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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Papa Francisco contra o neoliberalismo

27/11/2013, Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Papa Francisco e o menino
O Papa Francisco distribuiu uma Exortação Apostólica (já em português) na qual expõe seus pensamentos sobre como e por quais vias deve andar a igreja católica. Parte do documento é uma crítica ao sistema econômico neoliberal dominante no “ocidente” e que se dissemina pela globalização.

Aqui, alguns excertos da Evangelium Gaudium [A Alegria do Evangelho] (negritos do autor)

Não a uma economia da exclusão

53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída.

[...]

54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. [...] A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.

Não à nova idolatria do dinheiro

[...]

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende à antropofagia em cada um e todos para aumentar os lucros, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Não a um dinheiro que governa em vez de servir.

[...]

58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.

Não à desigualdade social que gera violência

59. [...] Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas.

Deputados e senadores conservadores nos EUA [no Brasil, então NEM SE FALA!] muitos dos quais são católicos, terão problemas com essas teses.

Será que denunciarão o Papa como comunista antissemita?

Se a igreja católica, os crentes e os simpatizantes abraçarem esse discurso e começarem a trabalhar na linha que o seu Papa Francisco sinalizou, haverá grandes e muito positivas consequências para todos nós.
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[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

sábado, 27 de abril de 2013

Pepe Escobar em: “Strip tease” pós-história


26/4/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

You used to be so amused
At Napoleon in rags
Bob Dylan, “Like a Rolling Stone” [1]


Interessante seria convocar o espírito retrô de Burt Bacharach para definir nosso futuro geopolítico e começar a cantar “What the world needs now / is love, sweet love” [O mundo agora precisa de amor, doce amor] a seguir:


Pepe Escobar
Perdoem castigar o vinil. Interrompemos o show amável-ingênuo, para trazer até vocês as últimas notícias. Vocês acabam de ser catapultados para a era no novo “herói” hobbesiano – digital e virtual, além de físico.

O capitalismo de cassino – também chamado neoliberalismo super turbinado – está destruindo sem piedade os últimos vestígios do estado de bem-estar e o consenso igualitarista no ocidente industrializado, com a única exceção, talvez, ímpar, da Escandinávia. Estabeleceu um consenso “Neo-Normal”, metendo-se nas vidas privadas, dominando o debate político e institucionalizando, porque-sim, a marquetização da própria vida – ato final dessa feroz exploração de recursos naturais, terra e trabalho barato, pela empresa privada. 

David Harvey
Integração, socialização e multiculturalismo estão sendo corroídos por desintegração, segregação e disseminada dessocialização – consequência direta da noção, cunhada por David Harvey, da “desacumulação” (a sociedade se autodevora).

Esse estado de coisas é o que Lieven De Cauter, flamengo, filósofo e historiador da arte, em seu livro Entropic Empire,  chama de “a fase Mad Max da globalização”.

É mundo hobbesiano, de guerra civil global latente, guerra de todos contra todos; os que-têm econômicos contra os que-nada-têm; wahhabitas intolerantes contra xiitas “apóstatas”; os filhos do Iluminismo contra todas as modalidades de fundamentalistas; a militarização da África pelo Pentágono, contra o mercantilismo chinês.

A balcanização e a desintegração do Iraque, detonadas pela operação “Choque e Pavor”, do Pentágono, há dez anos, foi uma espécie de prelúdio para essa Brava Nova Desordem. A visão de mundo neoconservadora, de 2001 a 2008, fez avançar o projeto, com sua ideologia de “Dar Cabo do Estado”, por toda parte; mais uma vez, o Iraque foi o melhor exemplo. Mas, da etapa de bombardear nação soberana até fazê-la reverter à Idade da Pedra, o projeto passou à engenharia de guerras civis – o que já fizeram na Líbia, e os engenheiros esperam fazer também na Síria.

Analistas-de-poltrona influentes ou pelo menos pagos por fundações endinheiradas – quase sempre nos EUA, mas também na Europa Ocidental – que vivem a pontificar sobre “caos e anarquia”, só fazem reforçar uma profecia que se autorrealiza. Se os tais “caos e anarquia” viram-se contra eles, é porque refletem a economia libidinal predominante, da TV-reality a todas as variantes do que De Cauter descreve como “jogos psicóticos” – numa sala, num octógono, numa ilha ou, virtualmente, numa caixa digital.

Portanto, bem-vindos à geopolítica do jovem século 21: idade de guerra ininterrupta (virtualizada ou não), aguda politização e catástrofes e mais catástrofes, às pilhas.

Karl Marx
Depois de Hegel, Marx e aquele medíocre subalterno do Império, Fukuyama; mas também, depois de brilhantes desconstruções desconstruídas por Gianni Vattimo, Baudrillard ou Giorgio Agamben, eis o que conseguimos.

Para Marx, o fim da história seria uma sociedade sem classes. Muito romântico. Em vez disso, na segunda metade do século 20, o capitalismo casou-se com a democracia liberal ocidental até que a morte os separe (e a morte já paira sobre a dupla). O Dragão Vermelho, o chinês, uniu-se à festança e trouxe um novo brinquedinho: o neoliberalismo de partido único.

Um consumidor individualista – autoindulgente, passivo, facilmente controlável, afogado numa forma pervertida de democracia que favorece os apaniguados – e jogadores muito ricos; como poderia tal arranjo, algum dia, ser ideal humanista? Mesmo assim, o trabalho de Relações Públicas foi tão bem feito, que a isso já aspiram legiões de pessoas, na Ásia, África, Oriente Médio e América do Sul. Mas os Donos (geoeconômicos) do Universo querem mais, muito mais.

Temos pois a pós-história, como última moda em matéria de reality show. E sua arma favorita é o neoliberalismo de guerra.

Giorgio Agamben
Escolha seu lado

Estamos já familiarizados com o paradigma de Giorgio Agamben, do estado de emergência – ou estado de exceção. O exemplo radical, até meados do século 20, foi o campo de concentração. Mas a pós-história é mais criativa.

Temos hoje um campo de concentração só para muçulmanos – em Guantánamo. Temos um simulacro de campo de concentração – na Palestina, virtualmente murada e sob vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, e onde “a lei” é o que diga uma potência ocupante. E vimos já o que aconteceu – como um ensaio geral – semana passada em Boston; a eufemística “interdição” [orig. “lockdown”] de todas as ruas e vias da cidade, com suspensão da lei normal, substituída pela lei marcial: nenhuma liberdade de ir e vir; nenhuma rede de telefonia celular operante; e, se você for até o bar da esquina para comprar um refrigerante, pode ser legalmente abatido a tiros no quintal de sua casa. Toda uma grande cidade do norte industrializado dos EUA foi convertida em campo de concentração high-tech.

Agamben falou do estado de exceção como um excesso, de cima para baixo, da soberania; e do estado de natureza – como em Hobbes – como uma ausência, de baixo para cima, de soberania. Depois da Guerra Global ao Terror [orig. Global War on Terror (GWOT)], a qual, diga o Pentágono o que disser, é, sim, perpétua (também chamada “A Longa Guerra”, como definida em 2002, e parte da doutrina da Dominação de Pleno Espectro [orig. Full Spectrum Dominance] do Pentágono), já se pode falar de uma fusão.

A guerra ao terror, normalizada sedutoramente pelo governo Obama, foi e continua a ser um estado de exceção global, mesmo que as arapucas vão e venham: o Patriot Act; Ordens Executivas clandestinas; tortura – recentemente, um grupo bipartidário de investigação acusou todos os funcionários do governo George W Bush por prática do crime de tortura; entrega “extraordinária” de prisioneiros para serem torturados fora do território dos EUA, com colaboração de estados seculares então aliados do ocidente, como Líbia e Síria, para nem falar de nações da Europa Oriental e dos fantoches árabes de sempre, inclusive o Egito-de-Mubarak; e o sempre crescente aparelho de segurança nacional dos EUA.

Guantánamo - Centro de torturas mantido pelos EUA em território cubano
Em matéria de campo de concentração, mais uma vez, Guantánamo é exemplo perfeito, o qual, ao contrário do que Obama-candidato prometeu, permanecerá aberto indefinidamente, como algumas das muitas, muitíssimas prisões “secretas” da CIA da era-Bush.

Em todos esses casos, aconteça o que acontecer na vida social – suspensão, dissolução, balcanização, implosão, um estado de emergência – o que acontece aos cidadãos é que a cidadania (bios) evapora. Mas as elites governantes – políticas, econômicas, financeiras – pouco ligam para a cidadania. Só se interessam por consumidores passivos.

Escolha a sua distopia

Drones da CIA lançando bombas de fragmentação sobre civis no Paquistão e Afeganistão
As distopias da Nova Desordem Global estão todas normalizadas. Já estamos familiarizados com o terrorismo de estado – como a guerra “secreta” dos drones  a CIA - contra as áreas tribais no Paquistão, no Iêmen, na Somália e, em breve, em outras latitudes africanas. Também já estamos familiarizados com o terrorismo de não estado, como o pratica essa nuvem que nós, no ocidente, chamamos de “al-Qaeda”, com suas miríades de franquias e copiadores.

Temos também um punhado de hiperestados – EUA, China, Rússia e a União Europeia como um todo – e muitos e muitos infraestados ou estados falidos, alguns por deliberação (Líbia; e a Síria, a caminho), além de estados-satélites, alguns dos quais são essenciais para o sistema controlado pelo ocidente, como o Clube Contrarrevolucionário do Golfo (CCG, Conselho de Cooperação do Golfo).

É sempre esclarecedor considerar o modo como o Pentágono interpreta esse mundo. Há aí um “núcleo integrador” que se opõe a uma “falha não integrada”. Só o núcleo importa, nesse caso a América do Norte e grande parte da União Europeia, mas não toda. Populações cabisbaixas, passivas, com uma elite consumidora – as rápidas, móveis elites da modernidade líquida, descritas por Bauman – e uma vasta massa de sobreviventes, grande parte dos quais descartáveis (como os milhões de europeus vítimas das políticas de austeridade da troika, que jamais voltarão a encontrar emprego decente).

Thomas Hobbes
Quanto à falha não integrada, é puro Hobbes. No caso da África – até praticamente ontem desprezada como fossa negra – há um jogo geopolítico de poder a mais: como contra-atacar a extraordinária penetração do mercantilismo chinês ao longo da última década. A resposta do Pentágono é implantar o Africom por toda parte; submeter nações independentes demais, como a Líbia; e, no caso da elite francesa, no mesmo barco, tentar reganhar algum tipo de músculo imperial no Mali, aproveitando-se precisamente da implosão e balcanização da Líbia.

Os ares da pós-história, seu ideal estético, é a cidade como parque temático. Los Angeles pode ter sido o arquétipo, mas os melhores exemplos são Las Vegas, Dubai e Macao. Na ausência de Umberto Eco e Baudrillard, que mostraram no espelho imagens de simulacros, pode-se seguir o arquiteto Rem Koolhaas – fino observador da demência urbana no sul da China – para entender o que significa espaço-lixo.

Há ainda a obsessão de segurança – de cidades como Londres convertidas em versão em crescimento do Panopticum de Bentham, ao patético ritual de strip tease - a que se assiste em todos os aeroportos, para nem falar dos condomínios cercados, chamados condo ou “comunidade”, que mais parecem átomos cercados, como emblema de uma civilização capsular. Contra-ataques de guerrilheiros, contudo, podem ser tão letais como sunitas iraquianos lutando contra norte-americanos no “triângulo da morte” em meados dos anos 2000s. Em São Paulo, Brasil – a mais perfeita megalópole violenta – as gangues “clonam” carros e chapas de licença, burlam a segurança à entrada de condomínios cercados, entram pela garagem aberta para eles e, dentro do prédio, assaltam sistematicamente apartamento por apartamento, piso a piso.

Você já é história

Em termos conceituais, a pós-história corta todas as esquinas. O fluxo da história está degradado como falso. O simulacro atropela a realidade. Vemos a história repetir-se, não como tragédia e farsa, mas como dupla farsa; exemplo superposto são os jihadis na Síria, armados exatamente como os antigos “combatentes da liberdade” no Afeganistão da jihad antissoviética dos anos 1980s, agindo em uníssono com a gangue ocidental no Conselho de Segurança da ONU, tentando aplicar à Síria o que aplicaram, e safaram-se, na Líbia: mudança de regime.

