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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quando nos Estados Unidos – “Não consigo escrever!”


19/6/2015, [*] Andre Vltchek – Counterpunch
Tradução mberublue
Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea

Em Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea (Museum of Contemporary Art – MOCA), uma gigantesca bandeira de cores sangrentas ondulava em um vento artificial criado por enormes hélices.
Não havia espectadores para a mostra. Por um instante, pensei que estava sozinho naquele espaço todo. Mas em seguida percebi dois vultos vestidos com roupas negras, movendo-se bem devagar na penumbra, grudados aparentemente em desespero às paredes. Curvados, eles passaram pela livraria, perto de um lugar onde alguém tinha colocado um pequeno cartaz na parede, onde se lia: “Eu não consigo respirar!”
Provavelmente se tratava de uma performance, uma espécie de protesto desesperado de um homem e uma mulher contra aquela bandeira gigantesca que a tudo devora.
Antes de morrer assassinado pelo regime, um homem exclamou: “não posso respirar!”
“Eu não posso escrever!”, pensei. Para mim, isso significa quase o mesmo que não poder respirar.
***
Pela primeira vez em muitos anos, eu não consegui entregar minha coluna, ou continuar meus ensaios, por várias semanas.
Mesmo quando estive preso na República Democrática do Congo, no Quênia, no Senegal, consegui continuar a escrever.
Mesmo depois que um pastor fascista, um evangélico louco pagou aos funcionários do hotel para me envenenar na cidade indonésia de Surabaya, eu continuei escrevendo.
Escrevi em muitas zonas de Guerra e favelas em que grassava o desespero, do Iraque a Mindanao, do Haiti às Ilhas Marshall.
Mas eu não consegui escrever nos Estados Unidos da América. Nem uma linha, ou uma mera palavra. Não agora.
***

Andre Vltchek (E) - palestra em Fresno

Eu falei. Fui convidado a falar e falei em uma grande conferência no Sul da Califórnia, e proferi palestras em encontros sobre paz e oposição em Monterey, San Jose e Fresno.
Fui convidado a falar sobre o meu livro de 1.000 páginas, já um best-seller, “Expondo as mentiras do Império”, onde defino de uma vez por todas minha posição oposicionista em relação ao Império, mostrando os horrores que são cometidos diuturnamente pelo mundo.
Mostrei filmes e excertos de meus filmes na África: em Ruanda, Congo, campos de refugiados somalis e as terríveis favelas de Nairobi.
Fui convidado a mostrar tudo isso e mais, mas no final, um homem se levantou e perguntou: “Por que você está nos mostrando tudo isso?”
“Porque o seu país está matando milhões de pessoas, neste exato momento”, respondi.
Então, com voz suave, ele perguntou novamente: “e você quer que a gente faça o que?”.
No momento em que ele se expressou dessa forma, eu acabava de me recuperar de um monstruoso jetlag, depois de uma viagem de 48 horas vindo da África do Sul, aterrissando na Califórnia apenas um dia antes da apresentação. Na África do Sul, eu estava entre meus camaradas, meus amigos. Tudo era diferente: ali havia uma luta tremenda por um mundo melhor, as pessoas pobres e desvalidas se unindo e enfrentando o governo, a grande UNISA (Universidade da África do Sul) estava profundamente envolvida na luta. Lá, falei no 14º Simpósio Internacional de Contribuição para a Psicologia da Paz. Lá, falei e falei, lutei com vontade, estive envolvido em negociações, estava ajudando um pleno momento de criação de conceitos: de como não pode existir paz se não houver justiça, que sem igualdade social a justiça se torna impossível e que não se pode conseguir atingir o progresso em nenhum lugar do planeta sem confrontar e lutar contra o fascismo e o imperialismo ocidental.
Na Califórnia acontecia o contrário. Tudo era totalmente diferente. Na Califórnia, eu estava só, frente a frente com os rostos frios de multidões hipócritas; pior: multidões convencidas de sua própria superioridade, mesmo quando criticavam, de maneira moderada e “benevolente” as ações homicidas de seu país em incontáveis lugares pelo mundo afora.
“Nada do que nos dizem é verdade”, é a frase que ouvi de várias pessoas, em muitas ocasiões.
Os cidadãos do Império aspiram ser descritas como se fossem eles mesmos as “vítimas”. Será que não acontecia o mesmo na Alemanha Nazista em 1930? Muito provavelmente sim! “A Alemanha derrotada foi castigada com a hiper inflação, teve que pagar reparações, por consequência, era a vítima!” Sentia-se vítima dos Bolcheviques, dos Judeus, dos Franceses, de Roma... Os Estados Unidos, embora não derrotados externamente, foram derrotados internamente. São duas coisas completamente diferentes. Mesmo assim, há similaridades, especialmente na maneira com que o Império trata as “não pessoas”.
Lá do meio do público, alguém perguntou: “Você acredita em culpa ou responsabilidade coletiva?”
“Claro que acredito!”, disparei de volta. “Não se pode negar a responsabilidade e a culpa escancarada do ocidente, da raça branca, do Cristianismo, do Império! Culpa e responsabilidade coletiva pelas milhões de mortes cometidas contra as vítimas definidas como ‘não pessoas’. Vítimas sufocadas com gás, estraçalhadas por bombardeios, mortas à fome, mutiladas... Culpa e responsabilidade coletiva pelo estupro da livre vontade de bilhões de pessoas na África, América Latina, Oriente Médio, Ásia e Oceania. Culpa e responsabilidade coletiva pelo apartheid global em andamento!”
***
Não pude perceber qualquer senso de urgência no Sul da Califórnia; nem em Fresno, Monterey ou San Jose. A vida continua. A vida deles... Sobre outras vidas eles não queriam nem saber. Eles na realidade fazem mesmo é questão de não saber.
Eventualmente eles protestam, para que possam se sentir bem.
Fui empilhando discursos, apresentações e palestras sobre o que eu tinha presenciado no Oriente Médio: guerras perpétuas, destruição de nações inteiras, milhões de corpos empilhados uns sobre os outros. Dei exemplos, exibi filmes. Eu estava oferecendo análises em profundidade sobre a maneira pela qual o ocidente estava antagonizando a China e a Rússia.
Pablo Neruda (1904 - 1973)

