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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Papa Francisco contra o neoliberalismo

27/11/2013, Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Papa Francisco e o menino
O Papa Francisco distribuiu uma Exortação Apostólica (já em português) na qual expõe seus pensamentos sobre como e por quais vias deve andar a igreja católica. Parte do documento é uma crítica ao sistema econômico neoliberal dominante no “ocidente” e que se dissemina pela globalização.

Aqui, alguns excertos da Evangelium Gaudium [A Alegria do Evangelho] (negritos do autor)

Não a uma economia da exclusão

53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída.

[...]

54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. [...] A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.

Não à nova idolatria do dinheiro

[...]

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende à antropofagia em cada um e todos para aumentar os lucros, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Não a um dinheiro que governa em vez de servir.

[...]

58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.

Não à desigualdade social que gera violência

59. [...] Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas.

Deputados e senadores conservadores nos EUA [no Brasil, então NEM SE FALA!] muitos dos quais são católicos, terão problemas com essas teses.

Será que denunciarão o Papa como comunista antissemita?

Se a igreja católica, os crentes e os simpatizantes abraçarem esse discurso e começarem a trabalhar na linha que o seu Papa Francisco sinalizou, haverá grandes e muito positivas consequências para todos nós.
_______________________


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

sexta-feira, 29 de março de 2013

Por que o Vaticano é notícia... e a República Popular da China não é?!


20/3/2013, Gamal Nkrumah*, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
Multidão na Praça de São Pedro para primeira aparição do Papa Francisco
Ambas as instituições, a Igreja Católica Romana e a República Popular da China lutam para encontrar novo espaço para elas no mundo contemporâneo. Pois o mais estranho é que, enquanto a seleção do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Líder Supremo da Igreja Católica, que tem 1,2 bilhões de crentes em todo o mundo, manteve hipnotizada a imprensa-empresa internacional, a eleição do novo governo chinês não recebeu senão escassa cobertura.

Apesar dos escândalos financeiros e sexuais, vista do ponto de vista africano ou árabe, a Igreja Católica Romana é tema muito mais atraente que o Partido Comunista da China. Jihad Al-Khazen no diário panárabe, que tem sede em Londres, Al-Hayat, deu bom uso à obsessão dos jornais árabes com a seleção papal e a considerável influência no papa, numa região do mundo onde tem poucos seguidores:

 Jihad Al-Khazen
O cardeal argentino conservador adotou o nome de Papa Francisco e será o 266º líder supremo da Igreja de São Pedro. Sugiro que Al-Azhar Al-Sharif e seu líder, o Dr Ahmed Al-Tayeb, iniciem diálogo com o novo papa, para fazer avançar a cooperação contra o governo de Israel e suas políticas colonialistas racistas – disse Al-Khazen. – Espero ter sido bem claro: não me interessa qualquer tipo de aliança declarada ou secreta; quero saber de cooperação; e não contra os judeus, nem contra Israel, mas contra um governo de assassinos criminosos de guerra que deixaram Israel em posição de perigoso isolamento no mundo, como até o AIPAC, o lobby pró-Israel, disse há poucos dias em Washington, DC – concluiu Jihad Al-Khazen.

A questão é por que os jornais árabes estão preocupados com o papa e não estão preocupados com os chineses comunistas? Alguém ouviu falar do Fórum de Cooperação Sino-Árabe? Quantos leitores árabes sabem que o califa otomano, Ibn Affan enviou um embaixador à corte de Tang, em Chang’an?

Talvez não seja justo comparar o Vaticano e Pequim. A China e a Igreja Católica têm “populações” comparáveis: 1,4 bilhão e 1,2 bilhão, respectivamente. A Igreja Católica é instituição religiosa influente, a China é a maior potência econômica global.

Não é critério para comparação, mas a questão permanece: por que o Papa Francisco, não a nova recém eleita alta hierarquia do Partido Comunista Chinês, é o iluminado pelos holofotes da imprensa-empresa internacional? Quantos leitores árabes conhecem o nome do novo presidente da China? Ou do novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês?

Papa Francisco dirige-se ao púlpito em sua primeira aparição na Praça de São Pedro
Mais um enigma: por que todos os papas que apareceram no púlpito máximo da Igreja Romana foram ou magnificados ou demonizados a ponto de se tornarem irreconhecíveis, senão pela máscara que lhe tenha sido pespegada? O Vaticano, afinal, é estado microscópico, absolutamente sem qualquer importância econômica para os mundos africano ou árabe. Sua única significação é, talvez, a autoridade religiosa e moral.

O que talvez haja de comum em Pequim e no Vaticano é que, nos dois casos, a importância global advém do exemplo que são. Mas são exemplo do quê? O Partido Comunista Chinês, apesar do autoritarismo totalitário, arrancou o povo chinês da pobreza abjeta em que vivia, do atraso que castigava os mais pobres.

Aí está um sucesso digno de nota. Assim sendo, por que o exemplo que vem do Vaticano assumiria tal significação e seria tão influente, sem qualquer relação e fora de qualquer proporção com suas proezas econômicas?

Exposição “A Estrada da China Rumo à Renovação”

A história do partido governante na China e seu principal corpo político nacional consultivo, a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC [orig. in. Chinese People’s Political Consultative Conference (CPPCC)] é notável precisamente porque é caso exemplar das barreiras e antagonismo que dificultam a marcha do estado totalitário mais poderoso do mundo e segunda maior economia, depois dos EUA.

