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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Significado da Comuna de Paris

4/5/2015, [*] Kristin Ross (KR), entrevistada por Manu Goswami do Jacobin Magazine (JM)
The Meaning of the Paris Commune 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
O que a Comuna de Paris oferece às atuais lutas por emancipação?

Communards sobre barricadas durante a Comuna de Paris

 
A seguir, duas epígrafes acrescentadas pelos tradutores:

 
 
Em 12 de abril de 1871, isto é, precisamente durante a Comuna, Marx escrevia a Kugelmann:
Reli o último capítulo do meu 18 de Brumário. Afirmo que a revolução em França deve tentar, antes de tudo, não passar para outras mãos a máquina burocrática e militar  como se tem feito até aqui  mas quebrá-la (zerbrechen: a palavra é grifada por Marx no original). Eis a condição preliminar para qualquer revolução popular do continente. Eis também o que tentaram os nossos heroicos camaradas de Paris. (Neue Zeit, XX, 1, 1901-1902, p. 709)’ (Marx, em carta a Kugelman, de 12/4/1871, in LENIN, V. I., O Estado e a Revolução, cap. 3.1: “Onde Reside o Heroísmo da Tentativa dos Comunardos”, in marxists.org).

 
De um artigo sobre o mesmo livro, pela autora, em francês, no Le Monde Diplomatique, maio 2015:
Em abril de 1871, no auge da Comuna de Paris, sete mil operários londrinos organizaram uma manifestação de solidariedade com seus camaradas parisienses, do local que a imprensa burguesa britânica chamava de “nossa Belleville”  o quarteirão de Clerkenwell Green até o Hyde Park. Acompanhados de uma fanfarra, erguiam bandeiras e faixas onde se lia “Viva a Comuna!”, “Longa Vida à República Universal!” Na mesma semana, no anfiteatro da Faculdade de Medicina da Sorbonne, abandonada pelos professores  que haviam corrido a refugiar-se em Versailles  os artistas e os artesãos parisienses (“todas as inteligências artísticas”) escutaram Eugène Pottier ler o manifesto da Federação dos artistas de Paris, cuja última frase foi: “O Comitê contribuirá para nossa regeneração, para a inauguração do luxo comunal dos esplendores do futuro, e para a República Universal”.

 

Introdução
 
Dia 18 de março de 1871, artesãos e comunistas, trabalhadores e anarquistas, tomaram a cidade de Paris e estabeleceram a Comuna. Esse experimento radical de autogoverno socialista durou 72 dias, antes de ser esmagada num massacre brutal que estabeleceu a 3ª República francesa. Mas socialistas, anarquistas e marxistas nunca deixaram de discutir o significado daquela ação. 
 
Kristin Ross, em seu novo livro, o poderoso Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune [O luxo da Comuna: imaginário político da Comuna de Paris], expõe com máxima clareza as polêmicas acumuladas sobre a Comuna, as quais, como ela diz, calcificaram falsas polêmicas: anarquismo versus marxismo, camponês versus operário, terrorismo jacobino revolucionário versus anarcosindicalismo e por aí vai. 
 
Agora que a Guerra Fria acabou e o Republicanismo francês está exaurido, argumenta Ross, podemos afinal livrar a Comuna dessa esclerose. Essa emancipação pode, por sua vez, revitalizar a esquerda contemporânea para agir e pensar sobre os desafios de hoje. Nenhum trabalho especifica mais completamente o que disse Marx, para quem a maior conquista da Comuna de Paris foi sua “existência real em operação”. 

 
Entrevista
 
Jacobin Magazine (JM) – Esse livro reencena a Comuna de Paris para nossos tempos. Por que a Comuna é recurso para pensar as demandas de nosso presente? 
 
Kristin Ross (KR) – Fico contente que você tenha escolhido dizer “recurso”, em vez de “lição”. Em geral as pessoas insistem em que o passado nos daria lições ou que ensinaria que erros evitar. A literatura em torno da Comuna é cheia de palpites, de engenheiros-de-obra-feita, de gente que goza ante a lista de erros: ah, se os Communards tivessem feito isso ou aquilo, saqueado dinheiro do banco, marchado sobre Versailles, feito a paz com Versailles, se se organizassem melhor, aí, sim, teriam sido bem-sucedidos! 
 
