Mostrando postagens com marcador Brookings Institution. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brookings Institution. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ucrânia: Mas... em que dará isso tudo?!

26/5/2014, [*] Moon of Alabama  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Piotr Poroshenko vence eleição presidencial na Ucrânia
Noirette comenta, no final dos comentários do último postado sobre a Ucrânia:

Sou menos otimista que b.

Realizar as eleições foi provocação doentia, pervertida.

Foi como se os golpistas dissessem – nós controlamos o “Estado” [seja lá o que for] e fazemos o que bem entendemos. Vocês aí nada têm a ver com a coisa e nós venceremos. Acho que antes da eleição talvez houvesse ainda uma pequena chance de “pacificação” e é possível que o tempo ajudasse. Mas depois da eleição, não, chance nenhuma.

Claro, oficialmente ou ostensivamente, a eleição foi realizada para legitimar os golpistas-de-Kiev com uma farsa de “democracia”, e para criar um novo interlocutor para Putin e para o “ocidente”, que é o que a maioria parece estar vendo no “eleito”.

Última pesquisa para eleição presidencial na Ucrânia
(clique na imagem para aumentar)
O problema de Poroshenko não é ele ser judeu, mas ele ser o pior tipo de oligarca bandido. “Magnata do Chocolate” [risos, risos], segundo a imprensa-empresa ocidental. Em resumo, exatamente tudo que o povo da Ucrânia não quer e contra o que lutou e continua a lutar.

Em minha modesta opinião, todas as esperanças de uma Ucrânia “unida” ou “unitária” são hoje praticamente nada, sumiram. Lembrem, Yanukovitch tentou manter o status quo e o status quo veio abaixo. A proposta de “federalização” (Putin e outros), com estado central fraco, plus alta independência para as “Regiões” (em minha opinião, as oblasts são pequenas demais), nada significa, de importante.

Nesse momento, não há governo legítimo, mas um vácuo, que suga para dentro do buraco todos os tipos de atores. Isso continuará e degenerará, apesar do presidente “eleito”, e criará mais linhas obscuras. A dificuldade, como vejo as coisas, nem é tanto a língua, a cultura ou a política (partidos políticos na Ucrânia não passam de arranjos entre os próprios oligarcas), mas a ideia da “finlandização”, ou o que os franceses chamam de “estado tampão” [no sentido de uma camada para absorver choques].

Como pode ser restaurado aquele status quo ante, depois de tanta interferência? Quantos dos diferentes partidos realmente desejam que seja restaurado? Os golpistas-de-Kiev acham-se em posição de criar esse estado de coisas e recusar qualquer proposta que não seja de “uma Ucrânia unida”. Francamente, isso tem de ter sido deliberado. E Poroshenko foi parte da trama e teve apoio ocidental. (Sobretudo – mas não porque alguém dê alguma bola para o que os ucranianos desejem – meu palpite é que eles não estão gostando dessa ideia de Poroshenko.)

Última pesquisa para eleição parlamentar por partido político
(clique na imagem para aumentar)
(1) Lembro um detalhe histórico ilustrativo. Yats, Yulia e Yushenko pediram para ser integrados à OTAN, em janeiro de 2008. O pedido foi apoiado por Bush, Obama e McCain. Subsequentemente, por causa de oposição interna, o Parlamento ucraniano foi bloqueado e não funcionou, de 25 de janeiro até 4 de março de 2008. Na reunião de cúpula da OTAN em abril, o pedido foi negado: britânicos e franceses votaram contra.

Minha opinião: tudo muito bom, tudo muito bem, mas é preciso considerar a realidade, a realidade econômica, que o Instituto Brookings tentou explicar.

A Ucrânia já foi espremida feito limão e os recentes empréstimos do FMI e do Banco Mundial não durarão para sempre. Nem EUA nem União Europeia querem pagar a conta dos 40 milhões de ucranianos. Não haverá portanto, no final, outra saída para Kiev – e não importa quem esteja mandando lá – que não implique acertar as coisas com a Rússia e aceitar as condições dos russos.

A Ucrânia precisa do gás e do petróleo russos e precisa da cooperação de defesa com a Rússia. Ainda não encontrei argumento que desminta isso e dê bases a conclusão diferente.

Os neoconservadores, é claro, tentarão obter outro resultado e apoiarão qualquer lunático ou lunática que apareça. Mas essa gente, como nós todos sabemos e já vimos tantas vezes, não tem qualquer senso de realidade em campo (mesmo que, tantas vezes, acabem eleitos).


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog  Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


domingo, 25 de maio de 2014

Ucrânia: Grande “think-tank” ocidental reconhece derrota

24/5/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na tendinha do Pirulôco na Vila Vudu: É ler esse pequeno postado, curtinho, simples, apenas alguns paragrafinhos PERFEITOS, e perguntar-se: Mas pra que merda, pô, servem “análises” de williamswacks & celsoslafers & mitres & boechats, pela televisão que desgraça o Brasil-2014?! E o canal GloboNews, meu saco, o que é aquiiiiiilo?! &%@$*%*! Mas que droga! Mas que merda! Todo o grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) tem de ser APAGADO e/ou DESLIGADO DA TOMADA...

"Outdoors" com fotos dos principais candidatos à presidência da Ucrânia 
Não há, simplesmente, alternativa viável para a Ucrânia, exceto cooperar com a Rússia e pagar o preço que tiver de pagar para cooperar com a Rússia.

Por isso a Rússia mantém-se sentada à espera de que essa verdade simples se torne patente para todos.


Putin agora sentará e deixará que o ‘'ocidente'’ se engalfinhe para decidir quem enterrará toneladas de dinheiro no poço sem fundo em que a Ucrânia se converterá (...) Putin agora só terá de esperar que a maçã caia da árvore.


Por que a Rússia deveria tentar criar instabilidade no leste e no sul da Ucrânia, quando o governo golpista em Kiev está fazendo o seu melhor para criar muita instabilidade, ele mesmo? À agitação crescente pode-se acrescentar o provável colapso econômico que logo virá. Qualquer ajuda “ocidental” será condicionada à austeridade e empobrecimento das pessoas, bem a reforma política que os oligarcas e os políticos atuais não vão permitir. Nessa condição, não há dúvida de que haverá mais e mais agitação enquanto a Ucrânia desmorona; Rússia absolutamente não precisa intervir para ‘'obter’' confusão.
A Rússia não vai fazer nada de ruim . A Rússia, de fato, vai fazer NADA. A Rússia não vai ajudar, nem econômica nem politicamente, a menos que Kiev e o “ocidente” estejam dispostos a pagar o preço: uma Ucrânia federalizada com regiões fortes e governo central fraco.

Dois meses depois, essa verdade afinal chega aos pensadores medíocres que enchem os ditos “tanques de pensamento” “ocidentais”.

Brookings Institution em dia de palestra de Christine Lagarde do FMI
O Brookings Institution  que, em geral, apoia as políticas de Obama, afinal admitiu que é impossível haver Ucrânia sem Rússia; e que, portanto, os EUA têm de cooperar com a Rússia no caso da Ucrânia, porque essa é a única saída que ainda resta. Tudo se resume ao dinheiro.

A perda do acesso a mercados russos já está mordendo na carne e matará toda a indústria pesada e de armamento no leste da Ucrânia. É perda muito, muito, muito pesada:

No mínimo, estimados $276 bilhões de dólares, para tirar o oriente do mercado. É impensável. O ocidente de modo algum pagará essa quantia.
...

O ponto chave aqui é que não há Ucrânia viável, sem importantes contribuições dos dois lados, da Rússia e do Ocidente. De todas as alternativas para o futuro da Ucrânia, uma Ucrânia exclusivamente ocidental é a menos factível. Mas uma Ucrânia totalmente sob controle da Rússia e absolutamente sem laços com o ocidente é, infelizmente, possível.

Uma Ucrânia no “ocidente” é impossível. Uma Ucrânia dentro da Federação Russa é possível, mas pesará sobre a Rússia, pelo menos no curto prazo. Uma Ucrânia finlandizada, na qual a Rússia mandará muito, é o melhor resultado possível para todos os lados.

As próximas eleições-farsa, que elegerão o rei do chocolate, Poroshenko sobre quem a Rússia tem muita influência – os mercados e algumas das indústrias dele estão em território russo – é hoje a folha-de-parreira atrás da qual o “ocidente” tentará ocultar suas vergonhas, enquanto tenta escafeder-se de lá.

Piotr Poroshenko comemora antecipadamente sua vitória eleitoral
Poroshenko será mandado jurar fidelidade à Rússia e assinar tratado de rendição sem condições. Ele terá de:

(...) construir relações com a Rússia (posição natural para a Ucrânia, que acomoda bem os interesses estratégicos da Rússia). Por essa razão básica, os políticos ucranianos não têm sequer alguma micro-chance de ignorar os seus laços passados, presentes ou futuros com a Rússia, e pouco importa que digam que ignorem precisamente esses laços.

Na sequência, terá de suprimir os nazistas no oeste da Ucrânia. Os itens políticos do Acordo de Associação à União Europeia, que o governo golpista assinou, serão revogados e os itens econômicos absolutamente não serão assinados.

Tudo isso se resume a avassaladora, completa derrota para os neoconservadores, os quais erraram absolutamente todas as avaliações que fizeram da situação:

Os estrategistas dos EUA talvez não tenham antevisto nada disso por causa do equilíbrio doméstico extremamente delicado entre muitas diferentes forças e atores; e o estado ucraniano pode ter-se simplesmente desintegrado ante uma reviravolta geopolítica drástica, a qual, de fato, ainda está em curso.
...

Os EUA descobrem-se mais uma vez na incômoda posição de terem contribuído decisivamente para uma dada etapa decisiva [...], apenas para, no momento decisivo, abandonarem em campo, mais uma vez. sucessivamente os parceiros e aliados dos EUA.”

Os neoconservadores planejaram esse ataque contra a Rússia, via Ucrânia e Crimeia, e, mais uma vez, fracassaram. Não implica dizer que a questão esteja superada. Ante a derrota, os neoconservadores são doidos para “avançar” tudo e criar “escaladas” as mais ensandecidas.

Fato é, porém, que como se viu no Iraque e no Afeganistão, as “avançadas”, “escaladas” e surges dos norte-americanos têm pouca probabilidade de alterar resultados já configurados e já inevitáveis.  




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir: