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quinta-feira, 5 de março de 2015

Pepe Escobar: Irã, EUA, Rússia e China, a verdadeira história

4/3/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Epígrafe acrescentada na Vila Vudu, colhida de mensagem que recebemos hoje, boa demais para não aproveitar aqui:
[Netanyahu] is trying to kill ME, Yossarian told him calmly.
No one's trying to kill you, Clevinger cried.
Then why [Netanyahu] is shooting at ME? Yossarian asked.
Not at you! [Netanyahu] is shooting at everyone, Clevinger answered. [Netanyahu]’s trying to kill everyone.
I told ya.
Adaptada de HELLER, Joseph, Catch-22, 1961, (ing. PDF grátis).
Tradução:
[Netanyahu] quer ME matar, Yossarian disse calmamente.
Ninguém quer matar você, Clevinger berrou.
Então, por que [Netanyahu] está atirando em MIM? Yossarian perguntou.
Não em você! [Netanyahu] está atirando em todo mundo, disse Clevinger. [Netanyahu] quer matar todo mundo.
Foi o que eu disse.


Mohammad Javad Zarif - MRE do Irã
A verdadeira história nunca teve coisa alguma a ver com o primeiro-ministro de Israel, doente-por-guerras, Bibi Netanyahu, líder estrangeiro que se serviu violentamente do Castelo de Cartas (House of Cards), desculpem, do Capitólio, nos EUA, como palancão de campanha de reeleição e para enquadrar a presidência e a política externa dos EUA.

Prova muito clara disso é que, enquanto em Washington, Bibi “Bombardeie o Irã” destilava aquela arenga de 39 minutos, em Montreux o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry e o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif trabalhavam na terceira rodada de negociações nucleares.

A verdadeira história é também, em parte, sobre esse novelão perene – o dossiê nuclear iraniano. Mas ao final do corrente mês há um prazo a ser cumprido para um primeiro arranjo; e em junho – com otimismo – um acordo final amplo.

O que está em jogo nesse mais alto nível é coisa que todos os principais jogadores já sabem há eras. Teerã não assinará acordo algum que não ponha fim ao imundo e ilegal pacote de sanções ainda vigentes. E Washington, inspirada sempre pela política de “Não faça nenhuma merda coisa estúpida” do governo Obama, só faz puxar as traves do gol, de um lado para o outro, ao longo das negociações.

A mais recente “ideia” de Obama foi “exigir” que o Irã suspenda toda a atividade nuclear por dez anos. Para Zarif, a coisa é “ilógica” e “excessiva”.

É. Tão ilógica quando a paranoia que é marca registrada da cesta de neoconservadores e extremistas de direita no governo dos EUA. Comparem-se a reação dos norte-americanos e o modo como o líder supremo do Irã, Aiatolá Khamenei considera o poder nuclear – com todas as implicações que tem; e é posição divulgada há eras, para todos verem. Assista vídeo dele a seguir legendado em inglês:


China, Rússia e o Plano B

Diferente do regime Cheney, o governo Obama parece ter chegado a uma conclusão lógica – induzida por horas e horas que o Pentágono perde de joystick na mão: Washington não pode destruir o sistema nuclear iraniano – a não ser que use armas nucleares.

Ao longo da maior parte da década passada, esse foi o Plano A. Plano B são as “negociações” que nunca terminam, que se resumem a aparecer sempre com várias limitações ao programa nuclear iraniano em troca de um sempre muito duvidoso fim das sanções.

De fato, o verdadeiro objetivo dos Masters of the Universe que controlam o teatro de sombras no eixo Washington/Wall Street é administrar o declínio imperial. Implica, no sudeste da Ásia, uma nova sessão de “Dividir para Governar”, dessa vez com Turquia, Irã, Arábia Saudita e Israel nos papeis principais.

Alguns jogadores−chave em Washington estão ficando cada dia mais impacientes com a Casa de Saud, a qual – com sua estratégia de baixo preço do petróleo – está bombardeando a indústria de petróleo de xisto dos EUA. Outros se preocupam por a Turquia – depois de negócio-monstro no Oleogasodutostão, o Ramo Turco – estar-se deslocando para mais perto da Rússia. Assim, enquanto não for fechada, a opção de reintegrar o Irã numa colaboração com o ocidente, continua a render negócios lucrativos para empresas norte-americanas.

