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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Israel e Arábia Saudita: A Contrarrevolução Permanente

20/9/2013, [*] Asa WinstanleyMiddle East Monitor
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Primavera árabe, manifestação de 1 milhão na Praça Ibrahim al-Qaed em Alexandria, Egito
O que o saldo dos levantes árabes de 2011 nos ensinou até aqui? Podem-se listar muitas coisas, mas, para mim, o que mais chama a atenção é a natureza, agora já completamente exposta e visível, da aliança entre Arábia Saudita e Israel.

Essa aliança representa uma contrarrevolução permanente que domina, em conjunto, a região – plenamente apoiada pela hegemonia imperial em ruínas de Washington DC.

Os dois regimes são ambos ditaduras militares, embora de modos diferentes. E os dois regimes são também teocracias, cada um a seu modo. A visão wahhabista extremista da família saudita que domina o país poderia levar alguém a supor que os sauditas detestariam o autodeclarado “estado judeu”. Nada disso.

Conquanto a mídia-empresa do regime saudita volta e meia exiba o mais escandaloso antissemitismo, o movimento sionista jamais deu qualquer importância a antissemitismos, exceto como chibata para vergastar os inimigos do sionismo. Nada disso. A verdade é que se vê com muita frequência, na mídia-empresa de Israela Arábia Saudita apresentada como “regime moderado”.

Esse regime “moderado” é monarquia absolutista cruel, que sequer se dá ao trabalho de fingir que realiza eleições – a família real, com seus milhares de príncipes senis, simplesmente governa o país com mão de ferro, encarcerando os opositores.

Zein eldin Ben Ali
De fato, para onde fugiu o ditador tunisiano Zein eldin Ben Ali, depois de derrubado do poder pelos levantes populares de 2011? Para a Arábia Saudita, onde foi recebido de braços abertos pelo rei. Desde então, o reino tem recusado todos os pedidos de extradição do governo da Tunísia.

Os sauditas, apoiados na sua aparentemente ilimitada riqueza em petróleo, exportam morte e destruição para toda a região. Na Síria, os sauditas comandaram o movimento pró-guerraonde, de fato, os sauditas fazem guerra à distância.

No Líbano, os sauditas estão entre os principais suspeitos de uma recente [em 2013] onda de explosões de carros-bombas cujo objetivo provável parece ter sido incitar e incendiar oposições sectárias subjacentes. O dinheiro saudita circula fartamente pela região, pelos bolsos de “jornalistas” estenógrafos da corte, que usam suas plataformas para papagaiar os objetivos da política externa dos sauditas e disseminar sempre mais o ódio e o sectarismo.

Falando recentemente ao New York TimesAlon Pinkas, ex-cônsul geral de Israel em New York, assim resumiu a atual [em 2013] política israelense na Síria:

Deixar os dois lados sangrarem, hemorragia, até a morte: eis o pensamento estratégico por aqui. Enquanto durar [a guerra na Síria], não há ameaça real a temer da Síria.

Michael Oren
Mas essa semana [em 2013] o embaixador de Israel à ONU, Michael Oren, disse que o pensamento israelense era mais complexo, naquela questão:

Sempre quisemos que Bashar al-Assad saísse, sempre preferimos bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, a bandidos apoiados pelo Irã.

Nada estará algum dia mais alinhado com os objetivos políticos da Arábia Saudita, de derrubar o presidente Assad – apesar de uma curta entente em 2009, quando o rei Abdullah visitou Damasco.

Qualquer que tenha sido o pensamento estratégico prevalecente na cúpula israelense, fato é que a aliança sauditas-israelenses, que antes foi tácita, agora já se deixa ver abertamente declarada.

Oren esclareceu tudo:

(...) nos últimos 64 anos provavelmente jamais houve mais ampla confluência de interesses entre nós e vários estados do Golfo. Com esses estados do Golfo, temos acordos sobre a Síria, o Egito e a questão palestina. Evidentemente, também temos acordos sobre o Irã. É uma das boas oportunidades criadas pela Primavera Árabe.

