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segunda-feira, 10 de março de 2014

Putin terá de salvar os EUA outra vez? Desta vez, a Crimeia



7-9/3/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Washington (22/2/1732 - 14/12/ 1799) 
1º Presidente dos EUA
George Washington alertou os EUA contra “envolvimentos estrangeiros”. Teria tido uma premonição da falta de visão, da inépcia de seus sucessores, nos anos Bush e na Era Obama?

Se aconteceu assim, a Guerra ao Terror de Bush-Cheney – agora, de Obama – comprova o quão certo estava. Pode ter sido concebida também deliberadamente, para estimular islamistas a atacar alvos ocidentais. A má vontade que engendrou será fator ativo na política mundial ainda por muitas e muitas gerações.

Também reduziu as proteções liberais que George Washington e seus contemporâneos tanto prezavam. Os que mais sofreram foram os direitos relacionados à privacidade.

Teria sido esse o plano, desde o começo? É possível.

Bush e Cheney com certeza cuidaram para que seu sucessor encontrasse extremas dificuldades para mudar de curso. Mas Obama, algum dia, quis mudar algum curso? Não se veem sinais de qualquer empenho dele nessa direção. Obama e equipe seguiram a velha trilha com desembestada fúria.

Quem teria suposto que o candidato da paz desenvolveria tal gosto por assassinato e massacres, ou que o professor de Direito Constitucional encilharia e montaria e com tanto prazer a Carta dos Direitos Civis?

Mas a Guerra ao Terror já vai ficando velha, e Obama já está perdendo a paixão por ela. Até os neoconservadores já andaram adiante; hoje, estão muito mais ocupados detonando o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções contra Israel). Claramente, o tempo está maduro para novos desmandos.

E assim encontramos a Casa Branca e o Congresso avançando em passos largos rumo ao atraso – despejando vinho novo (os desmandos pós 11/9) nos velhos odres [1] que restaram da Guerra Fria.

Todas as indicações são de que Obama sonha com acertar um ou dois golpes também à China. E por que mais “se pivotearia” rumo à Ásia? Mas ainda falta Obama achar um modo de “pivotear-se” para lá sem, simultaneamente, ferir os interesses da fração do 1% que ele se dedica a proteger e a servir.

As muitas ONGs norte-americanas “pró-democracia” também devem estar bem frustradas. Por mais que elas se esforcem para criar problemas, o estado chinês parece sempre inexpugnável. As chances de as ONGs dos EUA conseguirem destroçar o estado chinês, ou empurrá-lo para o fundo do poço de uma guerra civil são necas, zero.

Há movimentos separatistas na China – o mais importante dos quais, claro, no Tibete. E agora, graças a um muito propagandeado incidente terrorista no sul da China, os uigures (muçulmanos e falantes do turco) na região de Xinjiang, na franja mais ocidental do norte da China, estão no noticiário.

Mas tentar tumultuar e romper o status quo na China é empreitada para malucos − e ideia idiota – porque, hoje e por todo o futuro perscrutável, o comunismo chinês é presente que deus manda aos capitalistas norte-americanos e ocidentais em geral.

Para eles, não haverá nem uma beiradinha de qualquer porcentagem, por tentarem espatifar a China: as regiões onde vicejam sentimentos separatistas não são suficientemente importantes do ponto de vista econômico.

Mas a Rússia, sim, a Rússia é outra história.

As garotas do conjunto Pussy Riot
Ali, as forças separatistas são fortes, e as apostas econômicas, altas. E, por menos que alguém venha a ser informado sobre essa verdade pela “mídia” da imprensa-empresa ocidental, abundam as oportunidades para inventar tumultos, porque o nível de repressão pelo estado é baixo. Considere-se o ponto ao qual o grupo “Agito das Bucetas” [orig. Pussy Riot] teve de ir, para gerar reação não liberal (chamada, no ocidente, de “autoritária”).

Na China, o serviço de inventar o caos, que as ONGs existem para prestar, tem as asas cortadas curtas; na Rússia e nas ex-repúblicas soviéticas, o trabalho delas é facilitado.

Assim sendo, se a ideia é fazer reviver a Guerra Fria, o lugar para fazê-lo é a Rússia. O caminho é aquele, que Bill Clinton ensinou.

Nos anos 1990s, a Iugoslávia foi presa fácil. Com o marechal Tito, as tensões étnicas diminuíram, mas, partido ele, e com o comunismo nas cordas, o pêndulo foi empurrado outra vez.

Essa possibilidade fez babarem os capitalistas e os guerreiros da Guerra Fria. Qualquer Iugoslávia ainda que só vagamente socialista, era obstáculo no caminho deles. Para eles também, as partes valiam muito mais que o todo.

Bill Clinton
Clinton deixou que os alemães iniciassem o processo: os bancos alemães tinham muito, a maior parte, a ganhar. Além disso, as partes da Iugoslávia mais inclinadas a quebrar – Eslovênia e Croácia – sempre estiveram, historicamente, na esfera de influência dos alemães.

Mas na sequência, antes que aqueles europeus metidos a besta esquecessem quem é o verdadeiro chefão, Clinton assumiu o comando da operação.

Com a esquerda anti-imperialista diminuída, e atrocidades cometidas e sofridas pelos dois lados, a propaganda ocidental facilmente implantou uma narrativa que bem servia aos interesses do ocidente; e contaram com amplos recursos para isso, e para muito mais.

Foi simplíssimo, porque Clinton tinha a opinião pública ao lado dele. Fora dos círculos dos emigrados, as lembranças do fascismo croata estavam fanadas, e nunca houve lobby sérvio eficaz nos EUA. Foi facílimo pintar os sérvios como vilões sanguinários; e seus líderes, à frente dos quais, Slobodan Milošević, sobretudo, como demônios.

Não só os norte-americanos foram cúmplices do golpe: os europeus fizeram pior. E a Esquerda, nos dois continentes – a parte que se afastara da luta anti-imperialismo – essa, foi a pior de todas.

A Iugoslávia foi pois desmembrada, e um impedimento que havia no caminho da hegemonia neoliberal foi, sim, afastado para longe.

O modelo Clinton já funcionara uma vez; por que Obama, presidente totalmente clintonizado, não poderia tirar-lhe a poeira e tentar outra vez?

Vladimir Putin
Vladimir Putin é talhado para ser convertido em outro Milošević. Meter os ucranianos no papel que foi dos croatas é mais difícil, porque eles não têm lobby já montado nos EUA e porque há poucos católicos por lá, para que a Igreja Católica se intrometa. Mas há alguma compensação, porque os russos já são mais demonizados e demonizados há mais tempo, que os sérvios. Demonizar russos essa é, sim, uma longa, duradoura, tradição norte-americana.

E para manter enquadrados os liberais, além de uma imprensa-empresa a mais servil, Obama tem excelente questão marginal a explorar: os direitos dos gays.

Não me venham com hipocrisias. Em alguns dos estados Republicanos dos EUA, a lei é mais homofóbica que na Rússia. E os norte-americanos corneteadores de Bíblias são muito mais reacionários que os mais reacionários clérigos ortodoxos russos. Mas a sorte é que nos EUA está tudo melhorando, enquanto, como se lê nos jornais e vê-se pela televisão, na Rússia está tudo piorando.

Ruim então para os novos Guerreiros da Guerra Fria, que, até o fim de semana passada, ainda não se vissem sinais de sangue na água. As hordas Pink enviadas para os Jogos Olímpicos de Sochi, embora espertas, não obtiveram o efeito cênico esperado; com certeza não cresceram a ponto de virar “notícia” e/ou boato.

Mas agora que o caos já permitiu encenar um golpe – como acontece sempre que a intervenção dos EUA é “bem-sucedida”, como, atualmente Obama & Co. estão tentando fazer-acontecer na Venezuela – a água já está espessa de muito sangue, metaforicamente e literalmente. E o “jornalismo” de boataria e futricas, esse, chega a dar falta de ar.

Não há canto de página ou fim de linha em que não se leia que Putin, o neo-Milošević que Obama quer inventar, “violou lei internacional” – como se Obama não vivesse de violar lei internacional – porque Putin meteu na própria cabeça que vai restaurar o poder e a influência de que a União Soviética gozou um dia. Talvez, até, Putin tenha planos para reemendar junta toda a velha União.

