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quinta-feira, 26 de março de 2015

Israel Vota pelo Apartheid – Caiu a fachada sionista liberal

22-23/3/2015, [*] Neve GordonAl-Jazeera (reproduzido em Counterpunch)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Popularidade de Netanyahu
Benjamin Netanyahu faz mágica. Ainda na 6ª-feira (20/3/2015), a maioria das pesquisas indicava que seu partido Likud conquistaria em torno de 21 cadeiras no Parlamento israelense, quatro cadeiras a menos que o Campo Sionista (Partido Labor, com nome novo) de Yitzhak (Bougie) Herzog. Revelações de corrupção na residência do primeiro-ministro, seguidas de relatório devastador sobre a crise imobiliária real, além do encolhimento da indústria, greves sindicais, previsões de economia fraca, impasse diplomático e crescente isolamento internacional, tudo parecia indicar que Netanyahu estaria de saída. Mas quando mais parecia que o Campo Sionista substituiria o campo nacionalista, o exímio marqueteiro de campanhas eleitorais começou a tirar seus coelhos da cartola.

Como se não bastasse a decisão de atropelar o governo Obama na questão das negociações com o Irã, Netanyahu pôs-se a martelar a favor da direita, dando a conhecer ao mundo  que os palestinos estariam condenados para sempre a jamais ter estado seu, dado que ele já não promoveria a criação de mais um estado árabe para cercar Israel. Apresentou o partido Likud como vítima de uma conspiração da “mídia” esquerdista para derrubar o governo da direita. E convenientemente não disse a ninguém que seu aliado Sheldon Adelson é o proprietário do jornal Yisrael Hayom, o jornal impresso de maior circulação em todo o país. Convidou seus eleitores a voltar para “casa”, prometendo dar conta de todas suas carências econômicas. E no próprio dia das eleições, aterrorizou os judeus com declarações de que os cidadãos palestinos de Israel estariam correndo às urnas em multidões, apresentando os palestinos, que votam em seus próprios candidatos, como se fossem mais uma ameaça existencial.

A poção envenenada de Netanyahu é feita com campanhas para gerar medo, muito ódio racista contra árabes e ódio militante contra a esquerda política. Pelo que agora se vê, muitos eleitores foram realmente envenenados. Em questão de poucos dias, Netanyahu conseguiu virar a favor dele votos suficientes para eleger mais dez candidatos do seu partido, canibalizando dois dos seus aliados da extrema direita: o partido de Avigdor Lieberman e o partido de Naftali Bennett. Graças à mágica-veneno de Netanyahu, o Likud saiu-se muito melhor do que esperava, e em coalizão com os partidos ultra-ortodoxos e um novo partido recém criado por um ex-ministro do Likud, o partido Kulanu (All of US), será muito provavelmente criado um bloco de extrema direita, com 67 dos 120 assentos com direito a voto (e isso ainda antes de se computarem os votos dos soldados, que em geral são de centro-direita).

A imprensa-empresa apoia o APARTHEID
Esse resultado é claro: o povo de Israel votou a favor do Apartheid.

Agora é extremamente provável que volte à tona uma leva de leis antidemocráticas  que haviam sido engavetadas. Entre essas, as leis que monitoram e limitam o financiamento de ONGs de direitos humanos, restringem a liberdade de expressão, reduzem a autoridade da Suprema Corte, cancelam o status oficial da língua árabe e, claro, levam a votação a lei do estado-nação. Essa lei, originalmente proposta por um membro do Likud, define a judaicidade como padrão do estado em todas as instâncias, legal ou legislativa – na qual conflitam as definições de “estado judeu” e “estado democrático”. Significa que as leis que garantem direitos iguais a todos os cidadãos israelenses podem ser derrubadas, sob a alegação de que não respeitam o “estado judeu”. Além disso, essa lei reserva direitos comunitários só para judeus; nega portanto aos cidadãos palestinos qualquer tipo de identidade nacional.

Além da legislação antidemocrática, podemos esperar todo um desfile de políticas de discriminação. O novo governo provavelmente implementará alguma variação do Plano Prawer, que visa a realocar à força milhares de beduínos palestinos e tomar a terra que pertence a eles. Continuarão a jorrar bilhões de dólares nas colônias israelenses na Cisjordânia e nas colinas do Golan, e mais casas serão expropriadas em Jerusalém Leste. E provavelmente serão presos milhares de refugiados e trabalhadores migrantes “ilegais” que atualmente vivem e trabalham em cidades israelenses.