Mas Rússia e China tampouco estão sentadas vendo a vida passar: lá estão, como partes importantes do grupo P5+1 que negocia com os especialistas e autoridades do Irã. Os dois países BRICS podem usar – e usam – o Irã como alavanca no modo como negociam com o hegemon, sempre encontrando vias pelas quais minar o “pivoteamento para a Ásia”, dos EUA.

Organização de Cooperação de Xangai

Tão logo estejam normalizadas as relações com o Irã, Teerã será admitida à Organização de Cooperação de Xangai [Shanghai Cooperation Organization (SCO)]; atualmente, o Irã participa como observador. Washington teme esse movimento – porque acelera a integração eurasiana do Irã, e dá firmeza a um eixo político/comercial Moscou-Teerã-Pequim.

A Rússia já mantém bons negócios com o Irã – de usinas nucleares à venda de armas. Nenhum acerto EUA-Irã acontecerá sem aquiescência tácita (no mínimo) dos russos – e os norte-americanos sabem disso. Pequim, por sua vez, tende a firmar-se no status quo. A China não quer Teerã muito mais próxima do ocidente, porque implicaria um hegemon muito mais ‘'solto'’ no movimento de “pivotear-se” para a Ásia. A China corretamente vê o Irã numa função de conter o “ocidente”.

No futuro, passos adiante, nessa estrada, Teerã pode usar essa alguma ‘'reaproximação'’ com o ocidente, para aumentar seu poder de barganha com Pequim. Se algum acordo for obtido nesse verão, Teerã estará numa excelente posição para extrair concessões – na economia, segurança, defesa – de seus parceiros chineses. Mas em todos os casos o nome do jogo sempre é integração eurasiana.

O Califato, “nossos” filhos-da-puta

Quanto ao vociferante Bibi, só lhe restou mais uma vez tentar vender a Washington a escolha de uma guerra israelense contra um Irã demonizado ensandecidamente. Não funcionou – mais essa tentativa de os suspeitos de sempre, o lobby organizado no AIPAC, ordenarem, sem meias palavras, que suas tropas de choque dissessem ao Castelo de Cartas [House of Cards], digo, ao Congresso dos EUA, que guerra é paz, e acordo nuclear é acordo com o demônio em pessoa.

Como escreveu Trita Parsi, para Bibi, a verdadeira “ameaça existencial” é a paz.

O culpado é o Irã!
Mais uma vez, também aqui a história verdadeira não é algum Irã nuclear; é a possibilidade de uma détente EUA–Irã; nesse caso, as garras de Israel sobre a política exterior dos EUA enfraquecem, deixam de ser garras de ferro.

Como se poderia prever, Bibi esbravejou furiosamente contra aquelas forças do mal que pululam em sua “vizinhança”, de Irã e “Líbano” (falava do Hezbollah), à Síria de Assad e ao Hamas. Mas... nem uma palavra contra ISIS/ISIL/Daesh. É como declarar que um Irã não nuclear é ameaça pior à civilização que o Califato fake, viciado em degolas. Esposando tal visão de mundo, Bibi não pode aspirar nem a extra no seriado House of Cards [Castelo de Cartas] – agora no Netflix.

Enquanto isso, a verdadeira história de Israel – o apartheid/ocupação ilegal imposto aos palestinos – prossegue, ocultada pelo cacarejo daqueles sonâmbulos que circulam na House of Cards, desculpem, no Senado dos EUA, que Bibi bombardeou até deixar em ruínas.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Quem pagará pela derrota do golpe contra Assad?

15/10/2013, Al-Manar TV, Líbano (trad. árabe-inglês de Sara Taha Moughnieh)
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

(...) Moussawi entende que o período pré-Genebra-2 é mais importante que qualquer anúncio que se faça durante a conferência, porque os resultados da conferência internacional já estão sendo negociados hoje [outubro/2013, data desta matéria (NTs)], e a conferência será ocasião, apenas, para divulgar o documento final e tirar fotografias para os arquivos.

