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domingo, 30 de dezembro de 2012

Outra vez a Comuna de Paris


13/11/2012, Juliet Jacques, NewStateman (com intervenções)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barricadas frente à Madeleine, na Comuna de Paris. Imagem via WikiCommon
Epígrafe acrescentada pelo pessoal da Vila Vudu:
Tese 8: “Os teóricos que reconstituem a história deste movimento, colocando-se do ponto de vista omnisciente de Deus que caracterizava o romance clássico, mostram sem dificuldade que a Comuna estaria objetivamente condenada, que não teria superação possível. Mas para os que viveram o acontecimento, a superação estava ali”.
Tese 13: “A guerra social de que a Comuna constitui um momento continua sempre (por muito que tenham mudado algumas condições superficiais). Sobre o trabalho de “tornar conscientes as tendências inconscientes da Comuna” (Engels) ainda não foi dita a última palavra”.
Guy Debord em: “14 Teses sobre a Comuna de Paris”, Internationale Situationiste, n. 7, Abril de 1962


Émile Zola
Apesar do curto período de existência, de março a maio de 1871, a Comuna de Paris inspirou um romance de Émile Zola (La Débâcle, 1892), filmes de Grigori Kozintsev e Peter Watkins, e várias análises propostas por pensadores socialistas, a começar por A Guerra Civil na França, de Karl Marx, sobre o que o curto sucesso e o estrondoso fracasso da Comuna têm a ensinar aos muitos, sobre como reorganizar a sociedade.

De fato, a única correção que Marx e Engels fizeram ao Manifesto Comunista brotou de lição da Comuna, a qual, escreveram eles, demostrara que “a classe trabalhadora não pode apenas ocupar a máquina já existente do Estado para usá-la para seus próprios objetivos”.

Prosper-Olivier Lissagaray
A narrativa da Comuna tornou-se profundamente ideologizada, depois que as tropas da 3ª República francesa a esmagaram, ainda furiosas pela derrota da França na guerra franco-prussiana e pelo acordo punitivo de janeiro de 1871.

Agora, já praticamente em 2013, a editora Verso volta a editar a seminal História da Comuna de Paris (em português)  do communard Prosper-Olivier Lissagaray (1838-1901), publicada em francês pela primeira vez em 1876, com Lissagaray ainda exilado na Bélgica, e traduzida ao inglês por sua mulher, Eleonora Marx [filha de Marx].

Com essa história detalhadíssima, Lissagaray visava a combater “as mentiras e calúnias burguesas” que se seguiram à supressão da Comuna, para extrair lições e demarcar os fatos para historiadores futuros.

Eleonora Marx
O que os leitores contemporâneos aprendem da história de Lissagaray?

A palavra “comuna” sugere “comunismo”, mas já era usada para designar o conselho da cidade, como autoridade local autônoma. A denominação tem raízes na Revolução Francesa, e já houvera uma comuna de Paris entre 1789 e 1795, a qual, sob controle dos jacobinos, recusara-se a obedecer ordens do governo central depois de 1792. A Comuna de 1871 aconteceu depois de Paris ter sido sitiada pelos prussianos, cerco que começou em setembro de 1870, depois do colapso do Segundo Império de Napoleão III.  Preparando para o ataque iminente, a Guarda Nacional Francesa foi aberta para a classe trabalhadora parisiense, que elegeu seus próprios líderes do Comitê Central da Guarda. Muitos desses líderes eram radicais, republicanos ou socialistas jacobinos, sobretudo no norte, os mesmos que, adiante, tornaram-se líderes da Comuna.

Essa guarda parisiense destinava-se a defender a cidade contra a invasão prussiana e pela restauração da monarquia, sobretudo depois que, nas eleições para a Assembleia Nacional, em fevereiro de 1871, os monarquistas perderam a maioria. Cada dia mais radical, a Guarda Nacional parisiense acumulou armamento pesado; até que, no dia 18/3/1871, Adolphe Thiers, eleito recentemente “Autoridade Executiva” do novo governo, e temeroso das consequências de a municipalidade em Paris estar tão pesadamente armada, ordenou que os soldados confiscassem toda a munição que havia em Montmartre. Os parisienses revoltaram-se; dois generais foram assassinados; Thiers recolheu-se, com todo o gabinete administrativo, para o Palácio de Versailles, deixando um vácuo de poder, que foi rapidamente preenchido pelo Comitê Central da Guarda Nacional parisiense.

A Comuna nasceu sitiada, o que tornou absolutamente urgente e necessário distribuir comida, dinheiro e armas entre os communards; nasceu também constituída de trabalhadores; e a constituição operária do Comitê Central da Comuna de Paris tornou-o excepcionalmente interessante para Marx e seus seguidores. Embora separasse estado e igreja; tenha cancelado aluguéis a pagar durante o sítio; tenha abolido o trabalho noturno nas padarias e todos os tipos de juros sobre dívidas; e admitisse que os operários ocupassem lojas e fábricas abandonadas, a Comuna nunca foi formalmente socialista – as ideias de Marx ainda não haviam penetrado na esquerda francesa; e, em 1871, os teóricos utopistas, como Charles Fourier, já haviam saído de moda.

Louis-Auguste Blanqui
Louis-Auguste Blanqui – que tentara assumir o poder em outubro de 1870; que viu seu projeto sobreviver apenas 12 horas; e que foi preso um dia antes de as tropas chegarem a Montmartre para desarmar a guarnição local – era, então, ainda, o pensador mais influente. Por isso os Communards fizeram várias tentativas para libertá-lo, tentando uma troca de prisioneiros: Blanqui, em troca de padres que os Communards tomavam como reféns. Thiers rejeitou todas as propostas.

Mas eram poucos, entre os Communards, os que partilhavam o desejo blanquista de implantar uma ditadura do proletariado; a maioria tendia a eleger membros para o Comitê e o novo Conselho Executivo. Para Lissagaray, o principal problema parecia ser a falta de ideologia e de organização. As eleições elegeram radicais, moderados e conservadores, e não havia qualquer linha partidária por trás da atividade da Comuna; os líderes consumiam tempo precioso em infindáveis discussões, quando o mais urgente seria agir contra a mobilização dos soldados de Thiers em Versailles.

Lissagaray aponta, logo à primeira página, para a divisão insuperável entre a esquerda radical e a esquerda parlamentar (a esquerda parlamentar já aliada, de fato, a Thiers). A desunião tornar-se-ia afinal pública, entre o Comitê Central e o Conselho Executivo da Comuna; separação provocada, pelo menos em parte, por o Comitê não se decidir a assumir o controle sobre Banco da França.

“Naqueles cofres (...) há 4,6 milhões de francos” – Lissagaray lamenta – “mas as chaves estão em Versailles; e, dada a tendência do movimento para conciliar-se com os prefeitos [delegados Varlin e Jourde, do Comitê Central da Comuna], ninguém se atreve a arrombar os ferrolhos e fechaduras”.

Essa decisão tornou-se a mais amplamente criticada em todas as histórias que se escreveram depois. Foi bem claramente a decisão, considerada isoladamente, que Lissagaray mais profundamente lamenta. Escreveu que o governo da Comuna optou por “submeter-se ao Banco da França”, opção que potencializou o fracasso mais amplo de só fazer aprovar “legislação insignificante (...), sem plano militar, sem programa (...), deixando-se arrastar em discussões em que nada se decide e a partir das quais nada se faz”.

O caos assim gerado – que se percebe no tom de absoluta urgência que há no texto de Lissagaray e, até, na dificuldade que o leitor encontrará, ainda hoje, para compreender e acompanhar as rápidas modificações na estrutura da Comuna – levou à ditadura.

Em pouco tempo, um novo Comitê de Segurança Pública sobrepujou o Conselho, que cometeu o erro de não admitir que o povo participasse de suas reuniões, o que gerou a imagem de que seria paranoico e antidemocrático; e assumiu a responsabilidade pela defesa de Paris.

Daí em diante, a Comuna ficou à mercê dos líderes militares, cuja negligência e insuficiente competência tática – sobretudo ao instalar barricadas, já tornadas inúteis depois que o Barão Haussmann reformara Paris nos anos 1860s – a condenaram à derrota.

A retaliação foi violenta: 3.000 parisienses mortos ou feridos nas batalhas de maio de 1871; e Lissagaray estima que cerca de 20 mil morreram até meados de junho – três mil a mais do que admitidos pela justiça militar do governo. Muitos mais foram presos, na França e nas colônias; só foram anistiados em julho de 1880.

Guy Debord
Os Situacionistas Guy Debord, Attila Kotányi e Raoul Vaneigem, em suas Teses sobre a Comuna de Paris  publicadas em março de 1962, procuraram separar a experiência da Comuna, de tentativas anteriores, para inferir dela uma teoria de como poderia funcionar uma ditadura do proletariado.

Escreveram que “A Comuna de Paris foi vencida menos pela força das armas que pela força do hábito. O exemplo prático mais escandaloso foi a recusa em recorrer ao canhão para tomar o Banco de França, quando o dinheiro fazia tanta falta. Enquanto durou o poder da Comuna, a banca permaneceu como um enclave em Paris, defendida por algumas espingardas e pelo mito da propriedade e do roubo. Os restantes hábitos ideológicos foram desastrosos sob todos os pontos de vista (a ressurreição do jacobinismo, a estratégia derrotista das barricadas em memória de 48, etc.)” (Tese n. 8).

Escreveram que “Há que retomar o estudo do movimento operário clássico de uma forma desenfeudada e em primeiro lugar desenfeudada das diversas classes de herdeiros políticos ou pseudo-teóricos, pois não possuem mais que a herança do seu fracasso. Os êxitos aparentes deste movimento são os seus fracassos fundamentais (o reformismo ou a instalação no poder de uma burocracia estatal) e os seus fracassos (a Comuna ou a revolta das Astúrias) são até agora os seus êxitos abertos, para nós e para o futuro”. (Tese 1).

Talvez cada geração, posta ante diferentes crises do capitalismo, que as gerações anteriores não conheceram, identifique diferentes lições na Comuna (...) 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Chomsky: Inesperadamente moderado


Resenha de Occupy de Noam Chomsky (NY: Penguin, 2012, 128 p.)

9/5/2012, George Eaton, New Statesman, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Em outubro de 2011, no ponto mais alto a que a água subiu no movimento Occupy, Bill Gross, Republicano, administrador do maior fundo de investimento do mundo, PIMCO, tuitou:

“Os 99% fazendo luta de classe? Claro, estão reagindo, depois de 30 anos que passaram sob intenso tiroteio”.

George Eaton
O mais recente livro de Noam Chomsky inicia com a declaração de que Occupy é “a primeira resposta pública forte a 30 anos de luta de classe”. É boa medida de avaliação do sucesso do movimento, que o administrador de fundo de investimentos e o intelectual de esquerda o definam por palavras e critério idênticos, mas não chega a surpreender. O slogan de Occupy – “O 1% versus os 99%” – merece a rara honraria de ser reconhecido pela verdade empírica.