12a. Conferência Política Consultiva do Povo Chinês - CPCPC em 3/3/1013
A CPCPC tem sido, ao longo de sua tumultuada história, vítima da própria ambiguidade ideológica e das pré concepções subconscientes de outros, inclusive das potências estrangeiras, quase sempre adversárias; de dissidentes chineses locais e de comunidades chinesas em outros países, quase sempre críticas, as quais, nas últimas décadas já têm papel cada vez mais proeminente nas questões chinesas domésticas, além de influenciar também na arena econômica.

A democracia multipartidária à ocidental e o regime de partido único na China são dois sistemas de governo incompatíveis e em perene disputa. Muitos países em desenvolvimento na África e no mundo árabe optaram por seguir os passos de seus velhos senhores coloniais, todos eles potências ocidentais. Isso posto, é interessante perceber que as pré concepções erradas sobre o sistema comunista chinês de governo vão muito mais fundo que as caricaturas contemporâneas que se fazem do stalinismo soviético.

Seria erro pressupor que a CPCPC, fora de moda como talvez pareça, num mundo de democracias à moda ocidental, seria manifestação de algum monopólio sobre o estado do partido único em todas as esferas da vida da nação mais populosa do planeta. E os principais conselheiros políticos do governo chinês, que representam amplo espectro de figuras destacadas nos negócios, na academia, nas finanças e noutras esferas, encerraram seu encontro anual, dia 12 de março, jurando lealdade ao Partido Comunista Chinês; e declararam que rejeitam a democracia multipartidária à ocidental.

Yu Zhengsheng
Esse corpo de conselheiros do Estado representa, por definição, a democracia chinesa em ação. O novo presidente da CPCPC, recentemente eleito e empossado, Yu Zhengsheng, disse, no encerramento da reunião de 2013 da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, que aquele corpo de conselheiros cerrava fileiras em torno dos novos líderes do Partido Comunista, tendo ao timão o novo timoneiro, Xi Jinping. Exatamente como, em contexto completamente diferente, os católicos reúnem-se em torno (e abaixo) do novo Papa.

Na China comunista, a luta contra a miséria, o subdesenvolvimento, a fome e o analfabetismo é crucialmente importante. Mesmo assim, o fosso que separa os mais ricos e os mais pobres está aumentando na China contemporânea. Os líderes do Partido estão agudamente conscientes e bem pouco confortáveis ante o risco de deixarem essa desgraçada herança para seus filhos e netos. Além do mais, o partido que governa é o principal poder político e os postos do governo são entregues a membros do partido, selecionados a dedo.

“Temos de seguir mais estritamente a via socialista do desenvolvimento político com características chinesas, não imitar, em nenhum caso, os sistemas políticos ocidentais” – disse Yu à assembleia de mais de 2.000 conselheiros do Parlamento chinês e membros da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC – que são vistos no ocidente como pseudo parlamento, que só oficializaria decisões tomadas no comando central do partido, sem qualquer influência ou poder político reais.

Yu, conhecido pelo pedigree comunista, foi indicado para presidir a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês no dia 11 de março. A CPCPC, embora se suponha que não tenha poder algum, tornou-se hoje uma espécie de fórum popular no qual se apresentam e defendem-se questões populares candentes, como segurança alimentar, poluição e ocupações de terra.

A indicação de Yu foi recebida com eloquente silêncio pela imprensa-empresa árabe ou africana, apesar de a China ser o mais importante parceiro comercial de todo o continente africano. A ascensão de Yu na hierarquia do Partido Comunista Chinês foi o último passo de uma transição política que só acontece uma vez em cada década. E num sistema que, sim, gerou impressionantes resultados econômicos, mas que nem assim atrai a atenção de países árabes e africanos.

A ascensão de Yu foi o início de uma semana de alterações sistemáticas no governo chinês, já fortemente encaminhada desde as promoções no Congresso do Partido Comunista Chinês, em novembro passado. Yu era um dos sete líderes que ascenderam então ao círculo superior do comando do PCC, na mesma ocasião em que Xi foi nomeado secretário-geral. Yu, é o 4º na hierarquia do Partido, já posicionado para desempenhar papel ainda mais importante no futuro político do país.

Zhou Xiaochuan
Na China contemporânea, a economia vai-se tornando tão significativa quanto as questões políticas e militares. O presidente do Banco do Povo da China, Zhou Xiaochuan, foi nomeado para uma das vice-presidências da CPCPC. Essa semana, com muita pompa e cerimônia, o Congresso Nacional do Povo concluiu a transição nas principais posições políticas e aprovou os nomes indicados para os principais postos de governo: Xi Jinping sucede Hu Jintao como Presidente da China; e Li Keqiang, o 2º na hierarquia do Partido, foi nomeado Primeiro-Ministro, e comandará o gabinete chinês.

A evidência de que o Papa Francisco foi objeto de atenção mundial e de que a nova liderança chinesa permanece praticamente desconhecida no ocidente não se explica apenas por alguma oposição de uma imprensa-empresa ocidental hostil. Na verdade, é como se nada tivesse mudado; a China continua a ser objeto de interesse: sempre a degradação do meio ambiente, de água, terra e ar chineses, resultado de décadas de crescimento econômico muito rápido.

Mas há também mudanças sociais e políticas sutis a serem observadas. A crescente classe média chinesa, empoderada pelas tecnologias das redes sociais, fala cada vez mais sobre as próprias demandas, quer mudanças e quer organizar manifestações. Não há qualquer “primavera árabe” à vista na China, mas o novo presidente Xi encara uma nova China em gestação e sabe bem disso.

Em novembro do ano passado, inaugurou a exposição “Estrada da China Rumo à Renovação” [1] em Pequim, prometendo prosseguir rumo à meta de fazer “a grande renovação da nação chinesa”. (...)

Xi Jinping
Durante a visita que fez àquela exposição, Xi observou como o ocidente ocupara territórios da China, estabelecera concessões e demarcara esferas de influência, num passado não muito distante. Parou à frente da primeira versão chinesa do Manifesto Comunista, de documentos e fotos da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921; da autobiografia de um dos fundadores do PCC, Li Dazhao; da primeira bandeira nacional da República Popular da China; e de fotografias da 3ª Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, ocasião em que o legendário Deng Xiaoping lançou o movimento de modernização, que mudaria a história da China contemporânea (e do mundo).

Mao Tse Tung
Em importante discurso naquela ocasião, Xi citou um dos poemas de Mao Tse Tung, que lembra as dificuldades históricas que a China enfrentou em seus dias. “Mas o povo chinês jamais se rendeu, lutou sem parar e, afinal, assumiu o controle do próprio destino e iniciou o grande processo de construir nossa nação” – disse ele. – “A China mostrou, plenamente, o nosso grande espírito nacional”.

Mas, mesmo ali, Xi anotou as complexas pressões que desafiam a China contemporânea. “Essa é a estrada do socialismo com características chinesas”, concluiu, em frase que correu o mundo.

A perspectiva chinesa

Yu Zhengsheng disse coisa semelhante num simpósio do qual participaram os presidentes dos oito partidos não comunistas chineses [2] e da Federação de Indústria e Comércio de Toda a China, além de personalidades sem filiação partidária. Yu também destacou sua convicção de que o trabalho da China contemporânea é promover e construir um socialismo específico, com características chinesas. A questão realmente interessante é por que, num determinado momento, todos esses altos dirigentes comunistas puseram-se a falar tanto dessas “características chinesas”.

A CPCPC inclui representações de compatriotas de Hong Kong, Macau e Taiwan, de chineses retornados e também alguns convidados internacionais. Yu (...) mencionou a “cooperação multipartidária”. Manifestou esperança de que os partidos não comunistas conseguissem aprimorar seus sistemas ideológicos e organizacionais e o estilo de trabalho, para que também ali se produzissem profundas mudanças, quando da eleição de novos dirigentes em seus respectivos congressos nacionais, para gerar efetiva cooperação multipartidária. Presumia, provavelmente, que todos acompanharão as mudanças que se veem entre os comunistas chineses.

À primeira vista, talvez pareça que os atuais membros da CPCPC teriam invertido os mandamentos do maoísmo. A CPCPC, tecnicamente ou teoricamente, é constituída de representantes do PCC e dos partidos não comunistas, de pessoas sem filiação partidária e de representantes da sociedade civil e das chamadas organizações populares, das minorias étnicas e de vários estratos sociais.

O discurso sobre o tema “Manter-se firme e desenvolver o socialismo com características chinesas, e estudar, promover e implementar o espírito do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês” foi feito por Xi, numa reunião de trabalho da qual participaram todos os membros da Comissão Política do Comitê Central do PCC.

Li Keqiang
Seria erro supor que a atitude dos mais altos dirigentes no 18º Congresso Nacional do PCC não seria influenciada por princípios longamente elaborados. Embora se pressinta uma crescente crise ambiental, um terço dos delegados rejeitaram uma importante medida antipoluição. Os analistas chineses antecipam agora grandes reformas econômicas, a partir do novo governo em Pequim, depois que o premiê Li Keqiang declarou que mais setores da economia terão de ser entregues a empresas privadas. “A China é uma grande nação, plena de criatividade” – disse Xi Jingping. – “Criamos essa cultura chinesa e saberemos ampliar nossa rota rumo ao desenvolvimento chinês”.

Uma nova geração de dirigentes chineses parecem comprometidos com o capitalismo, mesmo sem esquecer o comunismo. O mundo terá de prestar máxima atenção, agora que os novos dirigentes põem a China numa trilha chamada “o sonho chinês”.

Devem-se perdoar os que estudam mitos históricos, se lhes ocorre a ideia de que a China veio ao mundo exclusivamente para demonstrar que Mao tinha razão e que o ocidente sempre esteve errado. Com mitos ou sem, é difícil escapar à conclusão de que, no que tenha a ver com os que governam na África e no mundo árabe, não é porque a China não dê grande atenção às liberdades civis, que Francisco I atrai todas as atenções da imprensa-empresa. Se a Igreja Católica, não a China, atrai hoje todos os holofotes midiáticos, a causa está em outro lugar; o motivo é outro.



Notas dos tradutores
[1] Sobre essa exposição – de quadros históricos, mapas, objetos e vídeos da história  da China desde meados do séc.19, inaugurada dia 29/11/2012 no Museu Nacional da China, em Pequim – ver 3/12/2012, “Celebrating China’s Road Toward Renewal” [Comemorando a Estrada da China Rumo à Renovação], Beijing Review, com foto:

Xi Jinping (centro), secretário-geral do PCC; Li Keqiang (3º dir.), Zhang Dejiang (3º esq.), Yu Zhengsheng (2º dir.), Liu Yunshan (2º esq.), Wang Qishan (1º dir.) e Zhang Gaoli (1º esq.)
[2] Sobre os partidos não comunistas chineses, ver 16/3/2012, redecastorphoto em: “Partidos não comunistas na China: há OITO!”.
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Gamal Gorkeh Nkrumah*, jornalista ganense, nasceu em 1959 em Accra, é panafricanista e editor do jornal Al Ahram Weekly. Filho mais velho do primeiro Presidente de Gana, Kwame Nkrumah,  casado com uma egípcia, Fathia Nkrumah. Recebeu seu doutorado em Ciência Política na School of Oriental and African Studies em Londres. Trabalhou como jornalista político no Al-Ahram Weekly no Cairo por cerca de 15 anos antes de assumir a Editoria da Seção Assuntos Internacionais do jornal. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Missão papal: construir confiança na China


15/3/2012, Francesco Sisci, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 




Francesco Sisci é colunista do jornal diário italiano Il Sole 24 Ore.
Recebe e-mails em: fsisci@gmail.com 



PEQUIM – Nomes de papas são declarações políticas sobre a governança da Igreja Católica Romana, e não é coincidência que o novo pontífice tenha escolhido chamar-se Francisco, o nome do santo de Assis, do século 12, mas também como o grande jesuíta Francisco Xavier, que viajou em várias missões pela Ásia e China no século 16. Foi Francisco Xavier quem mandou à China o famoso missionário Matteo Ricci, homem que sozinho quase conseguiu converter toda a China, se seus esforços não tivessem sido contra-atacados por Roma.

A China, preocupada com o conceito de “soft power” [poder suave], está muitíssimo atenta ao poder “soft” imenso, sem paralelos, da Igreja, dado que aí se concentram os verdadeiros “exércitos do Papa”.

O catolicismo romano é a maior religião do mundo e conta com, de longe, o mais influente aparato espiritual. Todas as semanas, milhões dos 1,3 bilhões de católicos batizados (número equivalente a toda a população chinesa) repetem o rito de adesão à própria fé, ao assistirem à missa. O Vaticano pode também contar com milhões de voluntários; centenas de milhares de padres, professores e funcionários de vários tipos; e milhares de bispos em cada canto do planeta.

O Papa tem influência sobre centenas de milhões de Protestantes e sobre um número pequeno, mas não insignificante, de cristãos ortodoxos, embora tenham surgido, ou se erguido, em oposição a Roma. Conta também com grande respeito que lhe vem de países muçulmanos, divididos entre milhares de mesquitas e mulás, mas no total com talvez cerca de 1,5 bilhões de seguidores.

Xi Jinping (E) e Papa Francisco (D)
Claro que, hoje mais que nunca, esse poder imenso, que se alastra por mais de um império, teme os muitos sinais, diretos e indiretos, de profunda crise, ou divisão, que são questões materiais e não exclusivamente questões de teologia. Há questões espirituais, mas também há questões muito práticas, e a Santa Sé está bem consciente dos dois elementos. Afinal, se trata de religião que conscientemente vestiu as vestes da última fase do Império Romano e as sacralizou.

Pequim sabe que a Igreja conhece bem o próprio poder. E, paradoxalmente, os muitos problemas globais da Igreja Católica, levam o Vaticano a prestar grande atenção à China, como se discutirá a seguir.

O primeiro grande problema que pesa sobre o papado que se inicia são as crianças sexualmente agredidas. É problema profundo de moralidade e, portanto, ameaça toda a credibilidade do universo da evangelização, mas implica também prosaicas preocupações financeiras. A Igreja dos EUA, a mais fortemente sitiada pelas acusações, provê cerca de 40% dos fundos de que vive o Vaticano, apesar de os católicos norte-americanos mal chegarem a 5% do total de católicos.

Em anos recentes, o presidente Barack Obama dos EUA ameaçou remover o prazo para que se processem paróquias e dioceses acusadas de dar cobertura a padres pedófilos e molestadores de crianças. Na verdade, no caso de processos por abuso sexual, a diocese sempre optou por pagar, fosse o que fosse, para evitar processos públicos que humilhariam toda a Igreja.

Se esses prazos para julgar padres acusados de abusos sexuais de crianças forem removidos, todos os molestados há 20, 30 ou até há 40 anos poderiam formalizar acusações criminais contra praticamente todas as dioceses nos EUA, o que levaria à bancarrota física e espiritual o Catolicismo nos EUA. Os católicos norte-americanos poderiam ficar sem igrejas onde rezar e deixariam de pagar seus muitos dólares a Roma – o que, na prática, levaria à bancarrota toda a Igreja Católica em todo o mundo. Hoje, mais do que jamais antes, os desvios sexuais dos padres dão ao governo dos EUA enorme poder sobre a Igreja de Roma. E há problemas semelhantes na Europa, onde as igrejas estão desertas de fiéis e, assim, sem almas para orientar, ao contrário dos EUA, onde as igrejas continuam lotadas.

Para fugir a essa chantagem o mais rapidamente possível, a Igreja tem de desenvolver “mercados alternativos” – desafio considerável, no longo e no curto prazo. América Latina, África e Ásia implicam desafios diferentes. A América Latina, com várias ex-colônias da Espanha ultra católica e de Portugal, está já infiltrada por evangélicos, que conquista convertidos aos magotes, em terras que, antes, eram territórios reservados de Roma. Para alguns católicos, essa evangelização é outra face da antiga conspiração dos protestantes norte-americanos, sempre interessados em insuflar as chamas dos crimes sexuais e reduzir o número global de católicos. Nesse caso, menos fiéis traduz-se em muito menos dinheiro para Roma.

