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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Zapatistas rompem o silêncio: contra a elite mexicana


15/2/2013, Chris Arsenault, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chris Arsenault
Após anos de silêncio, confinados em suas comunidades de base na região sul, empobrecida, do México, os rebeldes zapatistas reemergiram, com uma série de declarações nas semanas recentes, tentando reinflamar as paixões em torno de suas demandas por “terra, liberdade, trabalho e paz”.


Em dezembro passado, 40 mil apoiadores dos zapatistas marcharam pelas ruas de várias cidades e vilas na província de Chiapas, reafirmando a própria presença. Em janeiro e fevereiro, o subcomandante Marcos – porta-voz dos zapatistas, com os indefectíveis cachimbo, balaclava e boné, branco e não indígena, personagem muito fortemente “midiático” – lançou uma série de comunicados em que vergasta o presidente do México, Enrique Peña Nieto, membro do Partido Revolucionário Institucional, PRI, que assumiu o poder em dezembro.

Marcha Zapatista silenciosa em Chiapas, México

“Nossas dores não diminuirão por nos abrirmos aos que fazem sofrer o mundo” – escreveu Marcos em janeiro passado, convocando os apoiadores. “Resistiremos. Lutaremos. Morrer? É possível. Mas, uma, dez, cem vezes, nós sempre venceremos”.

O grupo surgiu pela primeira vez nas manchetes da mídia internacional dia 1/1/1994, quando tomaram seis cidades no estado de Chiapas, estado do sul do México e uma das regiões mais pobres do país.

Para a Rand Corporation,  grupo de pesquisa com laços íntimos com o establishment militar norte-americano, Chiapas é “caracterizado por profundas diferenças, muito antigas, entre ricos e pobres – reproduzidas por proprietários de terra que mantêm seus feudos medievais protegidos por exércitos privados”.

Durante já quase duas décadas, os Zapatistas trabalham para construir um sistema de governo autônomo, com destaque para a dignidade dos indígenas e agricultura coletiva. Al-Jazeera tentou, sem sucesso, em parte porque não há acesso fácil por telefone, estabelecer contato com membros do grupo.

“Construir comunidades”

Antes das ações de dezembro e comunicados recentes, o grupo manteve-se em silêncio por vários anos. “Estavam ocupados, construindo a base social do movimento no nível comunitário, mesmo que não tenham aparecido na imprensa” – disse a Al-Jazeera, Mark Berger, professor visitante de Análise de Defesa na Academia Naval de Pós-graduação dos EUA –. “Hoje, entre 100 mil e 200 mil pessoas vivem em comunidades que apoiam os zapatistas”.

Subcomandante Marcos
Nos recentes comunicados, Marcos descreveu o governo do México como “estado zumbi” controlado pela elite – declaração que ressoou entre alguns setores da população, num país em que a corrupção e a mais aguda desigualdade atacam como pragas.

Outras tentativas de unificar os movimentos sociais no México, de sindicalistas independentes a feministas, estudantes, punks e outros povos indígenas levaram sempre a resultados confusos. E, em 2006, os Zapatistas lançaram sua A Outra Campanha – que, embora não tenha obtido qualquer resultado na unificação do movimento social, mantém-se ativa, como se vê.

“A Outra Campanha sempre foi crítica ativa da política eleitoral e provocou uma fratura na esquerda mexicana” – disse Alán Arias Marín, cientista político da Universidade Autônoma do México. “O movimento ainda tem apoio local [em Chiapas]”.

