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domingo, 5 de outubro de 2014

Noam Chomsky | Fatos em campo

2/10/2014, [*] Noam Chomsky, Truthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza, após Israel "aparar a grama" (foto de 17/8/2014)
Dia 26 de agosto de 2014, Israel e a Autoridade Palestina aceitaram um acordo de cessar-fogo, depois de 50 dias de ataque de Israel contra Gaza que deixaram 2.100 palestinos mortos e imensas paisagens de total destruição.

O acordo determina o fim da ação militar de Israel e do Hamás e um alívio no cerco que Israel impõe à Faixa de Gaza e a estrangula já há vários anos.

Mas é só o mais recente de uma série de acordos de cessar-fogo assinados sempre imediatamente depois de mais uma das escaladas israelenses periódicas, no seu sempre inalterado e infindável ataque-assalto contra Gaza.

Desde novembro de 2005 os termos desses acordos permanecem essencialmente os mesmos. O padrão regular é Israel infringir qualquer acordo vigente, e o Hamás respeitar o acordo – como até Israel reconhece – até que, de repente, Israel aumenta desmesuradamente a violência, o que gera reação do Hamás, depois da qual a fúria e a brutalidade de Israel não conhecem limites.

Essas escaladas são chamadas “aparar o gramado”, no jargão israelense. A mais recente foi mais acuradamente descrita como “remover a camada superior do solo”, por alto oficial militar dos EUA, citado em Al-Jazeera America.

O primeiro dessa série foi o Acordo sobre Movimentação e Acesso entre Israel e a Autoridade Palestina em novembro de 2005.

Nos termos desse acordo, haveria um ponto de passagem entre Gaza e o Egito em Rafah para exportação de bens e passagem de pessoas; outras passagens entre Israel e Gaza para bens e pessoas; redução dos impedimentos à movimentação dentro da Cisjordânia; comboios de caminhões e ônibus entre a Cisjordânia e Gaza; seria construído um porto de mar em Gaza; e seria reaberto o aeroporto em Gaza, destruído por bombas israelenses.

Passagem de Rafah, fronteira Gaza-Egito
Aquele acordo foi firmado pouco depois de Israel retirou de Gaza, colonos e soldados israelenses. O motivo do desengajamento foi explicado por Dov Weisglass, confidente do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que estava encarregado de negociar e implementar o acordo.

O plano de desengajamento é significativo porque ele congela o processo de paz. E quando se congela aquele projeto, impede-se que se estabeleça qualquer estado palestindo, e também se impede qualquer discussão sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado estado palestino, com tudo que implica, fica indefinidamente afastado de nossa agenda. E isso com autoridade e permissão. E com as bênçãos presidenciais [dos EUA] e a ratificação nas duas casas do Congresso – disse Weisglass ao jornal Haaretz.

O desengajamento na verdade é formol, Weisglass acrescentou, fornece todo o formol necessário para que não haja processo político com os palestinos.

Esse padrão mantém-se até o presente: da Operação Chumbo Derretido em 2008-2009 à Operação Pilar da Defesa em 2012 até a Operação Bainha Protetora, esse verão, o mais extremo exercício de “aparar o gramado” – até agora.

Há mais de 20 anos Israel está dedicada a separar Gaza da Cisjordânia, violando claramente os Acordos de Oslo assinados em 1993, que declaram que Gaza e a Cisjordânia são unidade territorial indivisível.

Um exame no mapa explica o que há por trás disso. Separados de Gaza, qualquer enclave na Cisjordânia deixado aos palestinos não terá saída para o mundo externo. Ali, ficam contidos por duas potências hostis, Israel e Jordânia, ambas aliadas e muito estreitamente conectadas aos EUA. E, ao contrário da ilusão de tantos, os EUA não são e estão longe de ser “intermediário honesto” ou neutro.

Além do mais, Israel continua a avançar sistematicamente pelo vale do Jordão, expulsando palestinos, implantando colônias, fechando poços e, por inúmeras vias, garantindo que a região – cerca de 1/3 da Cisjordânia, com grande parte de sua terra arável – acabe integrada a Israel, como outras regiões que vão sendo invadidas.

Os cantões palestinos remanescentes serão completamente cercados. A unificação com Gaza interferiria nesses planos, que já estão traçados desde os primeiros dias da ocupação e recebem apoio monolítico de todos os principais blocos políticos israelenses.