Na África subsaariana as coisas não vão tão mal: o catolicismo está em expansão, hoje já com mais de 170 milhões de seguidores. Mas também lá os problemas são imensos. Contribuições da África, hoje e em futuro próximo muito pobre, absolutamente não bastam, como substituição para os muitos milhões que chegam a Roma, vindos dos EUA e da Europa. Além do mais, a Igreja na África, que se expandiu em áreas nas quais sempre predominaram religiões profundamente animistas, enfrenta todos os tipos de problemas, de padres casados e com filhos, até todos os tipos de mestres feiticeiros.

Em vários sentidos, as relações entre Roma e o mundo muçulmano são hoje as melhores, em séculos: não há oposição frontal, nem há guerra santa – como tantas vezes se viu em séculos passados. Mas veem-se cristãos, por todo o mundo muçulmano, vítimas do que já se interpreta como “limpeza” religiosa. E xeiques e mulás milionários financiam a construção de mesquitas na Europa e nos EUA, sempre em busca de colher mais almas, apoiam migrantes muçulmanos na Europa e nos EUA e fazem avançar a fé muçulmana em áreas que, antes, foram exclusivamente cristãs. O que fazer desse duplo desafio que lhe vem do Islã também é problema que pressiona Roma.

Católicos apostólicos romanos no mundo distribuição regional (1910/2010)
Assim, tudo se volta na direção da Ásia, onde há problemas de longo e curto prazo. As economias asiáticas operam melhor que em qualquer outra parte do mundo; 60% da população mundial vive ali e, em breve, estará produzindo a maior parte da riqueza do planeta. Para a Igreja Católica de Roma, conseguir fazer-se presente ali e agora, quando está sob sítio em todo o resto do mundo, pode ser a diferença entre (a) continuar a ser força significativa no século 21, ou (b) deslizar em processo de declínio rápido.

Na Ásia a Igreja é fraca e enfrenta oposição mais poderosa que em qualquer outra parte do mundo, sob a forma de hinduísmo, Islã, budismo e governos locais que não dão qualquer sinal de reverência ante o trono de Pedro. Os números são baixos, menos de 5% da população local, proporção já distorcida, porque mais da metade dos católicos asiáticos estão nas Filipinas. Sem a contribuição das Filipinas, a porcentagem cai para cerca de 2%.

No continente, segundo Yan Kin Sheung Chiaretto em China and Prospects for the New Evangelization, [1] é difícil planejar-se para um rápido programa de evangelização. A única real abertura é na China, onde, apesar de tudo que se lê na imprensa-empresa ocidental há mais liberdade religiosa que em qualquer outro lugar; o budismo é muito fraco; e os chineses têm fome de novas religiões. Os protestantes já o comprovaram: sem qualquer esforço especial, já capturaram cerca de 10% da população, em uma década.

Os católicos ali não passam, com certeza, de 1% – mais provavelmente, estão em torno de 0,5% – e com distribuição rarefeita, sem quase nenhuma evangelização. A China é a maior economia do mundo, não tem problema algum com acusações de abusos sexuais, e o mundo muçulmano é preocupação ali, quase tanto quanto em Roma: ali pode estar a solução para todo o futuro da Igreja Católica. A China sabe da própria necessidade de compreender o mundo e de ser compreendida no resto do mundo. Roma pode ter papel crucialmente importante no papel gigantesco de integrar esse vastíssimo país num mundo ainda dominado por EUA e Europa.

Sem a China, em resumo, a Igreja Romana terá de defender-se sozinha de ataques que lhe veem de todos os lados e bem pode acontecer de ver todos os seus problemas multiplicados.

Houve tempos em que toda a defesa da Igreja se fez a partir de Lepanto: hoje pode ser tentada a partir de Pequim. Sem Roma, a China permanecerá muito fraca, entre as nações do mundo. Essa conjuntura com certeza aproximará as duas potências. O problema está em que só muito raramente essas imensas equações podem ser operadas, em mundo no qual as atenções focam-se em pequeníssimos detalhes. Em termos teológicos, a multidão de detalhes é trabalho do diabo, não para unir, mas para separar.

Talvez esse primeiro Papa jesuíta consiga saltar sobre a separação. E o novo presidente da China, Xi Jinping, eleito poucas horas antes do Papa, talvez veja na coincidência algum yuanfen – o destino - obrando para unir as pontas.



Nota dos tradutores
[1]  CHIARETTO, Yan Kin Sheung, The evangelization of China today: challenges and prospects : in the light of recent documents of the Magisterium (1978-2010), Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 2012.  



quinta-feira, 14 de março de 2013

O novo Papa e o “Vaticano mais corrupto, desde os Bórgia”


Jorge Mario Bergoglio, o novo Papa, nunca foi da Opus Dei (foi do movimento Comunione e Liberazione), mas...

13/3/2013, Matthew Fox, Entrevista, The Real News Network, TRNN
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu
Vídeo sobre a Opus Dei: redecastorphoto


PAUL JAY, EDITOR SÊNIOR, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, em Baltimore.

A igreja católica tem novo papa. 76 anos, Jorge Mario Bergoglio, agora, Papa Francisco [eles só são numerados a partir do segundo. Como a 2ª. Guerra Mundial, que sempre se chamou “Grande Guerra” e só passou a ser 1ª, depois que começou a 2ª. (NTs)]. É o 266º pontífice da Igreja Católica Romana. Também é o primeiro Papa não europeu, em mais de mil anos.