No Egito, os sauditas realmente lideraram diretamente a contrarrevolução – com apoio diplomático de Israel – encorajando autoridades norte-americanas a apoiar fortemente o ditador Hosni Mubarak quando enfrentava pressão máxima em 2011. Os sauditas parecem não ter gostado da relutância do governo de Barack Obama, apanhado no contrapé, sempre sem saber como reagir aos levantes árabes.

Egito - golpe MILICANALHA (julho 2013)
A partir dali, o Egito foi dominado por uma contrarrevolução. O golpe militar do general Sisi, que tomou o poder em julho/2013, foi e continua a ser totalmente apoiado pelos sauditas. A monarquia prometeu bilhões de ajuda ao regime, no caso de a ajuda militar dos EUA vir a ser suspensa (possibilidade muitíssimo improvável).

Escrevendo em Jewish Chronicle mês passado (agosto/2013), o correspondente em Londres do jornal Haaretz, Anshel Pfeffer, disse que o governo de Israel está satisfeitíssimo com o golpe, embora se mantenha em silêncio. “Conhecemos al-Sisi e se pode fazer negócios com ele” – escreveu Pfeffer, citando uma alta autoridade da segurança de Israel.

No Bahrain, outro levante popular em 2011 foi esmagado mais diretamente – por tanques e soldados sauditas.

O papel dos sauditas no financiamento da contrarrevolução e da violência política tem longa história – e não só na região. Eis aí mais um aspecto em torno do qual há perfeita harmonia entre Israel e a monarquia saudita.

Nos anos 1980s, durante algum tempo, o Congresso dos EUA bloqueou as tentativas, do governo Reagan, para financiar e armar os “Contras” – esquadrões da morte que a CIAestava usando para combater o governo democrático de esquerda na Nicarágua (esquadrões da morte que, segundo a mídia-empresa nos EUA, seriam constituídos de “revolucionários” e “combatentes da liberdade”).

A quem a CIA recorreu, para resolver o caso? À Arábia Saudita e a Israel. De fato, o mesmo príncipe saudita encarregado de armar os esquadrões da morte na Nicarágua é hoje (2013) encarregado de contrabandear armas para a Síria – o príncipe Bandar bin Sultan – mais uma vez com a ajuda da CIA (e de espiões britânicos).

Bandar (Bush) bin Sultan
Enquanto o despótico regime saudita continuar a exportar petróleo e violência política para toda a região, praticamente não há qualquer possibilidade de genuína mudança democrática no mundo árabe – e nada existe que meta mais medo a Israel, que democracia no mundo árabe.

Apesar da onda de guerras civis, quase guerras civis ou estados já virtualmente falidos ou colapsados, só uma coisa parece absolutamente inalterada: a impopularidade de Israel. Quando baixar a poeira, Israel ainda será impopular.
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[*] Asa Winstanley, nascido no sul do País de Gales, é um jornalista investigativo que vive em Londres, que escreve sobre a Palestina e no Oriente Médio. Visita regularmente a Palestina e a Cisjordânia ocupada desde 2004.
Escreve para o site de notícias palestina premiado The Electronic Intifada, onde ele é um editor associado.Mantém coluna regular no Middle East Monitor.
Escreve para outras publicações incluindo: Al-Akhbar (Líbano), Middle East Eye, The National, Jacobin, Ceasefire Magazine, New Left Project, Jerusalem Media and Communications Centre, Morning Star e Free Morning Star e Freedom.
Contribuiu com um capítulo de livro para Israel e Gaza: Behind the Media Veil, publicado pelo MEMO em 2014. Junto com Frank Barat, foi editor de Corporate Complicity in Israel's Occupation (Pluto Press) uma coleção de provas escritas e faladas de Sessões do Tribunal Russell, de Londres, sobre a Palestina .
É membro da National Union of Journalists.
Recebe e-mails em: mail@asawinstanley
Twitter: @asawinstanley