Israel talvez sinta que a tomada de território palestino na Cisjordânia já avançou tanto, que pouco há a temer de alguma forma limitada de autonomia que os enclaves que permanecem palestinos venham a ter.

Palestina - Gaza e Cisjordânia (WEST BANK)
Há também alguma verdade no que disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu:

Muitos elementos na região já entendem hoje, na luta na qual são ameaçados, que Israel não é inimiga, mas parceira.

Presumivelmente aludia à Arábia Saudita e aos Emirados do Golfo.

Mas o principal correspondente diplomático de Israel, Akiva Eldar, acrescenta que:

(...) todos esses “muitos elementos na região” também compreendem que não há nenhum movimento diplomático audaz e amplo, no horizonte, sem um acordo sobre o estabelecimento de um estado palestino baseado nas fronteiras de 1967 e solução justa, aceita pelos dois lados, para o problema dos refugiados.

Nada disso está na agenda de Israel, diz ele; e, de fato, permanece em conflito direto com o programa eleitoral sobre o qual foi eleita a coalizão Likud, hoje no poder, jamais cancelado, e que:

(...) rejeita completamente o estabelecimento de qualquer tipo de estado árabe palestino a oeste do rio Jordão.

Alguns analistas israelenses que se devem considerar, por exemplo o colunista Danny Rubinstein, acredita que Israel está decidida a reverter esse curso e relaxar o cerco com o qual estrangula Gaza.

Veremos.

Os registros dos últimos anos sugerem coisa bem diferente, e os primeiros sinais não são auspiciosos. Ao final da Operação Bainha Protetora, Israel anunciou e fez a maior apropriação ilegal de terra da Cisjordânia em 30 anos, de quase 1.000 acres.

Há quem diga, dos dois lados, que, se a solução dos dois estados está morta, como resultado do roubo de terras palestinas por Israel, nesse caso o resultado será um só estado, a oeste do rio Jordão.

Alguns palestinos aceitam essa solução, antecipando que possam engajar-se em luta por direitos iguais, semelhante à luta anti-apartheid na África do Sul. Muitos comentaristas israelenses alertam que o “problema demográfico” que se cria por nascerem mais árabes que israelenses, e por estar diminuindo a imigração de judeus, acabará por minar qualquer esperança que Israel tenha de vir a ser “estado judeu democrático”. São crenças muito divulgadas, que não merecem nenhuma confiança.

A alternativa realista a uma solução de dois estados é Israel prosseguir na implementação do plano que vem implementando há anos: roubar tudo de valor que haja na Cisjordânia, evitar concentrações de população palestina; e remover os palestinos de áreas que vão sendo roubadas por Israel. Assim se resolve também o temido “problema demográfico”.

As áreas de terra que vão sendo roubadas e ocupadas incluem uma muito expandida Grande Jerusalém, a área interna do muro ilegal de separação, corredores que cortam as regiões para o leste e, provavelmente, o vale do rio Jordão.

Como Israel vem ROUBANDO terras da Palestina desde 1946 até 2013 (ROUBOU ainda mais em 2014)
Gaza provavelmente continuará sob o sítio terrível em que vive hoje, separada da Cisjordânia. E as colinas sírias do Golan – anexadas, como Jerusalém, em ato que violou ordens do Conselho de Segurança da ONU – tornar-se-ão aos poucos parte também da Israel Expandida. Enquanto isso, os palestinos da Cisjordânia ficarão contidos em cantões inviáveis, com acomodações especiais para as elites em estilo neocolonial clássico.

A colonização da Palestina pelos sionistas há um século vem sendo feita a partir do princípio pragmático de criar e fixar fatos em campo, o que, com o tempo, o mundo acabou por aceitar. É política muitíssimo bem-sucedida. Há todas as razões para prever que essa colonização persistirá, exatamente como é feita hoje, enquanto os EUA continuarem a providenciar todo o apoio militar, econômico, diplomático e ideológico necessário.