A volta do PRI

Enquanto isso, o México continua a debater-se com seus muitos outros problemas, a maioria dos quais associados à violência associada ao tráfico de drogas. Nos últimos 12 anos, o México foi governado pelos conservadores do Partido de Ação Nacional (PAN), liderado por Vicente Fox e Felipe Calderón. O PAN jamais teve qualquer interesse em enfrentar, nem os zapatistas, nem as graves questões, mais amplas, dos indígenas mexicanos. Hoje, o PAN está fora do governo, desenvolvimento que talvez altere a dinâmica política no que tenha a ver com os Zapatistas.
Marcha de protesto Zapatista

O PRI, que governou o México por 71 anos sem interrupções antes de 2000, estava no poder quando os Zapatistas rebelaram-se. A volta ao poder, ano passado, em eleições cercadas de acusações de fraude, do que o autor peruano Mario Vargas Llosa chamou de “a ditadura perfeita”, pode beneficiar os Zapatistas, agora que parecem interessados em reconstruir algumas alianças com movimentos sociais fora de Chiapas e renovar sua presença nacional.

“As forças sociais que ocuparam o Zocalo [praça central na Cidade do México] para impedir que o governo atacasse com força militar os rebeldes zapatistas [em 1994] continuam ativas” – diz Richard Stahler-Sholk, autor do livro Latin American Social Movements in the Twenty-First Century. “O governo mexicano promoveu a militarização do país, estimulado pelo governo dos EUA, para tentar responder à violência da droga”.

A guerra da droga já fez mais de 70 mil mortos no México desde 2006, e os EUA deram mais de $1,4 bilhão em ajuda militar ao México, sob a rubrica de combater os cartéis do crime.

Com a carnificina generalizada que varre grandes porções do território mexicano, ativistas clamam por uma nova abordagem na guerra às drogas. Com um movimento estudantil cada dia mais potente, que também faz oposição ao PRI, os Zapatistas têm, hoje, inúmeros possíveis novos aliados.

“Acho possível que os Zapatistas e o movimento estudantil ganhem muito mais tração agora, sob sistema político dominado pelo PRI” – diz Berger.

Enrique Peña Nieto
Peña Nieto pode converter-se em chamariz para novos protestos, repondo em cena o PRI, tradicional inimigo, histórico, dos Zapatistas. Durante seu mandado como governador [do estado do México], Nieto foi responsável pela violenta resposta policial contra manifestantes na cidade de San Salvador Atenco em 2006. Dois manifestantes foram assassinados, e um grupo de mulheres denunciou que foram sexualmente aterrorizadas pelas forças de segurança em manifestações contra a ampliação de um aeroporto.

O movimento de estudantes #yosoy132 foi constituído depois que um grupo de alunos de cursos secundários questionaram Nieto sobre esses ataques, durante a campanha presidencial em 2012. Indignados com as denúncias de fraude eleitoral e com a longa história de corrupção associada ao PRI, vários outros grupos estudantis também já se manifestaram na oposição ao novo governo.

“Rede de guerra” [orig. Net war] [1] 

Os jovens mexicanos não estão sós, na oposição ao status quo.

“O que começou como insurgência armada numa região isolada, converteu-se em pensamento não violento, em uma rede de guerra não armada, que atrái a atenção de muitos ativistas, alguns de bem longe do epicentro” – lê-se em relatório da Rand Corporation, sobre a operação por internet.

Em meados de janeiro, os Anonymous, movimento difuso de ativistas da internet, lançou, como se suspeita, um ciberataque que derrubou a página do Ministério da Defesa do México, declarando que a ação manifestaria solidariedade com os Zapatistas.

Marcha indígena Zapatista em Chiapas
Segundo alguns analistas, os Zapatistas – os quais, desde o primeiro dia serviram-se da Internet para buscar apoio – foram os precursores de um novo tipo de movimento social difuso, em tudo semelhante a movimentos como Occupy Wall Street, #yosoy132 e os protestos planetários contra a globalização.

Mas os benefícios tangíveis do ativismo por internet e o apoio que pode gerar são instáveis. “Os zapatistas fizeram história e muitas iniciativas internacionais logo os apoiaram” – diz Marín, professor na Cidade do México. Mas adiante, com a invasão dos EUA ao Iraque, muitas da ONGs que operam também por internet passaram a ter outras preocupações mais imediatas, diz o professor, para quem as ONGs são “confusas, sem foco ou coerência”.