Mas, sim, os resultados dessas eleições trazem uma importante vantagem: afinal, as coisas estão postas às claras.

Agora, pelo menos, caiu a fachada sionista liberal, que camuflava a disposição de Israel para fazer avançar seu projeto colonial. O refrão israelense, de que não se poderia alcançar solução diplomática com os palestinos, porque os palestinos não teriam liderança, soará mais vazio, a cada dia. Finalmente, já se pode ver que pretender que Israel seria a única democracia no Oriente Médio é o que é: meia verdade. Israel só é democracia para judeus. Para palestinos, é regime repressor.

Apartheid em Israel
Deve-se também esperar pouca resistência contra o governo de extrema direita, porque o Campo Sionista de Herzog e o partido de Yair Lapid também são arabofóbicos e, portanto, pouco lutarão contra a substância racista do novo governo, embora talvez lutem contra o estilo direitista agora já desavergonhado de Netanyahu.

Afinal de contas, nos dias antes da eleição via-se um só pacote político, com enormes cartazes que mostravam foto de (Bibi) Netanyahu e seu adversário, representante oficial da extrema direita, Naftali Bennett, em que se lia que “Com Bibibennet continuaremos contra os palestinos por toda a eternidade”. A dupla deve ter esquecido o fato de que 20% dos cidadãos israelenses são palestinos.

Pois mesmo assim, durante essas eleições, um raio de esperança brilhou na escuridão. O esforço concentrado de quase todos os partidos judeus para excluir os cidadãos palestinos produziu um efeito não esperado. Criando uma frente unida, os palestinos conquistaram 14 cadeiras no Parlamento, 25% a mais do que jamais antes. Hoje, os palestinos já são a terceira maior força no Knesset.

Diferente de seus contrapartes noutros partidos, Ayman Odeh, que preside a nova Lista Árabes Unidos, é líder genuíno. Extremamente incisivo, é orador que muitas vezes se serve de muita ironia para ridicularizar seus detratores, ao mesmo tempo em que divulga incansavelmente sua visão igualitária do futuro. Num raro momento de sinceridade, uma conhecida jornalista comentarista israelense denunciou a atitude de Odeh, para ela uma grave ameaça: “É homem muito perigoso”, disse ela. “Ele projeta algo com que todos os israelenses podem relacionar-se”.

Será essa “ameaça” capaz de deter a iminente avalanche de novas leis de Apartheid em Israel? Sinceramente, duvido.
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[*] Neve Gordon é judeu, residente em Israel, nasceu nos EUA em 15/6/1965) é professor de Política e Governo na Universidade Ben-Gurion do Negev, onde leciona sobre questões relacionadas com o conflito israelense-palestino e direitos humanos. Pertencente à terceira geração de Israel, Gordon fez o serviço militar em uma unidade de paraquedistas tendo sofrido ferimentos graves na ação em Rosh Hanikra; como resultado ele tem uma deficiência motora de 42%. Durante a Primeira Intifada atuou como diretor dos Médicos pelos Direitos Humanos em Israel. É membro ativo da Ta’ayush, uma parceria entre árabes e judeus. Identifica-se como membro do campo da paz israelense e descreve Israel como um Estado de “apartheid” e apoia o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel.
Gordon recebeu seu doutorado na Universidade de Notre Dame (EUA) em 1999, e tem sido professor visitante na University of Califórnia - Berkeley, University of Michigan e na Universidade de Brown.
Seus artigos são usualmente publicados no LA Times, The Washington Post, The Nation, The Guardian, Haaretz,The Jerusalem Post, The Chicago Tribune, Boston Globe, In These Times, The National Catholic Reporter, Al Jazeera, The Chronicle of Higher Education e CounterPunch.

domingo, 22 de março de 2015

Irã prepara-se para a volta da vitória

13/3/2015, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Teerã já mal tolerava, ao longo dos últimos anos, o teatro e as patacoadas do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu de Israel sobre a questão nuclear. Mas agora é sem luvas, afinal, com as conversações EUA-Irã entrando decididamente numa fase em que a mídia-empresa norte-americana discute se o acordo é “acordo”, “memorando de intenções”, “tratado”, só muda o nome.

Os diplomatas dos países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU já começaram consultas, em New York sobre uma resolução que levantará formalmente as sanções da ONU contra o Irã, caso o acordo seja assinado.

Israel recorreu repetidas vezes a crimes, como o assassinato de cientistas iranianos, e Netanyahu nunca perdeu oportunidade para caricaturar o Irã como se fosse responsável por todos os males desse nosso atormentado mundo, não raro com linguagem grosseira. O Irã jamais retaliou, nem ante a provocação mais ofensiva. Agora, vai acabar. E, dando às coisas o nome verdadeiro, Netanyahu não é páreo para Teerã.

Semana passada, o influente assessor do Supremo Líder e ex-Ministro de Relações Exteriores, Ali Akbar Velayati, chamou Netanyahu de “aquele vagabundo”, ao comentar a aparição [“daquele vagabundo”] no Congresso dos EUA, recentemente, para falar mal do Irã.

Ontem, o Supremo Líder, Ali Khamenei, usou outra expressão colorida – “o palhaço sionista”. Não há dúvidas de que o Irã já sentiu que Netanyahu perdeu a batalha, e a recente carta de deputados Republicanos pró-Israel do Congresso dos EUA pode ser o proverbial último prego no caixão da campanha israelense contra a decisão de Obama de acertar as coisas com Teerã.

Mohammad Javad Zarif, MRE do Irã 
Não há dúvida de que o Irã conhece, em detalhes, os meandros da política doméstica nos EUA.
(...)
O Irã, além do mais, fez a lição de casa, e será perda de tempo os norte-americanos inventarem que teria sido acordo Obama-Irã, não EUA-Irã. O Ministro das Relações Exteriores, Mohammad Zarif (especialista competentíssimo, em lei internacional) já deu boas lições aos muito carentes delas, ignorantes deputados norte-americanos, sobre o contato íntimo entre lei nacional e lei internacional, em políticas exteriores.

Seja como for, tão logo o Conselho de Segurança levante as sanções contra o Irã, abrir-se-ão as comportas, e a plena integração do Irã com o ocidente se tornará irreversível. Nenhum futuro governo dos EUA gostará de negar-se a si mesmo o prazer de magníficos negócios com país rico e civilizadíssimo. como o Irã. Mas o “Big Oil” texano proibirá.

Em seu discurso em Teerã ontem [5ª-feira, 12/3/2015], Khamenei elogiou demoradamente a equipe de negociadores iranianos – “gente boa, honesta, sincera, que trabalha para o avanço do país no futuro” – deixando claro que o acordo que está sendo finalizado conta com sua aprovação plena e suas bênçãos. Foi grande mensagem, que ecoará por todos os corredores do poder no Irã.

Khamenei fez esses comentários quando discursava para os membros da poderosa Assembleia dos Especialistas, onde se reúne “la crème de la crème” das elites religiosas (e políticas) iranianas.

Aiatolá Ali Khamenei em 12/3/2015
Vale anotar também que Khamenei teve a grata satisfação de ver eleito em eleições diretas e abertas, naquela Assembleia dos Especialistas, como novo presidente, seu amigo e companheiro de longa data, Aiatolá Mohammad Yazdi, o qual, e também é interessante, derrotou ali o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, por 47-26 votos. A especulação já começou, na mídia-empresa ocidental, que Yazdi, de 83 anos, pode, algum dia, vir a ser Supremo Líder do Irã (Daily Star).

Ontem, Zarif pessoalmente informou a Assembleia dos Especialistas sobre a situação do acordo nuclear. Sob todos os aspectos, é momento emocionante, entusiasmante, para a Revolução Islâmica de 1979. 35 anos de sítio, afinal já próximo de ser levantado.

É um grande momento não só para o ocidente, mas também para a Ásia, que a última fronteira da segurança energética esteja tão próxima – sobretudo para a China. A próxima visita do presidente Xi Jinping ao Irã está marcada com “timing” perfeito. Segundo o Ministro chinês de Relações Exteriores, Wang Yi, o resultado da visita promete ser “dramático”.

Evidentemente, o Irã escolherá com extremo cuidado os parceiros de energia. A política “Olhe para o leste” construída pelo ex-presidente Mahmoud Ahmedinejad já perdeu a relevância.

Os aiatolás Ali Khamenei (E) e Mohammad Yazdi em 12/3/2015
O Iran Daily, jornal muito próximo dos centros de poder em Teerã, comenta hoje em editorial,

Exportar gás por gasodutos ajuda a formar fortes laços diplomáticos e relações internacionais com nações regionais e trans-regionais. O Irã deve desenvolver laços próximos com estados como Turquia, Paquistão, Iraque e Índia, para aumentar suas exportações de gás. (...)

Dado que os europeus têm interesse em importar gás do Irã, o país do Golfo Persa já manteve conversações com a Suíça e a União Europeia, para transferir gás para a Europa. Mas são ainda indispensáveis equipamento e infraestrutura a serem desenvolvidas para que exportem o gás deles para a Europa. O Irã já é capaz de exportar gás para a Europa imediatamente, tão logo comece o bombeamento.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Pepe Escobar: Irã, EUA, Rússia e China, a verdadeira história

4/3/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Epígrafe acrescentada na Vila Vudu, colhida de mensagem que recebemos hoje, boa demais para não aproveitar aqui:
[Netanyahu] is trying to kill ME, Yossarian told him calmly.
No one's trying to kill you, Clevinger cried.
Then why [Netanyahu] is shooting at ME? Yossarian asked.
Not at you! [Netanyahu] is shooting at everyone, Clevinger answered. [Netanyahu]’s trying to kill everyone.
I told ya.
Adaptada de HELLER, Joseph, Catch-22, 1961, (ing. PDF grátis).
Tradução:
[Netanyahu] quer ME matar, Yossarian disse calmamente.
Ninguém quer matar você, Clevinger berrou.
Então, por que [Netanyahu] está atirando em MIM? Yossarian perguntou.
Não em você! [Netanyahu] está atirando em todo mundo, disse Clevinger. [Netanyahu] quer matar todo mundo.
Foi o que eu disse.


Mohammad Javad Zarif - MRE do Irã
A verdadeira história nunca teve coisa alguma a ver com o primeiro-ministro de Israel, doente-por-guerras, Bibi Netanyahu, líder estrangeiro que se serviu violentamente do Castelo de Cartas (House of Cards), desculpem, do Capitólio, nos EUA, como palancão de campanha de reeleição e para enquadrar a presidência e a política externa dos EUA.

Prova muito clara disso é que, enquanto em Washington, Bibi “Bombardeie o Irã” destilava aquela arenga de 39 minutos, em Montreux o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry e o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif trabalhavam na terceira rodada de negociações nucleares.

A verdadeira história é também, em parte, sobre esse novelão perene – o dossiê nuclear iraniano. Mas ao final do corrente mês há um prazo a ser cumprido para um primeiro arranjo; e em junho – com otimismo – um acordo final amplo.

O que está em jogo nesse mais alto nível é coisa que todos os principais jogadores já sabem há eras. Teerã não assinará acordo algum que não ponha fim ao imundo e ilegal pacote de sanções ainda vigentes. E Washington, inspirada sempre pela política de “Não faça nenhuma merda coisa estúpida” do governo Obama, só faz puxar as traves do gol, de um lado para o outro, ao longo das negociações.

A mais recente “ideia” de Obama foi “exigir” que o Irã suspenda toda a atividade nuclear por dez anos. Para Zarif, a coisa é “ilógica” e “excessiva”.

É. Tão ilógica quando a paranoia que é marca registrada da cesta de neoconservadores e extremistas de direita no governo dos EUA. Comparem-se a reação dos norte-americanos e o modo como o líder supremo do Irã, Aiatolá Khamenei considera o poder nuclear – com todas as implicações que tem; e é posição divulgada há eras, para todos verem. Assista vídeo dele a seguir legendado em inglês:


China, Rússia e o Plano B

Diferente do regime Cheney, o governo Obama parece ter chegado a uma conclusão lógica – induzida por horas e horas que o Pentágono perde de joystick na mão: Washington não pode destruir o sistema nuclear iraniano – a não ser que use armas nucleares.

Ao longo da maior parte da década passada, esse foi o Plano A. Plano B são as “negociações” que nunca terminam, que se resumem a aparecer sempre com várias limitações ao programa nuclear iraniano em troca de um sempre muito duvidoso fim das sanções.

De fato, o verdadeiro objetivo dos Masters of the Universe que controlam o teatro de sombras no eixo Washington/Wall Street é administrar o declínio imperial. Implica, no sudeste da Ásia, uma nova sessão de “Dividir para Governar”, dessa vez com Turquia, Irã, Arábia Saudita e Israel nos papeis principais.

Alguns jogadores−chave em Washington estão ficando cada dia mais impacientes com a Casa de Saud, a qual – com sua estratégia de baixo preço do petróleo – está bombardeando a indústria de petróleo de xisto dos EUA. Outros se preocupam por a Turquia – depois de negócio-monstro no Oleogasodutostão, o Ramo Turco – estar-se deslocando para mais perto da Rússia. Assim, enquanto não for fechada, a opção de reintegrar o Irã numa colaboração com o ocidente, continua a render negócios lucrativos para empresas norte-americanas.