Para todos que se preocupem com os direitos dos palestinos diariamente brutalizados, não pode haver prioridade mais urgente ou mais alta do que trabalhar para mudar as políticas dos EUA – o que absolutamente não é delírio ou sonho inalcançável.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismo. Seu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Robert Fisk: “A história por trás de Gaza, que os israelenses não contam”

9/7/2014, [*] Robert Fisk, The Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ataque aéreo de Israel sobre com bombas de fósforo branco (proibidas pela
Convenção de Genebra) (8/7/2014)
OK, só nessa tarde, o escore de dois dias de mortes é 40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.

É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1 milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?

As famílias deles, sim, viveram ali, não eles, no que hoje há quem chame de Israel. E foram expulsas – e tiveram de fugir para não serem todos mortos – quando foi inventado o estado de Israel.

E – aqui, talvez, melhor respirar fundo antes de ler – o povo que vivia em Sederot no início de 1948 não eram israelenses, mas árabes palestinos. A vila palestina chamava-se Huj. Nunca foram inimigos de Israel. Dois anos antes de 1948, os árabes de Huj até deram abrigo e esconderam ali terroristas judeus do Haganah, perseguidos pelo exército britânico. Mas quando o exército israelense voltou a Huj, dia 31/5/1948, expulsaram todos os árabes das vilas... para a Faixa de Gaza! Tornaram-se refugiados. David Ben Gurion (primeiro primeiro-ministro de Israel) chamou a expulsão de “ação injusta e injustificada”). Pior, impossível. Os palestinos de Huj, hoje Sderot, nunca mais puderam voltar à terra deles.

Israel pratica GENOCÍDIO bombardeando áreas densamente povoadas em Gaza
E hoje, bem mais de 6 mil descendentes dos palestinos de Huj – atual Sderot – vivem na miséria de Gaza, entre os “terroristas” que Israel mente que estaria caçando, e os quais continuam a atirar contra o que foi Huj.

A história do direito de autodefesa de Israel, é a história de sempre. Hoje, foi repetida e a ouvimos mais uma vez. E se a população de Londres estivesse sendo atacada como o povo de Israel? Não responderia? Ora bolas, sim. Mas não há mais de um milhão de ex-moradores de Londres expulsos de suas casas e metidos em campos de refugiados, logo ali, numas poucas milhas quadradas cercadas, perto de Hastings!

A última vez em que se usou esse falso argumento foi em 2008, quando Israel invadiu Gaza e assassinou pelo menos 1.100 palestinos (escore: 1.100 mortos palestinos, a 13 mortos israelenses). E se Dublin fosse atacada por foguetes – perguntou então o embaixador israelense? Mas nos anos 1970s, a cidade britânica de Crossmaglen no norte da Irlanda estava sendo atacada por foguetes da República da Irlanda – nem por isso a Real Força Aérea britânica pôs-se a bombardear Dublin, em retaliação, matando mulheres e crianças irlandesas.

No Canadá em 2008, apoiadores de Israel repetiram esse argumento fraudulento: e se o povo de Vancouver ou Toronto ou Montreal fosse atacado com foguetes lançados dos subúrbios de suas próprias cidades? Como se sentiriam? Não. Os canadenses nunca expulsaram para campos de refugiados os habitantes originais dos bairros onde hoje vivem.

Como se vê desde Israel o bombardeio de áreas civis e densamente povoadas em Gaza
...

Passemos então para a Cisjordânia. Primeiro, Benjamin Netanyahu disse que não negociaria com o “presidente” palestino Mahmoud Abbas, porque Abbas não representava também o Hamás. Depois, quando Abbas formou um governo de unidade, Netanyahu disse que não negociaria com Abbas, porque “unificara” seu governo com o “terrorista” Hamas. Agora, está dizendo que só falará com Abbas se romper com o Hamas – quando, então, rompido, Abbas não representará o Hamas...

Uri Avnery
Enquanto isto, o grande filósofo da esquerda israelense, Uri Avnery – 90 anos e, felizmente, cheio de energia – ataca a mais recente obsessão de seu país: a ameaça de que o ISIS mova-se para oeste, lá do seu “califado” iraquiano-sírio, e aporte à margem leste do rio Jordão.

“E Netanyahu disse”, segundo Avnery, que “se não forem detidos por uma guarnição permanente de Israel no local (no rio Jordão), logo mostrarão a cara nos portões de Telavive”. A verdade, claro, é que a força aérea de Israel esmagaria qualquer “ISIS”, no momento em que começasse a cruzar a fronteira da Jordânia, vindo do Iraque ou da Síria.