Em dado momento, comecei a falar, apaixonadamente, sobre as revoluções na América Latina, sobre poesia e música, sobre as histórias, a beleza quixotesca das rebeliões. Falei sobre poetas como Neruda, Paz, Cardenal e Parra. Eu tentava inflamar, incendiar a multidão. Então, de repente, senti que algo estava profundamente errado... Havia um silêncio sepulcral. Olhei para a multidão em frente a mim: a maior parte da “multidão” consistia de mulheres com idade acima de 80 anos, algumas em cadeiras de rodas, várias delas dormindo.
“Os jovens daqui são introspectivos…” me disseram. “Não é fácil fazer com que se interessem...”
Dia após dia eu me questionava: o que estou fazendo aqui, dentro do país responsável por milhões de assassinatos em massa mundo afora. Eu mesmo estava ficando insano cada vez mais, a cada dia, como os vários editores de publicações da pseudo-esquerda tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, que pregam ao mundo que as pessoas na Espanha, Grécia e nos Estados Unidos na realidade sofrem muito, quase tanto como os bilhões de “não pessoas” em todo o mundo? Como se a maioria deles não fosse, apesar de tudo, recebedores de tremendos privilégios pagos pelo sangue e pela vida de africanos, asiáticos e árabes. Não, eu ainda sabia quem são as verdadeiras vítimas! Eu ainda sabia o que estava acontecendo na realidade! Eu precisava dar o fora do país, o mais rápido que pudesse!
Tudo era uma tremenda de uma bobagem aqui; “sentir-se bem” era uma coisa ôca! Movimentos pela paz... movimentos quase sem negros, muito poucos hispânicos ou asiáticos! Nenhum deles estava comprando nada disso. Eles sabem muito bem que aquilo não era para eles.
Era muito claro que as pessoas com as quais eu me encontrava não queriam saber de mudança alguma. Eles sequer querem obter “conhecimento”. Para quem quer, o conhecimento está à disposição, na RT, no CounterPunch, em todos os lugares, realmente, em toda a parte! Mas se obtiver conhecimento, ninguém mais poderá alegar que não sabia; saber significa a obrigação de agir!
***
Quase não há revolucionários de esquerda nos Estados Unidos ou na Europa, apenas as massas moralmente mortas, sem emoção, insinceras, egoístas que morrem de medo de perder seus privilégios. Os militantes da direita pelo menos são honestos!
O regime, claro, se aproveita da situação. Ele dá sustentação plena para esse estado de coisas. Acabaram por se tornar interdependentes, os governos e as massas, ambos egoístas e hipócritas; estão no mesmo barco. Não é por outra razão que os partidos fascistas nunca se apeiam do poder: quase todos os habitantes dos Estados Unidos e da Europa desejam que a exploração e o estupro do resto do mundo continue como está!
Pode alguém, qualquer um, acreditar que a massa em protesto na Espanha ou na Grécia está lutando alguma batalha internacionalista, lutas pela humanidade? Ou eles lutam apenas pela manutenção de seus privilégios sociais e econômicos? Esses mesmo privilégios nos quais eles estavam nadando a braçadas há apenas uma ou duas décadas, e que consistiam de doações ou subsídios, enquanto milhões daqueles que o ocidente considera como “não pessoas” no mundo pobre estão sendo espoliados e sacrificados, para que os norte-americanos e europeus vagabundos nos Estados Unidos e na Europa possa viver com qualidade de vida, só porque nasceram brancos e “no lugar certo”?
Movimento 15M-2015 (Espanha)

