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sexta-feira, 27 de março de 2015

A seca épica da Califórnia: só resta um ano de água

25/3/2015, [*] Ellen BrownCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Comentário-pergunta entreouvido na Padaria Alentejo aqui perto de casa: Será que o Alckmin e os DEMOTUCANOS também governam a Califórnia (EUA)? Será que eles também cooptaram o Judiciário e a Mídia dos EUA? Incrível o poder dessa tchurma!


Jack Nicholson e Faye Dunaway (Chinatown-1975)
As guerras pela água limitada que há na Califórnia já duram, no mínimo, um século. Guerras da água já foram temas de filmes de sucesso, dentre os quais “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country)com Gregory Peck, de 1958; “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), de Clint Eastwood, em 1985; Waterworld, de Kevin Costner, 1995; e, de 2005, Batman Begins. O mais aclamado foi o vencedor do Oscar de 1975, Chinatown com Jack Nicholson e Faye Dunaway, uma trama entre um político corrupto de Los Angeles e especuladores de terra, para fabricar a seca de 1937 e forçar os fazendeiros a venderem suas terras a preços baixos. A trama baseou-se num fato histórico, mostrando as batalhas entre os fazendeiros de Owens Valley e as construtoras que erguiam Los Angeles, pelos direitos da água.

Hoje, a guerra da água prossegue, em escala ainda maior, com novos atores. Já não se trata só de fazendeiros contra os rancheiros ou os urbanites. Agora, é o povo contra os novos “barões da água” – Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Monsanto, a família Bush & sua gangue – que estão comprando água em todo o planeta num ritmo sem precedentes.

Uma seca de proporções épicas

Kevin de Leon
Numa conferência de imprensa dia 19/3/2015, o presidente interino da assembleia estadual da Califórnia, Kevin de Leon, alertou que: 

Nenhuma crise é hoje mais grave, para nosso estado, que a falta de água.

Jay Famiglietti, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em La Cañada Flintridge, Califórnia, escreveu, no Los Angeles Times, dia 12 /3/2015:

Nesse momento, o Estado da Califórnia tem água para mais um ano em seus reservatórios, nossa reserva estratégica está sendo rapidamente consumida. A Califórnia não tem plano de contingência para uma seca prolongada como essa (muito menos para uma mega-seca de 20 anos ou mais), exceto, ao que parece, declarar estado de emergência e rezar pedindo chuva.

Mapas indicam que as áreas da Califórnia mais duramente atingidas pela mega-seca são as áreas nas quais é cultivada uma grande porcentagem do que os norte-americanos comem. A Califórnia fornece 50% da comida do país, e mais alimentos orgânicos que qualquer outro estado. Western Growers estima que, no ano passado, 500 mil acres de terra agricultável foi deixada sem semear, área que pode aumentar em cerca de 40% esse ano. E na agricultura desapareceram 17 mil empregos, no ano passado; e mais, em 2015.

Tulare Lake, Central Valley - California
(clique na imagem para aumentar)
Fazendeiros com contratos com o Central Valley Project, um vasto sistema federal de irrigação, não receberão água pelo segundo ano consecutivo, segundo as previsões preliminares. Cidades e indústrias receberão 25% dos totais contratados, para garantir abastecimento suficiente para segurança e garantia da saúde pública. Além do racionamento, há o problema dos resíduos tóxicos lançados nas bacias de água, por empresas de petróleo que extraem pelo sistema de fracking. Economistas estimam o custo da seca, em 2014, em US$ 2,2 bilhões.

Não há plano de contingência

O projeto Delta, de um túnel gigante de água, concebido para pôr fim aos problemas de fornecimento de água do sul da Califórnia, aspirando água do norte, foi adiado em agosto/2014, em função de reclamações de residentes em Delta e de proprietários de terras. O projeto continua parado, enquanto o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia revisa cerca de 30 mil petições/manifestações. Quando ou se o projeto chegar a ser afinal implementado, demorará anos para concluir a construção, a um custo estimado de US$ 60 bilhões, incluídos os custos de financiamento (mais altos que o da construção).