Para discutir a significação dessa eleição, está Matthew Fox. Matthew é autor de mais de 30 livros sobre espiritualidade e cultura, dentre os quais, The Pope’s War, Original Blessing, Hildegard of Bingen, a Saint for Our Time e Christian Mystics. Matthew foi sacerdote católico. Agora é pastor episcopal e professor.

Obrigado, Matthew, por nos receber.

MATTHEW FOX: Obrigado. É um prazer estar com você.

JAY: Para começar, por que nos interessamos tanto pelo novo Papa? A rede CNN está ao vivo hoje, todo o dia – e acho que ontem também, e a coisa está na mídia global. E é sempre assim. É dia fraco, de noticiário, mas se não fosse, nada mudaria. A mídia não dá a mesma atenção a nenhuma outra igreja e, sinceramente, nós também não. Quero dizer... acho que estamos fazendo isso porque quero criticar a mídia. Não sei. Por que tanto alarido? Que significado e que poder tem o Papa hoje?

FOX: Para começar, claro, ninguém faz melhor teatro que os italianos. Há a imagem dramática de São Pedro, o balcão e as cortinas de veludo entreabrindo-se e aquilo tudo. Ninguém faz melhor cenário, importante, se o que se busca é o drama. Assim, aquelas imagens rendem excelentes tomadas de televisão. Alguém que usa roupas esquisitas e, supostamente, representa 1,2 bilhão de pessoas que, de um modo ou de outro chamam-se “católicos”... É claro que o drama, o teatro, contam muito.

Mas acho que há também uma coisa mais profunda. Acho que as pessoas gostam de sentir que há alguma liderança espiritual em alguma parte, na nossa espécie humana. Ontem escrevi um artigo, publicado no Huffington Post, sobre por que o meu candidato a papa seria o Dalai Lama, porque acho que ele representa algum significado mais profundo de ser humano, a busca de compaixão... E acho que as pessoas gostariam de encontrar isso também num papa. Nem sempre acontece. O papa João XXIII, nos anos 1960s, foi um homem raro. Mas... as pessoas gostam de ver, gostam de projetar alguma liderança em alguém. [fala cruzada]

JAY: Deixe-me perguntar... Não sei se você concorda, mas... Não lhe parece um pouco estranho – porque a mim parece... – Quero dizer, a mídia manifesta uma visão secular do mundo. Hoje, não se vê nem vestígio de algum tipo de gramática religiosa. No passado, tudo era enquadrado nessa gramática religiosa. Mas agora, é como se houvesse uma separação entre a mídia e as crenças religiosas. Conceitos como a infalibilidade do papa, a ideia de que Deus fala diretamente a ele... são ideias fortemente espirituais, que a mídia apresenta como se fossem fatos corriqueiros. Ninguém sequer questiona essas crenças.

FOX: É, tudo é “sentimentalizado” pela mídia, sem pensamento crítico. É uma das razões pelas quais gosto de falar com você. Para falar sobre significados mais profundos.

Mas há, sim, uma carência... Interessante: nas poucas palavras que disse, o papa Francisco usou uma expressão, algo sobre sermos todos irmãos, coisa assim. Veja, são tempos de globalização, o mundo é cada dia menor e temos o primeiro papa não europeu, em mais de mil anos [fala cruzada], o primeiro papa latino-americano. Há significados, aí, as coisas de deseuropeízam, até o papado. Mas, como você diz, nada é discutido em profundidade. Tudo isso é notícia durante um, dois dias, e, em seguida, a mídia muda de pauta.

JAY: (...) E qual é a influência que o papa teria sobre tantos milhões de pessoas – que me parece influência real. Antes, outra questão: quanto, nessa influência, tem a ver com o fato de que o Vaticano ainda é uma potência financeira, que acaba de nomear um presidente executivo, como qualquer grande e poderoso centro financeiro?

FOX: É verdade. E sabe-se que a situação financeira do Vaticano é escândalo à parte. É área a ser saneada, também, como o encobrimento de crimes de pedofilia, praticamente em termos tão graves quanto foram os crimes da Inquisição. Escrevi sobre isso em meu livro The Pope’s War. Nos últimos 42 anos, com os dois últimos papas, a Inquisição voltou ao Vaticano.

A situação financeira é absolutamente escandalosa. Há cerca de um ano, o governo italiano proibiu o uso de cartões de crédito do Vaticano, não podiam ser usados em lugar algum, porque havia denúncias de lavagem de dinheiro, dentre outras. Aí não há novidade. A falta de transparência nas finanças do Vaticano é antiga.

E há também a questão dos reais laços que ligam o Vaticano à política mundial. Lembro, por exemplo, que, no governo Reagan, a CIA e o Vaticano do papa João Paulo II uniram-se para atacar a Teologia da Libertação das Comunidades de Base na América Latina e destruíram o movimento, e, afinal, substituíram aquela ação pela ação da Opus Dei (ver vídeo logo abaixo), da Communion and Liberation   [it. Comunione e Liberazione  (NTs)],  todos esses grupos de extrema direita que pregam valores da extrema direita ou, se você preferir, pregam atitudes de poder, de dominação, de patriarcado, até de fascismo.


JAY: Você disse que há na igreja uma nova Inquisição?

FOX: Ah, sim. Mais de 105 teólogos – fui um deles – foram silenciados, expulsos ou perseguidos, caçados nos últimos 42 anos, nos papados de João Paulo II e Bento XVI. E Bento XVI foi, é sabido, cabeça da Inquisição. Mudaram o nome, chamam de Congregação da Sagrada Doutrina da Fé, mas é a mesma organização que, antes, se conhecia como Inquisição. Bento XVI comandou o ataque contra nós, aqueles teólogos.

