Mostrando postagens com marcador BDS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BDS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de março de 2014

Putin terá de salvar os EUA outra vez? Desta vez, a Crimeia



7-9/3/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Washington (22/2/1732 - 14/12/ 1799) 
1º Presidente dos EUA
George Washington alertou os EUA contra “envolvimentos estrangeiros”. Teria tido uma premonição da falta de visão, da inépcia de seus sucessores, nos anos Bush e na Era Obama?

Se aconteceu assim, a Guerra ao Terror de Bush-Cheney – agora, de Obama – comprova o quão certo estava. Pode ter sido concebida também deliberadamente, para estimular islamistas a atacar alvos ocidentais. A má vontade que engendrou será fator ativo na política mundial ainda por muitas e muitas gerações.

Também reduziu as proteções liberais que George Washington e seus contemporâneos tanto prezavam. Os que mais sofreram foram os direitos relacionados à privacidade.

Teria sido esse o plano, desde o começo? É possível.

Bush e Cheney com certeza cuidaram para que seu sucessor encontrasse extremas dificuldades para mudar de curso. Mas Obama, algum dia, quis mudar algum curso? Não se veem sinais de qualquer empenho dele nessa direção. Obama e equipe seguiram a velha trilha com desembestada fúria.

Quem teria suposto que o candidato da paz desenvolveria tal gosto por assassinato e massacres, ou que o professor de Direito Constitucional encilharia e montaria e com tanto prazer a Carta dos Direitos Civis?

Mas a Guerra ao Terror já vai ficando velha, e Obama já está perdendo a paixão por ela. Até os neoconservadores já andaram adiante; hoje, estão muito mais ocupados detonando o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções contra Israel). Claramente, o tempo está maduro para novos desmandos.

E assim encontramos a Casa Branca e o Congresso avançando em passos largos rumo ao atraso – despejando vinho novo (os desmandos pós 11/9) nos velhos odres [1] que restaram da Guerra Fria.

Todas as indicações são de que Obama sonha com acertar um ou dois golpes também à China. E por que mais “se pivotearia” rumo à Ásia? Mas ainda falta Obama achar um modo de “pivotear-se” para lá sem, simultaneamente, ferir os interesses da fração do 1% que ele se dedica a proteger e a servir.

As muitas ONGs norte-americanas “pró-democracia” também devem estar bem frustradas. Por mais que elas se esforcem para criar problemas, o estado chinês parece sempre inexpugnável. As chances de as ONGs dos EUA conseguirem destroçar o estado chinês, ou empurrá-lo para o fundo do poço de uma guerra civil são necas, zero.

Há movimentos separatistas na China – o mais importante dos quais, claro, no Tibete. E agora, graças a um muito propagandeado incidente terrorista no sul da China, os uigures (muçulmanos e falantes do turco) na região de Xinjiang, na franja mais ocidental do norte da China, estão no noticiário.

Mas tentar tumultuar e romper o status quo na China é empreitada para malucos − e ideia idiota – porque, hoje e por todo o futuro perscrutável, o comunismo chinês é presente que deus manda aos capitalistas norte-americanos e ocidentais em geral.

Para eles, não haverá nem uma beiradinha de qualquer porcentagem, por tentarem espatifar a China: as regiões onde vicejam sentimentos separatistas não são suficientemente importantes do ponto de vista econômico.

Mas a Rússia, sim, a Rússia é outra história.

As garotas do conjunto Pussy Riot
Ali, as forças separatistas são fortes, e as apostas econômicas, altas. E, por menos que alguém venha a ser informado sobre essa verdade pela “mídia” da imprensa-empresa ocidental, abundam as oportunidades para inventar tumultos, porque o nível de repressão pelo estado é baixo. Considere-se o ponto ao qual o grupo “Agito das Bucetas” [orig. Pussy Riot] teve de ir, para gerar reação não liberal (chamada, no ocidente, de “autoritária”).

Na China, o serviço de inventar o caos, que as ONGs existem para prestar, tem as asas cortadas curtas; na Rússia e nas ex-repúblicas soviéticas, o trabalho delas é facilitado.

Assim sendo, se a ideia é fazer reviver a Guerra Fria, o lugar para fazê-lo é a Rússia. O caminho é aquele, que Bill Clinton ensinou.

Nos anos 1990s, a Iugoslávia foi presa fácil. Com o marechal Tito, as tensões étnicas diminuíram, mas, partido ele, e com o comunismo nas cordas, o pêndulo foi empurrado outra vez.

Essa possibilidade fez babarem os capitalistas e os guerreiros da Guerra Fria. Qualquer Iugoslávia ainda que só vagamente socialista, era obstáculo no caminho deles. Para eles também, as partes valiam muito mais que o todo.

Bill Clinton
Clinton deixou que os alemães iniciassem o processo: os bancos alemães tinham muito, a maior parte, a ganhar. Além disso, as partes da Iugoslávia mais inclinadas a quebrar – Eslovênia e Croácia – sempre estiveram, historicamente, na esfera de influência dos alemães.

Mas na sequência, antes que aqueles europeus metidos a besta esquecessem quem é o verdadeiro chefão, Clinton assumiu o comando da operação.

Com a esquerda anti-imperialista diminuída, e atrocidades cometidas e sofridas pelos dois lados, a propaganda ocidental facilmente implantou uma narrativa que bem servia aos interesses do ocidente; e contaram com amplos recursos para isso, e para muito mais.

Foi simplíssimo, porque Clinton tinha a opinião pública ao lado dele. Fora dos círculos dos emigrados, as lembranças do fascismo croata estavam fanadas, e nunca houve lobby sérvio eficaz nos EUA. Foi facílimo pintar os sérvios como vilões sanguinários; e seus líderes, à frente dos quais, Slobodan Milošević, sobretudo, como demônios.

Não só os norte-americanos foram cúmplices do golpe: os europeus fizeram pior. E a Esquerda, nos dois continentes – a parte que se afastara da luta anti-imperialismo – essa, foi a pior de todas.

A Iugoslávia foi pois desmembrada, e um impedimento que havia no caminho da hegemonia neoliberal foi, sim, afastado para longe.

O modelo Clinton já funcionara uma vez; por que Obama, presidente totalmente clintonizado, não poderia tirar-lhe a poeira e tentar outra vez?

Vladimir Putin
Vladimir Putin é talhado para ser convertido em outro Milošević. Meter os ucranianos no papel que foi dos croatas é mais difícil, porque eles não têm lobby já montado nos EUA e porque há poucos católicos por lá, para que a Igreja Católica se intrometa. Mas há alguma compensação, porque os russos já são mais demonizados e demonizados há mais tempo, que os sérvios. Demonizar russos essa é, sim, uma longa, duradoura, tradição norte-americana.

E para manter enquadrados os liberais, além de uma imprensa-empresa a mais servil, Obama tem excelente questão marginal a explorar: os direitos dos gays.

Não me venham com hipocrisias. Em alguns dos estados Republicanos dos EUA, a lei é mais homofóbica que na Rússia. E os norte-americanos corneteadores de Bíblias são muito mais reacionários que os mais reacionários clérigos ortodoxos russos. Mas a sorte é que nos EUA está tudo melhorando, enquanto, como se lê nos jornais e vê-se pela televisão, na Rússia está tudo piorando.

Ruim então para os novos Guerreiros da Guerra Fria, que, até o fim de semana passada, ainda não se vissem sinais de sangue na água. As hordas Pink enviadas para os Jogos Olímpicos de Sochi, embora espertas, não obtiveram o efeito cênico esperado; com certeza não cresceram a ponto de virar “notícia” e/ou boato.

Mas agora que o caos já permitiu encenar um golpe – como acontece sempre que a intervenção dos EUA é “bem-sucedida”, como, atualmente Obama & Co. estão tentando fazer-acontecer na Venezuela – a água já está espessa de muito sangue, metaforicamente e literalmente. E o “jornalismo” de boataria e futricas, esse, chega a dar falta de ar.

Não há canto de página ou fim de linha em que não se leia que Putin, o neo-Milošević que Obama quer inventar, “violou lei internacional” – como se Obama não vivesse de violar lei internacional – porque Putin meteu na própria cabeça que vai restaurar o poder e a influência de que a União Soviética gozou um dia. Talvez, até, Putin tenha planos para reemendar junta toda a velha União.

E quer combater a decadência ocidental. O ocidente, parece, é excessivamente tolerante, para o gosto de Putin. O ocidente aceita a homossexualidade, por exemplo. E Putin – diz a lenda – odeia qualquer desvio das normas estabelecidas; multiculturalismo e livre-pensar o deixam doente. É feito o Grande Inquisidor. Ou um Hitler, como Hillary Clinton já disse. [2]

Hilário Hitler
Como se podia prever, liberais, muitos dos quais não são, nem de perto, tão reacionários como os Clintons, também já subiram na mesma canoa, como fizeram quando o cara metade de Hillary supervisionava o desmembramento da Iugoslávia. De fato, estão-se superando, mesmo pelos padrões que fixaram quando as bombas de Bill choviam sobre a Iugoslávia.

Há uma história bem conhecida, que ilustra o que significam propaganda e boatos: sobre um homem que, acusado de ter assassinado pai e mãe, suplicou clemência ao juiz, apresentando-se como órfão.

Quando todos os fatos vierem à luz, culpar Putin pelos eventos na Ucrânia fará a história do órfão parecer conto de fadas.

Mas por hora ainda há muitos “sabidos não sabidos”, como diria Donald Rumsfeld. Mas há também muitos sabidos sabidos, e muita coisa que se pode pressupor com segurança.

Mikhail Gorbachev
Sabemos, por exemplo, que os EUA vêm-se fazendo de picador, cutucando o touro russo, pelo menos desde que Ronald Reagan mentiu descaradamente a Mikhail Gorbachev (disse-lhe que os EUA não tinham intenção de levar a OTAN até as fronteiras da Rússia).

Por que Gorbachev deixaria de acreditar em Reagan? Porque sem adversário soviético, a OTAN já não teria razão de ser.

Mas o complexo industrial-militar e o establishment da Guerra Fria não cederiam facilmente, e Bush Pai era homem fácil de convencer. Com os vetos no Conselho de Segurança, e nações do Terceiro Mundo incluídas como membros, a ONU tornou-se absolutamente inútil para o serviço de apoiar projeções do poder dos EUA. Com a OTAN, os EUA podiam fazer o que bem entendessem.

Sabe-se também que na Guerra ao Terror, a CIA assumiu muitas missões que, antes, foram dos militares – deslocar e usar os drones de Obama, por exemplo. E sabemos que, quando se trata de fabricar o caos em países distantes, o Departamento de Estado é a nova CIA.

A coisa opera principalmente através da National Endowment for Democracy (NED) e outras organizações ostensivamente “não governamentais”. A NED sempre atuou por toda a Ucrânia e outras repúblicas ex-soviéticas. Opera até dentro da própria Rússia.

Mas ainda não se sabe com certeza qual o papel que a NED e as demais ONGs tiveram na instigação dos eventos que começaram nas ruas de Kiev. Sabemos que serviram como catalisadoras, mas não sabemos sobre a extensão do envolvimento daquelas ONGs.

Sabemos, isso sim, que, no mínimo, e aparentemente em nome de alguma democracia, norte-americanos e europeus apoiaram um golpe contra governo democraticamente eleito; sabemos também que, nesse processo, deram renovado vigor aos demônios longamente reprimidos, da direita europeia no leste da Europa.

Desnecessário dizer que o povo ucraniano tinha objeções legítimas contra o governo deles; era governo corrupto, suas políticas econômicos eram ruinosas. O povo líbio tinha objeções legítimas contra o governo deles e, também os sírios e os egípcios e outros.

A questão é que, por projeto e plano, ou por inépcia, sempre que EUA e União Europeia metem-se em assuntos de outros povos, as coisas sempre pioram muito; quase sempre pioram muito mais que muito.

Daí a situação que se vê fermentar hoje na Crimeia.

Ainda é cedo para pânico. Afinal de contas, Obama recuou de uma guerra contra o Irã, apesar de toda a pressão que o lobby israelense conseguiu mobilizar. Foi caso em que o interesse nacional predominou sobre a covardia política.

No caso atual, o interesse dos EUA é ainda mais claro: fazer guerra à Rússia seria muito pior que total loucura. Por isso, ninguém obra a favor disso, exceto a camarilha de sempre, de senadores Republicanos e os “especialistas” imbecis que os cercam.

Ainda assim, Obama deve considerar tentadora a ideia. Afinal, ele tem de zelar pelo seu “legado”: quem quer ser lembrado por drones, impasses por todos os lados, vigilância 24 horas/dia sete dias por semana contra tudo e todos, e Obamacare?

Obama quebrou a “muralha da cor”. Se tivesse renunciado no 1º dia depois da posse, teria deixado legado realmente glorioso. Mas, como logo todos descobriram, Obama nunca foi um Jackie Robinson.

Jackie Robinson, o 1º  jogador negro a atuar na principal liga de beisebol dos EUA  (1947)
A glória abundou na Guerra da Crimeia, ou, pelo menos, é o que deve ter passado pela cabeça de muitos rapazes com interesse em história. E se o jovem Barry Obama assistiu à “Carga da Brigada Ligeira” em idade ainda impressionável? Não sei, não faço ideia, mas é conjectura plausível o suficiente para despertar muita preocupação.

Fato é, contudo, que aquela aventura da Brigada Ligeira, muito diferente da Guerra Fria, não pode ser ressuscitada. A Guerra da Crimeia foi criatura de outra época, não se repetirá, sequer como farsa. Se Obama está à cata de glória, terá de procurar noutro lugar.

Na verdade, há semelhanças superficiais. Também foi o ocidente – França e Grã-Bretanha – contra a Rússia; e a Rússia ter acesso a porto de águas temperadas no Mar Negro também era motivo se preocupação. E sempre, então, como hoje, abundavam pretextos e racionalizações ocas e tolas.

Mesmo assim, os tempos eram outros. Hoje é difícil de imaginar, mas nos anos 1850s jamais teria passado pela cabeça de alguém na Grã-Bretanha ou na França, e menos ainda nos EUA – e não passou – que algum dia o ocidente teria de se defender contra o oriente muçulmano. Não esqueçam: o Império Otomano era aliado de Grã-Bretanha e França.

Naqueles tempos, o choque de civilizações se dava entre a cristandade do ocidente e do oriente. Aí, precisamente, os belicistas procuravam e obtinham os seus pretextos. A questão que supostamente teria desencadeado a Guerra da Crimeia foi o controle sobre santuários cristãos em Jerusalém – cidade eternamente disputada e problemática. Franceses e britânicos uniram-se aos otomanos, alegadamente para impedir que a Igreja Russa Ortodoxa deslocasse várias seitas Protestantes e a Igreja de Roma.

Desnecessário dizer que o pretexto central tinha tanto a ver com aquela Guerra da Crimeia quanto a democracia tem, hoje, a ver com as maquinações de EUA e Europa na Ucrânia. Naquele momento, como hoje, tudo era, como sempre, manobra geopolítica.

As potências ocidentais nos anos 1850s nunca tinham ouvido falar, nem davam qualquer importância ao petróleo do Oriente Médio. Mas muito se interessavam, sim, por suas várias “possessões” asiáticas – sobretudo a Índia. Queriam promover o evanescente Império Otomano, para conseguir manter ao largo o Império Russo. O Império Otomano podia ser controlado; o Império Russo era rival que os europeus queriam destruir.

Hoje, claro, a Rússia não tem interesse algum pela Turquia, nem quer dominar o leste do Mediterrâneo. Muito lhe agrada deixar Constantinopla (Istambul) para os turcos. Quer pacificar os muçulmanos em seu território, mas não quer somar os muçulmanos à população da Rússia.

John Kennedy
Mas a Rússia, sim, sim, quer segurança nas suas fronteiras. George Washington e os homens e mulheres que pensavam à volta dele compreendiam esse desejo; lembrem-se da Doutrina Monroe. Até John Kennedy entendia: quase pôs fim ao mundo como o conhecermos, e pela mesma razão (quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba) que hoje mobiliza os russos.

A Rússia quer também proteger os direitos e as propriedades de russos que vivam no exterior. Os fundadores da república norte-americana aprovariam imediatamente também essa ideia (o que os piratas da Barbary Coast logo perceberam, para muito lamentarem), como também logo perceberam (e muito lamentaram) os mexicanos e os norte-americanos nativos e incontáveis outros povos, com o passar dos anos.

Até Ronald Reagan entendia bem tudo isso. Quando Reagan e seus conselheiros decidiram que a “Síndrome do Vietnã” já estava a atrapalhar por tempo demais o ímpeto predador do império, usaram pretextos inventados (que de que estudantes norte-americanos, que estudavam Medicina em Grenada, estariam sendo ameaçados), para remobilizar seus soldados.

Fato é que, não se sabe por que, Putin é hoje o único demônio ativo no planeta. Não é coisa que só senadores Republicanos e “especialistas” da direita estejam dizendo. NÃO! Pergunte a qualquer liberal! Se conseguir aguentar sem vomitar, sintonize a rádio NPR ou o canal MSNBC.

No caso do Vietnã, muitos liberais no final da guerra já estavam mais espertos e começavam a ver os fatos. Hoje, só tipos irrecuperáveis como John McCain ainda defendem aquela guerra. E, embora a imprensa-empresa liberal tenha sido tão servil ao governo depois do 11/9 como é hoje sobre os eventos na Ucrânia e na Crimeia, ninguém, hoje, fora do círculo familiar dos Cheney e dos Bush, ainda pensa que a Guerra do Iraque foi boa ideia.

Sobre a Iugoslávia, os liberais continuam tão cegos como sempre. E, porque foi Obama quem bombardeou, ainda há liberais em torno dele que pensam que bombardear a Líbia foi boa ideia. Que bando de gente lamentável, lastimável, sem salvação possível, tornaram-se os liberais norte-americanos!

Por tudo isso, não contem com os liberais para ajudá-los a compreender como e por que – quando Obama e seus agregados culpam Putin por tudo que eles mesmos fizeram – o que mais se vê são liberais que se se apresentam à opinião pública como se fossem o “órfão” da piada. No futuro, os historiadores verão, assim como tantos hoje veem já bem claramente o Vietnã e o Iraque; mas “no futuro” talvez já seja tarde demais.

Por sorte, a política exterior russa está em mãos muito mais inteligentes, lúcidas, espertas que a dos EUA. Faz pouco tempo, os russos – de fato, foi Putin em pessoa – salvaram Obama de meter-se numa guerra catastrófica contra a Síria, depois de o próprio Obama ter armado a arapuca para si mesmo, com declarações imbecis sobre uma “linha vermelha” que Bashar Al-Assad não poderia atravessar.

Agora, outra vez, as melhores esperanças dos EUA estão nas mãos dos russos. Se o que acontece na Crimeia ficar na Crimeia, os EUA ficaremos devendo mais essa aos russos.
______________________

Notas dos tradutores

[1] “Ninguém põe vinho novo em odres velhos, porque arrebentam os odres e derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Vinho novo é para odres novos, e ambos se conservam” (Bíblia, Mateus 9:14-17).

[2] A notícia apareceu em 5/3/2014, NBC News: “Report: Hillary Clinton Says Putin Behaving Like Adolf Hitler”. Dia seguinte, OBVIAMENTE, já estava, requentada e REPETIDA, n’O Estado de S.Paulo, o jornal que só MACAQUEIA “noticiário” de agências norte-americanas.
___________________

[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).


terça-feira, 15 de junho de 2010

O massacre da Flotilha da Liberdade torna urgente intensificar o BDS

por Movimento BDS - Boicote, Desinvestimento, Sanções

Clique  para aceder ao sítio web do BDS. Palestina Ocupada, 08/Junho/2010 – Perante o massacre perpetrado por Israel contra trabalhadores e activistas de ajuda humanitária a bordo da Flotilha da Liberdade a 31 de Maio de 2010 e a sua insistência em continuar o cerco ilegal de Gaza, tornou-se inegavelmente urgente pressionar Israel para que cumpra com as suas obrigações ao abrigo da lei internacional. Embriagado pelo poder e pela impunidade, Israel tem ignorado os recentes apelos do secretário-geral da ONU assim como o consenso entre os governos mundiais para que ponha fim ao cerco mortal, atirando o ónus para a sociedade civil internacional de assumir a responsabilidade moral de responsabilizar Israel perante a lei internacional e acabar com a sua impunidade criminal. A campanha global encabeçada pelos palestinos para o Boicote, Desinvestimento e Sanções (Boycott, Divestment and Sanctions – BDS) contra Israel provou ser a forma mais eficaz de o conseguir.

O actual bloqueio de Israel aos alimentos essenciais, medicamentos, produtos para a educação e para a construção, não é apenas imoral; é uma forma grave de punição colectiva, um crime de guerra que é estritamente proibido pelo Artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra. Está a provocar uma pobreza maciça, a contaminação da água, um colapso ambiental, doenças crónicas, devastação económica e centenas de mortos. Este cerco medieval que dura há três anos contra 1,5 milhão de palestinos em Gaza foi condenado abertamente por importantes juristas, incluindo o Prof. Richard Falk, Relator Especial para os Direitos Humanos, das Nações Unidas, que o descreveu como constituindo um "lento genocídio":

Os ataques amplamente condenados de Israel a navios desarmados da Flotilha da Liberdade, conforme concordam importantes juristas internacionais [1] , violam a lei marítima internacional e a Convenção das Nações Unidas para a Lei dos Mares, que estipula que "o alto mar deve ser reservado para efeitos pacíficos".

Ao abrigo do artigo 3 da Convenção de Roma para a Supressão de Actos Ilegais contra a Segurança da Navegação Marítima de 1988, é um crime internacional qualquer pessoa apoderar-se ou exercer o controlo de um navio pela força, e é também um crime ferir ou matar qualquer pessoa nesse procedimento. Conforme confirmaram estudiosos do direito internacional, não há nenhuma justificação legal para o acto de agressão de Israel contra barcos civis internacionais que transportam ajuda humanitária e para desenvolvimento a civis que estão a sofrer com uma ocupação e um cerco nitidamente ilegais, que provocaram uma catástrofe humanitária feita pela mão do homem e deliberadamente prolongada. A nossa resposta tem que ser proporcional ao terrível sofrimento que resulta deste cerco assim como aos sucessivos sistemas de opressão israelense, que duram há décadas.

A reacção da comunidade internacional e dos povos por todo o mundo tem que entender as recentes atrocidades israelenses no contexto de décadas da impunidade de Israel, que lhe é proporcionada pelos governos ocidentais e, mais recentemente, pelas Nações Unidas. Desde o Nabka, a instalação de Israel a troco da expulsão e limpeza étnica da maioria do povo palestino nativo, que Israel tem sido autorizado a recusar aos mais de 6 milhões de refugiados o direito, sancionado pela ONU, de regressar aos seus lares de origem. No mesmo período, Israel conseguiu levar por diante o seu sistema de discriminação racial legalizada e institucionalizada que enforma a definição de apartheid segundo a Convenção Internacional para a Supressão e Punição do Crime de Apartheid, de 1993 [2] . Há exactamente 43 anos que Israel mantém a sua ocupação da Margem Ocidental, incluindo Jerusalém e Gaza, e continua a alargar as suas colónias ilegais, praticando graves violações do direito internacional e crimes de guerra com toda a impunidade. Até mesmo a sentença do Tribunal Internacional de Justiça em 2004, que considerou ilegais o Muro de Israel e a instalação de colonatos e apelou directamente a todos os estados para acabarem com ambas as coisas, foi ignorada.

Actualmente, vemos sinais de que o apoio incondicional dado a Israel durante décadas pela comunidade internacional para o impedir de ter que prestar contas, ou sequer ser criticado, está a mostrar algumas fendas. O Massacre da Flotilha feito por Israel tem tido como resposta sanções internacionais incluindo a suspensão de relações diplomáticas entre a Nicarágua e Israel [3] ; a África do Sul [4] e a Turquia [5] mandaram retirar os seus respectivos embaixadores em Tel Aviv, assim como um pedido unânime do parlamento turco para "rever as relações políticas, militares e económicas com Israel" e para "pedir justiça contra Israel através das entidades legais nacionais e internacionais" [6] . Mais ainda, a ministra da educação da Noruega e chefe do partido da Esquerda Socialista, Kristin Halvorsen, reconfirmou a proibição de armas da Noruega para Israel e apelou a todos os outros estados para "seguirem a posição norueguesa que exclui o comércio de armas com Israel" [7] .

A sociedade civil internacional também reagiu rápida e eficazmente ao ataque israelense à Flotilha. O Sindicato dos Trabalhadores Portuários Suecos seguiu o apelo do BNC [8] decidindo um bloqueio a todas as cargas de e para Israel entre 15 e 24 de Junho [9] . A federação sul-africana do comércio COSATU apelou para "um maior apoio à campanha internacional de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel", encorajando "todos os sul-africanos a recusarem-se a comprar ou manipular quaisquer produtos de Israel ou a fazerem quaisquer acordos com homens de negócios israelenses" [10] . A União Sul-Africana dos Trabalhadores de Transportes e Afins (SATAWU), que foi pioneira no boicote ao tráfego marítimo israelense em Fevereiro de 2009, recusando-se a descarregar um navio em Durban, também correspondeu ao apelo do BNC, apelando aos seus membros "para não permitirem que nenhum navio israelense entrasse no porto ou descarregasse" e apelando aos sindicalistas congéneres para "não lhes tocar" [11] . A União de Trabalhadores Municipais Sul-Africanos (SAMWU) apelou unanimemente para que cada município da África do Sul se declarasse zona livre do apartheid Israelense [12] . O maior sindicato britânico, a Unite, na sua primeira conferência política em Manchester, aprovou por unanimidade uma moção BDS para boicotar todas as empresas israelenses [13] . A maior federação sindical da Noruega, a LO, que engloba quase um quinto de toda a população norueguesa, apelou para que o Fundo de Pensões Estatais, o terceiro maior do mundo, desinvestisse de todas as empresas israelenses [14] . Uma sondagem efectuada após o ataque à Flotilha, mostrou que mais de 42% dos noruegueses apoiam agora um boicote abrangente de produtos israelenses [15] .

Figuras importantes da cultura também tiveram uma palavra a dizer. O mundialmente conhecido escritor britânico, Iain Banks , escreveu no Guardian que a melhor forma para os artistas, escritores e académicos internacionais "convencerem Israel da sua degradação moral e isolamento ético" é "pura e simplesmente não terem mais nada a ver com este estado fora-de-lei" [16] . Os Klaxons e os Gorillaz Sound System cancelaram os seus concertos já marcados em Israel, por causa do ataque à Flotilha [17] e o mesmo fizeram os Pixies [18] . O escritor de best-sellers a nível mundial, o sueco Henning Mankell , que estava na Flotilha da Liberdade quando esta foi atacada, apelou a sanções globais no género da África do Sul contra Israel em resposta a este acto brutal [19] . A escritora de best-sellers americana, Alice Walker , recordou ao mundo o boicote, desencadeado por Rosa Parks e liderado por Martin Luther King, contra uma empresa de autocarros racista em Montgomery, Alabama, durante o movimento pelos direitos civis, e apelou a uma ampla adesão ao BDS contra Israel como um dever moral. [20]

O Comité Nacional Palestino para o BDS (BNC) acolhe calorosamente estas posições e acções internacionais corajosas, com princípios e eficazes que têm como objectivo acabar com o cerco de Israel e a sua impunidade criminal. Saudamos os artistas, os desportistas e os sindicatos por corresponderem aos apelos da sociedade civil palestina para uma verdadeira solidariedade para com o povo palestino sob a forma do BDS.

Apelamos hoje:

  • Às uniões de estivadores para aderirem ao apelo [21] lançado a 7 de Junho de 2010 por todo o movimento sindicalista palestino para bloquear a carga e descarga de navios israelenses.
  • A outros sindicatos para aderir ao BDS, implementando um boicote aos produtos israelenses e ao desinvestimento dos seus fundos de pensões de todas as acções em companhias israelenses e internacionais que tirem proveito da ocupação e apartheid de Israel. Também apelamos aos sindicatos internacionais para que sigam o exemplo histórico dado pelo sindicato académico britânico, UCU, quando decidiu [22] em 21 de Maio cortar relações com o Histadrut, ainda antes de ter sido noticiada a declaração do Histadrut [23] desculpando o massacre da Flotilha feito por Israel. O movimento sindical palestino, representado totalmente no BNC, condenou fortemente a defesa da Histadrut dos crimes de guerra israelenses. A Federação Geral Palestina dos Sindicatos (PGFTU), por exemplo, acusou [24] o Histadrut de se esconder "por detrás da cooperação sindicato a sindicato a fim de justificar ataques brutais contra civis que tentaram prestar ajuda humanitária a 1,5 milhão de palestinos, na sua maioria gente trabalhadora, em Gaza". Vale a pena mencionar que o Histadrut defendeu os crimes de guerra de Israel em Gaza durante 2008-2009. [25]
  • Aos governos para cessarem imediatamente toda a conivência com o bloqueio ilegal de Israel da Faixa de Gaza, e para pressionarem Israel para que garanta o acesso sem restrições e a liberdade de movimentos de pessoas e produtos para dentro e para fora da Faixa de Gaza. Os governos que defendem a lei internacional e os direitos humanos devem iniciar um embargo global ao armamento contra Israel e boicotar os negócios com os colonatos.
  • Às pessoas de consciência para que pressionem os governos a suspender imediatamente o comércio de armas com Israel, e a implementar sanções comerciais, apresentando à justiça todos os funcionários e militares israelenses que tomaram a decisão e/ou implementaram este último massacre assim como anteriores crimes de guerra.
  • Às organizações da sociedade civil – incluindo grupos religiosos, universidades, sindicatos, associações de mulheres, grupos de estudantes, associações académicas, etc. – para desinvestir as suas instituições e fundos de pensões de todos os investimentos em companhias israelenses e internacionais que sejam cúmplices em manter a ocupação de Israel, o apartheid e a violação da lei internacional e para boicotar os produtos israelenses. Apelamos ainda a todos eles que pressionem os seus governos para acabar com os acordos de comércio livre (FTAs) com Israel, e para implementar um embargo imediato ao armamento contra Israel, tal como foi pedido anteriormente pela Amnistia Internacional após a operação Cast Lead. [26]


Em especial, apelamos:

  • aos EUA para se recusar a renegociar o Plano de Acção EUA-Israel e suspender o Acordo de Associação EUA-Israel; aos estados da Mercosul para suspenderem o FTA com Israel; à Índia e ao Chile para porem fim a todas as negociações em torno de um FTA com Israel.
  • à Turquia , à Grécia e à Irlanda , enquanto estados cujos navios civis foram atacados ilegalmente por Israel em águas internacionais, para usarem de todos os meios legais possíveis para levar a tribunal os israelenses responsáveis por esse crime de guerra e suspender todos os acordos bilaterais com Israel até que este respeite a lei internacional.
  • Para o fim do comércio de armas e relações militares : em especial à Índia , à Turquia e ao Brasil – os três principais importadores de armas israelenses [27] – para porem fim a todas as relações militares e comércio de armas com Israel.
  • ao Movimento Não-Alinhado (NAM) para activar os seus apelos ao boicote aos produtos dos colonatos, à recusa em deixar entrar colonos e a sanções às companhias/entidades envolvidas no Muro e nos colonatos, emitidos repetidamente nas reuniões do NAM desde 2004 [24] .
  • ao parlamento sul-africano para se juntar à luta contra o apartheid israelense começando por excluir dos contratos públicos as companhias israelenses e internacionais implicadas na ocupação e no apartheid. Também apelamos para que tome a iniciativa de um embargo de armas global contra Israel e de um boicote gradual aos produtos israelenses. Também tem que se acabar gradualmente com o comércio de diamantes com Israel, implementando oficinas de lapidação na África do Sul em vez de se permitir que Israel explore os diamantes sul-africanos para extrair lucros enormes com o processo de lapidação.
  • aos Estados árabes para acabarem com os acordos diplomáticos e comerciais existentes com Israel e para excluir dos contratos públicos todas as companhias internacionais envolvidas nas violações israelenses da lei internacional e dos direitos humanos, em especial a Veolia, a Alstom, a Lev Leviev, a Caterpillar, a Motorola, a Volvo, etc. O Egipto devia abrir indefinidamente o Cruzamento Rafah.
  • aos Sindicatos que participam na próxima conferência ITUC (International Trade Union Confederation) em Vancouver para aderir ao BDS e cortar ligações com o Histadrut.

Nas palavras de Nelson Mandela, a justiça para o povo da Palestina tornou-se na "maior questão moral da nossa época". O brutal cerco de Israel a Gaza é actualmente a mais crítica e mais urgente de todas as injustiças israelenses contra o povo palestino. O BNC apela às pessoas de consciência e aos grupos de cidadãos em todo o mundo para intensificarem as campanhas de BDS contra Israel como sendo o meio mais eficaz de acabar com o cerco e tornar Israel responsável perante a lei internacional na procura de uma paz justa.

Notas
[1] O importante jurista internacional, Prof. Bem Saul, por exemplo, comenta o ataque à Flotilha, dizendo: "Este último episódio, triste e chocante, realça o desprezo de Israel pelas vidas dos outros, o seu profundo desdém pela opinião internacional, e a sua rudeza como um fora-da-lei da comunidade internacional".
Conhecidos juristas britânicos chegaram à mesma conclusão numa carta ao Times:
E o mesmo aconteceu com conhecidos professores holandeses de direito internacional numa carta ao NRC Handelsblad:
[2] http://untreaty.un.org/cod/avl/ha/cspca/cspca.html
[3] http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3897773,00.html
[4] http://www.bloomberg.com/apps/news?sid=a_vBbjBZJ6LM&pid=20601087
[5] www.todayszaman.com
[6] www.news-gazette.com
[7] www.swedishwire.com/nordic/4809-norway-calls-for-boycott-on-arms-to-israel
[8] http://www.bdsmovement.net/?q=node/710
[9] ibnkafkasobiterdicta.wordpress.com
[10] www.cosatu.org.za
[11] http://groups.google.com/group/cosatu-press/msg/a2ff0baff48201c4?pli=1
[12] http://www.samwu.org.za/index.php?option=com_content&task=view&id=621&Itemid=1
[13] http://www.thejc.com/news/uk-news/32579/unite-votes-boycott-israel
[14] http://www.nrk.no/nyheter/norge/1.7148110
[15] http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3898052,00.html
[16] http://www.guardian.co.uk/world/2010/jun/03/boycott-israel-iain-banks
[17] www.haaretz.com
[18] http://www.abc.net.au/news/stories/2010/06/06/2919568.htm?section=justin
[19] www.telegraph.co.uk
[20] http://electronicintifada.net/v2/article11319.shtml
[21] http://www.bdsmovement.net/?q=node/712
[22] http://www.jpost.com/International/Article.aspx?id=177210
[23] http://www.unions.org.il/BRPortal/br/P106.jsp?id=7642
[24] http://www.pgftu.org/ensite/news.php?action=view&id=76
[25] http://www.labourstart.org/israel/Histadrut_on_Gaza.pdf
[26] www.amnesty.org
[27] Ver Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI),
[28] "No que se refere aos Estados Membros, os ministros assumiram tomar medidas, através de legislação, colectiva, regional e individualmente, para impedir quaisquer produtos dos colonatos israelenses ilegais de entrarem nos seus mercados, de acordo com as obrigações ao abrigo dos Tratados Internacionais, para recusar a entrada a colonos israelenses e para impor sanções contra companhias e entidades envolvidas na construção do muro e em outras actividades ilegais no Teritório Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental".

O original encontra-se em www.bdsmovement.net.
Tradução de Margarida Ferreira.
info@bdsmovement.net


Este texto encontra-se em; Resistir_Info