Christina Sarich
Enquanto isso, não se vê qualquer busca por alternativas que aumentem a oferta de água, além dos limitados recursos de água subterrânea. Por que não? Observadores céticos observam que a água já é chamada de próxima boom-commodityPara Christina Sarich, escrevendo em NationOfChange.org,

Numerosas empresas já se posicionaram para lucrar com a crise de falta d’água. Em vez de proteger as reservas existentes, implementar regulações estritas e trabalhar para inventar novos meios para captar água de chuva ou dessalinizar água do mar, a agenda empresarial corporativa está pronta, como cascavel enrolada, para ganhar trilhões com a nossa sede.

Essas cascavéis enroladas incluem Monsanto e outras empresas de biotecnologia, que estão desenvolvendo sementes resistentes a seca resistentes ao alumínio, à espera para dar o bote quando os plantadores de produtos orgânicos jogarem a toalha. Pequenos e grandes produtores de leite e derivados orgânicos foram os mais duramente atingidos pela seca, porque as pastagens certificadas onde as vacas têm de ser alimentadas estão desaparecendo.

Jack Nicholson em cena de "Chinatown"
Alguns críticos sugerem que, como em Chinatown, a seca é obra humana, disparada não só pela quantidade jamais vista de emissões de carbono, mas também por “geoengenharia” – disparar alumínio e outros particulados nas nuvens para, à primeira vista, bloquear a terra contra o aquecimento global (embora possa haver outros motivos).

Dia 15/2/2015, Ken Caldeira, do Carnegie Institute for Science em Stanford  observou que a geoengenharia é o único modo conhecido para resfriar rapidamente a Terra. Para ele,

(...) uma pequena frota de aviões consegue fazer o que fazem os vulcões – criar uma camada de micropartículas na atmosfera, que reflete a luz do sol de volta ao espaço. Resfriar a terra por esse método pode ser rápido, barato e fácil.

Mas a mesma técnica também impede a formação de chuvas. Segundo a patente EUA #6315213, registrada pelo exército dos EUA dia 13/11/2002,

O polímero é disperso dentro da nuvem e o vento da tempestade agita a mistura, o que leva o polímero a absorver a chuva. Essa reação forma uma substância gelatinosa que se precipita. O processo diminui a capacidade de a nuvem produzir chuva.

Observadores mais desconfiados perguntam-se se tudo isso não seria parte de um plano maior. Christina Sarich observa que, enquanto o estado passa sede, alternativas para aumentar o suprimento de água permanecem na gaveta:

Engenheiros químicos no MIT já mostraram como é possível dessalinizar água do mar – eletrodiálise, com potencial para tornar potável a água do mar,  mais depressa e a menor preço, sem remover contaminantes como sujeiras e bactérias; e há nanofiltros baratos que podem filtrar micróbios e produtos químicos da água para consumo humano. Para o designer Arturo Vittori, a solução para a catástrofe da água não está em altas tecnologias, mas numa cesta gigante que coleta água potável do ar, por condensação.
Esquema de Dessalinização da água

Mobilizando águas subterrâneas

Outro recurso que permanece sem ser mobilizado é a própria água “primária” da Califórnia – água recentemente produzida por processos químicos no interior da Terra que jamais foram parte do ciclo hidrológico de superfície. Essa água é criada quando há condições adequadas para que o oxigênio possa combinar-se ao hidrogênio e é continuadamente empurrada para cima, sob grandes pressões do interior da Terra, e chega à superfície onde encontra fissuras ou falhas. Essa água pode aparecer em qualquer ponto do planeta. É a água que flui nos poços em oásis no deserto, onde não há nem chuvas nem nascentes de montanhas que os alimentem.

Estudo comentado na revista Scientific American de março de 2014 fala da presença documentada de vastas quantidades de água acumulada nas profundidades do planeta, gerada, não por chuva de superfície, mas por pressões ativas naquelas profundidades. O estudo confirmou que

(...) há muito, muito grande quantidade de água retida numa camada realmente distinta, na Terra profunda (...), ali acumulada em quantidade que se aproxima da que há atualmente nos oceanos do mundo.

Em dezembro de 2014, BBC News noticiou os resultados de um estudo apresentado na reunião de outono da American Geophysical Union, no qual pesquisadores estimam que há mais água retida na crosta profunda da Terra, que em todos os seus rios, pântanos e lagos somados. Pesquisadores japoneses já haviam divulgado resultados de pesquisas, naScience de março de 2002, segundo os quais o manto mais profundo pode conter cinco vezes mais água que os oceanos da superfície do planeta.

Provas dramáticas de que terremotos podem liberar água das profundezas da Terra apareceram em agosto passado, quando o vale Napa sofreu terremoto de magnitude 6.0. Solano County recebeu, repentinamente, um novo fluxo massivo de água em ravinas locais, inclusive um fluxo noticiado de 200 mil galões/dia, só de Wild Horse Creek. Esses fluxos aumentados permanecem ativos, intrigando pesquisadores que visitaram a área.

 Napa Valley - Wild Horse Creek
De onde estaria vindo aquela enorme quantidade de água? Se estava sendo liberada de algum aquífero raso, algo teria de preencher o volume da água que saía, à razão de mil galões/minuto – mais de dez vezes acima do fluxo de antes do terremoto. Seriam de esperar desabamentos massivos, mas não houve relato de qualquer desabamento. Evidentemente aquelas águas novas estavam subindo de fontes muito mais profundas, libertadas por fendas criadas pelo terremoto.

É o que diz Pal Pauer do Instituto de Águas Primárias, e dos maiores especialistas mundiais em mobilização de águas primárias. Depois de décadas de estudos de águas primárias, e projetos bem-sucedidos de perfuração, Pauer demonstrou que essa abundante fonte de água pode ser acessada, para suplementar nossa atual oferta de água. A água primária pode ser diretamente mobilizada, ou pode ser encontrada misturada a água secundária (e.g. aquíferos) alimentada por fontes atmosféricas.

Técnicas novas e sofisticadas, que usam dados de satélites e aeronaves de pesquisa geofísica permitem localizar água subterrânea a água primária em rochas, por um processo chamado fracture trace mapping, pelo qual se identificam grandes fraturas mediante análise de dados recolhidos das aeronaves e satélites para perfuração exploratória.

Pauer insiste que é possível perfurar um poço suficiente para atender uma comunidade inteira, gerando grandes volumes de água, em apenas dois ou três dias, ao custo de cerca de US$ 100 mil. Todo o Estado da Califórnia poderia ser suprido por cerca de US$ 800 milhões – menos de 2% do que custa o muito controverso projeto Delta de túneis de água – e esse resultado poderia ser alcançado sem roubar do norte, para dar de beber ao sul.

As Guerras da Água Continuam

Sucessivos governos da Califórnia têm-se mantido indiferentes a essas propostas. Em vez de qualquer pesquisa ou discussão complementar, o estado decidiu regular a água subterrânea. Em setembro, foram aprovadas três leis que estabelecem o quadro geral da regulação das fontes subterrâneas de água da Califórnia, evento que marcou a primeira vez na história do estado em que se faz algum manuseio em grande escala da água subterrânea. Até agora, a nova lei está considerando essa água como um bem protegido por direitos de propriedade.The Los Angeles Times noticiou:

Muitos interesses da agricultura continuam a fazer ferrenha oposição à nova lei. Paul Wenger, presidente da California Farm Bureau Federation, disse queas leis podem vir a ser vistas como “históricas” pelas razões erradas, dado que agridem drasticamente a produção de alimentos. (...)

Vai realmente começar uma luta de vale-tudo na disputa pela propriedade da água, disse Patterson [Deputado representante de Fresno na Assembleia], que previu que os planos da regulação vão disparar uma enxurrada de ações judiciais.

E assim prosseguem as guerras da água. O Banco Mundial adotou recentemente uma política de privatização da água, com fixação de preços para o comércio do recurso.

Folson Lake (California)
(clique na imagem para aumentar)
Para Ismail Serageldin, um dos ex-diretores da instituição,

(...) as guerras do século XXI serão guerras pela água.

No filme Chinatown, os oligarcas corruptos levam a melhor. A mensagem parece ser que o direito nada pode contra a violência mais brutal. Mas, armados agora com essa poderosa ferramenta do século XXI, a Internet, que pode gerar consciência nas grandes massas, e também pode produzir ação coordenada, talvez agora, afinal, o direito vença.
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[*] Ellen Brown é advogada, presidente do Public Banking Institute e autora de doze livros, incluindo obest-seller Web of Debt. Em The Public Bank Solution, seu mais recente livro, ela explora modelos bancários públicos bem-sucedidos, historicamente e no mundo.
Seus sites são:

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O nome do jogo da guerra norte-americana: Um mundo mais seguro para os banqueiros

5/9/2013, [*] Ellen Brown, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Os membros da OMC foram induzidos a assinar o novo acordo; foram ameaçados de ver fechado seu acesso aos mercados globais, se recusassem. Todos assinaram, exceto o Brasil. O Brasil foi então ameaçado com um embargo. Mas a resistência valeu a pena: só o Brasil, de todas as nações ocidentais, sobreviveu e cresceu durante a crise 2007-2009. [1]

Greg Palast
Em artigo de agosto de 2013, intitulado “Larry Summers e o Memorando Secreto Chute-direto-ao-gol [2]” [orig. Larry Summers and the Secret End-game Memo” [3]], Greg Palast apresentou provas de um plano secreto, do final dos anos 1990s, construído por funcionários de Wall Street e do Tesouro dos EUA, para abrir as atividades bancárias ao lucrativo negócio dos derivativos.

Para obter esse resultado, era indispensável afrouxar as regulações dos serviços bancários, não só nos EUA, mas globalmente. O veículo a ser usado era o Acordo de Serviços Financeiros [orig. Financial Services Agreement] da Organização Mundial do Comércio.

O “chute-direto-ao-gol” exigia não só coagir os membros da OMC para que apoiassem, mas também assumir o controle nos países que se recusassem a fazê-lo. Alguns países permaneceram como fortalezas contra os avanços da OMC, entre os quais Iraque, Líbia, Irã e Síria.

Nesses países islâmicos, os bancos são predominantemente estatais; e a “usura” – auferir lucro do “uso” do dinheiro – é vista como pecado, quando não como crime. [4] Cria-se assim oposição forte ao modelo ocidental, no qual intermediários privados podem auferir lucro do próprio dinheiro.

Bancos públicos também são ameaça à expansão do negócio de derivativos, porque governos que possam operar seus próprios bancos não precisam manipular taxas de juros nem ficam subordinados a agências privadas que construam tabelas de qualidade do crédito para empurrar as próprias operações.

Banksters
A desregulação dos serviços bancários avançou conforme o plano, e o negócio dos derivativos sancionados e alimentados pelos governos converteu-se num esquema de pirâmide de mais de $700 trilhões. Altamente alavancado, completamente desregulado e perigosamente insustentável, desmoronou em 2008, quando o banco de investimentos Lehman Brothers faliu, arrastando com ele um grande segmento da economia global. Só escaparam os países que contavam com bancos públicos, externos à rede bancária privada internacional.

Nem todos esses países são países islâmicos. 40% dos bancos em todo o mundo são bancos públicosA maioria dos bancos públicos concentra-se nos países BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – quatro países onde vive 40% da população do planeta. Safaram-se da catástrofe global na crise de crédito de 2008, mas todos fizeram, pelo menos, algum “arremedo”, ou deram algum sinal de que se adaptariam às regras bancárias do ocidente.

Mas não as nações islâmicas “bandidas” [rogue states], onde a usura permaneceu proibida pela lei islâmica. Para “libertar” o mundo para a usura, para criar “usura segura”, esses estados islâmicos tiveram de ser silenciados por outros meios.

E afinal, dado que não sucumbiram à coerção econômica, todos entraram na alça de mira dos poderosos exércitos norte-americanos.

Aqui, alguns dados que apoiam essa tese.

O Memorando “Chute-direto-ao-gol”

Em seu artigo de 22/8, Greg Palast postou a fotografia de um memorando de 1997, de Timothy Geithner, então vice-secretário de Negócios Internacionais do secretário Robert Rubin, endereçado a Larry Summers, então vice-secretário do Tesouro dos EUA. No texto, Geithner referia-se ao “chute-direto-ao-gol nas negociações de serviços financeiros na OMC” e exigia que Summers entrasse em contato imediatamente com os presidentes dos bancos Goldman Sachs, Merrill Lynch, Bank of America, Citibank, e Chase Manhattan Bank, cujos telefones privados Geithner informava a Summers.

Banksters
O jogo que estava sendo jogado era a desregulação dos bancos como meio para que pudessem continuar a jogatina no lucrativo novo campo dos derivativos. Para chegar lá, era preciso, para começar, pôr fim à Lei Glass-Steagall, de 1933, que impunha uma porta corta-fogo entre os bancos de investimento e os bancos de depósitos, e visava a proteger os fundos dos depositantes contra a especulação bancária. Mas o plano exigia mais do que apenas a desregulação dos bancos norte-americanos. Era preciso eliminar os controles regulatórios sobre os bancos também no plano global, de modo a impedir que o dinheiro voasse para países com legislação bancária mais protegida contra a especulação. O “chute-direto-ao-gol” seria conseguir essa desregulação global mediante um obscuro adendo aos acordos de comércio internacional policiados pela OMC, o Acordo de Serviços Financeiros [ing. FSA]. Palast escreveu:

Antes de os banqueiros começarem a jogatina, os acordos da OMC só tratavam do comércio de produtos – meu carro, pelas suas bananas. As novas regras que estavam sendo implantadas por Summers e os bancos forçariam todas as nações a aceitar o comércio de ativos “ruins”, tóxicos, como os derivativos financeiros.

Antes de os banqueiros reescreverem os acordos FSA, cada nação controlava e enquadrava os bancos dentro das próprias fronteiras nacionais. As novas regras do jogo forçariam todas as nações a abrir seus mercados ao Citibank, JP Morgan e aos seus “produtos” derivativos.

E todas as 156 nações reunidas na OMC teriam de pôr abaixo suas portas corta-fogo, da Lei Glass-Steagall, que dividiam bancos comerciais de depósitos e os bancos de investimentos que jogam com derivativos.

O serviço de converter os acordos FSA em aríete a serviço dos banqueiros foi dado a Geithner, que foi nomeado Embaixador dos EUA na OMC.

Banksters
Os membros da OMC foram induzidos a assinar o novo acordo; foram ameaçados de ver fechado seu acesso aos mercados globais, se recusassem. Todos assinaram, exceto o Brasil. O Brasil foi então ameaçado com um embargo. Mas a resistência valeu a pena: só o Brasil, de todas as nações ocidentais, sobreviveu e cresceu durante a crise 2007-2009. [4] Quanto às demais:

Os novos acordos FSA abriram a caixa de Pandora do comércio mundial de derivativos. Dentre outras transações, foram legalizadas as seguintes: o banco Goldman Sachs (do qual o Secretário do Tesouro fora co-presidente) acertou uma troca secreta de euro-derivativos com a Grécia, que destruiu o país. O Equador, que desregulou e demoliu o próprio sistema bancário, explodiu em tumultos. A Argentina teve de vender suas empresas de petróleo (aos espanhóis) e o sistema de água (à Enron) enquanto professores argentinos tinham de recolher comida nas latas de lixo. Os banqueiros europeus que mergulharam de cabeça nas piscinas de derivativos, mas sem saber nadar, logo se afogaram e, agora, o continente está sendo fatiado e vendido, em pedaços pequenos, baratos, à Alemanha.

As fortalezas “contra”

Aquele foi o destino dos países na OMC, mas Palast não discutiu o destino dos países que não participavam da OMC, entre os quais Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Iraque. Esses sete países foram chamados pelo general (aposentado) Wesley Clark dos EUA, em entrevista em 2007 a Democracy Now, [vídeo a seguir, em inglês] de os novos “estados bandidos” que os EUA definiu como alvos, depois do 11/9/2001. O general disse que dez dias depois do 11/9, ouviu de um general que a decisão estava tomada, para guerra contra o Iraque. Em seguida, o mesmo general disse que o plano era ocupar os sete países em cinco anos: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã.


O que esses países têm em comum? Além de serem países de religião islâmica, não são membros, nem da OMC, nem participam do Banco Internacional de Compensações [ing. BIS].Assim, não são alcançados pelo longo braço regulatório do banco dos bancos centrais, na Suíça. Outros países adiante também incluídos como estados bandidose que não são membros do BIS são Coreia do Norte, Cuba e Afeganistão.

O corpo que hoje regula os bancos e chamado de Financial Stability Board (FSB) [aprox. Comitê de Estabilidade Financeira], e funciona no Banco de Compensações Internacional (BIS) na Suíça. Em 2009, os chefes de estado dos países do G20 acordaram que aceitavam as regras do FSB, ostensivamente para impedir uma segunda crise global dos bancos. Suas regulações não são apenas consultivas, são cogentes [têm de ser seguidas] e elas podem promover ou quebrar, não só bancos, mas nações inteiras. Foi o que ficou demonstrado em 1989, quando o Acordo Basel I aumentou a exigência de capital em meros 2%, de 6% para 8%. O resultado foi que a mudança forçou redução drástica nos empréstimos feitos pelos maiores bancos japoneses, que eram então os maiores e mais poderosos distribuidores de crédito do mundo. Mas ficaram descapitalizados, em relação a outros bancos. A economia japonesa afundou com os seus bancos e ainda não se recuperou completamente.

Dentre outras regras para inverter o jogo impostas pelo FSB estão os acordos de Basel III e novas regras de bail-in[5] Pelo acordo Basel III, impuseram-se exigências de capital a bancos comunitários, cooperativos e públicos, que impediram que continuassem a operar e facilitaram a venda a grandes bancos multinacionais.

Banksters
As regras da operação de bail-in foram testadas pela primeira vez em Chipre e seguiram a regulação imposta pelo FSB em 2011. Bancos “grandes demais para falir” devem redigir “testamentos” nos quais exponham o modo como evitarão a insolvência, no caso de não serem resgatados por dinheiro público. A solução criada pelo FSB é jamais oferecer o recurso de bail-in a depositantes de bancos comunitários, cooperativos e públicos – o que converte os depósitos de seus depositantes em estoque do próprio banco; na prática, o banco confisca os depósitos.

A alternativa dos bancos públicos

Países submetidos a um sistema bancário “de extração” estão sendo forçados a fazer “ajustes estruturais” e curvar-se à “austeridade” sob o peso de dívidas impagáveis. Mas alguns países conseguiram escapar. No Oriente Médio, são os países que estão sendo atacados pelo exército dos EUA e aliados e parceiros, reunidos sob a designação de “países bandidos”. Os bancos estatais nesses países podem usar o crédito do estado a favor do estado, alavancando fundos públicos para uso público, sem pagar o alto custo da intermediação bancária privada. Abundância de recursos públicos permite oferecer serviços públicos necessários à vida do povo naqueles países.

Como a Líbia e o Iraque já foram envolvidos na guerra, a Síria também oferece educação gratuita em todos os níveis, da escola primária à universidade e assistência pública gratuita universal. Também subsidia a moradia (embora esse programa tenha sido comprometido em 2006, quando o país adotou um programa de ajuste estrutural do FMI e, hoje, pela presença de cerca de 2 milhões de refugiados iraquianos e palestinos). O Irã também oferece universidade subsidiada, quase gratuita e assistência básica à saúde.

Como a Líbia e o Iraque antes da invasão e ocupação, Síria e Irã também têm bancos centrais estatais que emitem a moeda nacional e são controlados pelo estado. Se esses países conseguirão ou não manter a soberania financeira, frente à enorme pressão de que são alvo hoje, pressão econômica, política e militar, só o futuro dirá.


Quanto a Larry Summers, depois de deslizar pela porta giratória entre o governo dos EUA e o mundo privado e tornar-se presidente do Citigroup, foi o maior doador de campanha do então senador Barack Obama. Teve papel crucial na desregulação bancária que levou à crise atual, e levou milhões de cidadãos norte-americanos a perder o emprego e a casa.

Apesar disso, Summers é hoje o nome preferido do hoje presidente Obama para substituir Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve. Por quê? Porque é homem que tem comprovada capacidade para manipular o sistema e tornar o mundo mais seguro para Wall Street. E, no mundo às avessas no qual os banqueiros reinam, esse parece ser o nome do jogo.
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[*] Ellen Brown é advogada, presidente do Public Banking Institute e autora de doze livros, incluindo o best-seller Web of Debt. Em The Public Bank Solution, seu mais recente livro, ela explora modelos bancários públicos bem-sucedidos, historicamente e no mundo. 

Seus sites são: 


Notas dos tradutores

[1] Dia 1/1/2007, o presidente Lula assumiu a presidência, para seu segundo mandato. Disse que “Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de “distribuição de migalhas”. Os que assim pensam não conhecem e não entendem este país. Agora se trata de crescer com pressa, ousadia, coragem e criatividade”. Grande Lula! Grande Dilma! Viva o Brasil!

[2] A expressão aplica-se a uma jogada para “resolver” o jogo. No xadrez diz-se “fechamento”; no futebol se diria “decidir o jogo”. Geithner, em seu memorando, pensava em beisebol. A solução aqui oferecida para a tradução, “pensa” em futebol. Pode ser melhorada. Todas as correções e sugestões são bem vindas.

[3] Para ter ideia aproximada do que são as “finanças islâmicas” há alguma coisa razoavelmente aproveitável, em português, em: “A brasileira das finanças islâmicas”.
Presidente Lula

[4] Dia 1/1/2007, o presidente Lula assumiu a presidência, para seu segundo mandato. Disse que:

Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de “distribuição de migalhas”. Os que assim pensam não conhecem e não entendem este país. Agora se trata de crescer com pressa, ousadia, coragem e criatividade.

Grande Lula! Grande Dilma! Viva o Brasil!

[5] Acontece operação de bail-in quando, antes de uma falência, os reguladores têm o poder de impor a perda a alguns acionistas e preservar outros de igual estatura – como os detentores de derivativos. Permitindo, em teoria, resolver rapidamente os problemas de instituições doentes, a operação de bail-in removeria a incerteza e ajudaria a dar estabilidade ao sistema financeiro. As operações de bail-in têm enervado os acionistas, porque não são falências tradicionais, para as quais há regras estritas e o processo é supervisionado, com os credores organizados numa sequência, para serem reembolsados e todos têm de ser tratados em condições de igualdade. (Financial Times, Lexicon)