Entreouvido na Tendinha do Oco do Mundo na Vila Vudu: Pelo que se sabe hoje, um mês depois desta matéria, dia 10/11/2013, a conferência Genebra-2 pode ser ocasião também para que o mundo veja, bem exposta, a violência da entidade sionista e o papel vergonhoso que a França de Hollande & Fabius faz hoje, ante o mundo, como a última “aliada” que resta aos sionistas ocupantes.

Mapa político do Oriente Médio
(clique no mapa para visualizar melhor)
As abordagens sobre a possibilidade de um acordo amplo na Região diferem entre os analistas políticos. Alguns entendem que o curso dos eventos aponta para um alívio, que resultará de acordos amplos a serem firmados, mas que demorarão até chegarem à forma definitiva; um acordo que comece na Síria, para incluir negociações de questões regionais, até que se possa considerar a possibilidade de um pacote que trate do futuro da região; outros analistas preferem não se deixar levar por excessivo “otimismo”.

O telefonema de Obama a Rouhani

Todos os analistas concordam que, à falta de qualquer acordo, a guerra é risco real, guerra que várias partes regionais não se cansam de buscar. Ninguém nega que as questões que estão começando a ser negociadas são, todas, extremamente sensíveis.

Falando à página Internet da rede Al-Manar, o analista político libanês Hussein Khalil entende que as coisas caminham rumo a um impasse, porque as exigências dos EUA não são itens que os iranianos considerem negociáveis. Khalil lembra que os EUA insistem em dar prioridade à segurança da entidade sionista, em todas as negociações regionais; mas, em todos os casos, para ele, Israel está bem consciente de que o Irã tem mais capacidade para defender-se, do que a entidade sionista ocupante, para atacá-lo.

Em outra entrevista, o especialista libanês em assuntos da Turquia, Mohammad Noureddine, lembra, com cautela, que a crise síria é sempre sujeita a surpresas, apesar de todos os pontos importantes que o Exército Sírio continua a obter em solo; mas há interferência de muitos elementos, internos, regionais e internacionais, o que só faz aumentar a complexidade da questão síria.

Amir A-Moussawi, especialista iraniano em questões estratégicas, considera que há indicações de que as coisas encaminham-se para um possível acordo, apesar de ainda haver questões pendentes entre a República Islâmica do Irã e os EUA, porque o Irã negocia na defesa de seus princípios, e os EUA tentam defender a liderança que lhes resta, no “eixo da arrogância global”.

“Abordagem”: os EUA encaminham em direção ao Irã

“O telefonema que sacudiu o Oriente Médio e os países que decidem pelo Golfo”, foi o tema escolhido por  Abdul Rahman Al-Rashed, escrevendo no jornal Asharq Al-Awsat para comentar o telefonema que o presidente Obama fez ao presidente do Irã, Sheikh Hasan Rouhani. Para Rashed, esse telefonema foi, mais, um anúncio do início de um movimento político, cujos resultados ainda não podem ser determinados.

O telefonema Obama - Rouhani
O governo dos EUA, que não conduz suas ações em termos de negociações, mas exclusivamente a partir de “fatos em campo”, acabou por se convencer de que a única via que lhe restava para arrancar-se do fracasso regional no qual naufragara, seria através do Irã. Segundo matéria assinada pelo Dr. Hussein Khalil, isso aconteceu porque o Irã tem ampla influência no Iraque e mantém boas relações no Afeganistão. É o aliado n. 1 da Síria, que se manteve inabalável ante todos os tipos de ataques globais, além de apoiar os movimentos de resistência que mudaram as equações do poder no Líbano e na Palestina. Além disso, Teerã tem sido acusada de estimular o caso dos houthis no Iêmen e tem simpatias pelas demandas da oposição no Bahrain, num momento em que já há mais de dois anos, os planos dos EUA-Ocidente para derrubar o governo sírio só conhecem derrotas e fracassos.