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Iniciativa Moscou/Cairo ‒ Nova ação pró-paz na Síria e por que Obama quer matá-la

14-16/11/2014, [*] Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Por que não há conversações sérias de paz para pôr fim à guerra na Síria? Depois de ter roubado a vida de mais de 130 mil pessoas e gerado mais de 9 milhões de refugiados expulsos de suas casas, a guerra na Síria infectou praticamente toda a região do Oriente Médio. Mas, mesmo assim, não há qualquer sinal, entre os EUA e seus aliados regionais, de discussão em torno de algum plano viável de paz; só se ouve conversa de guerra.

É difícil discutir projetos de paz, quando os EUA só fazem manobrar para obter mais guerra, já entregaram recentemente a rebeldes sírios mais de meio bilhão em armas e para custear treinamento militar, ao mesmo tempo em que negociaram um acordo com a Arábia Saudita para abrir novo campo de treinamento de rebeldes, além do que já funciona na Jordânia. Em vez de mobilizar para a paz a vasta influência que tem no Oriente Médio, Obama usou-a para promover mais e mais guerra.

O impressionante fracasso das conversações de paz sobre a Síria conduzidas pelos EUA em Genebra, foi resultado de movimento executado sem a seriedade exigida pela ação de liquidação de uma nação, como se vê na Síria. Obama serviu-se das conversações para promover “interesses dos EUA”, e excluiu propositalmente o Irã daquelas conversações, tentando alavancar poder desproporcional para os rebeldes do “Exército Sírio Livre” de Obama, que têm poder microscópico em campo e que usaram as conversações de paz exclusivamente para ali introduzir demandas descabidas, irrealistas e inaceitáveis.

Obama adotou posição passiva nas conversas de paz, deixando que gorassem, em vez de fazer valer propostas sérias, que expressassem a real situação em campo. Desde janeiro não há conversação alguma, e Genebra III não tem data para começar, com Obama ocupado exclusivamente com aumentar o poder de barganha dos rebeldes, via sempre mais guerra. Afinal, a lógica é a de armar cada vez mais e treinar o mais possível o maior número possível de rebeldes, os quais, adequadamente armados e treinados acabarão por controlar território suficiente para forçar o governo de Assad a barganhar em pés de igualdade.

O vácuo gigante no mercado da paz abriu oportunidades para que Rússia e Egito operem para introduzir-se, como já se sabe que estão fazendo, como novos líderes confiáveis na diplomacia do Oriente Médio, em parte para ampliar a própria influência, em parte para protegerem-se da conflagração do extremismo islâmico que o conflito está gerando.

Treinamento do ESL patrocinado pelos EUA 
Como Mint Press noticia, da história em andamento:

Moscou e Cairo preparam-se para uma conferência entre o regime sírio e a oposição, na esperança de aproximá-los para que constituam um governo de transição que ‘combata o terrorismo’  (...) Na agenda da conferência que acontecerá entre os dois lados, prevê-se o estabelecimento, de um governo sírio de transição, com amplos poderes, e que preservará a autoridade do presidente Bashar al-Assad da Síria sobre o exército e as forças de segurança.

Se essa proposta chegar a confirmar-se, será preciso reconhecer amplamente os méritos da iniciativa no cenário mundial e defende-la – porque o mais provável é que Obama faça todo o possível para sabotar a paz. Isso, porque os rebeldes de Obama em campo na Síria — frouxamente reunidos sob o rótulo do “Exército Sírio Livre” – não têm qualquer poder, o que o processo de paz liderado pela Rússia deixará bem visível. Além disso, a Rússia usará essa evidência para forçar um tratado de paz, o que deixará pouco espaço de influência para o governo Obama, no novo governo. Aí está um acordo de paz que Obama prefere ver bem morto.

