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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Merkel irracional?


Para prolongar a própria sobrevivência política,
elites alemãs podem deixar desabar o euro


30/4/2015, [*] Catarina Príncipe, Jacobin Magazine
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras e Angela Merkel (março-2015)
Depois do acordo dentro do Eurogrupo em fevereiro/2015, a posição da Alemanha quanto às condições às quais a Grécia teria de se submeter pareceram relaxar.

As condições iniciais eram basicamente idênticas às acertadas com o governo grego que foi substituído nas urnas pelo governo Tsipras: arrocho nas pensões, privatizações, aumento de impostos sobre artigos de primeira necessidade e desregulação continuada do mercado de trabalho.

Mas, durante as negociações, a Alemanha parecia ter retrocedido nas exigências e aceito um acordo melhor (embora não perfeito) para a Grécia, pelo qual as aposentadorias não seriam reduzidas, o salário mínimo poderia ser aumentado, privatizações seriam reavaliadas e aparentemente não haveria aumento de impostos – ficando outras medidas (como a estrutura do mercado de trabalho) permanecendo sem alteração, consideradas questões de decisão e soberania nacionais.

Mas, agora que junho se aproxima perigosamente (em junho expira o acordo ainda vigente com o Eurogrupo e é preciso definir um novo plano de resgate), a chanceler alemã Angela Merkel mudou repentinamente de atitude [Financial Times, só para assinantes]. Os quatro pilares do acordo com o ex-governo grego terão de ser preservados, e a Alemanha não fará concessões. Esgotou-se o prazo, e acabou o dinheiro.

Sabendo perfeitamente bem que o estado grego está ficando sem dinheiro – e que a dívida, exacerbada pelo arrocho [orig. “austerity”] é impagável – a Alemanha outra vez está forçando o governo grego a escolher entre aceitar a continuação do arrocho ou a bancarrota.

A arquitetura da Eurozona favorece a Alemanha porque a posiciona – primariamente mediante a introdução do euro, que desvalorizou o marco alemão na comparação com todas as demais moedas nacionais – para exportar bens manufaturados baratos para as principais economias periféricas. Considerada sob essa luz, a intransigente posição do governo alemão em relação à Grécia, e a aparente equanimidade em relação a uma possível saída da Grécia (“Grexit”) da Eurozona, com colapso da união monetária como a conhecemos, parece bastante ilógica. Mas será realmente ilógica?

Verdade é que nada há de ilógico, de irracional, na posição da Alemanha. A posição inflexível nesse caso é a única que pode salvar as elites políticas alemãs e levar ao colapso o único governo antiarrocho [anti-“austeridade”] que teve a coragem de tentar alterar os fundamentos sobre os quais foi erigido o projeto europeu.


Desde o início da crise, a posição da Alemanha tem sido de defender o arrocho como única saída possível para a crise. Implica “sacrifícios” para todos na Europa: não só para as populações do sul da Europa que têm bombas liberais explodindo em seus quintais, mas, também para os trabalhadores alemães, que passam hoje por forte desregulação do mercado de trabalho, precarização (“flexibilização”) das relações de trabalho e perda de poder aquisitivo.

O conto ideológico vendido aos trabalhadores alemães dizia que o projeto europeu entraria em colapso se “resgatassem” os europeus do sul, cujo castigo fora autoprovocado com excesso de gastos e baixa produtividade. Mas não demorou e se tornou bem evidente que “austeridade” (é arrocho) não resolve nenhum problema econômico e financeiro – que na verdade os aprofunda muito (a proporção entre dívida e PIB cresceu em todos os países que tentaram o “remédio” do arrocho (que só banqueiros ainda chamam de “austeridade”).

Quando o Syriza chegou ao poder na Grécia, passou a haver, afinal, uma voz dentro das instituições europeias que podia provar o fracasso das políticas de arrocho e eventualmente desafiar a super-neoliberalização da Europa.

Mas para a Alemanha, aceitar as demandas do Syriza seria reconhecer que o arrocho [“austerity”] nunca foi nem poderia ter sido solução, que sempre foi um problema a mais – que a agenda política e econômica da Alemanha sempre estivera errada ao longo dos últimos sete anos, e absolutamente não gerou os resultados que prometera. Mais que isso, seria como reconhecer que os sacrifícios impostos à classe trabalhadora alemã foram de fato em vão, e só serviram para empurrar o poder para ainda mais longe do trabalho e para ainda mais perto do capital.

