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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Xi (e Mao Zedong) e o fim de Zhou Yongkang (e post-scriptum)

8/12/2014, [*] Francesco Sisci (de Pequim) Asia Times Online − Sinograph
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Zhou Yongkang (E) e Xi Jinping
Com a expulsão do Partido Comunista, semana passada, de Zhou Yongkang – ex-czar da segurança e membro do Comitê Governante (o mais alto corpo político chinês), o grande líder Xi Jinping pôs fim, formal e oficialmente, a uma era. A remoção de Zhou, que implica que em breve ele será julgado em tribunal público, só teve, na história da China, um precedente: a prisão da famosa Gangue dos Quatro, em 1976, e respectivo julgamento em 1980.

O Partido Comunista tem três corpos de governo, de baixo para cima: o Comitê Central, o Comitê Político (o Politburo) e o Comitê Governante.

Assim sendo, os nomes mais destacados que tombam nas guerras políticas dentro do partido – a começar por Zhao Ziyang, ex-Secretário-Geral e membro do Comitê Governante que perdeu o posto por apoiar as manifestações de estudantes na Praça Tiananmen em 1989 – são demovidos e censurados, mas nunca são julgados em julgamentos públicos. Em meados dos anos 1990s, o líder do partido em Pequim, Chen Xitong, membro do Politburo, foi sentenciado por um tribunal, mas seu aliado de status mais alto no Comitê Governante não foi nem citado. Cerca de uma década depois, seu colega em Xangai, Chen Liangyu, também membro do Politburo, teve o mesmo destino, mas seu mentor, Huang Ju, no Comitê Governante, foi poupado da execração pública em tribunal e deixado em casa para morrer de câncer.

Por um momento, pareceu que o mesmo padrão seria seguido também no caso de Bo Xilai, ex-líder do Partido em Chongqing e membro do Politburo. Bo foi exposto em julgamento ano passado, mas o destino de Zhou, seu principal mentor e novamente membro do Comitê Governante, ainda permanecia na balança, sem decisão. Inicialmente, pareceu que Xi dar-se-ia por satisfeito com os efeitos da má propaganda para o destino de Zhou, e com a desgraça que atingiu seus aliados entre os militares, Xu Caihou, ex-Vice-Presidente da Comissão para o Exército de Libertação Popular [o exército chinês, ing. PLA (People's Liberation Army)] e Guo Boxiong.

Agora, pela primeira vez, as notícias da expulsão de Zhou nos levam de volta aos dias do fim da Revolução Cultural. É o fim de uma era – Xi está dizendo claramente. Mas há uma diferença importante entre aquele fim e o fim atual.

Gang dos 4, julgamento em 1981
Naquele momento, os conhecidos quatro (Jiang Qing, Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen) não eram membros do Comitê Governante nem do Politburo, foram presos de surpresa, todos no mesmo momento, com diferença de apenas poucos minutos entre um e outro, num famoso “golpe de mão” organizado e executado pelo ex-chefe dos guarda-costas de Mao Zedong, Wang Dongxing.

Agora, as prisões aconteceram em câmera lenta, numa demorada campanha que durou anos e meses e que prossegue. Isso sugere que em 1976 o poder da Gangue dos Quatro ainda era muito grande. Considerava-se difícil qualquer confronto direto com eles no partido, com resultados incertos. E, para livrar-se deles, Wang Dongxing e aliados entenderam que seria preciso agir depressa. O mesmo grupo, depois, acabou por reconduzir Deng Xiaoping de volta ao poder.

Mas Xi, hoje, não controlava a segurança (que estava nas mãos do próprio Zhou) nem o exército (que estava nas mãos de Xu Caihou e Guo Boxiong). Então, teve de proceder de modo diferente. Moveu-se por dentro das engrenagens do partido, que continuava sob seu controle, e marchou lentamente, de modo sistemático, eliminando não só algumas poucas cabeças, mas todos quantos não estivessem plenamente de acordo com a nova orientação – foram milhares e milhares, como se viu ao longo dos últimos poucos anos.

Xu Caihou (E) e Guo Boxiong
A atual batalha a favor da lei-e-ordem parece ser simultaneamente a razão de ser e o resultado dessa disputa pelo poder. É a razão, porque o partido (o qual, como a Igreja Católica Romana é movido por profundos objetivos idealistas/“teológicos”) jamais encontraria razões suficientes para livrar-se dessas figuras tão poderosas, sem mover toda uma complexa maquinaria teórica e ideológica.