Aiatolá Khamenei
Quanto a isso, os iranianos não exageram quando falam de “abordagem séria”: o ministro de Relações Exteriores do Irã correu, imediatamente depois do telefonema entre Obama e Rouhani, e disse que nada daquilo implicava normalização de relações entre os dois países. Imediatamente, na sequência, foi o Imã Khamenei, em declaração para reafirmar “que o governo dos EUA não é interlocutor confiável e vive a quebrar promessas”, e que o povo iraniano já provara sua firmeza na defesa dos próprios direitos e benefícios, e na afirmação de seu desejo de coexistência pacífica.

Amir Moussawi diz que a República Islâmica do Irã valorizou devidamente alguns passos dados pelos EUA, como o presidente americano não ter assinado novas sanções já aprovadas pelo Congresso sobre a venda do petróleo iraniano; e que também apreciou a posição da União Europeia, que levantou as sanções contra navios mercantes iranianos... Mas, mesmo assim, o Irã espera mais, depois que manifestou sua disposição para cooperar plenamente com os estados do P5+1 na discussão de seu programa nuclear.

O especialista em assuntos regionais explica que as relações entre EUA e Irã estruturam-se por dois eixos: posições e benefícios.

Entende que o primeiro eixo está desativado, porque só leva a becos sem saída, porque nem o governo dos EUA está preparado para abandonar a defesa dos interesses da entidade sionista ocupante, nem o Irã abandonará a causa palestina e dos movimentos de resistência. Assim sendo, as duas partes estão convencidas de que qualquer entendimento possível terá de ser construído, antes, no eixo dos benefícios para os dois países; e adia-se para depois disso outro entendimento mais amplo. Por isso, Moussawi entende que o período pré-Genebra-2 é mais importante que qualquer anúncio que se faça durante a conferência, porque os resultados da conferência internacional já estão sendo negociados hoje [outubro/2013, data da matéria (NTs)], e a conferência será ocasião, apenas, para divulgar o documento final e tirar fotografias para os arquivos.

Visita de Rouhani, como reconhecimento pela exclusão de Bandar e Faysal

Abdul Rahman
Al-Rashed
“Muitos dos que esperavam pelos mísseis Tomahawk, como castigo ao governo sírio, e cartada que poria fim ao enriquecimento de urânio pelo Irã, foram profundamente abalados pelas notícias sobre o telefonema”. É a opinião do editor-chefe do canal de notícias Al-Arabiya, Abdul Rahman Al-Rashed, em coluna publicada no jornal saudita Asharq Al-Awsat. Para ele, “o telefonema” abalou os centros decisórios no Golfo, na Jordânia, na Turquia, em Israel e outros”.

Em seguida surgiu a informação, revelada pelo Canal 2 israelense, de uma reunião Golfo-sionistas, acontecida em Telavive. A informação foi depois confirmada, quando a imprensa publicou os nomes da delegação do Golfo, que incluía: o chefe da inteligência saudita Bandar Bin Sultan; o vice-presidente do Conselho Executivo e Conselheiro Nacional de Segurança em Abu Dhabi, Hazza bin Zayed Al-Nahyan; além do chefe da inteligência do Bahrain, general Adel bin Khalifa Al-Fadhel, um dos funcionários da inteligência do Golfo que tem laços mais fortes com o Mossad israelense.

Nesse contexto, a recusa do ministro de Relações Exteriores saudita, Saud Al-Faisal, que não leu seu discurso anual à Assembleia Geral da ONU, também foi interpretada como clara mensagem de objeção contra o movimento dos EUA de se aproximarem do Irã.

A posição obcecada dos sauditas veio acompanhada de discussão sobre se o presidente Rouhani aceitaria ou não o convite dos sauditas, que chegou dia 15/9, para que viajasse à Arábia Saudita como peregrino. Adiante, o presidente declinou o convite, sob o argumento de que qualquer atmosfera positiva que talvez se criasse durante a visita seria imediatamente destruída pelas intrigas do chefe da inteligência e ministro do Exterior saudita.