Nos comunicados recentes, o subcomandante Marcos disse que os Zapatistas estão reavaliando seu relacionamento com inúmeros parceiros estrangeiros e domésticos. Grupos de ajuda humanitária, em especial serviços caritativos, têm sido criticados pelos revolucionários sem rosto.

Ideias revolucionárias

Se a guerra às drogas e a trilha que deixa, de milhares de cadáveres, contribuíram para afastar os Zapatistas da agenda internacional, a volta do PRI ao poder pode facilitar, para eles, o trabalho de se reposicionarem na grande arena dos debates internacionais.

No passado, sempre se acreditou que o PRI mantivesse acordos com os grandes cartéis de droga, para assim preservar a estabilidade no país. “O novo governo do PRI provavelmente abandonará a tática de guerra infinita contra o crime organizado” –prevê Berger. “Sem tanta guerra, será mais fácil para todos observar outras formas de fazer política”.  

Ainda não se pode afirmar que os Zapatistas conseguirão capitalizar a favor deles todas essas mudanças possíveis, mas o reaparecimento dos rebeldes ante a opinião pública está sendo acompanhado com muito interesse no México e em outras partes do mundo.

“Os comunicados recentes são especificamente orientados para reativar a base nacional e internacional de apoio” – disse, de Chiapas, um apoiador histórico dos Zapatistas, que, por motivos de segurança, pediu para não ser identificado. “Entendo que os Zapatistas esperam que as pessoas criem condições de autonomia e autossuficiência em seus diferentes contextos e áreas locais. Querem que os apoiadores carreguem a revolução com eles, p’ra casa”.



Nota dos tradutores
[1] A expressão aparece no relatório da Rand Corporation: “(...) o que está levando a uma nova modalidade de conflito – netwar [guerra em rede ou rede de guerra] – na qual os protagonistas dependem de organização em rede, com doutrinação em rede, estratégia em rede e tecnologia de rede. Muitos atores, em todo o espectro do conflito – de terroristas, guerrilheiros e criminosos que implicam ameaças de segurança, a ativistas sociais que podem não implicar qualquer ameaça de segurança – estão desenvolvendo projetos e capacidades para operar em rede. O movimento Zapatista no México é caso exemplar de netwar”. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

México, Chiapas: Comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN


Comandancia General del Ejército Zapatista de Liberación Nacional, EZLN

Comunicado traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



México. 30/12/2012
Ao povo do México
aos povos e governos do mundo.

Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de uns dias atrás

Irmãos e Irmãs,
Companheiros e Companheiras:

Dia 21/12/2012, na madrugada, dezenas de milhares de indígenas zapatistas nos mobilizamos e tomamos, pacificamente e em silêncio cinco sedes de município no estado de Chiapas, no sudeste do México.

Nas cidades de Palenque, Altamirano, Las Margaritas, Ocosingo e San Cristóbal de Las Casas, vimos vocês e nos vimos, nós mesmos, em silêncio.

Não é mensagem de resignação.

Não é mensagem de guerra, de morte e destruição.

Nossa mensagem é mensagem de luta e de resistência.

Depois do golpe de estado “midiático” que impôs, no centro do Executivo federal, a reles ignorância mal dissimulada e ainda mais mal maquiada, nos mostramos, presentes, para que fiquem eles sabendo que, se eles não saem daqui, nós tampouco. Continuamos aqui.

Há seis anos, um segmento da classe política e intelectual resolveu inventar um responsável pela derrota deles. Naquele tempo, estávamos, nós, em cidades e comunidades, lutando por justiça para gente que, naquele tempo, não estava em moda. Naquele momento, primeiro nos caluniaram; em seguida tentaram nos calar.