Os rebeldes de Obama continuam a ser força muito débil, e o governo sírio continua a obter avanços militares substanciosos. Fato imensamente importante (embora absolutamente não noticiado no ocidente) é que já se assinou um acordo de paz na maior cidade da Síria, Aleppo, modelado conforme os termos do acordo de paz assinado em Homs, e pelo qual os rebeldes foram autorizados a retirar-se, depois de entregar as armas, o que devolveu ao governo do presidente Assad o governo de fato da cidade.

Robert Fisk
Interessante, o veterano jornalista Robert Fisk, especialista em Oriente Médio, questionou recentemente, não a importância do Exército Sírio Livre de Obama, mas a própria existência do tal exército. Como Fisk explica:

Que eu saiba, o Exército Sírio Livre anda bebendo café demais em Istambul. Nunca cruzei com eles – exceto nos primeiros meses da luta, jamais vi sequer prisioneiros do Exército Sírio Livre... Vocês entendem. O Exército Sírio Livre, aos olhos dos sírios, não tem existência real, não existe. Os sírios conheceram a al-Qaeda, Nusrah, vários outros grupos islamistas e agora, claro, também o ISIS ... Mas acho que não dão muita importância ao Exército Sírio Livre. Um oficial me disse que alguns “rebeldes” já estão sendo aceitos de volta no Exército Sírio, para poderem voltar para casa. Outros foram autorizados a voltar para casa, mas não poderão servir nunca mais no Exército Sírio. Na minha opinião, o Exército Sírio Livre não passa de mito. Acho que não existe, e os sírios também pensam como eu.

A análise de Fisk, sobre o Exército Sírio Livre mostra a perspectiva de muitos que há muito tempo dizem que o Exército Sírio Livre já foi totalmente absorvido nas milícias islamistas extremistas. Se ainda existir, o Exército Sírio Livre só sobrevive precariamente em bolsões irrelevantes. Mas Fisk suspeita que o Exército Sírio Livre não passe de mito, pura invenção do governo Obama, usado para justificar o prosseguimento da guerra na Síria.

À parte a fragilidade das forças de Obama em solo, há razões geopolíticas mais amplas pelas quais Obama rejeitará qualquer acordo de paz liderado por Rússia/Egito. Para começar, o governo Obama ainda recentemente, fez mais um gordo investimento na guerra, doando $500 bilhões aos rebeldes sírios e treinando milhares mais na Arábia Saudita, ações que, de fato, impossibilitaram qualquer reconciliação significativa com o Irã.

Obama optou por reforçar íntimas alianças com estados párias, Arábia Saudita e Israel, e esses dois querem a Síria destruída. Ao se re-comprometer com Arábia Saudita, Turquia e Israel, Obama, de fato, abandonou qualquer ideia de paz com Síria e Irã, porque esses aliados de Obama querem a destruição de Síria e Irã.

Egito (al-Sisi) e Rússia (Putin) querem paz na Síria... Mas os EUA querem guerra
Se Obama seguir o comando de Rússia e Egito no processo de paz, seus aliados o abandonarão, porque já investiram quantidades descomunais de dinheiro, armas e a própria sobrevida política, em esforço total para que seus governos e empresas ‘nacionais’ extraiam todo o lucro possível do fim do atual governo sírio.

Essa é a base do total impasse geopolítico que se vê no Oriente Médio.

Claro que as empresas norte-americanas gigantes que se beneficiam do domínio dos EUA sobre o Oriente Médio vivem hoje de pressionar Obama para que mantenha a guerra. O impasse já se tornou tão óbvio e destrutivo na Síria, que Rússia e Egito se autointrometeram como negociadores no processo de paz, movimento que ajudará a promover a alavancagem deles na região, ao mesmo tempo em que força os EUA para fora.

Independente de lutas pelo poder regional, se algum acordo racional de paz – negociado pela Rússia, pelo Egito ou por quem for – chegar a poder ser discutido, o mundo terá de exigir que todos procurem a paz, porque não se pode admitir que a catástrofe síria continue.