Em entrevista à página Al-Manar na Internet, Moussawi também reconheceu que qualquer abordagem Irã-sauditas resolverá muitas questões e ajudará a reduzir as tensões sectárias na região. Mas lembra que o discurso moderado dos iranianos jamais será aceito pelos sunitas mais linha-dura; assim, o valor de troca a ser exigido para que essa aproximação se faça tem de ser a exclusão de personagens como Bandar Bin Sultan e Saud Al-Faisal das negociações e dos possíveis benefícios; para tanto, tratar-se-á de dar papel mais destacado aos filhos do rei Abdullah, como os príncipes Mutaib e Abdul Aziz Bin Abdullah.

Bashar al-Assad
O fracasso do golpe atentado contra a Síria exige que Bandar seja aposentado

Os iranianos têm hoje consciência clara da posição forte em que negociam, depois do fracasso da conspiração contra a Síria, que não conseguiu derrubar o governo do presidente Bashar Al-Assad. Além disso, a Síria vê hoje uma batalha entre facções de uma “oposição” armada, sobretudo entre o chamado “Exército Sírio Livre” apoiado pela Turquia e brigadas islamistas apoiadas pela inteligência saudita. Aqueles combates expõem as diferenças que há entre Turquia e Qatar, por um lado; e entre Turquia e Arábia Saudita, por outro.

Moussawi sabe que o conflito entre grupos da “oposição” síria é mortal; e que a luta entre eles é mais feroz e sem lei que os combates contra o Exército Sírio. 

Além disso, entende que a luta hoje, na Síria, trava-se para definir quem “representará” a “oposição” nas negociações que virão; hoje, os sauditas assumiram o controle sobre a “Coalizão Síria” presidida por Ahmad Al-Jarba, homem dos sauditas; o que excluiu o homem do Qatar, Mouaz Al-Khatib.

Bandar Bin Sultan supõe que quanto mais consiga “esmagar” o “Exército Sírio Livre” e controlar os pontos de fronteira entre território sírio e territórios da Turquia, Iraque e Jordânia, mais firmemente conseguirá manter-se como parte das negociações.

As intensas batalhas em solo e o controle das brigadas islamistas (Daesh, Islamic Army, Al-Nusra Front …) confirmam a informação publicada pelo jornalista britânico Robert Fisk, sobre conversas entre membros do “Exército Sírio Livre” e alta fonte muito próxima do presidente Bashar Al-Assad, e de possíveis negociações entre o governo sírio e o “Exército Sírio Livre” que acredita numa solução síria para a guerra. Essas informações foram seguidas, imediatamente, por notícias de membros do ESL e de facções turcas armadas que combatiam contra brigadas islamistas, que se renderam ao Exército Sírio.

Bandar bin Sultan (E) de Saud al-Faisal (D)
Os combates mortais que se veem hoje acontecem porque nenhum dos dois lados conseguiu impor a causa pela qual fizeram guerra contra a Síria, uma vez que nem o Exército Sírio foi destruído, nem o presidente Assad foi deposto, nem a Síria desistiu do apoio aos movimentos da resistência na região. Assim sendo, quem pagará o custo do fracasso da operação para destruir a Síria?

Analistas têm lembrado que o envolvimento da Arábia Saudita na crise síria vem reforçar a influência de uma segunda geração que disputa o poder na Casa de Saud... especificamente os filhos do príncipe Sultan Bin Abdul Aziz. Por isso os combates se expandiram no cenário sírio, visando a alcançar também o Iraque e o Líbano, na tentativa de pressionar os aliados da Síria a mudar a equação do poder, antes de a guerra aproximar-se do fim.

Funcionários sauditas engajados na crise síria, e os filhos do príncipe Sultan, especialmente os que controlam o Exército e a Inteligência provavelmente pagarão o preço do próprio fracasso, em benefício dos filhos do rei Abdullah e príncipe Nayef… De sua parte, os iranianos apostam em mudanças dentro do reino, depois da aposentadoria de Bandar Bin Sultan e do ministro Al-Faisal – que os iranianos definem como “linha-dura”.

A Turquia fracassou... e o Qatar está pagando a conta!

Mohammad Noureddine
Quanto à Turquia, o Dr. Mohammad Noureddine, especialista em assuntos turcos, entende que a Turquia definiu como seu alvo, desde o início da crise síria, a deposição do presidente Assad. Nesses termos, qualquer acordo que exclua a derrubada de Assad marca claro fracasso da política turca.

