Mostrando postagens com marcador Latuff. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Latuff. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dias antes da votação para expulsar Israel os EUA ordenam ataque contra a FIFA

27/5/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
A situação na Cisjordânia é muito pior que o apartheid que se viu na África do Sul, porque os extremistas e direitistas israelenses querem “extinguir a Palestina” disse Rajoub.


Na década de 1960 a FIFA manteve a África do Sul suspensa durante décadas porque esta não respeitava as políticas de não discriminação da associação. Um mês depois do levante da juventude de Soweto, em 1976, a FIFA expulsou a África do Sul.

Edifício-sede da FIFA em Zurique

Hoje os EUA forçaram a polícia suíça a assaltar, encarcerar e extraditar seis funcionários da FIFA, por corrupção presumida. As prisões – com a presença com certeza preparada de jornalistas do New York Times no local – aconteceram pouco antes de uma votação na FIFA, para decidir sobre a expulsão de Israel, da organização.
Nesta próxima 6ª-feira (29/5/2015), a Federação Internacional de Futebol Association, FIFA, reúne-se em Zurique para celebrar seu 65º Congresso Mundial regular.
Um dos pontos da ordem do dia é discussão e votação de “suspensão ou expulsão de um membro”. Na mesma ordem do dia lê-se “Atualização sobre Israel e Palestina”.
A Associação de Futebol da Palestina solicitou votação nesse Congresso da FIFA para suspender Israel como membro da FIFA.
O grupo palestino opõe-se a que as equipes israelenses joguem na Cisjordânia. Além disso, afirma que Israel restringe os movimentos dos jogadores palestinos entre Cisjordânia e Gaza – e impede que participem em encontros internacionais.
Israel mantém a intimidação e entendo que não tenha direito de continuar a agir como dono da bola – disse, falando de Israel, o presidente da Associação de Futebol da Palestina, Jibril Rajoub.
Se os israelenses usam a questão da segurança, posso garantir que o problema de segurança deles é também meu problema de segurança. Estou disposto a fixar parâmetros para os problemas de segurança. Mas a segurança não deve ser usada (...) como se fosse ferramenta destinada a manter essas política israelenses racistas, de apartheid.
Rajoub declarou que a situação na Cisjordânia é muito pior que o apartheid que se viu na África do Sul, porque os extremistas e direitistas israelenses querem “extinguir a Palestina”. Na década de 1960, a FIFA manteve a África do Sul suspensa durante décadas, porque não respeitava as políticas de não discriminação da associação. Um mês depois do levante da juventude de Soweto, em 1976, a FIFA expulsou a África do Sul.
Não estou pedindo que a FIFA suspenda a associação israelense. Estou pedindo que ponha fim ao sofrimento dos jogadores palestinos – disse Rajoub. – Estou pedindo que se ponha fim aos agravos e humilhações que sofremos.
Para que Israel seja expulsa da FIFA são necessários votos de 75% dos 209 estados-membros da FIFA, e havia boa possibilidade de a expulsão ser aprovada.
FIFA - 65º Congresso (29/5/2015)
Havia, porque agora, como por acaso, como se nunca antes ninguém tivesse corrompido ou sido corrompido no mundo do futebol, o governo dos EUA ordenaram que a Polícia suíça assaltasse o hotel no qual se hospedam os mais altos funcionários da FIFA e prender alguns que estivessem por lá, sob acusações de corrupção. E mais: os EUA exigem que sejam extraditados para serem julgados em tribunal norte-americano.
Também por puro acaso, repórteres e fotógrafos do New York Times estavam ali, no salão daquele preciso hotel, às 6h da manhã, para que a cobertura do evento pudesse ser “notícia” dos primeiros jornais matinais, como escreve o mesmo NYT em artigo de hoje, 27/5/2015:
Coincidindo com a reunião de diretores da FIFA, órgão superior do futebol mundial, reuniram-se mais de uma dezena de agentes suíços da lei, que chegaram ao hotel Baur au Lac sem aviso. O hotel é estabelecimento de luxo, cinco estrelas, com vistas para os Alpes e o lago de Zurique. Dirigiram-se à recepção, recolheram as chaves e subiram as escadas até os apartamentos “selecionados”. (...)
As acusações falam de corrupção generalizada na FIFA nas duas últimas décadas, dentre outras nas licitações para a realização das Copas do Mundo, e nos acordos para comercialização de produtos e exibição por televisão, segundo disseram três policiais que conhecem diretamente o caso. As acusações incluem fraude, extorsão e lavagem de dinheiro, e os policiais disseram que o alvo da ação eram os membros do poderoso Comitê Executivo da FIFA, que tem grande poder e promove o próprio negócio praticamente em segredo.
Embora nenhum, dos acusados seja cidadão norte-americano, não se sabe ainda que complexas manobras o Departamento de Justiça dos EUA terá de fazer, para explicar a “exigência” de que os acusados sejam julgados em território dos EUA:
A lei nos EUA dá ampla autoridade ao Departamento de Justiça para levar ao juiz casos contra estrangeiros que vivam no exterior, autoridade que os agentes da lei já usaram em várias ocasiões, em casos de terrorismo internacional. Esses casos podem depender que qualquer mínima conexão com os EUA, como usar um banco ou um provedor de serviços de Internet norte-americanos.
Há corrupção em marcha quando a FIFA decide celebrar o Campeonato do Mundo num ou noutro país? Eu nunca imaginei que havia jogos de azar no cassino! Há jogo em Casablanca? Estou chocado!
Rick: E por que querem fechar meu bar? Qual o motivo?
Capitán Renault: Muito me surpreende! Estou muito surpreendido por comprovar que aqui se joga! [Um crupier entrega a Renault um pacote de dinheiro]
Croupier: A sua parte, senhor.
Capitán Renault: Oh, muito obrigado.
Além do assalto ao hotel ordenado pelos EUA, os suíços vêm-se obrigados a também iniciar um procedimento penal em relação à votação que escolheu as sedes das Copas do Mundo 2018 e 2022 na Rússia e no Qatar. Os EUA perderam a chance de receber esses eventos, e os falcões norte-americanos, quando perdem, põem-se imediatamente a tentar melar o jogo e mudar o resultado.
Não que o pagamento de subornos para serem escolhidos como sede e organizadores de uma competição mundial seja evento totalmente inexistente e ignorado nos EUA. Mas parece que agora, em todos os casos em que forem derrotados, os EUA imediatamente se põem a “promover mudança de regime” na cúpula da organização que não tenha escolhido... os EUA.
Nos EUA é legal subornar políticos mediante o financiamento das campanhas eleitorais, em quantidades praticamente ilimitadas. [No Brasil também o SUBORNO foi legalizado! O Congresso votou lei hoje (27/5/2015) permitindo o financiamento PRIVADO de campanhas políticas, inclusive de PESSOAS JURÍDICAS –que NÃO votam, mas elegem (Nrc)].
A UEFA, via Platini, ROUBOU a Palestina em 2012
(charge por Latuff)
Nunca, em tempo algum, um banqueiro, um, que fosse, foi jamais acusado de prática fraudulenta massiva, nem na mais recente em Wall Street, que levou a economia mundial ao atoleiro em que está. O mundo sabe disso, e não gosta que esses EUA deem lições de moral.
A FIFA, que com certeza é corrupta, é também a alma do futebol mundial e entidade que organiza o campeonato esportivo que mobiliza mais público em todo o mundo. Se os EUA acreditam que invadir hotéis, em movimento em tudo semelhante e ataques terroristas, encontrará alguma solidariedade em todo o mundo, estão muito enganados.
Principalmente porque, dessa vez, o motivo do assalto ao hotel e aos dirigentes da FIFA, como se tivesse acontecido por acaso, já é bastante óbvio. Por exemplo, graças a Ashel Pfeffer, jornalista israelense, que se pavoneia, pelo Twitter:
 
