterrânea e o Oriente Médio depois de Alexandre o Grande.

Quanto à Índia, pelo menos, historicamente, Pollock só teorizou uma instância dessa formação transregional. Porque a cosmópolis sânscrita antecipou em cerca de 500 anos o advento de outro fenômeno similar, uma “cosmópolis persa”, que se expandiu por grandes porções da Ásia Ocidental, Central e do Sul, mais ou menos do século 9 ao século 19.

Mapa político da região considerada
(clique na imagem para aumentar)
Esses dois modelos de cultura cosmopolita exibiram paralelos impressionantes. Ambos se expandiram e floresceram até bem além das respectivas terras originais, dando às duas culturas um traço transregional – de fato, um traço de “lugar nenhum” [orig. placeless]. Os dois modelos têm seus fundamento numa língua e literatura de prestígio que conferiam status de elite aos falantes e leitores. Ambos articularam o poder sobre o mundo – especificamente, o domínio universal. E, embora as duas cosmópolis tenham elaborado, discutido e criticado tradições religiosas, nenhuma estava plantada sobre alguma específica religião, e, bem diferente disso, adotavam ponto de vista distanciado, “superior” a tudo que todas as religiões pregavam.

Mas o que, exatamente, foi a “cosmópolis persa”? Depois da conquista do planalto iraniano, no século 7, a recusa dos iranianos a permanecer sob governo e cultura árabes resultou em tentativas para recuperar uma civilização rica, mas submergida, persa pré-islâmica – movimento que levou, na dimensão linguística, à emergência do [idioma] novo persa.

Mapa do Irã destacando o Curasão
Esse idioma apareceu primeiro como lingua franca falada em todo o planalto iraniano. Em meados do século 10, surgiu uma forma escrita, derivada de uma escrita arábica modificada, quando escritores persas no Curasão – nordeste do Irã, oeste do Afeganistão e Ásia Central – começaram a apropriar-se de uma herança híbrida do Islã árabe e do Irã pré-islâmico.

De início, pelo menos, o patrocínio da corte – a saber, a corte da dinastia samanida dos reis do Curasão (819-999) – teve importante papel nesses desenvolvimentos. Com base em Bukhara (no sul do Uzbequistão), a corte samanida controlava as grandes rotas comerciais que conectavam o planalto iraniano com a Índia para o sul, a Ásia Central turca para o norte e, pela Rota da Seda, com a China, para o leste. Bukhara era pois uma vibrante zona de comércio, onde se falavam muitas línguas.

À altura do século 14, contudo, em toda uma vasta porção do território entre a Anatólia e o Leste da Ásia, o novo persa já se tornara prestigiada língua literária, principal veículo usado pelas burocracias estatais e língua de contato usada na diplomacia interregional. Na China, serviu não só como lingua franca, mas também foi o idioma oficial durante os séculos 13 e 14. Marco Polo usou predominantemente o persa na China e, de fato, em todas as suas viagens pela Rota da Seda.

Rota da seda de Marco Polo (marítima e terrestre)
(clique na imagem para aumentar)
O que explica esse notável desenvolvimento? Um dos fatores foi o ambiente cosmopolita no qual o idioma novo persa fora incubado. O Khurasão na era samanida não era diverso apenas em termos linguísticos, mas também em termos religiosos, com comunidades de cristãos, zoroastristas, judeus, budistas, pagãos e xamanistas, todos convivendo com muçulmanos xiitas e sunitas.

O novo idioma, assim, serviu como denominador comum linguístico, numa sociedade multiétnica. Além disso, dado que não servira como veículo para nenhum tipo de liturgia ou escritoras sagradas, o novo persa não implicava nenhum ameaça ideológica ao árabe – a língua dos islamistas vitoriosos no século 7, no Irã.

A poesia persa também teve papel importante na difusão da cosmópolis persa, especialmente o grade poema épico do Irã, Shahnama. Iniciado no final da dinastia samanida e completado em 1010, o épico de Firdausi, com cerca de 60 mil dísticos rimados, canonizou conscientemente a história dos reinos iranianos pré-islâmicos.

Mahmud de Ghazni
(Clique na imagem
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Como a língua na qual foi composto, o Shahnama tampouco ameaçava o sentimento árabe ou islâmico; ao contrário, elogiava o monarca reinante Mahmud de Ghazni (997-1030) como alguém em que se combinaram, somando-se, as virtudes de soberanos iranianos e islâmicos.

Também assimilava o ethos guerreiro dos turcos da Ásia Central e a herança da civilização grega. Nas mãos de Firdausi, o próprio Alexandre foi convertido em grande rei iraniano; sua mãe, em princesa iraniana; e os heróis pré-Zoroastro foram preservados como análogos aos deuses védicos indianos. No Shahnama, em resumo, acomodaram-se umas às outras as culturas grega, turca e indiana.

Como acontecia com textos escritos em sânscrito, que circulavam livremente por todo um vasto território, depois do século 11 textos escritos em novo persa viajaram distâncias surpreendentemente longas, saltando por cima de fronteiras étnicas e políticas, além de ultrapassar inúmeras fronteiras naturais. A produção de literatura persa tampouco teve algum epicentro geográfico único, nem depois que os mongóis invadiram o Khurasão, no século 13.

Povos em regiões como o Cáucaso ou o Sul da Ásia ainda conservam em seus idiomas locais, cultivando-os e também produzindo, grandes trabalhos de literatura persa. “Contadores” tamiles e malaios do popular One Thousand Questions apresentam o texto como de origem persa, que pode ser rastreada até o sul da Índia do século 16. Assim também, romances persas como o Haft Paykar de Nizami Ganjavi (m. 1209) foram traduzidos no século 17 para o bengalês para os reis de Burma [hoje Myanmar] da costa Arakan.

Por essa via, formas vernacularizadas da cosmópolis persa viajaram para os mundos burmeses e malaios do sudeste da Ásia. A portabilidade da literatura persa por todo esse vasto espaço geocultural foi mais uma dimensão da cosmópolis persa que, também essa, tem perfeito paralelo com a cosmópolis sânscrita que a precedera.

No plano político, o mesmo ambiente que nutrira o uso literário e burocrático do idioma novo persa – o ambiente culturalmente diversificado dos séculos 9 e 10 no Khurasão – também modelou uma concepção específica do “governante do universo”, o “sultão”.

Concebida para ocupar um espaço político que ficava além e acima de todos os grupos étnicos e todas as comunidades religiosas, essa figura era entendida não como apenas universal, mas, sim, como verdadeiramente suprema. Nos séculos 9 e 10 no Khurasão da dinastia dos samanidas, onde se estavam revivendo memórias do Irã pré-islâmico, os sultões tinham poderes de soberanos universalistas que, antes, já apareceram associados aos imperadores persas pré-islâmicos.

Essa concepção acompanhava a ideia da cosmópolis persa, que resistia contra qualquer reivindicação de território soberano. O mesmo, vale lembrar, aplicava-se também à cosmópolis sânscrita. Assim como os sultões de Delhi apresentavam-se como “senhores da superfície da Terra”, os maharajas indianos apresentavam-se, quase todos, como “asilo do mundo inteiro”.

Ibn Balkhi
Ainda mais significativo, já no século 12, o historiador iraniano, Ibn Balkhi revelou uma separação, de fato já existente, entre religião e estado. Escreveu que o reinado no Irã pré-islâmico baseava-se no princípio supremo da justiça, e que todos os reis daquela era transmitiam como lição ao herdeiro coroado a seguinte máxima:

Não há reino sem exército, nem exército sem riqueza, nem riqueza sem prosperidade material, nem prosperidade material sem justiça.

Vê-se bem que se trata de esquema globalizante: economia, moralidade e política, todas integradas num só ideário coerente. Chama a atenção também o lugar central que o autor dá à ideia de justiça – e que não se faz aí qualquer referência a Deus ou à religião. Como ideologia de governo, essa fórmula viria a ser tema sempre recorrente no mundo que falava persa, repetida com apenas pequenas variantes por legiões de autores de literatura cortesã.

Assim também, uma ideologia de governo que também acomodava-se à diversidade cultural e focava o princípio da justiça facilitou a incorporação da Índia na cosmópolis persa. Por um lado, aquela ideologia persa de inclusão dos diferentes era útil para governar uma sociedade do norte da Índia, ela também extraordinariamente diversa em termos de religiões, idiomas e arranjos sociais.