Nos últimos 30 anos, os EUA conheceram uma das maiores transferências de renda e riqueza, dos pobres para os ricos, da história moderna. Em 1980, membros dos infames “1%” embolsaram 10% da renda nacional. Hoje, embolsam 25%. Em 2010, 93% dos $288 bilhões que os EUA cresceram foram diretamente para o 1%. A “Grande Compressão” dos anos 1940s deram lugar ao que o colunista Paul Krugman do New York Times chama de “a grande divergência”. O mais espantoso sobre Occupy, portanto, é que tenha demorado tanto a nascer.

Noam Chomsky
O panfleto de Chomsky (dedicado às “6.705 pessoas presas, até agora, por apoiar Occupy”) reúne a fala de Chomsky à ocupação de Boston, onde os manifestantes plantaram 150 barracas no distrito financeiro; uma entrevista a Edward Radzi Vilovskiy, aluno da New York University; uma “InterOccupy teleconference”; uma sessão de perguntas e respostas sobre “ocupar a política exterior”; e o tributo do autor ao falecido historiador Howard Zinn.

Chomsky jamais teve grandes dotes de oratória, e os que esperavam rompantes de retórica à Shelley ficarão desapontados. De fato, se comparado aos ofegantes comentários que Occupy desencadeou, o que mais chama atenção no Occupy de Chomsky é a moderação.

A um manifestante que lhe perguntou: “Deveríamos estar trabalhando declaradamente pela revolução, ou o melhor é nos aproximarmos dela por outras vias?”, Chomsky respondeu: “Antes de qualquer outra coisa: ainda nem nos aproximamos do muito que se pode obter pela via das reformas.” Para evidente surpresa dos muitos reunidos em Boston, na Praça Dewey, Chomsky manifestou nostalgia do período do pós-guerra e saudou o crescimento “igualitário” dos anos 1950s e 1960s. Citou a legislação do New Deal dos anos 1930s como exemplo dos ganhos que se podem obter daquele “ativismo popular de larga escala”. Esse autodescrito anarquista fala, mais, como um social-democrata. Convidado a apoiar uma greve geral, Chomsky oferece a resposta cautelosa, provisória, que se poderia esperar de um ministro trabalhista de um shadow cabinet: “Pode-se pensar nisso como ideia possível, quando a população esteja pronta para ela.”

Noutro ponto, não mostra qualquer simpatia pelos que fazem eco ao que Norman Mailer disse, sobre o clima político nos EUA ser “pré-fascista” e observa que “há cerca de um século (...) as classes dominantes perceberam que já não conseguem controlar a população pela força”. 

Marcha do Movimento Occupy Wall Street em New York. Noam Chomsky dedicou seu livro a todos os manifestantes presos. Foto Emmanuel Dunand
Os que acusam Chomsky de antiamericanismo, também se surpreenderão com sua certeza de que “nos EUA, podemos fazer quase qualquer coisa que queiramos fazer. Não somos como o Egito, onde você será assassinado pelas forças de segurança”. Ao mesmo tempo, quando teorias e paranoias conspiratórias florescem no campo da esquerda, há algo de entusiasmante na apaixonada sanidade de Chomsky. Por mais que, às vezes, seja irritantemente banal (“Gosto de Gramsci. É importante”), mais vezes consegue realizar o prodígio orwelliano de “ver o que está diante do nariz de todos”.

As virtudes do “dizer a verdade ao poder”, disse ele uma vez, são virtudes muito frequentemente superestimadas, porque o poder já conhece a verdade. Muito mais importante e necessário seria dizer a verdade à opinião pública que, essa, ignora a verdade. Quanto a isso, Chomsky saúda acertadamente o movimento Occupy como oportunidade de conscientização. 

Pesquisa realizada pela Pew Foundation mostra que 66% dos eleitores nos EUA acreditam que há conflitos “muito fortes” ou “fortes” entre ricos e pobres nos EUA – aumento de 19% em relação a 2009. Chomsky considera essa transformação como lei, ao mesmo tempo, macro e micro. 

A “Lei Buffett” recentemente proposta pelo presidente Obama, que introduziria um imposto federal mínimo de 30% a ser pago por todos que tenham ganhos superiores a $1milhão/ano, pode ter sido sabotada pelos senadores Republicanos, mas é apoiada por 72% do público norte-americano. As reformas a favor das quais Chomsky advoga – financiamento público de campanhas eleitorais, emenda constitucional para abolir direitos da personalidade jurídica, sistema tributário progressivo – já não são meros itens de discussão entre esquerdistas. 

Mas a ampla simpatia que Occupy tem merecido de tantos é, simultaneamente, uma bênção e uma maldição. Como Nicholas Lemann escreveu recentemente na revista New Yorker, “99% é categoria ampla demais para ser efetiva força política”. [1] O livro da vida dos EUA, mais provavelmente, continuará sem marcação especial, até que brote uma coalizão de interesses menos disparatados. Nesse sentido, por hora, tudo parece aconselhar que se abrace o pessimismo radical de Chomsky.



Nota dos tradutores
[1] 23/4/2012, Nicholas Lemann, “Evening the Odds”, The New Yorker.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barack Obama: “O presidente que se rende”

Mehdi Hasan

1/8/2011, Mehdi Hasan, The New Statesman, UK  
Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

O “acordo” de Obama não é acordo: é capitulação. E havia alternativas.

“Conseguimos 98% do que queríamos” – disse o Republicano John “o lado escuro da força” Boehner, presidente da Câmara de Deputados, sobre o acordo da dívida firmado entre Obama e os Democratas e Republicanos do Congresso.

No resumo feito pela BBC [1], o acordo inclui:

* Cortes de 900 bilhões nos gastos do governo, divididos entre gastos da Defesa e outros gastos;

* Criação de um “supercomitê” bipartidário no Congresso, para recomendar outros 1,5 trilhões de dólares de gastos a serem cortados ao longo de 10 anos, contados a partir de novembro; e

* Cortes em áreas chaves, entre as quais, defesa e educação, a serem implantados automaticamente, se o supercomitê não conseguir construir acordo.

Barack Obama
É difícil não concordar com Boehner. Obama começou por pedir aumento “limpo” no teto de $14,2 trilhões para o endividamento; depois, passou a pedir que houvesse cortes correspondentes nos impostos e nos gastos. Nada conseguiu. Sequer conseguiu que os doidos do Tea Party aceitassem abolir a isenção de impostos sobre jatos privados! [2]

O déficit no orçamento dos EUA será pago pelos mais pobres. Eis o que se lia na página Hedgefund.net [3]:

“Administradores e gerentes de empresas de hedge e derivativos, como muitos outros no mundo dos investimentos, respiraram aliviados quando o presidente Barack Obama anunciou no domingo à noite, um acordo provisório para elevar o teto do endividamento dos EUA”.

Os defensores de Obama reagiram contra críticas ao presidente, perguntando sem parar “e que alternativa havia?” “Qual seria a SUA alternativa?”

Ora, ora... Para início de conversa, como diria Jack o Estripador, “Eu não teria começado por aí.”

Paul Krugman dá alguns detalhes [4]:

“O presidente, dessa vez, tinha alternativas? Sim.
Primeiro, podia e devia ter exigido o aumento no teto de endividamento em dezembro. Perguntado sobre por que não o fez, respondeu que tinha certeza de que os Republicanos agiriam responsavelmente. Grande ideia!
E mesmo depois, o governo Obama poderia ter recorrido à manobra legal de desconsiderar o teto de endividamento, usando qualquer de várias opções. Em circunstâncias ordinárias, teria sido passo extremo. Mas ante a realidade do que já estava acontecendo, a saber: a declarada chantagem, praticada por um partido que, afinal de contas, só controla a Câmara e não controla o Senado, teria sido perfeitamente justificável.
No mínimo, o presidente Obama poderia recorrer a qualquer de várias manobras legais para fortalecer sua posição. Fez? Não. Desde o início o presidente descartou todas essas possibilidades.”

Como escreveu Robert Reich [5], professor e ex-secretário do Trabalho dos EUA (governo Bill Clinton):

“Mas outra parte da resposta está com o presidente – e sua incapacidade para, ou nenhuma vontade de, usar a tribuna para informar os norte-americanos sobre a verdade e mobilizá-los para fazer o que tem de ser feito.

Barack Obama é dos homens mais eloquentes e mais inteligentes que jamais habitou a Casa Branca, o que torna ainda mais intrigante e frustrante para nós o seu fracasso, ao escolher não contar aos eleitores a história de nossa geração. Muitos dos que votamos nele em 2008 (inclusive eu) fomos seduzidos pelo poder de suas palavras e de sua visão de América – seu discurso na convenção dos Democratas em 2004, sua autobiografia e, depois, seu livro de política, o que disse sobre racismo e outros temas decisivos durante a campanha.

Todos nos entusiasmamos à perspectiva de um presidente educador – um “educador-em-chefe” que usaria a tribuna para explicar o que aconteceu nos EUA nas últimas décadas, para onde temos de andar e por quê.

Mas o homem que ocupa o Salão Oval desde janeiro de 2009 é alguém completamente diferente – é homem que parece navegar sem bússola, não se entende para onde; tático que um dia anda numa direção, dia seguinte volta atrás, um dia para a esquerda, dia seguinte para a direita, fazedor de ‘acertos’ dentro dos círculos do poder, que jamais explica seus compromissos à rua nem, jamais, fala de seus objetivos maiores.

No discurso de posse, Obama alertou que “a nação não prosperará enquanto só favorecer os prósperos”. Privadamente, diz entender que a crescente concentração de renda e riqueza no ponto mais alto da pirâmide roubou da classe média o poder de compra de que precisaria para manter ativa a economia. E que isso distorceu a política norte-americana.

Sabe perfeitamente bem que a Grande Recessão fez desaparecer $7,8 trilhões no valor das moradias, esmagou os ovos no ninho,  eliminando a poupança que permitiria que a classe média continuasse a consumir apesar da queda real no valor dos salários. – E que a quebra no consumo é diretamente responsável pela anêmica ‘recuperação’ que se vê.

Mas, em vez de explicar isso ao povo norte-americano, Obama une-se à ala mais reacionária dos Republicanos para oferecer ao povo uma farsa, uma falsa redução do déficit público, e envolve-se numa patética encenação de penas arrepiadas com os Republicanos... deixando crescer o suspense e a angústia nacional, sobre se o teto do endividamento seria ou não aumentado.

Obama sequer se deu o cuidado de explicar aos cidadãos por que a redução do déficit, de repente, se converteu em prioridade econômica de seu governo. Aos cidadãos, só restou concluir que os Republicanos devem ter razão... e que reduzir o déficit poderá (só deus sabe como!) reviver o crescimento da economia e criar empregos.”