A esquerda se perdeu tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Clara e vergonhosamente, se perdeu. Mas mesmo agora, ainda é tão arrogante que tenta arrostar países como a China ou Rússia com o seu ar cristão e ocidental de superioridade; tem o atrevimento de tentar permanecer no direito de decidir se a China ou a África do Sul são, de fato, socialistas ou comunistas ou, para usar um mote da propaganda enganosa que grassa no ocidente, “ainda mais capitalistas que o ocidente”.
Durante as duas semanas que fiquei na Califórnia, não detectei qualquer sinal de remorso. Quando mostrei e expliquei como milhões de pessoas foram mortas pelo imperialismo ocidental, as pessoas diziam, compungidas: “nossa, que coisa horrível!”. Só o faziam porque foram treinadas para reagir dessa forma. Mas não havia qualquer determinação para mudar essas coisas nem qualquer sentimento real.
Para onde quer que eu fosse, me sentia fora do lugar. Esperava-se que eu “me adequasse”. Foi-me dito que não mostrasse tantas imagens chocantes, porque as pessoas eram “muito sensíveis”! Eventualmente, decidi não mostrar mais nada, nem imagens nem filmes. Estabeleceu-se que eu deveria ser educado. Enquanto isso, tudo o que eu queria era gritar insultos na face daquelas pessoas cheias de direitos, homens e mulheres, que nada mais faziam que seguir uma odiosa tradição cristã: ignorar o mal real, fazer alguma coisinha de bom, tudo para que pudessem ter algum crédito para enfrentar uma suposta eternidade.
Enquanto isso continuei a ouvir os mesmos velhos clichês sobre a paz e a democracia. Alguns esperavam a justiça e o fim das guerras, mas agarrando-se desesperadamente aos símbolos do Império, ao legado de seus colaboradores, como Vaclav Havel, o Papa João Paulo II, o Dalai Lama e Madre Teresa...
Eu não só não podia respirar, mas tinha perdido também a capacidade de escrever. A raiva crescia como um edifício dentro de mim. A raiva era sufocante, me estrangulava. Era uma raiva insalubre, improdutiva, misturada com frustração! Não era como a raiva sagrada que sente aquela pessoa que parte para uma luta contra o mal. A raiva se estabelecia de uma forma também mesquinha, indescritível e patética. Ela me sufocava e humilhava ao extremo.
Terminei odiando a luta que enfrentava ali.
***
Tentei olhar para a realidade que me cercava com olhos diferentes, mas para onde quer que olhasse, via apenas uma cultura e um país em colapso, triste e disfuncional.

