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terça-feira, 24 de março de 2015

Michael Hudson: Importância do novo banco chinês

20/3/2015, Sharmini Peries entrevista [*] Michael Hudson - TRNN
Vídeo e entrevista transcrita: traduzida pelo pessoal da Vila Vudu



SHARMINI PERIES, PRODUTORA EXECUTIVA, TRNN: Muito obrigada por nos receber. [...]

0’50” – MICHAEL HUDSON, prof. de Economia, University of Missouri-Kansas City: Muito bom estar com vocês.

PERIES: Considerando o nosso assunto hoje, Michael, acho que vamos falar sobre um livro que você publicou há muitos anos, com o título de Super Imperialism (1ª ed., 1972; reeditado em 2002). E há um capítulo especial do seu livro, para o qual chamo especial atenção, sobre o Banco Mundial. Quem se interesse pelo que Michael apresentará hoje, terá muito proveito se examinar aquele livro. Muito obrigada, Michael, pela sua atenção.

HUDSON: Ótimo falar com vocês, Sharmini.

PERIES: Então, Michael, comecemos pelo Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)]. Os chineses criaram esse banco, com investimento inicial de US$ 50 bilhões. E então? Chega a representar concorrência significativa contra o Banco Mundial?

HUDSON: Bem, a ideia é trabalhar sob uma filosofia do desenvolvimento alternativa à do Banco Mundial. Desde o começo, o Banco Mundial sempre foi, basicamente, uma extensão do Departamento de Defesa dos EUA, desde o primeiro presidente, que foi secretário de Defesa assistente, John J. McCloy, até Robert McNamara, de 1968 até 81, e, depois disso, o neoconservador e guerreiro da Guerra Fria, Paul Wolfowitz, de 2005 a 2007; e Larry Summers, o economista em chefe, com Bob Zoellick.

Assim se tem o objetivo dos empréstimos do Banco Mundial: emprestar para grandes plantadores do agrobusiness que colhem para exportar, principalmente para exportar grãos, por exemplo, a preços tão subsidiados, que os demais países e os agricultores locais nos diferentes países não consigam jamais produzir grãos que tenham condição de competir com os grãos norte-americanos.

Por mais que todas as missões do Banco Mundial que visitam os vários países só digam que os países devem promover distribuição de terras, fazer reforma agrária que ajudem a promover a agricultura familiar, para que os países se autoalimentem, a verdade é que o Banco Mundial jamais empresta dinheiro para essa finalidade.

O Banco Mundial, sob pressão do Congresso dos EUA disse: “Veja bem, não vamos financiar países que pensem em se tornar independentes dos EUA; nossa função é forçá-los a exportar sempre mais para os EUA e comprar mais dos EUA”.

Equivale a dizer que os financiamentos do Banco Mundial foram principalmente para financiar desenvolvimentos de infraestrutura, sempre com custos superestimados, em países do Terceiro Mundo, com o único objetivo de fazer dinheiro para as grandes construtoras norte-americanas e empresas de engenharia; também emprestaram dólares para fazer engordar as dívidas daqueles países; o pior de tudo, o objetivo final do “processo” sempre foi promover a privatização dos bens e dos recursos naturais dos países “alvo”.

Aí está o que vejo como a grande diferença entre a filosofia do Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, e a filosofia do Banco Mundial.

O Banco Mundial é pressionado, em todo o mundo, para fazer a privatização de bens e recursos públicos, da infraestrutura básica. Empresta dinheiro aos governos para desenvolver essa infraestrutura, ou estradas, e depois vende as empresas ou as concessões, ou o acesso aos recursos naturais, sempre baratos, a compradores norte-americanos, que, na essência, vão criar monopólios e transformar o que foi construído como infraestrutura, em empresa da qual extraem lucros, dividendos, taxas de administração que, em todos os casos, acabarão nos cofres de empresas ou do estado norte-americano. Esse é o mecanismo que faz subirem os preços de serviços básicos – comunicações, transporte, água e outros, em todo o Terceiro Mundo.

Esse é também o mecanismo que tornou aquelas economias incapazes de concorrer com as empresas norte-americanas, que tem economia mista, na qual o governo subsidia a infraestrutura.

O Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, que chamamos de Banco Chinês de Desenvolvimento vem para ajudar outros países a escapar desse tipo de filosofia econômica neoliberal de extrema direita, para trabalhar no plano de governos democráticos, governo-a-governo, e ajudar outros governos a desenvolver a própria infraestrutura, para que os estados locais possam prover serviços básicos a preços mais baixos ou a preços subsidiados ou, mesmo gratuitos. Essa não é alguma perigosa tática “comunista”. Esse é o modo como os países europeus e os EUA enriqueceram.

E o único modo de repetir esse processo é romper completamente com os EUA e com o Banco Mundial.

PERIES: Sim, mas... Sei que o Secretário de Estado Kerry disse que há muitas preocupações com os padrões do novo banco. Como podemos saber que o Novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura dos chineses não seguirá o mesmo modelo do Banco Mundial? Porque o presidente da China, Xi Jinping, já disse que emprestaram políticas e padrões do Banco Mundial. Como responder ao que disse o secretário Kerry.

HUDSON: Acho que os chineses falaram de um modo polido. Os chineses são muito, muito polidos. Nas minhas muitas visitas a Pequim, sempre que os chineses disseram que aprenderam com o Banco Mundial, estavam dizendo que aprenderam o que não fazer.

Os “bons” padrões a que Kerry se referiu, naquela sua retórica orwelliana, são padrões da mais absoluta corrupção. São os padrões que levaram o FMI a emprestar dinheiro militar à Ucrânia, semana passada. São os padrões que sempre levaram o Banco Mundial a apoiar ditaduras e a armar governos por todo o mundo, e a isolar governos que não estejam integrados à órbita diplomática dos EUA, a isolar Cuba, Irã, Coreia do Norte; e a não emprestar coisa alguma a governos que tentem qualquer tipo de economia mista.

Não há dúvidas de que se a China diz que aprendeu com esses padrões, está dizendo que aprendeu o que evitar, para fazer o contrário, para criar sistema financeiro e de comércio independente e sistemas de desenvolvimento que não acabem gerando dinheiro e desenvolvimento exclusivamente nos EUA, para a economia dos EUA.

Há uns 30, 40 anos, o Banco Mundial produziu um documento intitulado “Parceiros no Progresso”. No meu livro Super Imperialism, eu o chamei de “Parceiros no Atrasismo”. Nas muitas discussões que tenho tido na China, na Rússia, os economistas com quem tenho falado sabem perfeitamente e dizem claramente que o Banco Mundial, por lá, só promoveu o subdesenvolvimento.

No caso da Rússia, por exemplo: colegas meus, especialistas em terras, que se reuniram em São Petersburgo e em Moscou, inclusive com Vladimir Putin, e já desde 1991, lá estavam para traçar o projeto pelo qual a Rússia poderia manter sua base de arrecadação se taxasse a terra, os recursos naturais. No momento em que saíram de lá, o Banco Mundial apareceu, visitou várias cidades russas que haviam aceitado a ideia de taxar a terra e os recursos naturais para gerar renda para as administrações públicas locais, e disse a todas as autoridades locais que haveria gordos e generosos empréstimos para todos, sob a condição de que não se criassem impostos sobre a terra e os recursos naturais locais. É indispensável acabar com os impostos e não taxar coisa alguma, para que a privatização atraia interessados. Deu certo, e a terra e muitos recursos naturais foram privatizados, vendidos a oligarcas cleptocratas.

Na sequência, o único modo pelo qual os oligarcas cleptocratas e outros proprietários que compraram terra e recursos naturais na Rússia podiam converter aquelas propriedades em dinheiro era vendê-las a investidores norte-americanos que investem em petróleo, gás, minérios, diamantes, níquel e outras matérias primas que a Rússia tinha.

Foi como a Rússia afinal entendeu – quando chegaram o Banco Mundial e a AID [International Development Agency (?)], com aqueles Harvard-boys, e com Larry Summers à frente do cortejo. Chegaram, para acabar com a Rússia.

Desse modo, os russos tiveram de aprender a tomar outras vias para o desenvolvimento, a construir independência alimentar, a ser independentes também em outros produtos, e a ser independentes sobretudo desse tipo de estratégia viciosa de desenvolvimento que os EUA espalham pelo planeta.

O novo banco, de modo especial, está sendo construído para financiar duas coisas:

(1) para financiar o desenvolvimento da infraestrutura na China e em outros pontos. Com certeza é melhor do que ver chegar as grandes empreiteiras norte-americanas, cobrando preços exorbitantes para construir estradas e aeroportos cuja construção sempre interessa mais às próprias empreiteiras do que aos locais. Muito melhor que venham os chineses.

Mas há outra razão para essa união China-Rússia, nesse novo banco:

(2) os EUA já começaram uma Guerra Fria financeira contra China, Rússia e os BRICS. Estão avançando, um país depois do outro.

Na Ucrânia, por exemplo, os EUA disseram: façam o possível para não pagar o que vocês devem à Rússia. Foram ao Sri Lanka e disseram: vamos voltar para a velha ditadura de direita do grupo que não paga a China. Significa que a China tem tido muito trabalho para receber o retorno dos investimentos gigantes em infraestrutura que foram feitos nesses países e que esses países deveriam estar começando a pagar.

Os EUA agora estão tentando endurecer para conseguir que vários países deem o calote, que não paguem nenhum empréstimo devido aos BRICSs ou a qualquer país fora da órbita militar da Guerra Fria dos EUA.

Além de tudo isso, a China pensa, bem, se tivermos um banco internacional da mesma estatura que o Banco Mundial e o FMI, no caso de os países deverem dinheiro e não pagarem, não farão como os EUA manda que façam hoje e se endividem para jamais pagar, porque no Banco de Desenvolvimento chinês há vários países associados, França, Itália e outros países asiáticos, nos quais os EUA não interferem.

O Banco chinês é também um meio de proteger os investimentos chineses no exterior, e os empréstimos que a China faça a governos para desenvolver infraestrutura local. No caso dos bancos controlados pelos EUA, quando o país devedor não pode pagar em dólares, vem o FMI, impõe austeridade, e fornece os dólares para que o país pague aos bancos... norte-americanos, aumentando a dívida do país, até uma nova rodada de “cobrança”. Não há qualquer indicação de que a China cogite de impor o mesmo tipo de austeridade incapacitante que o Banco Mundial e o FMI vivem de impor aos países.

PERIES: E como é que você sabe disso?

HUDSON: Nas discussões que tenho tido com especialistas chineses e russos, só se discute isso. O primeiro livro, dos meus, que foi traduzido para chinês e russo foi Super Imperialism, e, por causa dele, temos tido anos e anos de discussões.

PERIES: O que tenho visto é que, por exemplo, a China traz milhares de trabalhadores chineses, para trabalhar nos projetos de infraestrutura que constroem noutros países. Está importando trabalho, não contratando mão de obra local para esses projetos. Isso é o que tenho visto acontecer. Como poderemos saber que será diferente com a China, além do que eles dizem a você, nas reuniões que você tem com eles? Será que os chineses tentam associações mais colaborativas, com os países do sul?

HUDSON: Não há novidade alguma em a China trazer seus empregados e sua própria gerência, nesses projetos gigantes de infraestrutura que mantém pelo mundo. O Banco Mundial sempre trouxe, para os locais dos projetos financiados por ele, a caríssima mão de obra gerencial norte-americana e trabalhadores norte-americanos. A Grã-Bretanha faz exatamente o mesmo. A China, suponho, quer ter certeza de que está no controle dos projetos onde põe o seu dinheiro. Mas a verdade é que os chineses treinaram essa mão de obra super especializada para esses projetos.

O Banco Mundial e o FMI sempre tomaram todos os cuidados para impedir que outros países desenvolvessem o tipo de mão de obra e treinamento que permitiu a eles e só a eles criar infraestrutura, precisamente para manter os países sempre dependentes dos EUA e do Banco Mundial. Claro que, não havendo pessoal especializado, a China usará seu trabalho qualificado. Mas em princípio, obviamente, cada país tem de desenvolver essas competências, de tal modo que possam dizer, ‘não precisamos da mão de obra de vocês, também temos nossa força de trabalho’.

PERIES: Obrigada, Michael, no próximo programa, falaremos sobre a importância de países europeus participarem do projeto do Banco de Desenvolvimento chinês, e sobre os impactos que essa participação pode vir a ter no relacionamento – pelo menos, no relacionamento entre os EUA e aqueles países europeus.

[Fim da entrevista] 


[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends − ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies − (ISCANEE).
Seus dois livros mais recentes sãoThe Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Eurobancos vs. trabalho grego

Varoufakis quer arrocho [“austeridade”] para os banqueiros

24/2/2015, [*] Michael Hudson entrevistado por  Sharmini Peries, TRNN
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Lembram há alguns anos, quando a Europa disse: a Grécia tem uma dívida externa de 50 bilhões? Pois foi-se ver e descobriu-se que o Banco Central Europeu entregara aos partidos gregos uma lista de sonegadores. Ficou conhecida como “Lista Lagarde” (como a então Ministra das Finanças da França, hoje presidenta do FMI, Christine Lagarde), com a relação dos sonegadores que mantinham contas em bancos suíços. Somadas, aquelas contas chegavam a mais de 50 bilhões de euros. Em vários sentidos, bastaria a Grécia cobrar o que lhe devem esses sonegadores, para poder pagar o que deve aos bancos. (...)

Não podemos aparecer e dizer “esse é o plano”. Antes, é preciso garantir, com muita segurança, que quem esteja expulsando a Grécia sejam os Ministros das Finanças de Alemanha, Espanha, Portugal, Irlanda e Finlândia, todos representantes de banqueiros; não o Banco Central Europeu, não o FMI e nem, sequer, governos de centro.


SHARMINI PERIES: A extensão de quatro meses que o ministro das finanças da Grécia conseguiu na 6ª-feira (20/2/2015), veio com a condição de que a Grécia apresente uma lista de medidas para aplacar as ansiedades de seus credores internacionais, especialmente dos bancos alemães representados pelos ministros das finanças em Bruxelas, que temem que Atenas não cumpra a promessa de cortar gastos e implantar medidas de arrocho [‘austeridade’]. No domingo, Atenas apresentou a tal lista. Aqui, para nos falar desse plano, está o professor Michael Hudson.

MICHAEL HUDSON, PROF. DE ECONOMIA, UNIV. MISSOURI, KANSAS CITY:Obrigado.

PERIES: Michael, esses bancos internacionais representados em Bruxelas pelos ministros das Finanças que lá estão reunidos, quando estiveram em crise e foram “resgatados” pelo Tesouro Público, não viram problema algum [em torrar dinheiro público para arrancá-los da bancarrota]. Por que, agora, se recusam a ajudar a Grécia quando a Grécia precisa, quando até vários políticos e até a chamada Troika parece mais receptiva ao que a Grécia diz?

HUDSON: Porque o que há aí, realmente, é guerra de classes. Não se trata, como dizem os jornais, de Alemanha versus Grécia. Trata-se de fato de guerra de bancos contra o trabalho. E é uma continuação do thatcherismo e do neoliberalismo. O problema não é só que a Troika quer que a Grécia equilibre o orçamento; quer que equilibre o orçamento arrochando salários e impondo arrocho e mais arrocho [“austeridade”] sobre a força de trabalho. Diferente disso, os termos que Varoufakis sugeriu para equilibrar o orçamento “transferem” o arroxo e devem impor austeridade à classe financeira, aos magnatas e aos sonegadores de impostos.

