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terça-feira, 26 de maio de 2015

Onda grega de “antiausteridade” (é antiarrocho) implica dramáticas novas dificuldades para a Espanha


25/5/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Portugal ANTIARROCHO!
Semana passada, em Forças da esquerda portuguesa expõem-se à fúria da troika (ing.) destacamos o Partido Socialista de Portugal, que aparece à frente nas pesquisas para as eleições previstas para outubro, e que prometeu aplicar uma “política reversa”, no que tenha a ver com “austeridade” e com credores do país. Argumentamos naquele postado que a ascensão de partidos políticos de esquerda em toda a periferia significa que a Europa adotará linha cada vez mais dura nas negociações com a Grécia. Eis o que lá escrevemos:

A razão pela qual concessões (quaisquer concessões) aos gregos são absolutamente impossíveis e não acontecerão nas negociações em Atenas é que o FMI, a Comissão Europeia e mais especialmente a Alemanha querem disparar mensagem clara a quaisquer ‘radicais esquerdistas’ que talvez estejam pensando em usar a rotina do “um passo, e a ideia da indissolubilidade da União Monetária Europeia faz o resto” como meio para negociar e obter mais espaço para respirar contra as medidas da “austeridade”: vocês chegarão precisamente a lugar nenhum e, até lá, comerão o pão que o diabo amassou.

Com apenas dez dias até 5/6/2015, quando vence uma dívida com o FMI que Atenas com certeza quase absoluta não conseguirá saldar a menos que acerte alguma coisa para receber mais fundos de resgate, as coisas estão ficando bem mais interessantes no front político, depois que o Partido Popular da Espanha sofreu golpe eleitoral dramático no domingo, que lhe aplicaram os partidos Podemos de esquerda, e o Ciudadanos de centro-direita. Eis o que diz o Wall Street Journal (para assinantes):

Eleitores espanhóis puniram o Partido Popular (PP) governante nas eleições regionais e municipais, garantindo significativo apoio a dois partidos em ascensão que capitalizaram a fúria contra o alto desemprego, os cortes nos gastos públicos e a corrupção.

Já com praticamente todos os votos contados, vê-se que o partido conservador do Primeiro-Ministro Mariano Rajoy manteve o controle de apenas três, das 13 regiões onde houve ontem eleições para os parlamentos regionais. É o fim da dominação que o partido exercia desde 2011, quando venceu em dez regiões, em oito delas alcançando maioria absoluta.

Apesar de ter alcançado o maior número de votos no plano nacional, o Partido poderá enfrentar duras dificuldades para formar governos funcionais em muitas zonas que antes estavam sob seu controle, inclusive na cidade de Madrid, se não puder contar com o apoio dos partidos menores.

“É brutal sinal de despertar que a sociedade espanhola envia a um partido que usufruiu plena hegemonia em várias partes desse país” – disse Emilio Sáenz-Francés, professor de História e Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Comillas, em Madrid.

Disse que a eleição inaugura uma nova era na política espanhola, forçando humilhados partidos do establishment a recorrer ao toma-lá-dá-cá e a construir coalizões com partidos rivais para garantir a governabilidade.

Num aparente aperitivo do que poderá vir nas eleições nacionais no final do ano, nas quais Rajoy tentará obter um segundo mandato, a fatia dos votos nacionais que cabe ao seu partido caiu 10 pontos percentuais, dos 37% nas eleições locais e regionais de há quatro anos. Os eleitores mudaram-se para dois partidos recém-surgidos, o Podemos, de esquerda; e o Ciudadanos de centro-direita.

"Indignados" acampados na Puerta del Sol - Madri
Em Barcelona, a ativista de movimentos contra a miséria e contra despejos, Ada Colau (que lidera o partido En Comú Barcelona) foi eleita à Prefeitura, no que a nova prefeita chamou de uma vitória “de David contra Golias”; e o PP também fez triste papel em Madrid.

Nas palavras de The Guardian:

Movimentos populares de base de vários partidos políticos de esquerda, inclusive do Podemos, e de milhares de cidadãos, o partido Barcelona En Comú votou pela volta às mãos do povo, do poder de decisão na cidade, prometendo pôr fim aos despejos de moradias familiares, aumentar as oportunidades de moradia pública e redistribuir a riqueza da cidade. O partido de Colau elegeu 11 das 41 cadeiras com direito a voto no Conselho Municipal, o que significa que a nova Prefeita terá de formar alianças para conseguir governar.

Em Madrid, o Partido Popular não está seguro de controlar o poder, na capital que dominou nos últimos vinte anos.

A candidata do PP, Esperanza Aguirre, 63, que é condessa por casamento, saiu à frente, na eleição do domingo, e conseguiu 21 cadeiras com voto no Conselho da cidade.

Aguirre é considerada linha-dura; com campanha milionária, conseguiu chegar à frente por pequena diferença de votos, da segunda colocada, a “indignada” Manuela Carmena, da coalizão Ahora Madrid apoiada pelo  Podemos.

Os resultados sugerem que agora começará a construção das coalizões, processo que será provavelmente complicado, porque alguns eleitores podem sentir-se traídos, se o Podemos ou o Ciudadanos for visto como em “cooperação” com seus rivais.


The NY Times resumindo tudo:

Mas as eleições [na Espanha] não produziram o resultado claro, de candidato eleito sem contestação de há quatro anos, quando o Partido Popular conservador chegou ao poder, quando os eleitores optaram por castigar os socialistas por terem afundado a Espanha numa crise econômica. Diferente disso, a eleição do domingo verá, com os futuros desdobramentos, um tenso processo de negociações em Madrid para construir coalizão capaz de governar, seja em Madrid seja em grande parte do resto da Espanha.

As eleições foram vistas como um termômetro para que o PP governante e o primeiro-ministro Mariano Rajoy possam aferir as próprias chances de vencer nas eleições gerais do final do corrente ano.

Apesar de o Partido Popular ter recebido maior quantidade de votos, segundo os primeiros resultados perdeu a maioria parlamentar com que contava, na maioria, se não em todas, as províncias da Espanha. Esse revés torna provável que os partidos de esquerda venham a unir forças nas próximas semanas, para afastar o Partido Popular e formar governos de coalizão.

...e Barclays acrescenta nuances à construção de coalizões:

Entendemos que nenhum dos dois novos partidos, Podemos e Ciudadanos, tem interesse em coalizões com o PP ou com o PSOE no próximo mandato. Como já dissemos, esses partidos poderiam ser castigados pelos eleitores se formarem coalizões e assumirem compromissos para as eleições gerais que acontecerão no outono. Além disso, os dois partidos concorreram apoiados em plataformas fortes, contra a corrupção, e portanto estarão demarcando linhas vermelhas muito rígidas nessas questões, para que possam apoiar qualquer dos dois partidos tradicionais. Mas uma diferença crucial entre os novos partidos é que Ciudadanos talvez se interesse por coalizões, com o PP ou com o PSOE, uma vez que a agenda política de Ciudadanos pode estar mais próxima dos partidos tradicionais, se comparada à agenda do Podemos. É altamente improvável que Podemos venha a coligar-se com o conservador PP …

O desdobramento mais importante das eleições regionais e municipais do fim de semana na Espanha (24/5/2015) só o veremos nos próximos dias/semanas, no comportamento dos quatro principais partidos (PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos), uma vez que os resultados oferecem poucas maiorias absolutas. Esses quatro partidos terão de se engajar em complexas conversas com vista a coalizões. Podemos e Ciudadanos talvez demarquem “linhas vermelhas” se se coligarem com PP e PSOE.

Na verdade, em alguns casos, podem escolher deixar que governos minoritários governem, se as coalizões implicarem custo político alto demais para os parceiros minoritários das coalizões, e pouco tempo antes das eleições gerais em Nov/Dec 2015 (a data exata ainda não está marcada).

Pablo Iglesias - Podemos
Os resultados indicam que a paciência está-se acabando, ante 25% de desemprego e arrocho (“austeridade”) crescente. Imaginamos que haverá umas poucas discussões a portas fechadas entre as “instituições”, agora que parece muitíssimo provável que a Espanha elegerá quem lhe faça as promessas eleitorais que levaram o Partido Syriza ao poder, na Grécia, no início de 2015.

Nesse quadro, ainda mais difícil se torna que os gregos obtenham qualquer concessão na mesa de negociações, dado que a troika cuidará de ser extremamente cuidadosa sobre o tipo de mensagem que enviará aos novos “socialistas ascendentes” do mesmo bloco monetário.

Para que ninguém esqueça, o Gráfico abaixo mostra a relação Dívida/PIB na Espanha, nação pesadamente endividada da periferia da União Europeia (“Fauxterity” que se lê no gráfico, é algo como “falsa-falsa-austeridade”, mas nem isso é porque todas as “austeridades” são falsas: esse é o gráfico do ARROCHO na Espanha).

Espanha - Relação Dívida/PIB (1996 - 2014)

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[*] Tyler Durden é nome de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club(Clube de Luta).e pseudônimo coletivo dos redatores de notícia “que contribuem” para o site e agregador de conteúdos Zero Hedge, especializado em relatórios sobre Economia, Wall Street e Setor Financeiro.

domingo, 17 de maio de 2015

Espanha: Guerra de trincheiras e estratégia eleitoral

3/5/2015, [*] Pablo Iglesias (candidato do PODEMOS – partido espanhol)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pablo Iglesias - PODEMOS, Espanha


Dos “Comentários de Leitores”, na mesma página:
●– Não esqueçam a origem de vocês.
●– Não esqueçam que para mudança real é preciso recuperar a alegria.
●– Não aceitem os debatem inúteis que a TV propõe.
●– À TV só interessa impedir que vocês falem e sujar qualquer coisa que vocês digam ou façam.



Nos parágrafos mais míticos de seus Cadernos do Cárcere, Antonio Gramsci refletia sobre as estratégias de guerra da Iª Guerra Mundial, posição e manobra, para entender a política no ocidente. Na política ocidental, a guerra de manobra (o assalto) perderia a relevância ante uma complexa guerra de posições na qual o Estado já não seria mais que a trincheira avançada do conjunto de fortificações da sociedade civil.

A política da guerra de trincheiras é a luta pela hegemonia. Diferentes do que pensam muitos, Gramsci não criou o conceito de “hegemonia”, que já estava presente nas reflexões de socialistas russos que Gramsci conheceu, inclusive em alguns textos do Komintern. Mas Gramsci foi o primeiro a entender a hegemonia, não como a necessidade das organizações socialistas liderarem setores subalternos diferentes da classe operária ou de se aliarem a setores da burguesia, mas, isso sim, como o conjunto de mecanismos culturais sobre os quais repousa a ordem política nas sociedades avançadas.

Gramsci voltou a Maquiavel, pai da política como ciência do poder, para entender a importância do consentimento. É que o poder, nas sociedades avançadas, não se manifesta só mediante mecanismos coercitivos, mas – e predominantemente – mediante o consentimento e o consenso.

A explicação de por que as reflexões de Gramsci resistiram tão bem ao tempo, convertendo-se em referência para todas as esquerdas, inclusive para algumas direitas letradas, é que a política ocidental, depois que se consolidaram os sistemas democráticos e seus Estados, é, basicamente, a política “de hegemonia”.

Os setores dominantes “têm a hegemonia”, quando têm a capacidade orgânica [têm os meios orgânicos indispensáveis] para convencer as maiorias da sociedade da veracidade dos relatos que justificam e explicam a ordem política vigente.

Os dispositivos de convencimento são basicamente culturais (a escola e a Igreja são os exemplos clássicos; os meios de comunicação são o exemplo do nosso tempo) e servem para implantar as chaves para a interpretação de todos os relatos ditos “hegemônicos”. Obter a vitória na política “de hegemonia” é, basicamente, ser capaz de convencer os demais da veracidade da própria narrativa.

