Mostrando postagens com marcador David Swanson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Swanson. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de junho de 2015

Experiências com seres humanos: um costume (nazista) da CIA


Zombando do Código de Nuremberg

16/6/2015, [*] David Swanson – Counterpunch
Traduzido por Emerx


O jornal The Guardian da segunda-feira (15/6/2015) tornou público um documento da CIA autorizando seu diretor a
(...) aprovar, modificar ou desaprovar quaisquer propostas relativas a pesquisas com seres humanos.
Pesquisas com o quê, mesmo?
Em Guantánamo, a CIA deu doses cavalares de uma droga aterrorizante chamada mefloquina a prisioneiros sem o seu consentimento, como também lhes administrou um suposto soro da verdade, a escopolamina. Um ex-guarda de Guantánamo, Joseph Hickman, documentou torturas perpetradas pela CIA, algumas levando à morte, e não acha outra explicação para aquilo a não ser pesquisas:
Joseph Hickman

[Por que] homens de pouco ou nenhum valor foram mantidos sob essas condições, e submetidos a repetidos interrogatórios, meses ou anos depois de terem sido detidos? Mesmo se tivessem alguma informação importante quando chegaram à Guantánamo, que interesse haveria em fazer isso anos depois?... Uma resposta parece jazer na descrição que os Majores Generais [Michael] Dunlavey e [Geoffrey] Miller fizeram ambos de Guantánamo. Eles chamam aquilo de “laboratório de batalha da América”.
Experiências não consensuais em adultos e crianças internadas em instituições eram algo comum nos Estados Unidos antes, durante e mais ainda depois dos Estados Unidos e seus aliados levarem os nazistas a julgamento por estas práticas em 1947, sentenciando alguns deles a prisão e sete à forca. O tribunal criou o Código de Nuremberg, padrões para a prática médica que foram imediatamente ignorados pelos estadunidenses uma vez de volta ao lar. Alguns médicos estadunidenses consideraram o código algo “apropriado para bárbaros”.
Diz o Código em seu preâmbulo:
Faz-se mister o voluntário, bem-informado e inteligente consentimento do sujeito humano no gozo pleno de suas capacidades.
Uma exigência similar está incluída nas regras da CIA, mas não tem sido cumprida: médicos têm prestado assistência durante o emprego de tais técnicas de tortura como a simulação de afogamento.


Até agora, os Estados Unidos nunca aceitaram realmente o Código de Nuremberg. Quando o Código estava sendo criado, os Estados Unidos estavam contaminando pessoas com sífilis na Guatemala. E fizeram o mesmo com afro-americanos em Tuskegee. Durante o julgamento de Nuremberg, fezes contaminadas com hepatite foram servidas como alimento a crianças da escola Pennhurst, no sudeste da Pensilvânia.
Há outros casos de experimentações escandalosas: o Jewish Chronic Disease Hospital em Brooklyn, o Willowbrook State School em Staten Island, e a Holmesburg Prison na Philadelphia. E, é claro, o CIA’s Project MKUltra (1953-1973), um festival diferentes experimentações humanas. As esterilizações forçadas de mulheres em prisões da Califórnia não cessaram. Pela primeira vez, houve compensações financeiras pagas a vítimas de tortura pela polícia de Chicago.
Se quisermos deixar este comportamento desprezível para trás, devemos romper com certos maus hábitos. Nos últimos anos, o Congresso voltou a banir a tortura em diversas ocasiões. Agora, é preciso parar com esse joguinho e ao invés disso instar o Procurador Geral a fazer cumprir o estatuto contra a tortura, que fazia desta uma felonia antes de George W. Bush se tornar presidente.
É bom que John Oliver denuncie a tortura. E ele tem razão em investigar as mentiras ditas sobre a tortura num programa de entretenimento popular. Mas ele também está espalhando a falsa ideia de que isso é legal. “Verificamos”, disse ele, ao revelar que seu time de investigadores descobriu que o único banimento da tortura está numa ordem executiva escrita pelo presidente Obama. Isso é um perigoso non sense.
Os Estados Unidos participaram da Convenção Contra a Tortura e fizeram desta uma felonia antes de George W. Bush se tornar presidente.