E é também o resultado, porque um novo método está sendo implantado agora, um sistema de estado legal de direito (em chinês, yi fa zhi guo, para assinalar que se trata de governar sob o poder da lei, não mais o velho ambíguo fa zhi [governo da lei]), no qual até os chefões mais poderosos do partido estão submetidos ao poder da lei.

Esse processo – o processo, só o processo – é assemelhado ao que Mao Zedong aplicou em [maio de] 1942 em Yan’an, no Fórum sobre Ideologia e Arte. Mao então tinha de livrar-se do poder intratável de Moscou – que enviava dinheiro, fator vital para a sobrevivência de um partido muito debilitado – e evitar que 28 chineses bolcheviques treinados em Moscou assumissem total controle sobre o partido. Mao queria continuar a receber o ouro de Moscou, queria livrar-se dos 28 bolcheviques, queria assumir o controle do partido e queria abri-lo para intelectuais liberais chineses, cada dia mais vacilantes no apoio que davam a nacionalistas cada dia mais conservadores.

Fórum de Literatura e Arte de Yan'na comemora os 70 anos de Mao Zedong
Por fim, mas não menos importante, Mao queria manter as vias de contato abertas com os EUA, cada dia menos satisfeitos com a gangue cada dia mais corrupta do KMT. Para alcançar esses complexos objetivos, Mao tinha de estabelecer uma “hegemonia cultural” (o termo foi cunhado pelo líder do Partido Comunista Italiano, Gramsci, que desenvolvera independentemente sua teoria, nos anos 1930) sobre o partido e sobre o país. Mao o fez, afirmando o princípio das “características chinesas” (zhongguo tese).

A ideia, em termos muito simplificados, era que condições práticas na China, podiam superar preocupações ideológicas. Assim sendo, tudo passava a depender de fazer-se acurada leitura da realidade concreta em campo. A China rural, que Mao compreendia melhor que seus letrados camaradas urbanos, passava a ser o padrão para aferir resultados e políticas. Quase que “por definição”, os 28 camaradas chineses bolcheviques treinados em Moscou, que conheciam a realidade da URSS, mas nada da China rústica, foram postos a nocaute. 

Desta vez, Xi está usando padrões diferentes: não “características chinesas”, mas o estado de direito, com governo sob o poder da lei (yi fa zhi guo). Teve sobejas razões para fazer incansável campanha a favor do estado de direito, numa situação em que os funcionários do partido e respectiva clientela puxavam cordões de um lado para outro, empurrando as leis e regulamentos conforme mais lhes conviesse e modelando as instituições do estado como conviesse aos seus desejos.

Leonid Brezhnev
Esse procedimento estava empurrando a China, objetivamente analisada, para a armadilha soviética da era Brezhnev nos anos 1970s, quando indústrias poderosas (no caso da China, as Empresas de Propriedade do Estado, chamadas genericamente “EPEs” [ing. State-Owned Enterprises, ou SOEs] começavam a mandar no Estado, o corrompiam e faziam do país barco raso empurrado de um lado para outro conforme mandassem os interesses de alguns oligarcas. Empresas privadas, os dínamos do crescimento desde ao final dos anos 1970s, estavam sendo postas de lado, ou atropeladas, pelas gigantescas EPEs, dedicadas a pôr fim a qualquer competição de mercado; o preço a pagar por isso, era que aquelas empresas estavam tornando toda a economia chinesa menos eficiente e tornando mais lento o desenvolvimento chinês.

A ideia do governo sob o poder da lei trouxe de volta o padrão de eficiência e desenvolvimento – e pôs sob nova luz até o conceito de “características chinesas”, as quais eram invocadas a torto e a direito para justificar comportamentos bem específicos, os quais, de fato, não passavam de práticas de corrupção com praticamente nenhum traço especificamente chinês.

As consequências do novo governo sob o poder da lei são múltiplas. Hoje, o conceito é como uma varinha de condão nas mãos de Xi, mas as consequências são inescapáveis. Se a ideia de que a China será governada sob o poder da lei é ideia para valer, e será, sim, aplicada, nesse caso a gangue que levou o país à beira do colapso – e que, vale registrar, são inimigos de Xi – tem de ser eliminada, como o determinam as novas leis do país.

