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sexta-feira, 1 de março de 2013

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A hora mais escura* no Mali


26/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Booooooooooooom-dia, Vietnã! [1] Epa! Não, desculpem. O poço de areia movediça & beco-sem-saída agora é outro.

A trilha sonora, daquela vez, foi Hendrix, Jefferson Airplane, Motown e Stax. Agora é Booooooooooooom-dia, Mali! E a trilha sonora bem poderia ser alguma coisa tão transcendental quanto Dounia [2], de Rokia Traore, ou tão deliciosamente psicodélico quando Amadou e Mariam em Dimanche à Bamako. [3] Mas a coisa é muito mais ameaçadora. Algo como – inescapável – Hendrix em Machine Gun. [4]

O timing – no momento de expansão da Guerra Global ao Terror – é tudo. A vingança contra o que foi feito à Líbia, cuidadosamente coreografada para o Sahel, não poderia ser substituto melhor para a gigantesca bandeira de rendição que a OTAN está levantando no Afeganistão. Não há mais Boooooooooooooooom-dia, Cabul! E começou a triste contagem regressiva para ver o último helicóptero da OTAN fugindo de Bagram ao estilo Saigon-1975.

Kalashnikov AK-104s
The Economist – a voz da City de Londres – já está até promovendo um “Afriganistão”. Claro. Há nuances. No Afeganistão, quem chutou a bunda da OTAN foi grupo sortido de várias facções pashtuns, reunidas como se fossem “os Talibã”. Mas a OTAN “venceu” na Líbia. Como era de prever, a brigada islamista que atacou no complexo de extração de gás em In Amenas no deserto da Argélia, portava Kalashnikov AK-104s, mísseis F5, morteiros 60 mm, tudo distribuído ali pela OTAN. E – um toque a mais à moda CCGOTAN – vestiam os uniformes camuflados “pastilha de chocolate” que o Qatar distribuiu aos rebeldes da OTAN na Líbia (beges, com manchas marrons). O que mais falta? Aparecerem na capa de Uomo Vogue?

Sou o bicho bicho-papão de vocês

Inevitavelmente, o bicho-papão sempre à mão – a al-Qaeda – voltou à moda, com toda a nuvem de grupos e subgrupos de jihadistas salafistas promovidos pelo trio francês-anglo-USAmericano como fonte de todo o mal no norte da África (menos na Líbia, onde eram elogiados como “combatentes da liberdade”).

Mokhtar Belmokhtar
Mokhtar Belmokhtar, um dos membros fundadores da al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)], é, para todas as finalidades práticas, remix facilmente deglutível de Osama bin Laden. Belmokhtar foi um clássico “afegão árabe” – parte daquela legião multinacional treinada pelo eixo CIA/ISI para combater os soviéticos no Afeganistão dos anos 1980s. Ao voltar à Argélia em 1993, uniu-se à jihad local como parte do Grupo Salafista para Oração e Combate [orig. Salafi Group for Preaching and Combat (GSPC)].

Desde 2007, a AQIM estava muito próxima do Grupo Islâmico Líbio de Combate [orig. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)], cujos combatentes foram também treinados no Afeganistão pela CIA/ISI. E todo o tempo o LIFG foi convenientemente manipulado pela CIA e o MI6 contra o coronel Muammar Gaddafi.

Depois do assassinato premeditado [orig. targeted assassination] de Gaddafi, a AQIM foi devidamente armada pelo LIFG (recebeu também legiões de jihadistas). Portanto, não surpreendentemente, muitos combatentes do LIFG participaram do raid em In Amenas. Além disso, a AQIM é também muito próxima da Frente al-Nusra na Síria, que Washington definiu como organização terrorista (mas nada vê de terrorista na nada coesa “coalizão” que quer derrubar Bashar al-Assad).

O xis da questão é que o Qatar financia todos esses: a AQIM, o grupo dissidente MUJAO, as brigadas de Belmokhtar e o movimento salafista Ansar El-Dine, um bando de apóstatas wahhabistas, que absolutamente nada têm a ver com a tolerante cultura do Mali.

