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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Xi (e Mao Zedong) e o fim de Zhou Yongkang (e post-scriptum)

8/12/2014, [*] Francesco Sisci (de Pequim) Asia Times Online − Sinograph
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Zhou Yongkang (E) e Xi Jinping
Com a expulsão do Partido Comunista, semana passada, de Zhou Yongkang – ex-czar da segurança e membro do Comitê Governante (o mais alto corpo político chinês), o grande líder Xi Jinping pôs fim, formal e oficialmente, a uma era. A remoção de Zhou, que implica que em breve ele será julgado em tribunal público, só teve, na história da China, um precedente: a prisão da famosa Gangue dos Quatro, em 1976, e respectivo julgamento em 1980.

O Partido Comunista tem três corpos de governo, de baixo para cima: o Comitê Central, o Comitê Político (o Politburo) e o Comitê Governante.

Assim sendo, os nomes mais destacados que tombam nas guerras políticas dentro do partido – a começar por Zhao Ziyang, ex-Secretário-Geral e membro do Comitê Governante que perdeu o posto por apoiar as manifestações de estudantes na Praça Tiananmen em 1989 – são demovidos e censurados, mas nunca são julgados em julgamentos públicos. Em meados dos anos 1990s, o líder do partido em Pequim, Chen Xitong, membro do Politburo, foi sentenciado por um tribunal, mas seu aliado de status mais alto no Comitê Governante não foi nem citado. Cerca de uma década depois, seu colega em Xangai, Chen Liangyu, também membro do Politburo, teve o mesmo destino, mas seu mentor, Huang Ju, no Comitê Governante, foi poupado da execração pública em tribunal e deixado em casa para morrer de câncer.

Por um momento, pareceu que o mesmo padrão seria seguido também no caso de Bo Xilai, ex-líder do Partido em Chongqing e membro do Politburo. Bo foi exposto em julgamento ano passado, mas o destino de Zhou, seu principal mentor e novamente membro do Comitê Governante, ainda permanecia na balança, sem decisão. Inicialmente, pareceu que Xi dar-se-ia por satisfeito com os efeitos da má propaganda para o destino de Zhou, e com a desgraça que atingiu seus aliados entre os militares, Xu Caihou, ex-Vice-Presidente da Comissão para o Exército de Libertação Popular [o exército chinês, ing. PLA (People's Liberation Army)] e Guo Boxiong.

Agora, pela primeira vez, as notícias da expulsão de Zhou nos levam de volta aos dias do fim da Revolução Cultural. É o fim de uma era – Xi está dizendo claramente. Mas há uma diferença importante entre aquele fim e o fim atual.

Gang dos 4, julgamento em 1981
Naquele momento, os conhecidos quatro (Jiang Qing, Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen) não eram membros do Comitê Governante nem do Politburo, foram presos de surpresa, todos no mesmo momento, com diferença de apenas poucos minutos entre um e outro, num famoso “golpe de mão” organizado e executado pelo ex-chefe dos guarda-costas de Mao Zedong, Wang Dongxing.

Agora, as prisões aconteceram em câmera lenta, numa demorada campanha que durou anos e meses e que prossegue. Isso sugere que em 1976 o poder da Gangue dos Quatro ainda era muito grande. Considerava-se difícil qualquer confronto direto com eles no partido, com resultados incertos. E, para livrar-se deles, Wang Dongxing e aliados entenderam que seria preciso agir depressa. O mesmo grupo, depois, acabou por reconduzir Deng Xiaoping de volta ao poder.

Mas Xi, hoje, não controlava a segurança (que estava nas mãos do próprio Zhou) nem o exército (que estava nas mãos de Xu Caihou e Guo Boxiong). Então, teve de proceder de modo diferente. Moveu-se por dentro das engrenagens do partido, que continuava sob seu controle, e marchou lentamente, de modo sistemático, eliminando não só algumas poucas cabeças, mas todos quantos não estivessem plenamente de acordo com a nova orientação – foram milhares e milhares, como se viu ao longo dos últimos poucos anos.

Xu Caihou (E) e Guo Boxiong
A atual batalha a favor da lei-e-ordem parece ser simultaneamente a razão de ser e o resultado dessa disputa pelo poder. É a razão, porque o partido (o qual, como a Igreja Católica Romana é movido por profundos objetivos idealistas/“teológicos”) jamais encontraria razões suficientes para livrar-se dessas figuras tão poderosas, sem mover toda uma complexa maquinaria teórica e ideológica.

E é também o resultado, porque um novo método está sendo implantado agora, um sistema de estado legal de direito (em chinês, yi fa zhi guo, para assinalar que se trata de governar sob o poder da lei, não mais o velho ambíguo fa zhi [governo da lei]), no qual até os chefões mais poderosos do partido estão submetidos ao poder da lei.

Esse processo – o processo, só o processo – é assemelhado ao que Mao Zedong aplicou em [maio de] 1942 em Yan’an, no Fórum sobre Ideologia e Arte. Mao então tinha de livrar-se do poder intratável de Moscou – que enviava dinheiro, fator vital para a sobrevivência de um partido muito debilitado – e evitar que 28 chineses bolcheviques treinados em Moscou assumissem total controle sobre o partido. Mao queria continuar a receber o ouro de Moscou, queria livrar-se dos 28 bolcheviques, queria assumir o controle do partido e queria abri-lo para intelectuais liberais chineses, cada dia mais vacilantes no apoio que davam a nacionalistas cada dia mais conservadores.

Fórum de Literatura e Arte de Yan'na comemora os 70 anos de Mao Zedong
Por fim, mas não menos importante, Mao queria manter as vias de contato abertas com os EUA, cada dia menos satisfeitos com a gangue cada dia mais corrupta do KMT. Para alcançar esses complexos objetivos, Mao tinha de estabelecer uma “hegemonia cultural” (o termo foi cunhado pelo líder do Partido Comunista Italiano, Gramsci, que desenvolvera independentemente sua teoria, nos anos 1930) sobre o partido e sobre o país. Mao o fez, afirmando o princípio das “características chinesas” (zhongguo tese).

A ideia, em termos muito simplificados, era que condições práticas na China, podiam superar preocupações ideológicas. Assim sendo, tudo passava a depender de fazer-se acurada leitura da realidade concreta em campo. A China rural, que Mao compreendia melhor que seus letrados camaradas urbanos, passava a ser o padrão para aferir resultados e políticas. Quase que “por definição”, os 28 camaradas chineses bolcheviques treinados em Moscou, que conheciam a realidade da URSS, mas nada da China rústica, foram postos a nocaute. 

Desta vez, Xi está usando padrões diferentes: não “características chinesas”, mas o estado de direito, com governo sob o poder da lei (yi fa zhi guo). Teve sobejas razões para fazer incansável campanha a favor do estado de direito, numa situação em que os funcionários do partido e respectiva clientela puxavam cordões de um lado para outro, empurrando as leis e regulamentos conforme mais lhes conviesse e modelando as instituições do estado como conviesse aos seus desejos.

Leonid Brezhnev
Esse procedimento estava empurrando a China, objetivamente analisada, para a armadilha soviética da era Brezhnev nos anos 1970s, quando indústrias poderosas (no caso da China, as Empresas de Propriedade do Estado, chamadas genericamente “EPEs” [ing. State-Owned Enterprises, ou SOEs] começavam a mandar no Estado, o corrompiam e faziam do país barco raso empurrado de um lado para outro conforme mandassem os interesses de alguns oligarcas. Empresas privadas, os dínamos do crescimento desde ao final dos anos 1970s, estavam sendo postas de lado, ou atropeladas, pelas gigantescas EPEs, dedicadas a pôr fim a qualquer competição de mercado; o preço a pagar por isso, era que aquelas empresas estavam tornando toda a economia chinesa menos eficiente e tornando mais lento o desenvolvimento chinês.

A ideia do governo sob o poder da lei trouxe de volta o padrão de eficiência e desenvolvimento – e pôs sob nova luz até o conceito de “características chinesas”, as quais eram invocadas a torto e a direito para justificar comportamentos bem específicos, os quais, de fato, não passavam de práticas de corrupção com praticamente nenhum traço especificamente chinês.

As consequências do novo governo sob o poder da lei são múltiplas. Hoje, o conceito é como uma varinha de condão nas mãos de Xi, mas as consequências são inescapáveis. Se a ideia de que a China será governada sob o poder da lei é ideia para valer, e será, sim, aplicada, nesse caso a gangue que levou o país à beira do colapso – e que, vale registrar, são inimigos de Xi – tem de ser eliminada, como o determinam as novas leis do país.

Zhou e seu grupo têm de ser julgados em julgamentos públicos, não para serem usados como exemplo, mas para mostrar ao povo chinês e também a todo o mundo fora da China – agora que o país amplia sua inserção internacional – o novo sistema; e para cimentar firmemente o princípio que, doravante, governará a China.

De fato, serão necessários anos e muita destreza e muita sabedoria, para aplicar plenamente o princípio do governo sob o poder da lei, em um país acostumado a décadas de exercício do poder o mais nu e cru. Foi exatamente assim também com as pragmáticas “características chinesas” de Mao. Tiveram de impor-se contra décadas de divisões muito ideológicas e um nacionalismo dogmático que se gravara a fogo no sistema de defesa do império, mas que só defendiam o status quo e velhos interesses, contra a necessidade absoluta de modificações profundas e dramáticas.

Mao Zedong desfila vitorioso em Pequim em outubro de 1949
A reconstrução e reformatação do partido no início e meados dos anos 1940s; a vitória na guerra civil no final dos 1940s; e depois, os primeiros anos do poder comunista nos anos 1950s assistiram a um esforço massivo para desenraizar (as vezes dramaticamente) antigos hábitos e fortes interesses.

Os anos por vir talvez assistam a movimento semelhante, embora agora o esforço deva limitar-se ao interior do partido, sem alcançar toda a sociedade. De fato, dessa vez a sociedade chinesa e as empresas privadas chinesas abraçaram quase unanimemente com entusiasmo as mudanças e as reformas que, embora lançadas e orientadas pelo partido, também sofriam a oposição de outros setores do mesmo partido.

Mas, uma vez implantados os padrões, eles ganham vida própria, independente de quem os tenham concebido. A necessidade de enfrentar resultados práticos e realidades em campo voltaram para morder Mao, no caso do Grande Salto Adiante, no final dos anos 1950s. Amigos e apoiadores de Mao procuraram-no para dizer que sua magnífica ideia de rápido desenvolvimento mediante a mobilização popular não estava funcionando; o povo não estava enriquecendo: estava cada dia mais perto de morrer de fome.

A primeira resposta de Mao a essas críticas não poderia ser negar a teoria que manda ler as objetivas realidades em campo (a teoria que era a espinha dorsal de seu poder); então, para conseguir negar a mensagem, ele teve de declarar que os mensageiros não eram fidedignos. Quando a mensagem afinal tornou-se totalmente inegável, Mao teve de deixar o poder, no início dos anos 1960s.

Fê-lo sob protesto, desconfiando de desonestidade e deslealdade por todos os lados e por isso empurrou a Revolução Cultural sobre seus ex-amigos em meados dos anos 1960s. O movimento negou qualquer praticalidade que houvesse nas características chinesas e empurrou a China para outro reino teórico, com pouco ou nenhum contato com a realidade. Mao então, sim, estabeleceu uma nova hegemonia cultural, mas dessa vez baseada só no exercício pessoal do poder e abuso cruel das emoções humanas, não sobre necessidades e carências reais – e por isso falhou miseravelmente depois de pouco tempo.

A volta de Deng ao poder, e seu foco nas “características chinesas” foi declaração política e ideológica de retorno ao maoísmo original de 1942 e contra o maoísmo posterior, enlouquecido, da Revolução Cultural. Deng fez o que fez forçando ainda mais o antigo pragmatismo de Mao e reforçando a absoluta necessidade de visar a resultados (“nada muda se o gato é preto ou branco, enquanto caçar ratos”, como disse Deng) e não a princípios dogmáticos vazios.

Deng Xiaoping
Agora, a teoria de Xi de governo sob o poder da lei é esforço similarmente dramático, que mobiliza o espírito de Mao de 1942, absorvendo-o e indo bem além do ponto a que Mao chegou.

Xi quer estabelecer uma nova lógica, uma nova teologia que ultrapassa em muito as teorias de construção do partido que passaram a predominar depois daquela conferência de 1942.

Trata-se de esforço gigante para insuflar vida nova e diferente no Partido Comunista Chinês. Contudo, como ensina o princípio chinês do yin-yang, nada é jamais só branco ou só preto. O gênio do poder da lei, uma vez fora da garrafa (como, antes, o princípio da observação dos resultados em campo), tem vida própria, com lógica própria.

Xi terá de tentar orientar a aplicação de sua teoria com calma e sabedoria. Se algum dia tentar ir contra a lógica do processo, seja pela razão que for, enfrentará desafios semelhantes aos que surgiram à frente de Mao, quando o Grande Salto Avante falhou. Aparentemente, Xi está pessoalmente consciente disso, e se põe, ele também, sob as mesmas regras sob as quais quer que seus camaradas operem.

Mais importante, tudo isso pode ter consequências imensas para o futuro da China, uma vez que controles práticos e o poder da lei sobre o governo podem, com o tempo, exigir mudanças dramáticas na estrutura política interna.
__________________

[*] Francesco Sisci  é pesquisador sênior associado ao Centro de Estudos Europeus da Universidade do Povo, em Pequim. Ë também colunista do jornal diário italiano Il Sole 24 Ore.
Recebe e-mails em: fsisci@gmail.com


PS (dos tradutores):

(1) Desde que os chineses não inventem de implantar por lá a famigerada “democracia” ocidental, com eleições movidas a golpes de “cumunicação” & “pesquisas” de mercado... eles podem mudar o que quiserem, tão “dramaticamente” quanto lhes dê na telha, e podem pôr-se tão liberal-subalternamente “sob o governo da lei” quanto queiram. Talvez funcione, por algum tempo.
Mas só funcionará até que apareçam por lá na China um Gilmar Mendes, um Joaquim Barbosa (só que amarelos), como os que conhecemos cá no Brasil.


(2) Impressionante, também que essa chinesada aí (mas pode ser coisa, só do tal de Sisci!) viva a falar de “poder da lei”, como se nunca, no mundo, tivessem existido Marx, Lênin e até Mao, que taaaaaaanto ensinaram que a lei, em mundo dividido por classes, é sempre a lei dos ricos contra os pobres e NÃO HÁ OUTRA LEI (exceto, claro, a Lei da Selva, a Lei do Olho por Olho, a Lei do Morro, a Lei da Várzea & coisa e tal).

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sobre a alta resiliência do estado comunista chinês

6/11/2014, [*] Francesco SisciCapX
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Observação importante: As notas de texto dos tradutores estão em VERMELHO.

Entreouvido na tenda do Xôxo, na Vila Vudu: Este ensaio, portanto, não é importante pelo que diz-repete. Pareceu-nos interessante porque registra, com todas as letras, que até um observador ocidental liberal, mas bem informado, já entendeu que o povo chinês NÃO TEM INTERESSE ALGUM em fazer a tal “revolução liberal” capitalista para mudança de regime na China.

Entrada da Praça da Paz Celestial, China
A resiliência [1] do estado chinês e do governo comunista chinês tem sido, por décadas, profundamente mal compreendida no Ocidente. Uma das primeiras e mais intrigantes instâncias dessa resiliência foi a guerra entre China e Índia, em 1962. Brij Mohan Kaul tentou explorar a fraqueza da China: no Tibete, que, em 1959 conhecera levantes muito amplos que duraram três anos; e em tempos difíceis, logo depois da grande fome de 1960-1961, que matara cerca de 10% da população. Apesar disso tudo, a China derrotou a Índia naquela guerra. [Aqui, o “argumento” é que, dado que a China era comunista, a China “deveria ter perdido” a guerra; dado que a China venceu a guerra... surge então o problema da “resiliência”. Esse liberalismo seria cômico, não fosse tão sinceramente maníaco-obsessivo ideologizado].

A derrota sem dúvida deve-se a graves erros táticos que o exército indiano cometeu. Mas o mais significativo é que, num momento de grande fraqueza no Tibete em especial e na China em geral, o ataque indiano não disparou um processo de levante social do tipo que a China conhecera com a Guerra do Ópio de 1840. Claro que a primeira Guerra do Ópio foi derrota para a China, e a guerra da Índia foi vitória chinesa, mas mesmo sem considerar essa diferença, o poder comunista no início dos anos 1960s deu sinais de ser mais sólido que o poder imperial um século antes.

No mesmo ano, o general nacionalista, Chiang Kai-shek, derrotado na guerra civil em 1949 e confinado em Taiwan, planejava reconquistar o território continental. Chiang sabia perfeitamente do lastimável estado em que estava o país logo depois da grande fome causada pelo fracasso do Grande Salto Adiante, de 1957. Mao havia sido posto de lado, e a oportunidade parecia perfeita. Mas a guerra com a Índia provou que a análise errara. O mesmo foi confirmado também pelo fato de que os guerrilheiros nacionalistas em Amdo (a parte tibetana de Sichuan) e na fronteira com Yunnan não tiveram muito sucesso, e os EUA pensaram corretamente ao decidir não apoiar os planos de Chiang Kai-shek.

Vista aérea da Praça da Paz Celestial, China
Tudo isso parece história muito distante, mas, como modesto cronista dos eventos na China ao longo de mais de um quarto de século, testemunhei pelo menos quatro eventos que poderiam ter levado à queda do governo chinês; e nada aconteceu. [2] Entre esses eventos estão o protesto em Tiananmen em 1989; as demonstrações do Falun Gong em 1999; a epidemia de “febre asiática” [orig. Severe acute respiratory syndrome, SARS] em 2003; e o golpe político que Bo Xilai tentou em 2012. Exceto a epidemia de SARS, os três outros eventos foram causados por divisões profundas na alta liderança política, com um grupo tentando eliminar outro. Foram violentas lutas internas de disputa de poder, que causaram mais danos à política chinesa do que qualquer interferência vinda de fora. E nem assim a sociedade chegou a sofrer qualquer abalo. [Mais uma vez: aqueles “eventos” “deveriam” ter derrubado o governo... Dado que não derrubaram, surge o problema de a sociedade chinesa NÃO QUERER democracia liberal à ocidental & Wall Street. Dado que ela não quer meeeeeeesmo, surge o problema da tal “resiliência”].

As motivações de estado-profundo para isso podem ser encontradas em ensaio que escrevi há uma década. Como previsto naquela análise, dez anos depois e apesar de muitas previsões na direção contrária, ainda não houve revolução na China. Permanece o fato de que, enquanto havia protestos pró-democracia durante um mês em Hong Kong, a província vizinha de Shenzhen, cuja população recebia noticiário não censurado proveniente de HK, não mostrou qualquer sinal de contágio.

Em resumo, não é hora, agora, de revolução, para o povo chinês. O povo chinês vive hoje uma idade de ouro em sua longa história e não tem nenhuma tradição de democracia [à maneira ocidental] à qual deseje voltar. Não significa que não sejam possíveis revoluções ou demandas por democracia [à maneira ocidental] na China. Uma combinação de forças internas e limitações internacionais pode alterar esse quadro na próxima década. E há dois elementos que poderiam forçar a mudança [mais um pouco, e o senhor Sisci estará pregando GOLPE-de-MUDANÇA-DE-REGIME na China! Não são IM-PRES-SI-O-NAN-TES, esses liberais?!].

-- Todo mundo sabe que forçar uma mudança de regime é errado... Ahã... Bem. Qualquer mudança de regime, realmente.
A economia chinesa se igualará em números, à economia dos EUA, o que atrairá cada vez mais a atenção e os temores de outros países, porque a China não oferece o mesmo contexto e as mesmas características de outros países que dominaram o mundo ao longo dos dois últimos séculos – a Grã-Bretanha e os EUA [Santo Deus! Dito assim, até parece que as tais “características” desses dois países teriam algo de “recomendável”!].

Com o crescimento da economia, grande parcela da população chinesa passará a ter poder de compra equivalente ao das classes médias ocidentais, e empresas privadas serão obrigadas a pagar novos e diferentes impostos, sem terem qualquer controle sobre como o dinheiro desses impostos será utilizado [sic!].

Essas duas forças podem somar-se e coalescer, mas o período temporal no qual a incorporação delas pode acontecer pode ser ou estendido ou totalmente eliminado, por uma série de medidas: por exemplo, laços melhores com o mundo ocidental, reformas políticas limitadas, ou cooptar os melhores e mais poderosos empresários privados para que trabalhem como atores políticos [WAAL! É a “receita” dos Republicanos nos EUA, e das Sarah Palin/Dora Kramer/Leilane Neubarth/Sardemberg da UDN no Brasil! :-D))].

O Partido Comunista Chinês provou várias vezes que sabe adaptar-se, com concessões mínimas, a circunstâncias difíceis, sem usar táticas dilatórias.

Por exemplo, o recente plenum do Partido mostrou que o Partido está mais firmemente empenhado em combater a corrupção no judiciário e na burocracia, que afeta o resultado de julgamentos e procedimentos oficiais. Por mais que seja medida considerada “normal” no ocidente – cujas populações estão mais habituadas a mudanças políticas – é mudança considerada de grande importância para a maioria dos chineses comuns, que diariamente enfrentam funcionários públicos corruptos, e ricos sempre prontos a atropelar as demandas dos mais pobres. [Claro. Como se sabe, “funcionários públicos corruptos, e ricos sempre prontos a atropelar as demandas dos mais pobres” é fenômeno exclusivamente chinês e comunista, jamais, em tempo algum, observado diariamente em toooooodo o dito “ocidente” norte-americano e britânico, predador, liberal e capitalista].

Apesar desses esforços, porém, há outras causas de longo prazo para instabilidade, e basta uma delas para causar volatilidade política repentina e imprevisível.

Bo Xilai - por Heng 
A primeira é uma luta pelo poder no alto comando político do país, a qual, combinada com a falta de transparência sobre o processo político interno pode levar a transformações repentinas e não previsíveis. O caso de Bo Xilai foi evento desse tipo, embora tenha sido previsto por alguns especialistas. Outros eventos podem surgir e trazer perturbações ainda maiores.

(...)

Sociedades civis, cultura e moral são mantidas por uma série de valores partilhados. O maoísmo destruiu os valores do confucionismo, e a modernização promovida por Deng (iniciada em 1978), com a desertificação [sic] cultural da Revolução Cultural (1966-1976), destruíram o maoísmo [:-O Tô beixta!]. Assim o povo chinês foi deixado, como está hoje, num imenso vácuo cultural e ético, questão que o presidente Xi Jinping tenta atacar, com o movimento que criou recentemente, na direção de estabelecer uma “nova cultura”.

(...)

Se a China conseguir lidar com esses desafios, então haverá um verdadeiro ge ming.

Em tempos muito remotos, essa expressão provavelmente não significou rápida mudança de regime no Mandato do Paraíso (esse significado só surgiu, talvez, para justificar a rebelião de Liu Bang, em 213 a.C., contra a dinastia Qin e a fundação da dinastia Han 206 a.C-220d.C).

Ge
Ge é a palavra que designa o processo pelo qual as cobras trocam de pele, quer dizer, livram-se da pele velha e substituem-na por outra. Indica, pois, uma reforma mais suave que a violência e a urgência revolucionárias. Nesse sentido, talvez se possa esperar mudança de regime no Mandato do Paraíso, em aproximadamente dez anos. Se não houver graves perturbações e os desafios de médio e de longo prazo forem superados, a China permanecerá estável por um longo período. Mesmo assim, para que a transição se faça sem solavancos, é preciso iniciar imediatamente os preparativos.



Notas adicionais dos tradutores

[1] Orig. resilience – A palavra designa a capacidade de um material para voltar ao seu estado normal depois de ter submetido a tensão. ATENÇÃO:Até a escolha da palavra, nesse ensaio, é ideologicamente motivada. A evidência de que a sociedade chinesa NÃO TEM nenhum interesse POLÍTICO em fazer alguma “revolução” à moda dos liberais “democráticos” ocidentais, explica-se por um conceito recolhido da Física! Como se houvesse algo de “natural”, de “físico”, que levaria as sociedades humanas a “tenderem naturalmente” a revoluções liberais à ocidental! Uma espécie de imutável “lei da gravidade” político-histórica das mudanças-de-regime  :-D)).

[2] Mais uma do autor liberal-tolo, embora bem informado. Quem disse que os tais “eventos” “poderiam” ter levado à alguma “revolução”?! Se não levaram... é porque não poderiam ter levado, né-não?!


[*] Francesco Sisci é colunista do jornal diário italiano Il Sole 24 Ore.
Recebe e-mails em: fsisci@gmail.com

terça-feira, 19 de março de 2013

Missão papal: construir confiança na China


15/3/2012, Francesco Sisci, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 




Francesco Sisci é colunista do jornal diário italiano Il Sole 24 Ore.
Recebe e-mails em: fsisci@gmail.com 



PEQUIM – Nomes de papas são declarações políticas sobre a governança da Igreja Católica Romana, e não é coincidência que o novo pontífice tenha escolhido chamar-se Francisco, o nome do santo de Assis, do século 12, mas também como o grande jesuíta Francisco Xavier, que viajou em várias missões pela Ásia e China no século 16. Foi Francisco Xavier quem mandou à China o famoso missionário Matteo Ricci, homem que sozinho quase conseguiu converter toda a China, se seus esforços não tivessem sido contra-atacados por Roma.

A China, preocupada com o conceito de “soft power” [poder suave], está muitíssimo atenta ao poder “soft” imenso, sem paralelos, da Igreja, dado que aí se concentram os verdadeiros “exércitos do Papa”.

O catolicismo romano é a maior religião do mundo e conta com, de longe, o mais influente aparato espiritual. Todas as semanas, milhões dos 1,3 bilhões de católicos batizados (número equivalente a toda a população chinesa) repetem o rito de adesão à própria fé, ao assistirem à missa. O Vaticano pode também contar com milhões de voluntários; centenas de milhares de padres, professores e funcionários de vários tipos; e milhares de bispos em cada canto do planeta.

O Papa tem influência sobre centenas de milhões de Protestantes e sobre um número pequeno, mas não insignificante, de cristãos ortodoxos, embora tenham surgido, ou se erguido, em oposição a Roma. Conta também com grande respeito que lhe vem de países muçulmanos, divididos entre milhares de mesquitas e mulás, mas no total com talvez cerca de 1,5 bilhões de seguidores.

Xi Jinping (E) e Papa Francisco (D)
Claro que, hoje mais que nunca, esse poder imenso, que se alastra por mais de um império, teme os muitos sinais, diretos e indiretos, de profunda crise, ou divisão, que são questões materiais e não exclusivamente questões de teologia. Há questões espirituais, mas também há questões muito práticas, e a Santa Sé está bem consciente dos dois elementos. Afinal, se trata de religião que conscientemente vestiu as vestes da última fase do Império Romano e as sacralizou.

Pequim sabe que a Igreja conhece bem o próprio poder. E, paradoxalmente, os muitos problemas globais da Igreja Católica, levam o Vaticano a prestar grande atenção à China, como se discutirá a seguir.

O primeiro grande problema que pesa sobre o papado que se inicia são as crianças sexualmente agredidas. É problema profundo de moralidade e, portanto, ameaça toda a credibilidade do universo da evangelização, mas implica também prosaicas preocupações financeiras. A Igreja dos EUA, a mais fortemente sitiada pelas acusações, provê cerca de 40% dos fundos de que vive o Vaticano, apesar de os católicos norte-americanos mal chegarem a 5% do total de católicos.

Em anos recentes, o presidente Barack Obama dos EUA ameaçou remover o prazo para que se processem paróquias e dioceses acusadas de dar cobertura a padres pedófilos e molestadores de crianças. Na verdade, no caso de processos por abuso sexual, a diocese sempre optou por pagar, fosse o que fosse, para evitar processos públicos que humilhariam toda a Igreja.

Se esses prazos para julgar padres acusados de abusos sexuais de crianças forem removidos, todos os molestados há 20, 30 ou até há 40 anos poderiam formalizar acusações criminais contra praticamente todas as dioceses nos EUA, o que levaria à bancarrota física e espiritual o Catolicismo nos EUA. Os católicos norte-americanos poderiam ficar sem igrejas onde rezar e deixariam de pagar seus muitos dólares a Roma – o que, na prática, levaria à bancarrota toda a Igreja Católica em todo o mundo. Hoje, mais do que jamais antes, os desvios sexuais dos padres dão ao governo dos EUA enorme poder sobre a Igreja de Roma. E há problemas semelhantes na Europa, onde as igrejas estão desertas de fiéis e, assim, sem almas para orientar, ao contrário dos EUA, onde as igrejas continuam lotadas.

Para fugir a essa chantagem o mais rapidamente possível, a Igreja tem de desenvolver “mercados alternativos” – desafio considerável, no longo e no curto prazo. América Latina, África e Ásia implicam desafios diferentes. A América Latina, com várias ex-colônias da Espanha ultra católica e de Portugal, está já infiltrada por evangélicos, que conquista convertidos aos magotes, em terras que, antes, eram territórios reservados de Roma. Para alguns católicos, essa evangelização é outra face da antiga conspiração dos protestantes norte-americanos, sempre interessados em insuflar as chamas dos crimes sexuais e reduzir o número global de católicos. Nesse caso, menos fiéis traduz-se em muito menos dinheiro para Roma.

Na África subsaariana as coisas não vão tão mal: o catolicismo está em expansão, hoje já com mais de 170 milhões de seguidores. Mas também lá os problemas são imensos. Contribuições da África, hoje e em futuro próximo muito pobre, absolutamente não bastam, como substituição para os muitos milhões que chegam a Roma, vindos dos EUA e da Europa. Além do mais, a Igreja na África, que se expandiu em áreas nas quais sempre predominaram religiões profundamente animistas, enfrenta todos os tipos de problemas, de padres casados e com filhos, até todos os tipos de mestres feiticeiros.

Em vários sentidos, as relações entre Roma e o mundo muçulmano são hoje as melhores, em séculos: não há oposição frontal, nem há guerra santa – como tantas vezes se viu em séculos passados. Mas veem-se cristãos, por todo o mundo muçulmano, vítimas do que já se interpreta como “limpeza” religiosa. E xeiques e mulás milionários financiam a construção de mesquitas na Europa e nos EUA, sempre em busca de colher mais almas, apoiam migrantes muçulmanos na Europa e nos EUA e fazem avançar a fé muçulmana em áreas que, antes, foram exclusivamente cristãs. O que fazer desse duplo desafio que lhe vem do Islã também é problema que pressiona Roma.

Católicos apostólicos romanos no mundo distribuição regional (1910/2010)
Assim, tudo se volta na direção da Ásia, onde há problemas de longo e curto prazo. As economias asiáticas operam melhor que em qualquer outra parte do mundo; 60% da população mundial vive ali e, em breve, estará produzindo a maior parte da riqueza do planeta. Para a Igreja Católica de Roma, conseguir fazer-se presente ali e agora, quando está sob sítio em todo o resto do mundo, pode ser a diferença entre (a) continuar a ser força significativa no século 21, ou (b) deslizar em processo de declínio rápido.

Na Ásia a Igreja é fraca e enfrenta oposição mais poderosa que em qualquer outra parte do mundo, sob a forma de hinduísmo, Islã, budismo e governos locais que não dão qualquer sinal de reverência ante o trono de Pedro. Os números são baixos, menos de 5% da população local, proporção já distorcida, porque mais da metade dos católicos asiáticos estão nas Filipinas. Sem a contribuição das Filipinas, a porcentagem cai para cerca de 2%.

No continente, segundo Yan Kin Sheung Chiaretto em China and Prospects for the New Evangelization, [1] é difícil planejar-se para um rápido programa de evangelização. A única real abertura é na China, onde, apesar de tudo que se lê na imprensa-empresa ocidental há mais liberdade religiosa que em qualquer outro lugar; o budismo é muito fraco; e os chineses têm fome de novas religiões. Os protestantes já o comprovaram: sem qualquer esforço especial, já capturaram cerca de 10% da população, em uma década.

Os católicos ali não passam, com certeza, de 1% – mais provavelmente, estão em torno de 0,5% – e com distribuição rarefeita, sem quase nenhuma evangelização. A China é a maior economia do mundo, não tem problema algum com acusações de abusos sexuais, e o mundo muçulmano é preocupação ali, quase tanto quanto em Roma: ali pode estar a solução para todo o futuro da Igreja Católica. A China sabe da própria necessidade de compreender o mundo e de ser compreendida no resto do mundo. Roma pode ter papel crucialmente importante no papel gigantesco de integrar esse vastíssimo país num mundo ainda dominado por EUA e Europa.

Sem a China, em resumo, a Igreja Romana terá de defender-se sozinha de ataques que lhe veem de todos os lados e bem pode acontecer de ver todos os seus problemas multiplicados.

Houve tempos em que toda a defesa da Igreja se fez a partir de Lepanto: hoje pode ser tentada a partir de Pequim. Sem Roma, a China permanecerá muito fraca, entre as nações do mundo. Essa conjuntura com certeza aproximará as duas potências. O problema está em que só muito raramente essas imensas equações podem ser operadas, em mundo no qual as atenções focam-se em pequeníssimos detalhes. Em termos teológicos, a multidão de detalhes é trabalho do diabo, não para unir, mas para separar.

Talvez esse primeiro Papa jesuíta consiga saltar sobre a separação. E o novo presidente da China, Xi Jinping, eleito poucas horas antes do Papa, talvez veja na coincidência algum yuanfen – o destino - obrando para unir as pontas.



Nota dos tradutores
[1]  CHIARETTO, Yan Kin Sheung, The evangelization of China today: challenges and prospects : in the light of recent documents of the Magisterium (1978-2010), Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 2012.