Zhou e seu grupo têm de ser julgados em julgamentos públicos, não para serem usados como exemplo, mas para mostrar ao povo chinês e também a todo o mundo fora da China – agora que o país amplia sua inserção internacional – o novo sistema; e para cimentar firmemente o princípio que, doravante, governará a China.

De fato, serão necessários anos e muita destreza e muita sabedoria, para aplicar plenamente o princípio do governo sob o poder da lei, em um país acostumado a décadas de exercício do poder o mais nu e cru. Foi exatamente assim também com as pragmáticas “características chinesas” de Mao. Tiveram de impor-se contra décadas de divisões muito ideológicas e um nacionalismo dogmático que se gravara a fogo no sistema de defesa do império, mas que só defendiam o status quo e velhos interesses, contra a necessidade absoluta de modificações profundas e dramáticas.

Mao Zedong desfila vitorioso em Pequim em outubro de 1949
A reconstrução e reformatação do partido no início e meados dos anos 1940s; a vitória na guerra civil no final dos 1940s; e depois, os primeiros anos do poder comunista nos anos 1950s assistiram a um esforço massivo para desenraizar (as vezes dramaticamente) antigos hábitos e fortes interesses.

Os anos por vir talvez assistam a movimento semelhante, embora agora o esforço deva limitar-se ao interior do partido, sem alcançar toda a sociedade. De fato, dessa vez a sociedade chinesa e as empresas privadas chinesas abraçaram quase unanimemente com entusiasmo as mudanças e as reformas que, embora lançadas e orientadas pelo partido, também sofriam a oposição de outros setores do mesmo partido.

Mas, uma vez implantados os padrões, eles ganham vida própria, independente de quem os tenham concebido. A necessidade de enfrentar resultados práticos e realidades em campo voltaram para morder Mao, no caso do Grande Salto Adiante, no final dos anos 1950s. Amigos e apoiadores de Mao procuraram-no para dizer que sua magnífica ideia de rápido desenvolvimento mediante a mobilização popular não estava funcionando; o povo não estava enriquecendo: estava cada dia mais perto de morrer de fome.

A primeira resposta de Mao a essas críticas não poderia ser negar a teoria que manda ler as objetivas realidades em campo (a teoria que era a espinha dorsal de seu poder); então, para conseguir negar a mensagem, ele teve de declarar que os mensageiros não eram fidedignos. Quando a mensagem afinal tornou-se totalmente inegável, Mao teve de deixar o poder, no início dos anos 1960s.

Fê-lo sob protesto, desconfiando de desonestidade e deslealdade por todos os lados e por isso empurrou a Revolução Cultural sobre seus ex-amigos em meados dos anos 1960s. O movimento negou qualquer praticalidade que houvesse nas características chinesas e empurrou a China para outro reino teórico, com pouco ou nenhum contato com a realidade. Mao então, sim, estabeleceu uma nova hegemonia cultural, mas dessa vez baseada só no exercício pessoal do poder e abuso cruel das emoções humanas, não sobre necessidades e carências reais – e por isso falhou miseravelmente depois de pouco tempo.

A volta de Deng ao poder, e seu foco nas “características chinesas” foi declaração política e ideológica de retorno ao maoísmo original de 1942 e contra o maoísmo posterior, enlouquecido, da Revolução Cultural. Deng fez o que fez forçando ainda mais o antigo pragmatismo de Mao e reforçando a absoluta necessidade de visar a resultados (“nada muda se o gato é preto ou branco, enquanto caçar ratos”, como disse Deng) e não a princípios dogmáticos vazios.

Deng Xiaoping
Agora, a teoria de Xi de governo sob o poder da lei é esforço similarmente dramático, que mobiliza o espírito de Mao de 1942, absorvendo-o e indo bem além do ponto a que Mao chegou.

Xi quer estabelecer uma nova lógica, uma nova teologia que ultrapassa em muito as teorias de construção do partido que passaram a predominar depois daquela conferência de 1942.

Trata-se de esforço gigante para insuflar vida nova e diferente no Partido Comunista Chinês. Contudo, como ensina o princípio chinês do yin-yang, nada é jamais só branco ou só preto. O gênio do poder da lei, uma vez fora da garrafa (como, antes, o princípio da observação dos resultados em campo), tem vida própria, com lógica própria.