Por outro lado, em 1206, apenas poucas décadas depois que os mongóis na Ásia Central e no Irã produziram um holocausto e muitos milhares de refugiados turcos e iranianos, já havia um estado persianizado estabelecido no coração da planície indiana. Foi o sultanato de Delhi (1206-1526), que herdou as tradições e ideologias de governo do persianato, as quais, por sua vez, haviam prosperado no Curasão dos governantes samanidas.

A existência desse sultanato permitiu que os que fugiam das invasões mongóis migrassem da Ásia Central e do Irã para o norte da Índia, onde foram recebidos por funcionários do sultanato. Naturalmente, esses refugiados implantaram na Índia o conjunto completo da cultura persa que traziam da Ásia Central e do Irã.

O aspecto talvez mais notável da cosmópolis persa, contudo, é a rapidez com que suas ideias centrais difundiram-se para territórios ainda mais remotos, além das fronteiras de estados persianizados como o sultanato de Delhi. Uma ideia-conceito claramente persa, que privilegia a noção de justiça e a conecta à economia, à moralidade e à política, já chegar à Índia peninsular, quando aquela região ainda era governada por soberanos hindus. 

Baddena (poeta telugo)
Em algum momento no século 12 ou 13, o poeta telugo Baddena, que vivia na corte Kakatiya em Warangal, escreveu os seguintes, surpreendentes versos:

Para conseguir riqueza: que o povo prospere. Para o povo prosperar: o instrumento é a justiça. O, Kirti Narayana! A justiça é o tesouro dos reis.

São linhas que revelam claramente a influência do mundo do persianato, porque o conceito de justiça como principal patrimônio dos governantes absolutamente não aparece nos escritos do pensamento político em sânscrito. E sobretudo: como na cosmópolis sânscrita, essas são ideias tomadas por empréstimo cultural; jamais foram impostas.

Além da ideologia política, outros itens componentes da cosmópolis persa também chegaram até a Índia e ali se disseminaram depois do século 13, entre os quais arquitetura, vestiário, comportamento na corte, culinária e, especialmente, palavras.

Assim como se expandia o alcance geográfico das letras persas, assim também se expandiu a produção de dicionários, cujos compiladores tinham a tarefa de tornar legível e compreensível para todos toda a literatura produzida em diferentes pontos do mundo persa. A partir do século 14, começaram a ser produzidos dicionários na Índia. Esses dicionários e respectivos construtores geraram equivalentes às palavras persas não só nas línguas da Índia, mas também em turco, pashtum, aramaico, grego, latim e siríaco.

Império Mughal (Índia)
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Entre os séculos 16 e 19, a maior parte de todos os dicionários de língua persa eram produzidos na Índia. A partir do século 14, a língua persa já se generalizara e era a mais usada para os contatos diplomáticos e de governo em todo o subcontinente, com muitos indianos empregados nas burocracias judiciária e financeira no sultanato de Delhi, mais tarde, no império Mughal (1526-1858) e nos estados que o sucederam.

Resultado desse processo, palavras em persa infiltraram-se no vocabulário de praticamente todas as grandes línguas regional do Sul da Ásia. Línguas vernaculares como o bengalês ou o telugu são fartas em palavras persas, não só na comunicação oficial, mas também no comércio, literatura, culinária, música, tecelagem e tecnologias de todos os tipos.

Para concluir, ao mesmo tempo em que partilhou tantos traços em comum com a cosmópolis sânscrita, a cosmópolis persa, diferente nisso da índica, apropriou-se de culturas anteriores cosmopolitas culturalmente prestigiadas – o Irã pré-islâmico, o Islã árabe e o helenismo. Assim sendo, quando o Islã como sistema religioso difundiu-se pelo norte da Índia e Deccan, ele avançou como que encapsulado no interior de um barco muito maior, da tradição e da história persa.