Incapazes, desonestos, sem saber ver que carregam neles mesmos o fermento da própria ruína, tentaram nos fazer sumir mediante a mentira e o silêncio dos veículos de mídia, sempre cúmplices.

Seis anos depois, duas coisas já se veem, bem claras:

– eles não precisam de nós para fracassar. E nós não precisamos deles para sobreviver.

Nós jamais fugimos, por mais que os veículos de todo o espectro das comunicações tenham tentado enganar vocês todos. E agora estamos novamente nas ruas, como somos e jamais deixamos de ser: indígenas zapatistas.

Durante esses anos nos fortalecemos e melhoramos consideravelmente nossas condições de vida. Nosso padrão de vida é superior ao das comunidades indígenas aliadas aos governos de plantão, que ganham esmolas e as consomem em bebedeiras e para comprar coisas de que não precisam.

Nossas casas melhoraram, sem ferir a natureza, sem impor-lhe caminhos que a natureza não conhece e dos quais não precisa.

Nos nossos pueblos, a terra, antes usada para engordar o gado de ocupantes e proprietários, agora nos dá o milho, o feijão, os legumes que iluminam nossas mesas.

Nosso trabalho é duplamente recompensado: nos dá o que é necessário para viver com honra e decência e para contribuir para que nossas comunidades cresçam também coletivamente.

Nossos meninos e meninas vão a uma escola que lhes ensina a verdadeira história deles, de nossa terra e do mundo; além das ciências e técnicas necessárias para que se nutram, cresçam e se sintam grandes, sem deixar de ser indígenas.

As mulheres indígenas zapatistas não são vendidas como mercadorias.

Os indígenas aliados do partido PRI servem-se de nossos hospitais, clínicas e laboratórios, porque nos do governo não há remédios, nem aparelhos, nem médicos, nem pessoal qualificado.

Nossa cultura floresce, não isolada, mas enriquecida no contato com as culturas de outros povos do México e do mundo.

Governamos e nos governamos nós mesmos, buscando primeiro, sempre, o acordo, antes de qualquer confronto.

Tudo isso nós obtivemos, não apenas sem precisar do governo, dos políticos governantes e das empresas e veículos de comunicação comercial que sempre acompanham os governos, mas, também, resistindo a todos os ataques deles, contra nós.

Demonstramos, mais uma vez, que somos quem somos.

Nos apresentamos, lá estivemos, nas ruas, com nosso silêncio.

Agora, com nossa palavra, anunciamos que:

Primeiro: Reafirmaremos que pertencemos ao Congresso Nacional Indígena e reafirmaremos essa pertinência. O Congresso Nacional Indígena é espaço de encontro dos povos originários de nosso país.

Segundo: Retomaremos o contato com nossos companheiros e companheiras aderentes da Sexta Declaração da Selva Lacandona no México e no mundo.

Terceiro: Trabalharemos para construir as pontes necessárias com os movimentos sociais que surgiram e surgirão, não para dirigi-los ou superá-los, mas para aprender deles, de sua história, de seus caminhos e destinos.

Para isso, conseguimos o apoio de indivíduos e grupos em diferentes partes do México, organizados como equipes de apoio das Comissões Sexta e Internacional do EZLN, para que se convertam em correiras de transmissão entre as bases zapatistas de apoio e os indivíduos, grupos e coletivos aderentes à Sexta Declaração, no México e no mundo que ainda mantêm sua convicção e o compromisso com construir uma alternativa não institucional de esquerda.

Quarto: Nos manteremos distanciados – distanciamento crítico – da classe política mexicana, a qual, em seu conjunto, nada obteve além de inchar à custa das necessidades e das esperanças de gente simples e humilde.