E quer combater a decadência ocidental. O ocidente, parece, é excessivamente tolerante, para o gosto de Putin. O ocidente aceita a homossexualidade, por exemplo. E Putin – diz a lenda – odeia qualquer desvio das normas estabelecidas; multiculturalismo e livre-pensar o deixam doente. É feito o Grande Inquisidor. Ou um Hitler, como Hillary Clinton já disse. [2]

Hilário Hitler
Como se podia prever, liberais, muitos dos quais não são, nem de perto, tão reacionários como os Clintons, também já subiram na mesma canoa, como fizeram quando o cara metade de Hillary supervisionava o desmembramento da Iugoslávia. De fato, estão-se superando, mesmo pelos padrões que fixaram quando as bombas de Bill choviam sobre a Iugoslávia.

Há uma história bem conhecida, que ilustra o que significam propaganda e boatos: sobre um homem que, acusado de ter assassinado pai e mãe, suplicou clemência ao juiz, apresentando-se como órfão.

Quando todos os fatos vierem à luz, culpar Putin pelos eventos na Ucrânia fará a história do órfão parecer conto de fadas.

Mas por hora ainda há muitos “sabidos não sabidos”, como diria Donald Rumsfeld. Mas há também muitos sabidos sabidos, e muita coisa que se pode pressupor com segurança.

Mikhail Gorbachev
Sabemos, por exemplo, que os EUA vêm-se fazendo de picador, cutucando o touro russo, pelo menos desde que Ronald Reagan mentiu descaradamente a Mikhail Gorbachev (disse-lhe que os EUA não tinham intenção de levar a OTAN até as fronteiras da Rússia).

Por que Gorbachev deixaria de acreditar em Reagan? Porque sem adversário soviético, a OTAN já não teria razão de ser.

Mas o complexo industrial-militar e o establishment da Guerra Fria não cederiam facilmente, e Bush Pai era homem fácil de convencer. Com os vetos no Conselho de Segurança, e nações do Terceiro Mundo incluídas como membros, a ONU tornou-se absolutamente inútil para o serviço de apoiar projeções do poder dos EUA. Com a OTAN, os EUA podiam fazer o que bem entendessem.

Sabe-se também que na Guerra ao Terror, a CIA assumiu muitas missões que, antes, foram dos militares – deslocar e usar os drones de Obama, por exemplo. E sabemos que, quando se trata de fabricar o caos em países distantes, o Departamento de Estado é a nova CIA.

A coisa opera principalmente através da National Endowment for Democracy (NED) e outras organizações ostensivamente “não governamentais”. A NED sempre atuou por toda a Ucrânia e outras repúblicas ex-soviéticas. Opera até dentro da própria Rússia.

Mas ainda não se sabe com certeza qual o papel que a NED e as demais ONGs tiveram na instigação dos eventos que começaram nas ruas de Kiev. Sabemos que serviram como catalisadoras, mas não sabemos sobre a extensão do envolvimento daquelas ONGs.

Sabemos, isso sim, que, no mínimo, e aparentemente em nome de alguma democracia, norte-americanos e europeus apoiaram um golpe contra governo democraticamente eleito; sabemos também que, nesse processo, deram renovado vigor aos demônios longamente reprimidos, da direita europeia no leste da Europa.

Desnecessário dizer que o povo ucraniano tinha objeções legítimas contra o governo deles; era governo corrupto, suas políticas econômicos eram ruinosas. O povo líbio tinha objeções legítimas contra o governo deles e, também os sírios e os egípcios e outros.

A questão é que, por projeto e plano, ou por inépcia, sempre que EUA e União Europeia metem-se em assuntos de outros povos, as coisas sempre pioram muito; quase sempre pioram muito mais que muito.

Daí a situação que se vê fermentar hoje na Crimeia.

Ainda é cedo para pânico. Afinal de contas, Obama recuou de uma guerra contra o Irã, apesar de toda a pressão que o lobby israelense conseguiu mobilizar. Foi caso em que o interesse nacional predominou sobre a covardia política.

No caso atual, o interesse dos EUA é ainda mais claro: fazer guerra à Rússia seria muito pior que total loucura. Por isso, ninguém obra a favor disso, exceto a camarilha de sempre, de senadores Republicanos e os “especialistas” imbecis que os cercam.

Ainda assim, Obama deve considerar tentadora a ideia. Afinal, ele tem de zelar pelo seu “legado”: quem quer ser lembrado por drones, impasses por todos os lados, vigilância 24 horas/dia sete dias por semana contra tudo e todos, e Obamacare?

Obama quebrou a “muralha da cor”. Se tivesse renunciado no 1º dia depois da posse, teria deixado legado realmente glorioso. Mas, como logo todos descobriram, Obama nunca foi um Jackie Robinson.

Jackie Robinson, o 1º  jogador negro a atuar na principal liga de beisebol dos EUA  (1947)
A glória abundou na Guerra da Crimeia, ou, pelo menos, é o que deve ter passado pela cabeça de muitos rapazes com interesse em história. E se o jovem Barry Obama assistiu à “Carga da Brigada Ligeira” em idade ainda impressionável? Não sei, não faço ideia, mas é conjectura plausível o suficiente para despertar muita preocupação.

Fato é, contudo, que aquela aventura da Brigada Ligeira, muito diferente da Guerra Fria, não pode ser ressuscitada. A Guerra da Crimeia foi criatura de outra época, não se repetirá, sequer como farsa. Se Obama está à cata de glória, terá de procurar noutro lugar.

Na verdade, há semelhanças superficiais. Também foi o ocidente – França e Grã-Bretanha – contra a Rússia; e a Rússia ter acesso a porto de águas temperadas no Mar Negro também era motivo se preocupação. E sempre, então, como hoje, abundavam pretextos e racionalizações ocas e tolas.

Mesmo assim, os tempos eram outros. Hoje é difícil de imaginar, mas nos anos 1850s jamais teria passado pela cabeça de alguém na Grã-Bretanha ou na França, e menos ainda nos EUA – e não passou – que algum dia o ocidente teria de se defender contra o oriente muçulmano. Não esqueçam: o Império Otomano era aliado de Grã-Bretanha e França.

Naqueles tempos, o choque de civilizações se dava entre a cristandade do ocidente e do oriente. Aí, precisamente, os belicistas procuravam e obtinham os seus pretextos. A questão que supostamente teria desencadeado a Guerra da Crimeia foi o controle sobre santuários cristãos em Jerusalém – cidade eternamente disputada e problemática. Franceses e britânicos uniram-se aos otomanos, alegadamente para impedir que a Igreja Russa Ortodoxa deslocasse várias seitas Protestantes e a Igreja de Roma.

Desnecessário dizer que o pretexto central tinha tanto a ver com aquela Guerra da Crimeia quanto a democracia tem, hoje, a ver com as maquinações de EUA e Europa na Ucrânia. Naquele momento, como hoje, tudo era, como sempre, manobra geopolítica.

As potências ocidentais nos anos 1850s nunca tinham ouvido falar, nem davam qualquer importância ao petróleo do Oriente Médio. Mas muito se interessavam, sim, por suas várias “possessões” asiáticas – sobretudo a Índia. Queriam promover o evanescente Império Otomano, para conseguir manter ao largo o Império Russo. O Império Otomano podia ser controlado; o Império Russo era rival que os europeus queriam destruir.

Hoje, claro, a Rússia não tem interesse algum pela Turquia, nem quer dominar o leste do Mediterrâneo. Muito lhe agrada deixar Constantinopla (Istambul) para os turcos. Quer pacificar os muçulmanos em seu território, mas não quer somar os muçulmanos à população da Rússia.

John Kennedy
Mas a Rússia, sim, sim, quer segurança nas suas fronteiras. George Washington e os homens e mulheres que pensavam à volta dele compreendiam esse desejo; lembrem-se da Doutrina Monroe. Até John Kennedy entendia: quase pôs fim ao mundo como o conhecermos, e pela mesma razão (quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba) que hoje mobiliza os russos.

A Rússia quer também proteger os direitos e as propriedades de russos que vivam no exterior. Os fundadores da república norte-americana aprovariam imediatamente também essa ideia (o que os piratas da Barbary Coast logo perceberam, para muito lamentarem), como também logo perceberam (e muito lamentaram) os mexicanos e os norte-americanos nativos e incontáveis outros povos, com o passar dos anos.

Até Ronald Reagan entendia bem tudo isso. Quando Reagan e seus conselheiros decidiram que a “Síndrome do Vietnã” já estava a atrapalhar por tempo demais o ímpeto predador do império, usaram pretextos inventados (que de que estudantes norte-americanos, que estudavam Medicina em Grenada, estariam sendo ameaçados), para remobilizar seus soldados.

Fato é que, não se sabe por que, Putin é hoje o único demônio ativo no planeta. Não é coisa que só senadores Republicanos e “especialistas” da direita estejam dizendo. NÃO! Pergunte a qualquer liberal! Se conseguir aguentar sem vomitar, sintonize a rádio NPR ou o canal MSNBC.

No caso do Vietnã, muitos liberais no final da guerra já estavam mais espertos e começavam a ver os fatos. Hoje, só tipos irrecuperáveis como John McCain ainda defendem aquela guerra. E, embora a imprensa-empresa liberal tenha sido tão servil ao governo depois do 11/9 como é hoje sobre os eventos na Ucrânia e na Crimeia, ninguém, hoje, fora do círculo familiar dos Cheney e dos Bush, ainda pensa que a Guerra do Iraque foi boa ideia.

Sobre a Iugoslávia, os liberais continuam tão cegos como sempre. E, porque foi Obama quem bombardeou, ainda há liberais em torno dele que pensam que bombardear a Líbia foi boa ideia. Que bando de gente lamentável, lastimável, sem salvação possível, tornaram-se os liberais norte-americanos!

Por tudo isso, não contem com os liberais para ajudá-los a compreender como e por que – quando Obama e seus agregados culpam Putin por tudo que eles mesmos fizeram – o que mais se vê são liberais que se se apresentam à opinião pública como se fossem o “órfão” da piada. No futuro, os historiadores verão, assim como tantos hoje veem já bem claramente o Vietnã e o Iraque; mas “no futuro” talvez já seja tarde demais.

Por sorte, a política exterior russa está em mãos muito mais inteligentes, lúcidas, espertas que a dos EUA. Faz pouco tempo, os russos – de fato, foi Putin em pessoa – salvaram Obama de meter-se numa guerra catastrófica contra a Síria, depois de o próprio Obama ter armado a arapuca para si mesmo, com declarações imbecis sobre uma “linha vermelha” que Bashar Al-Assad não poderia atravessar.

Agora, outra vez, as melhores esperanças dos EUA estão nas mãos dos russos. Se o que acontece na Crimeia ficar na Crimeia, os EUA ficaremos devendo mais essa aos russos.
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Notas dos tradutores

[1] “Ninguém põe vinho novo em odres velhos, porque arrebentam os odres e derrama-se o vinho e estragam-se os odres. Vinho novo é para odres novos, e ambos se conservam” (Bíblia, Mateus 9:14-17).

[2] A notícia apareceu em 5/3/2014, NBC News: “Report: Hillary Clinton Says Putin Behaving Like Adolf Hitler”. Dia seguinte, OBVIAMENTE, já estava, requentada e REPETIDA, n’O Estado de S.Paulo, o jornal que só MACAQUEIA “noticiário” de agências norte-americanas.
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[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Rússia sob ataque

14/2/2014, [*] Paul Craig Roberts – Institute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guerra Fria
Em vários de meus artigos, tenho explicado que a União Soviética sempre serviu com força de contenção contra o poder dos EUA. O colapso da União Soviética abriu as comportas para a ambição de dominação dos EUA sobre o mundo. Agora, a Rússia de Putin, a China e o Irã são as únicas forças de contenção contra a agenda neoconservadora.

Os mísseis nucleares russos e a tecnologia militar fazem da Rússia o maior obstáculo militar contra a dominação norte-americana. Para neutralizar a Rússia, os EUA quebraram os acordos Reagan-Gorbachev e expandiram a OTAN para dentro de territórios que, antes haviam sido do império soviético; e agora querem incorporar à OTAN também territórios que foram da própria Rússia – a Geórgia e a Ucrânia.

Os EUA romperam o tratado que bania os mísseis antibalísticos e implantaram bases de mísseis antibalísticos na fronteira da Rússia. Os EUA mudaram a própria doutrina de guerra nuclear para permitir o primeiro ataque nuclear.

Tudo isso visa a diminuir o poder de contenção da Rússia e, assim, a diminuir a capacidade da Rússia para resistir aos desígnios de Washington.

O governo russo (e também o governo da Ucrânia) permitiu tolamente que várias ONGs mantidas pelos EUA operassem como agentes dos EUA, disfarçadas como “organizações de direitos humanos”, para “construir a democracia” etc.. O evento do “agito das bucetas” [orig. “pussy riot”] foi evento planejado e executado para expor imagem negativa de Putin e da Rússia. (As mulheres foram recrutadas como figurantes úteis).

O ataque pela imprensa-empresa ocidental contra os Jogos Olímpicos de Sochi são parte da operação para ridicularizar e demonizar Putin e a Rússia. Washington decidiu que Putin e a Rússia não terão espaço para exibir imagem de sucesso em nenhum setor, seja a diplomacia sejam os esportes ou os direitos humanos.

A imprensa-empresa nos EUA é um Ministério da Propaganda para o governo e as empresas, e ajuda Washington a pintar a Rússia sempre com cores nefandas. Stephen F. Cohen descreve a cobertura que a imprensa-empresa norte-americana dá à Rússia como “um tsunami de artigos vergonhosamente antiprofissionais e politicamente incendiários”.

Como restos da Guerra Fria, a imprensa-empresa nos EUA ainda conserva imagem de imprensa livre, na qual se poderia confiar. De fato, já não há imprensa livre nos EUA (exceto alguns sites de Internet).

Rússia - Vista aérea do parque olímpico de Sochi-2014
(clique na imagem para aumentar)
Durante os últimos anos do governo Clinton, o governo dos EUA permitiu que cinco conglomerados gigantes concentrassem toda a mídia ainda variada, dispersa e, em certo sentido, ainda independente, que havia. O valor dessas mega-empresas depende das licenças para operar concedidas por órgãos federais. Assim sendo, as empresas-imprensa não se atrevem a ir contra o governo, em nenhuma questão realmente importante.

No Brasil o fenômeno é mais complexo e muito menos estudado (de fato, NÃO É ESTUDADO). Aqui, as empresas-imprensa – não mais que cinco, seis empresas, todas de origem familiar – também dependem de concessão do Estado para operar.
Mas, muito estranhamente, essas privilegiadíssimas empresas-imprensa não fazem outra coisa além de distorcer fatos e acontecimentos sempre para fazer-crer que tudo, qualquer coisa, e exposta para soar como catastroficamente péssima para “o país”, é culpa exclusivamente do partido que está no governo e na chefia do Estado há mais de dez anos e nunca, em nenhum caso, seria culpa dos (sempre os mesmos) que governaram o Brasil sem parar um dia desde o golpe de 1964 até a primeira posse do presidente Lula.
Assim se vê que, no Brasil, a doença que já matou o jornalismo e está matando as próprias empresas-imprensa NÃO É a falta de “liberdade de expressão”, mas talvez seja... o excesso de “direitos” que o Estado e o governo garantem, mesmo depois de UMA DÉCADA de governos populares... a seis famílias-empresas “midiáticas”?! Será isso?! Como assim?! [NTs].

Além disso, as empresas-imprensa nos EUA já não são comandadas por jornalistas, mas por executivos de empresas de propaganda & marketing e ex-funcionários do governo – sempre com um olho posto no mercado publicitário e nos anunciantes e o outro olho posto no acesso fácil a “fontes” do governo.

No Brasil também isso é diferente: aqui, as empresas-imprensa (todas deficitárias e fracassantes) são também comandadas por gente de propaganda & marketing a serviço de grandes anunciantes (indústria da construção civil, indústria automobilística, indústria das escolas e universidades privadas, indústria da saúde, indústria da alimentação, a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) em geral, inteirinha; e a serviço, também, do latifúndio), mas ninguém tem interesse em ter acesso fácil a qualquer fonte do governo: aliás, é o contrário.
O governo (poder concedente dos licenças para que as empresas-imprensa de televisão operem) ABSOLUTAMENTE NÃO TEM ACESSO aos veículos.
E aos veículos da imprensa-empresa, no Brasil, só interessa acesso fácil à oposição... o que, afinal, jamais foi difícil e sempre foi fácil, muito fácil, facílimo, é claro, sempre, desde 1964. [NTs]

Washington está usando a mídia para preparar o povo norte-americano para a confrontação com a Rússia; e para influenciar os russos e outros povos do mundo contra Putin. Washington adoraria ver, na presidência da Rússia, um russo mais dobrável que Putin.

Muitos russos são facilmente enganáveis. Tendo conhecido o fim do regime comunista e o caos do colapso, muitos russos creem, ingenuamente, que os EUA são o melhor país do mundo, em cujos governantes se pode confiar e crer. Essa ideia idiota, que se vê manifesta na Ucrânia ocidental, enquanto os EUA vão desestabilizando o país, preparando-se para tomar conta de tudo, é importante arma que os EUA usam para desestabilizar a Rússia.

Há russos que vivem a inventar desculpas para os EUA, explicando que a retórica anti-Rússia não passa de um resto que teria sobrado dos velhos estereótipos da Guerra Fria. “Velhos estereótipos” é engodo, mais uma ideia que se inventa para desencaminhar a atenção, para distrair. Washington está bombardeando a Rússia. A Rússia está sob ataque, e se os russos não se aperceberem do que está acontecendo, serão varridos do mapa.

Muitos russos estão dormindo ao volante, mas o Clube Izborsk está tentando acordá-los. Em artigo de 12/2/2014 publicado na revista russa Zavtra, militares e especialistas estrategistas alertam que a utilização pelo “ocidente” dos protestos de rua, para reverter a decisão do governo da Ucrânia de não se integrar à União Europeia, produziu uma situação a partir da qual se torna possível um golpe por forças fascistas. Esse golpe levaria a uma guerra fratricida na Ucrânia e constituiria “séria ameaça estratégica contra a Federação Russa”.

Os especialistas concluíram que, caso esse golpe seja bem-sucedido, as consequências para a Rússia seriam:

— perder Sebastopol como base da Frota do Mar Negro da Federação Russa;

— expurgos de russos no leste e no sul da Ucrânia, o que geraria ondas massivas de refugiados;

— perda de capacidades de manufatura em Kiev, Dnepropetrovsk, Kharkov, onde estão instaladas as indústrias que produzem para os militares russos;

— supressão da população falante de russo, numa ucranização forçada;

— estabelecimento de bases militares de EUA e OTAN na Ucrânia, inclusive na Crimeia; e o estabelecimento de centros de treinamento para terroristas a serem implantados no Cáucaso, na bacia do Volga e talvez até na Sibéria; e

— disseminação de protestos orquestrados em Kiev para grupos étnicos não russos em várias cidades da Federação Russa.

Bases navais e aéreas russas no Mar Negro (losangos vermelhos)
Os estrategistas russos concluem que consideram “catastrófica para o futuro da Rússia a situação que está tomando forma na Ucrânia”.

O que fazer? Nesse ponto, os estrategistas que analisaram corretamente a situação presente, erram. Recomendam campanha nacional pela mídia, para expor a natureza do ataque que está em andamento, e que o governo da Federação Russa invoque o Memorando de Budapeste, de 1994, para convocar conferência de representantes dos governos de Rússia, Ucrânia, EUA e Grã-Bretanha, para enfrentar as ameaças que hoje pesam contra a Ucrânia. No caso de o Memorando de Budapeste que determina e protege a soberania da Ucrânia ser desrespeitado por uma ou mais das partes reunidas, recomendam que – usando como precedente as negociações Kennedy-Khrushchev, que superaram a crise dos mísseis de Cuba em 1962 – a Federação Russa negocie diretamente com Washington uma solução para a crise que se desenrola na Ucrânia.

Essa proposta é delírio. Os especialistas russos estão-se autoenganando. Os EUA são autores perpetradores do que se vê acontecer na crise ucraniana e têm planos para tomar a Ucrânia, e exatamente pelas mesmas razões que os especialistas diagnosticaram com acerto. Trata-se exatamente de um plano para desestabilizar a Rússia e para negar a Putin qualquer sucesso diplomático por, até agora, ter conseguido impedir que os EUA atacassem militarmente a Síria e o Irã.

Na essência, se os EUA forem bem-sucedidos na Ucrânia, a Rússia estará praticamente eliminada como fator de contenção contra a dominação dos EUA sobre o mundo. Com isso, só restará a China.

Suspeito que a Ucrânia tenha sido levada ao ponto de ebulição, para tirar vantagem de um momento em que Putin e a Rússia concentravam-se na preparação dos Jogos Olímpicos de Sochi. Não parece haver dúvida alguma de que a Rússia está diante de grave ameaça estratégica. Quais são, então, as reais opções, para a Rússia? Com certeza, nenhuma real opção para salvar a Rússia inclui contar com qualquer boa vontade de Washington.

Foto aérea parcial da Base Naval russa de Sebastopol, Ucrânia (Mar Negro)
Uma possibilidade é a Rússia operar segundo o script norte-americano. Se a Rússia tem drones, pode usá-los como fazem os EUA, para assassinar os líderes dos protestos patrocinados por Washington. Ou a Rússia pode mandar equipes de suas Forças Especiais para assassinar os agentes que estão operando contra a Rússia. É o que os EUA estão fazendo em todo o mundo. Se a União Europeia continuar a trabalhar para desestabilizar a Ucrânia, a Rússia pode cortar o fornecimento de petróleo e gás para todos os governos europeus fantoches dos EUA (seriam “sanções incapacitantes”, do tipo que Hillary Clinton tanto aprecia).

Outra possibilidade é o Exército Russo ocupar a Ucrânia ocidental, enquanto se tomam medidas para dividir a Ucrânia, a qual, por 200 anos e até recentemente, foi parte da Rússia. Não há dúvida de que a maioria da população da Ucrânia ocidental prefere a Rússia, à União Europeia. É possível, até, que muitos da população ocidental, que passaram por lavagem cerebral, parem de babar ódio pela boca por tempo suficiente para que percebam que entregar-se às mãos de EUA/União Europeia implica entregar-se para serem saqueados, como já aconteceu na Letônia e na Grécia.

Listo aqui os desdobramentos menos perigosos da crise que EUA e seus estúpidos fantoches que governam países europeus criaram; não estou dando conselhos ou fazendo recomendações à Rússia. Porque o pior desdobramento possível é uma guerra muito perigosa.

Base aérea russa de Gudauta, Abicássia - Georgia
Se os russos nada fizerem, a situação se converterá num quadro inadmissível para eles. Se a Ucrânia se mover na direção de integrar-se à OTAN, com supressão da população russa, o governo russo terá de atacar a Ucrânia e derrubar o regime ali instalado por forças externas à região; sem isso, só restará ao governo russo render-se aos EUA. Dado que não haverá rendição, o efeito da temerária ameaça estratégica que Washington está impondo à Rússia pode ser a guerra atômica.

Victoria Nuland, a hiper-neoconservadora, está em sua sala no Departamento de Estado, escolhendo, risonha, os nomes que imporá como governantes da Ucrânia. O governo em Washington não sabe dos riscos de imiscuir-se nos assuntos internos da Ucrânia? O presidente e o Congresso dos EUA não sabem que Nuland está fabricando o apocalipse?

Quanto aos cidadãos, não, ninguém está prestando atenção. Ninguém sabe que menos de meia dúzia de ideólogos neoconservadores trabalham a favor de empurrar o mundo para destruição cada vez maior.

NOTA: Recebi, num e-mail da Moldávia, país que tem fronteiras com Romênia e Ucrânia, com cidades sobre a fronteira Moldávia-Ucrânia, com denúncia de que há moldávios  recebendo 30 euros/dia para posar como “manifestantes” ucranianos. Peço que quem tenha informação consistente, distribua; ou me indique alguma fonte publicada que comprove essa denúncia.



[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. 

Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.