Para mim, esse tipo de superioridade teórica post-fato é, ao mesmo tempo, estúpida e profundamente a-histórica. Nosso mundo não é o mundo dos Communards. Mas quanto antes se compreenda realmente que nosso mundo não é o mundo deles, tanto mais fácil é perceber os pontos nos quais o mundo deles é, de fato, muito próximo do nosso – mais próximo de nós, talvez, que o mundo da geração dos nossos pais. 
 
O modo como vivem hoje as pessoas, particularmente os mais jovens, assemelha-se muito à instabilidade econômica da situação dos operários e artesãos do século 19 que fizeram a Comuna, muitos dos quais passavam mais tempo, não trabalhando, mas procurando trabalho. 
 
Depois de 2011, com a volta virtualmente em todos os lugares, de uma estratégia política baseada em tomar espaços, ocupar locais e territórios, converter cidades inteiras – de Istanbul a Madrid, de Montreal a Oakland – em teatros para operações estratégicas –, a Comuna de Paris voltou a ser visível, como se recebesse nova iluminação, entrou novamente na figurabilidade do presente. 
 
Suas formas de invenção política tornou-se novamente disponível para nós, não como lições, mas como recursos, ou, como o que Andrew Ross, falando do meu livro, chamou de “um arquivo usável”. A Comuna tornou-se a figura para uma história, e talvez para um futuro, diferente do curso que, por um lado, a modernização capitalista tomou; e por outro, o estado socialista utilitário tomou. 
 
É um projeto que, creio, muita gente partilha hoje, e o imaginário da Comuna é central para aquele projeto. Por essa razão, tentei, no livro, pensar sobre a Comuna ao mesmo tempo como pertencente ao nosso passado e como uma espécie de abertura do campo dos futuros possíveis, no meio de nossas atuais lutas. 
 
JM – O luxo comunal (fr. le luxe communal) foi slogan da seção dos artistas da Comuna e dá título ao seu livro. Você pode nos falar sobre a gênese dessa expressão?
 
KR – Diferente de “a república universal”, “o luxo comunal” não foi um dos slogans retumbantes da Comuna. Encontrei a expressão metida lá na última frase do manifesto que artistas e artesãos produziram sob a Comuna, quando se auto-organizavam numa federação. Para mim tornou-se uma espécie de prisma pelo qual refratar várias invenções e ideias chaves da Comuna de Paris. 
 
O autor da expressão, o artesão de artes decorativas Eugène Pottier, é mais conhecido até hoje como autor de outro texto, A Internacional, Terra sem Amos, composto ao final da Semana Sangrenta, antes de o sangue dos massacres ter secado nas calçadas. O que ele e outros artistas queriam dizer com “luxo comunal” era alguma coisa com um programa de ação para “beleza pública”: melhoria de vilas e cidades, o direito de todas as pessoas viverem e trabalharem em ambiente agradável. 
 
Pode-se ver aí uma demanda pequena, talvez mesmo só “decorativa”. Mas de fato implica não só completa reconfiguração da nossa relação com a arte, mas também com o trabalho, as relações sociais, a natureza e o ambiente vivido. Significa mobilização total na direção das duas palavras de ordem da Comuna: descentralização e participação. Implica arte e beleza “desprivatizadas”, plenamente integradas na vida diária, não escondidas em salões privados ou centralizadas numa monumentalidade nacionalista obscena. 
 
Os recursos e realizações estéticas de uma sociedade não mais tomariam, como os Communards mostraram em ato, a forma do que William Morris chamou de “aquela peça básica da estofaria napoleônica”, a Coluna Vendôme. Na pós-vida da Comuna, no trabalho de Reclus, Morris e outros, mostro como a demanda de que a arte e a beleza florescessem na vida diária continha as ideias chaves do que hoje chamaríamos de desejo “ecológico”, e que pode ser percebido na “noção crítica de beleza” de Morris, por exemplo; ou na insistência de Kropotkin sobre a importância da autossuficiência regional. 
 
Nas suas fronteiras de alcance mais especulativo, “o luxo comunal” implica um conjunto de critérios os sistemas de valorização diferentes do que o mercado fornece, para decidir o que uma sociedade valoriza, o que considera precioso. A natureza é valorizada não como um estoque de recursos, mas como fim nela própria. 
 
JM – Seu livro estende a vida da Comuna aos trabalhos de Kropotkin e do socialista britânico William Morris, dentre outros.
 
KR – É muito fácil deixar-se tomar num transe de horror, pelo que Flaubert chamou de a “goticidade” da Comuna, expressão pela qual espero que ele tenha querido referir-se aos horrores sem mercê da Semana Sangrenta e massacre de milhares, que levou ao fim da Comuna. De modo algum minimizo o significado do massacre. De fato, vejo aquela espantosa tentativa, pelo estado, de exterminar um a um e em massa seus inimigos de classe, como o ato de fundação da 3ª República. 
 
Mas me ocupei mais com documentar o que, para mim, seria o prolongamento da Comuna – o modo como o pensamento Communard continuou a ser elaborado depois do fim da Semana Sangrenta, com sobreviventes da Comuna exilados reunindo-se e trabalhando juntos com os apoiadores que você mencionou – camaradas de uma mesma viagem, para quem os eventos da Comuna haviam alterado profundamente o que Jacques Rancière chamaria de “a distribuição do sensível”. 
 
Descrevo como onda de choque a Comuna como evento, e as discussões e a sociabilidade que se seguiram, com os que sobreviveram à Comuna, mudaram os métodos desses pensadores, as questões sobre as quais se debruçavam, os materiais que selecionavam, a paisagem intelectual e política que mapearam para eles próprios – em resumo, o caminho deles. Essas ondas imediatas de pós-choque são a continuação da luta, por outros meios. São parte do excesso do evento, e são tão absolutamente vitais para a lógica de qualquer evento, como as ações iniciais pelas ruas. 
 
Talvez a maior modificação possa ser detectada na trajetória de Marx, depois da Comuna – uma mudança que assume a forma paradoxal de, tanto um fortalecimento de sua teoria, como uma ruptura com o próprio conceito de teoria. A Comuna mostrou muito claramente aos olhos de Marx que as massas não só modelam a história como também, ao modelá-la, transformam o presente e também transformam a própria teoria. Isso, de fato, é o que Henri Lefebvre tinha em mente, quando falou da “dialética do vivido e do concebido”. 
 
O pensamento e a teoria de um movimento só são desencadeados com o movimento e depois do movimento. São as ações que criam os sonhos, não o contrário. [1]
 
JM – Piotr Kropotkin, Elise Reclus e William Morris foram, como você argumenta em seu livro, preocupados com mobilizar unidas as “energias do antiquado” associadas com formas pré-capitalistas e não capitalistas e com o potencial radical de práticas emergentes. 
 
KR – Não só esses, mas também Marx era preocupado com a existência “anacrônica” em seu próprio tempo, de formas e modos de vida pré-capitalistas. 
 
O destino das obshchina, aquelas formações agrárias comunitárias russas, que perduraram por séculos, foi importante foco das preocupações dos socialistas ocidentais. O desafio teórico que tomou forma depois da Comuna girava em torno da questão de uma forma-comuna revitalizada: como pensar juntas (I) a espantosa insurreição que aconteceu numa grande capital da Europa e (II) a persistência daquelas antigas formas comunistas no campo. 
 
Esses pensadores eram todos extremamente atentos ao que se pode chamar “fissuras no tempo” – momentos nos quais a ininterrupta continuidade da modernidade capitalista parece rachar-se e abrir-se como um ovo. Historiadores em geral temem o anacronismo como o maior erro possível. São dados a desconsiderar o interesse de Morris pela Islândia daquele tempo, e o passado medieval da Islândia, por exemplo, como nostalgia obcecada. Morris foi realmente capaz de ver formações pré-capitalistas e modos de vida como os que haviam florescido na Islândia medieval como, simultaneamente, idos, passados, parte da história, e, ao mesmo tempo, como figuração de um futuro possível. 
 