Estrada na California

Dirigi por estradas esburacadas, cheia de solavancos, embarquei em um sistema ferroviário primitivo. Encontrei as pessoas, as quais não estavam absolutamente interessadas em trabalhar ou em melhorar o país. Fui confrontado com o individualismo, com o egoísmo. Vi pessoas que claramente se odiavam profundamente, mas pretendiam ser cheias de cortesia e preocupação uns com os outros.
Mas bastava que se fizesse um movimento errado. A explosão viria a seguir.
Vi um país onde não mais existiam os valores positivos e sentimentos humanos mais básicos.
***
Estar inserido neste tipo de sociedade é extremamente humilhante. Tentei mandar uma caixa pelo correio. No posto dos Correios de Clermont, fui obrigado a refazer a embalagem por três vezes, porque nas duas vezes anteriores, a caixa não era a correta (só o chefe do posto dos Correios de Clermont sabia qual era a caixa correta, mas ele jamais se daria ao trabalho de me explicar). Na estação ferroviária, uma mulher que estava parada, apenas batucando em seu Smartfone me explicou que os bilhetes para a viagem de trem não são vendidos na estação. Tive que sair para o sol inclemente, tentando comprar de uma máquina automática de vendas de bilhetes. O sol não me deixou ver nada e voltei para dentro da estação e pedi novamente. “Se quiser, você pode ligar para a Companhia e reclamar”, me disseram. “Nesse caso, posso comprar o bilhete a bordo do trem?” “Não!” “E tem mais: se você embarcar no trem sem o bilhete, você pode ser preso”.
Tudo começou já na minha chegada. Depois de viajar durante 48 horas desde a África do Sul para o sul da Califórnia, carregado com filmes e livros para a conferência, não havia ninguém me esperando no aeroporto. Então, tive que tomar um táxi. Acontece que no lugar onde eu deveria supostamente ficar, também não havia ninguém esperando. Tive que ficar na rua esperando por mais de uma hora. Dias depois, tendo viajado para outro lugar, a pessoa que deveria estar me esperando para me pegar só chegou duas horas depois. Quando comentei o fato em voz normal, ele começou a gritar: “quem sabe você quer ir a pé?”.
Não que eu esperasse qualquer coisa de bom dos habitantes de um país que esta neste mesmo instante assassinando milhões de pessoas, mas a arrogância que encontrei foi uma coisa alucinante. Pior: não se trata apenas da arrogância já conhecida do pessoal da segurança nos aeroportos. Estou falando da arrogância que vem de cidadãos comuns dos Estados Unidos.
Sou Branca!

Foi fácil detectar também uma inacreditável perda de disciplina. Na China ou no Vietnã, assim como na Índia, as pessoas seriam demitidas apenas por usar o tom de voz e as posturas adotadas pelos empregados norte-americanos. Ouvi muitas vezes coisas como “não queremos acabar tratados como os trabalhadores asiáticos”. “Ótimo!” respondi eu. “Muito bem! Mas não espere que os trabalhadores pelo mundo afora que trabalham muitas horas extras se guiem pela sua moleza”. Tal atitude, que beleza, um luxo!
Ao partir dos Estados Unidos para o Equador, tentei fazer o check-in da bagagem para meu destino final. A funcionária da companhia Delta sequer fazia ideia de onde fica Quito, e era visível que às 5h 20’ ela não fazia questão nenhuma de aprender. Assim ela fez a checagem da bagagem apenas até o México, e quando eu protestei (afinal de contas, eu teria que fazer outra checagem da bagagem na alfândega mexicana, arrastando as malas para lá e para cá) ela começou a vomitar um monte de normas, inventadas na hora. Insisti. Ela chamou o supervisor. Este determinou que ela fizesse a checagem até meu destino final, Quito. Ocorre que ela não tinha a menor ideia de como fazer isso. Tornou-se apologética? Nem pensar. Quanto mais tempo demorou, mais implicante e teimosa ela se ficou.
Obviamente, a única coisa que o Império aprendeu foi como matar “não pessoas” a longa distância, e como ficar no controle remotamente.
Os cidadãos do Império dos Estados Unidos passam o tempo a reclamar que seus privilégios estão desaparecendo. Bem, na realidade eles estão evanescendo, mas grande parte deles ainda está lá. Fora dos Estados Unidos, nenhum país poderia sobreviver com trabalhadores tão sem ética e de tão baixa performance.
No ocidente, “ser de esquerda” significa sacrificar ainda mais os trabalhadores já brutalmente explorados lá fora, para manter os privilégios absurdos dos ocidentais.
Para nós, em vez disso, a esquerda significa “internacionalismo”.
Essas duas visões não só não se complementam, como são antagônicas. As metas da esquerda no Equador ou na Venezuela sofreriam grande prejuízo, se as esquerdas dos Estados Unidos e Europa tivessem sucesso.
O colonialismo nunca morre!
O apartheid nunca foi desmantelado. Apenas se tornou global. A escravidão continua, embora com outros nomes.
Se assim não fosse, como poderiam os Estados Unidos sobreviver na sua forma hoje em dia?
***
Nestas duas semanas em que estive nos EUA, conheci alguns dos maiores pensadores que aqui vivem: Michael Parenti e John Cobb. Tempos atrás, eu trabalhava juntamente com Michael em dois livros, um dele e outro meu, mas era a primeira vez em que o via face a face. Discuti o cristianismo com John Cobb, tentando definir onde se encontra escondida a codificação que permite as mais horríveis atrocidades que são cometidas em nome da cruz. Foi uma discussão filosófica profunda que deveremos converter brevemente em um novo livro.

Andre Vltchek e Michael Parenti (D)

Tive ainda o prazer de passar uma tarde prazerosa em Los Angeles, com o editor do CounterPunch. Joshua Frank e sua companheira Chelsea, pessoas de bom coração e que sabem ser divertidos para os convidados.
Viajei e trabalhei em conjunto com Dan Yaseen, um ativista dedicado do rádio, e sua parceira Camille.
Sim, é claro que existem pessoas brilhantes, boas e devotadas vivendo nos Estados Unidos. Mas mesmo eles sabem e admitem que seu grupo é muito pequeno frente o tamanho do país, e também pequeno para fazer parar os crimes que o Império continua a cometer.
***
Deixei o país muitos anos atrás. Saí de New York, que foi a minha casa por mais de uma década. Nunca retornei, a não ser para o lançamento de maus livros e filmes, e para ver alguns amigos. Nunca fiquei por longo tempo. Desta vez, por duas semanas, foi a mais longa estadia por anos.
Esta visita me quebrou. Fiquei fortemente deprimido e exausto.
Pude ver claramente como uma grotesca pseudo-moralidade, conceitos religiosos repugnantes e a hipocrisia que influenciou e arruinou estados clientes e nações inteiras, no mundo inteiro, especialmente na Ásia e na África.
Sim, acredito em culpa coletiva. Como tenho cidadania norte-americana, carrego esta culpa. Portanto, trabalho sem parar, não para deixar minha consciência limpa, mas para tentar estancar a loucura.
Estou convencido de que o ocidente, a raça branca e seus lacaios no estrangeiro, não tem o direito de governar este planeta. Vi o suficiente para cristalizar minha convicção.
Tristeza em Los Angeles

O ocidente acabou e sua cultura está morta. O que ainda resta, além de não atrair, é realmente horrível. Não há coração, não existe compaixão nem criatividade. Aqueles bilhões de pessoas fora do território ocidental não deveriam estar morrendo enquanto são forçados a apoiar o individualismo agressivo pós cristão, pós cruzadas colonialistas além do fascismo dos Estados Unidos e da Europa.
***
Durante aquelas duas semanas horríveis, a minha habilidade de escrever entrou em colapso, mas apenas até o momento em que o trem de pouso do avião em que eu me encontrava viajando para o sul, em direção à América Latina perdeu o contato com a pista de decolagem do aeroporto de Salt Lake City.
Em seguida, tudo voltou ao normal. Os motores rugiam e eu abri meu Mac e comecei a teclar. Até o momento de desembarcar na Cidade do México, fui capaz de escrever a metade deste ensaio. Em Quito, cercado pelo calor e pela bondade das pessoas locais, na maioria indígenas, me senti mais uma vez forte e feliz. Comecei então a escrever; mais uma vez, eu era capaz de escrever.
Sobrevivi.
O pesadelo tinha chegado ao fim.
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[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: “Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles”). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

sexta-feira, 27 de março de 2015

A seca épica da Califórnia: só resta um ano de água

25/3/2015, [*] Ellen Brown, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Comentário-pergunta entreouvido na Padaria Alentejo aqui perto de casa: Será que o Alckmin e os DEMOTUCANOS também governam a Califórnia (EUA)? Será que eles também cooptaram o Judiciário e a Mídia dos EUA? Incrível o poder dessa tchurma!