E então surge Bill Clinton [6], Bubba em pessoa, hoje cedo, para dizer o que teria feito se ainda estivesse na Casa Branca:

“O ex-presidente Bill Clinton diz que, fosse ele, teria invocado a chamada opção constitucional para elevar o teto do endividamento “sem hesitar; e teria obrigado as cortes a me processarem”, para impedir o calote, no caso de Congresso e Presidente não chegarem a algum acordo antes do prazo final de 2 de agosto”.

Mas Obama fugiu de usar a 14ª Emenda [7]. Talvez, como Reich sugere, porque:

“Obama simplesmente não tem coragem de contar a verdade. Quer ser visto mais como adulto responsável, do que como resistente. Por isso acaba sempre se deixando prender nas situações – a mais recente, o imbróglio do teto de endividamento – às quais teria de responder. E nunca é o líder que modela as situações, desde o primeiro passo.
Obama não consegue mobilizar os EUA, em outras palavras, porque sempre tenta adaptar-se à ideia dominante. Isso não é presidir.” 



Referências

segunda-feira, 11 de abril de 2011

WikiLeaks: Julian Assange, 9/4/2011: Debate no Frontline Club

10/4/2011, New Statesman, Londres, UK
Ouve-se o debate gravado (em inglês)
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

 
 
Parte I

Houve algumas risadas. Houve algumas provocações vindas da plateia. Havia um homem soprando um apito [1]

No sábado, 9/4, o debate promovido por New Statesman/Frontline em Londres, ofereceu a 900 pessoas – inclusive legiões de fotógrafos e equipes de televisão – a chance de ouvir Julian Assange e outros, que falaram sobre o tema: “Essa casa acredita que os vazadores [de material sigiloso] fazem do mundo lugar mais seguro”. 

Assange, alto e magro, num termo azul escuro, chegou ao palco numa névoa de flashes de câmeras fotográficas, lembrando ao público que a fascinação que cerca essa figura complexa continua viva e forte. Sentou-se entre dois promotores do evento, Clayton Swisher da unidade Transparência da rede Al Jazeera, e Mehdi Hasan da revista New Statesman.

Do lado direito sentaram os adversários: Sir David Richmond, ex-diretor do setor de defesa e inteligência do British Foreign and Commonwealth Office; Bob Ayers, ex-diretor do Department of Defence Information Systems Security Programme dos EUA; e o autor e comentarista Douglas Murray. (Da plateia, alguém gritou: “Onde estão as mulheres?”).

O editor de New Statesman Jason Cowley abriu o debate e fixou as regras: cada um teria sete minutos para falar, tempo durante o qual a oposição poderia pedir informações pontuais. Algumas mãos se ergueram na plateia, decidindo-se assim que a oposição não poderia falar muito.

Swisher foi o primeiro a falar. Falou sem erguer a voz, sobre “uma cultura de conluio entre a mídia dominante e o governo”, a qual, disse ele, compromete a função da imprensa, de fiscalizar o poder. Disse que os governos aperfeiçoaram a arte dos discursos anônimos – com vazamentos que convenham ao poder – e lembrou o auditório dos “altos funcionários” sempre prontos a revelar aos jornais “as provas” de que Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, nos dias que antecederam a invasão do Iraque.

É vital que os jornalistas façam a mediação de informação vazada, disse ele. Nesse ponto, Samira Shackle lembrou que ele escrevera, no blog de New Stateman(NS), que “É preciso discutir a ética do que se noticia (p. ex., nomes de agentes do MI6). De nada adianta oferecer um dilúvio de dados, sem contextualizar e dizer porque são importantes”. 

Swisher recebeu aplausos fortes, quando ofereceu uma explicação para a difícil relação entre Assange e a imprensa: “A imprensa odeia Assange, porque ele tem os furos com que toda a imprensa sonha” – disse Swisher.

Depois, falou Sir David Richmond, que começou com: “Vazar informação é justificável – mas nem todos que vazam podem ser classificados como vazadores socialmente úteis. A segurança e a defesa do estado dependem de sigilo”, disse ele. “Liberdade de informação não significa informação liberada para todos.” @saradotdub escreveu, pelo Twitter: “Nesse debate, os dois lados aceitam que tem de haver alguém que decide o que o público ‘pode’ saber: ou os vazadores ou os governos”. 

Richmond acrescentou que as agências de inteligências não podem operar, se seus métodos são divulgados. O que fez Mehdi Hasan saltar na cadeira, para pedir informação pontual. Perguntou como se justificaria que as agências grampeiem a ONU (revelação dos telegramas diplomáticos publicados por WikiLeaks), e que se achem no direito de saber até o total de milhas que os diplomatas voam? Richmond respondeu que o Departamento de Estado dos EUA fez “papel de idiota” nesse episódio. Concluiu sua fala com as seguintes palavras: “Se não há o equilíbrio necessário, vazar informação sigilosa não é a via democrática”.

Foi convincente. Como escreveu @psmith pelo Twitter: “[Richmond] acerta num ponto: o parlamento, o judiciário e a imprensa têm de ser mais democráticos, para que a sociedade dependa menos dos vazamentos.” 

Richmond sentou-se e Julian Assange levantou-se. Apoiou-se na pequena bancada – como sempre faz, segundo especialistas em Assange – e listou várias guerras, perguntando ao público se aquelas guerras poderiam ter sido evitadas, se a necessária informação tivesse sido vazada a tempo. (Áudio em: Assange says information can prevents wars, blood shed, enviado por alguém presente no auditório, em inglês). Os flashes continuaram espocando, e Julian falando: “Como se pode saber se o processo sigiloso está funcionando como se espera que funcione? O sigilo é uma ilusão lógica: só quem conhece a informação pode saber se ela precisaria ser mantida secreta”.

