Mostrando postagens com marcador Ahmed al-Jaabari. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ahmed al-Jaabari. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Obituário: Ahmed Khalil Al-Jaabari, herói do Hamás


26/11/2012, Khaled Amayreh, Al-Qassam, Ezzedin Al-Qassam Brigades
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Khaled Amayreh
Ahmed Khalil Al-Jaabari foi Comandante-Geral, de-facto, do braço da Resistência do Hamás, as Brigadas Ezzeddin Al-Qassam. O exército israelense de ocupação e a agência Shin Bet da segurança israelense há muito tempo tentavam assassiná-lo. Para a entidade sionista, qualquer homem ou mulher que se oponha à ocupação militar da Palestina, seja a oposição passiva ou ativa, é terrorista e tem de ser liquidado. 

Em 2004, o exército de Israel já tentara assassinar Al-Jaabari, por seu papel na Resistência. Naquele ano, o filho mais velho, Mohamed, um irmão e três primos do comandante Al-Jaabari foram brutalmente assassinados em ataque israelense à casa da família.

Em inúmeros casos, Israel liquida toda a família próxima dos ativistas da Resistência, mesmo que os familiares pouco saibam das atividades da Resistência e não possam ser acusadas de absolutamente qualquer pressuposto crime.

Exemplo dessa atividade dos israelenses, que usam o assassinato como modus operandi, foi o assassinato de Nezar Rayan, ativista do Hamás, assassinado com toda a família, em casa, no ataque israelense à Faixa de Gaza em 2008-09; na mesma ação, Israel assassinou 1.400 pessoas e feriu vários milhares, a maioria dos quais civis.

Ahmed Khalil Al-Jaabari
Al-Jaabari, nascido em Hebron, teve papel destacado na tomada da Faixa de Gaza pelo Hamás, no verão de 2007. Os que trabalharam com ele falam “excepcional capacidade organizacional, meticuloso nas precauções de segurança e homem abnegado”. Como comandante do braço armado do Hamás, Al-Jaabari soube desenvolver essas competências, qualitativamente e quantitativamente.

Além do papel destacado que lhe coube na Resistência contra a ocupação israelense, Al-Jaabari também desempenhou papel importante junto aos altos escalões políticos do Hamás. É hoje amplamente reconhecido como exemplo de uma nova geração de líderes islâmicos surgidos depois que Israel assassinou líderes icônicos no campo político e da Resistência, como Sheikh Ahmed Yassin, Abdel-Aziz Rantisi, Ibrahim Makadma e Yehia Ayash.

Abu Mohamed (seu nome de guerra) começou seu ativismo político e de resistência filiado ao Fatah, principal grupo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) comandado pelo falecido líder palestino, Yasser Arafat. Foi preso em 1982 e passou 13 anos em cárceres de Israel.

Depois de libertado, Al-Jaabari uniu-se ao Hamás, porque o Fatah já lhe parecia partido secular demais e excessivamente conivente com a ocupação (foi libertado depois de assinados os Acordos de Oslo). Em 2009, disse que “a Palestina só pode ser libertada por muçulmanos sinceros. A questão palestina é, sobretudo, questão islâmica. Só a Jihad universal contra o estado criminoso de Israel conseguirá libertar a Palestina das garras dos invasores”. Referia-se a Israel também como “fenômeno transitório, uma tentativa, condenado a se extinguir mais cedo ou mais tarde. Temos portanto de ver Israel como Salaheddin Al-Ayoubi (Saladino, grande comandante curdo muçulmano) viu os Cruzados”.

Veículo bombardeado onde estava Al-Jaabari
Em 1998, Al-Jaabari foi novamente preso e torturado pelo aparato de Segurança Preventiva de Arafat, sob a suspeita de que teria coordenado o ataque a um ônibus que transportava colonos judeus. Foi libertado um ano mais tarde. Há quem diga que os maus tratos e a tortura a que foi submetido o levaram a decidir engajar-se definitivamente no trabalho de preparar o Hamás para tomar a Faixa de Gaza e expulsar do enclave as  milícias da OLP.

Em 2002, substituiu Mohamed Dheif como comandante efetivo das Brigadas Ezzeddin Al-Qassam, do Hamás. Dheif sofrera um atentado, perpetrado pelo exército israelense, do qual resultara gravemente ferido. Segundo outros comandantes do Hamás, foi graças ao trabalho de Al-Jaabari que o braço armado da Resistência do Hamás foi convertido em força mais disciplinada, mais bem treinada e mais poderosa.

O CASO SHALIT: Al-Jaabari será lembrado, especialmente, pelo papel chave que desempenhou na coordenação da captura e nas negociações para a troca de um soldado israelense, Gilad Shalit, que foi capturado por combatentes da Resistência palestina em 2006 numa emboscada na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel. Na mesma ação, morreram dois outros soldados israelenses.

A partir daquele momento, Israel mobilizou todas as capacidades de seus serviços de inteligência para localizar e resgatar Shalit, sem sucesso. Al-Jaabari é considerado o principal agente responsável pelo trabalho de abortar todos os esforços dos israelenses; pouquíssimas pessoas algum dia estiveram próximas de Shalit, durante o tempo em que permaneceu sob a guarda do Hamás. Há quem diga que o massacre que Israel promoveu em Gaza, em 2008, visava também a encontrar e resgatar o soldado prisioneiro do Hamás – e resultou em mais um fracasso dos israelenses.

Al-Jaabari tomou todas as providências para que Shalit fosse bem tratado, embora, simultaneamente, Israel tenha várias vezes assassinar o próprio Al-Jaabari e sua família. No ataque de Israel contra Gaza, em 2008-09, a casa da família Al-Jaabari foi destruída por um míssil israelense.

Em 2011, depois de acertada uma troca de prisioneiros com Israel, Al-Jaabari acompanhou pessoalmente Shalit até a passagem de Rafah, fronteira com o Egito – e foi uma das raras vezes em que foi visto em público. Sempre foi extremamente cauteloso com sua segurança pessoal. Não se mostrava em público e jamais usou telefones celulares.

Apesar disso, afinal, a segurança interna de Israel, Shin Bet, acabou por identificar um dos carros que Al-Jaabari usava, graças a um informante local, que foi identificado e executado.

Al-Jaabari sendo atendido logo após o atentado faz sinal de vitória.
Al-Jaabari foi assassinado dia 14/11/2012, num carro, na rua Omar Al-Mokhtar, uma das principais da cidade de Gaza. Várias vezes dissera que seu maior desejo era morrer como mártir e como tal ser recebido no reino de Deus. O Corão ensina que quem caia em luta contra a opressão e a injustiça não morre e ganha a vida eterna.

Não pense nos caídos na estrada até Alá, como mortos. Não estão mortos. Eles vivem com seu Deus e para sempre estão e estarão protegidos. Rejubilam-se nas bênçãos que Alá, o Misericordioso, derrama sobre eles, em nome dos que ainda não se reuniram a Ele [ainda não foram martirizados], para que não sofram nenhum medo nem nenhuma dor. (S.3-v 169-170).

Ahmed Al-Jaabari foi sepultado dia 15/11/2012, em funeral acompanhado por milhares de pessoas. Seu corpo repousa no Cemitério Sheikh Radwan, onde estão enterrados tantos mártires palestinos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que Israel atacou Gaza... outra vez?


29/11/2012, Hamid Dabashi, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hamid Dabashi é professor da cátedra Hagop Kevorkian de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade Columbia, NY. Acaba de lançar seu novo livro – Arab Spring: The End of Postcolonialism – pela editora Zed.


Bombardeio de Israel sobre as áreas civis de Gaza
Falando numa conferência de imprensa depois do anúncio do cessar-fogo na 4ª-feira, 21/11, o ministro da Defesa Ehud Barak disse que: “Todos os nossos objetivos foram alcançados, acabar com os foguetes Fajr, plataformas de lançamento e escritórios do Hamás”. Mas em seguida, ele mesmo se autodesmentiu: “E mesmo agora, nesse momento, tarde da noite, continuam a cair foguetes em território israelense. As comunidades do sul de Israel continuarão a ser atacadas nos próximos dias”. E, no frigir dos ovos, concluindo, Barak “agradeceu ao Exército de Israel e seus comandantes, e ao governo Obama pela ajuda para financiar o “Domo de Ferro” [antimísseis]”. [1]

Pelo menos, não se vangloriou de ter assassinado 161 palestinos, no mínimo; entre os quais 71 civis. [2]

Por hora, à parte a evidência de que o ministro de Defesa de Israel não consegue engatar duas frases consecutivas sem se autodesmentir, o que, precisamente, os israelenses teriam conseguido nessa mais recente rodada de bombardeio assassino contra Gaza – e por que, para começo de conversa, lançaram esse novo ataque?

O ministro da Defesa diz que alcançaram “todos os seus objetivos”, a começar por “destruir os Fajr rockets”; em seguida, na linha adiante, admite que “os foguetes Fajr continuam a chover sobre Israel”. Quem produz essas história alucinadas? Quem acredita nessas conversas – por que se preocupar com isso? De fato, para quem tente entender o ataque israelense contra Gaza, o que digam os senhores-da-guerra de Israel não faz, mesmo, diferença alguma.

Assassinaram o agente que fazia o acordo de paz

“Acho que Israel cometeu erro estratégico grave e irresponsável ao assassinar o comandante Jaabari”. Não é avaliação feita por palestino, ou árabe, ou muçulmano, em artigo publicado por revista esquerdista, islamista ou anti-Israel. É a avaliação de Gershon Baskin, o negociador israelense que estava em contato com o Hamás; e essa avaliação foi publicada no New York Times  [3]. Baskin diz mais:

Gershon Baskin
Passando mensagens de um lado para o outro, constatei, pessoalmente, que o comandante Jaabari não estava interessado apenas em algum cessar-fogo de curto prazo; foi também o homem encarregado de implementar outras negociações anteriores negociadas com a agência de inteligência egípcia. O comandante Jaabari implantou e fez valer aqueles acordos de cessar-fogo só depois de confirmar que Israel, sim, concordara em suspender os ataques contra Gaza. Na manhã do dia em que foi assassinado, o comandante Jaabari recebera minuta de acordo para um cessar-fogo de longo prazo com Israel – que incluía mecanismos para fiscalizar os movimentos e ações dos dois lados e assegurar o cumprimento do que fosse acordado. Essa minuta de acordo fora negociada por mim e pelo vice-ministro de Relações Exteriores do Hamás, Sr. Hamad, na semana anterior, quando nos encontramos no Egito.

Assim, se Israel está de fato interessada em paz e em proteger seus próprios cidadãos, como Barack Obama e outros sionistas norte-americanos vivem a repetir que estaria, nesse caso por que assassinar a sangue frio a única pessoa capaz de construir paz efetiva e, imediatamente depois, lançar ataque massivo contra alvos civis, ataque que, sem possibilidade de dúvidas, desencadearia resposta de vingança feroz? Nada disso faz qualquer sentido.

Esse fato, agora corroborado por um alto funcionário israelense, expõe o contexto mais amplo no qual se vê que Israel se interessa por qualquer coisa, menos pela paz, conclusão inescapável e claramente evidente no assalto incansável contra terras palestinas, roubadas, de fato, dia a dia, todos os dias, sem que algum governo dos EUA ou a chamada “comunidade internacional” tenham jamais tido força para impedir a ação criminosa dos colonos israelenses, violentos, assassinos, verdadeiras gangues organizadas para roubar terras palestinas. Nada mais distante, portanto, dos planos de Israel que paz nem, sequer, algum arremedo de paz – o que se viu ainda recentemente na nova rodada de atrocidades contra Gaza.

Cada vez que há um ataque militar, contra o qual não se vê qualquer reação, é sinal de que, enquanto Israel bombardeia Gaza, em outros pontos da Palestina há israelenses roubando terras palestinas. As gangues de colonos vivem dia de ação intensa, sempre que há essas ‘'operações militares'’ israelenses: enquanto duram os ataques, o roubo de terras palestinas pode avançar sem qualquer tipo de obstáculo ou impedimento. Essa ação de roubo ininterrupto de terras – que se faz à luz da história – é absolutamente oposta a qualquer noção (ou desejo) de paz.

Obama gosta de repetir que os israelenses tem (teriam) o direito de se defenderem. É o mesmo que dizer que tem(teriam) pleno direito de roubar cada dia mais terra palestina, aterrorizar os palestinos e continuar a consolidar o estado de apartheid racista de Israel. É estado de apartheid tão racista que, enquanto Obama defende Israel, o próprio aparelho de propaganda e os próprios agentes de propaganda-em-chefe em Israel zombam, pelas redes sociais, do próprio Obama e fazem piada sobre a cor da pele do presidente dos EUA! [4]

Será que a África do Sul também tem (teria) direito de defender o seu próprio estado racista de apartheid? Ou o sul racista dos EUA tem (teria) direito de defender o seu próprio estado de apartheid escravista? E a Índia tem (teria) também direito de pregar o fundamentalismo hindu?

Grande parte das pessoas que hoje vivem em Gaza provêm, de fato, de áreas que os sionistas hoje chamam de “Israel”. Tiveram suas terras roubadas e foram empurrados para um grande campo de concentração, no qual, hoje, são bombardeados pelos jatos de Israel. Israel controla todas as entradas e saídas e todas as fronteiras desse campo de concentração e decide, até, a quantidade de calorias que os homens, mulheres e crianças palestinos podem comer.

A militarização radical

Segundo relatórios recentes [5], “cerca de 10% das crianças palestinas em Gaza, com menos de cinco anos de idade, já tiveram o crescimento comprometido pela desnutrição. Relatório recente de Save the Children e Medical Aid for Palestinians constatou que, além da desnutrição, a anemia alastra-se na população, afetando 2/3 dos bebês, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de 1/3 das mulheres grávidas”. Será essa a “tática” dos israelenses para promover a paz?

Por tudo isso, pode-se dizer que desde o primeiro dia de existência, até hoje, Israel jamais, nem por um só dia, interessou-se por construir qualquer paz. O único interesse de Israel sempre foi expulsar e assassinar mais e mais palestinos, e roubar suas terras – e o presidente Obama, “Mr. Audácia da Esperança” aí está, hoje, dedicado ainda a promover o projeto sionista israelense, apesar de soldados israelenses racistas zombarem do presidente e de milhões de cidadãos norte-americanos por serem negros, nas mais repugnantes manifestações imagináveis de racismo.

E voltamos sempre à pergunta inicial: por que, afinal, Israel atacou Gaza... outra vez?! Há um traço bem evidente de ambição eleitoreira aí operante – como Marwan Bishara escreveu em Al-Jazeera, [6] imediatamente depois de Israel ter (re) começado a bombardear Gaza: 

Marwan Bishara
Netanyahu, como seus predecessores, está usando o assassinato do líder do Hamás, Ahmed al-Jaabari e a subsequente escalada militar para minar as lideranças políticas na Palestina (do Hamás e do Fatah) e aumentar suas chances de reeleição, incendiando as questões de segurança nacional de Israel, pondo-as em evidência acima das questões de segurança econômica, na mente dos eleitores israelenses.

Bishara lembra que: “Há seis anos, escrevi um artigo sob o título Oriente Médio: o ciclo das retaliações tem de acabar [7] (em inglês) que se aplica hoje, com pequenas correções de datas, alguns nomes etc. Dado que os fatos não mudam e repetem-se incansavelmente, repito também a análise”.

A vantagem de reler o artigo de Bishara é ver com perfeita clareza o ciclo vicioso de desculpas e mentiras que Israel continua a impingir ao mundo: Israel não tem nenhuma intenção de fazer ou tentar qualquer tipo de paz. A única intenção de Israel é assassinar o maior número possível de palestinos para roubar e confiscar suas terras.