Varoufakis propõe que, em vez de reduzir pensões e aposentadorias de trabalhadores e aposentados, em vez de fazer encolher o mercado doméstico, em vez de perseguir um arrocho de autodestruição, uma “austeridade” que se autoderrota, vamos extrair dois e meio bilhões de euros dos poderosos magnatas gregos. Vamos cobrar os impostos que devem. Vamos acabar com contrabando de petróleo e outras redes de tráfico e vamos cobrar impostos e taxas devidas de proprietários. Porque as classes ricas gregas tornaram-se notórias sonegadoras.

Isso enfureceu os bancos. Fato é que os Ministros das Finanças da Europa não querem de modo algum equilibrar orçamento algum, se, para isso, se criarem impostos sobre fortunas, impostos que os ricos tenham de pagar, porque os bancos sabem que todo o dinheiro que não vai para pagar impostos, vai para sustentar os bancos. Os duelantes tiraram as luvas. A luta de classes está aí, diante de nossos olhos.

Originalmente, Varoufakis pensou que estivesse negociando com a Troika, quer dizer, com o FMI, o Banco Central Europeu e o Conselho Europeu. Mas logo ficou sabendo que não; que a Grécia estava negociando com os Ministros de Finanças europeus, e Ministros de Finanças europeus são todos muito parecidos com Tim Geithner nos EUA. São lobbyistas a serviço dos grandes bancos. E os ministros de finanças disseram: “como podemos acabar com esse sujeito e garantir que a Grécia seja usada para aplicar uma lição a outros recalcitrantes, mais ou menos como os EUA fizeram com Cuba nos anos 1960s?”.

PERIES: Um momento, Michael. Vamos explicar isso, porque o Ministro grego, Yanis Varoufakis, é muito bem informado e bem posicionado. Por que ele suporia que estivesse negociando com a Troika quando, de fato, estava negociando com os Ministros de Finanças?

HUDSON: Porque oficialmente a negociação estaria sendo feita com FMI, BCE e CE. Varoufakis acreditou no que lhe disseram. E depois descobriu – e James Galbraith, que foi com Varoufakis a Bruxelas, publicou coluna na revista Fortune [traduzida], em que diz, não, não, calma, os Ministros de Finanças estão contra a Troika. A Troika e os Ministros estão às turras, não se entendem entre eles, sobre o que realmente deve ser feito. E para realmente pôr fim a qualquer possibilidade de entendimento, o Ministro alemão, Schäuble, inventou que, “nada de acordos, temos de trazer o governo espanhol e o governo português e o governo finlandês e todos têm de concordar”.

Ora, a posição da Espanha é manter seu partido liberal thatcherista no poder. Se a Grécia consegue avançar, escapar do arrocho [“austeridade”] e salvar seus trabalhadores, nesse caso aumentam as chances do Partido Podemos da Espanha também vencer as próximas eleições e a elite espanhola ter de deixar o poder. Por isso, os líderes espanhóis estão tentando convencer a todos de que Varoufakis e a Coalizão Syriza são completos fracassos, para que possam dizer aos trabalhadores:

Viram o que aconteceu com a Grécia? Foi atropelada, e vai aconteceu o mesmo a vocês, se tentarem fazer o que os gregos fizeram. Se tentarem criar impostos para os ricos pagarem, se tentarem controlar os bancos e impedir a cleptocracia... será o fim do mundo, será um desastre.

Por isso os governos de Espanha e Portugal também querem impor o arrocho [“austeridade”] contra a Grécia. Até a Irlanda começa a acordar e diz:

Santo Deus, o que fizemos nós? Impusemos arrocho [austeridade] durante uma década contra nossos cidadãos, só para “resgatar” bancos falidos. Até o FMI já nos criticou por acompanhar a Europa e resgatar bancos e impor mais e mais arrocho [austeridade]. Se a Syriza vence na tentativa de evitar o arrocho [austeridade] na Grécia, nesse caso todo nosso sacrifício, todo o sacrifício e nossa população, toda a miséria que impusemos ao nosso próprio povo, todo o thatcherismo que impusemos foi desnecessário e não tínhamos nenhuma necessidade de causar toda aquele mal..

Há todo um efeito-demonstração, e aí está a razão pela qual estão tratando a Grécia como caso exemplar, porque a Grécia está mostrando aos trabalhadores que dizem “ninguém tem de impor arrocho [austeridade] contra o próprio povo, e governos populares podem, sim, cobrar os impostos que os sonegadores não querem pagar.

Lembram há alguns anos, quando a Europa disse: a Grécia tem uma dívida externa de 50 bilhões? Ora! Foi-se ver e descobriu-se que o banco central entregara ao governo grego uma lista de sonegadores. Ficou conhecida como Lista Lagarde (como a Presidenta do FMI, Christine Lagarde, que então era Ministra de Finanças da França), com a relação dos sonegadores que mantinham contas no banco HSBC. Somadas aquelas contas chegavam a mais de 50 bilhões de euros. [1] Em vários sentidos, basta a Grécia cobrar o que lhe devem esses milionários sonegadores de impostos, para pagar o que deve... aos bancos.