Quinto: Quanto aos maus governos federais, estaduais e municipais, aos Executivos, Legislativos e Judiciários maus, e contra os veículos e empresas de comunicação que sempre andam com eles, temos a dizer que:

– os maus governos de todo o espectro político, absolutamente sem exceção, fizeram o possível para nos destruir, para nos forçar à rendição. Os partidos PRI, PAN, PRD, PVEM, PT, CC e o futuro partido de RN, nos atacaram militarmente, politicamente, socialmente e ideologicamente.

Os grandes veículos e empresas de comunicação tentaram por todos os meios nos fazer desaparecer. Primeiro, usaram a calúnia servil e oportunista; depois o silêncio vicioso e cúmplice. Aqueles de cujas tetas de dinheiro as empresas da imprensa-empresa sempre mamaram e aos quais sempre obedeceram servilmente já não mandam. E alguns que ainda se elejam, sobre as ruínas dos que os antecederam, terão vida mais curta que eles.

Como se viu bem claramente dia 21/12/2012, todos eles fracassaram.

Só falta, pois, que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário federais decidam se (a) insistirão em sua política de contraguerrilha – que jamais, até hoje, passou de simulacro patético, torpemente mantida artificialmente viva pela repetição, nos meios de comunicação –, ou se (b) reconhecem e cumprem seus compromissos, elevando ao plano de pleno reconhecimento Constitucional os direitos e a cultura indígenas, nos termos em que o ordenam os chamados “acordos de San Andrés”, firmados pelo governo federal em 1996, chefiado então pelo mesmo partido que lá está hoje.

Falta só o Governo Estadual decidir se (a) insiste na estratégia desonesta e ruim de seu antecessor – o qual, além de mentiroso e corrupto, roubou, para enriquecimento privado dele e de seus cúmplices, dinheiros do povo de Chiapas, para comprar, desavergonhadamente, vozes e penas nos veículos da imprensa-empresa, enquanto faziam sumir o povo de Chiapas, mergulhado por eles na miséria. Ao mesmo tempo, aquele governo estadual usava policiais e paramilitares para tentar frear o avanço organizacional dos povos zapatistas; ou se, em vez disso, com justiça e verdade, (b) aceita e respeita nossa existência e decide ver que aqui, no território zapatista, em Chiapas, México, floresce uma nova forma de vida social. Esse florescimento – os governos locais vejam ou não vejam – já atrai a atenção de pessoas honestas em todo o planeta.

Falta os governos municipais decidirem se continuarão, ou não, a deixar que girem as rodas da extorsão com que as organizações antizapatistas ou apresentadas como se fossem “zapatistas” assaltam as municipalidades para, em seguida, atacarem nossas comunidades; ou só usam o dinheiro das municipalidades para melhorar as condições de vida, só, dos próprios governantes.

Falta ainda o povo mexicano, que se organiza em formas de lutas eleitorais e resiste, decidir se (a) continua a acreditar que o inimigo seríamos nós; se continua a descarregar sobre nós a frustração nacional pelas muitas fraudes e agressões de que, de fato, todos os mexicanos somos vítimas; se continua a aliar-se aos que nos perseguem; ou se (b), afinal, se dispõe a reconhecer nos zapatistas de Chiapas outra forma de fazer política.

Sexto: Nos próximos dias, o EZLN, pelas suas Comissões Sexta e Internacional, dará a conhecer várias iniciativas, de caráter civil e pacífico, para seguir caminhando ao lado dos outros povos originários do México e de todo o Continente, e ao lado, também, no México e no mundo inteiro, de todos que resistem e lutam à esquerda e de baixo.

Irmãos e irmãs,
Companheiros e companheiras,

– já conhecemos, antes, a felicidade de receber atenção decente e honesta de vários veículos de empresas da imprensa-empresa de comunicações de massa. Quando aconteceu, nós registramos e agradecemos. Mas é passado, e aquele momento foi completamente apagado pelo que aconteceu depois, quando os veículos de empresas da imprensa-empresa mobilizaram-se contra a verdade e contra nós.