Outra consequência óbvia desse ciclo de mentiras que sempre se repete é a militarização radical da Resistência palestina, que vê as crianças palestinas serem programática, sistematicamente assassinadas por esse inimigo pervertido – militarização radical a qual, por sua vez, é pretexto perfeito para justificar a massa de bilhões de dólares em ajuda militar que Obama oferece a Israel, armamento tão poderoso que, por sua vez, explica que a República Islâmica também continue a ter imenso poder em Gaza, como ajuda à Resistência.

E assim está criado o ciclo vicioso e/ou a profecia que se autorrealiza. A propaganda pró Israel intensifica-se em Washington, DC; e, em todo o mundo árabe cresce a fúria antissionista, a começar por Teerã – o que é exatamente o de que precisam Israel e a República Islâmica para se manterem relevantes nas questões da Região.

Muitos lembraram que com certeza haveria meios melhores para testar o novo sistema antimísseis de Israel, “Domo de Ferro” – sistema de defesa antiaérea considerado à prova de ataques –, presente que Obama deu a Israel, pensando em instalá-lo ali para ser usado, adiante, num possível futuro ataque dos EUA contra o Irã.

A explicação talvez seja essa. Cercado já por pesados muros de apartheid, Obama agora protegeu toda a empreitada colonial israelense com um “Domo de Ferro” de vários bilhões de dólares. Ah! E o quanto é simbólico o tal “domo”!

Agora, Israel está completamente, não só metaforicamente, convertida em máquina autista, autocentrada, encapsulada dentro de seus próprios muros inexpugnáveis e, ainda, com uma cúpula de ferro a proteger-lhes a cabeça, como uma nave militar espacial vinda de planeta estrangeiro e distante, com o objetivo de matar a maior quantidade de seres humanos, adultos e crianças, e, sempre, em total impunidade. Agora, com o tal Domo instalado, talvez Obama espere que, pelo menos, no caso de algum país da região jogar alguma bomba sobre Israel, os senhores-da-guerra israelenses tenham alguns minutos para pensar e, com sorte, talvez decidam não se pôr a bombardear Gaza.

Obama pescando
Tudo faz crer que a principal função da operação Gaza é mostrar a superioridade militar de Israel: conseguiram cercar 1,7 milhão de seres humanos no maior campo de concentração que o mundo jamais viu, para poder bombardeá-los sem qualquer “risco” de punição. Enquanto isso, Barack Obama, depois de dar luz verde a Israel, viajou para pescar em Myanmar.

A verdadeira ameaça existencial

Esses e talvez outros fatores estão todos no campo das possibilidades – mas nenhuma delas dá conta, nem singularmente nem coletivamente, dos motivos pelos quais Israel sempre, de tempos em tempos, põe-se a assassinar palestinos. Portanto, a pergunta continua: por quê?

Netanyahu jamais se teria atrevido a atacar Gaza quando a Primavera Árabe estava em plena floração. Nada disso. Naquele momento, dedicou-se a ameaçar invadir o Irã. Teria sido uma segunda linha de ataque de seu governo. – Mas não deu certo; Adelson e Murdoch não conseguiram comprar-lhe um presidente Republicano o qual, aí sim, teria presenteado Netanyahu com sua sonhada guerra ao Irã. E lá está Obama, outra vez, no Salão Oval. Então... Netanyahu atacou Gaza, como sempre, para mostrar que ele manda, que é o chefão, que imensa superioridade militar é a dele! Eis aí, afinal, porque as coisas sempre se repetem e Israel sempre volta e volta a atacar Gaza.

Mas, por baixo de todos esses fatores, há sempre o medo instintivo de Netanyahu, que treme de medo das revoluções árabes – dos levantes democráticos de ponta a ponta no mundo árabe.

Mahmoud Ahmadinejad
Porque esses levantes e essa democracia, sim, são A ameaça existencial que pesa contra Israel. Fantasiar que Mahmoud Ahmadinejad ou, mesmo, a República Islâmica seriam ameaça existencial contra Israel é piada perversa, doentia, que a máquina de propaganda israelense transformou em bicho-papão assustador, horrendo, apavorante.

As revoluções árabes, mesmo no estágio nascente, turbulento em que estão (ou principalmente nesse estágio) são, sim, ameaça existencial contra as colônias de apartheid exclusivas para judeus [orig. are the existential threat to the Jewish apartheid settler colony]. Para piorar, nem o partido Likud, nem os sionistas liberais parecem ter qualquer ideia sobre o que fazer ou propor para redesenhar o destino de mais de 6 milhões de judeus colhidos na armadilha do sionismo, essa ideologia falida, que tenta sobreviver cercada por trás de seus muros-armadilhas de apartheid e, agora, também coberta por um Domo-armadilha de Ferro.

Fazer chover bombas assassinas sobre palestinos inocentes em Gaza foi mais uma tentativa desesperada para fazer o relógio andar para trás, fazê-lo voltar a dezembro 2008/janeiro 2009, apenas um ano antes de as revoluções árabes eclodirem. Foi ato de nostalgia assassina pervertida, de sionistas alucinados, que se veem atropelados pela história.

É possível que Netanyahu também estivesse testando Mursi? Mas, nesse caso, não teria sido o único: egípcios e árabes em geral também estão testando Mursi (...).

Mas, de fato, o medo de Netanyahu e a causa de ter perdido o rumo e o prumo, não é Mursi. O que transtorna Netanyahu é, isso sim, a erupção vulcânica que, para começar, levou Mursi ao poder, em eleições livres. A Israel que Netanyahu governa, além da Arábia Saudita e outras petroditaduras retrógradas do Golfo Persa, e além dos EUA, por um lado, e, por outro, também o clericato que governa o Irã e a ditadura síria, todos esses temem um único e inegável fato: as revoluções árabes, que – mais dia menos dia, imediatamente ou dentro de algum tempo – porão abaixo todos esses regimes de opressão.

