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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

BRICS são a vanguarda do novo mundo: Não diluam os BRICS!

15-17/8/2014, [*] Andre Vltchek, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O G7
Os BRICS
Há crescente perigo de que os BRICS – o clube das nações que se organizam na vanguarda, nas trincheiras, para encarar o imperialismo ocidental global – possam ser diluídos e enfraquecidos, caso alguns dos aliados ocidentais de direita, como Indonésia e Turquia, venham a ser admitidos ao grupo.

BRICS são o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e o grupo foi pensado originalmente como simples bloco econômico, mas, em anos recentes, os ataques do ocidente contra países com sistemas político e econômico independentes, empurraram a maioria das nações BRICS para uma poderosa aliança política, talvez, mesmo, um abraço.

Exceto o notório aliado dos EUA e capitalista fundamentalista – a Índia – todos os demais países membros estão-se posicionando desafiadoramente e orgulhosamente contra a mais recente onda de massacre neocolonialista ocidental. Podem até ter sistemas políticos e econômicos diversos, mas o anti-imperialismo é o denominador comum essencial entre eles.

Eles todos, mais uma vez com exceção da Índia, estão sob severo ataque de propaganda pela imprensa-empresa de massas ocidental.

Nos últimos poucos anos, China e Rússia estão sendo militarmente cercadas, e sempre sob ataques de declarada provocação. A África do Sul é demonizada e ridicularizada, enquanto a América Latina é alvo de incontáveis ataques e furiosa interferência em seus assuntos internos: governos progressistas em Honduras e no Paraguai foram derrubados, e inúmeros “movimentos de oposição” têm sido persistentemente fabricados e financiados pelo norte.

Mas o bloco, que abraça quase 40% da população do planeta continua a andar à frente, criando a tão necessária diversidade e, vale sempre repetir, um mundo bipolar.


Dia 15/7/2014, Pepe Escobar escreveu do Brasil, para Asia Times. Os presidentes dos países BRICS lá estavam reunidos, incorporando na reunião outros países latino-americanos. Definiram-se grandes planos e mais uma vez ficou bem claro o quão importantes são China e Rússia para as nações progressistas da América Latina; o quanto todos eles estão andando depressa uns em direção aos outros, politicamente, estrategicamente e economicamente:

A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

São grandes tempos, sem dúvida alguma.

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Narendra Modi, recém eleito
 Primeiro Ministro da Índia
Onde fica a Índia ainda não está claro. Visitei recentemente o país, o segundo mais populoso do mundo, e depois de muito viajar por lá, intensivamente, cheguei à conclusão de que aquelas elites, os quadros militares e religiosos que governam o que o ocidente chama cinicamente de “a maior democracia do mundo”, vivem, com certeza absoluta, muito mais perto de Washington e dos “boys da Escola de Economia de Chicago” do que de Moscou, Brasília, Pretoria ou Pequim.

Aprendi também, sem dúvida possível, que a imensa maioria do povo indiano é ensinada a nada saber dos desenvolvimentos na América Latina, China e Rússia, e que absolutamente eles não têm influência alguma nos rumos do desenvolvimento do próprio país.

Em breve distribuirei meu trabalho sobre a Índia no contexto dos BRICS, mas posso dizer desde já que é óbvio que esse complexo país não é, não, de modo algum, força motriz daquela aliança.

É também claro que esse novo, poderoso e importante (para a sobrevivência da humanidade) bloco não precisa incluir em suas fileiras mais países “clientes”, dos que o ocidente manobra à vontade. Por essa razão, o que mais deseja o mundo corporativo e neocolonial, que muito trabalho para obtê-la, é a “diluição” dos países BRICS e da determinação do grupo.

Há um grupo de candidatos letais, prontos a se unirem aos BRICS a qualquer momento, com o único objetivo de torpedear o movimento. E há vários pacotes de ampliação sob análise, desde uma “pequena ampliação”, com acréscimo de Indonésia e Turquia, até pacote muito maior, com acréscimo de todo um grupo chamado abreviadamente MINT –México, Indonésia, Nigéria e Turquia.

Se essa expansão acontecer, com certeza destruirá toda a direção política na qual os BRICS estão andando. É expansão a ser evitada a qualquer custo.

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Países MINT
México - Indonésia - Nigéria - Turquia
Esses países MINT vão, de países simplesmente à direita, até países abertamente fascistas. Todos são declaradamente pró-ocidente; todos são governados pelas elites e as populações têm mínima influência no destino de seus países. O México é, desses, o mais razoável e mais benigno.

Sukarno
(1901 - 1970)
A Indonésia é o “mais mortal” deles, e não é simples país, mas todo um conceito. Em 1965, o ocidente associou-se às muito corruptas elites indonésias, quadros militares ("comandados" por Hadji Mohamed Suharto) e religiosos, e derrubaram o presidente Sukarno, progressista, criador do Movimento dos Não Alinhados.

Pelo menos um milhão de indonésios, comunistas, intelectuais, líderes sindicais, professores e membros da minoria chinesa, foram assassinados, mas o total de mortos pode ser muito maior, pode chegar a 3 milhões. Estupros “punitivos” em massa, e a destruição da cultura indonésia aconteceram simultaneamente. Queimaram-se livros. Praticamente tudo foi privatizado e entregue para ser explorado por estrangeiros.

Seguiram-se dois brutais genocídios: um contra o povo de Timor Leste e outro, ainda em andamento, contra Papua, que é tribal e vive na miséria, mas é riquíssima em recursos naturais. No primeiro, um terço da população local foi dizimada; no outro, em números calculados por grupos ocidentais de direitos humanos, morreram, pelo menos, 120 mil pessoas. Muitos mais continuam a ser mortos, no momento em que escrevo. Nada se discute, não há “conversações” nem protestos contra o massacre.

Esse “conceito Indonésia” (mate indiscriminadamente, espalhe o medo, paralise a nação inteira e, na sequência, deixe que o “setor privado” passe a mão em tudo) tem sido, na sequência, implementado noutros países, com diferentes graus de sucesso, inclusive no Chile (o pessoal de Allende ouviu “avisos” repetidas vezes, antes do golpe de 1973: “Tomem cuidado, camaradas, Jacarta vem aí!”); na Rússia de Ieltsin; na República Democrática do Congo, só para citar alguns casos.

Suharto
(1921 - 2008)
A “mudança de regime” que derrubou Sukarno, e o “retorno à democracia”, não passaram de manobra cosmética. O capitalismo mais selvagem já metera as garras ali, e sobreviveu. Na Indonésia, virtualmente não resta absolutamente nenhuma instituição pública. Não há praças públicas, não há instituições culturais públicas nem serviço público de limpeza e esgotos. Se as estatísticas internacionais prestam, sabe-se que mais da metade da população vive na miséria. Criatividade, praticamente apagada: a quarta mais populosa nação da Terra não tem nada a mostrar ao mundo, nenhum cientista, nenhum artista, praticamente nenhum pesquisador ou pesquisa. A economia cresce, porque a exploração é severa e ainda há restos de recursos naturais que ainda alcançam bons preços no mercado global de commodities.

Dois candidatos disputaram o cargo voto a voto, nas recentes eleições presidenciais: um general aposentado, acusado de ser criminoso de guerra, com um bando de asseclas; e um populista, também com seu bando de asseclas militares a apoiá-lo.

Com toda da imprensa-empresa local controlada por interesses empresariais, e com virtualmente todos os partidos políticos a serviço de oligarcas locais, “democracia”, por ali, é apenas uma palavra com a qual o ocidente tenta encobrir todos os horrores passados e presentes de um de seus mais brutais, mais grotescos, estados-clientes.

Deve-se mencionar também que nessa “democrática” Indonésia há leis que proíbem o comunismo e o ateísmo; que reuniões organizadas para discutir a reintrodução de um mínimo de serviços “públicos” são brutalmente interrompidas por fanáticos religiosos e por gangues que servem aos interesses de grandes empresas.

Fácil imaginar o impacto que todo o grupo sofreria, se a Indonésia viesse a ser “convidada” para participar dos BRICS!

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Países MINT - localização geográfica
Seria ingenuidade pensar que um país como a Indonésia seria aliado natural, por exemplo, da América Latina, só porque está localizado no “Sul”, e porque não é geograficamente próxima do Ocidente. O rumo do “desenvolvimento” por ali e a mentalidade dos governantes é o exato oposto do que se vê que Venezuela, Cuba, Bolívia, mas também Brasil ou China, defendem e, hoje, lutam para conseguir.

Países como a Indonésia não ouvem o povo, mas só a sempre mesma elite empresarial corrupta e seus patrões ocidentais.

A Turquia é melhor, em certo sentido, mas também está implementando um sistema de capitalismo selvagem, e se deixa usar como principal aliado do ocidente no Oriente Médio, com bases das Forças Aéreas britânica e norte-americana, com “campos de refugiados” nos quais são treinados os milicianos que lutam contra o governo do presidente Bashar al-Assad, da Síria.

A Turquia é importante membro da OTAN, e muitos “intelectuais da oposição” por ali (inclusive muitos que se apresentam como de esquerda), sobretudo em Istambul, ainda veem a participação do próprio país em alianças ocidentais (e na própria União Europeia) como principal objetivo nacional.

A Nigéria é, em muitos sentidos, como a Indonésia: país que devora seus próprios cidadãos. Parece não haver qualquer ideologia ali, só o mais cru fundamentalismo de mercado, ego-trips das elites, fundamentalismo religioso (e o Islã absolutamente não é a única religião de excessos), obsessão por servir a interesses estrangeiros.

E, como na Indonésia, também na Nigéria há desprezo endêmico absoluto contra os pobres – a ampla maioria da população.

Arthur Tewungwa, figura da oposição de esquerda, em Uganda, comentou a situação na Nigéria, para esse artigo:

Há um verniz de competência, para mascarar práticas como se fossem de negócios normais, mas só há a mais absoluta, completa corrupção. Se o atual governo da Nigéria é pró-EUA? Pró-ocidente? É, sim. Muito! O atual ministro das Finanças, por exemplo, foi alto executivo do Banco Mundial. Os BRICS que tomem muito cuidado! Há muitos “quintas-colunas”!

Enrique Peña Nieto
O México foi país revolucionário e ainda é nação de grande cultura e coração enorme. Mas ainda não se vê que direção o país tomará, sob o governo de um jovem presidente, do PRI, Enrique Peña Nieto. Mas, de todos os países MINT, o México é o que tem o sistema social mais humano, e é certo que, se for integrado aos BRICS, não se empenhará para afastar os demais países membros do atual rumo que escolheram para sua política exterior.

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Os BRICS estão andando avante, e o que interessa é muito mais a qualidade dos seus projetos que o número de membros.  O grupo não é nem deverá jamais funcionar como clube comercial, que tenta constituir ampla base de membros e sócios.

Os BRICS desenvolveram-se, evoluíram, a partir de um grupo econômico, até serem hoje o “clube” dos países líderes de um mundo verdadeiramente livre; e sempre junto com seus grandes aliados – Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia.

Como já se disse várias vezes: não são perfeitos, mas são o que temos, e estão sempre tentando melhorar.

No grupo dos BRICS, não há lugar para países que se aliem às potências colonialistas, como não há lugar para países que sacrificam o próprio povo. Por hora, a sigla é só abreviatura dos nomes dos países-membros. 

Em breve, sabe-se lá, talvez a mesma sigla possa ser interpretada como Broad Revolutionary Internationalist Causeway towards Socialism  [Larga Trilha Internacionalista Revolucionária Rumo ao Socialismo]. 

Os BRICS têm de ser muito cuidadosos, muito seletivos, com quem convidam e com quem acolhem em suas fileiras. Os países BRICS são a vanguarda do novo mundo. E são o que o “Velho Mundo” (ou chamem de “regime mundial”) mais quer destruir, a todo custo.

Os BRICS têm o dever, têm a obrigação, de viver, de sobreviver.

Cada país que se queira juntar a eles terá de provar que existe exclusivamente para servir ao próprio povo e, sempre, à nossa grande humanidade comum!




[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: “Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles”). É autor também deIndonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Zapatistas rompem o silêncio: contra a elite mexicana


15/2/2013, Chris Arsenault, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chris Arsenault
Após anos de silêncio, confinados em suas comunidades de base na região sul, empobrecida, do México, os rebeldes zapatistas reemergiram, com uma série de declarações nas semanas recentes, tentando reinflamar as paixões em torno de suas demandas por “terra, liberdade, trabalho e paz”.


Em dezembro passado, 40 mil apoiadores dos zapatistas marcharam pelas ruas de várias cidades e vilas na província de Chiapas, reafirmando a própria presença. Em janeiro e fevereiro, o subcomandante Marcos – porta-voz dos zapatistas, com os indefectíveis cachimbo, balaclava e boné, branco e não indígena, personagem muito fortemente “midiático” – lançou uma série de comunicados em que vergasta o presidente do México, Enrique Peña Nieto, membro do Partido Revolucionário Institucional, PRI, que assumiu o poder em dezembro.

Marcha Zapatista silenciosa em Chiapas, México

“Nossas dores não diminuirão por nos abrirmos aos que fazem sofrer o mundo” – escreveu Marcos em janeiro passado, convocando os apoiadores. “Resistiremos. Lutaremos. Morrer? É possível. Mas, uma, dez, cem vezes, nós sempre venceremos”.

O grupo surgiu pela primeira vez nas manchetes da mídia internacional dia 1/1/1994, quando tomaram seis cidades no estado de Chiapas, estado do sul do México e uma das regiões mais pobres do país.

Para a Rand Corporation,  grupo de pesquisa com laços íntimos com o establishment militar norte-americano, Chiapas é “caracterizado por profundas diferenças, muito antigas, entre ricos e pobres – reproduzidas por proprietários de terra que mantêm seus feudos medievais protegidos por exércitos privados”.

Durante já quase duas décadas, os Zapatistas trabalham para construir um sistema de governo autônomo, com destaque para a dignidade dos indígenas e agricultura coletiva. Al-Jazeera tentou, sem sucesso, em parte porque não há acesso fácil por telefone, estabelecer contato com membros do grupo.

“Construir comunidades”

Antes das ações de dezembro e comunicados recentes, o grupo manteve-se em silêncio por vários anos. “Estavam ocupados, construindo a base social do movimento no nível comunitário, mesmo que não tenham aparecido na imprensa” – disse a Al-Jazeera, Mark Berger, professor visitante de Análise de Defesa na Academia Naval de Pós-graduação dos EUA –. “Hoje, entre 100 mil e 200 mil pessoas vivem em comunidades que apoiam os zapatistas”.

Subcomandante Marcos
Nos recentes comunicados, Marcos descreveu o governo do México como “estado zumbi” controlado pela elite – declaração que ressoou entre alguns setores da população, num país em que a corrupção e a mais aguda desigualdade atacam como pragas.

Outras tentativas de unificar os movimentos sociais no México, de sindicalistas independentes a feministas, estudantes, punks e outros povos indígenas levaram sempre a resultados confusos. E, em 2006, os Zapatistas lançaram sua A Outra Campanha – que, embora não tenha obtido qualquer resultado na unificação do movimento social, mantém-se ativa, como se vê.

“A Outra Campanha sempre foi crítica ativa da política eleitoral e provocou uma fratura na esquerda mexicana” – disse Alán Arias Marín, cientista político da Universidade Autônoma do México. “O movimento ainda tem apoio local [em Chiapas]”.

A volta do PRI

Enquanto isso, o México continua a debater-se com seus muitos outros problemas, a maioria dos quais associados à violência associada ao tráfico de drogas. Nos últimos 12 anos, o México foi governado pelos conservadores do Partido de Ação Nacional (PAN), liderado por Vicente Fox e Felipe Calderón. O PAN jamais teve qualquer interesse em enfrentar, nem os zapatistas, nem as graves questões, mais amplas, dos indígenas mexicanos. Hoje, o PAN está fora do governo, desenvolvimento que talvez altere a dinâmica política no que tenha a ver com os Zapatistas.
Marcha de protesto Zapatista

O PRI, que governou o México por 71 anos sem interrupções antes de 2000, estava no poder quando os Zapatistas rebelaram-se. A volta ao poder, ano passado, em eleições cercadas de acusações de fraude, do que o autor peruano Mario Vargas Llosa chamou de “a ditadura perfeita”, pode beneficiar os Zapatistas, agora que parecem interessados em reconstruir algumas alianças com movimentos sociais fora de Chiapas e renovar sua presença nacional.

“As forças sociais que ocuparam o Zocalo [praça central na Cidade do México] para impedir que o governo atacasse com força militar os rebeldes zapatistas [em 1994] continuam ativas” – diz Richard Stahler-Sholk, autor do livro Latin American Social Movements in the Twenty-First Century. “O governo mexicano promoveu a militarização do país, estimulado pelo governo dos EUA, para tentar responder à violência da droga”.

A guerra da droga já fez mais de 70 mil mortos no México desde 2006, e os EUA deram mais de $1,4 bilhão em ajuda militar ao México, sob a rubrica de combater os cartéis do crime.

Com a carnificina generalizada que varre grandes porções do território mexicano, ativistas clamam por uma nova abordagem na guerra às drogas. Com um movimento estudantil cada dia mais potente, que também faz oposição ao PRI, os Zapatistas têm, hoje, inúmeros possíveis novos aliados.

“Acho possível que os Zapatistas e o movimento estudantil ganhem muito mais tração agora, sob sistema político dominado pelo PRI” – diz Berger.

Enrique Peña Nieto
Peña Nieto pode converter-se em chamariz para novos protestos, repondo em cena o PRI, tradicional inimigo, histórico, dos Zapatistas. Durante seu mandado como governador [do estado do México], Nieto foi responsável pela violenta resposta policial contra manifestantes na cidade de San Salvador Atenco em 2006. Dois manifestantes foram assassinados, e um grupo de mulheres denunciou que foram sexualmente aterrorizadas pelas forças de segurança em manifestações contra a ampliação de um aeroporto.

O movimento de estudantes #yosoy132 foi constituído depois que um grupo de alunos de cursos secundários questionaram Nieto sobre esses ataques, durante a campanha presidencial em 2012. Indignados com as denúncias de fraude eleitoral e com a longa história de corrupção associada ao PRI, vários outros grupos estudantis também já se manifestaram na oposição ao novo governo.

“Rede de guerra” [orig. Net war] [1] 

Os jovens mexicanos não estão sós, na oposição ao status quo.

“O que começou como insurgência armada numa região isolada, converteu-se em pensamento não violento, em uma rede de guerra não armada, que atrái a atenção de muitos ativistas, alguns de bem longe do epicentro” – lê-se em relatório da Rand Corporation, sobre a operação por internet.

Em meados de janeiro, os Anonymous, movimento difuso de ativistas da internet, lançou, como se suspeita, um ciberataque que derrubou a página do Ministério da Defesa do México, declarando que a ação manifestaria solidariedade com os Zapatistas.

Marcha indígena Zapatista em Chiapas
Segundo alguns analistas, os Zapatistas – os quais, desde o primeiro dia serviram-se da Internet para buscar apoio – foram os precursores de um novo tipo de movimento social difuso, em tudo semelhante a movimentos como Occupy Wall Street, #yosoy132 e os protestos planetários contra a globalização.

Mas os benefícios tangíveis do ativismo por internet e o apoio que pode gerar são instáveis. “Os zapatistas fizeram história e muitas iniciativas internacionais logo os apoiaram” – diz Marín, professor na Cidade do México. Mas adiante, com a invasão dos EUA ao Iraque, muitas da ONGs que operam também por internet passaram a ter outras preocupações mais imediatas, diz o professor, para quem as ONGs são “confusas, sem foco ou coerência”.

Nos comunicados recentes, o subcomandante Marcos disse que os Zapatistas estão reavaliando seu relacionamento com inúmeros parceiros estrangeiros e domésticos. Grupos de ajuda humanitária, em especial serviços caritativos, têm sido criticados pelos revolucionários sem rosto.

Ideias revolucionárias

Se a guerra às drogas e a trilha que deixa, de milhares de cadáveres, contribuíram para afastar os Zapatistas da agenda internacional, a volta do PRI ao poder pode facilitar, para eles, o trabalho de se reposicionarem na grande arena dos debates internacionais.

No passado, sempre se acreditou que o PRI mantivesse acordos com os grandes cartéis de droga, para assim preservar a estabilidade no país. “O novo governo do PRI provavelmente abandonará a tática de guerra infinita contra o crime organizado” –prevê Berger. “Sem tanta guerra, será mais fácil para todos observar outras formas de fazer política”.  

Ainda não se pode afirmar que os Zapatistas conseguirão capitalizar a favor deles todas essas mudanças possíveis, mas o reaparecimento dos rebeldes ante a opinião pública está sendo acompanhado com muito interesse no México e em outras partes do mundo.

“Os comunicados recentes são especificamente orientados para reativar a base nacional e internacional de apoio” – disse, de Chiapas, um apoiador histórico dos Zapatistas, que, por motivos de segurança, pediu para não ser identificado. “Entendo que os Zapatistas esperam que as pessoas criem condições de autonomia e autossuficiência em seus diferentes contextos e áreas locais. Querem que os apoiadores carreguem a revolução com eles, p’ra casa”.



Nota dos tradutores
[1] A expressão aparece no relatório da Rand Corporation: “(...) o que está levando a uma nova modalidade de conflito – netwar [guerra em rede ou rede de guerra] – na qual os protagonistas dependem de organização em rede, com doutrinação em rede, estratégia em rede e tecnologia de rede. Muitos atores, em todo o espectro do conflito – de terroristas, guerrilheiros e criminosos que implicam ameaças de segurança, a ativistas sociais que podem não implicar qualquer ameaça de segurança – estão desenvolvendo projetos e capacidades para operar em rede. O movimento Zapatista no México é caso exemplar de netwar”.