A importância da “guarnição permanente”, contudo, é que se Israel mantém seu exército na Jordânia (para proteger Israel contra o ISIS), um futuro estado “palestino” não terá fronteiras e ficará como enclave dentro de Israel, cercado por território israelense por todos os lados. “Em tudo semelhante aos bantustões sul-africanos” – diz Avnery.

Em outras palavras: nenhum estado “viável” da Palestina jamais existirá. Afinal, o ISIS não é a mesma coisa que o Hamás? É claro que não é.

Mark Regev
Mas Mark Regev, porta-voz de Netanyahu, diz que é! Regev disse à Al Jazeera que o Hamás seria “organização terrorista extremista não muito diferente do ISIS no Iraque, do Hezbollah no Líbano, do Boko Haram…” Sandices. O Hezbollah é exército xiita que está lutando dentro da Síria contra os terroristas do ISIS. E Boko Haram – a milhares de quilômetros de Israel – não ameaça Telavive.

Vocês entenderam o “espírito” da fala de Regev. Os palestinos de Gaza – e esqueçam as 6 mil famílias palestinas cujas famílias foram expulsas pelos sionistas das terras onde hoje está Sederot – são aliados das dezenas de milhares de islamistas que ameaçam Maliki de Bagdá, Assad de Damasco ou o presidente Goodluck Jonathan em Abuja.

Sim, mas... Se o ISIS está a caminho para tomar a Cisjordânia, por que o governo sionista de Israel continua a construir colônias ali?! Colônias ilegais, em terra árabe, para civis israelenses... na trilha do ISIS?! Como assim?!

Nada do que se vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três israelenses na Cisjordânia ocupada, nem com o assassinato de um palestino na Jerusalém Leste ocupada. Tampouco tem algo a ver com a prisão de militantes e políticos do Hamas na Cisjordânia. E nem o que se vê hoje na Palestina tem algo a ver com foguetes. Tudo, ali, sempre, é disputa por terra dos árabes.

[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial. Estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabalhou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times onde trabalhou até 1988  substituindo o correspondente do jornal no Oriente Médio. Mudou para o The Independent em 1989- após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982; a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão. 
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro britânico mais premiado do planeta. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O verdadeiro “grande feito” de Mahmoud Abbas


2/12/2012, Ali Abunimah, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ali Abunimah
Um dia depois da votação na ONU que admitiu a “Palestina” como estado não-membro, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton elogiou publicamente a Autoridade Palestina (AP) liderada por Mahmoud Abbas, por sua colaboração com o exército israelense ocupante.

Falando num think-tank sionista em Washington, na 6ª-feira, Clinton defendeu a AP, que havia sido criticada pelo ministro israelense de Negócios Exteriores, Avigdor Lieberman. Segundo o jornal Ha’aretz, Clinton disse que “... com muito pouco dinheiro e sem recursos naturais, eles [a Autoridade Palestina] conseguiram muito, construindo uma força de segurança que trabalha junto, todos os dias, com as IDF (Israel Defense Forces [nome oficial do exército de Israel]). Obtiveram vários sucessos empresariais. São nacionalistas – mas amplamente seculares. Israel deve apoiá-los”. [1]

São as mesmíssimas “forças de defesa de Israel” que há apenas alguns dias estavam massacrando famílias palestinas em Gaza e assassinando palestinos na Cisjordânia que se atreveram a protestar contra os crimes de Israel.

E durante e depois do mais recente ataque contra Gaza, o mesmo exército israelense entrou em surto de prender gente na Cisjordânia, e prendeu centenas, por manifestarem sua opinião.

À luz do comentário de Clinton, é hora de perguntar até que ponto a Autoridade Palestina participou daquelas ações de ódio e vingança, resultado da fúria de Israel por ter sido derrotada em Gaza.

Hillary Clinton comenta...
Clinton poderia ter acrescentado que a colaboração diária com a força ocupante não foi o único “feito” notável da Autoridade Palestina de Abbas apoiada pelos EUA. Durante anos, a Autoridade Palestina foi armada e treinada sob supervisão dos EUA para agir como força auxiliar da ocupação israelense, para reprimir todas as várias faces da Resistência palestina; para espancar e reprimir palestinos que manifestassem sua opinião e para prender e perseguir jornalistas que se atrevessem , a criticar a mesma Autoridade Palestina e a mesma ocupação.