O Dr. Noureddine concorda com análises que veem a Turquia como um dos grandes derrotados na região, especialmente depois da deposição do governo da Fraternidade Muçulmana no Egito.

Falando à página da Internet da rede Al-Manar, ele acrescenta que:

(...) o governo de Erdogan perdeu os curdos dentro e fora da Turquia, por causa do apoio que deu aos militantes que combateram contra os curdos na Síria. Também perdeu prestígio nos planos político, público e social (na Síria, no Líbano, no Iraque e no Irã) e perdeu a confiança dos eleitores, que dificilmente recuperará. 

Mas a maior perda da Turquia, segundo o Dr. Noureddine, acontecerá se as repercussões da crise síria invadirem pesadamente o território turco, “especialmente se a Al-Qaeda e seus aliados escolherem lado, no confronto dentro da Turquia”.

Nesse contexto, os analistas concordam que, em todo o projeto, o “maior perdedor” foi o Qatar.

O Qatar recebeu uma tarefa, e quando não conseguiu dar conta dela, sofreu o peso da derrota – diz o analista político libanês Hussein Khalil.

Toda a derrota do ocidente e dos EUA foi empurrada para cima do Qatar e, na sequência, os EUA tentaram desvencilhar-se das políticas que o Qatar praticou. O ex-Conselheiro Especial do Departamento de Estado dos EUA, Jeremy Shapiro, escreveu na revista Foreign Policy:

O pequeno mas ambicioso emirado do Golfo tentou usar sua imensa riqueza de petróleo para financiar a armar guerras civis na Líbia e na Síria, apoiar o Hamás em Gaza, e mediar disputas no Sudão e no Líbano. Algumas vezes seus interesses coincidem com os interesses dos EUA – mas na maioria das vezes, não coincidem.

Na sequência, Shapiro lembra também que:

Tamim [Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, Emir do Catar] é considerado um dos arquitetos da política do Qatar para a Líbia e a Síria nos últimos dois anos, incluindo o patrocínio que dá à Fraternidade Muçulmana.
Jeremy Shapiro

Hoje, o fracasso dos EUA está sendo impingido ao Qatar. É o que Shapiro sugere bem fortemente, ao dizer que o governo dos EUA quer minimizar a influência do Qatar na Síria, dando mais peso ao papel dos sauditas. O analista insiste na importância de que o reino receba a oposição qatari e as vozes dissidentes que não reconhecem a legitimidade do atual regime.

Shapiro indicou também que:

(...) o governo dos EUA pode sugerir que universidades e think tanks convidem membros de ramos colaterais da família Thani, que fazem oposição ao emir e ao seu ramo familiar, para eventos nos EUA e em outros países, para expor as fraturas ou, pelo menos, para sinalizar que conhece as fraturas que há no interior da família reinante.

E mais:

Os EUA devem considerar a ideia de uma campanha sistemática para divulgar as condições deploráveis em que vivem um milhão de trabalhadores migrantes, no Qatar. Essa publicidade negativa também abalaria a reputação do Qatar, sensível sobretudo agora, quando se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2022.

O Qatar sabe perfeitamente que é a carta mais fraca, que o ocidente queimará em qualquer acordo futuro. Tanto sabe que, segundo várias fontes, já começou a propor novas políticas para a região. Por trás das cortinas, há notícias de que o Qatar está colaborando num acordo para libertar reféns libaneses sequestrados em Azaz, [1] como mensagem amistosa do emirado.


Nota dos tradutores
[1] Já foram libertados. Ver Discurso de Hassan Nasrallah, 28/10/2013, Al-Manar TV.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pepe Escobar: “Obama-Rouhani: luz, câmera, ação”

19/3/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O cenário está pronto. Já não há dúvidas de que o Supremo Líder Aiatolá Khamenei deu plena autoridade ao novo governo do presidente Hassan Rouhani para falar diretamente a Washington sobre o programa nuclear iraniano.

Aiatolá Ali Khamenei e o Presidente Hassan Rouhani em 17/9/2013
Aconteceu poucos dias depois que o presidente Barack Obama dos EUA “vazou” que havia trocado cartas com Rouhani. [...e o Irã confirmou]

Seyed Hossein Mousavian
Os plenos poderes para Rouhani nessa questão foram confirmados adiante, semana passada, pelo muito confiável negociador nuclear do Irã, embaixador Seyed Hossein Mousavian, em coluna publicada no Japão. Mousavian foi representante de Rouhani no Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã [orig. Iran’s Supreme National Security Council (SNSC)] de 1997 a 2005. Depois, o próprio Rouhani estendeu-se sobre o assunto ontem, em entrevista ao canal NBC.

É crucialmente importante considerar a exata posição do Supremo Líder. Na 3ª-feira (17/9/2013), ele falou à elite do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica [orig. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] em Teerã. O trecho chave da fala é: “Não aceitamos armas nucleares, não por pressão dos EUA ou de outros, mas por nossas crenças. E quando dizemos que ninguém deve ter armas nucleares, com certeza não o dizemos porque os apoiemos”.

Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo.

Significaria que acontecerá um encontro histórico entre Obama e Rouhani na próxima 3ª-feira, na periferia da Assembleia Geral anual da ONU? Não, não é garantido que aconteça. Como se podia prever, a Casa Branca já cuidou de garantir uma plausível negabilidade: [1] Obama “não tem planos para encontrar Rouhani”.

Mas todo esse processo implica que Washington e Teerã, sim, conversarão, mais cedo ou mais tarde, em nível presidencial.

Atenção ao outro lado

Mohammad Javad Zarif
Importantíssimo, Khamenei também disse aos Guardas Revolucionários: “Não é necessários que os guardas tenham atividade no campo político.” Implica que estão fora das negociações nucleares, mais uma confirmação de que, sim, o dossiê nuclear foi transferido para o Ministério de Relações Exteriores, entregue aos cuidados do ministro Mohammad Javad Zarif. Zarif viajará a New York com o presidente Rouhani, e a rede Press TV divulgou excelente entrevista, em que se pode ouvir o que ele pensa. Também o ex-ministro de Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, agora indicado por Rouhani para presidir a agência iraniana de energia atômica, já disse à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena, que é hora de “pôr fim ao chamado arquivo nuclear”.

Todo esse processo, que corre agora em velocidade vertiginosa, é mudança radical em relação aos anos Ahmadinejad, quando os Guardas Revolucionários foram politizados ao extremo. Um dia antes da fala de Khamenei, o próprio Rouhani pediu aos Guardas Revolucionários que “fiquem acima e longe das correntes políticas”.

Como se vê, pois, o Irã está avançando peças no tabuleiro de xadrez. Até agora, não se ouviu qualquer resposta substancial dos EUA. Mas os que querem “melar” o jogo, pelo outro lado, já estão em atividade.

Michel Oren
Não por acaso, Israel voltou a falar da “ameaça existencial” que cresce “no arco estratégico que se estende de Teerã até Damasco e Beirute” – palavras do embaixador israelense nos EUA, que está de saída, Michael Oren.

O que já está bem claro é que Telavive preferia que os jihadistas de estilo al-Qaeda da Frente al-Nusra assumissem o poder em Damasco, a ter ali uma república árabe secular com Bashar al-Assad. É mais uma prova, se fosse necessária, da confluência de interesses entre Israel e aqueles campeões de democracia, as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Não surpreende que todos esses atores sejam tão amargamente desprezados pela rua árabe.

Telavive não medirá esforços para bombardear o dossiê sírio de armas químicas – pressionando por incluir “condições” que incluam armas iranianas não existentes e pressionando para fazer crer que Assad – com a cumplicidade do Irã e do Hezbollah – não estaria cooperando com os inspetores das armas químicas. O líder dos “rebeldes” sírios, general Selim Idriss – empregado de Israel e do CCG – já começou a campanha; disse que Damasco transferiu armas químicas para o Líbano e o Iraque.

Bandar bin Sultan
Quanto à Casa de Saud, a monarquia considera a diplomacia russa muito pior que qualquer veneno. Não querem nem pensar na possibilidade de uma Conferência Genebra-2 – como o príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, chefe do Diretorado da Inteligência Geral Saudita, disse a Putin, pessoalmente. Querem mudança de regime, querem já, e continuarão a armar as mais letais facções “rebeldes”, que estão em super atividade.

O governo Obama deve ter registrado a mensagem de Moscou de que a Síria é, completamente, uma “linha vermelha” russa – tão importante para a Rússia, quando Israel para os EUA. E a Casa Branca deve ter registrado a própria mensagem de Khamenei, passada ao sultão Qaboos de Omã, mais ou menos alguma coisa como “quem pense em destruir a Síria deve preparar-se para perder o petróleo e o gás que tenha na região”.

A solução para o impasse das armas químicas sírias, como Asia Times Online vem noticiando, foi construída por Damasco, Teerã e Moscou – em seguida apoiada por Pequim. E, de fato, salvou o governo Obama, dos próprios erros.

Pois mesmo assim, em entrevista no final da semana passada (13/9/2013), Obama repetiu a velha (enganadora) mensagem, referindo-se ao Irã:

Penso que os iranianos compreendem que a questão nuclear é questão muito maior para nós que a questão das armas químicas, que a ameaça contra Israel... representada por um Irã nuclear é muito mais próxima de nossos interesses centrais. Uma corrida armamentista nuclear na região seria profundamente desestabilizadora. Entrevista completa a seguir:


A verdade é que não há “ameaça” alguma a Israel, posto que não haverá Irã nuclear –como Khamenei, mais uma vez, acaba de repetir. A única potência nuclear (não declarada à Agência Internacional de Energia Atômica) que há na região é Israel, não o Irã.

Para começo de conversa, ninguém jamais, antes, vira algum problema em “armas químicas”. A temerária “linha vermelha” de Obama é que as converteu em “questão”, como parte do plano para impor a outra, velha “linha vermelha” de Obama, desde antes: “Assad tem de sair”.

Os presidentes Hassan Rouhani (Irã) e Vladimir Putin (Rússia) em 13/9/2013
Em outro artigo, para Russia Today, ofereço algumas pinceladas para ajudar a desenhar o Grande Quadro. Semana passada, nas laterais da reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão, Rouhani reuniu-se com Putin e com o presidente Xi Jinping da China. Os três já trabalham numa estratégia conjunta não só para a Síria, mas também para encaminhar o dossiê nuclear iraniano.

Rússia e China apoiam firmemente o direito do Irã ao seu programa nuclear. Ainda mais importante que isso, o grupo BRICS (Brasil, Índia e África do Sul, além de Rússia e China), e outras potências regionais emergentes, como Indonésia, Argentina e o próprio Irã, manterão o impulso na direção de uma nova ordem mundial multipolar, com estado de Direito e consideração à lei internacional, em vez de deixarem que a hegemonia dos EUA prossiga no frenesi bélico de sempre.

Os presidentes Hassan Rouhani (Irã) e Xi Jinping (China) em 17/9/2013
A diplomacia trabalha hoje para superar a tragédia síria. E a diplomacia deve trabalhar também para derrubar o Muro de Desconfiança de 34 anos entre Washington e Teerã. A questão é se haverá em Obama a indispensável “flexibilidade heroica”.
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Nota dos tradutores
[1] Negabilidade plausível: diz-se de acusação que não possa ser provada e cuja negação possa ser plausivelmente aceita. No jargão corrente das comunidades de espionagem, a expressão tem sido usada nos casos em que a ação é premeditada para não deixar pistas ou rastros. Exemplos de casos em que a negabilidade (nem sempre plausível) pode vir a beneficiar criminosos são, por exemplo, meios de tortura como descargas elétricas e quase-afogamento, que não deixam marcas no corpo, o que impede que se comprove a tortura; chantagem, ameaças e intimidação de jornalistas e testemunhas também são meios com alta “capacidade de negabilidade”, dentre outros (PINKER, Steven. 2008. Do Que É Feito o Pensamento. A língua como janela para a mente humana, São Paulo: Companhia das Letras), apud 21/9/2010, redecastorphoto em: Blackwater & Co. - A “negabilidade total”, nota 1.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia TodayThe Real News Network Televison Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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