O que sobra é o absolutamente perfeito pretexto para a OTAN entrar na dança no norte da África, depois da humilhante derrota que sofreu no Afeganistão. Mas... esperem! O AFRICOM já está lá! A Argélia – república árabe secular que historicamente sempre apoiou a União Soviética e a revolução cubana – bem fará se repatriar, o mais rapidamente possível, os seus US$50 bilhões de reservas que estão depositadas em bancos ocidentais. Mais dia menos dia, a hidra AFRICOM/OTAN aparece para devorar vocês!

Alguém aí topa um pouco de Islamo-gangsterismo?

Amadou Sanogo
Por hora, temos o espetáculo de Paris envolvida na “limpeza” do Mali, não só contra os islamistas armados – estranhos à cultura do Mali – mas também contra os tuaregues nativos, também armados e que têm demandas legítimas. O plano máster é apoiar o regime absolutamente corrupto em Bamako, que chegou ao poder pela via de um golpe militar comandado pelo capitão Amadou Sanogo, treinado em Fort Benning (EUA).

Esse é o sumo da história dessa nova mission civilisatrice [missão civilizatória, em fr. no orig.], escondida por trás de conveniente cortina de fumaça cortesia da ONU: vários países africanos, todos empobrecidos, que pagaram quase toda a conta – e oferecerão os 5.800 soldados necessários para constituir mais uma dessas siglas inacreditavelmente ridículas que a ONU inventa, AFISMA (African-led International Support Mission in Mali / Força Internacional Africana para Missão de Apoio no Mali). Quem pagará por tudo isso, que por hora não passa de total confusão? Na próxima 3ª-feira haverá uma reunião na Etiópia, dos proverbiais, sempre relutantes, “doadores internacionais”.

Mesmo na França, ninguém sabe quem luta contra quem nem quem, de fato, é aquele pessoal. Leiam (em francês), no blog rue89,[5] o hilário pântano semântico em que se debatem os franceses. O Le Monde acredita ter resolvido o enigma: Paris combate(ria) o “islamo-gangsterismo”.

Nessas Folies de Pigalle no deserto, Washington estará “liderando pela retaguarda”. Bem espertos. Melhor guerra clandestina, que todos assistirem ao afundamento no pântano. Os franceses – com típica grandeur galesa – prosseguirão mergulhados na ilusão de que, em breve, controlarão o deserto do Mali. Verdade é que não conseguirão controlar nem as algas do rio Niger, porque ali se combaterá uma longuíssima guerra nômade. Cresce a possibilidade de muitos Dien Bien Phus, com os franceses atacados também pela areia.

E, no instante em que a população terrivelmente empobrecida do Mali – a qual, por hora, está a favor de o país livrar-se da AQIM, do MUJAO, das gangues de Belmokhtar e dos Ansar al-Dine – pressentir o mais leve indício de ocupação neocolonial, os franceses conhecerão derrota no Mali, igual a que os USAmericanos conheceram no Iraque e no Afeganistão.

É iluminador ver essas coisas do ponto de vista da política externa do governo do presidente Obama 2.0, como apareceu delineada (muito vagamente) no discurso de posse. Obama prometeu por fim às guerras USAmericanas (guerras clandestinas são mais baratas). Prometeu cooperação multilateral com aliados (mas quem manda é Washington), negociação (será do nosso jeito, ou dê o fora) e nenhuma nova guerra no Oriente Médio.

A acreditar-se no que disse o presidente, a tradução é: nada de EUA fazerem guerra à Síria (só do tipo clandestina-suja); nada de Bombardeiem o Irã! (só sanções assassinas); e a França ganha a medalha do Mali. Será que ganha? Esse filme muito vagabundo, atenção, está só começando.