De tudo isso, o mais crucialmente importante é o caráter não religioso dessa cosmópolis persa mais ampla que permitiu que não muçulmanos tão rapidamente assimilassem muitos de seus aspectos. Por mais que seja clara, muitos estudiosos modernos parecem não se dar conta dessa peculiaridade. E continuam a ler a história do sul da Ásia pelas lentes estreitas da religião e, em particular, do confronto entre hinduístas e muçulmanos. E assim perpetuam os tropos do despotismo oriental do século 19; os tropos do “choque de civilização” do século 20; ou as ansiedades ocidentais do século 21, em torno do ativismo islamista.



[*] Richard Eaton é professor de História na University of Arizona. É autor, dentre outros livros, de Slavery and South Asian History (Indiana University Press) e Islamic History as Global History (American Historical Association).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O fim da tradução


1/10/2012, Thorsten Pattberg, “Speaking Freely Blog”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thorsten Pattberg
PEQUIM – Pouca gente parece perceber que, bem francamente, a Bíblia desestimula as pessoas a estudarem outras línguas. A história da Torre de Babel informa que há uma única humanidade (os filhos de Deus), mas “as línguas são confusas”. De uma perspectiva histórica europeia, isso sempre significou que, digamos, qualquer filósofo alemão sempre podia saber exatamente o que pensa o povo chinês; o único problema é que não entendia o que diziam. Então, em vez de buscar aprender a língua desconhecida, o filósofo encomendava uma tradução.

Por coincidência ou não, a História, com H maiúsculo, acompanhou a Bíblia. Ao tempo da nação alemã sob o Sacro Império Romano, quando os intelectuais alemães ainda falavam latim, o lógico alemão Christian Wolff pôs as mãos numa tradução latina de Clássicos de Confúcio. Sua reação teve de cômica o que teve de perturbadora: leu Kong Fu Zi ou K’ung-fu-tzu em Latim e concluiu alguma coisa como “Ótimo, a coisa soa-me bem familiar. Acho que entendi perfeitamente o tal de Confúcio!”.

Wolff ficou tão feliz com seus novos poderes mentais que passou a dar aulas sobre os chineses, como se fosse o rei da China. Seria brilhante, não fosse tão engraçado. Dentre suas obras inesquecíveis figuram coisas como “Os motivos dos chineses”, ou “O objetivo final dos chineses” e assim por diante.

E, claro, quando alguém vez ou outra perguntava ao máster por que jamais visitara a China, o maior sinólogo alemão de todos os tempos achava meios para valorizar ainda mais o seu grande triunfo intelectual. Respondia que “a sabedoria dos chineses nunca foi assim tão valiosa, que justificasse a viagem”.

Ficou assim estabelecido, entendo eu, que a “História” parou nesse Wolff, ou, no mínimo, cansou-se, de vez; ou tornou-se cínica demais. Wolff demonstrara satisfatoriamente que praticamente qualquer europeu podia converter-se em “especialista em China” mesmo sem saber sequer uma palavra em chinês.

O mesmo se aplicaria também a qualquer outra língua estrangeira. O suficiente para que o filósofo alemão Immanuel Kant pudesse, sem que ninguém se escandalizasse, anunciar “O fim de todas as coisas” [The End of All Things, 1794]; e Georg Hegel proclamasse o “fim da história”. Ambos homens letrados, sabiam muito bem que não dominavam qualquer idioma não europeu; resolveram então que, com a história, se passaria mais ou menos a mesma coisa.

Essa atitude no hemisfério ocidental não mudou. Resultado disso é que vivemos num mundo perfeitamente enlouquecido. A maioria dos intelectuais europeus e norte-americanos creem que os chineses “falam a nossa língua”. Diferente, só, que eles “conversam” em chinês.

Tome-se por exemplo o caso de “democracia” e “direitos humanos”. Não sei se alguém já pensou nisso, mas são palavras europeias, que absolutamente não existem em chinês. A China bem poderia retribuir a gentileza e exigir da Europa mais wenming [1] e tian ren he Yi. [2]

A atitude europeia reflete-se nas traduções europeias. A maioria dos ocidentais simplesmente converte os conceitos-chave chineses, para a terminologia bíblica ou filosófica mais conveniente. Resultado disso, os modernos estados-nação, como a Alemanha em 2012, são virtualmente vedados, à prova de China.