Num inteligente movimento de discurso, falou em seguida do “pecado original da censura”. Um vazador poderia ter evitado a Guerra do Vietnã? Se David Kelly não tivesse falado exclusivamente a Andrew Gilligan [2] , e tivesse contado a todos o que sabia, “o dossiê maldito” não poderia ter sido divulgado a tempo de evitar a guerra do Iraque? Em seguida, disse que os vazamentos impediram ataque dos EUA ao Irã, em 2007. (Vídeo em: Do whistleblowers make the world safer?).

Assange encerrou sua fala defendendo a necessidade de vazamentos anônimos – razão pela qual criou WikiLeaks. Embora só uns poucos vazadores estejam presos, disse ele, praticamente todos perdem o emprego. “Quando os vazadores falam sob anonimato, podem orgulhar-se de estar mudando a história e de poder continuar a fazer seu trabalho”. 

Falou do calvário pelo qual passa hoje Bradley Manning, repetindo duas vezes o mantra “suposto” (Assange jamais confirmou que Manning seja uma de suas fontes e garante que a página WikiLeaks foi construída de modo a impedir completamente que se conheça a fonte do material vazado). 

Por fim, disse que os telegramas tiveram efeitos dos quais os britânicos não ouvem falar. – Por efeito do “Cablegate”, disse ele, há hoje amplo movimento anticorrupção na Índia. Não pode haver dúvidas de que os vazadores de material sigiloso tornaram o mundo mais seguro, concluiu.

Parte II

Errou quem supôs que, depois da fala de Assange, o interesse cairia. O debate esquentou muito, à medida em que a noite avançava.

Bob Ayers, que falou imediatamente depois de Assange, retomou a cronologia do incidente no Golfo de Tonkin [3] que Assange comentara, o que fez Assange levantar-se para apresentar esclarecimento. 

Ayers não queria desistir. Replicou que não interrompera, quando Assange falava, e que esperava “a mesma cortesia”. Assange insistiu em falar e Ayers berrou “Sente-se!”. Foi vaiado. Ouviu vaias também quando disse que se podem usar outras palavras para designar gente que vaza informação secreta – “rato”, “cobra”, “alcaguete” e “traidor”. 

Clayton Swisher de Al Jazeera tentou acrescentar informação – e conseguiu. Disse a Ayers que também já trabalhara em organização do governo, na qual se usava a expressão “alcaguete”, exclusivamente para informantes nas gangues de traficantes e outros criminosos. “O governo sempre cuidou bem dos alcaguetes que o interessam.” 

Ayers aceitou e prosseguiu sua fala. O xis da questão, para ele, era que os que detêm informação sensível fazem um juramento de confidencialidade, que não pode ser quebrado.

Nesse ponto, foram convidados a falar dois vazadores – Annie Machon, ex-agente secreta do MI5 e parceira de David Shayler; e Paul Moore, que escreveu memorando interno sobre o alto nível de endividamento do Banco HBoS para o qual trabalhava, e foi demitido [4].

Machon falou primeiro, firme e direta. Disse a Ayers que jamais fizera qualquer “juramento de confidencialidade” e que fora obrigada a falar publicamente, porque não havia canais internos pelos quais fosse possível expor os erros e vícios de que tinha conhecimento. “O Quarto Estado [5] é muito facilmente controlado pelo governo e pelas agências de inteligência”, disse. E acrescentou: “Precisamos garantir aos vazadores algum tipo de proteção legal”. 

Douglas Murray pediu para voltar ao assunto e não mostrou qualquer preocupação com levar o debate para o nível pessoal; falou sobre Machon ter “negado o 11/9” e disse que ela só tinha acesso ao “baixo nível”, no MI5. Disse a ela: “Trabalhar para o serviço secreto significa que você é obrigado a guardar segredos”. 

Machon não se abalou. E foi entusiasticamente aplaudida, quando respondeu “Assinamos o Compromisso de Confidencialidade para proteger segredos, não para acobertar crimes”. E completou: “Sei mais do que quem jamais, nunca, operou pelo lado de dentro”. 

Em seguida, falou Paul Moore. Começou citando Eisenhower – “Jamais confunda discordância honesta e subversão desleal” – e fez relato apaixonado (em alguns momentos, doloroso de ouvir) do custo pessoal que paga quem decida revelar segredos. Lamentou que os vazadores se mantivessem na defensiva, sem propostas. Tirou do bolso seu próprio apito e apitou, em sinal de protesto.

Moore falou em defesa da transparência, indispensável para construir um mundo melhor, mas o que fez custou-lhe o emprego e a carreira, além de períodos de depressão grave. Disse que os vazadores são tratados como “leprosos”, como “lixo tóxico”. Mas que, se mais gente que sabia o que estava acontecendo, tivesse falado, a tempo, sobre o que os bancos estavam fazendo, a vida de muitos cidadãos seria melhor do que é hoje.

Antes de voltar ao seu lugar, Moore leu o cartão de aniversário que recebeu da filha, no auge da tempestade sobre suas revelações. No cartão, sua filha dizia que Morre é boa pessoa, que continuasse a fazer o que estava fazendo. Todos se emocionaram.