Obama e seus aliados regionais já se mostraram totalmente incompetentes e incapazes de produzir qualquer proposta exequível de paz – sempre mais interessados em manter a guerra. Obama tem aí mais uma chance para reconhecer o fracasso de sua guerra por procuração; para aceitar uma paz que já terá custado 100 mil vidas humanas. Ou continuará obcecadamente avante, expandindo a matança. Pôr fim à guerra na Síria é tão fácil quanto reconhecer fatos que aí estão à vista de todos. E redigir um tratado que manifeste os mesmos fatos.

[*] Shamus Cooke é trabalhador de Serviço Social, sindicalista e escritor ligado a Workers Action.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Árabes do Golfo espiam para dentro do mundo multipolar

11/10/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediff BLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

Churchill (E), Roosevelt(C) e Stalin(D) 
(Ialta, Crimeia - de 4 a 11 de fevereiro de 1945)
O tradicional sistema de alianças prevalecente na região do Golfo desde que o então Presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, deixou a Reunião de Ialta (1945) com Winston Churchill e Josef Stalin e tomou o rumo, sem se anunciar, do Egito, para encontro secreto com o rei Abdul Azziz ibn Saud da Arábia Saudita a bordo do destróier USS Murphysobre as águas do Grande Lago Salgado, está enfraquecendo inexoravelmente.

O sinal mais recente desse processo é o anúncio, que o Kremlin acaba de fazer, da visita do rei do Bahrain, Hamad ibn Isa Al Khalifa, que esteve no resort russo de Sochi no domingo (12/10/2014), para encontrar-se com o presidente Vladimir Putin e assistir ao trecho russo do Campeonato Mundial de Automobilismo da Fórmula 1 da FIA. O governante do Bahrain é braço auxiliar da família real saudita e só a intervenção brutal dos militares sauditas o tem ajudado, até agora, a manter fechada a panela de pressão que é a crescente aspiração por melhor democracia e respeito aos direitos humanos da maioria xiita no país.

O interessante é que ele foi degredado para a casa do cachorro no ocidente, e quase parece que a Rússia vai-se convertendo em local de peregrinação para governantes do Golfo Árabe que, como ele, não está feliz com o modo como o presidente Obama e as políticas dos EUA promovem democracia e respeito aos direitos humanos no Oriente Médio.

Se se tiver de apontar o momento de definição dessa desilusão crescente entre os árabes do Golfo com o governo Obama, foi quando a ex-Secretária de Estado Hillary Clinton desvelou dramaticamente o Século Norte-americano do Pacífico, com o máximo de espalhafato, e a estratégia de “pivô” dos EUA para a Ásia.

Hillary Clinton 
(por Davi Sales)
Os Clintons aproximam-se da família Bush no Texas, na devoção que manifestam pelos regimes árabes do Golfo, mas a Secretária de Estado não foi capaz de antecipar o efeito devastador que sua brilhante ideia do “pivô” teria sobre o moral dos aliados dos EUA no Golfo.

Os autocratas do Golfo Árabe foram tomados por terrível angústia por os EUA estarem a pivotear-se animadamente para a região do Pacífico Asiático, deixando-os entregues aos lobos na região; e por os EUA darem sinais de já não estarem totalmente comprometidos com a sobrevivência dos seus regimes arcaicos.

Àquela altura, a Primavera Árabe e os eventos cataclísmicos que levaram à queda de Hosni Mubarak no Egito, momento de definição do tal “pivô” nas estratégias dos EUA para o Oriente Médio, já haviam sacudido a fé que os árabes do Golfo ainda tivessem na lealdade dos EUA como Guardas Pretorianos de seus regimes, especialmente quando começaram a crescer as provas de que Washington se estava posicionando do “lado certo da história” e silenciosamente abraçava a Fraternidade Muçulmana, que, naquele momento, parecia ser a “força vital” emergente no Oriente Médio.