Soldados dos EUA torturam abertamente em Abu-Ghraib no Iraque

Desde então, o Congresso “baniu” repetidas vezes a tortura, mas isso da mesma forma que a carta das Nações Unidas baniu a guerra legalizando, na verdade, algumas guerras.
Pretendendo substituir o banimento total da tortura presente no Kellogg-Briand Pact por um banimento parcial, os esforços do Congresso (como o Military Commissions Act of 2006) na verdade legalizaram certos casos de tortura, substituindo (pelo menos na cabeça das pessoas) o banimento total que já existia no Código dos EUA e num tratado do qual os EUA são partícipes.
A mais recente proposta de “banimento” do senador McCain e amigos criaria exceções formais ao Army Field Manual, e advogados sustentam que o próximo passo seria reformar o próprio Manual. Mas se você esquece ambos os passos e reconhece a existência de estatuto contra a tortura no código dos Estados Unidos, então pronto. O que se deve fazer é pressionar para que o Código seja aplicado.
O erro de Oliver, como, aliás, de muita gente, está fundado em dois mitos.
O primeiro: a tortura começou com Bush. O segundo: a tortura acabou com Bush. Muito pelo contrário, a tortura tem estado presente nos Estados Unidos e em toda parte por muito, muito tempo. Da mesma forma que a prática de “bani-la”.
A tortura é proibida pela Oitava Emenda da Constituição dos Estados Unidos, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pelo Pacto Internacional pelos Direitos Civis e Políticos, bem como pela Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes. Com efeito, pela lei internacional, a tortura nunca pode ser legalizada e está banida para sempre.
Centro de Tortura dos EUA em Guantánamo

O segundo mito é também um equívoco. A tortura nunca cessou e não vai cessar enquanto houver impunidade. Um procurador geral pode ser questionado e ameaçado de impeachment até que nossas leis sejam cumpridas. Um novo sítio web foi criado na segunda-feira (15/6/2015).
Entre nele e mande seu e-mail ao Congresso para pedir-lhe que faça isso.
_____________________________________________
[*] David Swanson (nascido em 1969) é norte-americano, ativista social, blogueiro e articulista e escritor. Obteve um mestrado em filosofia na University of Virginia, em 1997. Como um ativista é co-fundador do site After Downing Street (agora War Is A Crime .org). Swanson liderou campanha acusando de crimes de guerra o ex-presidente George W. Bush e o vice Dick Cheney através extinto site ConvictBushCheney.Org. Contribuiu com Dennis Kucinich em The 35 Articles of Impeachment and the Case for Prosecuting George W. Bush. Ajudou na organização de campanhas como a Velvet Revolution em oposição à United States Chamber of Commerce. Participa ativamente do movimento Occupy Washington originado de Occupy Wall Street.
Como autor, escreveu vários livros:

Swanson é também blogueiro tendo outros sítios próprios: WarisaCrime.org e RootsAction onde escreve artigos replicados por vários sites políticos.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

EUA: Deputados votam contra retirada do Iraque/Síria


Ou: Quando até o tal “debate parlamentar democrático” é golpe só
17/6/2015, [*] David Swanson – War is a Crime.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


(clique na imagem para aumentar)

Na 4ª-feira (17/6/2015) à tarde, por 288 votos contra, 139 a favor, uma abstenção e cinco deputados ausentes (a relação dos votantes e respectivos votos está aqui), a Câmara de Deputados dos EUA derrubou proposta de resolução (H.Con.Res.55) que exigia que o presidente Obama
retirasse do Iraque e Síria todas as Forças Armadas para lá enviadas a partir do dia 7/8/2014 (inclusive), exceto as Forças Armadas necessárias para proteger instalações e pessoal diplomático dos EUA:
(1) imediatamente, em período que não excederá 30 dias da data em que for aprovada essa Resolução; ou
(2) no caso de o Presidente determinar que essa retirada não é segura antes do fim do período acima fixado, até data que não ultrapasse 31/12/2015, ou a qualquer momento antes disso, tão logo o Presidente determine que as Forças Armadas podem ser retiradas em segurança.
Embora alguns dos 139 votos que votaram a favor da retirada imediata tenham sido dados por Deputados em busca de uma chance para votar a favor de mais guerra nos próximos 30 dias ou nos próximos seis meses e meio, a maioria deles, pode-se presumir, foram votos de deputados que realmente são favoráveis à retirada ou querem aparecer frente à opinião pública como se o fossem, em votação que tinha mínima chance de ser bem-sucedida.
Há cerca de dois anos, o Congresso foi empurrado por pressão da opinião pública a manifestar-se sobre se aprovaria ou não ataque com mísseis contra a Síria. Desde então, sempre se recusou a aprovar ou negar aprovação a guerras, por mais que a omissão sempre implique permitir que os EUA iniciem guerras, continuem a fazer, mantenham ou escalem as guerras já em curso.
Sabe-se que votações a favor de guerras têm longa história de agradar muito aos ricos doadores de dinheiro para campanhas eleitorais, e de muito desagradar aos eleitores.
No debate da 4a-feira passada (17/6/2015), a deputada Jackie Walorski, deixou claro que quer que a guerra continue, mas preserva-se o direito de denunciar o modo como foi e continua a ser completamente mal concebida. Essa foi a única serventia da votação: fazer os membros do Congresso mostrarem “a cara”, a favor ou contra, impedir que continuassem com um pé em cada canoa.
Pela atual configuração, 288 deputados estarão fora do Congresso na primeira oportunidade que haja para expulsá-los de lá e para, como aconteceu com Hillary Clinton em 2008 – e, esperemos, também no futuro – bloqueá-los na tentativa de alcançarem a presidência.



EVIDENTEMENTE, o presidente Obama já deixou bem claro que continuará suas guerras e sendo possível inventará outras, com ou sem o Congresso. Mas uma votação no Congresso a favor da retirada das tropas dos EUA e (se preciso) talvez mais uma votação, a favor de cortar os fundos com que Obama conta para suas guerras, e (se preciso) ainda mais outra votação a favor do impeachment de Obama seriam, no mínimo, bem interessantes.
A proposta da resolução antiguerra derrubada na 4a-feira foi apresentada pelos Republicanos Jim McGovern, Barbara Lee e Walter Jones, nos termos da Resolução para Poderes de Guerra, que permite que qualquer deputado ou senador inicie debate e votação sobre qualquer guerra que qualquer presidente dos EUA inicie sem autorização legal. Mas o senador McGovern preferiu não usar o debate parlamentar que ele próprio forçou, na direção em que o usou o então Congressista Dennis Kucinich, a saber, como debate parlamentar PARA PÔR FIM a alguma guerra.
Em vez disso, McGovern circunscreveu o debate: os congressistas só debateram se havia questão a debater.
Assim aconteceu que, durante duas horas, na 4a-feira, defensores e propagandistas das guerras dos EUA falaram longamente, apaixonadamente, gerando e incendiando cada vez mais medo entre os cidadãos e , portanto, a favor de cada vez mais e mais guerras. E os que pregavam que seria preciso discutir mais só fizeram pregar que se usasse corretamente a lei dos Poderes de Guerra... para gerar debates e mais debates... sobre leis, não sobre a paz.
EVIDENTEMENTE, os dois lados sabiam que a resolução que estava sendo “debatida” tinha mínimas chances de ser aprovada, o que implica dizer que o debate sobre a possibilidade de debater era a única possibilidade real de haver algum debate, mesmo que fingido.
Mas McGovern já planejara fazer debate exclusivamente defensivo. Argumentou que as asserções dos adversários da retirada dos soldados, segundo as quais a proposta exigiria imediata retirada em 30 dias, omitiam a evidência de que o presidente poderia optar, “se bem entendesse”, por retirada só ao final do ano.

RootsAction.com


Mas, como qualquer um pode ler no trecho acima citado, o projeto de lei jamais falou de “se o presidente bem entender”. O que se lê lá é “no caso de o Presidente determinar que essa retirada não é segura”. McGovern deu a impressão de estar perfeitamente consciente do absurdo incluído em seu próprio projeto de lei: em todos os casos, decisão que JAMAIS é ou será “segura” é a decisão de mandar soldados à guerra, ou de fazê-los permanecer em guerra. Mas McGovern fingiu que estaria deixando a Obama a alternativa de fingir que nada seria exatamente assim: a retirada passaria a ser automaticamente “segura”, se Obama “bem entendesse”.
Muitos adversários da resolução pró-retirada, apenas fingiram que defendiam a retirada. De fato, o argumento de muitos foi (1) retirada, sim; e (2) mais guerra, para “proteger os soldados”. E um dos que se opunham à resolução, Brad Sherman, argumentou que a resolução obrigaria a imediata retirada dos soldados em 30 dias, o que seria péssimo, porque estão vencendo a guerra e não estão absolutamente em perigo.
O debate só ganhou coerência e significado relevantes quando quatro deputados falaram contra a guerra. Um deles, em especial, falou contra a guerra com paixão e inteligência: John Lewis. Disse que o povo “está enojado, cansado de guerra” e que a guerra só torna as coisas sempre mais difíceis. “Nenhuma arma jamais deterá o terrorismo. Não há bombardeio que mate o ódio”. Pedi ao seu gabinete que enviasse o texto de seu discurso. Todos podem procurá-lo, durante a semana, no website de Lewis.
Os outros que também falaram contra a guerra foram Barbara Lee, muito rapidamente; Rick Nolan, também rapidamente; e Charlie Rangel que criticou os mitos da violência inerente do Oriente Médio e da “generosidade” de passadas “Guerras Boas” dos EUA. Também disse que não há razão alguma para haver soldados norte-americanos naquela região; que não é o ISIS quem está matando adolescentes desempregados nos EUA. Rangel foi o primeiro a levar para o “debate” da 4ª-feira temas caros ao movimento antiguerra.


Martin Dempsey por Webb Murray 


O Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, Martin Dempsey esteve na 4a-feira (17/6/2015) no Congresso, para falar a uma das comissões. E martelou a ideia de que o sectarismo religioso – não a guerra dos EUA – seria responsável pelo desastre que se vê até hoje no Iraque, praticamente inalterado. Dempsey disse também que não há solução militar. “Portanto” [sic] sua proposta é agir dos dois lados: enviar soldados dos EUA e simultaneamente armar e treinar os iraquianos. Não fez, como nunca faz, sentido algum.
[...] Para a Republicana Sheila Jackson Lee, é preciso debater a guerra, a qual, para ela é ação filantrópica a favor das vítimas estrangeiras das bombas dos EUA. Também recomendou que todos contenham a própria cobiça e o egoísmo pecaminosos. Outro Republicano, Jerrold Nadler disse que não sabe se a guerra deve prosseguir ou parar, mas tem certeza de que ele e seus colegas têm o direito de decidir sobre se a guerra continuará. A Republicana Eleanor Holmes Norton quer um referendo em Washington, DC (?) sobre a guerra. Mas só falou a favor de mais e mais guerra. O Republicano Mark Sanford “exige” mais debate sobre a guerra, fala dos custos financeiros da guerra, mas toma o cuidado de não dizer nem uma palavra nem a favor nem contra a continuação da guerra.
Royce fez longo discurso pró-guerra, depois das formalidades que McGovern cumpriu, de encerramento, sem se opor a guerra alguma. Para Royce os deputados e senadores sentiam-se paralisados, sem terceira via entre mais guerra e “nada fazer”. Bobagem. Desde outubro do ano passado, no mínimo, já se conhecem inúmeras possibilidades (ing.), todas para a paz.
_________________________________

[*] David Swanson (nascido em 1969) é norte-americano, ativista social, blogueiro e articulista e escritor. Obteve um mestrado em filosofia na University of Virginia, em 1997. Como um ativista é co-fundador do site After Downing Street (agora War Is A Crime .org). Swanson liderou campanha acusando de crimes de guerra o ex-presidente George W. Bush e o vice Dick Cheney através extinto site ConvictBushCheney.Org. Contribuiu com Dennis Kucinich em The 35 Articles of Impeachment and the Case for Prosecuting George W. Bush. Ajudou na organização de campanhas como a Velvet Revolution em oposição à United States Chamber of Commerce. Participa ativamente do movimento Occupy Washington originado de Occupy Wall Street.
Como autor, escreveu vários livros:
Swanson é também blogueiro tendo outros sítios próprios: WarisaCrime.org e RootsAction onde escreve artigos replicados por vários sites políticos.