Implica dizer que as elites alemãs estão dispostas a deixar que o euro desapareça (ou que seja convertido em alguma outra coisa, moeda exclusiva do centro e do norte da Europa, por exemplo), em nome de garantir sobrevida política para aquelas mesmas elites.


Nada há de irracional ou ilógico tampouco no modo como estão jogando o jogo “das culpas”. Se a Alemanha empurrar a Grécia para a bancarrota (que fatalmente acontecerá, mais cedo ou mais tarde), criará um efeito dominó que desestabilizará a economia europeia por algum tempo. A culpa de tudo será então atribuída ao “intransigente” governo grego, que se recusou a negociar e a aceitar a “ajuda” que a Alemanha tanto lhe quis dar.

Além do mais, as tensões políticas estão-se polarizando na Europa. Os anos recentes têm visto o crescimento simultâneo de

(I) partidos e movimentos de extrema direita – Aurora Dourada, na Grécia; Frente Nacional na França; Pegida na Alemanha – e de

(II) formações de esquerda contra as políticas de arrocho.

Aceitar que um governo eleito de esquerda tem razão e que a “austeridade” (é arrocho) jamais foi solução abriria ainda mais espaço político para movimentos de esquerda por toda a Europa. Qualquer passo, por pequeno que seja, que signifique recuo na narrativa pró-“austeridade” enfraqueceria para sempre a posição das elites políticas alemãs que estão hoje no poder. Pode até implicar o sacrifício de tudo que aquelas elites já obtiveram.

É importante considerar, sobretudo, que a Alemanha já vinha expandindo há algum tempo suas parcerias comerciais (provavelmente se preparando para a situação política que agora começa a acontecer na Eurozona), especialmente com a China. Mesmo que a economia alemã venha a sofrer se a Grécia deixar a Zona do Euro e com o fim efetivo da união econômica e monetária, as elites alemãs já construíram as bases para sua recuperação econômica em prazo médio.

Mas há mais uma camada na intransigência do governo alemão: eles sabem que o perigo de entrar em bancarrota e a incapacidade do governo grego de esquerda para cumprir seu programa eleitoral pode derrubar o governo do Syriza, como pode destruir também quaisquer possíveis outras propostas de governos de esquerda em toda a Europa.



Obrigar o governo grego a ultrapassar as linhas vermelhas que ele mesmo impusera nas negociações (que aposentadorias, salários, impostos, privatizações e desregulação do mercado de trabalho seriam inegociáveis), para evitar o colapso econômico, engendrará profundo descontentamento e forte oposição dentro da Grécia e dentro da própria coalizão do partido Syriza. A tática da Alemanha, nesse sentido, é tentar demolir de dentro para fora, uma proposta de governo de esquerda.

Se há saída para todas essas dificuldades, só virá com muita luta popular. Nada, senão muita luta popular, capacitará o Syriza a levar adiante seu programa eleitoral e a pôr fim à crise humanitária que assola a Grécia. Qualquer caminho que o governo grego tome, terá de responder às demandas por dignidade, justiça e melhor democracia em nome das quais o povo grego o elegeu. Em defesa do futuro e dos interesses do povo grego. E em defesa dos interesses de todos nós.
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[*] Catarina Príncipe (29 anos) é estudante universitária; Coordenadora Nacional dos Jovens Estudantes (Bloco de Esquerda – Portugal); Cidadã ativista e “artivista” em várias frentes. Estudou teatro no Porto. Partiu para Lisboa, onde agora estuda Artes e Culturas Comparadas. Estudos de gênero é a sua área de interesse. Sobretudo Artes e deve concluir seus estudos em poucos meses. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Eurogrupo quer Varoufakis fora do ministério: Avanços na trajetória rumo a não pagar

27/4/2015, [*] Yves Smith, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Yanis Varoufakis

COMENTÁRIO AO POSTADO: 
Mario Medjeral – April 27, 2015 at 8:33 am
Sejamos justos com Varoufakis: é economista sério (seus adversários são caixas de banco, no máximo). Qualquer pessoa que conheça seus livros e seu blog compreende que Varoufakis só quer reformar a UE na direção da ideia inicial dos franceses: uma união monetária e fiscal oposta aos EUA, distante do atual formato, que é insustentável (iniciativa americanizada para promover o projeto mercantilista alemão e atar a Europa às cadeias da OTAN).