Isso é sinal, na minha opinião, não de nostalgia, mas de um modo de pensar profundamente historicizado. Sem isso, não temos como pensar a possibilidade de mudança, nem de viver o presente como algo contingente e sem desfecho conhecido.

 
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Nota dos tradutores
[1] O prof. Mangabeira Unger, em Conhecimento e Política, ensina que “a esperança é consequência da ação, não é causa dela”. A mesma lição-recurso de pensamento aparece em entrevista que concedeu à Revista Caros Amigos em 1999. É a mesma ideia progressista que se lê acima.
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[*] Kristin Ross é professora de Literatura Comparada na New York University e autora do livro: Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune. Manu Goswani é professora assiciada de História na New York University.

Professora Kristin Ross

segunda-feira, 18 de março de 2013

18/3/1871: Viva a Comuna de Paris!


A Comuna não está morta!


18/3/2013. Homenagem da Vila Vudu e redecastorphoto
Colaboração de BASTA! Journal de la Marche Zapatiste Multilíngüe
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Dia 18 de março de 1871, o povo de Paris levantou-se para defender seus canhões em Montmartre, que o exército de Thiers queria confiscar. A aventura durou menos de dois meses. A vingança da burguesia foi feroz: 17 mil mortos. Nunca esqueceremos!


“A extensão global do cenário que haverá de desenvolver-se e a intensidade de seus efeitos farão com que a dialética lhes entre cabeça adentro, até desses arrivistas mimados, patéticos, do Sacro Império prussiano-alemão-norte-americano”
(Karl Marx, posfácio ao vol. 1 de MARX, K. El Capital, Crítica de la Economía Política, México, Ed. Fondo de Cultura Económica, 1978, 2a edição, 13reimpressão, trad. de Wenceslao Roces ao espanhol, aqui traduzido e atualizado).

domingo, 30 de dezembro de 2012

Outra vez a Comuna de Paris


13/11/2012, Juliet Jacques, NewStateman (com intervenções)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barricadas frente à Madeleine, na Comuna de Paris. Imagem via WikiCommon
Epígrafe acrescentada pelo pessoal da Vila Vudu:
Tese 8: “Os teóricos que reconstituem a história deste movimento, colocando-se do ponto de vista omnisciente de Deus que caracterizava o romance clássico, mostram sem dificuldade que a Comuna estaria objetivamente condenada, que não teria superação possível. Mas para os que viveram o acontecimento, a superação estava ali”.
Tese 13: “A guerra social de que a Comuna constitui um momento continua sempre (por muito que tenham mudado algumas condições superficiais). Sobre o trabalho de “tornar conscientes as tendências inconscientes da Comuna” (Engels) ainda não foi dita a última palavra”.
Guy Debord em:14 Teses sobre a Comuna de Paris”, Internationale Situationiste, n. 7, Abril de 1962


Émile Zola
Apesar do curto período de existência, de março a maio de 1871, a Comuna de Paris inspirou um romance de Émile Zola (La Débâcle, 1892), filmes de Grigori Kozintsev e Peter Watkins, e várias análises propostas por pensadores socialistas, a começar por A Guerra Civil na França, de Karl Marx, sobre o que o curto sucesso e o estrondoso fracasso da Comuna têm a ensinar aos muitos, sobre como reorganizar a sociedade.

De fato, a única correção que Marx e Engels fizeram ao Manifesto Comunista brotou de lição da Comuna, a qual, escreveram eles, demostrara que “a classe trabalhadora não pode apenas ocupar a máquina já existente do Estado para usá-la para seus próprios objetivos”.

Prosper-Olivier Lissagaray
A narrativa da Comuna tornou-se profundamente ideologizada, depois que as tropas da 3ª República francesa a esmagaram, ainda furiosas pela derrota da França na guerra franco-prussiana e pelo acordo punitivo de janeiro de 1871.

Agora, já praticamente em 2013, a editora Verso volta a editar a seminal História da Comuna de Paris (em português)  do communard Prosper-Olivier Lissagaray (1838-1901), publicada em francês pela primeira vez em 1876, com Lissagaray ainda exilado na Bélgica, e traduzida ao inglês por sua mulher, Eleonora Marx [filha de Marx].

Com essa história detalhadíssima, Lissagaray visava a combater “as mentiras e calúnias burguesas” que se seguiram à supressão da Comuna, para extrair lições e demarcar os fatos para historiadores futuros.

Eleonora Marx
O que os leitores contemporâneos aprendem da história de Lissagaray?

A palavra “comuna” sugere “comunismo”, mas já era usada para designar o conselho da cidade, como autoridade local autônoma. A denominação tem raízes na Revolução Francesa, e já houvera uma comuna de Paris entre 1789 e 1795, a qual, sob controle dos jacobinos, recusara-se a obedecer ordens do governo central depois de 1792. A Comuna de 1871 aconteceu depois de Paris ter sido sitiada pelos prussianos, cerco que começou em setembro de 1870, depois do colapso do Segundo Império de Napoleão III Preparando para o ataque iminente, a Guarda Nacional Francesa foi aberta para a classe trabalhadora parisiense, que elegeu seus próprios líderes do Comitê Central da Guarda. Muitos desses líderes eram radicais, republicanos ou socialistas jacobinos, sobretudo no norte, os mesmos que, adiante, tornaram-se líderes da Comuna.

Essa guarda parisiense destinava-se a defender a cidade contra a invasão prussiana e pela restauração da monarquia, sobretudo depois que, nas eleições para a Assembleia Nacional, em fevereiro de 1871, os monarquistas perderam a maioria. Cada dia mais radical, a Guarda Nacional parisiense acumulou armamento pesado; até que, no dia 18/3/1871, Adolphe Thiers, eleito recentemente “Autoridade Executiva” do novo governo, e temeroso das consequências de a municipalidade em Paris estar tão pesadamente armada, ordenou que os soldados confiscassem toda a munição que havia em Montmartre. Os parisienses revoltaram-se; dois generais foram assassinados; Thiers recolheu-se, com todo o gabinete administrativo, para o Palácio de Versailles, deixando um vácuo de poder, que foi rapidamente preenchido pelo Comitê Central da Guarda Nacional parisiense.

A Comuna nasceu sitiada, o que tornou absolutamente urgente e necessário distribuir comida, dinheiro e armas entre os communards; nasceu também constituída de trabalhadores; e a constituição operária do Comitê Central da Comuna de Paris tornou-o excepcionalmente interessante para Marx e seus seguidores. Embora separasse estado e igreja; tenha cancelado aluguéis a pagar durante o sítio; tenha abolido o trabalho noturno nas padarias e todos os tipos de juros sobre dívidas; e admitisse que os operários ocupassem lojas e fábricas abandonadas, a Comuna nunca foi formalmente socialista – as ideias de Marx ainda não haviam penetrado na esquerda francesa; e, em 1871, os teóricos utopistas, como Charles Fourier, já haviam saído de moda.

Louis-Auguste Blanqui
Louis-Auguste Blanqui – que tentara assumir o poder em outubro de 1870; que viu seu projeto sobreviver apenas 12 horas; e que foi preso um dia antes de as tropas chegarem a Montmartre para desarmar a guarnição local – era, então, ainda, o pensador mais influente. Por isso os Communards fizeram várias tentativas para libertá-lo, tentando uma troca de prisioneiros: Blanqui, em troca de padres que os Communards tomavam como reféns. Thiers rejeitou todas as propostas.

Mas eram poucos, entre os Communards, os que partilhavam o desejo blanquista de implantar uma ditadura do proletariado; a maioria tendia a eleger membros para o Comitê e o novo Conselho Executivo. Para Lissagaray, o principal problema parecia ser a falta de ideologia e de organização. As eleições elegeram radicais, moderados e conservadores, e não havia qualquer linha partidária por trás da atividade da Comuna; os líderes consumiam tempo precioso em infindáveis discussões, quando o mais urgente seria agir contra a mobilização dos soldados de Thiers em Versailles.

Lissagaray aponta, logo à primeira página, para a divisão insuperável entre a esquerda radical e a esquerda parlamentar (a esquerda parlamentar já aliada, de fato, a Thiers). A desunião tornar-se-ia afinal pública, entre o Comitê Central e o Conselho Executivo da Comuna; separação provocada, pelo menos em parte, por o Comitê não se decidir a assumir o controle sobre Banco da França.

“Naqueles cofres (...) há 4,6 milhões de francos” – Lissagaray lamenta – “mas as chaves estão em Versailles; e, dada a tendência do movimento para conciliar-se com os prefeitos [delegados Varlin e Jourde, do Comitê Central da Comuna], ninguém se atreve a arrombar os ferrolhos e fechaduras”.

Essa decisão tornou-se a mais amplamente criticada em todas as histórias que se escreveram depois. Foi bem claramente a decisão, considerada isoladamente, que Lissagaray mais profundamente lamenta. Escreveu que o governo da Comuna optou por “submeter-se ao Banco da França”, opção que potencializou o fracasso mais amplo de só fazer aprovar “legislação insignificante (...), sem plano militar, sem programa (...), deixando-se arrastar em discussões em que nada se decide e a partir das quais nada se faz”.

O caos assim gerado – que se percebe no tom de absoluta urgência que há no texto de Lissagaray e, até, na dificuldade que o leitor encontrará, ainda hoje, para compreender e acompanhar as rápidas modificações na estrutura da Comuna – levou à ditadura.

Em pouco tempo, um novo Comitê de Segurança Pública sobrepujou o Conselho, que cometeu o erro de não admitir que o povo participasse de suas reuniões, o que gerou a imagem de que seria paranoico e antidemocrático; e assumiu a responsabilidade pela defesa de Paris.

Daí em diante, a Comuna ficou à mercê dos líderes militares, cuja negligência e insuficiente competência tática – sobretudo ao instalar barricadas, já tornadas inúteis depois que o Barão Haussmann reformara Paris nos anos 1860s – a condenaram à derrota.

A retaliação foi violenta: 3.000 parisienses mortos ou feridos nas batalhas de maio de 1871; e Lissagaray estima que cerca de 20 mil morreram até meados de junho – três mil a mais do que admitidos pela justiça militar do governo. Muitos mais foram presos, na França e nas colônias; só foram anistiados em julho de 1880.

Guy Debord
Os Situacionistas Guy Debord, Attila Kotányi e Raoul Vaneigem, em suas Teses sobre a Comuna de Paris  publicadas em março de 1962, procuraram separar a experiência da Comuna, de tentativas anteriores, para inferir dela uma teoria de como poderia funcionar uma ditadura do proletariado.

Escreveram que “A Comuna de Paris foi vencida menos pela força das armas que pela força do hábito. O exemplo prático mais escandaloso foi a recusa em recorrer ao canhão para tomar o Banco de França, quando o dinheiro fazia tanta falta. Enquanto durou o poder da Comuna, a banca permaneceu como um enclave em Paris, defendida por algumas espingardas e pelo mito da propriedade e do roubo. Os restantes hábitos ideológicos foram desastrosos sob todos os pontos de vista (a ressurreição do jacobinismo, a estratégia derrotista das barricadas em memória de 48, etc.)” (Tese n. 8).

Escreveram que “Há que retomar o estudo do movimento operário clássico de uma forma desenfeudada e em primeiro lugar desenfeudada das diversas classes de herdeiros políticos ou pseudo-teóricos, pois não possuem mais que a herança do seu fracasso. Os êxitos aparentes deste movimento são os seus fracassos fundamentais (o reformismo ou a instalação no poder de uma burocracia estatal) e os seus fracassos (a Comuna ou a revolta das Astúrias) são até agora os seus êxitos abertos, para nós e para o futuro”. (Tese 1).