[traduzido] “Anshel Pfeffer – Coitado do Jibril Rajoub. Parece que o truque dele não vai conseguir muita atenção da #FIFA”

Deixe-me adivinhar: será que todos já sabem que o esse foi, exatamente, o verdadeiro propósito do ataque à FIFA? #Israel?

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Netanyahu nas cordas? Palestinos derrubam mais um governo israelense

3/12/2014, [*] Gilad AtzmonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Por Karras

Vez ou outra, líderes políticos e militares israelenses são derrotados pelas próprias guerras israelenses. A Primeira-Ministra Golda Meir e seu comandante do exército (David “Dado” Elazar) foram mandados de volta para casa depois dos erros estúpidos de 1973 (Guerra do Yom Kippur). O Primeiro-Ministro Menachem Begin perdeu a sanidade depois da primeira guerra no Líbano (1982). O Ministro da Defesa, Amir Peretz e seu comandante do exército Dan Halutz’ foram tratados com dureza pela mídia israelense depois da derrota de Israel no Líbano, em 2006. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu paga agora o preço do mais recente desastre israelense em Gaza e do levante de palestinos que veio imediatamente depois.

Nações fortes tendem a unir-se em torno dos comandantes em tempos de crise. Os israelenses não, são como crianças mimadas. Preferem virar-se contra os comandantes em tempos de conflito, mas não porque anseiem por paz. É exatamente o contrário: querem vitória conclusiva; rios de sangue árabe pelas ruas. Bibi não lhes deu o que queriam. Aos olhos de muitos patriotas israelenses, Bibi é mole.

Israel não se saiu bem na mais recente rodada de violência. O exército de Israel não conquistou um, que fosse, objetivo militar importante. Depois de poucos dias, o exército israelense teve de retirar-se, humilhado e exaurido. Os militares israelenses já admitiram que não souberam dar resposta militar à balística palestina, aos tuneis e a coragem sem fim dos palestinos. Além do mais, o conflito em Gaza respingou sobre a Cisjordânia e cidades israelenses. Na verdade, o gabinete de Netanyahu demorou a reagir. Parecia colhido de surpresa pelos eventos. Agora, muitos israelenses já admitem abertamente que o futuro do Estado Judeu é mais sombrio a cada dia.

Por Latuff
establishment político israelense seguiu rapidamente a maré de opinião pública – com total radicalização. Os falcões querem que o estado admita que é um “lar judeu”, em vez de uma “democracia judaica” (expressão que, só ela, já é uma contradição entre os termos). Os centristas e a esquerda israelense insiste que Israel tem de manter a mentira “democrática”. Soa bem e os Goyim acreditam, como argumentaram.

Hoje (3/12/2014) cedo, o Primeiro-Ministro Netanyahu anunciou novas eleições, depois de demitir dois ministros chaves de seu governo – Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid e Ministro das Finanças; e Tzipi Livni, líder do Hatnua e Ministra da Justiça.

Livni e Lapid opuseram-se à Lei Nacional de Israel e deram a Netanyahu oportunidade de ouro para se reafirmar como devotado judeu nacionalista patriótico. Acho que Netanyahu sobreviverá a esse round político.

Mas há um ponto, nessa história, pequeno, mas significativo. Há sete meses, era Netanyahu que pressionava cada vez mais a Autoridade Palestina, o Hamás e a população palestina, num esforço para quebrar o governo de unidade dos palestinos. Seis meses de violência depois, uma guerra em Gaza e uma 3ª Intifada em produção, os palestinos mostram-se mais unidos que nunca. E o governo de Netanyahu está caindo aos pedaços.
____________________

[*] Gilad Atzmon (músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos. Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis noThe Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock e jazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

“Cessar−fogo” pode ser armadilha contra palestinos

30/7/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jaroslaw Wojtasinski - Polônia
Hoje:

Em reunião do gabinete de segurança, Israel decidiu fazer um cessar-fogo humanitário entre 15h e 19h [hora local].

“A janela humanitária não se aplica a áreas nas quais os soldados do exército de Israel estão atualmente operando” – diz o documento do exército. – “Residentes não devem retornar a áreas das quais já tenham sido evacuados”.

Para o Hamás, a coisa foi golpe publicitário e “cessar-fogo” do tipo “Não atiraremos, exceto quando atirarmos”.

 Amorim - Brasil
Tenho a impressão que pode ser pior que isso. A coisa provavelmente foi pensada como armadilha:

Cidade de GAZA, Palestina. 17 pessoas foram mortas e mais de 200 foram feridas em ataque aéreo de Israel contra um mercado próximo da cidade de Gaza na 4ª-feira (30/7/2014), disseram socorristas.

O porta-voz dos serviços de emergência Ashraf al-Qudra disse que Israel atacou um mercado lotado na região de Shejaiya, entre a cidade de Gaza e a fronteira com Israel.

O ataque foi feito logo depois que o exército de Israel anunciou que observaria um cessar-fogo humanitário que estaria vigente por quatro horas, a partir das 12h GMT.

As pessoas então saíram para fazer suas compras, num momento em que acreditaram que estariam mais seguras. O resultado foi uma carnificina horrenda. Israel mantém todos os tipos de plataformas de vigilância, tripuladas e não tripuladas, voando sobre Gaza. Com certeza os matadores sabiam que o mercado estaria lotado.

Mas, como sempre, o porta-voz israelense finge ignorância e culpa a resistência pelo morticínio. São acusações que raramente se confirmam, se examinadas com cuidado.