Nos períodos de estabilidade política (geralmente associados à estabilidade econômica), a narrativa hegemônica é quase inexpugnável. Mas quando se produzem crises orgânicas, abre-se a oportunidade de

(I) questionar mediante a guerra de trincheiras, ou de manobra, todos os relatos dominantes; e, por isso, de que
(II) se produzam mudanças políticas.

movimento 15M mostrou que há uma crise orgânica na Espanha, questionando os relatos políticos oficiais e expondo-se como a melhor expressão social da crise.

Movimento 15M - Madri, Espanha
PODEMOS tem sido, até agora, a melhor expressão política dessa crise, conseguindo impor novas interpretações da situação e novas possibilidades de transformação, mediante o protagonismo dos setores subalternos (o povo). Temos conseguido introduzir a palavra “casta” no idioma político espanhol, para designar as elites políticas e econômicas, é bom exemplo da política de PODEMOS, que se dedica a construir uma nova hegemonia; nossa política que visa a construir um novo relato da crise e nova forma para superá-la.

A luta por ocupar o centro do tabuleiro é, precisamente, a luta pela capacidade para determinar onde, exatamente, está o centro do tabuleiro.

Como dissemos em artigo anterior, se conseguirmos situar o centro na necessidade de democratizar a economia, há chances de PODEMOS ser eleito. Ao contrário, se o centro for situado em outros parâmetros (a mera regeneração ou nova troca das elites, dentro das próprias elites) os setores dominantes terão mostrado sua capacidade para resistir.

Nos momentos de crise orgânica, as campanhas eleitorais são uma guerra de trincheiras simplificada. As campanhas representam o momento ou da glória ou do fracasso dos estrategistas políticos que se engalfinham para conseguir impor o próprio relato sobre a base de consensos mutáveis e mutantes, no dificílimo entorno dos meios de comunicação, que são, eles também, operadores políticos não neutros.

Essa campanha que começa agora é guerra de trincheiras pela imposição de um relato político. De como se imponha um ou outro, dependerão, em boa medida, os resultados finais, dado que quase a metade dos eleitores ainda não decidiram em quem votar.

Movimento 15M - INDIGNADOS
Que devemos fazer? A primeira tarefa, antes de se pôr a perseguir o adversário, é observar seus movimentos. Que narrativa eles estão tentando impor? Dirão que PODEMOS está-se esvaindo nas pesquisas, que basicamente há quatro aspirantes ao [palácio de] Moncloa, que o problema fundamental desses comícios são os pactos pós-eleitoriais num cenário instável de muitos partidos, que a Espanha é país de classes médias e que as maiorias sociais são moderadas.

Basta examinar o passado próximo, para comprovar que o êxito político e social do regime de 1978 dependia de relato muito parecido a esse, que se traduziu no estrepitoso fracasso do possibilismo eurocomunista e na moderação de um Partido Socialista que, ao chegar o comando do Estado, poderia ter ido muito mais longe.

Hoje, a narrativa dos nossos adversários dirá que PODEMOS foi protagonista da ruptura, mas que não será protagonista da mudança. Alguns cartunistas têm repetido a mesma coisa, com a lucidez própria dos caçadores e inventores de narrativas.

O que, então, temos de dizer nessa campanha? Em primeiro lugar, que PODEMOS nasceu para ganhar as eleições gerais e que nenhuma batalha prévia, por importante que seja, vai-nos distrair da batalha principal. Temos de dizer que não haverá mudança sem ruptura e que, portanto, quem se aliar a nós terá de romper com as políticas que nos levaram ao desastre.

Nessas eleições não há quatro opções, há duas: ou mudar, ou continuar com o de sempre. PODEMOS não está só no projeto de mudança; na cidade de Madrid, a mudança chama-se Manuela Carmena; em Barcelona, Ada Colau. E nossa mão está estendida para todos que sejam pela mudança, que significa defender o que é público e os direitos sociais.

Por isso PODEMOS defende a unidade popular e é instrumento para a unidade popular. É preciso dizer que hoje 13 milhões de espanhóis estão ameaçados pela miséria; que 1/3 dos assalariados recebem apenas 645 euros/mês; que quase a metade dos desempregados não recebe nenhum tipo de serviço público. As maiorias sociais não aspiram a uma segunda moradia, nem a três carros na garagem. Só aspiram a escolas públicas e a hospitais públicos ; a moradia digna ; a não atarem a própria vida a uma hipoteca infindável ; e a um salário decente.

Movimento 15M - 2015
Na Espanha não há maioria social moderada, há um povo que se recusa a humilhar-se e tem bem claro quem são seus inimigos: as elites políticas e econômicas que assaltam o povo espanhol e enriqueceram à custa dele.

Temos de explicar que nosso programa é o programa da mudança, precisamente porque se centra em resgatar os cidadãos, em transformar o modelo de produção, em favorecer o emprego de boa qualidade e com direitos, em promover a inovação tecnológica e em criar instituições que protejam a democracia contra a corrupção e o assalto à propriedade pública.

A guerra de trincheiras está começando. O adversário deseja que nos deixemos guiar pelos movimentos dele. Temos de forçá-lo a seguir os nossos movimentos, fazendo o que melhor sabemos fazer: dizer as verdades que outros não têm coragem para dizer, dizê-las sem meias palavras, por incômodas que sejam para as elites.

Nada temos a ganhar com nos fazer parecidos com o inimigo. Só temos a ganhar nos parecendo cada vez mais conosco mesmos.
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[*] Pablo Iglesias é professor de Ciência Política na Universidad Complutense, onde também estudou Direito. Depois de doutorar-se especializou-se em Humanidades na Universidad Carlos III e em filosofía dos meios e da comunicação na European Graduate School. Anima um programa de discussão política, La TuerKa, que muitos consideram o mais crítico da TV espanhola.

domingo, 22 de março de 2015

Espanha: “Só há dignidade com o povo no poder”


Marcha da Dignidade, Madrid


21/3/2015, Red Network, Workers’s World
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Marcha da Dignidade percorreu 600 km até chegar em Madri, onde reuniu mais de 2 milhões de manifestantes

Mais uma vez exigimos que os que causaram a crise paguem por ela.

Uma dívida impagável nos esmaga, nós, que sofremos todos os dias a mais insuportável insegurança no trabalho; a privatização e o desmanche da saúde e da educação; o adiamento da idade mínima para aposentadoria; o fim da ajuda para dependentes; e nossos milhões de desempregados que valem menos que nada, para os que estão no poder.

As medidas de arrocho [orig. “austeridade”] e os cortes estão sendo usados para pagar uma dívida que foi gerada para salvar a gangue de banqueiros, grandes empresários e seus vassalos na Assembleia Nacional, que jogam xadrez com nossa vida.

Além de encherem os bolsos com o nosso sofrimento, essa gente espera que baixemos a cabeça e, em silêncio, nos deixemos matar. É o que nos recusamos a fazer.

Não estamos absolutamente nem perto de satisfeitos com só ouvir falar de “reestruturação” ou “auditagens” da tal dívida. Não podemos nos deter em meias medidas, quando nossa vida está em jogo, quando não cabe já dúvida alguma de que essa dívida é a causa direta dos despejos criminosos, do desemprego sem fim e do recuo até nos passos modestos que já haviam sido tomados contra a violência doméstica que condena tantas mulheres ao terror e sofrimento diários e à morte.

Decidir que “Não ao pagamento da dívida” não é ‘'encaminhamento técnico'’. É ação que o povo pode tomar, para fazer valer o direito de decidir sobre a própria vida.

Espanha- Marcha da Dignidade (21/3/2015)
(clique na imagem para aumentar)
Em tempos como os que vemos hoje, é compreensível que tantos ainda se iludam com na esperança de que alguma eleição traga alguma “vitória”, que possamos “derrubar o Partido Popular [da direita]” ou “nos livrar do estrato mais rico”. Mas é preciso mais que eleições.

