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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quem é quem no banquete da OTAN


17/5/2012, M K Bhadrakumar*,  Asia Times Online
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu



Nota do pessoal da Vila Vudu e da redecastorphoto

Hoje, 17/5/2012, um influente blog de soldados veteranos norte-americanos sobreviventes das guerras da OTAN-EUA, publica editorial intitulado Veterans For Peace exigem o fim da OTAN, onde se lê:

“Depois de fazer guerras de agressão na Yugoslávia, no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, a OTAN permanece no Afeganistão, ilegalmente e imoralmente, para nenhum objetivo conhecido. O povo dos EUA, das demais nações que fornecem soldados à OTAN e do próprio Afeganistão, exige a saída da OTAN do Afeganistão, enquanto os presidentes Obama e Karzai, contra o desejo manifesto dos povos, trabalham para manter soldados dos EUA-OTAN no Afeganistão por, no mínimo, os próximos 12 anos e meio. (...)

A matança e a destruição da Líbia, pela qual EUA-OTAN são responsáveis, foram ilegais, imorais e contraproducentes, tanto quanto o é a agressão da OTAN ao Afeganistão. As guerras da OTAN não levaram democracia, paz ou direitos humanos a lugar algum do planeta. (...) A Líbia tampouco é modelo para futuras ações da OTAN.

Não há nem pode haver modelo para futuras ações da OTAN. A OTAN perdeu sua razão de ser.

Os Veterans For Peace unem-se aos nossos irmãos e irmãs na Europa e em todo o mundo, que se mobilizam em manifestações pacíficas para exigir o imediato desmonte da OTAN.”

No mesmo dia, o jornal O Estado de S.Paulo publica, requentado do New York Times, artigo do secretário-geral da OTAN, É imperativo armar a OTAN, no qual o muito sinistro Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da OTAN, pede dinheiro ao mundo para armar ainda mais a OTAN.

Em linguajar cifrado-sinistro, para engambelamento da opinião pública – que o sinistro O Estado de S.Paulo endossa e subscreve, ao requentar e repetir o que escreve aquele (mais um!) sinistro colunista do sinistro Estadão – Rasmussen fala da necessidade de “equipar adequadamente a OTAN”.

Assim se veem, bem claramente, os dois lados: de um lado, a OTAN-EUA e seus veículos de jornalismo de repetição pelo planeta, a pregar guerras e mais guerras. De outro lado, os cidadãos, sobreviventes precários de todas as guerras, que se organizam para resistir à fúria desse aparelho bélico-jornalístico.

Como tradutores militantes, nos alinhamos firmemente ao lado dos Veterans for Peace, contra a OTAN, contra as guerras dos EUA em todo o mundo e contra o jornalismo obsceno que desgraça o Brasil-2012.

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A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ainda está imprimindo os cartões de identificação para sua Conferência em Chicago no próximo domingo. Imprimiram um cartão para o presidente do Paquistão Asif Zardari na 4ª-feira. O Paquistão tornou-se “elegível”, depois de dar sinais de que baixará a crista e reabrirá as rotas de passagem para os comboios militares que seguem para o Afeganistão – apesar de os EUA continuarem obcecadamente a recusar-se a pedir desculpas formais pelo massacre de soldados paquistaneses em novembro e a suspender os ataques mortais, com aviões-robôs, os drones, contra aldeias paquistanesas.

O Paquistão receberá da OTAN US$1 milhão/dia, à guisa de taxa de pedágio. E é bom negócio? Um convite para o banquete da OTAN em Chicago, em troca de reabria as rotas de passagem? Os principais partidos da oposição paquistaneses entendem que não. Mas... O partido governante é sempre quem decide onde está o melhor negócio. Além do mais, os militares paquistaneses querem que assim se faça. E assim será feito.

Zardari ainda não confirmou presença, mas só para fazer-se mais esperado. Mostrar-se numa festança daquelas é questão de prestígio nacional. A OTAN não convida Zé ninguéns: nem o presidente da China nem o presidente da Índia foram convidados àquele congresso de bruxas em Chicago. (A Rússia foi sondada, mas respondeu niet [em russo ‘Não!”], mas essa é outra história complicada; e OTAN-EUA sonharam com convidar Israel, mas a Turquia bateu pé e disse haver [em turco: ‘Não e não!”]).