Mas Rússia e China tampouco estão sentadas vendo a vida passar: lá estão, como partes importantes do grupo P5+1 que negocia com os especialistas e autoridades do Irã. Os dois países BRICS podem usar – e usam – o Irã como alavanca no modo como negociam com o hegemon, sempre encontrando vias pelas quais minar o “pivoteamento para a Ásia”, dos EUA.

Organização de Cooperação de Xangai

Tão logo estejam normalizadas as relações com o Irã, Teerã será admitida à Organização de Cooperação de Xangai [Shanghai Cooperation Organization (SCO)]; atualmente, o Irã participa como observador. Washington teme esse movimento – porque acelera a integração eurasiana do Irã, e dá firmeza a um eixo político/comercial Moscou-Teerã-Pequim.

A Rússia já mantém bons negócios com o Irã – de usinas nucleares à venda de armas. Nenhum acerto EUA-Irã acontecerá sem aquiescência tácita (no mínimo) dos russos – e os norte-americanos sabem disso. Pequim, por sua vez, tende a firmar-se no status quo. A China não quer Teerã muito mais próxima do ocidente, porque implicaria um hegemon muito mais ‘'solto'’ no movimento de “pivotear-se” para a Ásia. A China corretamente vê o Irã numa função de conter o “ocidente”.

No futuro, passos adiante, nessa estrada, Teerã pode usar essa alguma ‘'reaproximação'’ com o ocidente, para aumentar seu poder de barganha com Pequim. Se algum acordo for obtido nesse verão, Teerã estará numa excelente posição para extrair concessões – na economia, segurança, defesa – de seus parceiros chineses. Mas em todos os casos o nome do jogo sempre é integração eurasiana.

O Califato, “nossos” filhos-da-puta

Quanto ao vociferante Bibi, só lhe restou mais uma vez tentar vender a Washington a escolha de uma guerra israelense contra um Irã demonizado ensandecidamente. Não funcionou – mais essa tentativa de os suspeitos de sempre, o lobby organizado no AIPAC, ordenarem, sem meias palavras, que suas tropas de choque dissessem ao Castelo de Cartas [House of Cards], digo, ao Congresso dos EUA, que guerra é paz, e acordo nuclear é acordo com o demônio em pessoa.

Como escreveu Trita Parsi, para Bibi, a verdadeira “ameaça existencial” é a paz.

O culpado é o Irã!
Mais uma vez, também aqui a história verdadeira não é algum Irã nuclear; é a possibilidade de uma détente EUA–Irã; nesse caso, as garras de Israel sobre a política exterior dos EUA enfraquecem, deixam de ser garras de ferro.

Como se poderia prever, Bibi esbravejou furiosamente contra aquelas forças do mal que pululam em sua “vizinhança”, de Irã e “Líbano” (falava do Hezbollah), à Síria de Assad e ao Hamas. Mas... nem uma palavra contra ISIS/ISIL/Daesh. É como declarar que um Irã não nuclear é ameaça pior à civilização que o Califato fake, viciado em degolas. Esposando tal visão de mundo, Bibi não pode aspirar nem a extra no seriado House of Cards [Castelo de Cartas] – agora no Netflix.

Enquanto isso, a verdadeira história de Israel – o apartheid/ocupação ilegal imposto aos palestinos – prossegue, ocultada pelo cacarejo daqueles sonâmbulos que circulam na House of Cards, desculpem, no Senado dos EUA, que Bibi bombardeou até deixar em ruínas.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Yats e a junta ucraniana “é Charlie” e bombardeiam o Donbass (outra vez)


12/1/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bibi Netanyahu “é Charlie”. Ouçam aí , ao vivo (em 2’03):


BIBI NETANYAHU: [A essência da batalha que temos de travar é] “Ataque de base ampla contra as forças do Islã”.

Nota dos tradutores:
De Pepe Escobar, no Facebook: O “lapso freudiano” foi apagado na transcrição [da fala]. É a “Solução Final” à Bibi, para o mundo ver.

The Saker
Vocês devem ter ouvido que “Yats” fez uma grande recentemente: segundo ele, durante a IIª Guerra Mundial a URSS invadiu a Ucrânia e a Alemanha. Dele, não se pode esperar menos. Mas a parte verdadeiramente patética ficou por conta do ministro alemão de Relações Exteriores, que declarou que respeitava o direito de “Yats” à livre manifestação do pensamento.