O governo da Autoridade Palestina é precisamente o tipo de governo-cliente repressor que os EUA sempre apoiaram em outros países árabes, razão pela qual Clinton recomendou que sua parceira Israel apoie a Autoridade Palestina.

Mahmoud Abbas por Latuff
O currículo da Autoridade Palestina de Abbas, no campo da colaboração com Israel, contra o desejo e os interesses dos palestinos, é longo, vergonhoso e muito bem documentado. Inclui conluio com Israel, EUA e o já deposto governo de Mubarak no Egito, para derrubarem o governo eleito do Hamás depois de 2006; conluio com Israel para enterrar o Relatório Goldstone sobre os crimes de guerra de Israel em Gaza em 2008-2009; súplicas para que Israel não libertasse prisioneiros palestinos, o que daria crédito ao Hamás; e, mais recentemente, a renúncia pública, por Abbas, ao direito de retorno dos palestinos – posição aliás já antiga da Autoridade Palestina, em todas as negociações.

Essas duras realidades devem fazer ver sob outra luz as mal-orientadas celebrações pelo resultado da votação na ONU, a qual, como já expliquei em Al Jazeera é, no melhor dos casos, equivalente a vencer um jogo de futebol internacional; e, no pior, como Joseph Massad explicou no The Guardian, oficializa um status quo de racismo.

Jogar a isca e fisgar o peixe

Apesar disso, muita gente tentou pintar a votação na ONU como grande vitória, reagindo aos céticos com a ideia de que o resultado daria acesso aos palestinos à Corte Criminal de Justiça [orig. International Criminal Court (ICC)], para processar Israel por crimes de guerra. Quem, em sã consciência acreditaria que a Autoridade Palestina de Abbas, que fez tudo o que fez, e que Clinton elogia pela estreita colaboração com o exército ocupante, algum dia processará Israel por algum crime de guerra?

Mas, sim, jogaram a isca e fisgaram o peixe. Imediatamente, apenas um dia depois da votação na ONU, Abbas já jogava água fria em qualquer esperança desse tipo. “Agora, temos o direito de recorrer à ICC, mas não usaremos esse direito agora e só o usaremos no futuro, no caso de agressão israelense” – Abbas disse a jornalistas. Em Gaza ainda há palestinos em luto, e, na Cisjordânia outros palestinos lutam para não perder suas terras, no assalto diário praticado pelos colonos israelenses. Mas o líder aparente dos palestinos ainda não viu qualquer “agressão israelense”.

Estratégia oca

A vacuidade da votação na ONU [2] não poderia ser mais claramente ilustrada, do que no que todos viram acontecer – ou não acontecer – depois dela.

Na 5ª-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou a admissão da “Palestina”, estado inexistente, como estado não membro. Na 6ª-feira, Israel anunciou a intenção de construir mais milhares de casas para mais milhares de colonos israelenses em território do suposto estado não membro e sem direito a voto. Qual será, agora, a resposta internacional, depois da votação na ONU?

Além das condenações rituais rotineiras, haverá, pergunto, alguma ação efetiva, específica, real, inclusive sanções, por iniciativa de qualquer dos 138 países que votaram a favor do pedido da “Palestina”, para fazer parar a nova agressão israelense e para fazer reverter a colonização ilegal que prossegue, ininterrupta, desde 1967, nos territórios ocupados? Infelizmente, é pouco provável que haja. Sinal bem claro de que a votação na ONU não passou de gesto oco e substituto pressuposto de qualquer ação efetiva para pôr fim aos crimes de Israel.

Ajuda a lembrar que já não existe “solução dos dois estados”. Na Palestina histórica continua a haver uma única entidade geopolítica. Não é possível que o mundo admita que Israel continue a entrincheirar-se, com seu estado de apartheid, racista e colonialista, naquela terra.

Os palestinos ainda arrancam alguma esperança, não de gestos cenográficos ocos na ONU, mas do movimento de base de solidariedade, que insiste em denunciar os crimes de Israel e exigir que sejam punidos. Esse movimento, sim, marcou um belo tento essa semana, quando o cantor Stevie Wonder cancelou sua participação em evento previsto para arrecadar fundos para o exército de Israel, e que foi alvo de intensa campanha de protestos. [2]

Ações como essa, de figuras do mundo cultural, indicam que a campanha pelo boicote, desinvestimento e sanções [orig. boycott, divestment and sanctions (BDS)], campanha que reproduz o que foi feito contra e ajudou a derrubar o regime de apartheid da África do Sul, vem ganhando força e legitimidade maiores a cada dia.