Nesse ponto, Jason Cowley resolveu ler algumas das perguntas enviadas por internet, por leitores de New Statesman que acompanhavam o debate. A primeira, dirigida a Julian Assange. Cowley perguntou-lhe se não o preocupava a acusação, feita contra WikiLeaks, de provocar “dano colateral”; os possíveis riscos que se criariam para informantes no Afeganistão, por exemplo.

Assange respondeu que “WikiLeaks nada fez de errado”. A acusação de não ter revisado suficientemente os documentos publicados não passou de “reação do Pentágono”. Dirigindo-se ao público conectado por internet, sugeriu que o pessoal escrevesse “Pentagon” + “blood on its hands” [Pentágono e sangue nas mãos] no buscador Google, e, em seguida, “WikiLeaks” + “blood on its hands” e comparasse os números. Samira Shackle respondeu pelo Twitter: “Assange parece pensar que números do Google comprovam culpa”. 

Consultado sobre se queria comentar, Murray disse que preferia “deixar a pólvora secar”. E decidiu-se que o último a falar, nessa rodada, seria Mehdi Hasan.

Como já sabem todos que o vejam em “Question Time”, Hasan não pode ser acusado de não saber discutir. “Tecnicamente, foi o melhor orador da noite”, no veredito do jornalista Patrick Smith (há áudio de boa qualidade, em inglês, em Áudio: Frontline Club/New Statesman whistleblowing debate – Can we trust fhe leakers?). “Foi a verdadeira estrela desse debate”, disse Nasri Atallah.

“Já participei de incontáveis debates sobre caça à raposa e nunca antes se deu voz à raposa” – disse Hassan, sobre as queixas de Paul Moore. E continuou: “Não quero falar sobre Julian. Vou falar de um homem chamado Joe Darby [6], formado no ginásio de uma cidadezinha da Pennsylvania, que se alistou no exército dos EUA com 19 anos e aos 24 foi mandado para o Iraque.” 

Em 2004, Darby recebeu dois CDs com imagens de abusos contra prisioneiros na prisão norte-americana de Abu Ghraib no Iraque. “No jargão dos militares, dedurou os amigos”, disse Hasan. Contou que Darby ficou marcado, que teme pela própria vida, que dorme com uma pistola sob o travesseiro, que muda frequentemente de endereço e que deixou o Exército.

A essência dos vazamentos é essa – disse Hasan. – Divulgação de segredos, por princípios, em nome do bem comum. Até que os governos sejam perfeitos, os vazadores são indispensáveis. Há diferença entre espiões profissionais, que juram guardar segredos, e soldados comuns que descobrem crimes. E terminou com uma pergunta dirigida a Bob Ayers: “Estou aqui hoje para defender os homens que foram torturados e para defender os vazadores que reagiram contra aqueles crimes. O que você defende?” (Vê-se um vídeo não muito bom, em: Mehdi Hasan debates with Julian Assange. Estamos preparando vídeos de melhor qualidade, que serão divulgados em breve.)

Encerrando a rodada de intervenções, falou Douglas Murray, que se autodescreveu como neoconservador e a nêmese de Mehdi Hasan (os dois frequentemente discutem em público, sobre vários temas, entre os quais o islã e o multiculturalismo). Esperto, Murray percebeu que não teria como revidar o discurso empenhado-apaixonado de Hasan, e começou em tom suave: “Concordo com Mehdi”, começou. “É perfeita verdade que a democracia pode ser desonesta e corrupta. É sistema cheio de defeitos. Como disse Churchill, é o pior sistema que há – exceto todos os outros.” 

Daí em diante, a fala de Murray cresceu em intensidade. Repetiu várias vezes a mesma pergunta, dirigida a Assange “Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?” Assange mexeu-se no banco, para responder, e Murray continuou: “Você sabe o que está fazendo, quando insere um elemento de caos no Oriente Médio, região que não precisa de mais e mais teorias conspiratórias?” Disse que a democracia tem meios de controle e equilibração, e há eleições (numa das quais os eleitores derrotaram o governo que fizera guerra contra o Iraque, disse ele.)

Disse que os vazadores têm poder excessivo, e que seus atos geram consequências que os vazadores não podem prever. Falou sobre informações vazadas por Annie Machon, de que o serviço secreto inglês estaria considerando a possibilidade de um atentado para matar o coronel Gaddafi, perguntou: “Parece-lhe boa ideia avisar o coronel Gaddafi sobre esses planos?”.

Para Assange, foi demais. Começou a falar. Murray interrompeu-o. Disse que tinha várias perguntas também para ele, e que, no final, poderia responder. Houve um começo de confusão, mas Jason Cowley conseguiu convencer Assange a esperar. Disse que depois lhe daria a palavra.

Murray continuou. Perguntou se Assange algum dia preocupou-se com o que as agências secretas estrangeiras, hostis aos EUA, poderiam fazer com os telegramas. Disse que a Al Jazeera, por exemplo, “implacavelmente hostil ao estado de Israel” não surpreenderia se divulgasse telegramas para mostrar Israel como o vilão, mas... – nesse ponto, quem pulou do banco foi Swisher (que trabalha para a rede Al Jazeera).

Murray tampouco o deixou falar. E disse que, afinal, Swisher trabalhava no Qatar, “não exatamente o que se pode chamar de governo aberto, democrático”. Daí em diante, Murray só atacou. Pelo Twitter e nos blogs, muitos o descreviam como “cão de ataque”.

“O que acontece com os vazadores?” – Murray perguntou. “Se o Sr. Assange defende alguma coisa, é a boa vida, muito dinheiro, legiões de admiradores...” 