Ninguém dos envolvidos em novas iniciativas eleitorais está falando contra as leis nacionais e europeias que obrigam, antes de qualquer outra medida, a pagar essa dívida ilegítima e criminosa. Não basta qualquer boa vontade. Não basta que um outro seja honesto.

Prova disso é que a vitória do SYRIZA na Grécia não conseguiu impedir nenhuma das medidas que a Troika [Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu] tomou contra o povo grego. Logo se vê quem manda na Grécia: é a ditadura da União Europeia. Essa ‘'democracia'’ não passa de fantasia, de ilusão.

De fato, nem mesmo essa manifestação, embora necessária, é suficiente. Não basta nos juntar e declarar que queremos “Pão, Trabalho e Moradia” – coisas que só serão possíveis depois de já termos decidido não pagar a dívida assassina – ou fazer uma grande e bela manifestação de dignidade.

Como já se viu na Grécia, como se vê todos os dias nas ruas, banqueiros e grandes empresários não desistirão de forrar os próprios bolsos com a nossa boa vontade.

Temos de nos unir, organizar os bairros, as vilas, as cidades, nas empresas e nas escolas e atacarmos todos juntos, um só golpe, todos ao mesmo tempo.

Chegada da Marcha em Madri na manhã de 21/3/2014
Temos de unificar nossas lutas, só o povo unido, só o povo que trabalha e sofre junto, e organizado para lutar junto, conseguirá impor políticas que trabalhem a nosso favor.

Votar não basta. O povo tem de organizar-se. Porque o direito de mandar é direito exclusivo do povo organizado. E então, sim, conseguiremos viver com dignidade.

Red Network, 21/3/2015.

terça-feira, 3 de março de 2015

Tariq Ali: É tempo de a Revolução avançar sobre o Palácio


1/3/2015, [*] Chris Hedges e Tariq AliThruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chantez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute.
Cantem, camaradas! Dentro da noite, a liberdade nos ouve.
(Da Chanson du Partisan, 1943, cantada por Johnny Halliday)


Ver também: 2/3/2015, Eurobancos vs. trabalho grego, redecastorphoto, Michael Hudson em entrevista à rede TRNN.


O novo livro de Tariq Ali é “The Extreme Centre: A Warning”.
[O extremo centro: um alerta]

PRINCETON, N.J. – Tariq Ali é da alta nobreza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo empresarial-empreendedorista. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os imbecis úteis na empresa-imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de cidadania dupla, britânica e paquistanesa, já era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960s. Reza a história que Mick Jagger escreveuStreet Fighting Man (vídeo no fim do parágrafo) depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square dia 17/3/1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.


Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960s, dizendo que foi evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.
 Edward W. Said

Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam à frente do Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado[pensaram eles], o que, diabos, vamos fazer?! − disse ele.

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado abertamente desafiavam os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã.

O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram segmento enorme da população” – disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright.

Mas Ali logo constatou com tristeza: audiências públicas como aquelas nunca mais voltarão acontecer.

Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso, ele disse; e o retrocesso foi completado pela implosão da União Soviética.

Então a elite sentou e disse:

Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa – crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras – é coisa pouca. E gradualmente a oposição democrática retrocedeu.

Os EUA bombardeiam Bagdá  - março/2003
Já no início da Guerra do Iraque, as manifestações de cidadãos, embora grandes, já não passavam de “assunto de 24 horas”.

Antes, havia sido uma tentativa para parar uma guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou – disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque.

Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles nada poderiam fazer; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira vez em que muitos se deram conta de que a própria democracia já fora enfraquecida e estava sendo ameaçada.

A volta do sistema político, já trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder dos empresários e das empresas, a ocupação de toda a empresa-imprensa por um punhado de empresas e empresários para silenciar qualquer oposição, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”.

Os trabalhadores estão sendo cruelmente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas – cenário que se vê em tonalidades dramáticas, hoje, na Grécia. E não há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em neofeudalismo impiedoso, em mundo de patrões e servos.