Mas o caso é que, nesse caso, se trataria de arrancar dinheiro de dentro de bancos suíços e outros. De fato, os bancos estariam pagando a eles mesmos. E os bancos não querem pagar coisa alguma a eles mesmos. O que querem é arrochar os trabalhadores [a isso os bancos e a imprensa-empresa e até Obama (veja abaixo) chamam de “austeridade”. Não é “austeridade”: isso é arrocho contra os trabalhadores]; e querem deixar livres os sonegadores e os magnatas gregos para continuar a roubar os governos e estados. Por tudo isso, de fato, a Troika – nem é, de fato, a Troika, são mais os Ministros de Finanças representantes de bancos privados – estão apoiando os sonegadores e os barões-ladrões na Grécia, os mesmos contra os quais a SYRIZA tenta agir. [2]

E o FMI, dessa vez, pode assumir posição mais suave. Até o presidente Obama já se intrometeu e, parece, telefonou à chanceler alemã Merkel, para dizer que:

Veja, você não pode forçar a “austeridade” além de um certo ponto, porque você vai empurrá-los para fora do euro, e os empurrará para fora do euro nos termos da SYRIZA.
E a SYRIZA poderá dizer aos gregos: nós fizemos o que prometemos; acabou a austeridade; nos expulsaram do euro; fomos expulsos, como parte da luta de classes.

PERIES: Há alguns dias, você fez também uma analogia entre o que se passa na Grécia e o que houve com Cuba.

HUDSON: Cuba, no governo de Castro, criou um sistema social alternativo. Queria distribuir a riqueza – nesse sentido, foi sistema marxista. Queria livrar-se dos escroques que cercavam Batista, e que governavam o país, os ricos que não pagavam impostos. Castro queria uma revolução social. Os EUA temiam muito que, se Cuba fosse bem-sucedida, haveria revoluções por toda a América Latina. Os latino-americanos perceberiam que, podiam encampar as plantações norte-americanas de açúcar, as plantações norte-americanas de banana e obrigar os ricos a pagar impostos, e obrigar empresas a pagar impostos, e obrigar os exportadores a pagar impostos – não só o trabalho e os trabalhadores.

Os norte-americanos pensaram: “nós podemos sindicalizar o trabalho, podemos educar o trabalho, podemos adestrar o trabalho – mas se Cuba conseguir ensinar o trabalho a operar de outro modo”... será terrível desastre para os planos neoliberais! Porque se o trabalho é socialmente ensinado e tem programa social de democratização, os trabalhadores logo perceberão que há alternativa ao thatcherismo neoliberal.

Esse é o problema sobre o qual Varoufakis escreveu esse mês, no Guardian [3] sobre como se relaciona com o pensamento marxista. Disse que o problema que a Grécia enfrenta é que, se sair do euro, se for empurrada para fora do euro, haverá um trauma econômico.

A esquerda em toda a Europa, como na América, não tem, de fato, um programa econômico. Assim sendo, a única alternativa para a SYRIZA, e que têm programa econômico, são os neonazistas da Aurora Dourada. O que preocupa Varoufakis é que ele não está discutindo só com Ministros das Finanças de países da Europa num único front; está discutindo também no front grego contra os partidos de direita e são os partidos nacionalistas, como o de Marie Le Pen na França. E esses partidos é que estão dizendo: sim, sim, nós temos alternativa. Basta que saiam do euro.

Mas essa não é nem alternativa nem retirada que a esquerda possa assumir porque, de fato, nem há grande esquerda na Grécia, exceto o pequeno partido (Coligação) SYRIZA. O partido socialista de Papandreou com certeza não é esquerda; nem é esquerda o partido só nominalmente socialista da Espanha, que é partido neoliberal thatcherista, e com certeza o Labour Party britânico tampouco é partido de esquerda (é “trabalhista” à moda Tony Blair!).

Tudo isso para dizer que Varoufakis tem cerca de quatro meses para educar o público grego para o fato de que, sim, há alternativa e é a seguinte.

A alternativa para o neoliberalismo não precisa ser o nacionalismo neonazista de direita. Há uma alternativa socialista, e estamos tentando construir todos os arranjos que pudermos, para que, se formos expulsos do euro, e os bancos desabarem, tenhamos um plano B. Não podemos aparecer e dizer “esse é o plano”. Antes, é preciso garantir, com muita segurança que quem esteja expulsando a Grécia sejam os Ministros das Finanças de Alemanha, Espanha, Portugal, Irlanda e Finlândia, todos representantes de banqueiros; não o Banco Central Europeu, não o FMI, nem, sequer, governos de centro.
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[1] Vide 27/10/2012, “The Controversial ‘Lagarde List’ Has Leaked, And It's Bad News For The Greek Prime Minister”, Matthew Boesler, Business Insider.

[2] Notícia de hoje (28/2/2015), em IO Publico (Portugal): Grécia. A declaração de guerra de Varoufakis.