O ponto é que do lado da UE ninguém ouve (e só poucos, provavelmente, compreendem). É a mesma gente europeia que está provocando a Rússia, uma potência nuclear, para defender um governo corrupto e falido na Ucrânia, porque não têm coragem de dizer NÃO a Washington.

De qualquer modo, se houver GREXIT, entendo que, sim, Varoufakis será o homem certo para administrar a coisa. E acho que Tsipras sabe disso.


Grécia
Caso alguém ainda não tenha percebido que o Eurogrupo espera que a Grécia aja como boa vassala da própria dívida, mais chiliques choveram sobre Yanis Varoufakis na reunião da 6ª-feira passada (24/4/2015), que gerou rajada de artigos nada elogiosos, e culminam agora com o Eurogrupo exigindo que o governo grego demita seu ministro.

Não que haja, aí, qualquer novidade; houve agitação semelhante em fevereiro, quando a hostilidade entre Varoufakis e o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble chegou a tais níveis, que Schauble recusou-se a permanecer na mesma sala com seu contraparte grego. A solução durante as negociações foi isolar Varoufakis, enquanto Christine Lagarde, o Presidente do Eurogrupo, Jeoren Djisselbloem e outros eurocratas top faziam diplomacia de porão, para reformatar a linguagem a ser apresentada diretamente ao Primeiro-Ministro grego Alex Tsipras, excluindo Varoufakis completamente (matérias jornalísticas apresentaram o memorando como fato consumado, com uma delas afirmando que Tsipras ouvira que era pegar ou largar; e outro, que Tsipras não teria tido autorização para alterar sequer uma palavra).

E Varoufakis? Sai ou não sai? A resposta, aqui, seja qual for, deve ser tomada com um punhado de sal, porque os eurocratas parecem crer que Tsipras seria mais dobrável às suas opiniões que Varoufakis. Na verdade, segundo todos os informes, Tsipras permanece no absoluto controle de tudo (apesar das falas descoordenadas de vários ministros; falar e decidir são coisas bem diferentes). Assim sendo, não há qualquer fundamento para que o Eurogrupo escolha uma ou outra cara, porque nem um nem outro dos gregos mudará qualquer coisa do que realmente interessa à Grécia. Seja como for, eis a versão do Financial Times:

Indício de que a abordagem combativa do Sr. Varoufakis está gerando preocupações também na Grécia, alto funcionário do governo em Atenas disse que a reunião em Riga provavelmente porá de lado o ministro, enquanto Tsipras e seu vice Yannis Dragasakis iniciam participação mais direta. (...)

Funcionários da Eurozona e do governo grego acreditam que as diferenças entre Varoufakis e Tsipras estão-se aprofundando e que apelo organizado ao primeiro-ministro pode ainda produzir algum acordo até o final de maio, quando talvez se chegue à conclusão de que é preciso chegar a algum acordo, se qualquer desembolso foi feito antes de que expirem o atual plano de resgate, no final de junho.

Embora haja amplas diferenças entre Atenas e os credores na Eurozona em assuntos de fundo, o atual impasse com Varoufakis tem a ver, principalmente, com questões processuais – disseram aqueles funcionários.

Porque o novo governo prometeu que não recomeçariam as inspeções intrusivas pelos monitores do resgate, antes conhecidos como “a troika”, Varoufakis recusou-se a negociar com negociadores de nível médio em Atenas, e insistiu num acordo político a ser firmado em níveis superiores. Os líderes da Eurozona apertaram a estratégia, insistindo num novo plano de reforma econômica com monitores em Atenas, antes de qualquer discussão sobre dinheiro novo dentro do eurogrupo.”

O Financial Times, depois de criar a impressão de que Varoufakis estaria nas cordas, cita uma fonte grega não identificada, que diz que Varoufakis não será removido (pressupondo que seja removido) antes de que haja acordo sobre o chamado “resgate”.

Varoufakis permanece impassível:

FDR, 1936: “Eles são unânimes no ódio contra mim; bem-vindo ódio” – Citação muito próxima do meu coração (& dos fatos) nesses dias” 6:49 AM - 26 Apr 2015

E artigo em Bloomberg sobre as explosões nas reuniões do Eurogrupo, sugere que Varoufakis continua popular em casa:

Varoufakis tem o apoio da maioria dos gregos, segundo pesquisa de Alco publicada no jornal “Proto Thema”. Cerca de 55% dos respondentes disseram que têm impressão positiva do ministro, contra 36% que disseram ter impressão negativa.

Estaremos realmente diante de algum problema “de processo”? Um dos ditos de Lambert é que quando pessoas em organizações dizem que estão com “um problema de comunicação”, o problema sempre é, de fato, problema de administração & gerência.

Há boas razões para desconfiar que o chamado problema “de processo” é sintoma de descaminho em questões de fundamento. Como vimos desde o início, não há superposição entre as posições de barganha dos dois lados. Se, como já dissemos, o governo grego está em crise de negação sobre a disposição dos credores para conceder sobre reformas estruturais, o reverso disso é que os credores, ou pelo menos o Eurogrupo, parece estar operando a partir de sua própria paranoia de negação obsessiva: se eles conseguirem pôr à mesa as personalidades individuais ‘certas’ e os corretos procedimentos de negociação... então haverá possibilidade de acordo. 

Tsipras, o Eurogrupo e o Syriza

O problema, como já dissemos, é que o governo grego está encaixotado pelos membros de sua coalizão. Ainda que os moderados do partido SYRIZA  quisessem fazer concessões (e Tsipras e Varoufakis são, ambos, moderados), eles estão obrigados a apoiar os membros da esquerda mais rígida do mesmo partido SYRIZA, 1/3 do bloco. E esses não cederão. Antes de ceder, derrubam o governo de Tsipras.

Que ossos estão sendo disputados? Já dissemos que o novo governo repetidas vezes tentou contornar os impedimentos do processo apresentado no memorando do Eurogrupo, e que mandava o governo apresentar lista detalhada de reformas estruturais que, então, seriam examinadas pela Troika, e finalmente pelo Eurogrupo, e, se aprovadas, os fundos de resgate seriam liberados. O lado grego, em vez disso, tentou ir diretamente ao Eurogrupo e obter aprovação para projetos de memorandos; foram à Comissão Europeia e, agora já por duas vezes, à chanceler Merkel. Isso alimentou a queixa dos eurocratas, de que os gregos perderam tempo.

As várias listas de reformas que o governo grego apresentou até agora foram descartadas, como insuficientemente detalhadas. A julgar apenas pelo que disse a mídia-empresa sobre a extensão dos documentos, essa parte parece ser verdade.

Mas isso significará que a solução será deixar que os monitores do resgate continuem a se intrometer cada vez mais? Se os detratores de Varoufakis talvez acertem ao dizer que ele quer negociar coisas demais no nível dos atores políticos chaves, fato é que os dois lados não chegaram a nenhum tipo de acordo nesse mais alto nível. Assim sendo, que sentido faz trabalhar sobre detalhes?

A disputa é sobre reformas estruturais. Ainda que os gregos tenham visto o memorando de fevereiro como tão vago a ponto de deixar muito espaço para negociações, como nos parecia que fosse o caso, e os eventos confirmaram, e isso posto, o velho, odiado pacote de reformas estruturais estava, pelo menos, sobre a mesa. Na visão dos credores, a Grécia tem de discuti-lo, seja como for. O novo governo pode trocar umas reformas por outras, se conseguir convencer os credores de que as novas reformas não terão impacto negativo no orçamento.

Assim sendo, se se acolhe o ponto de vista da Troika/Eurogrupo, nada há, ou só há pouca coisa, a negociar. A Grécia tem de tratar de mostrar como pode fazer melhor serviço de cobrar impostos e reformar seus mercados de trabalho [arrochar os trabalhadores]. É coisa que só se faz no plano técnico, e Varoufakis não se encaixa.

Como Stathis Kouvelakis, membro da coalizão do Partido Syriza, explica na revista Jacobin[“Grécia: o nó aperta”], o que se dizia era que o governo, ou pelo menos sua ala esquerda mais crítica, não moveria um pé da posição sobre reformas estruturais: cortar (“reformar”) aposentadorias, “reformar” mercados de trabalho, aumentar o IVA [imposto sobre valor agregado], e as privatizações. Pois fato é que o governo grego já cedeu nas duas primeiras, já está fazendo avançar a privatização do porto de Pireus e disse que fevereiro que aumentará o IVA.

Como já comentamos, a reforma das aposentadorias é a ponte que nenhum dos lados consegue atravessar. A Grécia tem as aposentadorias mais altas da Eurozona, como porcentagem do PIB. Porém, se se ajusta o cálculo pela idade da população, as pensões que a Grécia paga estão abaixo da média da Eurozona. Mas os ministros do Eurogrupo (e, mais importante, os cidadãos que eles representam) creem no mito muito divulgado pela mídia-empresa de que a Grécia pagaria pensões generosíssimas. Portanto, nem querem nem jamais conseguiriam vender aos seus eleitores qualquer tipo de “ajuda” ao governo grego, se o povo continuar a crer que seus ministros estariam defendendo para os aposentados gregos pensões mais altas do que o governo paga em casa.

O fato de Varoufakis ter buscado diretamente o impasse básico parece ser a causa mais provável de a reunião de 6ª-feira (24/4/2015) ter azedado tanto. De Bloomberg:

Varoufakis descreveu as conversas como “intensas” e disse que seu país está pronto a fazer “grandes concessões” para chegar a um acordo.

“O custo de não haver solução pode ser imenso, não só para nós mas para todos”, disse ele (...).

Em resposta aos ministros reunidos, defendeu proteção às pensões públicas, ponto que continua a emperrar as negociações. Ameaçou deixar a sala, se os creditores forçassem demais a discussão.

Quando Dijsselbloem convidou o grupo a responder, houve silêncio total. Pediu novamente, e Kazimir falou.

A recusa de Varoufakis a aceitar as condições dos credores, irritou especialmente o ministro eslovaco, porque seu governo cortou o déficit no orçamento e atacou a evasão fiscal. A posição do grego pode ter caído em ouvidos surdos também entre os demais convidados em Riga.

A economia da Letônia encolheu mais de 1/5 em 2008 e 2009 quando o país foi governado por Valdis Dombrovskis, agora vice-presidente da Comissão Europeia e participante da reunião da 6ª-feira (24/4/2015). Dombrovskis implantou algumas das medidas mais duras de arrocho [orig. austerity] que o mundo conheceu – com cortes equivalentes a 16% do PIB. A economia grega encolheu cerca de ¼ desde 2008.

Entendamos, pois, o que significa isso:

1. A Grécia, como outros devedores, “deve” “aceitar as condições dos credores”; e

2. Por mais que outros membros do Eurogrupo estejam furiosos por a Grécia não aceitar o programa, muito mais furiosos estão os países que forçaram seus cidadãos a enfiar-se sob o chapéu do arrocho (“austeridade”).

Austeridade=ARROCHO
Por que os ministros do Eurogrupo levam as coisas tão “pessoalmente”? Se a Grécia não pagar nas próximas semanas o que deve ao FMI, como parece provável que aconteça (p. ex., o Financial Times noticia que funcionários da Eurozona estão desafiando a lei nacional no encaminhamento de depósitos orientados para que o governo possa fazer caixa para pagar salários, aposentadorias e dívidas vincendas), deve-se esperar que possuidores de papéis da dívida grega tendam a se desafazer deles. Adiante, uma tabela da situação recente, que não inclui a maior exposição do BCE em 2015, sob a Emergency Liquidity Assistance (ELA):

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Essa é a razão pela qual Varoufakis agiu como se os credores fossem piscar primeiro: os funcionários europeus teriam de dizer aos respectivos eleitores que todos perderam dinheiro porque apostaram na dívida grega, o que seria questão política supercarregada e “intocável”. Mas continuar a financiar as aposentadorias gregas com empréstimos, como feito até aqui, também é questão política supercarregada e “intocável”. Ainda que deixar a Grécia quebrar gere custos muito maiores em todos os fronts, a opinião pública pode vir a culpar a Grécia pela própria quebra, mas não haverá Grécia alguma a culpar, se os credores cederem a favor das aposentadorias gregas.

Algum tipo de cabeças mais frias podem ainda prevalecer. Mas a verdade é que o Banco Central Europeu é ainda mais ‘sangue-no-olho’ que qualquer outra das partes em litígio. Do artigo da revista Jacobin [“Grécia: o nó aperta”]:

Mas amostra mais representativa da visão das duas principais instituições europeias que, juntas, são credoras de cerca de 2/3 da dívida grega, o Banco Central Europeu e o Mecanismo Europeu de Estabilidade [orig. European Stability Mechanism (ESM)], encontra-se nas entrevistas dadas dia 22/4/2015, por Klaus Regling, diretor-gerente do ESM, e por Benoît Coeuré, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu.

Os dois manifestam linha especialmente dura sobre a Grécia, rejeitando duas demandas chaves do governo grego na atual fase das negociações: nada de desembolso do €1,9 bilhão a que a Grécia faz jus depois de “completada a revisão”, que significa que se alinham a favor do tipo das “reformas” contra as quais está o lado grego (essa soma corresponde aos juros gerados pelos papéis gregos e devem ser devolvidos à Grécia, nos termos do Securities Markets Programme (SMP) do Banco Central Europeu, desde fevereiro/2015). E nada de “abordagem gradual” às reformas, como propôs o ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis, para permitir que a Grécia alcançasse liquidez antes de junho e para facilitar um acordo.

Em vez disso, requereram “lista compreensiva de reformas”, que deve incluir mais desregulação do mercado de trabalho e cortes nas pensões, duas “linhas vermelhas” que os gregos não cogitam ultrapassar.

Regling foi ainda mais longe que Coeuré: comentando sobre a possibilidade de a Grécia sair da Eurozona (“Grexit”), ele disse calmamente que “não é o cenário básico. Mas se tiver de acontecer e trabalhamos muito, muito duro para não chegarmos a isso, nesse caso acho que haverá muita incerteza, porque não temos nenhum tipo de experiência semelhante”. Acrescentou que “claro que seria mais administrável que há cinco ou seis anos, porque temos novas instituições, o European Financial Stability Facility (EFSF), o ESM, outros países na área do euro fizeram tremendos progressos nos ajustes, como Irlanda, Portugal, Espanha.”

Regling também se opôs declaradamente aos atuais planos do governo grego para reduzir alguns impostos e aumentar o salário mínimo e as aposentadorias e pensões; disse que isso seria “andar para trás” e está pondo em risco as negociações. Sobretudo, deixou bem claro que o desacordo é muito profundo, uma vez que o governo grego pensa que a abordagem do governo anterior seria errada, quando, segundo ele, “a estratégia está dando certo”. “Essa diferença ainda não foi resolvida” – diz Regling.

E conclui ridicularizando a ideia de que os credores poderiam “recuar porque não querem um evento ou um acidente de crédito”. Disse que “nossos procedimentos para conceder empréstimos são muito claros e muito bem estabelecidos. Estão associados à condicionalidade, estão claramente escritos no tratado do ESM. Precisamos de decisão unânime dos acionistas e da aprovação de seis parlamentos da União Europeia, e os parlamentos com certeza verificarão cuidadosamente se a condicionalidade — uma exigência chave – foi satisfeita.

Matéria da Reuters insiste que o Banco Central Europeu não será quem puxará o gatilho contra a Grécia, se a Grécia tornar-se inadimplente, mas é possível que estejam supondo que podem oferecer suficiente cobertura para cortar ou recusar-se a renovar ou aumentar a ELA, forçando uma Grexit.

Parece sadismo, e é sadismo, mas é preciso não esquecer uma coisa: esse jogo é da Troika e do Eurogrupo e, portanto, eles podem definir as regras. A Grécia pode estar sendo ingênua, supondo-se em posição de negociar de igual para igual. Do ponto de vista dos credores, a Grécia é mendiga suplicante, e tem de agir mais como tal, para ter qualquer esperança de ganhar algum dinheiro.

Grécia
Não há motivo para supor que os credores seriam mais “fáceis”, se Varoufakis fosse substituído. As diferenças entre a Grécia e seus emprestadores é fundamental, e ter interlocutor mais cordato não mudará isso. Além do mais, uma cara nova será provavelmente pior. Embora o vice-ministro de Varoufakis pareça mais palatável no curto prazo, qualquer novo ministro das Finanças será necessariamente membro do Parlamento. Todas as substituições possíveis estão ainda mais à esquerda, sabem menos de economia e não falam tão bom inglês quanto Varoufakis. Se acham que Varoufakis não é suficientemente conciliador, menos ainda será qualquer cara nova.

Maio é mês especialmente ruim para entrar em inadimplência. O público grego opõe-se atualmente em grande maioria à saída da Grécia da zona do euro (“Grexit”) e como já indicamos, é o Banco Central Europeu, não o governo grego, quem determina se a inadimplência significará saída da zona do euro.

Pesquisa de kapa para [jornal] to_vima: 72,9% #greeks querem ficar na Eurozona, 20,3% querem a volta da moeda nacional.  #greece   11:33 AM - 25 Apr 2015 

Observe-se que to-vima é hostil à atual coalizão governante; a pesquisa, portanto, foi provavelmente construída para dar resultados que interessam aos conservadores. Mesmo assim, como Kouvelakis explica:

A complicação aqui é que tornar-se inadimplente em maio significa não pagar o FMI, o que implica complicações enormes para o comércio (o FMI pode impor sanções que tornarão quase impossível o acesso do comércio ao crédito privado). Melhor seria a Grécia não pagar o que deve ao EFSF do Banco Central Europeu, mas são dívidas que só vencem no verão e parece quase impossível que a Grécia se aguente até lá.

O governo grego parece estar em estado de negação, ou de paralisia. Os funcionários fazem declarações disparatadas sobre se a coalizão quer manter suas posições, mesmo que ao custo de ter de deixar a União Europeia, ou se o governo organizará um referendo para resolver o caso, se as conversações gorarem. Quanto ao referendo, o tempo das finanças anda mais depressa que o tempo da política. Na maioria dos países, o processo de organizar um referendo implica tempo (votação pelo Parlamento e um período de tempo, não raras vezes fixado pela Constituição, antes da votação). Com a inadimplência já consumada provavelmente no início de maio, e acordo tendo de ser fechado à velocidade desatinada, para evitar que aconteça, a Grécia praticamente com certeza já passou do ponto em que poderia organizar um referendo para informar decisões.

Diane Shugart informa em tuíto posterior, que a pesquisa de Kapa mostra apoio de 36,9% para o Syriza – virtualmente o mesmo que o partido alcançou nas eleições. Mas é redução significativa em relação aos altos índices que o governo alcançou depois das eleições.

Embora o custo da saída da Grécia, da zona do euro, possa ser extremamente alto em termos econômicos (já vi previsão de redução de 20% no PIB, pior do que qualquer previsão existente para o futuro com arrocho [“austeridade”]), Kouvelakis argumenta que os cidadãos só estão sendo informados de um lado da história [“Grécia: o nó aperta”]:

O elemento que serve mais claramente como combustível para essa atmosfera confusa é, porém, o fato de que continua a campanha  "midiática" de aterrorizamento da população contra o “Grexit”, sem qualquer ação do governo Tsipras.

A oposição de direita e a grande mídia-empresa, cada dia mais hostil contra o governo e usando discurso cada dia mais agressivo, e todos os argumentos possíveis a favor da rendição incondicional, continua a mostrar a ruptura com a Eurozona como um apocalipse – o que fizeram sem parar, todos os dias, desde o início da crise.

Mas a resposta do governo tende a ser que essa ruptura será evitada, graças ao “compromisso honesto” com o qual os europeus acabarão por concordar. Absolutamente não é, para dizer o mínimo, discurso capaz de mobilizar a base popular do Syriza e preparar a sociedade para uma eventual ruptura com a Europa.

Ambos, a Grécia e seus credores caminham como sonâmbulos rumo a uma ruptura que os dois lados dizem querer evitar. Mas a falta de confiança mútua e a troca de farpas são dinâmicas clássicas do divórcio, e nesse caso não há conselheiro matrimonial. Tsipras acerta ao ver Merkel como sua melhor ou, melhor dizendo, como sua única, esperança, mas a rachadura pode já ser profunda demais, para que Merkel consiga remendá-la (assumindo-se que ela queira fazer isso).
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[*] Yves Smith passou mais de 25 anos na indústria de serviços financeiros e atualmente dirige a Aurora Advisors, empresa de consultoria sediada em New York, especializada em consultoria de finanças corporativas e serviços financeiros. Sua experiência inclui trabalho na Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves já escreveu para várias publicações nos EUA e na Austrália, incluindo The New York Times, The Christian Science Monitor, Slate, The Review Conference Board, Institutional Investor, The Daily Deal e na Australian Financial Review. É graduada no Harvard College e no Harvard Business School. Anima o blog Naked Capitalism  desde 2006.