Mehdi Hasan foi o terceiro a tentar levantar uma questão de ordem. Foi calado. Parecia debate de escola. Murray não parava de falar. Fez perguntas a Assange: por que WikiLeaks não divulgou segredos da Rússia? Talvez, “porque a polícia secreta russa assassina jornalistas?” 

Assange levantou-se, e, afinal, conseguiu falar. Disse que amigos seus foram assassinados. Que Murray “por favor”, se informasse melhor, antes de fazer comentários daquele tipo. Murray passou a repetir argumentos do jornal Guardian, segundo os quais “não se preocupa com a vida de informantes no Afeganistão, que foram identificados depois da publicação do dossiê sobre a guerra”.

Assange reagiu: “Questão de ordem! Estamos processando o jornal Guardian...” Houve algum bate boca sobre processos judiciais – Assange disse que fazia campanha por reformas, que todos deveriam ter direito de recorrer quando são vítimas de calúnias. -- Murray esbravejou: “Acho que se pode concluir que o Sr. Assange entende que a lei só é boa quando o favorece”.

Jason Cowley decidiu que não haveria mais questões de ordem; que Murray concluiria sua fala sem interrupções. E foram várias perguntas: de onde WikiLeaks arranja dinheiro? Quem são seus empregados? Que laços tem com Israel Shamir, negador do Holocausto? Que direito tem de decidir o que o público deve saber? “Os governos são eleitos”, declarou. “O senhor, Sr. Assange, não foi eleito. Quem protege quem ataca os guardiões? Ou, nesse caso, quem protege quem ataca os guardiões do Guardian?” 

Em seguida, dirigiu-se pessoalmente a Assange. Falou do telefonema para Ian Hislop de Private Eye (sobre o caso leia, Assange goes off deep end – blaming Jews and Guardian in Private Eye). Disse que Assange perdeu-se nos “febris pântanos da conspiração”. 

Assange ganhou tempo para responder. “Mr. Murray nada tem a acrescentar ao debate dessa noite. Por isso, como tantos do mesmo tipo, recorre a ataques pessoais e contra minha organização. São ataques infundados, opiniões.” – Disse que gostaria de responder a “mais interessante” das perguntas de Murray, sobre de onde vem o dinheiro que sustenta WikiLeaks. “Vem de contribuições de cidadãos. São cidadãos que “todas as semanas votaram, com as carteiras, para nos manter vivos com suas doações”. 

“Essa dinâmica de realimentação, entre nós, os vazadores, e o público, digo eu, é muito mais responsável e efetiva que a estrutura dos governos eleitos, financiados por grandes corporações, a cada quatro anos”, concluiu. (Esther Addley, do Guardian, usou essa fala de Assange na introdução da matéria sobre o debate, em: Julian Assange claims WikiLeaks is more accountable than governments ) Murray queria mais. Perguntou se Assange confirmaria, se WikiLeaks recebeu dinheiro de outras fontes.

“Vocês se acham melhores que nossos governos”, disse a Assange. “É porque eles são!” gritou alguém da platéia. Para Murray foi como a confirmação de que os Assangistas são mais cegamente devotados ao homem que à ideia.

Nesse ponto, um assessor de Assange subiu ao palco e o arrastou para o carro, por causa do horário, que o obrigava a voltar imediatamente para Norfolk, conforme as condições de sua prisão domiciliar. O discurso agressivo espalhafatoso de Murray pareceu ter conseguido arrastar parte do auditório para o seu lado.

E assim Assange partiu, perseguido por fotógrafos e câmeras de tevê (uma foto, em: YFrog). E mergulhou na noite. 

Agradecemos a Patrick Smith, cujas gravações foram inestimáveis. Podem-se ouvi-las (em inglês) em: Áudio: Frontline Club/New Statesman whistleblowing debate – Can we trust fhe leakers?  Para ler os tuítes, use a hashtag #fcnsdebate. Para ler os postados de comentários a essa matéria (em inglês), clique em: This house believes whistleblowers make the world a safer place: Part II. Em breve, divulgaremos vídeos integrais do debate.




Notas de tradução

[1] Orig. “There was a man blowing an actual whistle”. Referência à palavra (ing.) whistleblower, literalmente “os que tocam o apito”. Em inglês, a palavra designa “aquele que informa, alerta, chama atenção, sobre malfeitos ou atos de corrupção”. Aqui, se traduz “whistleblower” por “vazador”, à falta de melhor palavra (e de vazadores mais eficientes no Brasil), por enquanto.
[2] Em fevereiro de 2003. Relato secreto dos encontros entre jornalista e ‘fonte’, em que o informante afirma que não há armas de destruição em massa no Iraque, foi posteriormente publicado pelo jornal Guardian (em Notes of a meeting on David Kelly’s meeting with Andrew Gilligan – 7 July ).
[3] 1964. Sobre o incidente, sobre o qual em 2005 revelaram-se documentos até então sigilosos, com história completamente diferente da versão divulgada em 1964, ver: Gulf of Tonkin incident .
[4] Há matéria sobre isso, de 2009, em The Telegraph (em inglês), em: HBOS whistleblower Paul Moore breaks silence to condemn Crosby.
[5] Orig. Fourth Estate designa força societal ou política, cuja influência não é oficialmente reconhecida. Nos países de língua inglesa designa a imprensa escrita. Mais, sobre o conceito (em inglês), em Fourth Estate .
[6] Há matéria sobre o caso, da BBC, em: Abu Ghraib whistleblower’s ordeal. Nesse caso, a identidade do vazador foi divulgada pela imprensa, por Donald Rumsfeld.