Esse extremo centro – não importa o partido que o constitua – efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras – disse Ali. – Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Vai-se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas – que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles – como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é homem de esquerda – deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar que há à disposição das elites empresariais e grandes empreiteiras.

Yanis Varoufakis (E) e Alexis Tsipras
Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses no atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder de suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava de cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento – mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O desafio aberto, declarado, disse Ali, e o custo que com certeza custará, é nossa única linha de fuga para nos salvar da tirania das empreiteiras e empresas privadas monstro. Esse custo, de início, será doloroso. Nossos patrões empresários e empreiteiros monstros privados não têm intenção alguma de afrouxar a pegada de suas garras, e a luta será brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment:

(...) lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: “Mas meu Comandante, por que parar nesse ponto?” – e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.

E, Ali acrescenta:

Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.

Movimento dos Indignados (15M) - Espanha

Não sei o que a SYRIZA pensou – diz Ali. – Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia já esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis – se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.

O embate entre os gregos e as elites empresariais e bancárias que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”. [epígrafe]

A União Europeia está pronta para “fazer chover bilhões contra os russos na Ucrânia” – Tariq Ali observa. – Não é absolutamente questão de dinheiro. Eles podem jogar fora quanta merda de dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas não é: a questão é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha]vencer, o segundo, depois de a SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo “Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?”.

Ali disse que sempre se sentiu:

(...) furioso e chocado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em ObamaBarack Obama, disse ele, é presidente imperial e age como tal, não importa que tenha pele de mestiço.

Ali também já há muito desacreditou da política de gêneros que já está dando combustível para uma possível candidatura de Hilária Clinton à Casa Branca, para ser a primeira presidenta mulher nos EUA.  

Hilária Clinton
DonkeyHotey

Minha resposta é “e que merda de diferença faz que seja mulher ou homem?!”– disse ele. Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma?

Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Penso mesmo se será possível ainda criar alguma oposição a tudo isso coisa em escala nacional nos EUA.

Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito.

Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Gente de partido só trabalha com o dinheiro. Às vezes eles já nem veem gente do povo, há anos. É a democracia de cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo.

Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.

Ali disse que teme que, se os norte-americanos algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado das empreiteiras e empresários imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos EUA no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou:

(...) o estado norte-americano fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.

Bomba na Maratona de Boston - Investigação
Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades – disse.Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Essa ideia muito me assustou.

Para Tariq Ali,

(...) quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades norte-americanas nunca tentaram o que se vê hoje, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas doidos. 

Para ele, grupos como Black Lives Matter, [Vida de negro faz diferença], trazem alguma esperança. Vídeo a seguir:


Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-norte-americana – diz Ali. – Foram fisicamente eliminados. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais bem dotados, foram assassinados. Os Black Panthers [Panteras Negras] foram destruídos. Áreas nas quais os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com drogas. Foi ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e

(...) não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.

Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; pouquíssimos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg.

Esse analfabetismo político, diz ele, significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular resposta política mais sofisticada.

Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo? – Ali pergunta. Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas história é problema muito amplo.

Não se consegue entender a emergência da SYRIZA sem compreender a IIª Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o “ocidente” e fez nova guerra, foi obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.


Fui simpático ao movimento Occupy, mas àquela conversa de nada exigir, sem demandas, é inútil – diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é ideia inútil. Tenho grande, enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a coisa alguma. E o mais provável é que metade dos grupos hoje atuantes já estejam infiltrados. Hoje já sabemos quantos havia, de gente do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos, muitos. Nas votações, quem votava era gente do FBI.

Ali disse que:

(...) o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi exemplo de o quanto estamos todos mergulhados num mesmo autoengano, numa mesma autoilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem – que já beira o autismo – produto da propaganda das empresas e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

Edward Snowden
Hollywood deu um prêmio Óscar a Citizenfour, e aí é o mais longe que vai – diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não brotou nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.

Ali previu que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão “Basta!” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos EUA.

Se nada acontecer nos EUA, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será situação muito ruim para todos nós – diz ele. Será a danação para todos, se nada acontecer nos EUA.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.