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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

BRICS são a vanguarda do novo mundo: Não diluam os BRICS!

15-17/8/2014, [*] Andre VltchekCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O G7
Os BRICS
Há crescente perigo de que os BRICS – o clube das nações que se organizam na vanguarda, nas trincheiras, para encarar o imperialismo ocidental global – possam ser diluídos e enfraquecidos, caso alguns dos aliados ocidentais de direita, como Indonésia e Turquia, venham a ser admitidos ao grupo.

BRICS são o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e o grupo foi pensado originalmente como simples bloco econômico, mas, em anos recentes, os ataques do ocidente contra países com sistemas político e econômico independentes, empurraram a maioria das nações BRICS para uma poderosa aliança política, talvez, mesmo, um abraço.

Exceto o notório aliado dos EUA e capitalista fundamentalista – a Índia – todos os demais países membros estão-se posicionando desafiadoramente e orgulhosamente contra a mais recente onda de massacre neocolonialista ocidental. Podem até ter sistemas políticos e econômicos diversos, mas o anti-imperialismo é o denominador comum essencial entre eles.

Eles todos, mais uma vez com exceção da Índia, estão sob severo ataque de propaganda pela imprensa-empresa de massas ocidental.

Nos últimos poucos anos, China e Rússia estão sendo militarmente cercadas, e sempre sob ataques de declarada provocação. A África do Sul é demonizada e ridicularizada, enquanto a América Latina é alvo de incontáveis ataques e furiosa interferência em seus assuntos internos: governos progressistas em Honduras e no Paraguai foram derrubados, e inúmeros “movimentos de oposição” têm sido persistentemente fabricados e financiados pelo norte.

Mas o bloco, que abraça quase 40% da população do planeta continua a andar à frente, criando a tão necessária diversidade e, vale sempre repetir, um mundo bipolar.


Dia 15/7/2014, Pepe Escobar escreveu do Brasil, para Asia Times. Os presidentes dos países BRICS lá estavam reunidos, incorporando na reunião outros países latino-americanos. Definiram-se grandes planos e mais uma vez ficou bem claro o quão importantes são China e Rússia para as nações progressistas da América Latina; o quanto todos eles estão andando depressa uns em direção aos outros, politicamente, estrategicamente e economicamente:

A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

São grandes tempos, sem dúvida alguma.

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Narendra Modi, recém eleito
 Primeiro Ministro da Índia
Onde fica a Índia ainda não está claro. Visitei recentemente o país, o segundo mais populoso do mundo, e depois de muito viajar por lá, intensivamente, cheguei à conclusão de que aquelas elites, os quadros militares e religiosos que governam o que o ocidente chama cinicamente de “a maior democracia do mundo”, vivem, com certeza absoluta, muito mais perto de Washington e dos “boys da Escola de Economia de Chicago” do que de Moscou, Brasília, Pretoria ou Pequim.

Aprendi também, sem dúvida possível, que a imensa maioria do povo indiano é ensinada a nada saber dos desenvolvimentos na América Latina, China e Rússia, e que absolutamente eles não têm influência alguma nos rumos do desenvolvimento do próprio país.

Em breve distribuirei meu trabalho sobre a Índia no contexto dos BRICS, mas posso dizer desde já que é óbvio que esse complexo país não é, não, de modo algum, força motriz daquela aliança.

É também claro que esse novo, poderoso e importante (para a sobrevivência da humanidade) bloco não precisa incluir em suas fileiras mais países “clientes”, dos que o ocidente manobra à vontade. Por essa razão, o que mais deseja o mundo corporativo e neocolonial, que muito trabalho para obtê-la, é a “diluição” dos países BRICS e da determinação do grupo.

Há um grupo de candidatos letais, prontos a se unirem aos BRICS a qualquer momento, com o único objetivo de torpedear o movimento. E há vários pacotes de ampliação sob análise, desde uma “pequena ampliação”, com acréscimo de Indonésia e Turquia, até pacote muito maior, com acréscimo de todo um grupo chamado abreviadamente MINT –México, Indonésia, Nigéria e Turquia.

Se essa expansão acontecer, com certeza destruirá toda a direção política na qual os BRICS estão andando. É expansão a ser evitada a qualquer custo.

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Países MINT
México - Indonésia - Nigéria - Turquia
Esses países MINT vão, de países simplesmente à direita, até países abertamente fascistas. Todos são declaradamente pró-ocidente; todos são governados pelas elites e as populações têm mínima influência no destino de seus países. O México é, desses, o mais razoável e mais benigno.

Sukarno
(1901 - 1970)
A Indonésia é o “mais mortal” deles, e não é simples país, mas todo um conceito. Em 1965, o ocidente associou-se às muito corruptas elites indonésias, quadros militares ("comandados" por Hadji Mohamed Suharto) e religiosos, e derrubaram o presidente Sukarno, progressista, criador do Movimento dos Não Alinhados.

Pelo menos um milhão de indonésios, comunistas, intelectuais, líderes sindicais, professores e membros da minoria chinesa, foram assassinados, mas o total de mortos pode ser muito maior, pode chegar a 3 milhões. Estupros “punitivos” em massa, e a destruição da cultura indonésia aconteceram simultaneamente. Queimaram-se livros. Praticamente tudo foi privatizado e entregue para ser explorado por estrangeiros.

Seguiram-se dois brutais genocídios: um contra o povo de Timor Leste e outro, ainda em andamento, contra Papua, que é tribal e vive na miséria, mas é riquíssima em recursos naturais. No primeiro, um terço da população local foi dizimada; no outro, em números calculados por grupos ocidentais de direitos humanos, morreram, pelo menos, 120 mil pessoas. Muitos mais continuam a ser mortos, no momento em que escrevo. Nada se discute, não há “conversações” nem protestos contra o massacre.

Esse “conceito Indonésia” (mate indiscriminadamente, espalhe o medo, paralise a nação inteira e, na sequência, deixe que o “setor privado” passe a mão em tudo) tem sido, na sequência, implementado noutros países, com diferentes graus de sucesso, inclusive no Chile (o pessoal de Allende ouviu “avisos” repetidas vezes, antes do golpe de 1973: “Tomem cuidado, camaradas, Jacarta vem aí!”); na Rússia de Ieltsin; na República Democrática do Congo, só para citar alguns casos.

Suharto
(1921 - 2008)
A “mudança de regime” que derrubou Sukarno, e o “retorno à democracia”, não passaram de manobra cosmética. O capitalismo mais selvagem já metera as garras ali, e sobreviveu. Na Indonésia, virtualmente não resta absolutamente nenhuma instituição pública. Não há praças públicas, não há instituições culturais públicas nem serviço público de limpeza e esgotos. Se as estatísticas internacionais prestam, sabe-se que mais da metade da população vive na miséria. Criatividade, praticamente apagada: a quarta mais populosa nação da Terra não tem nada a mostrar ao mundo, nenhum cientista, nenhum artista, praticamente nenhum pesquisador ou pesquisa. A economia cresce, porque a exploração é severa e ainda há restos de recursos naturais que ainda alcançam bons preços no mercado global de commodities.

Dois candidatos disputaram o cargo voto a voto, nas recentes eleições presidenciais: um general aposentado, acusado de ser criminoso de guerra, com um bando de asseclas; e um populista, também com seu bando de asseclas militares a apoiá-lo.

Com toda da imprensa-empresa local controlada por interesses empresariais, e com virtualmente todos os partidos políticos a serviço de oligarcas locais, “democracia”, por ali, é apenas uma palavra com a qual o ocidente tenta encobrir todos os horrores passados e presentes de um de seus mais brutais, mais grotescos, estados-clientes.

Deve-se mencionar também que nessa “democrática” Indonésia há leis que proíbem o comunismo e o ateísmo; que reuniões organizadas para discutir a reintrodução de um mínimo de serviços “públicos” são brutalmente interrompidas por fanáticos religiosos e por gangues que servem aos interesses de grandes empresas.

Fácil imaginar o impacto que todo o grupo sofreria, se a Indonésia viesse a ser “convidada” para participar dos BRICS!

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Países MINT - localização geográfica
Seria ingenuidade pensar que um país como a Indonésia seria aliado natural, por exemplo, da América Latina, só porque está localizado no “Sul”, e porque não é geograficamente próxima do Ocidente. O rumo do “desenvolvimento” por ali e a mentalidade dos governantes é o exato oposto do que se vê que Venezuela, Cuba, Bolívia, mas também Brasil ou China, defendem e, hoje, lutam para conseguir.

Países como a Indonésia não ouvem o povo, mas só a sempre mesma elite empresarial corrupta e seus patrões ocidentais.

A Turquia é melhor, em certo sentido, mas também está implementando um sistema de capitalismo selvagem, e se deixa usar como principal aliado do ocidente no Oriente Médio, com bases das Forças Aéreas britânica e norte-americana, com “campos de refugiados” nos quais são treinados os milicianos que lutam contra o governo do presidente Bashar al-Assad, da Síria.

A Turquia é importante membro da OTAN, e muitos “intelectuais da oposição” por ali (inclusive muitos que se apresentam como de esquerda), sobretudo em Istambul, ainda veem a participação do próprio país em alianças ocidentais (e na própria União Europeia) como principal objetivo nacional.

A Nigéria é, em muitos sentidos, como a Indonésia: país que devora seus próprios cidadãos. Parece não haver qualquer ideologia ali, só o mais cru fundamentalismo de mercado, ego-trips das elites, fundamentalismo religioso (e o Islã absolutamente não é a única religião de excessos), obsessão por servir a interesses estrangeiros.

E, como na Indonésia, também na Nigéria há desprezo endêmico absoluto contra os pobres – a ampla maioria da população.

Arthur Tewungwa, figura da oposição de esquerda, em Uganda, comentou a situação na Nigéria, para esse artigo:

Há um verniz de competência, para mascarar práticas como se fossem de negócios normais, mas só há a mais absoluta, completa corrupção. Se o atual governo da Nigéria é pró-EUA? Pró-ocidente? É, sim. Muito! O atual ministro das Finanças, por exemplo, foi alto executivo do Banco Mundial. Os BRICS que tomem muito cuidado! Há muitos “quintas-colunas”!

Enrique Peña Nieto
O México foi país revolucionário e ainda é nação de grande cultura e coração enorme. Mas ainda não se vê que direção o país tomará, sob o governo de um jovem presidente, do PRI, Enrique Peña Nieto. Mas, de todos os países MINT, o México é o que tem o sistema social mais humano, e é certo que, se for integrado aos BRICS, não se empenhará para afastar os demais países membros do atual rumo que escolheram para sua política exterior.

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Os BRICS estão andando avante, e o que interessa é muito mais a qualidade dos seus projetos que o número de membros.  O grupo não é nem deverá jamais funcionar como clube comercial, que tenta constituir ampla base de membros e sócios.

Os BRICS desenvolveram-se, evoluíram, a partir de um grupo econômico, até serem hoje o “clube” dos países líderes de um mundo verdadeiramente livre; e sempre junto com seus grandes aliados – Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia.

Como já se disse várias vezes: não são perfeitos, mas são o que temos, e estão sempre tentando melhorar.

No grupo dos BRICS, não há lugar para países que se aliem às potências colonialistas, como não há lugar para países que sacrificam o próprio povo. Por hora, a sigla é só abreviatura dos nomes dos países-membros. 

Em breve, sabe-se lá, talvez a mesma sigla possa ser interpretada como Broad Revolutionary Internationalist Causeway towards Socialism  [Larga Trilha Internacionalista Revolucionária Rumo ao Socialismo]. 

Os BRICS têm de ser muito cuidadosos, muito seletivos, com quem convidam e com quem acolhem em suas fileiras. Os países BRICS são a vanguarda do novo mundo. E são o que o “Velho Mundo” (ou chamem de “regime mundial”) mais quer destruir, a todo custo.

Os BRICS têm o dever, têm a obrigação, de viver, de sobreviver.

Cada país que se queira juntar a eles terá de provar que existe exclusivamente para servir ao próprio povo e, sempre, à nossa grande humanidade comum!




[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também deIndonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Vladimir Putin: “Os BRICS são grupo de integração, não de concorrência”


22/3/2013, Vladimir Putin – Presidente da Rússia - Ag. ITAR-TASS
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


“A proposta de Putin tem potência para reorientar a base dos BRICS. A palavra chave é “mecanismo para estratégias de ampla escala”, que “buscará soluções para as questões globais chaves, em vez de apenas coordenar seletivamente suas posições em algumas poucas questões de momento”. Putin destacou que não vê os BRICS como “concorrente geopolítico” em oposição ao ocidente”.
(MK Bhadrakumar, 22/3/2013, Indian Punchline em: “Putin sees BRICS as global troubleshooter”)


Vladimir Putin
Ag. ITAR-TASS: O fenômeno relativamente recente dos BRICS atrai cada vez maior atenção global, em função das previsões otimistas para o crescimento desses países, sobretudo se se consideram os desdobramentos da crise na economia mundial. O que significa o grupo BRICS para a Rússia, imediatamente e no longo prazo? Esse formato é adequado para que se desenvolvam melhores relações entre esses países?

PRESIDENTE VLADIMIR PUTIN: á inúmeros fatores de longo prazo que operam a favor do sucesso dos BRICS. Por vinte anos as economias de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul aparecem na dianteira do crescimento econômico global. Em 2012, o crescimento médio do PIB no grupo chegou a 4%; para o G7 [1] a-se crescimento de 0,7%. Além disso, o PIB dos países BRICS tem a ver com a paridade do poder de compra das respectivas moedas nacionais, atualmente acima de 27% do PIB global, e a fatia dos BRICS continua a aumentar.

O grupo BRICS é elemento chave de um mundo multipolar que está emergindo; o grupo tem afirmado repetidas vezes seu compromisso com os princípios fundamentais da lei internacional e contribuído para reforçar o papel central da ONU. Nossos países não aceitam políticas de força nem violações à soberania das nações. Partilhamos também de visão semelhante nas mais graves questões internacionais, inclusive na crise síria, na situação criada em torno do Irã e no Oriente Médio.

A credibilidade e influência dos BRICS no mundo traduzem-se em contribuição crescente nos esforços para estimular o crescimento global. Esse é um dos importantes temas a ser discutidos no Fórum e Diálogo dos Presidentes dos BRICS-África, que acontecerá durante a reunião de cúpula de Durban. [2]

Os países BRICS advogam a constituição de um sistema mais equilibrado e mais justo de relações econômicas globais. Os mercados emergentes têm interesse em crescimento econômico mundial sustentável, duradouro; e querem reformas na arquitetura financeira e econômica, para que seja mais eficiente. Resultado disso é a decisão conjunta, tomada no ano passado, de os BRICS contribuírem com $75 bilhões de dólares para o programa de empréstimo do FMI, que implica aumento da participação no capital do Fundo, das economias que mais crescem.

A Rússia, como iniciadora do formato BRICS e presidente da primeira reunião em Yekaterinburg em 2009, vê o trabalho dentro desse grupo como uma de suas prioridades de política externa. Esse ano, aprovei o Conceito da Participação da Federação Russa no grupo BRICS, que propõe quatro metas estratégicas que visamos a alcançar mediante a interação com nossos parceiros Brasil, China, Índia e África do Sul.

Essa cooperação em questões internacionais, comércio, câmbio e na esfera humanitária facilita a criação do ambiente mais favorável para o crescimento da economia russa, melhoria do clima para investimentos, qualidade de vida e bem-estar de nossos cidadãos.

Nossa participação nessa associação ajuda a promover relações bilaterais privilegiadas entre as nações BRICS, baseadas nos princípios de boa vizinhança e cooperação mutuamente proveitosa. Entendemos que é crucial ampliar a presença linguística, cultural e de informação da Rússia nos países BRICS, assim como nos interessa expandir o intercâmbio educacional e os contatos interpessoais.

Ag. ITAR-TASS: Quais são os objetivos de curto prazo do grupo? E como o senhor vê as diretivas estratégicas para o desenvolvimento econômico dos BRICS?

VLADIMIR PUTIN: Os BRICS identificam-se quanto ao que se deve fazer, conforme os planos de ação adotados nas reuniões anuais. Ano passado, o Plano de Ação de Delhi demarcou 17 áreas de cooperação, inclusive reuniões dos ministros de Relações Exteriores, a serem realizadas simultaneamente com a sessão da Assembleia Geral da ONU; reuniões dos ministros de Finanças e presidentes dos Bancos Centrais, paralelas às reuniões do G20; reuniões com o Banco Mundial e o FMI, além de contato entre outras agências dos países BRICS.

Nesse momento, estamos construindo um novo plano, a ser discutido na reunião em Durban. Tenho confiança que nos ajudará a aprofundar a parceira. Esperamos conseguir aprofundar a coordenação entre as abordagens nacionais, nas questões chaves da agenda da próxima reunião do G20 em São Petersburgo, aumentar nossa cooperação na luta contra a produção e o tráfico de drogas e nossos esforços para conter ameaças criminosas em geral, terroristas, militares e no ciberespaço.

É extremamente importante para a Rússia ampliar a cooperação de comércio e investimentos com os parceiros BRICS e lançar projetos de negócios multilaterais envolvendo parcerias empresariais. Em Durban, esperamos já poder anunciar a criação formal do Conselho de Negócios dos BRICS, criado para apoiar essa atividade comercial. Antes da reunião de cúpula, haverá o Fórum de Negócios dos BRICS, que reunirá representantes de mais de 900 empresas de nossos países.

Ag. ITAR-TASS: O potencial das economias BRICS leva à questão da coordenação entre políticas econômicas, mas leva também à questão de interação geopolítica mais estreita. Qual o papel e a missão geopolítica dos BRICS no mundo contemporâneo? Ultrapassa a agenda simplesmente comercial e econômica? Caberá aos países BRICS o dever de aceitar maior responsabilidade nos processos geopolíticos? Qual a política dos BRICS em relação ao resto do mundo, inclusive em relação aos grandes atores, como EUA, União Europeia, Japão... Que futuro o senhor antevê para o bloco, nesse quadro?

VLADIMIR PUTIN: Em primeiro lugar e sobretudo, os países BRICS buscam ajudar a economia mundial a alcançar crescimento estável e autossustentado e a reformar a arquitetura financeira e econômica internacional. Nossa principal tarefa é encontrar modos para acelerar o desenvolvimento global, encorajar o fluxo de capitais da economia real e criar empregos. São objetivos particularmente importantes em contexto de baixo crescimento econômico em todo o mundo, e de desemprego inadmissivelmente muito alto. Embora esse seja o quadro que se vê em muitos países ocidentais, todos os BRICS são também afetados negativamente; os mercados de exportação estão encolhendo, falta estabilidade nas finanças globais e até nossas taxas internas de crescimento estão mais lentas.

Ao mesmo tempo, convidamos nossos parceiros a, gradualmente, transformarem os BRICS, de um fórum que coordena abordagens em número limitado de questões, em mecanismo de cooperação estratégica em larga escala, o que nos permitirá buscar, juntos, soluções para as questões chaves da política global.

Tradicionalmente, os países BRICS manifestam abordagens assemelhadas para a solução de todos os conflitos internacionais, prestigiando sempre os meios políticos e diplomáticos. Para a cúpula de Durban, estamos trabalhando numa declaração conjunta que manifeste nossas ideias fundamentais sobre as mais prementes questões internacionais – a saber: as crises na Síria, no Afeganistão, no Irã e no Oriente Médio.

Não vemos o bloco BRICS como concorrente geopolítico em oposição aos países ocidentais ou suas organizações. Bem o contrário disso: estamos abertos a discussão com qualquer país ou organização disposta a discutir sob os parâmetros de uma nova ordem mundial, comum e multipolar.

Ag. ITAR-TASS: Rússia e China são importantes parceiros estratégicos e históricos. Como o senhor vê o significado dessa parceria, não só para o desenvolvimento dos dois países, mas também para todo o sistema de relações internacionais e a economia mundial?

VLADIMIR PUTIN: Rússia e China são dois membros influentes na comunidade internacional, são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e estão entre as maiores economias do mundo. Por tudo isso, a parceria estratégica entre nossos países tem tanta importância, simultaneamente em escala bilateral e em escala global.

Hoje, as relações sino-russas passam por excelente momento, o melhor numa história de vários séculos. São relações caracterizadas por alto grau de confiança mútua, respeito pelos interesses dos dois lados, apoio nas questões vitais. É verdadeira parceria, genuinamente aberta e abrangente.

Hoje, o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, está em visita oficial à Rússia. A evidência de que o novo presidente da China tanto tenha nos honrado, escolhendo a Rússia para sua primeira viagem oficial como presidente, confirma a natureza especial da parceria estratégica que construímos entre Rússia e China.

Só nos últimos cinco anos, o volume de comércio bilateral mais que dobrou. A China assumiu solidamente o primeiro lugar dentre nossos parceiros comerciais. Em 2012, o volume de comércio russo-chinês aumentou 5,2%, já alcançando hoje $87,5 bilhões (em 2007, estava em $40 bilhões).

A correspondência e a proximidade de nossas abordagens nas questões mais cruciais da ordem mundial e nos problemas internacionais chaves é importante fator de estabilização, hoje, na política mundial. No quadro da ONU, do G20, dos BRICS, da Organização de Cooperação de Xangai, da Organização dos Países Produtores de Petróleo e de outros formatos multilaterais, estamos trabalhando lado a lado, ajudando a modelar uma nova ordem mundial, mais justa; a promover paz e segurança; a defender intransigentemente os princípios básicos da lei internacional. É nossa contribuição comum, fortalecer o desenvolvimento global sustentável.

Rússia e China são hoje exemplo de abordagem pragmática e equilibrada com vistas a superar as questões mais críticas que abalam o mundo hoje, como a situação no Oriente Médio e Norte da África, o problema nuclear na Península Coreana e a discussão mundial sobre o programa nuclear do Irã.

****** FIM DA ENTREVISTA ******



Notas dos tradutores

[1] G7 -Grupo no qual se reúnem os ministros das Finanças das sete nações mais industrializadas: EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão.

[2] Sobre relações Rússia e África do Sul, sem interesse imediato no nosso fórum, os interessados podem ler em: Russian-South Africa Talks

quinta-feira, 7 de julho de 2011

BRICS vs. G7: a Líbia é pretexto

O Estado de S.Paulo é “jornalismo” a serviço do G7! Há provas!

Vijay Prashad
7/6/2011, Vijay Prashad,  Counterpunch
Traduzido e apontado pelo pessoal da Vila Vudu

Onde e quando se deram o trabalho de noticiar, jornais e jornalistas nos países do G7 só souberam zombar das duas visitas do presidente da Federação Mundial de Xadrez Kirsan Nikolayevich Ilyumzhinov  a Trípoli. O mote foi “Gaddafi joga xadrez, enquanto o país arde”. 

Ilyumzhinov não é mestre em xadrez. De 1993 a 2010, foi presidente da Kalmykia, pequena república da Commonwealth of Independent States (CIS) [1]. Ilyumzhinov tornou-se presidente da Federação Mundial de Xadrez em 1995, usando o posto para levar os campeonatos de xadrez para a capital da Kalmykia, Elista, várias vezes; uma vez tentou realizar o campeonato em Bagdá (1996) e uma vez realizou-o em Trípoli (2004). Seu xadrez não é da qualidade do de Viswanathan Anand  ou de Boris Gelfand, mas é homem tão excêntrico quando a maioria dos grandes jogadores de xadrez (acredita que o xadrez foi trazido a esse planeta por alienígenas).

Dia 12 de junho, Ilyumzhinov estava em Trípoli, jogando xadrez com Gaddafi. Quando ficou claro que venceria a partida, Ilyumzhinov declarou o empate. Depois da viagem, o enviado da Rússia à África, Mikhail Mergelov, disse que, antes da viagem, conversara com Ilyumzhinov: “Aconselhei-o a jogar com as brancas. E a deixar Gaddafi convencido de que estaria próximo de vencer a partida”.

Não é raro que a Rússia envie mensageiros pouco ortodoxos. Ilyumzhinov esteve em Bagdá pouco antes do reinício da Guerra do Golfo em 2003, onde se encontrou com Uday, filho de Saddam Hussein. Que mensagem levava então? Que mensagem levou agora?

Nos dias 3-4/7, o Conselho Rússia-OTAN reuniu-se em Sochi, balneário no Mar Negro. O principal item da agenda, para a OTAN, era tranquilizar a Rússia, acalmar-lhe as penas muito arrepiadas. O Conselho foi criado em 2002 para assegurar que as crescentes tensões entre os dois lados não levassem a Rússia a posicionar-se contra a “Guerra ao Terror”. A marcha acelerada da OTAN rumo ao leste, que atraiu para sua agenda alguns estados do bloco oriental, aconteceu imediatamente depois da guerra aérea da OTAN na Yugoslávia (1999) e depois, a partir de 2001, no Afeganistão. Todos esses movimentos deram a Moscou a impressão de que estava sendo cercada. A insistência de Bush na questão do escudo de mísseis, e o esforço dos EUA para enfiar a OTAN nos seus próprios planos de defesa agitaram Moscou. A guerra na Ossétia do Sul, em 2008, permitiu que Moscou flexionasse os músculos.

Ao longo da última década, a Rússia aproximou-se da nova formação que brotou do Movimento dos Não Alinhados, o G-15, e do grupo Índia-Brasil-África do Sul [ing. India-Brazil-South Africa (IBSA). A China reuniu-se ao IBSA para bloquear as novas regras de comércio que teriam sido aprovadas em Cancun (2003) e para formular uma agenda comum na reunião de Copenhagen (2009) sobre o clima. Essas discussões e a criação de uma plataforma comum criaram a formação conhecida como BRICS, que se reuniu em abril de 2011 em Hainan, China. A Rússia, que se desencaminhara em algum ponto, entre seu próprio passado de Guerra Fria e a subserviência de Boris Yeltin aos EUA, encontrou novo alento diplomático nas locomotivas do Sul Global.

Em Hainan, em abril, as potências BRICS criticaram muito fortemente a guerra da OTAN contra a Líbia, e formularam os princípios que apareceriam na declaração, dia 15 de junho, do Comitê Ad-Hoc de Alto Nível da União Africana sobre a Líbia [ing. African Union High Level Ad Hoc Committee on Libya] na ONU. 

Os BRICS exigiram acordo negociado. Ruhakana Rugunda, de Uganda, representou a União Africana na reunião da ONU, onde disse sem meias palavras:

“Não é inteligente que alguns atores deixem-se intoxicar pela superioridade tecnológica e passem a supor que, sozinhos, conseguiriam alterar o curso da história rumo à liberdade para toda a humanidade. Com certeza, nenhuma constelação de estados deve supor que possa recriar alguma hegemonia sobre a África.”

(Rugunda era representante de Uganda à ONU. Acaba de ser transferido para gabinete burocrático, doméstico). A União Africana disse à ONU que, dada a experiência que adquirira em Burundi, estava capacitada para conduzir a negociação e a transição na Líbia.

Foi esse o contexto em que os russos envolveram-se na questão líbia, com alguma diplomacia de xadrez, ao mesmo tempo em que tentavam empurrar as muralhas da OTAN. Em Sochi, o presidente russo Medvedev convidou o presidente da África do Sul Jacob Zuma, que comandava os esforços da União Africana na Líbia, para que se juntasse às conversações. 

Zuma disse aos chefes da OTAN que eles já haviam ultrapassado e desconsiderado duas Resoluções da ONU (n. 1.970 e 1.973), e que não tinham outra alternativa além de negociar. Se os chefes da OTAN pudessem pressionar o Conselho Transicional em Benghazi para que retrocedessem da posição maximalista (Gaddafi tem de sair imediatamente) – Zuma sugeriu – abrir-se-ia uma via para conversações de paz. 

Os comandantes da OTAN ouviram Zuma contar sobre o Marco Geral de Acordo Político da União Africana [ing. AU’s Framework Agreement on a Political Settlement] e assistiram aos aplausos de Medvedev, que muito elogiou a União Africana pelo trabalho e pelo “Mapa do Caminho” que haviam trazido. Rússia e União Africana ofereceram-se para convencer Gaddafi a aceitar o Mapa do Caminho. E caberia à OTAN convencer o Conselho Transicional em Benghazi a fazer o mesmo.

A OTAN deixou Sochi sem se deixar perturbar com as preocupações russas sobre os mísseis de defesa e fez promessas anódinas para a próxima reunião em Chicago. Quanto à Líbia, não houve progresso.

A Líbia é o primeiro campo de batalha de uma nova “guerra fria” – dessa vez não mais entre EUA e Rússia, mas entre o G7 (e seu braço militar, a OTAN) e os BRICS (que não têm braço militar). Os G7 comandam os céus e uma retórica cada vez mais altissonante sobre “liberdade” – mas não têm base econômica nem qualquer noção do que seja processo político democrático, dois atributos que não se adquirem com bombardeio aéreo.

Os BRICS não conseguiram organizar-se em torno de seu candidato para a presidência do FMI; assim, até aqui, ainda não conseguiram articular uma alternativa para as estratégias deflacionárias das organizações financeiras internacionais. No plano das políticas econômicas, em outras palavras, os BRICS foram menos bem-sucedidos. 

Mas no campo da política internacional, sim, perturbaram profundamente o G7. Sobre a Síria, os BRICS não deixarão passar na ONU nenhum tipo de resolução mais dura. O ponto é que, na Líbia, a OTAN malversou o mandado que recebeu da Resolução n. 1.973; há risco de que repitam a mesma malversação na Síria. 

A posição do G7 a favor de ataque à Síria foi exposta pelo representante francês à ONU, em artigo publicado dia 13/6, no jornal brasileiro O Estado de S.Paulo. O G7 espera seduzir os brasileiros, longe do que os franceses vêem como a teimosia dos sul-africanos, que seriam “intratáveis” e “obcecados”. 

Os BRICS tentaram impedir que a Resolução n. 1.973 passasse da primeira mesa de discussão, mas, daquela vez, Zuma cedeu, depois de receber telefonema pessoal de Obama. O empenho com que se dedica hoje ao caso da Síria talvez seja tentativa de compensar a defecção de então, da África do Sul, no bloco dos BRICS.

Ilyumzhinov, agora já declarado enviado russo à Líbia, chegou a Trípoli no fim de semana. Encontrou-se com Muhammed, filho de Gaddafi, o qual, esse, sim, é bom jogador de xadrez e dirige a federação oficial de xadrez. Ilyumzhinov ouviu que Gaddafi morrerá em terra líbia, apesar de um alto funcionário russo ter dito ao jornal Kommersant que Gaddafi sugerira, em entrelinhas, que deixaria o poder se recebesse “garantias de segurança”. Mas em nenhum caso sairá de lá antes de haver negociações; e os líderes em Benghazi não iniciarão conversações antes da saída dele. 

Benghazi é imagem especular das posições da OTAN. Os BRICS já não estão investindo na permanência de Gaddafi (já não se diz “irmão líder” nas reuniões da União Africana). Os BRICS querem simplesmente encontrar uma saída racional para o conflito. A guerra da Líbia já não é questão que envolva só a Líbia, nem tem qualquer coisa a ver com a Primavera Árabe.

Na Líbia se está testando uma transição, do “Século Americano” para a era das locomotivas globais do Sul. EUA, G7 [e o jornal O Estado de S.Paulo  (NTs)] não aceitarão transição tranquila.

A história os julgará pelo empenho reacionário. 



Nota dos tradutores