Não é a primeira vez que Israel opera com armadilhas para apanhar maior número de palestinos. Também se trata de atrair para uma armadilha, se Israel diz aos palestinos que abandonem suas casas e dirijam-se a abrigo em determinado local e, na sequência, Israel bombardeia o abrigo e mata mais de 20 dos que se abrigavam ali.

Castigo Coletivo
Marca Registrada de Israel (Latuff - Brasil)
Esse tipo de armadilha cabe perfeitamente no conceito do crime de Castigo Coletivo:

O que Israel está fazendo em Gaza é castigo coletivo: Israel está punindo o povo de Gaza por se recusar a ser um gueto dócil. É castigo pela audácia dos palestinos que fizeram um governo de unidade nacional, e pelo atrevimento do Hamás e de outros grupos, que reagem com resistência, armada ou de outro tipo, contra o sítio imposto por Israel e contra as provocações israelenses, mesmo depois de Israel já várias vezes ter reagido com a mais estúpida violência, contra protestos pacíficos.

Não tenho notícia de qualquer conflito na história no qual o castigo coletivo tenha conseguido pôr fim à guerra. O castigo coletivo parece sempre fazer aumentar o apoio aos resistentes. E fica-se sem entender por que Israel tanto insiste em suas armadilhas.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.

Gaza: Não há bomba “não intencional”

29/7/2014, [*] Nadia Abu El-Haj, London Review of Books, “Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Crianças palestinas assassinadas por Israel
Já são mais de mil mortos palestinos, com mais de 5 mil feridos. Mais de 70% das baixas são civis, mais de 200, crianças. Famílias inteiras foram dizimadas. Meninos que jogavam bola numa praia foram mortos por barcos de guerra de Israel. Mais de 2 mil residências foram danificadas ou destruídas. Segundo um porta-voz do exército de Israel, 120 bombas de uma tonelada foram lançadas só contra os arredores de Shaja’yya. Mesmo assim, porque morreram três civis israelenses e 40 soldados, os israelenses e seus aliados nos EUA insistem em descrever a carnificina como guerra de autodefesa.

Dizem também que o exército de Israel guerreia moralmente. Que não mira civis. Que jamais os mata intencionalmente. Que até alerta os gazenses sobre futuros ataques, para que possam escafeder-se da área.

A matança “não intencional” de civis não é ilegal, nos termos da lei internacional. Se os civis não são deliberadamente “mirados”, se são mortos na tentativa de alcançar objetivo militar legítimo e o número de mortos é “proporcional” àquele objetivo, nesse caso as baixas civis são definidas como “dano colateral”. Contudo, como ensina Neta Crawford em Accountability for Killing, [1] vale a pena pensar mais criticamente sobre a categoria das mortes não intencionais de civis. Muitas mortes de civis em guerra de guerrilha urbana podem ser “não intencionais”, mas são também previsíveis.

Israel bombardeou o Centro de Refugiados da ONU
(27/7/2014)
Gaza é território densamente povoado cercado por terra, mar e ar, do qual não há saída possível. O exército israelense está fazendo chover bombas naquele território com poder de fogo suficiente para demolirem prédio de apartamentos de oito andares; para fazerem voar pelos ares enormes portões de ferro. Há drones que disparam contra áreas onde se acumulam dezenas de milhares de pessoas, contra, até, abrigos; e contra, também pontos em que se aglomeram pessoas que tentam fugir.

O exército de Israel está bombardeando áreas densamente povoadas e campos de refugiados usando tanques Merkava e a respectiva munição, e mísseis disparados de helicópteros Apache, inclusive em áreas que, antes, o exército israelense indicara como local para onde os civis poderiam deslocar-se.

Não há lugar seguro em Gaza. Não há para onde fugir. E nada há de “não intencional”, muito menos há algo de moral, se o que se vê são civis mortos em circunstâncias nas quais se pode prever com 100% de probabilidade que serão mortos; se se ataca à bala de canhão um campo de refugiados superlotado ou uma área superlotada de qualquer cidade, ou rua superlotada, não há dúvida alguma de que haverá mortes de civis em massa. Nessas circunstâncias, a distinção entre assassinato premeditado e morte não intencional já perdeu completamente qualquer significado.

Israel promove banho de sangue em Gaza com a
proteção dos EUA e a conivência do mundo

Depois do 11/9/2001, Ariel Sharon trabalhou muito para igualar a guerra dos EUA contra “terroristas muçulmanos” no Afeganistão e no Iraque, com a luta de Israel contra o povo palestino. Mas a guerra de Israel é absolutamente diferente da guerra dos EUA. Não porque os militares norte-americanos sejam mais morais, ou mais sensíveis às leis da guerra, mas porque os EUA operam com uma fantasia ideológica diferente.