Como se não bastasse, começaram a circular notícias de que a dependência dos EUA do petróleo do Golfo havia começado a diminuir muito, conforme aumentava a produção de gás de xisto, o que, por sua vez, se traduziria em geopolítica como menor interesse, dos EUAna sobrevivência das oligarquias do petrodólar da região.

A tese como tal é ridícula, porque o envolvimento dos EUA com os estados do petrodólar nunca foi só como consumidor de petróleo, mas também como negociante no mercado mundial de energia e como exportador de tecnologia, além de tomar parte em todo o processo de reciclar petrodólares, que constitui um pilar chave do sistema bancário e das economias ocidentais. Mas, mesmo assim, a ideia interessava à estratégia de “pivô” de Clinton, e ganhou credibilidade.

Mubarak preso
Se a queda de Mubarak foi sinal de aviso, a relutância dos EUA em se envolver no movimento dos estados árabes do Golfo para promover “mudança de regime” na Síria acabou por dar a impressão que o poder dos EUA como sustentáculo do Oriente Médio estava entrando em declínio. 

Depois veio o engajamento direto dos EUA com o Irã (xiita). Como que esfregando sal nas feridas, Washington engajou Omã, um dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo, para atuar como intermediário para discutir os termos do engajamento, mantendo no escuro a Arábia Saudita sobre o que se passava. Por fim, os piores medos dos sauditas pareceram estar-se realizando – com EUA e Irã normalizando suas relações e Riad perdendo espaço como aliado chave de Washington na região do Oriente Médio.

Claro, também se deve considerar o pano de fundo de pós-Guerra Fria contra o qual tudo isso se ia desdobrando – a ilusão que se ia esvaziando, do “momento unipolar” dos EUA, com a emergência já claramente marcada, de um mundo multipolar. Os árabes do Golfo começaram a tatear sobre as possibilidades que um mundo multipolar teria a oferecer para a salvaguarda de seus interesses existenciais. Dito em termos simples, os EUA continuavam a ser o melhor show na cidade; mas já não eram o único show na cidade.

Primeiro entra a Rússia. A guerra civil na Síria serviu para abrir os olhos dos árabes do Golfo – teste crucial de até que ponto iria Moscou em apoio de seu velho amigo e aliado (embora a Rússia também tivesse seus próprios interesses). A Rússia apareceu em forte contraste com o indisfarçado desinteresse dos EUA, ou absoluta vacilação e relutância, em qualquer projeto para salvar o regime de Mubarak.

Segundo, Moscou sempre desqualificou a Primavera Árabe sem economizar palavras, e mostrou-se extremamente fria quanto às forças que estariam gerando a ideia de transformação democrática no Oriente Médio. Ao contrário, a Rússia sempre se mostrou confortável com a ideia de fazer negócios com regimes autoritários. De fato, Moscou ridiculariza abertamente o projeto da democracia à moda EUA por onde passe.

Terceiro, a Rússia continua a considerar os Irmãos como “terroristas”, e a Fraternidade Muçulmana continua como grupo radical proscrito na lista de itens “a vigiar” dos russos. Os autocratas do Golfo Árabe gostaram imensamente do modo claro, sem meias palavras, como a Rússia vê o Islã político – como anátema no mundo moderno.

Abdel Fattah al-Sisi e Vladimir Putin em 13/9/2014
Quarto, a Rússia não perdeu tempo para cair nos braços da junta militar que tomou o poder no Cairo depois do golpe patrocinado pelos sauditas, no Egito, em julho do ano passado. Foi movimento que realmente impressionou os sauditas, num momento crucial, quando os norte-americanos ainda pregavam as virtudes da democracia às margens do Nilo. (Pode-se dizer que os russos até forçaram os EUA a repensar sua aproximação com a junta no Cairo, algo que os sauditas não conseguiram só com o próprio peso).

Quinto, a crise na Ucrânia convenceu os árabes do Golfo de que o DNA russo não mudara e Moscou insistiria naquela linha se seus interesses estivessem em jogo, custasse o que custasse. Dito de outro modo, os árabes do Golfo começaram a brincar com a ideia de tornar a Rússia acionista a sério do bem-estar e da sobrevivência do atual sistema oligárquico arcaico na área deles.

Sexto, a frieza profunda na separação entre EUA e Rússia também é atraente para os árabes do Golfo. Se a separação aprofundar-se mais, ainda melhor. Dito de forma simples, os norte-americanos serão forçados a pensar sobre as sombras russas na região do Golfo, e isso, por sua vez, forçará Washington a assumir renovado interesse no velho sistema de aliança construído sobre o impressionante conjunto de bases militares dos EUA na região.

Por fim, apesar de todo o destaque sobre um entendimento estratégico entre Rússia e Irã vivem a querer ostentar, os árabes do Golfo sabem que aquela relação é incrivelmente complexa, enraizada em animosidades e suspeitas mútuas e sórdidas traições entre as duas potências regionais, que têm longa tradição na história moderna.

A colaboração da Rússia na estratégia de contenção dos EUA contra o Irã nos anos recentes em torno do problema nuclear; a cumplicidade da Rússia com o regime de sanções dos EUA contra o Irã; a aversão que a elite russa tem pelo Irã; os interesses russos e iranianos que se superpõem no Cáspio, no Cáucaso e em regiões da Ásia Central – tudo isso só faz ressaltar a complexidade da relação.

Oleogasoduto Nabucco, projeto ligando Irã e Europa
Mais importante, a emergência de uma liderança simpática ao ocidente no Irã e a aceleração no engajamento EUA-Irã sempre preocupariam a Rússia. O espectro que ronda a Rússia é, claro, o potencial único que tem o Irã para ser instrumento chave no plano de jogo dos EUA para conseguir que a Europa se livre da pesada dependência dos suprimentos de energia russa (o que tem sérias implicações para a liderança trans-Atlântica dos EUA).

De fato, o Irã é a melhor opção para a Europa na busca para diversificar suas fontes de energia, mediante um eixo na Turquia. Por outro lado, qualquer redução no quanto a Europa depende de energia russa é muito mais que simples redução drástica na renda dos russos; o movimento também priva a Rússia de sua “ferramenta geopolítica” para alavancar políticas europeias. 

O ponto é que um Irã integrado com a “comunidade internacional” deixa de ter qualquer convergência de interesses com a Rússia, para desafiar as políticas regionais dos EUA. Cada vez mais, o Irã e os EUA podem até descobrir que estão na mesma página no que diga respeito à segurança e à estabilidade do Iraque (e possivelmente também da Síria). Essa tendência isolaria a Rússia e a forçaria a procurar novas parcerias regionais para se preparar para qualquer eventualidade de uma proximidade estratégica EUA-Irã. Tudo isso para dizer que as relações russo-iranianas estão hoje numa encruzilhada.

Sim, é verdade que não há qualquer possibilidade iminente de criar-se um eixo EUA-Irã, dado que o problema nuclear iraniano ainda não foi resolvido e não há sinais de os EUA virem a dar um “salto de fé” na direção do Irã. Os lobbies saudita e israelense trabalham sem parar em Washington para fazer gorar qualquer acordo nuclear, e os interesses dos EUA também são muito profundos e extensivos nos estados do Golfo Árabe, o que torna extremamente difícil para o atual governo na Casa Branca cooptar abertamente o Irã como aliado no Oriente Médio em futuro próximo.

Tudo isso posto, Moscou também não quer saber de correr riscos. Está fazendo aberturas na direção dos estados do Golfo Árabe e conta desesperadamente com que aqueles estados sejam atraídos pelas possibilidades que uma ordem mundial multipolar oferece.

Moscou conseguiu encontrar interlocutor firme no rei Abdullah da Jordânia. Ano passado, Abdullah visitou Moscou; este ano já lá esteve duas vezes (incluindo o dia 2/10/2014); e ainda faltam dois meses para uma terceira visita. Entre uma visita e outra, Abdullah recebeu em Amã um importante visitante russo – o líder checheno Ramzan Kadyrov.

Rei Abdullah da Jordânia e VladimirPutin (6/10/2014)
Interessante: Moscou sabe perfeitamente que não há como cogitar do fim da participação da Jordânia na agenda de “mudança de regime” liderada pelos sauditas contra a Síria, que a Jordânia é fritada pequena para uma grande potência como a Rússia. Mesmo assim continua a ser país interessante, porque pode servir para levar Moscou até a liderança saudita; e Moscou sempre poderá encontrar serventia para os laços que Abdullah mantém com o ocidente. Assim afinal se compreende que está em curso um diálogo denso entre Abdullah e Putin baseado em realpolitik para um acerto entre os interesses desses dois lados, num espírito de pragmatismo.

O mais importante é que a Jordânia tem laços estreitos com Israel e, dados os crescentes contatos entre sauditas e israelenses, Moscou há de ter visto que há espaço para desenvolver um campo comum, pelo menos até certo ponto, sobre a base de uma antipatia/desilusão partilhada entre todos esses quatro protagonistas ante as políticas regionais dos EUA.

O Egito, sem dúvida, cabe também nesse paradigma. Os laços russos-egípcios estão-se desenvolvendo rapidamente, e a visita do presidente Abdel Fattah al-Sisi a Moscou em agosto foi interpretada como recado” aos EUA, de que o Cairo tem opções estratégicas  num cenário multipolar.

Mas do ponto de vista russo, o peixe grande que interessa é a Arábia Saudita. Moscou não deixou pedra sem examinar nos últimos anos, mesmo ante a rejeição diplomática que recebeu de Riad, tentando energizar o relacionamento com vista a convertê-lo, adiante, em parceria, mas os sauditas mantiveram-se muito lentos – pelo menos até agora. A guerra civil na Síria manifesta uma contradição aguda. Mas o coração da matéria é que os sauditas continuam muito longe de desistir de sua aliança estratégica com os EUA.

Os sauditas não perdem a esperança de que o governo Obama possa ser contido nessa trilha para fazer um acordo com o Irã, antes do prazo fatal, em novembro. Se nenhum acordo frutificar e no meio tempo se o Senado dos EUA mudar de mãos e passar a ser controlado pelos Republicanos, o engajamento EUA-Irã pode não acrescentar grande coisa e, de fato, é possível até que as tensões aumentem entre os dois velhos adversários. A estratégia saudita, em resumo, é, de algum modo, nada fazer durante o resto do governo Obama, até final de 2016.

Javad Zarif e John Kerry, em Genebra (Irã e P5+1)
Mas as coisas podem mudar dramaticamente se houver um acordo EUA-Irã sobre a questão nuclear. Ambas Moscou e Riad teriam muito a perder se a integração do Irã, no ocidente, começasse em sentido real. (Israel também perderia muito). Se acontecer, o Oriente Médio entrará no mundo multipolar.

Mas há muitíssimos “se” e “mas” implícitos nesse cenário. Muito dependerá de como vier a ser a guerra de Obama contra o Estado Islâmico. A grande questão aqui é: o que acontece na sequência, se o Estado Islâmico se impuser e levar a luta para dentro da Arábia Saudita?

Afinal, como movimento que é de “neo-wahhabismo”, o alvo chave do Estado Islâmico sempre será a Arábia Saudita, não o Ocidente como tal. A estratégia do EI é de algum modo provocar os EUA para que intervenham militarmente, para que o EI possa surfar a onda dos sentimentos antiamericanos que se espalham no Oriente Médio muçulmano, a qual, por sua vez, sempre atrairá novos recrutas e mais dinheiro dos estados do Golfo para a causa do Califa.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.