Xi terá de tentar orientar a aplicação de sua teoria com calma e sabedoria. Se algum dia tentar ir contra a lógica do processo, seja pela razão que for, enfrentará desafios semelhantes aos que surgiram à frente de Mao, quando o Grande Salto Avante falhou. Aparentemente, Xi está pessoalmente consciente disso, e se põe, ele também, sob as mesmas regras sob as quais quer que seus camaradas operem.

Mais importante, tudo isso pode ter consequências imensas para o futuro da China, uma vez que controles práticos e o poder da lei sobre o governo podem, com o tempo, exigir mudanças dramáticas na estrutura política interna.
__________________

[*] Francesco Sisci  é pesquisador sênior associado ao Centro de Estudos Europeus da Universidade do Povo, em Pequim. Ë também colunista do jornal diário italiano Il Sole 24 Ore.
Recebe e-mails em: fsisci@gmail.com


PS (dos tradutores):

(1) Desde que os chineses não inventem de implantar por lá a famigerada “democracia” ocidental, com eleições movidas a golpes de “cumunicação” & “pesquisas” de mercado... eles podem mudar o que quiserem, tão “dramaticamente” quanto lhes dê na telha, e podem pôr-se tão liberal-subalternamente “sob o governo da lei” quanto queiram. Talvez funcione, por algum tempo.
Mas só funcionará até que apareçam por lá na China um Gilmar Mendes, um Joaquim Barbosa (só que amarelos), como os que conhecemos cá no Brasil.


(2) Impressionante, também que essa chinesada aí (mas pode ser coisa, só do tal de Sisci!) viva a falar de “poder da lei”, como se nunca, no mundo, tivessem existido Marx, Lênin e até Mao, que taaaaaaanto ensinaram que a lei, em mundo dividido por classes, é sempre a lei dos ricos contra os pobres e NÃO HÁ OUTRA LEI (exceto, claro, a Lei da Selva, a Lei do Olho por Olho, a Lei do Morro, a Lei da Várzea & coisa e tal).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A segurança chinesa apresenta-se no Hindu Kush


27/9/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Zhou Yongkang
Para um contato de tão alto nível, depois de meio século, Pequim disse de fato bem pouco sobre a não divulgada visita de quatro horas a Cabul, no sábado, de Zhou Yongkang, membro de grau nono do Politburo e principal encarregado da segurança chinesa – embora tenha tido o cuidado de anotar que a “outra visita [dessa natureza] aconteceu antes, feita pelo líder chinês Liu Shaoqi em 1966, quando era presidente da China”.

O alto status de Zhou faz a reticência de Pequim parecer ainda mais estranha, sobretudo quando o Hindu Kush, as montanhas Pamirs próximas e as estepes da Ásia Central veem-se a braços com “os demônios estrangeiros na Rota da Seda”.

Uma aura de suspense cerca a visita de Zhou, sobretudo porque o itinerário inicial da visita não incluía a parada em Cabul. Estava previsto que fosse a Ashgabat, Turcomenistão, depois de visita de dois dias a Cingapura. Mas Zhou resolveu dar uma passada de quatro horas por Cabul. A mudança de roteiro, claro, tornou a visita espetacular, histórica.

Hamid Karzai
É preciso acompanhar atentamente o contexto dessa visita. Numa perspectiva de longo prazo, uma declaração conjunta de China e Afeganistão sobre “estabelecimento de uma parceria estratégica e de cooperação” distribuída em Pequim depois de uma visita do presidente afegão Hamid Karzai em junho marcou nova etapa no desenvolvimento de relações bilaterais. A declaração identificava a segurança como um dos “cinco pilares em que se baseará” a parceria sino-afegã e afirmava que os dois países “intensificarão as trocas e a cooperação” no campo da segurança, incluído aí o “reforço nas trocas de inteligência”.

Nada de “Apocalypse Now”...

Com a “transição” no Afeganistão chegando à fase de profundas mudanças em 2013 – com os últimos cacos da “avançada” dos EUA já em retirada do cenário de guerra, e aproximando-se o prazo limite, em 2014, para a retirada também das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – Pequim parece destinada a assumir papel mais importante. Em termos das prioridades nacionais da China para o desenvolvimento das regiões orientais do país, especialmente Xinjiang, e a consolidação de seus investimentos econômicos em rápida expansão no Afeganistão e na Ásia Central, não resta alternativa a Pequim: o país tem de se posicionar como força parceira na estabilização do Afeganistão. Em rápido comentário sobre a visita de Zhou a Cabul, o jornal Global Times observou:

Dentro da China há também acalorado debate sobre o papel que a China deve assumir (...) Mas, em termos gerais, todos concordam em que a deterioração da situação doméstica no Afeganistão não beneficia ninguém; para a China, a estabilidade nas regiões da fronteira noroeste sofrerá influência direta; e empresas chinesas na região enfrentarão crescentes problemas de segurança.

Historicamente, o Afeganistão sempre foi pesadelo para grandes potências. Como vizinha do Afeganistão, a China tem sensível interesse na segurança dessa região. Como ajudar o Afeganistão a sair das trevas do caos de uma longa guerra é um dos grandes desafios que a diplomacia chinesa terá de enfrentar.

Em declaração escrita ao chegar a Cabul, Zhou destacou que “É movimento alinhado com os interesses fundamentais dos dois povos, que China e Afeganistão fortaleçam uma parceria estratégica e cooperativa, que também trabalha a favor da paz, da estabilidade e do desenvolvimento da região”.

Bem claramente, a tônica está posta na cooperação bilateral, com recado enviado a terceiros de que a cooperação sino-afegã será fator de estabilidade para a região.

Como a China vê a situação afegã? A mais recente e detalhada declaração sobre o Afeganistão, feita pela China, foi distribuída menos de uma semana antes da visita de Zhou a Cabul, durante discussão sobre o Afeganistão no Conselho de Segurança da ONU, em New York. O que mais chamou a atenção na fala do embaixador Li Baodong foi o empenho em acentuar o tom de esperança e expectativas positivas.

Li Baodong
Li disse que “A paz e o processo de reconstrução no Afeganistão estavam alcançando resultados positivos; a transferência das responsabilidades com a segurança para as forças nacional prosseguia sem percalços, a economia afegã melhorava, e o comércio e a cooperação com outros países estavam sendo ampliados”.

Mas Li, de fato, criticou indiretamente a estratégia da OTAN, ao dizer que a transferência de responsabilidades deve prosseguir em passo lento; e ao dizer que a comunidade internacional deve continuar a ajudar para que melhore a situação da segurança. De fato, também, registrou oficialmente as graves preocupações da China sobre recentes incidentes de violência, sobretudo o alto número de civis mortos; e conclamou a OTAN a não se afastar do que impõe a lei internacional na condução de suas operações, no que tenha a ver com assegurar segurança e plena proteção aos civis.

A parte mais interessante da fala de Li foi ter dado forma articulada à certeza dos chineses de que a estabilização do Afeganistão tem de ser buscada mediante maior integração com a região, “alinhada aos princípios de buscar cooperação e benefícios mútuos” e fazendo-se “bom uso dos mecanismos já existentes”, como a Organização de Cooperação de Xangai.

Evidentemente, Pequim não endossa a ideia da inevitabilidade de um “Apocalypse Now” no Hindu Kush no pós-2014. Isso dito, a visita de Zhou a Cabul tem de ser analisada, em primeiro lugar e sobretudo, como forte manifestação de apoio ao governo de Karzai. Do ponto de vista de Pequim, Karzai é o amigo confiável que deu os passos indispensáveis para fortalecer as relações sino-afegãs.

... nem de jogo de soma zero

Do ponto de vista de Karzai, o apoio de Pequim já pode ter-se tornado imprescindível, sobretudo na atual conjuntura, quando outra vez suas relações com Washington tornaram-se incertas e problemáticas. A OTAN suspendeu sumariamente o treinamento para a polícia afegã e o ministro da Defesa do Afeganistão parece ter reduzido a menos de zero o envolvimento da OTAN nas operações conjuntas com forças afegãs.

Nas últimas várias semanas tem havido muitos casos que indicam a péssima química reinante entre Cabul e Washington. O mais visível foi Karzai ter falado de sua preocupação em relação aos pactos de segurança assinados com os EUA no início do ano. E dentro de três semanas devem começar as negociações sobre a presença militar de longo prazo dos EUA no Afeganistão depois de 2014. Nessa conjuntura, a visita de Zhou – e exatamente na véspera de Karzai viajar para os EUA – com certeza ajuda o presidente afegão a ganhar espaço de manobra em relação a Washington.

Karzai sente-se particularmente incomodado pelo excessivo interesse que os EUA mostram em conseguir influenciar a política interna do Afeganistão – a qual entra em fase delicada, à medida que se aproximam as eleições presidenciais afegãs, previstas para o final de 2014. Karzai disse a Zhou que “a China é boa e honesta amiga do Afeganistão (...) Vemos com entusiasmo a perspectiva de cooperação mais ampla e mais forte com a China”.

Zhou respondeu que o governo chinês respeita integral e completamente o direito de o povo afegão escolher suas próprias vias de desenvolvimento e deseja participar ativamente na reconstrução do Afeganistão.

Zhou assinou três termos de ampliação da cooperação econômica e de segurança com o Afeganistão: um Memorando de Entendimento sobre “plano de ação” para implementação da declaração conjunta de 8 de junho; um acordo com o Ministério de Finanças afegão para um pacote de ajuda de US$150 milhões; e um acordo com o Ministério do Interior afegão para “treinar, financiar e equipar a polícia afegã”.

Nas palavras do Global Times, o acordo de segurança visa a “proteger a segurança dos próprios projetos chineses” no Afeganistão. O grupo estatal China Metallurgical Group opera a mina de cobre de $3 bilhões em Aynak, na província de Logar, no leste do Afeganistão, que tem sido alvo da ação de grupos armados.

Os três acordos não explicam a visita de alto nível, cujo principal objetivo parece ter sido político. O mais provável é que a visita de Zhou tenha selado o quadro institucional para uma ligação de inteligência entre Pequim e Cabul em tempo real. Desnecessário dizer que o assunto interessa enormemente à China. Como a Índia já fez, os chineses buscam acesso ao excelente “banco de dados” da inteligência afegã onde, muito certamente, considerando-se a história, estão armazenados informes atualizados 24 horas por dia, sete dias por semana, sobre os grupos militantes que operam no Paquistão.

Karzai, por sua vez, sem dúvida, falou das suas prioridades políticas também para depois de 2014. As íntimas relações entre China e Paquistão fazem da China uma preciosa aliada de Cabul, em seus desesperados esforços para moderar as políticas paquistanesas. Antes, os EUA faziam esse serviço. Mas  Washington hoje já não consegue nem dar conta de seus próprios problemas com o Paquistão.

Apesar de tudo isso, como anotou um comentarista russo, “Hamid Karzai terá trabalho para apresentar show que seduza seus parceiros chineses. Porque os EUA não entregarão facilmente aos chineses posições que consideram suas”.

Por um lado, parece opinião interessada. Por outro, a grande questão é se o que vemos desenrolar-se pode ser considerado, seja lá como for, um jogo de soma zero – se se considera o quadro geral do “reequilibramento” dos EUA no Pacífico Asiático e a evidência de que Pequim está alerta sobre isso. De fato, no que tenha a ver com estabilizar o Afeganistão, China e EUA continuam no mesmo lado do campo de jogo – e persuadir o Paquistão a cooperar para que se alcance acordo estável continuará a ser objetivo comum das duas superpotências.

Vitaly Churkin
Os discursos do embaixador russo Vitaly Churkin e do embaixador chinês no Conselho de Segurança da ONU na 2a-feira são exemplares. A Rússia ataca sempre a futilidade da estratégia dos EUA para o Afeganistão, zomba dela, sem parar de levantar questões para as quais, é claro, não há resposta fácil.

Diferente disso, Li ofereceu crítica construtiva, com objetivo político claro e orientadamente propositivo. A Rússia enfrenta o problema das bases militares norte-americanas no Afeganistão, enquanto a China, que bem poderia partilhar as mesmas preocupações com Moscou, aborda de outro modo o campo minado, com elegante aplomb diplomático. Mas, no frigir dos ovos, é a Rússia – não a China – que está cooperando com a OTAN no Afeganistão, no plano prático, oferecendo garantias eficientes, confiáveis e sem prazo para acabar, para o trânsito ferroviário dos suprimentos para a OTAN.

O que se tem é a China a insistir abertamente que não tenta qualquer jogada em jogo de soma zero com os EUA; que, ao contrário, os interesses de China e de EUA e seus aliados misturam-se, no que tenha a ver com a estabilização do Afeganistão; e que não há aí qualquer contradição fundamental. Coincidência ou não, na semana passada, Pan Guang, o influente vice-presidente do Centro de Estudos Internacionais da Academia de Xangai [orig. Shanghai Center for International Studies at Shanghai Academy] falou pela primeira vez na história à comunidade estratégica dos EUA sobre o tema “Para compreender o papel da China na Ásia Central e no Afeganistão” [1]. Aconteceu apenas quatro dias antes da viagem não anunciada de Zhou a Cabul.

Pan Guang
Pan é facilmente identificável, entre analistas estratégicos, como voz qualificada do que se chama “Track II” [segunda trilha: diplomacia informal [2]]. Mas a coisa fica especialmente interessante, se se considera que Pan também é hoje o principal conselheiro de Zhou no Ministério em Pequim para questões de Ásia Central e Afeganistão (embora sua área inicial de especialização sempre tenha sido Israel).

Pan falou por mais de uma hora sobre o papel da China na Ásia Central e no Afeganistão. Focou-se no interesse dos chineses no combate ao terrorismo e ao extremismo na região, e no interesse na China em impedir a proliferação de armas de destruição em massa, promover o desenvolvimento econômico e energético, e apoiar o Afeganistão na reconstrução pós-guerra. O tema de sua fala foi que, como os EUA, a China está interessada em questões como crimes transnacionais, imigração ilegal, degradação ambiental, esgotamento de recursos vitais, como a água, e emergentes questões de saúde pública.

Pan reconheceu que Pequim tem ideias diferentes sobre reforma política na Ásia Central, alinhamento de oleodutos e gasodutos na região e sobre a retirada, do Afeganistão, das tropas da OTAN. E concluiu que China e EUA desempenham papéis cada dia mais crucialmente importantes na Ásia Central, e que ali se veem interesses comuns e divergentes, cooperação e concorrência.

Mensagem profunda

Como eco do processo mental de Pan, o Global Times resumiu a visita de Zhou:

A China tem boa oportunidade para melhorar sua imagem global e cumprir suas obrigações internacionais. Enquanto tantos estrategistas ocidentais mantêm-se limitados à mentalidade de políticas para dominar o mundo, a China faz movimentos estratégicos para salvaguardar não só os próprios interesses mas os interesses de toda a região.

Traço redentor da repentina viagem de Zhou a Cabul – que poderia passar despercebido na excitação geral que a viagem provocou, mas é radicalmente importante para a segurança regional – é que a viagem acontece num momento em que as tensões entre Afeganistão e Paquistão vivem momento de aguda escalada.

Zalmay Rassoul
Na semana passada o Ministro de Relações Exteriores do Afeganistão, Zalmay Rassoul alertou o Conselho de Segurança da ONU de que os repetidos ataques pelo Paquistão, contra as províncias afegãs de fronteira, ameaçam as relações bilaterais entre os dois países, “com potenciais consequências negativas para a necessária cooperação bilateral com vistas à paz, à segurança e ao desenvolvimento em nossos dois países e em toda a região”.

Curiosamente, no domingo – no momento em que Zhou viajava para Cabul – o jornal China Daily, voz do governo chinês, comentou com destaque matéria do Xinhua sobre a aprovação, no parlamento afegão, da decisão de Cabul de formalizar queixa ao Conselho de Segurança contra qualquer tipo de ataque paquistanês às fronteiras afegãs.

A longa matéria do Xinhua dizia:

O Paquistão tem algumas vezes bombardeado áreas de fronteira nas províncias orientais de Kunar e Nuristão, forçando os moradores a deixar suas casas e buscar abrigo, acusação que o Paquistão tem rejeitado.

A parte curiosa é que o China Daily deu destaque às partes do discurso de Rassoul, no discurso ao Conselho de Segurança da ONU, semana passada, em que condenava as agressões paquistanesas.

A questão crucial agora é: Como Pequim reagirá a queixa que Cabul formalize, no Conselho de Segurança, contra violações, pelo Paquistão, à integridade territorial do Afeganistão?

O ponto é que a declaração conjunta sino-afegã de 8/6 compromete Pequim e Cabul a “firmemente apoiar as reivindicações dos dois signatários em questões ligadas à soberania nacional e à integridade territorial”, a “ampliar a cooperação e a coordenação de ações na ONU e (...) manter contato e coordenar posições”.

Tudo faz crer que a visita de Zhou a Cabul, nesses tempos convulsos, também leva mensagem profunda dirigida à “amizade incondicionada” entre China e Paquistão.

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Notas dos tradurores

[1] Evento promovido pela Jamestown Foundation, dia 18/9/2012. Assiste-se (vídeo, 1h37’, em inglês).à conferência a seguir:


[2] Ver, sobre isso em: “Track II diplomacy”  

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.