Podem-se listar os 105. Há, aliás, na lista, vários bons canadenses. Um deles morreu, de ataque cardíaco, quando fazia as malas para viajar a Roma e defender sua teologia, pela sexta vez, apesar de o Concílio Vaticano II afirmar que os teólogos seriam livres para pensar e que tinham garantida, como todos, o que se chama liberdade de consciência.

Isso foi o que realmente aconteceu nos últimos 42 anos, e acho que tivemos dois cismas, porque os padres e suas cúrias haviam realmente compreendido os ensinamentos do Vaticano II, que tratava de reformar a Igreja, oferecia pensamento novo, ligado ao evangelho dos valores da justiça social. Acabaram com tudo isso. O silêncio imposto àqueles 105 teólogos teve a ver com esse movimento.

Portanto, não cabe qualquer dúvida de que a Inquisição voltou. Espero, de todo coração, que o novo papa esteja alerta para esse retrocesso e consiga reverter esse processo.

JAY: E quanto ao novo papa, Bergoglio, papa Francisco. Qual o papel dele na América Latina? Sempre houve, na AL essa separação entre a Teologia da Libertação e os setores mais dominantes e hierárquicos da Igreja que, uns mais outros menos, trabalharam com vários ditadores ao longo do tempo. E claro que aconteceu na Argentina, como aconteceu com Pinochet. A Igreja tem pouco de que se orgulhar do papel que desempenhou, pelo menos a alta hierarquia da Igreja, no relacionamento com Pinochet. E quanto ao papa Francisco, em tudo isso? E o que representa?

FOX: Pelo que mostram minhas pesquisas, não teve ação corajosa contra a ditadura militar argentina, em 1983 e dali em diante, e foi muito criticado por isso. Também nunca apoiou os teólogos das Comunidades de Base. Pertenceu a um grupo chamado Comunione e Liberazione, muito fortemente direitista, que surgiu na Itália. Tem sido comparado à Opus Dei. Dizem que têm base laica, como diz também a Opus Dei, mas de fato são movimentos dirigidos por religiosos.

JAY: Expliquemos um pouco, às pessoas que não conhecem essas coisas. A Opus Dei – e corrija-me se estiver errado – é grupo que reúne a extrema direita da Igreja, em aliança com a extrema direita de vários grupos das elites governantes em vários países; e é uma espécie de grupo secreto, conspiracional, que sempre aparece associado a ações obscuras, quando não criminosas.

FOX: Bem, é verdade. Tenho um capítulo inteiro dedicado a esses grupos, em meu livro The Pope’s War. E é assustador, porque são hoje membros muito destacados da Igreja Católica. Por toda a América Latina estão sendo nomeados cardiais e bispos ligados à Opus Dei e, agora, também na América do Norte. O padre Escrivá [Josemaría Escrivá de Balaguer], um padre fascista espanhol que fundou a Opus Dei, foi empurrado até a canonização, mais depressa que qualquer outro santo em toda a história [foi canonizado em 2002, por João Paulo II]. E todos os que se opunham a ele – que viam o lado obscuro daquilo tudo, o sexismo, o fato de que várias vezes elogiou Hitler – vou repetir: Escrivá várias vezes elogiou Hitler. Agora, nos dizem que é santo. Não sei o que isso significa.

Sim, a Opus Dei tem, sim, de ser vigiada. E estão em toda parte. São muito fortes na imprensa-empresa nos EUA. São muito fortes na CIA e no FBI. O maior espião da história dos EUA, que entregou mais segredos que qualquer outro, que contribuiu para o assassinato do maior número de espiões norte-americanos de todos os tempos – hoje está na cadeia, acho que foi condenado à prisão perpétua, porque trabalhou livremente no FBI durante 20 anos, passando adiante quantidade descomunal de segredos da Agência... Bem, era homem que assistia à missa todos os dias. Durante o restante do dia, traía os EUA. Não há dúvidas de que a Opus Dei é assustadora [fala cruzada].

JAY: Você estava dizendo que o papa Francisco é membro de uma organização assemelhada à Opus Dei...

FOX: Não. Ele nunca foi membro da Opus Dei.

JAY: Uma organização semelhante?

FOX: Foi muito próximo da organização Comunione e Liberazione e, sim, são outra versão próxima da Opus Dei. A Opus Dei começou na Espanha. Comunione e Liberazione é grupo mais recente, começaram na Itália. São menos secretivos que a Opus Dei. Por isso, precisamente, se sabe que o papa Francisco esteve ligado ao movimento. A Opus Dei é mais secretiva, dificilmente se sabe quem é ou não é ligado a eles.

Mas, seja como for, espero que...

Sabe, não quero associá-lo exclusivamente à Comunione e Liberazione, mas não há dúvida de que foi parte da história pessoal do novo papa e é história que é preciso considerar cuidadosamente e criticamente.

JAY: Permita que eu leia uma frase de Sergio [rub@n], autor de um livro intitulado The Jesuit e que entrevistou o novo papa antes de ele ser papa. Ele diz o seguinte: “Bergoglio é progressista, teólogo da libertação? Não, não é. Não é absolutamente um sacerdote do Terceiro Mundo. Mas ele critica o Fundo Monetário Internacional e o neoliberalismo? Sim, critica. Passou grande parte de seu tempo nas favelas? Sim, passou”. Eis o que diz esse autor. O que tudo isso lhe diz?