Todos os que apostaram que não sobreviveríamos senão no mundo “midiático” – e que, sob cerco feroz de mentiras e silêncios, nós desaparecíamos – erraram.

Continuamos a existir – onde e quando não havia câmeras, microfones, comentaristas, olhos e ouvidos.

Continuamos a existir – onde e quando nos caluniaram.

Continuamos a existir – onde e quando nos roubaram nossa voz.

E aqui estamos, sempre existindo, sempre.

Nossa caminhada, como todos viram bem claramente, não depende de “impacto midiático”. Nossa caminhada só depende de que o mundo e todas as partes do mundo nos vejam e nos compreendam. Nossa caminhada só depende da sabedoria indígena ancestral que guia nossos passos; e da decisão inabalável, da qual brota a dignidade dos de abaixo à esquerda.

A partir de agora, nossa palavra selecionará cuidadosamente os destinatários e, exceto em algumas poucas ocasiões, só será compreensível para quem tenha caminhado e caminhe conosco, sem se render a “modas midiáticas” e conjunturais.

Cá onde estamos, com não poucos erros e muitas dificuldades, já é outra realidade, outra forma de fazer política.

Poucos, bem poucos, viverão o privilégio de conhecê-la e de aprender dela, diretamente.

Há 19 anos, surpreendemos todos, ao tomar a fogo e sangue as suas cidades. Agora, fizemos outra vez, sem armas, sem morte, sem destruição. Assim, nos diferenciamos dos que, durante seus governos, repartiram e continuam a distribuir morte e mais morte entre seus governados.

Somos os mesmos de há 500 anos, de há 44 anos, de há 30 anos, de há 20 anos, de há poucos dias.

Somos os zapatistas, os menores, os que vivem, lutam e morrem no menor rincão no México, os que não claudicam, os que não se vendem, os que não se rendem.

Irmãos e irmãs, companheiros e companheiras, somos zapatistas.

Recebam nosso abraço.

¡democracia! ¡libertad! ¡justicia!
Das montanhas do Sudeste Mexicano,
Em nome do Comité Clandestino Revolucionario Indígena – Comandancia General del Ejército Zapatista de Liberación Nacional.

[assina] Subcomandante Insurgente Marcos
México. Dezembro de 2012/Janeiro de 2013

[Acompanha o canto “Desenvolvimento em carne viva: os sem pernas que caminham”, no pé da postagem: EL EZLN ANUNCIA SUS PASOS SIGUIENTES. Comunicado del 30 de diciembre del 2012]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

“Escutaram? É o som do fim do mundo de vocês!”



Postado por Joana em 21/12/2012-  5:04; desinformemonos.org
Traduzido por Mariana Petroni e Erneneck – Foto Moysés Zuñiga
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Numa ação massiva, disciplinada e simultânea, que não era vista desde os dias do levantamento insurgente de 1994, milhares de zapatistas ocuparam pacificamente e num silêncio ensurdecedor cinco cidades do estado de Chiapas. Algumas horas depois,revelaram um breve comunicado.


Chiapas, México. Milhares de bases de apoio do Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) ocuparam num silêncio emblemático as ruas de cinco municípios do estado de Chiapas, na primeira manifestação púbica que os zapatistas fazem desde o dia 7 de maio de 2011, quando se juntaram à convocatória do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade. Essa ação simultânea e massiva, a maior de toda a história, foi antecedida pelo anúncio de que a organização indígena daria sua palavra, a qual se conheceu algumas horas depois da mobilização.

“A quem possa interessar. Escutaram? É o som do seu mundo caindo. É o do nosso mundo ressurgindo. O dia que foi o dia era noite. E noite será o dia que será o dia”

Foi a mensagem assinada pelo subcomandante Marcos e difundido horas depois, através da página Enlace Zapatista.