Nas excelentes palavras de of Haidar Eid [8], professor da Al-Aqsa University, em Gaza:

Haidar Eid
Agora é a hora da verdade, hora de mandar mensagem bem clara ao novo mundo árabe: a era Mubarak e Abu el-Gheit é passado. O poder de “contenção” que dependia do massivo desequilíbrio de poder entre Israel e os palestinos, já não está nas mãos de Israel e dos seus aliados ocidentais. Esse poder hoje está com os homens e mulheres comuns nas ruas de Túnis, Cairo, Rabat, Doha, Amã e Muscat. As manifestações, que irromperam em Londres, New York, Glasgow e outras cidades, todas elas, se traduzirão em nova realidade, concreta. Nesses novos tempos, palestinos e árabes, os egípcios em particular, devem ser parceiros da paz, não mediadores em negociações que os povos não controlam.




Notas de rodapé

[1]  21/11/2012, Jerusalem Post, em: Barak: We achieved all our goals against Hamas
[2]  21/11/2012, Associated Press, Josef Federman,em: Cease-fire begins between Israel and Hamas
[3]  16/11/2012, New York Times, Gershon Baskin em: Israel’s Shortsighted Assassination
[5]  17/11/2012, Informed Comment, Juan Cole: Top Ten Myths about Israeli Attack on Gaza
[6]  18/11/2012, redecastorphoto, Marwan Bishara, em: Oriente Médio redux: O Hamás é consequência, não causa, da violência da ocupação (português)
[7]  30/6/2006, New York Times, Marwan Bishara em: Mideast: End the cycle of retaliation - Editorials & Commentary - International Herald Tribune (em inglês).
[8]  19/11/2012, Al Jazeera, Haidar Eid, em: Gaza 2012!” 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Netanyahu: vitória de Pirro


21/11/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Considerada à primeira vista, a operação de lançar novo assalto contra Gaza parece movimento vitorioso. Como se Israel tivesse acertado todos os tiros, 10 em 10, em sua “Operação Pilar da Defesa”. Mas é vitória de Pirro.

Faz lembrar a ilusão de segurança que as bruxas inventam em MacBeth de William Shakespeare: “Só o poder de homem não nascido de mulher pode ferir Macbeth”. O impossível, de fato, está bem perto de acontecer: “Macbeth não será derrotado, até que a Grande Floresta de Birnam erga-se contra ele e suba a montanha até Dunsinaine”.

Ahmed al-Jaabari
A ilusão é que os israelenses destruíram o quartel-general do Hamás e explodiram em pedaços Ahmed Jaabari, comandante militar do movimento, em assassinato premeditado, o que, aparentemente, enterraria o movimento da Resistência. Mas a dura realidade é outra: a mesma operação comprovou que o “Domo de Ferro” de Israel, anunciado como impenetrável, não passa de mito: foi facilmente penetrado por mais de 2/3 dos foguetes do Hamás. Agora... Será que só resta a Israel a invasão por terra?

O problema é que essa opção também se pode revelar mais um mito, o que se viu bem claramente em 2006 nas operações de Israel contra o Hezbollah no Líbano, cujos militantes quase sempre invisíveis, também dividem-se em vários subgrupos. A dura e clara realidade parece ser que, como já alertou o presidente Barack Obama dos EUA, “se soldados israelenses entrarem em Gaza, enfrentarão risco maior de serem mortos ou feridos”.  [1]

Verdade é que vê-se cada vez mais claramente que a realidade política pode tornar-se mais ameaçadora a cada minuto. Ao final do dia de ontem, Israel fez algo que jamais antes fizera em toda a sua história: sentou-se à mesa de negociações à procura de paz, apenas três dias depois de lançar ataque militar. [2]

10 de 10

Benjamin Netanyahu
O paradoxo está em que é verdade que Netanyahu não perdeu bala e acertou seus tiros no olho do alvo. É verdade que lançou o ataque contra o Hamás como propaganda da sua Grande Israel para o público interno e é bem possível que tenha melhorado a posição de seu partido Likud, dessa vez aliado ao ultranacionalista partido Yisrael Beitnu de Avigdor Lieberman para as eleições de janeiro próximo.

A popularidade do Likud estava em queda, e o partido já se via ameaçado pela aliança de oposição do partido Kadima do ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert, e do partido Yair Labed, do ex-ministro de Relações Exteriores Shaul Mofaz. Netanyahu avaliou, corretamente, que a sociedade israelense volta-se cada vez mais para a direita militarista, e um show de força sob sua liderança daria ao seu partido proeminência suficiente para roubar o vento das velas da oposição israelense.

Netanyahu pode agora jactar-se de que, sob sua liderança, Israel “degradou” a máquina de guerra do Hamás e enfraqueceu a ameaça que o grupo representa contra Israel. Pode dizer também que o Hamás vinha-se tornando cada dia mais ativo e que ele, Netanyahu, forçou o grupo a retroceder.

Há algum acerto na avaliação de Netanyahu, segundo a qual o afastamento entre o Hamás e Damasco (e também entre o Hamás e Teerã) ao longo do ano passado, criaria boa oportunidade para atacar Gaza. Os novos patrocinadores do Hamás – o Qatar, a Turquia, etc. – são conhecidos como cães que mais ladram que mordem, diferentes, nisso, de Síria e Irã. A guerra civil na Síria também cria alguma distância entre o Hamás e o Hezbollah, o que opera a favor de Israel.