FOX: É. Confirma tudo o que eu sei. Como homem, digamos, é visivelmente um homem simples, não é nem jamais foi carreirista. Contam que dispensou a limosine e demitiu o motorista. Vive vida simples. Anda, toma ônibus, usa o transporte público. Durante certo tempo, ia trabalhar de ônibus. Prepara a própria comida, num apartamento modesto, recusa-se a viver no [incompreensível] palácio onde sempre viveram os “grandes” da Igreja. Tudo isso, parece, é bom sinal. Acho que é a mesma inspiração que o levou a adotar o nome de Francisco – que foi homem simples, humilde.

Interessante, o que diz o seu e-mail, que ele não é um bispo do Terceiro Mundo. Não é, mesmo. (...) Mas, em minha opinião, a questão mais importante é: quem o novo papa indicará como Secretário de Estado? Porque esse é o cargo, esse é o trabalho que de fato faz acontecer e supervisiona tudo, na Curia. Terá de indicar alguém firme e que conheça o jogo. Veja... Esse papa jamais trabalhou no Vaticano, o que, por um lado, me parece fator positivo. Mas, por outro lado, é indispensável conhecer aquilo, conhecer os jogos, os jogadores, tudo aquilo. E é indispensável ser muito firme. Por isso, acho que temos de esperar para ver quem será secretário de Estado.

Os dois Secretários de Estado foram criaturas das sombras. Posso contar algumas histórias sobre eles, se interessar. (...)

JAY: Voltaremos a esse assunto, mas infelizmente não temos tempo, hoje. Agora, para encerrar essa entrevista, queria que você falasse um pouco sobre a igreja da Teologia da Libertação na América Latina. Como fica a Igreja Católica em tudo isso. Com Hugo Chávez, por exemplo, recentemente falecido, a Igreja teve relação tumultuada. O que sobrou da Teologia da Libertação?

FOX: Bem... Pode-se dizer que vários dos presidentes de esquerda que hoje governam a América Latina nasceram no movimento da Teologia da Libertação, como [José Inácio Lula da] Silva, o grande ex-presidente do Brasil.

Há vários anos, quando tive de cumprir o voto de silencio de um ano, imposto pelo Cardeal Ratzinger, viajei ao Brasil para saber o que estaria acontecendo nas comunidades de base. E Leonardo Boff disse, naquela ocasião, que assistíamos a uma grande reunião com [Lula da] Silva, que eu prestasse atenção naquele homem, “Pode vir a ser o próximo presidente do Brasil”. Era ainda líder sindical. Tudo isso é parte de onde está, hoje, a Teologia da Libertação [fala cruzada].

Na verdade, se se conversa com eles hoje, o que me dizem é que “antes, servíamos à Igreja; agora, servimos à humanidade”. Acho que podem ter conseguido romper as barreiras do sistema exclusivamente eclesial e hoje veem não só a humanidade, mas acho que já veem também a crise geral da terra, do planeta, em que todos estamos. Entendo que já não estejam fechados, só, numa caixa rotulada “igreja”. (...) Essa é uma das razões pelas quais meu candidato a papa seria o Dalai Lama: aproximava-se logo ocidente e oriente.

JAY: E você sabe de como Bergoglio, agora o papa, como se posicionou em relação a essa deriva para a esquerda que se vê hoje na América Latina?

FOX: Sei que nunca se aproximou amigavelmente desses movimentos. Essa é uma das causas por que não se pode deixar de considerar suas relações com Comunione e Liberazione, mesmo que hoje já não existam, não sei. Esse grupo fez declarada oposição à Teologia da Libertação.

Houve outro cardeal jesuíta, de Milão, que morreu ano passado. No testamento, escreveu que a Igreja está 200 anos atrasada. E sempre combateu o grupo Comunione e Liberazione. É interessante, porque assim se vê que houve outro cardeal, também jesuíta, que não se desligou da tradição libertadora do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação e que, ao morrer, ainda apoiava as Comunidades de Base e a Teologia da Libertação. Mas o novo papa, não. Sempre foi, pode-se dizer, mais moderado, mais de meio. (...)

JAY: Uma das questões a acompanhar, é se e o quanto o Vaticano cooperará com a CIA, dessa vez, na América Latina.

FOX: Ora... Sempre cooperou, no passado. Mas sempre houve grande frenesi na imprensa-empresa, como você bem disse. Tudo, na imprensa-empresa tende a ser “santificado”, a tudo aplicam um verniz sentimental. Quem sabe, talvez, acalmem-se e seja possível fazer alguma avaliação objetiva produtiva do que o novo papa venha a fazer. Não esqueçamos que, como disse Carl Jung, por traz de muito sentimentalismo sempre se oculta muita violência. Não basta ao papa ser “doce”. Teremos de acompanhar as ações e a filosofia efetiva que anima o novo papa, como temos de vê-las também em qualquer movimento e qualquer indivíduo que represente qualquer movimento. Sem projetar coisas demais sobre ele. O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Nunca antes, na história, houve tanta e tal corrupção no Vaticano, que só se compara ao Vaticano dos Bórgias no século 16. Veremos se o novo papa conseguirá, ou não, limpar a casa. Mas, ao mesmo tempo, tampouco se deve investir muita energia nisso. Temos de investir nossa melhor energia em criar novas comunidades de base, numa nova versão da cristandade que realmente ecoe o saber dos Evangelhos. Essa é a questão que realmente importa.

JAY: OK. Na próxima entrevista, falaremos sobre isso.

(Agradecimentos, fim da entrevista)