Nota dos tradutores
*Título em português do filme Zero Dark Thirty (2012). Trailer a seguir:  

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Notas de rodapé

[1] Assista  o filme Bom-dia, Vietnã; completo (legendado) a seguir:







[5]  22/1/2013, Rue 89, Zineb Dryef em: Jihadistes, islamistes... ? Comment nommer l’ennemi au Mali

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Rússia, China e a disputa pelo futuro do Mali


24/1/2013, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Diz-se que “gato escaldado tem medo de água fria”. Rússia e China alegam que já foram escaldadas: quando o ocidente virou de cabeça para baixo a Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU e invadiu a Líbia. Moscou e Pequim, escaldadas, cuidaram de impedir que o ocidente repetisse na Síria o mesmo “golpe da Líbia”. O ocidente apresentou sucessivos esboços de resoluções sobre a Síria. China e Rússia combateram incansavelmente contra todas eles.

Por isso, precisamente, surpreende que, agora, os dois países não tenham previsto o que estava por vir e veio. E acabaram caindo outra vez na mesma arapuca, dessa vez, no Mali.

Curiosamente, nem Moscou nem Pequim comentaram até agora a intervenção francesa no Mali, que chegou como fato consumado light e em seguida, rapidamente, se metamorfoseou, durante a semana passada, em empreitada ocidental concertada na África. A mãe de todas as ironias é que a empreitada no Mali é, em vários sentidos, efeito direto da intervenção ocidental na Líbia, que Moscou e Pequim condenaram como ato ilegal.

Estamos ainda nos primeiros dias, e Moscou e Pequim bem podem estar à espera do resultado do trabalho das marés. Especialistas russos e chineses estimam que a missão francesa terá de recuar e será improdutiva.

Mas, simultaneamente, Paris anunciou, para imenso espanto de muitos, que Moscou “oferecera meios de transporte” para as tropas francesas a serem enviadas ao Mali. A Rússia nem confirmou, nem negou. O anúncio francês aconteceu depois de uma conversa por telefone entre os dois ministros de Relações Exteriores, no sábado.

Fato é que a intervenção ocidental no Mali tem implicações na política das grandes potências e na coordenação entre Rússia e China em questões regionais. Há implicações também para a “Primavera Árabe” – e, no curto prazo, também envolve e atinge a Síria.

Amadou Haya Sanogo
A França alega que respondeu a um aflito chamado do atual governo do Mali. Mas em março do ano passado, houve um golpe de Estado no Mali: um capitão do exército do Mali treinado nos EUA, Amadou Haya Sanogo, derrubou o presidente eleito.

Apesar de não ser militar de alta patente, Sanogo foi visitante assíduo dos EUA – lá esteve nada menos que sete vezes, nos últimos oito anos. Não há dúvidas de que Sanogo contava com o apoio de potências estrangeiras poderosas. A partir de março, houve tantos golpes e contragolpes no Mali que se perde a conta; os golpes sempre comandados pelo mesmo capitão Sanogo, treinado e armado nos EUA.

Assim sendo, a França fala de governo imposto por golpe, como se falasse de governo legal e legítimo. A França sequer se incomodou com esperar algum mandato da ONU. A Resolução do Conselho de Segurança, de dezembro passado, é bem clara: ordena que uma força africana liderada por africanos entre em ação; e o CS esperava ter a expedição pronta em setembro de 2013, porque a tal força africana foi treinada e equipada pela ONU.

Mas a retórica já ofusca as realidades mais duras. O Primeiro-Ministro britânico disse em 20/1/2012, BBC – Cameron: North Africa terrorist threat “could last decades’

David Cameron
O que temos pela frente é um grupo terrorista extremista, islamista, ligado à al-Qaeda. Quer destruir nosso modo de vida, acredita em matar o maior número possível de seres humanos. Assim como temos de enfrentá-los no Paquistão e no Afeganistão, assim o mundo tem de apresentar-se unido para enfrentar a ameaça que cresce no Norte da África.

É ameaça global e exige resposta global. Exigirá resposta ao longo de anos, talvez décadas, não meses. Exige resposta paciente e dolorosa, dura mas inteligente, mas, sobretudo, exige determinação de ferro, o que mostraremos ao longo dos próximos anos.

Reconquista total

De fato, as potências ocidentais estão fazendo o cerco às carroças locais. O Pentágono revelou que seus aviões militares C-17 estão fazendo o transporte das tropas e dos equipamentos franceses, e que já considera deslocar os aviões-tanque, de reabastecimento aéreo.

O Secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta disse que os EUA estão oferecendo inteligência. Da Itália partiram dois aviões C-130 de transporte e um Boeing KC-767A; e que já foram enviados de 15 a 24 “especialistas” para o Mali. O Canadá enviou pesado avião de transporte militar e o Reino Unido garantirá a “logística de assistência aérea”.

Jean Yves Le Drian
Já partiram 2.000 soldados franceses, e Paris está enviando mais 500. O Ministro da Defesa, Le Drian disse que “o objetivo é total reconquista do Mali”. Repete a declaração do presidente François Hollande, que disse que os franceses permanecerão no Mali pelo tempo necessário para derrotar o terrorismo.

Além de tudo mais, a conversa sobre a ameaça da al-Qaeda é puro jogo de cena. O conflito no Mali tem todas as características de guerra civil, brotada de confrontos que se veem acontecer há muito tempo; só poderá ser resolvido por governo legítimo e estável, mediante soluções locais de governo e descentralização, e apoiado em sistema durável de desenvolvimento econômico.

Importante especialista russo, Evgueni Korenddyasov, que foi embaixador da Rússia no Mali e atualmente dirige o Centro para Relações Rússia-África da Academia Russa de Ciências em Moscou, disse que:

A única solução possível terá de surgir de negociações locais sobre maior autonomia e mais plena representação política para os tuaregues.

Os corpos regionais – a União Africana e a Comunidade Econômica nas Nações da África Ocidental – chegaram a tentar conseguir da ONU um pacote amplo de medidas para resolver a crise no Mali, e o Conselho de Segurança reconheceu formalmente a necessidade de reconciliação política. Mas então, do dia para a noite, a coisa toda mudou, a favor da ação militar do ocidente.

Todos os especialistas têm muitas dúvidas sobre os verdadeiros motivos da invasão francesa. Sim, é verdade, há grupos da al-Qaeda, que foram armados pelas potências ocidentais e serviram a interesses ocidentais como soldados em campo durante a ‘'mudança de regime'’ na Líbia. Esses, todos sabem, espalharam-se pelos países vizinhos. Além da Argélia e do Mali, pelo menos cinco outros países da África Ocidental foram afetados – Mauritânia, Gana, Niger, Burkina Faso e Nigéria.

Mas... há longo capítulo da história moderna que ensina que o ocidente sempre usou forças do islamismo radical para ajudar em seus propósitos geoestratégicos (aconteceu no Afeganistão, na Líbia e na Síria). As forças do islamismo radical, outras vezes, serviram como álibi para invasões militares ocidentais (por exemplo, outra vez, no Afeganistão).

Localização do Mali no Noroeste da África
O Mali é país de vasto território na África, rico em petróleo, gás, ouro, cobre, diamantes e urânio. As usinas nucleares francesas usam, como combustível, urânio extraído das minas no Niger, vizinho do Mali. Não há qualquer dúvida de que a França tem importantes interesses estratégicos e econômicos na reunião. Já se ouvem as primeiras vozes dos que veem, nessa intervenção francesa no Mali, uma empreitada neocolonialista. O arcebisto de Accra chamou-a de “tentativa de colonização”.

Por tudo isso, no mínimo, a intervenção ocidental no Mali já deveria ter gerado alguma reação de russos e chineses. No momento, provavelmente, os russos elaboram sobre três grandes questões. Primeiro, as relações entre Rússia e potências europeias já estão tensionadas. Moscou provavelmente hesita, sem querer exacerbar aquelas dificuldades.

Em segundo lugar, por ironia, o Mali é uma Síria ao contrário. Os russos têm importantes investimentos geopolíticos na Síria; mas o Mali e o norte e o oeste da África são quintal dos europeus. Não por acaso, Paris (que assumiu discurso muito estridente sobre a Síria) cuidou de, antes, fazer contato com Moscou, sobre o Mali.

No campo ideológico também, a Rússia e o ocidente veem-se, de repente, dizendo as mesmas coisas sobre o avanço do islamismo no Oriente Médio e no Norte da África, na sequência da “Primavera Árabe”.

Minérios quentes

A China, por sua vez, tem outros pensamentos profundos em mente – principalmente, seu conflito de interesses com o ocidente na África. A ansiedade em Pequim aparece, bem clara, em dura crítica contra a intervenção ocidental no Mali, publicada no Global Times na 3ª-feira. É assinada por He Wenping, diretora de Estudos Africanos, no Instituto de Estudos Oeste-Asiáticos e Africanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Escreveu que:

He Wenping
A China tem determinados interesses no Mali, onde investe em inúmeros projetos. Não é necessariamente má ideia, do ponto de vista chinês, que a França decida enviar tropas, se isso estabilizar a região (...) Mas, apesar de alguns benefícios potenciais, há pelo menos uma causa que pode vir a gerar alarme – o envolvimentos de tropas francesas no Mali dará pretexto perfeito para legalizar um novo intervencionismo militar na África.

Não se podem subestimar os interesses econômicos diretos da França no Mali (...). Um dos ônus dessa ação é que traz de volta memórias da “gendarmerie francesa” – o status colonial da França.

A grande pergunta é se os movimentos de política exterior coordenados entre Moscou e Pequim abraçarão também o teatro africano.

Nikolai Patrushev
Logo depois de recentes consultas sino-russas sobre segurança estratégica em Pequim, dia 9/1, o secretário do Conselho Russo de Segurança, Nikolai Patrushev, revelou que os dois países planejam intensificar a cooperação no campo dos mísseis de defesa, como resposta ao crescente deslocamento de mísseis dos EUA para a região. Patrushev disse:

Todos estamos preocupados com os planos dos EUA de construir sistema global de mísseis de defesa, incluindo a região do Pacífico asiático. Nossos parceiros chineses partilham nossas preocupações. Já concordamos com coordenar nossas ações a esse respeito.

Mas a China tem apostas muito mais altas na África, que a Rússia. A China já ultrapassou EUA e Europa como maior parceiro comercial da África (US$160 bilhões) e seus investidores puseram $15 bilhões na África, só no ano passado. A China quer muito os minérios de países do oeste, norte, e centro da África; e que o petróleo da África ocidental. Produtos agrícolas do Chad, Mali, Benin e Burkina Faso alimentam a massiva indústria têxtil chinesa. A África Ocidental é também importador chave de produtos chineses; a Nigéria aparece em primeiro lugar nessa lista de mercados importadores da China (42%).

Como o artigo de Global Times anota, Pequim entende perfeitamente bem que o ocidente está embarcando numa estratégia de “contenção” na África mediante um simples movimento de retomar o controle das ex-colônias nas quais a China avançava. A questão é que o ocidente não pode competir com a China, porque não tem como oferecer mais do que a China já oferece às nações africanas.

Os projetos transcontinentais chineses avançam na vanguarda do processo para criar blocos econômicos regionais, o que amplia a capacidade das nações africanas para ganhar espaços, na disputa contra as potências ocidentais e, assim, poder negociar sob condições mais favoráveis aos africanos.

Em resumo: o espectro que ronda o ocidente é menos a al-Qaeda que a impossibilidade de o ocidente oferecer mais do que a China pode oferecer e já oferece: bons negócios para os interesses africanos locais e relacionamento de melhor qualidade e mais amplo, com os Estados africanos.

Irina Filatova
Mas a política russa na África, comparada à chinesa, não tem rumo claro nem foco. Nas palavras de Irina Filatova, importante especialista russa em questões africanas, “a Rússia está interessada em desenvolver relações econômicas, mas tem pouco a oferecer. E o que tem a oferecer, ainda não sabe como oferecer.”

O ex-presidente Dmitry Medvedev bem que tentou reverter essa tendência e até nomeou um enviado especial à África, para injetar nova energia e conteúdo no corpo da diplomacia russa. Depois de uma visita à Nigéria, Medvedev lamentou que a Rússia estivesse chegando “quase tarde demais”, na tarefa de engajar-se com a África.

O movimento violento de exércitos ocidentais para dentro do Mali talvez sirva como novo sinal de alerta para Moscou: na vida e na política nada do que aconteça jamais acontece tarde demais.

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*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.