Em cada uma das cidades ocupadas (Ocosingo, Las Margaritas, Palenque, Altamirano e San Cristóbal), os tzeltales, tzotziles, ch’oles, tojolabales, zoques, mames e mestiços marcharam com seus tradicionais lenços e passa-montanhas, em fila e silêncio rigoroso. Homens e mulheres, na sua maioria jovens, passaram sobre o templete em cada cidade e levantaram o punho. Essa foi a expressão mais simbólica de toda a mobilização.

Força, disciplina, uma ordem extraordinária, dignidade, integridade e coesão. Não é pouco. São 19 anos nos quais uma infinidade de vezes foram considerados mortos, divididos e isolados. Uma e outra vez saíram para dizer “aqui estamos”. Hoje, com 40 mil zapatistas nas ruas, novamente silenciaram, de uma só vez, os boatos infundidos.


Em San Cristóbal de Las Casas, cidade onde são feitas tradicionalmente as manifestações do EZLN fora do seu território, mais de 20 mil homens e mulheres zapatistas provenientes do caracol de Oventik, onde se concentraram um dia antes, desfilaram sob uma chuva que começou de madrugada. A passeata de 28 destacamentos (segundo a numeração que levavam os grupos nos seus passa-montanhas) iniciou fora da cidade, ao redor das oito e meia da manhã, e aproximadamente ao meio dia a retaguarda ainda estava muito longe do centro da cidade. A praça central foi muito pequena para receber todos eles.

Habitantes e turistas gritaram e cantaram o hino zapatista em alguns trechos da passeata. Os comerciantes, como de praxe, baixaram suas cortinas, porque os índios novamente os surpreenderam. O templete foi colocado na frente da catedral, enquanto que os blocos zapatistas organizados se localizaram ao redor da zona central da cidade.



Em Palenque, uma antiga cidade ch’ol e um dos centros turísticos mais importantes do estado de Chiapas, os indígenas zapatistas entraram pela avenida principal e realizaram o gesto do punho sobre o templete colocado no centro da cidade, em frente à igreja. Posteriormente, saíram pela rua Chiapas para voltar às suas comunidades.

Em Las Margaritas, os zapatistas repetiram a dinâmica com 7 mil bases de apoio, enquanto que em Ocosingo – cidade tomada pelo insurgentes no dia 1 de janeiro de 1994, onde se deu o massacre de civis por parte do exército federal durante os primeiros dias de guerra, mais de 6 mil bases de apoio iniciaram a ação a partir das seis horas da manhã; aproximadamente 8 mil zapatistas ficaram no caracol de La Garrucha porque o transporte para a cidade não foi suficiente. Não tinham se concentrado tantos zapatistas nessa localidade desde os combates sangrentos do levantamento indígena.

Os símbolos são muitos elegeram o último dia do ciclo maia, o dia que seria “o fim do mundo” para muitos e para outros o início de uma nova era, a troca de pele, a renovação. Durante estes 19 anos o caminho da luta zapatista está cheio de simbolismos e profecias, nessa ocasião não foi diferente.

Desde o anúncio de que, em breve, a comandância geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) daria sua palavra, a expectativa pelo conteúdo de sua mensagem só cresceu, mas, nessa sexta-feira, o que se escutou foram os passos, o caminhar silencioso cruzando cinco praças, seu andar digno e rebelde pelas ruas e seu punho ao alto.

A última vez que o subcomandante Marcos, chefe militar e porta-voz zapatista, falou foi no epistolar intercâmbio com o filósofo Luis Villoro, no dia 7 de dezembro de 2011. A iniciativa política mais recente foi o festival da Digna Raiva, para o qual convocaram as lutas e os movimentos do México e do mundo, em dezembro de 2008.

Esta sexta-feira não se apresentaram os membros do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena, como fizeram em maio de 2011, que foi a última vez que foram vistos Tacho, Zebedeo, Esther, Hortência, David e a toda a comandância geral, com a exceção do subcomandante Marcos, que tem se mantido distante da cena pública.