Obviamente, os regimes sírio e iraniano estão reduzidos ao papel de coadjuvantes, quando poderiam ser dois atores protagonistas que fariam toda a diferença em relação à capacidade militar do Hamás. Assim, com o Iraque devolvido à Idade da Pedra e a Síria naufragada numa longa guerra civil, Israel só teria de preocupar-se com o Egito e estaria praticamente liberado para fazer o que bem entendesse no plano regional.

Mohamed Mursi
A mais importante conquista de Israel no atual conflito for ter conseguido engajar construtivamente o governo egípcio de Mohamed Mursi, da Fraternidade Muçulmana. Ter enviado dois negociadores israelenses ao Cairo mostra a facilidade com que Telavive engajou o governo de Mursi. Com toda a certeza, é mais que simples vitória simbólica para Telavive que Mursi, pela primeira vez, tenha sido obrigado a articular a palavra “Israel” em declaração pública no Cairo, numa conferência de imprensa, no domingo. [3]

Não há dúvidas de que EUA, a Liga Árabe e Israel estão confiando em Mursi para uma função de “mediação” – e para negociar um cessar-fogo. Do ponto de vista de Telavive, o que quer que se decida como condições para um cessar-fogo negociado hoje (ainda que sob os auspícios da ONU), carregará o selo implícito da aprovação de Mursi, e essa pode ser a abertura de que Israel precisa desesperadamente, pela qual possa ter esperança de arrancar-se (com a ajuda dos EUA) da enrascada em que está, de modo a readquirir capacidade para agir no plano físico e no plano da ONU, no próximo governo. Claro que nem Netanyahu sonha com a volta aos tempos de Hosni Mubarak, mas qualquer coisa é melhor que o atual nada.

Shimon Peres
Bem visivelmente, o presidente de Israel, Shimon Peres não perdeu tempo e apressou-se a colher as vantagens dessa janela de oportunidade, e abertamente elogiou os esforços de Mursi para por fim às hostilidades. Disse que “o Egito é player importante no Oriente Médio”. [4] Israel tentará, daqui em diante, minar os laços que ligam a Fraternidade Muçulmana e o Hamás, que cada dia mais se vai convertendo às políticas de Mursi para Gaza.

O conflito de Gaza também obrigou a opinião pública egípcia a encarar sua hora da verdade – que os egípcios estão sitiados numa espécie de terra-de-ninguém. As simpatias da rua egípcia vão integralmente para os palestinos, mas os egípcios não querem que a escalada na região arraste o Egito para conflito com Israel. Os egípcios sentem afinidades culturais com Gaza, mas estão muito aflitos ante a possibilidade de o enclave palestino virar local de produção de militantes que acabem por criar condições para nova guerra entre Egito e Israel.

No que tenha a ver com a Turquia, outro grande player regional, Israel obrigou o primeiro-ministro islâmico da Turquia, Recep Erdogan também indiretamente, a perceber o que está escrito pelos muros, a saber, que o Cairo, não Ancara, é o centro, hoje, de toda a diplomacia regional sobre o conflito em Gaza. O veterano e influente jornalista Murat Yetkin, escreveu no diário Hurriyet, órgão do establishment turco, que Ancara não está satisfeita com o “papel secundário” e com o doloroso reconhecimento de que a potência regional do Egito já ultrapassou a da Turquia. Escreveu ele, sobre a frustração que grassa em Ancara:

O papel do Egito na região volta à cena depois da Revolução Tahrir, e o governo do Egito é mais forte (...) A oposição síria, que começou nos campos de refugiados na Turquia, já declarou que considera o Cairo como seu quartel-general. A Primavera Árabe funcionou para o Egito e o país está nascendo das cinzas, outra vez, oferecendo modelo realista aos países árabes. E se Mursi conseguir salvar Gaza da ira de Israel, pode vir a ser um segundo Gamal Abdel Nasser, com o aval extra de ser eleito para o mundo árabe.

Recep Tayyip Erdoğan
O ataque israelense contra Gaza mudou a bússola da política do Oriente Médio. Com certeza obrigará a reavaliar as políticas turcas. E Israel espera que haja mais realismo de parte de Erdogan sobre os laços da Turquia com Israel. Israel anda dizendo que a fratura dos laços só feriu, até agora, interesses nacionais vitais da Turquia, na medida em que a partilha de inteligência está suspensa; e Ancara perdeu sua capacidade para mediar os conflitos no Oriente Médio.

Mas é caso ainda sem sentença definitiva. Erdogan também é demagogo. Sua retórica estridente ultrapassou em muito a de Mursi, quando Erdogan chamou Israel de “estado terrorista”, e passou a repetir que Telavive pratica “limpeza étnica”. Erdogan parece preferir surfar a crista da onda da opinião pública árabe, em vez de cuidar de algum “reset” nas relações turco-israelenses.

No geral, analisada a coisa do ponto de vista da política externa, Netanyahu parece ter colhido uma sequência de vitórias. De fato, o golpe mais “matador” envolveu Obama. Netanyahu forçou o presidente dos EUA a manifestar clara solidariedade a Israel no teatro do Oriente Médio, apesar das flagrantes diferenças que houve entre os dois, no ano passado, em vários campos, e inobstante a malfadada aliança com Mitt Romney, em momentos críticos da campanha eleitoral nos EUA – que muito irritou Obama.