Claro! “Yats é Charlie”
Outra notícia é que a junta ucraniana recomeçou o bombardeio e aumentou dramaticamente o volume das bombas contra a Novorrússia. Até agora, é fogo tipicamente terrorista – ataques distribuídos ao acaso, sempre contra setores civis – mas eles podem também estar testando as novas capacidades dos novorrussos, de fogo antibaterias e posições da artilharia novorrussa (o que se tornou possível para a junta, depois que os EUA entregaram aos nazistas radares antibaterias).

Sergey Lavrov - MRE da Rússia
Mas o desenvolvimento mais preocupante é a confirmação, pelo ministro Lavrov, de Relações Exteriores da Rússia, de que os russos já têm inteligência que mostra que a junta ucraniana prepara-se para assalto em grande escala contra a Novorrússia. Faz perfeito sentido: agora que o mundo está de olhos fixos, mesmerizados, no maravilhoso show de unidade a favor da liberdade de manifestação e contra o terrorismo, é o momento perfeito para ataque terrorista, com massacre e banho de sangue, na Novorrússia.

The Saker

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Netanyahu nas cordas? Palestinos derrubam mais um governo israelense

3/12/2014, [*] Gilad AtzmonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Por Karras

Vez ou outra, líderes políticos e militares israelenses são derrotados pelas próprias guerras israelenses. A Primeira-Ministra Golda Meir e seu comandante do exército (David “Dado” Elazar) foram mandados de volta para casa depois dos erros estúpidos de 1973 (Guerra do Yom Kippur). O Primeiro-Ministro Menachem Begin perdeu a sanidade depois da primeira guerra no Líbano (1982). O Ministro da Defesa, Amir Peretz e seu comandante do exército Dan Halutz’ foram tratados com dureza pela mídia israelense depois da derrota de Israel no Líbano, em 2006. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu paga agora o preço do mais recente desastre israelense em Gaza e do levante de palestinos que veio imediatamente depois.

Nações fortes tendem a unir-se em torno dos comandantes em tempos de crise. Os israelenses não, são como crianças mimadas. Preferem virar-se contra os comandantes em tempos de conflito, mas não porque anseiem por paz. É exatamente o contrário: querem vitória conclusiva; rios de sangue árabe pelas ruas. Bibi não lhes deu o que queriam. Aos olhos de muitos patriotas israelenses, Bibi é mole.

Israel não se saiu bem na mais recente rodada de violência. O exército de Israel não conquistou um, que fosse, objetivo militar importante. Depois de poucos dias, o exército israelense teve de retirar-se, humilhado e exaurido. Os militares israelenses já admitiram que não souberam dar resposta militar à balística palestina, aos tuneis e a coragem sem fim dos palestinos. Além do mais, o conflito em Gaza respingou sobre a Cisjordânia e cidades israelenses. Na verdade, o gabinete de Netanyahu demorou a reagir. Parecia colhido de surpresa pelos eventos. Agora, muitos israelenses já admitem abertamente que o futuro do Estado Judeu é mais sombrio a cada dia.

Por Latuff
establishment político israelense seguiu rapidamente a maré de opinião pública – com total radicalização. Os falcões querem que o estado admita que é um “lar judeu”, em vez de uma “democracia judaica” (expressão que, só ela, já é uma contradição entre os termos). Os centristas e a esquerda israelense insiste que Israel tem de manter a mentira “democrática”. Soa bem e os Goyim acreditam, como argumentaram.

Hoje (3/12/2014) cedo, o Primeiro-Ministro Netanyahu anunciou novas eleições, depois de demitir dois ministros chaves de seu governo – Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid e Ministro das Finanças; e Tzipi Livni, líder do Hatnua e Ministra da Justiça.

Livni e Lapid opuseram-se à Lei Nacional de Israel e deram a Netanyahu oportunidade de ouro para se reafirmar como devotado judeu nacionalista patriótico. Acho que Netanyahu sobreviverá a esse round político.

Mas há um ponto, nessa história, pequeno, mas significativo. Há sete meses, era Netanyahu que pressionava cada vez mais a Autoridade Palestina, o Hamás e a população palestina, num esforço para quebrar o governo de unidade dos palestinos. Seis meses de violência depois, uma guerra em Gaza e uma 3ª Intifada em produção, os palestinos mostram-se mais unidos que nunca. E o governo de Netanyahu está caindo aos pedaços.
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[*] Gilad Atzmon (músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos. Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis noThe Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock e jazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.