A tradução, é claro, é velho hábito da humanidade. O que não significa que não se deva questioná-lo. Sempre foi hábito da humanidade cortar os oponentes em pedaços, nas batalhas. Nem por isso continuamos o fatiamento (exceto no Afeganistão e no Iraque). Por que insistimos ainda em destruir o vocabulário que nos chegue de idiomas estrangeiros? Bem, acho que fazemos assim, em primeiro lugar, por motivos sociológios.

Na Alemanha, censuram-se sempre todos os termos significativos que apareçam em idioma estrangeiro. O povo alemão, assim, é levado a crer que só os alemães sabem tudo que é preciso saber no mundo e – metaforicamente falando – age como se soubesse. Esse é o motivo pelo qual a Alemanha produziu tantos “historiadores” e “filósofos” como Georg Hegel, Max Weber ou Karl Marx. Os intelectuais alemães chamam a isso deutungshoheit – que significa “plena soberania para definir o pensamento”.

Talvez soe deprimente, mas é a verdade e tem de ser dita: o ocidente sabe muito pouco sobre a China, e a China cultural jamais é apresentada como verdadeiro fenômeno global. Nem uma mínima porcentagem dos europeus letrados, pelas minhas contas, sabe o que é ruxue, ou um junzi ou shengren. E são alguns dos mais importantes conceitos chineses de todos os tempos.

Dito de outro modo: alguém aí algum dia pensou por que há tantos “filósofos” e “santos” pelo mundo, mas jamais houve um único shengren ou buddha no ocidente? Pensem bem: qual a probabilidade de que surja algum? Quem é o autor da versão de “História” que nos ensinam? O ocidente é presa e vítima e, no momento em que escrevo, está sendo sangrado pela própria noção de originalidade sociocultural.

Frequentemente sinto-me embaraçado, envergonhado, ao ver professores asiáticos (que obtiveram suas “qualificações” no ocidente) e que inauguram novos departamentos de “filosofia chinesa” ou “religião chinesa” na China, quase sempre zombando de empresários, missionários ou agências ocidentais de ajuda humanitária.

“Filosofia” é conceito greco-helênico apropriado pela tradução judaico-cristã. Rujiao, Fojiao, and Daojiao são jiao, ensinamentos. E “religião” só há uma: a concepção ocidental de religião. Vivemos no ano 2012 de Nosso Senhor Jesus Cristo. A chamada “liberdade de religião” tem de ser entendida como: “nesse mundo cristão, todos podem crer no que quiserem”. A China é pressuposta evangelizada, precisamente porque “todas as religiões chinesas” seguem a taxonomia judaico-cristã.

A China não é caso isolado. A Índia também, aos poucos, se vai dando conta de que há alguma coisa estranha no ar. A tradição sânscrito-indu inventou dezenas de milhares de conceitos não europeus que estão sendo simplesmente impedidos de entrar na História, por ação da mídia e da universidade ocidentais. Como se bilhões de chineses e indianos, ao longo de 3.000 anos, jamais tivessem inventado coisa alguma – como se lá tivessem ficado, só à espera de verem sua criatividade e sua propriedade intelectual serem roubadas, assaltadas.

Comentaristas ocidentais têm-me respondido, argumentando que precisamos de uma “linguagem global” – e que o inglês seria hoje candidato preferencial ao posto. Costumo responder: “Não sejam doidos! É exatamente o que fizeram os alemães! Hoje, vêm os anglo-saxões, que fecham os livros de história “deles” e declaram “vocês estão decifrados, já conhecemos vocês.”

Não. A verdadeira “linguagem global” será radicalmente diferente do inglês contemporâneo, ou não será nem linguagem, nem global. Terá de incorporar a originalidade de dezenas de milhares de palavras que outros idiomas têm a acrescentar ao patrimônio comum de toda a humanidade.

Qualquer aluno de idiomas ou de tradutologia experimenta, de tempos em tempos, uma espécie de profunda convicção, brotada do subconsciente, de que algo se perdeu na tradução, sempre, em todos os casos. Mas todos temos medo de deixar avançar nossa intuição.

É provável que haja uma espécie de vício na história da Torre de Babel – vício monstruoso, assustador. E se as línguas humanas absolutamente não estiverem confundidas e misturadas? E se aconteceu apenas que nenhum grupo de seres humanos foi jamais suficiente, em número, para explorar todas as possibilidades de todas as línguas humanas? E se os chineses já tiverem inventado conceitos – aos quais chamaram daxue, datong, wenming, tian ren he Yi e tantos outros – sobre os quais nenhum norte-americano tem ideia alguma, exatamente como – e, nisso, acho que todos concordamos – o ocidente sempre fez?

Diz-se sempre que a língua é a chave para entender a cultura e as tradições chinesas. O problema é: que língua?
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Tradução de alguns  COMENTÁRIOS

Abhishek Singh
Excelente artigo. Muitos conceitos indianos, como dharma, maya, mithya são sempre mal traduzidos. Por exemplo, “jagat mithya hai” é traduzido por “o mundo é irreal”, quando, de fato, deveria ser traduzido por “o mundo está sempre mudando”. A confusão começa quando indianos letrados que nada sabem sobre a própria cultura aceitam a tradução errada. Historiadores ocidentais pintam a filosofia indiana como coisa de gente espiritualizada, sem qualquer ambição pelo ganho material. Quem dera fosse! Ninguém entende a diferença entre sat, asat e mithya. Desculpe o comentário longo demais, mas esse artigo mexeu comigo.
“Sat” = constante, duradouro.
“asat” = falso, não existente.
“mithya” = o que antes não era mas agora é mas não permanecerá, i.e, está sempre mudando.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente comentário, Abhishek. Tendo a pensar que o próprio conceito de “religião” no ocidente tende a ser mal entendido e gera confusão, simplesmente porque traduzimos mal os textos das “grandes religiões” – escritos em sânscrito, pali, chinês, árabe, aramaico, etc. Você fala de dharma. Pode-se falar também do conceito budista de dukkha – conceito fundacional, em vários sentidos, do budismo – traduzido como “sofrimento”, quando há muitos outros modos, mais nuançados, de traduzi-lo.

Klaus Lee · Hong Kong Technical College
Artigo muito interessante. Lembrei que a palavra chinesa zongjiao (traduzido por “religião”) significa, de fato, “diferentes modos de ensinar”, o que está em direta contradição com a ideia cristã de “só há um Deus”. Assim, quando um cristão chinês refere-se às próprias crenças como zongjiao, melhor faria se parasse e pensasse: “mas, afinal, o que estou dizendo?!”

Gina Chang · Vancouver, British Columbia
Por isso mesmo, muitos cristãos chineses [oh! Eu também ;-)] nunca falamos do Cristianismo como “religião”.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente artigo. A “tradução” de conceitos chineses em falas ocidentais é sempre um risco de potencial tragicomédia. Basta ler as muitas traduções deDao De Jing ou de Yi Jing [em português, “Livro das Mutações”, I Ching] para constatar as muitas absolutas diferenças de terminologia e de conceitos.



Notas dos tradutores

[1] Em artigo intitulado “Traduções ocidentais distorcem a realidade na China” (1/5/2012, Korea Herald), Thorsten Pattberg discute o uso da palavra “civilização” como tradução do chinês wenming: “Wenming é em geral traduzido como “civilização”, mas há aí distorções graves. Em conferência recente na Universidade de Pequim (Civilization Cessation, Wenming Winning?) , o renomado linguista Gu Zhengkun explicou que wenming implica alto padrão ético e extrema gentileza; enquanto a palavra civilization [ing. “civilização”] designa o controle que o povo de uma cidade tenha sobre materiais e tecnologia, algo como a capacidade para construir mísseis e obras arquitetônicas.

[2] Segundo o professor Ji Xianlin, em “Harmony of Man with Nature”, cada um dos quatro caracteres chineses em tian ren he Yi simbolizam respectivamente “natureza”, “seres humanos”, “compreensão mútua” e “amizade”. Juntos, significam a consciência de que os seres humanos são parte (e pequena) do mundo, conectados ao mundo. É um conceito arraigado na cultura chinesa. Por exemplo, o aparelho tradicional de chá é composto sempre de três itens: o bule tampado, a xícara e a bandeja, simbolizando o céu, as pessoas e a terra.