É campanha que não depende de negociar pressupostos direitos para criar algum miniestado na Cisjordânia, que já nascerá sitiado por regime repressivo apoiado pelos EUA, mas que visa a restaurar plenamente os direitos de todos os palestinos, estejam onde estiverem.

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Notas de rodapé

[1] 1/12/2012, Há’aretz, Natasha Mozgovaya  em: “Clinton calls on Israel to embrace moderate Palestinians, negotiations”

[2] Vídeo (em inglês) a seguir: “Inside Story - Palestine: The meaning of a status upgrade”

[3] Há notícia sobre o cancelamento em: 30/11/2012, Huffington Post: “Stevie Wonder & Israel Defense Forces: Singer Cancels Concert In Light Of Conflict”

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que se esconde por trás do “Pilar de Nuvem”


22/11/2012, Rami Zurayk e Anne Gough, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os agricultores estão hoje no meio do período crucial de colheita de azeitonas e produção de azeite; e a destruição dos pomares é golpe terrível contra a segurança alimentar e econômica de Gaza. [EPA]
Rami Zurayk
Desde a criação do estado, em 1948, Israel sempre usou a comida e a nutrição (ou a falta de comida e a desnutrição) como meio para implantar-se militarmente e realizar a ocupação territorial da Palestina. Enquanto todos os olhos voltam-se hoje para a matança de crianças e a erradicação de famílias inteiras [1], em Gaza na operação “Pilar de Nuvem”, Israel continua em seu plano de longo prazo para dizimar os meios de produção de comida, de criação de animais e as capacidades dos habitantes de Gaza para tomar decisões econômicas e políticas sobre o que plantar e o que comer.

Anne Gough
Gaza e toda a Palestina Ocupada está sendo “re-estruturada” como entidade na qual a desnutrição seja endêmica, o acesso à comida negado e as pessoas forçadas a viver sob o medo constante de não ter comida suficiente para si e para a família. 

Nos últimos oito anos, o setor de alimentos e criação de animais em Gaza foi severamente agredido, o que fez piorar as condições do setor agrícola, já gravemente abaladas por seis anos de sítio e bloqueio impostos por Israel, além das campanhas militares e décadas de ocupação.

Nos primeiros cinco dias do assalto, o Ministério da Agricultura de Gaza que as perdas nos setores de agricultura e pesca sejam superiores a US $50 milhões. Segundo nosso colega Mohammad El Bakri, que trabalha com o Sindicato das Comissões de Trabalho Agrícola [2] e outros especialistas em Gaza, os agricultores estão hoje no meio do período crucial de colheita de azeitonas e produção de azeite; e a destruição dos pomares é golpe terrível contra a segurança alimentar e econômica de Gaza.

A crise da água

Os ataques aéreos dos israelenses contra os túneis [3] limitaram o fluxo de entrada de alimentos e combustível em Gaza. Poucas lojas permanecem abertas e a ONU já alertou para o risco de crise de água. Há notícias de bombardeios que visam diretamente aos poços de irrigação. O Ministério de Saúde de Gaza já está sem estoque de 40% dos remédios essenciais [4] e com estoque muito baixo de seringas e bandagens. 

A terrível situação em que Gaza sobrevive hoje começou em 1948, quando milícias sionistas armadas expulsaram mais de 700 mil palestinos das áreas em que viviam, 200 mil dos quais fugiram para Gaza, onde a população triplicou nesses mais de 60 anos.

Historicamente, Gaza sempre foi conhecida pelo oásis de água fresca de Wadi Gaza [5] , importante ponto de parada nas rotas comerciais entre o Egito e a Síria. Já não é um oásis, as terras arrasadas e absolutamente esterilizadas pelas escavadeiras e niveladoras de Israel ao longo de toda a fronteira leste de Gaza (29% da terra arável [6]) é terra inacessível. Barcos israelenses atiram com canhões de água contra pescadores palestinos, impedindo-os de trabalhar além da distância de três milhas náuticas da praia.