Jack Nicholson e Faye Dunaway (Chinatown-1975)
As guerras pela água limitada que há na Califórnia já duram, no mínimo, um século. Guerras da água já foram temas de filmes de sucesso, dentre os quais “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), com Gregory Peck, de 1958; “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), de Clint Eastwood, em 1985; Waterworld, de Kevin Costner, 1995; e, de 2005, Batman Begins. O mais aclamado foi o vencedor do Oscar de 1975, Chinatown com Jack Nicholson e Faye Dunaway, uma trama entre um político corrupto de Los Angeles e especuladores de terra, para fabricar a seca de 1937 e forçar os fazendeiros a venderem suas terras a preços baixos. A trama baseou-se num fato histórico, mostrando as batalhas entre os fazendeiros de Owens Valley e as construtoras que erguiam Los Angeles, pelos direitos da água.

Hoje, a guerra da água prossegue, em escala ainda maior, com novos atores. Já não se trata só de fazendeiros contra os rancheiros ou os urbanites. Agora, é o povo contra os novos “barões da água” – Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Monsanto, a família Bush & sua gangue – que estão comprando água em todo o planeta num ritmo sem precedentes.

Uma seca de proporções épicas

Kevin de Leon
Numa conferência de imprensa dia 19/3/2015, o presidente interino da assembleia estadual da Califórnia, Kevin de Leon, alertou que: 

Nenhuma crise é hoje mais grave, para nosso estado, que a falta de água.

Jay Famiglietti, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em La Cañada Flintridge, Califórnia, escreveu, no Los Angeles Times, dia 12 /3/2015:

Nesse momento, o Estado da Califórnia tem água para mais um ano em seus reservatórios, nossa reserva estratégica está sendo rapidamente consumida. A Califórnia não tem plano de contingência para uma seca prolongada como essa (muito menos para uma mega-seca de 20 anos ou mais), exceto, ao que parece, declarar estado de emergência e rezar pedindo chuva.

Mapas indicam que as áreas da Califórnia mais duramente atingidas pela mega-seca são as áreas nas quais é cultivada uma grande porcentagem do que os norte-americanos comem. A Califórnia fornece 50% da comida do país, e mais alimentos orgânicos que qualquer outro estado. Western Growers estima que, no ano passado, 500 mil acres de terra agricultável foi deixada sem semear, área que pode aumentar em cerca de 40% esse ano. E na agricultura desapareceram 17 mil empregos, no ano passado; e mais, em 2015.

Tulare Lake, Central Valley - California
(clique na imagem para aumentar)
Fazendeiros com contratos com o Central Valley Project, um vasto sistema federal de irrigação, não receberão água pelo segundo ano consecutivo, segundo as previsões preliminares. Cidades e indústrias receberão 25% dos totais contratados, para garantir abastecimento suficiente para segurança e garantia da saúde pública. Além do racionamento, há o problema dos resíduos tóxicos lançados nas bacias de água, por empresas de petróleo que extraem pelo sistema de fracking. Economistas estimam o custo da seca, em 2014, em US$ 2,2 bilhões.

Não há plano de contingência

O projeto Delta, de um túnel gigante de água, concebido para pôr fim aos problemas de fornecimento de água do sul da Califórnia, aspirando água do norte, foi adiado em agosto/2014, em função de reclamações de residentes em Delta e de proprietários de terras. O projeto continua parado, enquanto o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia revisa cerca de 30 mil petições/manifestações. Quando ou se o projeto chegar a ser afinal implementado, demorará anos para concluir a construção, a um custo estimado de US$ 60 bilhões, incluídos os custos de financiamento (mais altos que o da construção).

Christina Sarich
Enquanto isso, não se vê qualquer busca por alternativas que aumentem a oferta de água, além dos limitados recursos de água subterrânea. Por que não? Observadores céticos observam que a água já é chamada de “próxima boom-commodity”. Para Christina Sarich, escrevendo em NationOfChange.org,

Numerosas empresas já se posicionaram para lucrar com a crise de falta d’água. Em vez de proteger as reservas existentes, implementar regulações estritas e trabalhar para inventar novos meios para captar água de chuva ou dessalinizar água do mar, a agenda empresarial corporativa está pronta, como cascavel enrolada, para ganhar trilhões com a nossa sede.