Também temos história que se repete como clonagem: neoliberalismo com características chinesas, batendo o ocidente no seu próprio jogo de industrialização – em termos de velocidade – enquanto, ao mesmo tempo, vai repetindo os mesmos erros, desde os excessos sem-noção de uma mentalidade de compra, até o respeito zero pelo meio ambiente.

Nem é preciso dizer que a pós-história sepulta o Iluminismo – tanto quanto favorece a emergência de todos os tipos de fundamentalismos. Assim sepultou também a lei internacional; de burlar a ONU para lançar a guerra contra o Iraque em 2003, a usar uma Resolução da ONU para lançar a guerra contra a Líbia em 2011. E agora a Grã-Bretanha e a França não fazem prisioneiros, tentando burlar a ONU ou até a própria OTAN e armar os “rebeldes” na Síria.

Temos pois um Novo Medievalismo que se casa com uma rica teocracia – como na Arábia Saudita e Qatar; dado que são aliados ocidentais, ou fantoches, internamente se mantêm medievais. Superposta, há a política do medo – que reina, essencialmente, na Fortaleza EUA e na Fortaleza Europa; medo do Outro, que pode ser ocasionalmente asiático, mas praticamente sempre é islâmico.

O que não temos é uma visão política/filosófica do futuro. Ou um programa político histórico; os partidos políticos só se preocupam com vencer a próxima eleição.

Como será um sistema pós-estado? Mentes independentes não confiam em blocos mamutes, assimétricos, instáveis como a União Europeia, ou o G-20, ainda que aspirem à multipolaridade como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul – que ainda não representam real alternativa ao sistema controlado pelo ocidente). Ninguém está pensando em termos de mutação estrutural do sistema. Marx estava mais do que certo nisso: o que determina a história são processos objetivos, concretos, palpáveis – alguns dos quais muito complexos – que afetam a infraestrutura econômica e tecnológica.

O que se pode inferir é que o real sujeito histórico doravante é a tecnologia – como Jean-Francois Lyotard e Paul Virilio já conceitualizavam nos anos 1980s e 1990s. A tecnologia continuará a avançar muito além do sistema capitalista. A tecnociência está na poltrona de pilotagem da história. Mas isso também significa guerra.

Guerra e tecnologia são gêmeas siamesas: virtualmente todas as tecnologias convertem-se em tecnologias militares. O melhor exemplo é a Internet, que mudou completamente as nossas vidas, com imensas ramificações econômicas e políticas; Pequim, em documento de 2010, pode ter saudado a Internet como uma “cristalização da sabedoria humana”, mas nenhum estado filtra mais informação na Internet que a China. Levando o cenário até um limite distópico, Eric Schmidt, da Google, argumenta, corretamente, que, com o desligar de uma conexão, em breve todo um país poderia até desaparecer da Internet.

Assim sendo, podemos, essencialmente, esquecer qualquer regressão utópica ao estado do nômade tribal – por mais que nos fascinem, seja na África ou no corredor Wakhan no Tadjiquistão. Se se examina a paisagem geopolítica do Marco Zero a Boston, os únicos “modelos” são declinações de entropia.

Alain Joxe
Com vocês, o Adão neoliberal

A arma favorita da pós-história é o neoliberalismo de guerra. A melhor análise desses últimos anos é, de longe, a do geoestrategista francês Alain Joxe, em seu livro Les Guerres de L'Empire Global [As Guerras do Império Global].  
Joxe mistura tudo, porque tudo está interconectado – a eurocrise, a crise europeia da dívida, ocupações e guerras, restrições de liberdades civis, elites totalmente corrompidas – para desmascarar o projeto do Império Global do Neoliberalismo, que vai muito além do Império Norte-Americano.

Classe rentista bling bling 
O objetivo final da financeirização é a acumulação ilimitada de lucros – sistema no qual os ricos ficam muito mais ricos, e os pobres ficam com literalmente nada (ou, no máximo, ficam com a austeridade). Os Donos do Universo da vida real são uma classe rentista desnacionalizada – não são sequer alguma nobreza, porque, neles, a falta de gosto e de senso crítico é aterradora, praticantes do mais desavergonhado bling bling.  