Percepções e impressões fazem, sim, grande diferença na política do Oriente Médio e, mais uma vez, Netanyahu mostrou-se competentíssimo na arte de levar pelo nariz o governo dos EUA.

Netanyahu é atento observador da política dos EUA, e apostou que conseguiria forçar a mão de Obama, dado o completo controle que Israel tem sobre o Congresso dos EUA, a imprensa e os think-tanks, apesar dos sinais preocupantes que continuaram a aparecer, de tempos em tempos, de que o presidente Obama começava a trabalhar numa correção de curso na fracassada estratégia dos EUA para o Oriente Médio.

Netanyahu não errou. Aliás, a Operação Pilar da Defesa tem algo em comum com a sangrenta Operação Chumbo Derretido (dezembro de 2008): as duas surgiram imediatamente depois de vitórias eleitorais de Obama.

Avigdor Lieberman
Não é pouca coisa, também, que, exceto os países árabes, praticamente ninguém condenou o “direito de defesa” de Israel. Players influentes como Rússia, China e países europeus adotaram posição de neutralidade, com clamores de “restrição” dirigidos aos dois lados do conflito. Rússia e China, ambas, estão à espera de grandes oportunidades de negócios no mercado israelense. (Moscou também conta com as afinidades com Lieberman, imigrado da ex-União Soviética). Não há dúvidas de que os campos gigantes de petróleo e gás no Mediterrâneo catapultou Israel para o status de parceiro energético muito cortejado. Europeus, russos, chineses – o Leviatã é dor de cabeça para todos eles. Dito em outros termos, Israel não é mais amputado quádruplo com economia precária.

Contar as árvores

Finalmente, o conflito de Gaza pode ter sufocado o ameaçador movimento, pela Autoridade Palestina, de forçar uma votação na Assembleia Geral da ONU, dia 29/11, pelo reconhecimento de um Estado palestino – ação à qual Israel se opunha com unhas e dentes. Havia sinais crescentes de que Ramallah conseguiria mobilizar o apoio necessário, mas, no quadro regional em perpétua mudança, haverá agora pressões gigantescas sobre Mahmoud Abbas para que não obre na direção de aumentar as tensões.

Seja como for, os “ganhos” de Israel – políticos, diplomáticos e militares – acabarão por ser aferidos em relação às “perdas” que lhe custará ter atacado com tal fúria, com tal ira desmesurada e “desproporcional” os desamparados e miseráveis habitantes civis de Gaza. A imagem de Israel na comunidade mundial, sem dúvida, sofreu duro golpe. E haverá quem entenda que, feitas as contas, as perdas ultrapassam em muito os ganhos, e que a história apenas se repetiu – Israel responde em fúria e desespero sempre que tem de enfrentar realidades emergentes, o que nada resolve e pode, inclusive, complicar ainda mais o futuro.

É verdade, Israel pode ter reduzido a capacidade do Hamás em termos militares. Mas pode não passar de contragolpe, se tanto, apenas temporário para o Hamás, porque se deve considerar que, em pouco tempo, seus arsenais podem estar recompostos.

Mahmoud Abbas
A realidade em campo é que os foguetes do Hamás continuam a chover sobre Israel e Israel não tem informação aproveitável sobre de onde, precisamente, são lançados. Hoje, quem treme e pede paz é Israel, não o Hamás. Mais importante, o Hamás já conta com os foguetes iranianos, mais letais. O Hamás perceberá rapidamente que o apoio continuado do Irã vale o próprio peso, em ouro, agora que o Hamás busca alcançar o status de que goza o Hezbollah para forçar um confronto estratégico com Israel. É possível, em resumo, que Israel esteja empurrando o Hamás de volta para o abraço iraniano – o que Israel só tem motivos para temer.

Também em termos políticos e diplomáticos, o Hamás vence, de longe, a disputa. O bloqueio israelense contra Gaza não poderá ser mantido. A fila de ministros do Exterior estrangeiros que visitaram Gaza na 3ª-feira (20/11/2012), fala por ela mesma. Não há qualquer dúvida de que o Hamás pôs abaixo a estratégica dos israelenses, de “contenção”. Ironicamente, o que se viu foi que Israel já começou a “lidar” com o Hamás sem sequer se aperceber, enquanto o padrão dos contatos diplomáticos para por fim ao atual conflito vai-se desdobrando até aqui e pelos próximos dias.

Khaled Meshal
Israel já deve ter percebido que a paisagem política regional mudou fenomenalmente a favor do Hamás, a partir, simplesmente, do fato de que Khaled Meshal mostrava-se em conferência de imprensa ao vivo, no Cairo, no momento em que a fúria dos jatos israelenses atacava Gaza. Em forma resumida, pode-se dizer que a Primavera Árabe foi colheita amarga para Israel; e o crescimento do islamismo na região, sob o estandarte dos Irmãos da Fraternidade Muçulmana opera a favor do Hamás.

É possível que Israel, no processo, tenha empurrado o prato da balança, no campo palestino, a favor do Hamás e da Jihad Islâmica (contra o Fatah) como as genuínas vozes da Resistência. A posição do Irã parece afinal vitoriosa, agora que aliados secretos de Israel, como a Jordânia e as oligarquias do Golfo Persa, já estão obrigadas a lutar no contrapé.

A luta para forçar uma “mudança de regime” na Síria torna-se ainda mais complicada, na medida em que a agenda da Resistência avança. Movimentos frenéticos de britânicos e da União Europeia, essa semana, no charivari regional para oficializar o reconhecimento diplomático para a “nova” oposição síria, deixa ver o nervosismo generalizado no “ocidente”.

O xis da questão é que, enquanto a questão palestina permanecer no centro da mesa, o ocidente estará sobre furiosa pressão para “conter-se” e ver com objetividade a prioridade viciosa que tantos atribuem à “mudança de regime” na Síria... ao mesmo tempo em que o mesmo ocidente nada faz a respeito da questão mãe de todas as questões no conflito entre árabes e israelenses. É possível que Israel tenha prestado grave desserviço aos EUA, Grã-Bretanha e França e aos seus aliados regionais, quando chamou toda a atenção do mundo, outra vez, para o problema, ainda não resolvido, dos palestinos.

Assim também, enquanto o Egito talvez negocie um cessar-fogo para o atual conflito, que ninguém espere que ajude a manter o bloqueio de Gaza fechando a passagem de Rafah, ou dando sobrevida à cooperação de inteligência da era Mubarak. Vale dizer que Mursi pode ter simplesmente tentado lidar com as pressões presentes, enquanto seu movimento estratégico geral, na questão palestina e nas relações entre Egito e Israel permanece absolutamente o mesmo de sempre. Mursi também já mostrou competência e talentos táticos, e deve-se prever que manterá Israel sem saber com certeza quais suas intenções.

O teste limite será o Sinai, que é um barril de pólvora. Não há solução simples para pôr sob controle o Sinai sem-lei e os militantes se estão reagrupando onde os serviços egípcios de segurança não controlam absolutamente coisa alguma. Israel não tem escolhas fáceis à frente; e o ataque contra Gaza pode ter complicado as coisas ainda mais.

Nic Robertson
A falha fundamental, o erro, na estratégia de Netanyahu é não ver que o Oriente Médio é hoje região completamente diferente do que antes foi. Nas palavras de Nic Robertson, da CNN  [5]:

O Hamás ocupa hoje espaço completamente diferente. Ainda cercado nos becos superpopulosos de Gaza, onde foi eleito há seis anos, mas, agora, com muitos amigos fora de lá. O que mudou, mudou no rastro da Primavera Árabe que varreu de lá alguns tradicionais aliados de Israel e substituiu-os por governantes mais simpáticos aos Hamás (...). O Egito está longe de estar só na revolução regional que começa a isolar Israel...

Assim sendo, onde fica Israel, hoje? Posto em poucas palavras, embora Israel seja mais forte militarmente, está hoje em posição política muito mais fraca do que estava em 2009. A retórica do Egito hoje, embora ainda não se tenha aproximado de suspender o acordo de paz com Israel, já tomou, sim, nítido viés pró=-Hamás. Todo o mundo árabe, universalmente e há muito tempo, rejeita profundamente o modo como o estado de Israel trata os palestinos. Antes, a maioria dos líderes árabes eram ditadores e não precisavam fazer qualquer concessão à rua árabe. Hoje, isso mudou. Os novos governantes regionais pós-Primavera Árabe eleitos democraticamente, sabem muito bem que há radicais linha-dura à espreita, esperando uma oportunidade.

Obama parece compreender o problema que o encara face a face, e vê a imperiosa necessidade de cuidar de reestruturar, desde os fundamentos, todo o discurso dos EUA para o mundo muçulmano. Em sua primeira conferência de imprensa, depois de anunciado o resultado das eleições estava cheia de pistas do que passa por sua cabeça, no trabalho de modelar as políticas dos EUA para situações-problema como a Síria e o Irã.

Isso dito, Obama talvez estivesse mantendo reservados os seus pensamentos, quando Netanyahu jogou-o, precipitadamente, dentro da crise de Gaza, mas isso não significa que seus pensamentos venham a mudar muito. Ao contrário, é provável que Obama sinta a compulsão, antes do que Netanyahu imagina, de romper as amarras que tanto prejudicam os interesses de longo prazo dos EUA no Oriente Médio.

O ponto nuclear, central, de toda essa questão, é que a estratégia dos EUA para o Oriente Médio enfrenta hoje crise profunda. E a menos e até que as contradições mais fundamente enraizadas sejam expostas e resolvidas, os EUA não podem nem congregar nem dispersar os recursos que têm para “reequilibrá-los” na Ásia... onde se vai constituindo um desafio histórico que decidirá o destino mais amplo dos EUA como superpotência.

Há momentos em que, na prontidão para vencer uma batalha, ninguém vê que, ali, perdeu a guerra. O momento presente bem pode ser um desses. Netanyahu talvez tenha ganho a batalha e obrigado Obama a apoiá-lo, mas não demora e também Netanyahu perceberá que isso, de fato, nem vitória foi.



Notas de rodapé

[1]  18/11/2012, USA Today, em: Obama warns against ramping up in Gaza

[2]  20/11/2012, USA Today, em: Conflict puts Gaza blockade back on negotiating table

[3]  20/11/2012, Haaretz, em: When Morsi says 'Israel' out loud

[4]  19/11/2012, Ministério das Relações Exteriores de Israel, em: President Peres meets with Quartet Special Envoy Tony Blair

[5] 20/11/2012, CNN (vídeo, em inglês, a seguir) em: How Middle East has changed since last Gaza conflict

__________________

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.