O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, admitiu hoje a criação de uma “taxa extraordinária” para “aqueles que podem pagar”, com o objetivo de garantir o equilíbrio do orçamento do país.

Estamos comprometidos com garantir orçamento equilibrado. Se tiver que impor um imposto especial, fá-lo-ei, mas sobre aqueles que podem pagar” – afirmou o governante numa entrevista concedida à estação televisiva grega Skai. “Não vamos pedir dinheiro aqueles que sofrem”, garantiu Varoufakis.

Estamos interessados naqueles que têm dinheiro e que nunca pagaram. Eles são o nosso alvo e seremos implacáveis”, realçou o responsável. E acrescentou: “Queremos encontrar uma solução para fazer pagar aqueles que têm dinheiro”.

O ministro helênico disse aguardar que os parceiros europeus ajudem a Grécia a fazer cumprir o pagamento dos impostos devidos pelas empresas do país que escapam à tributação e que não se limitem a dar “lições” ao país.

O Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou na sexta-feira um primeiro conjunto de medidas para lutar contra a evasão fiscal e aumentar as receitas do Estado, incentivando os contribuintes a pagar parte de suas dívidas. (...)

[3] Ensaio adaptado de VAROUFAKIS, Yanis (2013), 24/2/2015, redecastorphoto:   Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, traduzido.
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[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; Presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).
Seus dois livros mais recentes são The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Michael Hudson: “O FMI anexou a Ucrânia?”

15/2/2015, Entrevista com [*] Michael HudsonThe Real News Network, TRNN
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Ler também:


[Comentário de Naked Capitalism: Aqui fala Yves. Ucrânia está entrando num dos programas do FMI em condições ainda piores que as da Grécia com os vários empréstimos que recebeu da Troika em 2010. E pode-se ver no que deu, no caso da Grécia, tomar mais empréstimos quando já se está super endividado. Além disso, essa entrevista com Michael Hudson mostra claramente que o empréstimo para a Ucrânia está alucinadamente fora de tudo que se conhece como “regras do FMI”. Assim se vê, crua e dolorosamente, que esse “resgate” nada é além de injeção de meios para que o governo ucraniano possa continuar a fazer guerra, sem nem pensar em desenvolvimento econômico].



E o Brasil dos anos FHC-Malan esteve em situação igualmente terrível.  Fomos salvos do FMI pelos governos Lula-Dilma [vide NOTA IMPORTANTE, abaixo (NTs)]



SHARMINI PERIES, Produtora Executiva, TRNN: Bem-vindos ao Michael Hudson Report na The Real News Network. Sou Sharmini Peries, falando com vocês de Baltimore.

Foi acertado um cessar-fogo no leste da Ucrânia, depois de uma maratona que durou uma noite inteira, 17 horas de negociações entre o Presidente Vladimir Putin, da Rússia, e o Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko. Acompanharam a discussão dois líderes europeus, como uma espécie de ‘'público qualificado'’. (...) Para falar sobre isso, está conosco hoje o professor Michael Hudson. Obrigada, Michael, por nos receber.

MICHAEL HUDSON: Obrigado pelo convite.

PERIES: Em recente entrevista publicada em The National Interest, você disse que a maior parte da imprensa-empresa cobre a Rússia como se fosse a maior ameaça contra a Ucrânia. Mas que a história sugere que o FMI pode ser ameaça muito mais terrível. O que você quis dizer com isso?

HUDSON: Em primeiro lugar, os termos sob os quais o FMI faz empréstimos exigem muito arrocho (...)

[ATENÇÃO: No original, austerity (port. “austeridade”, mas em campo semântico completamente diferente e com a carga moral positiva que lhe dão os liberais, reforçada pela incansável repetição na imprensa-empresa de propaganda contra governos democráticos; “arrocho” (port.) significa exatamente a mesma coisa que “austeridade”, mas sem acrescentar os traços semânticos traços moralmente positivos que os liberais acrescentam em “austeridade”; e com os traços negativos, de coisa não desejável, que lhe dão as classes trabalhadoras, por exemplo nas expressões, “programas de arrocho [de salários e de direitos dos que trabalham] (NTs)]

(...) e o fim de todos os subsídios públicos. A população ucraniana já está economicamente devastada. As condições que o programa do FMI impôs para fazer empréstimos à Ucrânia é que o país pague as próprias dívidas. Mas o país não conseguirá pagar. Assim sendo, só há um meio para que consiga pagar, e é o mesmo meio que o FMI disse à Grécia e a outros países que usassem: que liquidem todo e qualquer bem que o país ainda possua; o que quer que ainda haja sob controle do poder público; que crie sociedades em que se casem os milionários ucranianos oligarcas e investidores norte-americanos ou europeus, de modo que eles possam criar monopólios na Ucrânia e dedicar-se a extrair lucros da miséria do país.

Esse é o plano “de saque e voleio” mortal do FMI: concedem o empréstimo – a ser usado para pagar os credores, de modo que, agora, o país passa a dever para eles, para o FMI, entidade com a qual nenhuma dívida pode ser extinta ou perdoada. Esse empréstimo é feito sob os termos da Ficção Reinante: que a Ucrânia pode(ria) pagar a dívida externa com um excedente no orçamento doméstico, que apareceria tão logo se cortassem gastos públicos e se aprofundasse ainda mais a depressão.

Essa ideia de que dívidas externas possam ser pagas com arrocho de salários e serviços públicos foi contestada por Keynes nos anos 1920s, na discussão da reparação alemã. (Devoto um capítulo a essa controvérsia em meu Trade, Development and Foreign Debt).

No século XXI, já não há desculpas para cometer tal erro – a menos que seja erro “planejado”, deliberado, plano feito para fracassar, quando então o FMI pode dizer que “aconteceu”, culpa de ninguém e surpresa para todos, que o seu tal “programa de estabilização” desestabilizou, em vez de estabilizar, mais uma economia.

O preço por seguir essa economia−droga é pago sempre pela vítima, não pelo distribuidor da substância viciante. É item importante na estratégia do FMI de “culpe a vítima”.

Então, vem a segunda parte do golpe “saque e voleio” do FMI. É quando dizem:

Ora... Vocês não podem pagar o que emprestamos?! Sentimos muito que nossas previsões para o caso de vocês tenham sido tão erradas. Mas... vocês têm de achar um modo de nos pagar. Vão ter de vender tudo o que ainda esteja em mãos do estado endividado...

O FMI erra, no caso da Ucrânia, ano após ano, praticamente tanto quanto sempre errou no caso da Irlanda e da Grécia. As suas “receitas” são as mesmas que devastaram as economias do 3º Mundo a partir dos anos 1970s. [vide NOTA IMPORTANTE].

Assim, o problema agora é o que a Ucrânia terá de vender em liquidação para pagar a dívida que tem com o FMI e o Banco Central Europeu – e dívida que não para de crescer, porque também não para a guerra [inventada pelo “ocidente”] que já devastou a economia ucraniana.

Um dos valiosos bens ucranianos que muito interessam aos investidores estrangeiros é a preciosa terra ucraniana agricultável. A empresa Monsanto vem comprando – de fato, arrendando, porque há leis na Ucrânia que ainda impedem a venda de terra agricultável a estrangeiros. De fato, é lei muito semelhante à que o Financial Times noticiou que a Austrália quer ver aprovada, para impedir que empresas chinesas e norte-americanas comprem terra no país.

O FMI também insiste que países devedores desmontem toda e qualquer legislação ou regulação que haja contra investimentos estrangeiros, e todas e quaisquer regulações de proteção ao meio ambiente e de proteção ao interesse dos consumidores.

Significa que está sendo assada, para ser enfiada goela abaixo da Ucrânia, mais uma política neoliberal que, com certeza absoluta, só agravará ainda mais a situação.

Nesse sentido, se pode dizer que finança é guerra. Finança é a nova modalidade de guerra, em que nações beligerantes usam a finança e liquidações forçadas, num novo tipo de campo de batalha. Nada disso jamais ajudará a Ucrânia. Só levará a nova crise, adiante, e muito muito depressa.

PERIES: Michael, examinemos com mais cuidado toda essa crise (...).

HUDSON: Quando Kiev foi à guerra contra o Leste da (então) Ucrânia, combateu contra, basicamente, a região de minas de carvão e área de exportações. 38% das exportações da Ucrânia viajam diretamente para a Rússia. Grande parte dessa capacidade de exportação foi bombardeada e já não existe. Além disso, as empresas de eletricidade, que fornecem energia elétrica para as minas também foram bombardeadas. Significa que a Ucrânia já não produz carvão, sequer, para abastecer o próprio país.

O mais espantoso é que há apenas poucas semanas, dia 28/1/2015, Christine Lagarde, chefe do FMI, disse que o FMI não concede empréstimos a países em guerra, que seria financiar um lado ou o outro dos combatentes... Ora! A Ucrânia está envolvida numa guerra civil. A grande questão é, portanto, quando, afinal, o FMI começará a liberar o empréstimo que está sendo discutido [O “cessar-fogo” firmado ontem (11’2’2015) pode ter algo a ver com “não haver guerra” formal na Ucrânia... (NTs)].

O FMI tampouco “pode” emprestar para países insolventes. Assim sendo, como, afinal, a Ucrânia seria candidata viável a empréstimos se, (1) está em guerra; e (2) é insolvente?

A única solução é a Ucrânia pagar o que deve a alguns investidores. O que significa muitos investidores de hedge funds de especulação, muito contrariados. O [jornal] Financial Times de hoje publicou matéria em que mostra que só um investidor norte-americano, Michael Hasenstab, é proprietário de US$ 7 bilhões da dívida da Ucrânia e contava especular com ela, além do Templeton Global Bond Fund.

Como a Ucrânia lidará com os especuladores? E então, por fim, como o FMI lidará com o fato de que o fundo soberano da Rússia emprestou 3 bilhões de Euros à Ucrânia sob condições duríssimas mediante o acordo de Londres, e dívida que não pode ser extinta por acordo? Será que o FMI insistirá em que a Rússia sofra o mesmo tratamento que os fundos hedge de especuladores? Todas essas questões se acumularão num tipo de conflito que exigirá muito mais esforço, até, que o que vimos no campo de batalha militar, em dias recentes.

PERIES: Assim sendo, como a Ucrânia imagina que consiga sair dessa crise?

HUDSON: O mais provável é que a Ucrânia viva num universo paralelo, num mundo imaginário no qual conseguiria sair da crise com o ocidente dando US$ 50 bilhões ao país e dizendo, olhem bem, aqui está todo o dinheiro de que precisam, gastem como bem entenderem. É delírio. É até onde vai a imaginação, a fantasia. O país está vivendo num mundo fantasiado. Mas há, bem real, nessa fantasia, que há algumas semanas George Soros escreveu na New York Review of Books e conclamou o Congresso e “o Ocidente” a dar US$ 50 bilhões à Ucrânia e considerar como adiantamento para os militares ou para usar contra a Rússia. OK, Kiev respondeu imediatamente, sim, só gastaremos em armamento de defesa. Defenderemos a Ucrânia daqui até a Sibéria e varreremos do percurso todos os russos que surjam.

Não demorou e hoje o Financial Times em editorial já disse que, sim, deem, sim, à Ucrânia os US$ 50 bilhões que George Soros pediu. Temos de garantir que tenham dinheiro suficiente para combater, pelos EUA, a nova Guerra Fria contra a Rússia.

Mas os europeus continentais não estão gostando...

Calma lá! No fim, por esse plano de vocês, não haverá mais ucranianos para lutarem. A guerra respingará para a Polônia e outros pontos, porque, se o dinheiro dado à Ucrânia for, de fato, para a finalidade que buscam o governo Obama/ Soros/ Hillary [é tooooooooooodo o lobby sionista! (NTs)] – fazer guerra contra a Rússia.

Não há dúvidas de que a Rússia dirá:

OK, se estamos sendo atacados por soldados estrangeiros, somos obrigados a bombardear não só os soldados que chegam, mas também os aeroportos de onde partem, e estações de trem... Nossa defesa será estendida sobre território europeu.

Parece que já começam a surgir notícias confiáveis de que Putin disse à Europa; vocês têm dois caminhos:  

Caminho 1: Europa, Alemanha e Rússia podem constituir área de alta prosperidade. As matérias primas da Rússia, com a tecnologia europeia, e seremos uma das áreas mais prósperas do mundo.

Ou,

Caminho 2: Façam guerra contra a Rússia e a Rússia pode acabar com vocês. É só escolher, e não há “terceira via”.

PERIES: Michael, muito obrigado por nos receber.

HUDSON: Sempre bom falar com vocês, Sharmini.




[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).
Seus dois livros mais recentes são The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.


NOTA IMPORTANTE:

O Brasil, no governo FHC e com Malan no Ministério da Fazenda, chegou a dever 400% do que poderia retirar por empréstimo do FMI:

[Em 2015] comemoram-se 13 anos da última vez que o Brasil tomou empréstimos do Fundo Monetário Internacional. Na gestão do Ministro Pedro Malan, na Fazenda, no governo Fernando Henrique, a dupla anunciou oficialmente em 8 de agosto de 2002, que havia acabado de assinar um pacote de US$ 30 bilhões de empréstimo junto ao Fundo. Não fora a primeira vez naquela administração. Em 11 de novembro de 1998, também com FHC-Malan, o Brasil fechou um acordo para poder sacar do Fundo o bagatela de US$ 20 bilhões nos três subsequentes à assinatura.

Outros US$ 32 bilhões ficaram disponíveis para serem sacados no ano de 1999. Marcado para ser encerrado em novembro de 2001, o acordo com o FMI foi prorrogado pelo governo às vésperas de seu encerramento. Assim, o País tomou emprestado mais US$ 15 bilhões, pagando juros de 4,5% ao ano por 25% desse dinheiro, e fortes 7,5% pelo restante. Àquela altura, o Brasil já lançava mão de uma soma equivalente a 400% de sua cota no próprio FMI.

Ainda assim, todos os empréstimos do Fundo se mostraram, para a equipe econômica, insuficientes para garantir estabilidade econômica ao País. Em junho de 2002, por exemplo, houve um saque de US$ 10 bilhões junto ao Fundo, além de ser estabelecida uma redução de garantias de reservas a serem apresentadas pelo Brasil. O mínimo de US$ 20 bilhões em caixa para tomar empréstimos foi reduzido para US$ 15 bilhões para facilitar novas operações. A dependência dos recursos do Fundo estava explícita.

Em agosto de 2002, uma última linha de crédito foi tomada, de US$ 30 bilhões, completando a terceira ida do País ao FMI nos dois anos de gestão de FHC na Presidência e de Pedro Malan na Fazenda. A obtenção desse dinheiro foi apresentada como uma necessidade em razão da volatilidade ampliada pela disputa eleitoral daquele ano, entre Lula, do PT, e José Serra, do PSDB. Logo após a assinatura, o Brasil precisou fazer novo saque bilionário.

No governo Lula, logo em abril, o Brasil pagou US$ 4,2 bilhões ao FMI, adiantando a parcela de quitação dos recursos tomados no ano anterior. Depois desse movimento, o País não precisou recorrer novamente ao Fundo. Atualmente, Brasil já emprestou US$ 10 bilhões ao fundo e exibe reservas internacionais acima de US$ 379 bilhões. [8/8/2012, Pragmatismo Político].