A lista de convidados da OTAN mostra a ingenuidade (ou a arrogância) do ocidente e é como um mapa do caminho das estratégias globais ocidentais para o século 21. Que cara tem a tal lista de convidados? O mais espantoso é que, mais ou menos como no Inferno de Dante, há “círculos”, “estações”.

No núcleo mais hardcore, estão os 28 países-membros da OTAN. O círculo seguinte é dos 13 países considerados “parceiros globais” da OTAN – Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, do Pacífico Asiático; Qatar, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, do Oriente Médio; a Geórgia, da Eurásia; e Áustria, Suíça, Suécia e Finlândia, do velho bom quintal europeu.

Esse é o crème de la creme dos aliados da OTAN. As mais luminosas omissões são a Indonésia e as Filipinas (essa última, apesar de “estado-de-frente” no Pacífico Asiático e desejosa de espetar o dragão chinês), a Arábia Saudita (apesar de ser a bomba de gasolina n.1 das economias ocidentais há bem mais de meio século), o Egito, a África do Sul, o México, o Brasil e a Argentina (que são prima-donas nas respectivas regiões). No geral, parece que a OTAN sente-se meio desconfortável com o Grupo dos 20, que luta para constituir-se.

Jogo de “amor-bandido”

Marchando avante, há outro círculo mais externo formado dos países que são partícipes ou colaboradores na guerra da OTAN no Afeganistão. São os verdadeiros “VIPs” (ou “heróis”, dependendo do ponto de vista de cada um sobre a sangrenta guerra afegã), porque põe a cara a tapa e atraíram a atenção da al-Qaeda para resgatar a OTAN do atoleiro afegão. São (em ordem alfabética, não em termos das respectivas quotas de suor e lágrimas): o Azerbaijão, a Armênia, o Bahrain, El Salvador, a Irlanda, Montenegro, a Malásia, a Mongólia, Cingapura, a Ucrânia e Tonga.

Detalhe sensacional nisso tudo é que, se algum dia alguém vencer a guerra do Afeganistão, o mérito pode ser todo de Tonga e sua contribuição, mas fato é fato.

A lista está incompleta. Esse círculo tem um subcírculo, em cujo centro está o Afeganistão (principal tópico de discussão da Conferência da OTAN), cercado por seus vizinhos da Ásia Central. Parece que a Rússia foi acomodada sob essa subchefia. Zardari, certamente, encaixa-se nesse nicho.

A Rússia designou um simples chefe do comitê afegão do Ministério de Relações Exteriores em Moscou para declarar alto e claro que está ressentida por ter sido excluída das reuniões chaves da OTAN sobre a condução da guerra afegã, que acontecem regularmente, faça chuva faça sol, em Bruxelas. Mas também é ressentimento “nuançado”. A Rússia não tem qualquer objeção à guerra da OTAN no Afeganistão e é, até, ardorosamente favorável. Mas a Rússia ressente-se, sim, de a OTAN monopolizar a guerra; a guerra deveria ser “democratizada”.

Os estados da Ásia Central designaram os ministros de Relações Exteriores, porque, tecnicamente, são membros também da aliança rival, chamada “a OTAN do Leste” – a Organização do Tratado de Segurança Coletiva [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)].

Essa CSTO está atada num jogo de “amor-bandido” com a OTAN: é rival da OTAN na disputa pelo título de principal aliança militar no espaço pós-soviético, mas também sonha com que a OTAN a reconheça como igual, para que, assim, a própria CSTO possa convencer-se de que, sim, existe (reconhecimento o qual, como se pode bem imaginar, a OTAN lhe recusa, obediente aos desígnios de Washington, porque os EUA preferem tratar com as ex-repúblicas soviéticas individualmente, não como parceiras ‘júnior’ de Moscou). 

As dificuldades da aliança CSTO são quase imagem especular das da Rússia – anseia por teto e cama quente no lar europeu comum, mas é insistentemente mantida à chuva, condenada a espiar de longe, enquanto os EUA continuam a engajar-se seletivamente nas áreas que interessam às estratégias norte-americanas. (É bem possível que a OTAN também, algum dia, engaje seletivamente a CSTO, para, por exemplo, caçar traficantes de drogas na Ásia Central, que muito atrapalham a economia afegã). A aliança CSTO é formada de Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão.

Mas, também é verdade que Moscou sente-se pouco segura por a OTAN ter convidado líderes da Ásia Central ao banquete em Chicago. Desconfia das intenções da OTAN na Ásia Central, sobretudo no contexto do possível estabelecimento, ali, de bases militares dos EUA.

Afinal, um dos objetivos da conferência de Chicago é avançar na construção da “estratégia inteligente” [ing. “smart strategy”] da aliança, aprovada na Conferência de Lisboa, em 2010, para projetar a OTAN como a única verdadeira organização de segurança global que poderia eventualmente operar mesmo sem mandado da ONU nos “pontos quentes” [orig.“hot spots”] do mundo.

Moscou preocupa-se, ante a evidência de que a OTAN já está pegando o gosto por forçar “mudança de regime” em terras estrangeiras, como o comprova a guerra contra a Líbia – e também no caso de as tendências perversas que se veem na Síria levarem a idêntico resultado.

Além do mais, a OTAN está lançando iscas na direção de estados da Ásia Central, sob a forma de ofertas cada dia mais irresistíveis. A dura realidade é que os regimes da Ásia Central têm visto aumentar seus interesses na guerra afegã, com a OTAN gerando generosamente contratos lucrativos para fornecimento de bens e serviços, que chegam, abundantes, a empresas de propriedade das elites regionais.

Os EUA pagam quantia interessante ao Quirguistão, pelo aluguel da base aérea Manas. Agora, fala-se que parte das armas e equipamentos usados no Afeganistão podem ser doados a países da Ásia Central, ao longo da retirada, até 2014.

Não há dúvida de que grossas mamatas, sob direção da OTAN, alastram-se pelas estepes da Ásia Central e muito incomodam a Rússia. Seja como for, é interessante: os estados da Ásia Central decidiram, coletivamente, que seus presidentes manter-se-ão bem longe da Conferência da OTAN e da deliciosa Chicago, cidade dos ventos. Mas também se pode supor que não passe de supremo ato de autonegação, nos líderes da Ásia Central, em deferência à sensibilidade de Moscou.

Pergunta ao chef

Verdade é que um país chave, vizinho do Afeganistão, foi escrupulosamente mantido longe da conferência da OTAN, embora ainda mantenha considerável capacidade para influenciar a maré da guerra afegã: o Irã. 

Desperdiçou-se grande oportunidade ao não engajar construtivamente o Irã. Mas o presidente Barack Obama, dos EUA, decidiu que a hora não está para jogadas de risco.

O presidente Mahmud Ahmadinejad é personalidade mercurial, muitíssimo carismático e poderia acabar roubando o show que Obama cuidadosamente, dolorosamente coreografou para proclamar ao mundo que é líder de estatura planetária. Seria arriscado demais, para Obama, sim, num ano eleitoral carregado de percalços. E o Republicano Mitt Romney ajudado por todo o lobby israelense lhe criariam terríveis dificuldades, obrigando-o a explicar tanta “softness” em relação ao Irã.

Outro dos círculos em que se divide a relação de convidados da OTAN é o dos quatro candidatos que esperam na antessala, pela inclusão como membros da aliança – a Bósnia-Herzegovina, a Geórgia, Montenegro e Macedônia.

A Geórgia ostenta a medalha de ser o único estado que figura em três círculos: é aliado global da OTAN, é parceiro na guerra afegã e é elegível ao posto de membro pleno. A mensagem cifrada na atenção extraordinária dedicada à Geórgia não passaria despercebida em Moscou. Não por acaso, os primeiros governantes “estrangeiros” que o presidente Vladimir Putin recebeu depois de eleito vinham de Abecásia e Ossétia do Sul, regiões da Geórgia.

Não implica dizer que Moscou tenha qualquer apreensão quanto à Geórgia ser admitida como membro pleno da OTAN. Putin tem parceiros europeus importantes, como Alemanha, França e Itália, para garantir que a OTAN não entre em confronto direto com a Rússia. Putin está satisfeito com a saída de Nicolas Sarkozy e a emergência do governo socialista em Paris.

E Obama também já sabe que a prioridade de seu segundo período de trabalho no Salão Oval – se chegar lá – terá de ser reiniciar o reinício das relações entre EUA e Rússia, e conseguir que fazer da parceria Rússia-EUA instrumento previsível e maximamente útil para as estratégias globais dos EUA – sobretudo ante o desafio muito complexo que vem da China.

Não há dúvidas de que a lista de convidados da OTAN oferece bom quadro do que os marxistas-leninistas chamariam “a correlação de forças” na política internacional hoje. O que aqui se lê não é o quadro completo da política global, mas é mais da metade do cenário num panorama muito fluido.

Permitam-me concluir com um raro toque de húbris, e perguntar: o que é uma conferência da OTAN, quando China e Índia estão ambas cuidando da própria vida e arando as próprias searas independentes?

No mínimo, Bruxelas deveria ter incluído uma categoria de convidados chamados “OTAN + BRICS”. Os países BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – com certeza não são menos importantes que a União Europeia, para a configuração do mundo de amanhã. Por que não foram convidados, é pergunta que o grand chef do banquete de Chicago – Obama – terá de responder. 

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

domingo, 29 de abril de 2012

A OTAN invade Chicago...


29/4/2012, Ross Ruthenberg, Global Research
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Que fim levou a “Responsabilidade de Proteger - R2P” - os cidadãos, na cidade-zona-de-guerra?


A cidade de Chicago será invadida por uma conferência da OTAN, mês que vem, operação que custará mais de 100 milhões de dólares aos contribuintes norte-americanos. Esse é o custo de dar condições de infraestrutura e segurança a 50 delegações estrangeiras, incluídas cerca de 100 autoridades de Estado além de milhares de assessores.

Mas, em vez de assistir à instalação de um anel de ferro “seguro” para os burocratas da OTAN, o que os super flagelados cidadãos de Chicago muito apreciariam seria um show de aplicação da doutrina da “Responsabilidade de Proteger” (R2P), que as potências da OTAN tanto se orgulham de impingir a outras partes do mundo, tão devastadas pela violência quanto Chicago.

Nos últimos tempos, a violência em Chicago já ultrapassou todos os recordes passados. A cidade vive hoje uma epidemia de tiroteios com vítimas fatais. No ano passado, houve cerca de 2.300 tiroteios nas ruas da “Cidade dos Ventos”, que resultaram em 441 homicídios nos quais morreram homens, mulheres e crianças. Só nos primeiros três meses de 2012, já foram 656 tiroteios, com 145 homicídios. Nesse ritmo, até o final do ano, serão cerca de 2.600 vítimas de tiros na cidade e 580 homicídios.

A população de Chicago, claro, não se sente segura na própria cidade, e as autoridades estaduais e federais são visivelmente incapazes de cumprir o dever de proteger os cidadãos.

Faz portanto perfeito sentido que a população de Chicago ou alguns grupos de cidadãos preocupados estejam invocando o princípio da “Responsabilidade de Proteger” – R2P, tentando obter para a cidade os mesmos benefícios que as potências da OTAN oferecem, sempre lépidas, em intervenções militares pelo mundo, sempre, como dizem, para “proteger direitos humanos”.

Afinal de contas, a “Responsabilidade de Proteger” ensina que “a soberania não é direito: é privilégio” e, se os estados não conseguem proteger o direito dos próprios cidadãos, perdem o direito à soberania, o que daria à ONU ou a OTAN autoridade legítima para invadir e garantir a segurança de cidadãos cuja vida esteja ameaçada.

É exatamente o caso, como se pode argumentar, de exigir que a OTAN invada e intervenha em Chicago, com seus “zeladores da paz” armados até os dentes, falando línguas que ninguém por aqui entenda, cercando vastas áreas da cidade com tanques, impondo por aqui também zonas aéreas de exclusão, com os céus engarrafados de drones que vomitam mísseis sobre qualquer grupo de pessoas das quais alguém desconfie que possam perpetrar violências contra cidadãos que deveriam ser, mas não são, protegidos pelas pressupostas autoridades pressupostas competentes.

Analisemos as mortes por arma de fogo, por ano, em Chicago, num contexto sírio. Mantida a proporção entre as respectivas populações (a Síria com 20,5 milhões de habitantes; Chicago com 2,8 milhões), os números proporcionais de mortos alcançariam 18.815 civis mortos em Chicago, contra 4.160 na Síria. Morre proporcionalmente mais gente em Chicago que os números sempre crescentes, jamais conferidos e com certeza muito exagerados que a ONU divulga de vítimas sírias, desde o início dos conflitos naquele país, há 13 meses.

Se os duvidosos números de vítimas sírias causaram tal preocupação nos governos ocidentais, na grande imprensa-empresa e no Conselho de Segurança da ONU, por que ninguém dá qualquer atenção à matança de civis em Chicago? Como se diz pelas ruas pobres de Chicago: “O que somos nós? Fígado moído?”

Não há qualquer exagero em dizer que há áreas de Chicago que, para a população desassistida, equivalem a zonas de guerra. As crianças têm de ser escoltadas pela polícia, sempre que a classe sai da escola para visitar uma biblioteca em outro bairro. As minorias étnicas vivem sob risco ainda maior, ameaçadas de morte violenta apenas por andar por algumas ruas da cidade.

Não há dúvidas de que Chicago é caso que está a exigir intervenção da ONU ou análise por alguma corte internacional de justiça que julgue as autoridades municipais por não cumprimento do dever de proteger os próprios cidadãos em Chicago.

A ONU ou a OTAN devem portanto ser autorizadas a intervir para garantir segurança aos cidadãos de Chicago (assumindo-se, evidentemente, que o princípio e a prática da “Responsabilidade de Proteger” signifiquem alguma coisa a sério e sejam legítimos, legitimamente construídos).

Outro fator que torna plenamente justificável a aplicação da “Responsabilidade de Proteger” à cidade de Chicago é o nível de violência sistêmica gerada pela atividade de gangs armadas e mercenários assassinos. Muitos dos tiroteios na cidade são atribuídos a gangs pesadamente armadas ou a milícias privadas que trabalham no negócio das drogas que, em Chicago, alcança proporções industriais. E, tanto quanto se sabe, esses exércitos privados são comandados e pagos por estrangeiros – mexicanos e colombianos.

Nas próximas semanas, durante a Conferência da OTAN em Chicago, todos ouviremos governos ocidentais e os grandes veículos da imprensa-empresa, dedicados a muito elogiar a intervenção da ONU e da OTAN na Síria, onde o governo de Bashar Al Assad não estaria protegendo os cidadãos sírios contra a ação de gangs armadas (embora as tais gangs armadas estejam sendo armadas e pagas pelos mesmos governos ocidentais e respectivas imprensa-empresas suas aliadas que se reunirão em Chicago).

Por tudo isso, aplicando-se os mesmos – cínicos – critérios, pode-se exigir que a OTAN seja mandada “libertar Chicago”. É mais que hora, também, de a OTAN promover, urgentemente, uma “mudança de regime” por aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Policiais temem que manifestantes os agridam com xixi & cocô!


Medo histérico em Chicago, à espera do encontro do G8-OTAN, em maio

14/2/2012, Kevin Gosztola, The Dissenter 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Kevin Gosztola
A prefeitura de Chicago do prefeito Rahm Emanuel comprou “novos escudos protetores de rosto” para os policiais de Chicago, para serem usados durante a reunião do G8-OTAN na cidade, em maio próximo. Os “protetores de rosto”, segundo o Chicago Sun-Times, “adaptam-se perfeitamente sobre as máscaras antigás e blindarão os policiais contra líquidos que sejam jogados contra eles”.

Os escudos estão sendo comprados da empresa Super Seer Corporation com sede no Colorado. 3.057 “escudos novos e aprimorados” já foram comprados. São parte de “contrato de emergência no valor de $193.461”, “primeira aplicação” do “poder extraordinário garantido a Emanuel para comprar equipamentos e serviços necessários para a reunião do G8-OTAN na cidade”. [Em janeiro passado, o Conselho Municipal de Chicago deu ao prefeito Emanuel autorização para fazer compras sem licitação e sem depender de aprovação do Conselho Municipal, no caso de os equipamentos ou serviços necessários para a reunião do G9-OTAN na cidade não estarem previstos nos contratos já existentes.]

Mas exatamente que líquidos o prefeito e os policiais temem que os manifestantes contra a reunião do G8-OTAN “lancem” contra os policiais? O presidente da Frateneral Order of Police (FOP) [Ordem Fraterna da Polícia] Mike Shields argumenta que os novos escudos são necessários para impedir que “anarquistas e outros manifestantes extremistas ceguem os policiais com urina e fezes”.  [1] 

Segundo o Sun-Times, Shields gostou que a compra esteja feita, mas teme que a quantidade seja insuficiente:

“[Shields] não tem certeza de que bastem os 3.057 escudos se, como ele teme, dezenas de milhares de manifestantes chegarem a Chicago para os encontros sem precedentes que atrairão para a cidade as atenções de todo o mundo.

Temos 9.500 policiais. Cada um deles precisa de novo escudo, porque só têm o modelo antigo, que é absolutamente ineficaz, feito de plexiglass muito fino. Se se pressiona o escudo com o polegar, ele se quebra. Se receber uma pedrada, pula fora. Não é impermeável e qualquer líquido o atravessa” – diz Shields.

Sabe-se que os manifestantes que aqui estarão para protestar contra as reuniões do G8 e da OTAN são conhecidos por jogar garrafas com urina e sacos de fezes contra a polícia. Os policiais precisam de escudo que se adapte às substâncias que são jogadas contra eles.”

O presidente da empresa Super Seer Corporation, Steve Smith, não descarta a suposta “ameaça” de “urina e fezes” durante as reuniões na cidade. Sua empresa, que fabrica escudos para policiais, ganhará mais, quanto mais se dissemine esse medo histérico, irracional. Para Smith, o risco de os policiais serem atacados com “sacos de urina e outros líquidos” é “risco bem evidente”. Os protestos serão “voláteis”. Há risco de “policiais serem feridos”. E, aparentemente, há risco de que, entre os projéteis, haja excrementos humanos.

Mas, afinal, quando aconteceu de policiais serem atingidos por tais substâncias? Na matéria publicada no Sun-Times, há rápida referência, perdida no texto, a uma vez, há muitos anos, quando um “anarquista” ou “agitador” foi preso por pôr a polícia em risco de ser atingida por cocô ou xixi de esquerdistas. De fato, jamais se registrou nenhum incidente desse tipo. Não há nenhum incidente que justifique a militarização da polícia e a demonização preventiva dos manifestantes na preparação para os eventos previstos para Chicago.

Pesquisa no noticiário revela que todos os policiais e agentes de segurança da cidade sempre tomaram as medidas de prevenção que uma pessoa razoável considere necessárias. E urina e fezes aparecem entre riscos a temer, porque alguém teria dito que aconteceu, provavelmente em 1999, nos protestos de Seattle contra reunião da Organização Mundial do Comércio, de os policiais terem sido agredidos com urina e fezes. Infelizmente, bastou esse boato, porque nenhum jornalista ou repórter parece ter considerado importante informar que nenhum “anarquista” conhecido jamais jogou urina e fezes contra policiais e que esse é um dos memes que persistem sobre os grandes protestos de nossos dias.

Cidadãos Normais Organizados contra o Cocô
"Cocô-NÃO"
Por isso, em 2008, pouco antes da Convenção Nacional do Partido Democrata em Denver, Colorado, três grupos que organizavam grandes manifestações assinaram um documento que chamaram de “Acordo do Cocô”. Tinha tom satírico, mas foi assinado a sério. O tratado de “não proliferação do cocô” na Convenção Nacional dos Democratas dizia, no preâmbulo:

“O grupo não partidário “Cidadãos Normais Organizados contra o Cocô” (doravante chamado “Cocô-NÃO”) conclama todos os partidos para uma moratória na prática de lançar, portar, distribuir ou induzir o lançamento de excrementos, na semana de 25-29 de agosto.

Reconhecendo afirmações recentes sobre a possível utilização de fezes e urina como arma de ataque, ouvidas nas discussões sobre métodos de controle de multidões durante a Convenção Nacional do Partido Democrata em 2008, criou-se o pânico de que a cidade de Denver possa ser inundada em excremento humano durante o evento;

Movidos pelo desejo implícito de policiais, manifestantes, delegados e do povo de Denver, de evitar-se o contato indesejado com tais dejetos;

Resolveram que se faz necessário um acordo multilateral para pôr fim à paranóia que lançou em confusão tantas pessoas aparentemente racionais;

Declaramos que, juntos, podemos iniciar uma nova era no planejamento de convenções, livres da ameaça de urina e fezes.

Infelizmente, nem esse acordo teve muito impacto na percepção dos policiais, de que estariam sob risco de serem agredidos com urina e fezes. O mesmo medo voltou à tona na Convenção Nacional do Partido Republicano em St. Paul, Minnesota, na primeira semana de setembro de 2008.

A polícia de Minneapolis revistava um ônibus. E há declarações segundo as quais “ao cair a tampa de um contêiner, todos sentiram odor típico de fezes humanas que vinha do ônibus” – segundo o Centro de Jornalismo Investigativo. [2] O ônibus pertencia a Stan e DeLyla Wilson. A polícia fez contato com um “centro de fusão” [3] em Montana e descobriu que os Wilsons eram ligado à organização Earth First!, que apoiava métodos radicais para deter a degradação do meio ambiente.

O “odor”, como depois se viu, vinha de cinco galões de “ração para galinhas”, não de urina ou fezes. O ônibus dos Wilsons foi levado para um ponto deserto da rodovia, por suspeitas de que contivesse outras substâncias, mas nada foi encontrado.

Durante os protestos contra reunião da Free Trade Area of the Americas (FTAA) em Miami em 2003 (quando o “modelo Miami” foi usado pela primeira vez), a polícia de Miami preparou para resistir a um ataque de urina e fezes. Quando o ataque não aconteceu, a polícia declarou que nem por isso os temores policiais seriam injustificados. O sargento Denis Morales, porta-voz do departamento de polícia, disse à impressa, ao apresentar as “armas” que os manifestante haviam planejado usar contra a polícia:

“Infelizmente não podemos exibir as garrafas de urina nem as fezes que os manifestantes planejavam usar.” Afirmou que “agentes não uniformizados” misturados à multidão de manifestantes haviam detectado, antes das manifestações, a presença daqueles “objetos potencialmente ameaçadores”.

Todos os discursos sobre policiais agredidos com urina e fezes não passam de mito. Como David Solnit escreveu em dezembro de 2011:

“Manifestantes que lançam urina e fezes contra policiais” é um dos mitos que as autoridades usam para criminalizar os protestos desde Seattle, embora nada comprove a ocorrência desse tipo de agressão em Seattle nem em qualquer outro evento de protesto global. É mais um mito que se criou para encobrir e, de algum modo justificar, a violência contra as liberdades civis e a violência policial contra manifestantes. 

Para o militante David Meieran, do Grupo “Salve Nossas Liberdades Civis”, “É parte de um espectro de estratégias de guerra de informação que o Estado usa para reprimir qualquer oposição ou dissidência. ‘Urina e fezes’ deve ser analisado no contexto mais amplo da completa ignorância dos policiais sobre tudo que tenha a ver com manifestações populares e eventos sociais de protesto. Temos ouvido a mesma linguagem e expressões similares em praticamente todas as cidades onde há manifestações populares (policiais agredidos com ‘urina e fezes’; ‘no tempo dos pais de vocês isso não acontecia’ etc.).”  [4]

Mas, como a maioria dos policiais trata os manifestantes como seres que ameaçam gravemente a ordem pública, em vez de os verem como cidadãos que exercem o direito de discordar, garantido pela 1ª Emenda da Constituição dos EUA, não surpreende que o mito se perpetue.

Os novos escudos são mais um símbolo da mesma ideia sobre o que seja a lei e a aplicação da lei, resposta a gente ‘inferior’ que se atreve a protestar, e que os policiais desprezam, porque não entendem que alguém se atreva a protestar contra a realização, na cidade, de um evento de grande significação, como a reunião do G8. Tampouco em Miami os policiais tinham qualquer ideia aproveitável sobre os protestos contra o ALCA. Antes das manifestações, os policiais falavam sobre “táticas de Seattle” que seriam usadas pelos manifestantes em Miami, que envolviam coquetéis Molotov, porretes, pistolas d’água carregadas com urina ou ácido, e perigosos estilingues que disparariam bolas de aço ou projéteis maiores”. São praticamente as mesmas palavras que se ouviram da polícia de New York, a qual, durante a Convenção Nacional dos Republicanos em 2004, alertava para a presença, na Convenção, de “militantes treinados em técnicas de sequestro, produção de bombas de fabricação caseira e de munição artesanal de vários tipos”.

Dado que a imprensa-empresa nos EUA é sempre absolutamente reverente, quando se trata de justificar violências praticadas pela polícia (até, pelo menos, que jornalistas comecem também a apanhar da polícia ou são feridos à bala por policiais), a promoção de mitos como os “sacos de urina e fezes atirados contra os policiais” por manifestantes e agitadores é recurso útil, que dá cobertura aos policiais quando se põem a prender cidadãos preventivamente, nas semanas que antecedem eventos em relação aos quais a polícia teme que haja protestos de rua. Os “centros de fusão” produzem e distribuem informação sobre a vida pessoal dos ativistas. Alguns desses cidadãos já tiveram seus nomes publicados na imprensa, associados à ameaça de violência em manifestações que a polícia prevê que aconteçam durante a reunião do G8-OTAN, em maio, em Chicago. É também recurso de que a polícia se serve para intimidar outras pessoas menos habituadas a participar de manifestações públicas, por mais que desejem engajar-se nos protestos.

O jornal Chicago Sun-Times oferece hoje uma prévia da operação de demonizar e apresentar como agitadores perigosos quem se manifeste contra os encontros do G8-OTAN; e, simultaneamente, também da operação de apresentar os próprios policiais como “salvadores” dos encontros G8-OTAN. 

Os escudos “à prova de urina e fezes” são boa amostra da quantidade de informação distorcida e de desinformação, em “declarações” de funcionários da prefeitura de Chicago, oficiais de polícia, empresários e líderes políticos, que será apresentada à opinião pública como informação verdadeira e confiável. 

Ironicamente, tanta desinformação pode acabar por prejudicar, em primeiro lugar, o próprio prefeito Emanuel.

Estimulados e alimentados pela atual onda de desinformação e de demonização “preventiva” dos manifestantes e dos protestos esperados para maio em Chicago, muitos já dizem que as autoridades jamais deveriam ter concordado com a ideia de realizar na cidade o encontro do G8-OTAN – que deixará a população exposta “a protestos violentos”. Moradores já reclamam do custo de organizar a reunião e do alto risco de “danos às propriedades” (outra ameaça que a polícia não se cansa de repetir, para justificar as compras e as medidas de violência “preventiva” em curso).

O que o prefeito esperava ganhar em prestígio e honra, por Chicago hospedar a reunião do G8-OTAN em maio, pode rapidamente cair abaixo de zero. 



Notas dos tradutores
[1] 14/2/2012, Chicago Sun Times, “City buys face shields to protect cops from G-8 protesters”
[3] Orig. fusion center. São centros para concentração e partilha/distribuição de informações de segurança, a maioria dos quais foram criados por projeto conjunto entre o Departamento Nacional de Segurança Interna e o Departamento de Justiça dos EUA, entre 2003 e 2007.