Os militares dos EUA foram libertar iraquianos e afegãos de regimes dos quais esses povos queriam libertar-se – ou, pelo menos, acreditaram que queriam, quando lhes foi dito que queriam. Sempre seria preciso conquistar corações e mentes, mas os civis iraquianos e afegãos facilmente abraçariam a causa dos EUA e sua missão “libertadora”.

A guerra de Israel contra Gaza não é guerra que visa a conquistar corações e mentes palestinos. Israel não se apresenta como protetora ou libertadora dos gazenses, de algum governo opressor. Em vez disso, as táticas do exército de Israel fazem lembrar a lógica dos bombardeios de britânicos e norte-americanos contra cidades alemãs e japonesas durante a IIª Guerra Mundial: atirar para matar contra a população civil. Que sofram além do imaginável. Então, os próprios civis levantar-se-ão contra o governo deles.

Quando Israel ataca hospitais em Gaza, quando assassina famílias inteiras, quando reduz a pedaços irreconhecíveis quatro meninos que jogavam bola numa praia, todos esses são assassinatos premeditados e cuidadosamente planejados. A guerra é uma extensão do castigo coletivo aplicado aos palestinos da Cisjordânia depois que três jovens colonos israelenses foram sequestrados e mortos em junho/2014. É resposta proporcional?

Nova Escola da ONU em Gaza pouco antes de ser destruída por Israel (27/7/2014)
Comparem-se essa resposta e a reação israelense contra os três israelenses que queimaram vivo um adolescente palestino, como vingança pela morte dos três colonos. Imaginem o exército israelense pondo-se a bombardear as colônias nas quais vivessem os colonos assassinos, responsabilizando colônias israelenses inteiras, pelo crime dos três assassinos; imaginem o exército israelense a demolir colônias de israelenses, a tiros de canhão.

Ou imaginem se o Hamás tivesse acesso a foguetes melhores, que pudessem ser mais eficazmente dirigidos contra os seus alvos. Imaginem se o Hamás começasse a atacar exatamente os pontos onde estivessem os altos comandantes e governantes israelenses, as casas deles, que matassem mulher e filhos deles, sobrinhos, sobrinhas, junto com a família, também dos vizinhos deles, da casa ao lado, numa explosão só. Imaginem que essas mortes fossem apresentadas ao mundo como “danos colaterais” pelas quais o Hamás não seria responsável nem legal nem moralmente!

Os ataques a bomba, pelo exército de Israel, contra casas, escolas e hospitais palestinos, tudo indiscriminadamente posto no chão, reduzido a escombros, matando sem parar o povo de Gaza, tem de ser chamado pelo que é: CRIME DE GUERRA.

Nota dos tradutores

[1] CRAWFORD, Neta C., Accountability for Killing. Moral Responsibility for Collateral Damage in America's Post-9/11 Wars [Da prestação e da cobrança de contas e responsabilidades por matar. Responsabilidade moral por dano colateral, nas guerras pós-11/9 dos EUA], Oxford University Press, 2013, 513 pp.
________________


[*] Nadia Abu El Haj (nasceu em 1962) é uma acadêmica americana com PhD em Antropologia pela Duke University. É professora associada de antropologia da Faculdade Barnard. Autora de Facts on the Ground: Archaeological Practice and Territorial Self-Fashioning in Israeli Society (2001) e The Genealogical Science: The Search for Jewish Origins and the Politics of Epistemology (2012). Abu El Haj nasceu em Nova Iorque, segunda filha de mãe protestante e pai palestino e muçulmano. Seu avô materno era francês e avó materna norueguêsa-americana. Sua educação religiosa limitou-se a frequentar igreja duas vezes por ano. Passou alguns anos em escolas particulares em Teerã e Beirute quanto seu pai, como funcionário da ONU, foi transferido para aquelas cidades. Retornou aos Estados Unidos para seus estudos de nível universitário, frequentando o Bryn Mawr College obtendo título de Bacharel em Ciência Política e recebeu seu diploma de doutorado na Duke University. Entre 1993 e 1995 fez trabalhos de pós-doutorado com bolsa da Harvard University Academy na área de Estudos Internacionais, com foco no Oriente Médio. Também recebeu bolsas da University of Pennsylvania,  Mellon Program, e do Institute for Advanced Study em Princeton. Abu El Haj fala inglês, árabe, francês, persa e hebraico.