Talvez cada geração, posta ante diferentes crises do capitalismo, que as gerações anteriores não conheceram, identifique diferentes lições na Comuna (...) 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

De Napoleão III a Franco: os “Vermelhos”, os “árabes do norte”


“Nenhuma piedade pelos beduínos!” 

11/2/2012, Fausto Giudice, Túnis [enviado por e-mail]
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também

Acabo de descobrir, ao ler o excelente artigo de John Brown sobre Baltasar Garzón e as arapucas da transição democrática na Espanha [endereço acima], que os oficiais franquistas do exército da África que esmagou a República espanhola chamavam os Republicanos de “os mouros do norte”, os árabes do norte. O que leva Gustau Nerín, em seu livro La guerra que vino de África [A guerra que veio da África], citado por Brown, a qualificar o extermínio dos “Vermelhos”, pelos fascistas, como “matança colonial”. 

Imediatamente me ocorreu um paralelo histórico rico de analogias.
O Duque de Orléans deixa o Palácio Real (Louvre) e vai para o Hotel de Ville (Vernet)
Em fevereiro de 1848, a população de Paris levantou-se contra a monarquia instaurada em julho de 1830 e proclamou a Segunda República. A burguesia aterrorizada apelou às tropas de África vitoriosas na conquista sangrenta da Argélia, de 1830 a 1847, quando o Emir Abdelkader, chefe da insurreição argelina, rendeu-se às tropas francesas de ocupação comandadas pelo general Bugeaud, massacrador de operários parisienses em 1834.

Governador da Argélia desde 1840, Bugeaud foi convocado de volta a Paris para enfrentar a Revolução. Nomeado comandante militar de Paris, Bugeaud declara: “Terei o prazer de matar muitos dessa canalha.” O encarregado do comando operacional das tropas é o General de Saint-Arnaud, ao qual François Maspéro consagrou um livro notável, L'honneur de Saint-Arnaud [A honra de Saint-Arnaud] (éd. Seuil, coll. Points, 1997, 448 p.).

Saint-Arnaud, protótipo do conquistador colonial aplicará tudo que aprendeu na conquista da Argélia – dentre outras, a tática de sufocar com fumaça os civis que se refugiavam em cavernas – a serviço da contrarrevolução na metrópole. O homem que escrevia na Argélia “Arrebentamos, queimamos, pilhamos, incendiamos colheitas e árvores” era odiado pelo povo parisiense, que lhe jogou lama e derrubou-o do cavalo nas jornadas de fevereiro. Saint-Arnaud teria sua vingança, e seria sangrenta.

A cavalaria nas ruas de Paris em 2 dedezembro de 1851 (Autor desconhecido)
Depois do banho de sangue de junho de 1848, Louis-Napoléon Bonaparte prepara seu golpe de Estado. Nomeia Saint-Arnaud General-de-Divisão, depois Ministro da Guerra. Nos dias que se seguiram ao golpe de força de 2/12/1851 (o famoso 18 brumário de Louis-Napoléon Bonaparte, para lembrar o título da brochura de Karl Marx) as tropas de Saint-Arnaud, que se tornara ministro do Interior, lançaram-se contra os quarteirões operários de Paris, aos gritos de “Nenhuma piedade pelos beduínos!”

40 mil Republicanos seriam presos e condenados por “comissões mistas” criadas por Saint-Arnaud e seu colega da Justiça, Abbatucci. Uma parte deles seria banida para Lambèze, na Argélia e Caiena, na Guiana. Esses Republicanos, embora chamados de “beduínos”, nem por isso deixaram de ser franceses. A maioria deles, depois de deixados em Lambèze, tornaram-se colonos na Argélia francesa (os condenados a pena de banimento não podiam retornar à metrópole depois de cumprida a pena) e, na primavera de 1871, proclamaram a Comuna de Argel, ainda mais efêmera que a Comuna de Paris. 

Detalhe perturbador: os “indígenas” judeus e muçulmanos eram proibidos de entrar nessa “comuna”...

Sempre alguém é “o árabe” de alguém.

Ilustração virtual 
-- Ernest Dargent, Illustration pour “Histoire d'un crime” - Quatrième journée: La victoire. © Photo RMN – Bulloz.