Essas cascavéis enroladas incluem Monsanto e outras empresas de biotecnologia, que estão desenvolvendo sementes resistentes a seca e resistentes ao alumínio, à espera para dar o bote quando os plantadores de produtos orgânicos jogarem a toalha. Pequenos e grandes produtores de leite e derivados orgânicos foram os mais duramente atingidos pela seca, porque as pastagens certificadas onde as vacas têm de ser alimentadas estão desaparecendo.

Jack Nicholson em cena de "Chinatown"
Alguns críticos sugerem que, como em Chinatown, a seca é obra humana, disparada não só pela quantidade jamais vista de emissões de carbono, mas também por “geoengenharia” – disparar alumínio e outros particulados nas nuvens para, à primeira vista, bloquear a terra contra o aquecimento global (embora possa haver outros motivos).

Dia 15/2/2015, Ken Caldeira, do Carnegie Institute for Science em Stanford  observou que a geoengenharia é o único modo conhecido para resfriar rapidamente a Terra. Para ele,

(...) uma pequena frota de aviões consegue fazer o que fazem os vulcões – criar uma camada de micropartículas na atmosfera, que reflete a luz do sol de volta ao espaço. Resfriar a terra por esse método pode ser rápido, barato e fácil.

Mas a mesma técnica também impede a formação de chuvas. Segundo a patente EUA #6315213, registrada pelo exército dos EUA dia 13/11/2002,

O polímero é disperso dentro da nuvem e o vento da tempestade agita a mistura, o que leva o polímero a absorver a chuva. Essa reação forma uma substância gelatinosa que se precipita. O processo diminui a capacidade de a nuvem produzir chuva.

Observadores mais desconfiados perguntam-se se tudo isso não seria parte de um plano maior. Christina Sarich observa que, enquanto o estado passa sede, alternativas para aumentar o suprimento de água permanecem na gaveta:

Engenheiros químicos no MIT já mostraram como é possível dessalinizar água do mar – eletrodiálise, com potencial para tornar potável a água do mar,  mais depressa e a menor preço, sem remover contaminantes como sujeiras e bactérias; e há nanofiltros baratos que podem filtrar micróbios e produtos químicos da água para consumo humano. Para o designer Arturo Vittori, a solução para a catástrofe da água não está em altas tecnologias, mas numa cesta gigante que coleta água potável do ar, por condensação.
Esquema de Dessalinização da água

Mobilizando águas subterrâneas

Outro recurso que permanece sem ser mobilizado é a própria água “primária” da Califórnia – água recentemente produzida por processos químicos no interior da Terra que jamais foram parte do ciclo hidrológico de superfície. Essa água é criada quando há condições adequadas para que o oxigênio possa combinar-se ao hidrogênio e é continuadamente empurrada para cima, sob grandes pressões do interior da Terra, e chega à superfície onde encontra fissuras ou falhas. Essa água pode aparecer em qualquer ponto do planeta. É a água que flui nos poços em oásis no deserto, onde não há nem chuvas nem nascentes de montanhas que os alimentem.

Estudo comentado na revista Scientific American de março de 2014 fala da presença documentada de vastas quantidades de água acumulada nas profundidades do planeta, gerada, não por chuva de superfície, mas por pressões ativas naquelas profundidades. O estudo confirmou que

(...) há muito, muito grande quantidade de água retida numa camada realmente distinta, na Terra profunda (...), ali acumulada em quantidade que se aproxima da que há atualmente nos oceanos do mundo.

Em dezembro de 2014, BBC News noticiou os resultados de um estudo apresentado na reunião de outono da American Geophysical Union, no qual pesquisadores estimam que há mais água retida na crosta profunda da Terra, que em todos os seus rios, pântanos e lagos somados. Pesquisadores japoneses já haviam divulgado resultados de pesquisas, naScience de março de 2002, segundo os quais o manto mais profundo pode conter cinco vezes mais água que os oceanos da superfície do planeta.