O que fazem é em benefício das empresas, não para manter funções dos estados. Nesse estado de coisas, aventuras militares tornam-se doutrina política. E uma nova tecnologia da informação – de drones a munição “especial” – pode ser usada contra movimentos populares, não só no Sul, mas também no Norte.

Slavoj Zizek
Joxe consegue demonstrar como uma revolução tecnológica levou ao mesmo tempo à gestão das Tecnologias da Informação (TI) dessa deusa, O Mercado, e à robotização da guerra. Assim sendo, temos aqui um mix de mutações econômicas, militares e tecnológicas, em paralelo, gerando uma aceleração das decisões que pulveriza totalmente o longo alcance da política, gerando um sistema incapaz de regular seja a finança seja a violência. Entre a ditadura dos “mercados” e a democracia social, adivinhem quem está vencendo, de longe, a queda de braço.

De fato, Slavoj Zizek já havia posto a questão chave do Declínio do Ocidente. O vencedor é um “capitalismo com valores asiáticos – o qual, é claro, nada tem a ver com o povo asiático e tudo tem a ver com a clara e presente tendência, do capitalismo contemporâneo, de limitar ou até de suspender a democracia”.

O filósofo francês Jean Claude Michea  leva a análise política ainda adiante. Argumenta que essa política pós-moderna tornou-se de fato uma arte negativa – definido a sociedade menos ruim possível. Eis como o liberalismo – que modelou a civilização ocidental – tornou-se, como neoliberalismo, a “política do mal menor”. Quer dizer... “mal menor” para os que mandam, é claro; e dane-se o resto.

Jean Claude Michea

Em outro livro crucial, (Le complexe d'Orphée : La gauche, les gens ordinaires et la religion du progrès) Michea oferece a deliciosa metáfora do Adão neoliberal como o novo Orfeu, condenado a escalar a via do Progresso, sem autorização para olhar para trás.

 

Não são muitos os pensadores contemporâneos equipados para arrasar, em proporções igualmente devastadoras, tanto a Direita quanto a Esquerda. Michea nos diz que ambas, Direita e Esquerda, submeteram-se ao mito original do pensamento capitalista: essa “antropologia negra” que faz o Homem um egoísta por natureza. E pergunta como a Esquerda institucionalizada pôde abandonar a ambição por uma sociedade decente, justa – ou como o lobo neoliberal pôde estraçalhar o rebanho das ovelhas socialistas.

 

Além do neoliberalismo e/ou um desejo de democracia social, o que a realidade nos mostra é que há à mão uma guerra civil global intestina – hipótese que explorei em meu livro Globalistan [Globalistão], de 2007. Se se misturam o “pivoteamento” de Washington rumo à Ásia; a obsessão com mudança de regime no Irã; o medo que a ascensão da China inspira às elites ocidentais; a real Primavera Árabe que ainda nem começou, a ser conduzida por jovens gerações que querem participação política, mas sem serem constrangidas por fundamentalismo religioso; o ressentimento dos muçulmanos contra o que percebem como Nova Cruzada contra eles; o crescimento do neofascismo na Europa; e a pauperização avançada da classe média ocidental, é difícil pensar sobre o amor.

 

Apesar de tudo, ainda assim – e Burt Bacharach que nos ajude – é de amor, precisamente, que o mundo precisa agora.




Notas de rodapé

[*] Versão resumida de conferência “Love, Sweet Love”, no XIII SEMINARIO DE SOLIDARIDAD POLÍTICA, “Don Juan y la democracia directa” (Juan Chávez, in memoriam), dia 24/4/2013, Universidad de Zaragoza, Espanha. Seminário organizado pela Plataforma de Solidaridad con Chiapas; Asociación Universitária para la Solidaridad Política.

[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Crise Financeira Internacional: como todos fomos ROUBADOS


Divertida maneira de explicar o ASSALTO global a que foi submetida a humanidade inteira por um grupo de banqueiros sionistas escudados no capitalismo neoliberal; hoje, os dólares são apenas papel pintado (aqui você vai saber o que é a derrama do "quantitative easing"); vale muito mais ficar com o nosso $ R...

Vídeo em inglês e legendado em espanhol



Enviado por Tania - AT (Argentina)