Esgotos poluídos estão vazando dentro do aquífero do litoral, das redes de água e esgoto e dos prédios bombardeados no ataque israelense de 2009-9 contra Gaza, na Operação Chumbo Derretido. [7]

Israel também impediu a entrada em Gaza do equipamento necessário para reparar a infraestrutura danificada. Sem acesso a água para beber, muita gente em Gaza sobrevive hoje com 20 litros/dia/pessoa [8], quando, em Israel, o consumo médio de água é de 300 litros/dia/pessoa. [9]

Todas as 10 mil pequenas propriedades e granjas de Gaza foram danificadas no massacre de 2008-9 [10], meio milhão de árvores foram arrancadas, mais de um milhão de frangos e galinhas foram mortos [11], além de ovelhas, bois, vacas e cabras. Os israelenses destruíram 60% da indústria agrícola em Gaza, provocando perdas da ordem de US$ 268m.

A proporção da população de Gaza que vive sob condições de insegurança alimentar aumentou 75% depois do massacre de 2008-9, e muitas casas já são classificadas hoje como em situação de insegurança alimentar crônica, em Gaza. Dois anos depois dos ataques de 2008-9, a taxa de desemprego em Gaza era de 45,2%. [12]

Campos isolados

Na Cisjordânia a situação também é desesperadora. Os Acordos de Oslo de 1995 dividiram a Cisjordânia em uma Área A, sob controle da Autoridade Palestina, representando 3% da Cisjordânia; uma Área B, sob controle conjunto, equivalente a 25%; e uma Área C, equivalente a 72% da área, sob total controle de Israel, inclusive os campos agricultáveis do vale do rio Jordão.

De fato, o exército de Israel pode invadir qualquer área a qualquer tempo. A bifurcação da terra palestina e a construção de muros e cercas separaram os agricultores de seus campos plantados e dos mercados; [13] garantiram impunidade aos colonos israelenses fanáticos e violentos; e desfiguraram completamente a paisagem. 

O objetivo de longo prazo de Israel em Gaza não é só o sítio e o bloqueio, mas, também, implantar naquela região condições e práticas de des-desenvolvimento que forcem os palestinos a depender completamente, ou da potência israelense ocupante, ou da ajuda internacional.

Em 2007, os militares israelenses produziram um cálculo do número mínimo de calorias/dia autorizadas para os habitantes de Gaza. [14] O mecanismo de controle da ingestão calórica caracteriza punição coletiva e eterno sofrimento, mas não leva à morte por fome. Não pode haver qualquer dúvida de que essa política de des-alimentação criada por Israel e implantada contra os palestinos é do conhecimento e conta com o apoio do governo dos EUA.

As consequências do mais recente assalto israelense contra Gaza, em 2012, só se tornarão plenamente visíveis depois que a poeira assentar. Mas não se afastarão muito do objetivo já declarado de Dov Weisglass em 2006: “A ideia é pôr os palestinos em dieta, mas sem matá-los de fome”.


Notas de rodapé

[1] 18/11/2012, The Guardian, UK, Harriet Sherwood (de Jerusalém) em: “Gaza: four children killed in single Israeli air strike”
[3] 18/11/2012, ONU, em: “Gaza situation report, 18 November”
[4] 18/11/2012, The Independent, UK, Jeremy Laurance em: “Overwhelmed Palestinian doctors run out of life-saving medicines”
[5] 6/4/2007, NYTimes, Mark Zeitoun em: “A Gaza Tragedy: Complicity when the dam breaks”
[6] Ver “Agricultura na Cisjordânia Ocupada” (em inglês)
[7] 27/10/2009, Anistia Internacional, em: “Israel rations Palestinians to trickle of water”
[8] Idem item [7]
[9] Idem item [7] e [8]
[10] 23/1/2009, Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) em: “The humanitarian situation in Gaza and FAO’s response”
[11] 12/2006 – 1/2009, United Nations Environment Programme em: “Environmental Assessment of the Gaza Strip”
[12]  UNRWA – United Nations Agency for Palestine Refugees, em: “Labour Market Briefing /Gaza Strip – 2nd Half 2010”
[13]  13/11/2012, UNRWA – United Nations Agency for Palestine Refugees, em: “Farmer's income stuck on the ‘other’ side of the Barrier”
[14] Idem nota [13]