Provas dramáticas de que terremotos podem liberar água das profundezas da Terra apareceram em agosto passado, quando o vale Napa sofreu terremoto de magnitude 6.0. Solano County recebeu, repentinamente, um novo fluxo massivo de água em ravinas locais, inclusive um fluxo noticiado de 200 mil galões/dia, só de Wild Horse Creek. Esses fluxos aumentados permanecem ativos, intrigando pesquisadores que visitaram a área.

 Napa Valley - Wild Horse Creek
De onde estaria vindo aquela enorme quantidade de água? Se estava sendo liberada de algum aquífero raso, algo teria de preencher o volume da água que saía, à razão de mil galões/minuto – mais de dez vezes acima do fluxo de antes do terremoto. Seriam de esperar desabamentos massivos, mas não houve relato de qualquer desabamento. Evidentemente aquelas águas novas estavam subindo de fontes muito mais profundas, libertadas por fendas criadas pelo terremoto.

É o que diz Pal Pauer do Instituto de Águas Primárias, e dos maiores especialistas mundiais em mobilização de águas primárias. Depois de décadas de estudos de águas primárias, e projetos bem-sucedidos de perfuração, Pauer demonstrou que essa abundante fonte de água pode ser acessada, para suplementar nossa atual oferta de água. A água primária pode ser diretamente mobilizada, ou pode ser encontrada misturada a água secundária (e.g. aquíferos) alimentada por fontes atmosféricas.

Técnicas novas e sofisticadas, que usam dados de satélites e aeronaves de pesquisa geofísica permitem localizar água subterrânea a água primária em rochas, por um processo chamado “fracture trace mapping”, pelo qual se identificam grandes fraturas mediante análise de dados recolhidos das aeronaves e satélites para perfuração exploratória.

Pauer insiste que é possível perfurar um poço suficiente para atender uma comunidade inteira, gerando grandes volumes de água, em apenas dois ou três dias, ao custo de cerca de US$ 100 mil. Todo o Estado da Califórnia poderia ser suprido por cerca de US$ 800 milhões – menos de 2% do que custa o muito controverso projeto Delta de túneis de água – e esse resultado poderia ser alcançado sem roubar do norte, para dar de beber ao sul.

As Guerras da Água Continuam

Sucessivos governos da Califórnia têm-se mantido indiferentes a essas propostas. Em vez de qualquer pesquisa ou discussão complementar, o estado decidiu regular a água subterrânea. Em setembro, foram aprovadas três leis que estabelecem o quadro geral da regulação das fontes subterrâneas de água da Califórnia, evento que marcou a primeira vez na história do estado em que se faz algum manuseio em grande escala da água subterrânea. Até agora, a nova lei está considerando essa água como um bem protegido por direitos de propriedade.The Los Angeles Times noticiou:

Muitos interesses da agricultura continuam a fazer ferrenha oposição à nova lei. Paul Wenger, presidente da California Farm Bureau Federation, disse queas leis podem vir a ser vistas como “históricas” pelas razões erradas, dado que agridem drasticamente a produção de alimentos. (...)

Vai realmente começar uma luta de vale-tudo na disputa pela propriedade da água, disse Patterson [Deputado representante de Fresno na Assembleia], que previu que os planos da regulação vão disparar uma enxurrada de ações judiciais.

E assim prosseguem as guerras da água. O Banco Mundial adotou recentemente uma política de privatização da água, com fixação de preços para o comércio do recurso.

Folson Lake (California)
(clique na imagem para aumentar)
Para Ismail Serageldin, um dos ex-diretores da instituição,

(...) as guerras do século XXI serão guerras pela água.

No filme Chinatown, os oligarcas corruptos levam a melhor. A mensagem parece ser que o direito nada pode contra a violência mais brutal. Mas, armados agora com essa poderosa ferramenta do século XXI, a Internet, que pode gerar consciência nas grandes massas, e também pode produzir ação coordenada, talvez agora, afinal, o direito vença.
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[*] Ellen Brown é advogada, presidente do Public Banking Institute e autora de doze livros, incluindo obest-seller Web of Debt. Em The Public Bank Solution, seu mais recente livro, ela explora modelos bancários públicos bem-sucedidos, historicamente e no mundo.
Seus sites são: