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domingo, 27 de outubro de 2013

O que o ministro do Qatar disse ao ministro saudita?

Confusão (muita!) na Liga Árabe (e na “oposição” síria)

26/3/2013, [*] Jean Aziz, Al-Akhbar, Beirute [Ed. em inglês - orig. em árabe]

What Did the Qatari Minister Tell His Saudi Counterpart?

Traduzido da edição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Ahmed Moaz al-Khatib, chefe da delegação da "oposição" síria, em discurso na abertura da
reunião de cúpula da Liga Árabe em Doha, dia 26/3/2013. (Foto Karim Sahib, AFP)
Funcionário do governo libanês, familiarizado com os desenvolvimentos regionais, contou que aconteceu uma discussão – que, para ele, ficou entre briga e reprimenda –entre os ministros do Exterior da Arábia Saudita e do Qatar, numa das reuniões que estão acontecendo paralelas à uma conferência internacional para arregimentar apoio armado a grupos da oposição síria.

A discussão focou-se nas causas do fracasso na Síria; teve de tudo: de procurar desculpas a recusar qualquer culpa pelo que aconteceu. O funcionário libanês disse que o ministro saudita vinha adotando tom acusatório, até que ouviu pesada resposta do ministro do Qatar.

Hamad bin Jassim bin Jabr Al Thani,
1º Ministro e Chanceler do Qata
r
Em resumo, o ministro qatari disse que

Nós fizemos tudo na Síria durante dois anos e conseguimos que todo o planeta abraçasse a causa da oposição síria. Você [príncipe Bandar] assumiu, e bastaram dois meses para que todo o planeta se transferisse para o lado de Bashar al-Assad.

Esse parágrafo pode resumir todos os desenvolvimentos na Síria e no Oriente Médio nas últimas semanas ou, mais especificamente, desde que Moscou e Washington firmaram um acordo para destruir as armas químicas da Síria, e começaram a surgir sinais de reaproximação entre os EUA e o Irã.

Mas o curso de todos esses eventos começou, de fato, há uma década, quando os EUA decidiram derrubar Saddam Hussein. Os sauditas apoiaram, mas a Síria opôs-se.

Bandar bin Sultan
Pouco depois da queda de Bagdá, em abril de 2003, começou a tornar-se cada vez mais claro que os sauditas, aliados do vencedor da guerra do Iraque, estavam perdendo no campo político o que tinham suposto, erradamente, que teriam ganho graças à força militar de outros. Simultaneamente, os sírios, que se mantiveram aliados da parte derrotada, começaram a colher benefícios políticos, paralelos aos ganhos geoestratégicos de seus aliados iranianos.

As primeiras semanas do ataque contra a síria podem ser identificadas nesse paradoxo observado naquele momento, sobretudo quando a coalizão dos derrotados começou a aumentar, incluindo George W. Bush, Jacques Chirac e a Casa de Saud e seus aliados no Líbano, os quais tinham muito a ganhar e muito a perder, tanto em Damasco quanto em Beirute.

Assim aconteceu a decisão de tirar do Líbano as forças de Assad – para destruir seus ganhos em Bagdá. Mais uma vez, os sauditas foram convencidos pelo comportamento de seus “delegados” norte-americanos. Mas a coisa durou pouco. Apenas alguns meses depois que o exército sírio saiu do Líbano, dia 26/4/2005, começou a ficar visível que os norte-americanos estavam também se recolhendo aos limites demarcados pelo próprio pragmatismo.

Os sauditas exigiam que os EUA apontassem a pistola para a cabeça da Síria, mas, em vez disso, Bush preferiu seguir uma abordagem de “porrete-e-cenoura”. Os sauditas queriam a “des-Baath-ificação” na Síria, mas os norte-americanos queriam mudar o comportamento do regime, não mudar o próprio regime.

Saud al-Faisal
A violenta resposta dos sauditas a Washington não demorou a aparecer. Como aconteceu outra vez recentemente, dia 20/9/2005 o ministro de Relações Exteriores saudita, Saud al-Faisal, criticou furiosamente o governo dos EUA, em discurso no Conselho de Relações Exteriores em New York City.

Faisal disse então que a política dos EUA no Iraque estava aprofundando divisões sectárias, preparando a balcanização do país, o que poderia levar o Iraque a cair nas mãos do Irã.

A briga entre Riad e Washington por causa do Iraque continuou durante anos, até que surgiu uma ocasião para que os dois países novamente convergissem. O primeiro ponto de convergência entre ambos acontecera no momento de expulsar do Líbano as forças sírias de Assad; o segundo foi o acordo para restaurar o equilíbrio no Iraque, apoiando Iyad Allawi nas eleições de 2010.

Saad al-Hariri
Quando Assad aceitou o projeto Allawi em Bagdá, a coordenação Síria-sauditas começou em Beirute. Todas as questões que envolviam os sauditas no Líbano foram postas na gaveta, inclusive o cargo de primeiro-ministro para Saad al-Hariri, o Tribunal Especial para o Líbano, as armas do Hezbollah e a presença síria – como se dispôs num famoso “documento de concessões” do movimento “14 de Março”, que Walid Jumblatt divulgou dia 21/1/2011, poucas semanas depois de o projeto Allawi estatelar-se contra o muro, em Bagdá.

O timing não foi simples coincidência. De fato, nas últimas semanas de 2010, o eixo Síria-Irã conseguiu, mais uma vez, abortar o sonho saudita. Allawi venceu as eleições no Iraque, mas foi Nouri al-Maliki quem, afinal, constituiu o governo. O eixo Síria-sauditas teve morte súbita em Beirute. E pouco depois começou o “levante” em Damasco. 

Esses são os elementos de uma equação bem ampla que afinal se pôde ver: em 2003, os sauditas perderam o Iraque; os EUA então decidiram garantir-lhes compensação no Líbano e na Síria, pelas perdas sauditas no Iraque. Em 2005, os EUA recuaram em Damasco. Pela terceira vez, sauditas e EUA perdiam: no Líbano, na Síria e no Iraque. Então decidiram virar a mesa toda, de vez, na cadeia central, e derrubar o governo de Assad em Damasco.

Os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

Mas os cálculos no Oriente são seguidamente muito complexos e, talvez, difíceis demais para que os compreendam um cowboy distante ou um beduíno próximo. Os EUA então voltaram à região, com um projeto inspirado, agora, na Primavera Árabe.

Recep Tayyip Erdogan
O projeto, de fato, era ideia bem simples, com roteiro assinado por Recep Tayyip Erdogan da Turquia e dirigido pelos arquitetos dos “levantes coloridos”: entregamos o poder em toda a Região à Fraternidade Muçulmana, e os Irmãos, em troca, atendem três demandas – garantem a segurança de Israel, os interesses dos EUA e a estabilidade dos governos, sem que Washington tenha de pagar a conta.

O trem até que andou bem por esses trilhos nos primeiros tempos, na Tunísia, no Egito e na Líbia, mas a hostilidade dos sauditas contra a Fraternidade Muçulmana os levava a temer que os Irmãos, mais dia menos dia, tomassem o poder nas “cidades de sal” no Golfo.

Os sauditas, contudo, mantiveram-se em silêncio por quase um ano e meio. Opor-se a projeto bem-sucedido é sempre tática não recomendável, e eles se mantiveram recolhidos, até que, afinal, amadureceram as condições para o fracasso do projeto dos EUA.

Dia 11/9/2012, a promessa de proteger os interesses de Washington entrou em colapso em Benghazi, com o assassinato do embaixador dos EUA. Em novembro, a demanda de que a segurança de Israel seria preservada também fracassou, quando irromperam confrontos em Gaza, e o Hamás não conseguiu fazer valer o compromisso firmado entre a Fraternidade Muçulmana e Israel. E, no início de 2013, já era absolutamente evidente que a promessa de estabilidade nos países da Primavera Árabe estava reduzida a simples piada.

Tudo estava maduro para que os sauditas retomassem a iniciativa. Tinham tudo preparado para um contra-ataque, pelo menos desde meados de julho de 2012, quando o príncipe Bandar foi nomeado espião-chefe do reino.

Mohamed Mursi
Por muitos meses, os sauditas haviam feito todo tipo de pressão contra os EUA e os países árabes, persuadindo Washington pela quarta, ou centésima-milionésima vez, a fazer o jogo: Mohamed Mursi fora derrubado. O Qatar fora pacificado. A Turquia fora marginalizada. E Riad assumiu para ela todos os dossiês.

Até aí, parecia que os sauditas teriam triunfado completamente, e só eles, pela primeira vez em décadas. Mas naquele momento, surgiu o acordo das armas químicas, construído por Moscou. O sorriso nuclear de Hassan Rouhani surgiu em New York. E tudo veio abaixo.

É esperável e normal que Riad perca completamente a compostura, a sobriedade e até a razão. Todas as arenas converteram-se em caixas de mensagens a transmitir as objeções e rejeições dos sauditas, de Maaloula a Trípoli; e do Tribunal Especial para o Líbano ao Conselho de Segurança da ONU, com Bandar a esbravejar e berrar, e todos confusos, sem entender o relacionamento com os sauditas: os EUA são lacaios do Reino Saudita, ou é exatamente o contrário?

(...)
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[*] Jean Aziz é jornalista do Al-Monitor e colunista do jornal Al-Akhbar em Beirute; apresentador de um talk show semanal político na OTV, estação de TV libanesa; professor de comunicação social na American University of Technology e na Université Saint-Esprit em Kaslik no Líbano


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pepe Escobar: “Agora, somos todos qataris”

26/6/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online -  The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A imprensa-empresa está curvada em reverência ante o Emir do Qatar, Hamad bin Khalifa al-Thani, 61, que magnanimamente escolheu se autodepor em favor de seu filho, ex-príncipe coroado Tamim bin Hamad al-Thani, 33.

Em discurso de talhe positivamente kennedyesco pela televisão nacional, o emir que parte disse que “é chegado o tempo de virar uma nova página”, para que “uma nova geração avance para assumir a responsabilidade”.

Desnecessário dizer que não ocorre a esses equivalentes ocidentais de velhos líderes tribais de toga branca que se reuniram para jurar fidelidade e beijar a mão do novo patrão, que tanto se curvar ante esse estilo Golfo Persa de “passar o bastão” de emir não eleito para emir não eleito é o mesmo que beijar o bastão que Hafez Assad passou ao filho Bashar al-Assad.

Tamim bin Hamad al-Thani (E)  e Hamad bin Khalifa al-Thani (D)
Por falar nisso, a gangue de oportunistas pagos por Doha, conhecido como Conselho Nacional Sírio uniu-se devidamente à torcida uniformizada, declarando que a passada de bastão foi “pioneira e sem precedentes”. E continuem a comprar e despachar para cá armamento prá lá de pesado, por favor, além daqueles outros representantes dos Amigos da Destruição da Síria.

Na fase atual da globalização Mad Max do pós-capitalismo, “Relações Públicas” é tudo, e a Casa de Thani é campeã em “Relações Públicas”, sempre devidamente distribuídas em inglês. Escondido debaixo do tapete (persa) está o fato de que o Qatar é petromonarquia wahhabista que nada tem de “moderada”, governada como colônia feudal reluzente, onde só 200 mil são qataris, na população de 1,9 milhões de almas.

Esqueçam os trabalhadores braçais da Somália ao Paquistão e do Nepal a Bangladesh que já têm cidadania qatari, além do direito de não poderem deixar o emprego sem uma “autorização de saída” emitida pelo empregador. Esqueçam qualquer coisa assemelhada a benefícios de seguridade social. Aqui, o meu preito de gratidão: todos os acima citados são meus informantes sobre a vida real, cada vez que visito Doha. E ainda nem falei da Anistia Internacional que denuncia tudo aquilo como estado policial – sobretudo contra estrangeiros – que pune o consumo de bebidas alcoólicas e “relações sexuais ilícitas”.

O que pega é que o novo emir – rapaz que fala inglês impecável e já tem duas esposas “consumadas” – está sendo apresentado como “um pragmático”. E, claro, é “dos nossos”, porque foi educado na Academia Militar Sandhurst na Grã-Bretanha (num daqueles falsos cursos de formação que se oferecem lá, para árabes ricos).

O “pragmático” será julgado por uma “potência ocidental” real e várias menores, agora que se apresenta ao Ocidente. Abrir caminho para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, bombardeie a Líbia até convertê-la em estado falido: bom. Armar “rebeldes sírios”: muito bom. Rios de dinheiro e apoio para a Fraternidade Muçulmana por todos os lados: perigoso. Apoiar o Hamás em Gaza: fora de cogitação. Escritório de representação para os Talibã afegãos em Doha: arriscado, sobretudo se os Talibã usarem o escritório para expandir sua rede de doadores ali no Golfo.

Base aérea de Al-Udeid (Qatar)
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Resgatar alguns dos maiores bancos do ocidente: excelente. Vender comboios de petroleiros cheios de gás natural liquefeito: esplêndido. Hospedar o Centcom na base aérea de al-Udeid: imperativo estratégico. Pôr-se na primeira linha contra “a ameaça nuclear iraniana”: um must. Hospedar a Copa do Mundo de 2022, sob calor desumano: meta ar condicionado em todas aquelas “arenas”.

Construir o Shard em Londres (o mais alto arranha-céu da Europa) e comprar a Harrods, Valentino, 26% da Sainsbury, 12,8% da Tiffany, 20% do empresa proprietária do aeroporto de Heathrow, ações da Barclays e a Bolsa de Londres, o clube Paris Saint-Germain de futebol, acres de terra urbana de primeira em Londres e Paris: não nos importa.

Em resumo: britânicos e franceses, particularmente, continuarão abraçados ao novo emir, porque, afinal de contas, o Qatar, inquestionavelmente, é grana só.

Mamãe é que sabe

Sheikha Moza
E há mamãe – Sheikha Moza, maior que a vida, devidamente louvada pelo ocidente como “defensora de direitos das mulheres”, pelo menos do direito de comprar até cair, como presidenta não só da Fundação Qatar – empenhada na “emancipação e educação da mulher árabe” – mas também do fundo de investimentos Qatar Luxury Group. É o tal de poder por trás do trono.

Sheikh Tamim, herdeiro presuntivo há mais de uma década, manifesta fascinante contradição. É visto em Doha como o principal piloto para posicionar o Qatar como portal global. Ao mesmo tempo, é o engenheiro da estratégia da política externa oficial do Qatar – de alinhar-se, seja onde for, com a Fraternidade Muçulmana. Não surpreende que seja simplesmente detestado pela Casa de Saud. Observadores devem comprar bilhetes para a fila do gargarejo para assistir ao arranca-rabo entre o novo emir e a Casa de Saud comandada pelo caquético, semianalfabeto, 88 anos, rei Abdullah. Assento privilegiado é na Síria – onde as facções lutarão com armas cada vez mais letais.

Hamad bin Jassim
Outro subenredo a ser saboreado é o futuro do primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, o anglófilo Sheikh Hamad bin Jassim, também conhecido como HBJ. Esse é alta roda, alta mesmo.

Todos em Doha saben que HBJ está de mudança para Londres, para viver numa penthouse Mil e Uma Noites (estilo Vegas) em One Hyde Park, o prédio residencial mais caro do planeta. HBJ está administrando o multibilionário fundo soberano do Qatar, o Qatar Investment Authority (QIA). De fato, nunca deixou o posto: sempre foi o principal executivo do QIA, o qual, até essa semana era presidido por Tamim. O QIA não distribui informação financeira. E os critérios “diversificados” de investimentos – que abrangem Europa, Ásia e os mercados emergentes – não são transparentes.

Quem liga? E quem liga que seja feudo absoluto da família al-Thani desde meados do século 19? Todos querem ir para o Qatar. Em seis anos, a população dobrou – hoje são 1,9 milhão, e aumentando. A expectativa de vida é de 78 anos – equivalente à dos EUA. Tem o maior PIB per capita do mundo, de mais de US$102 mil (número de 2012, e aumentando); bom para você, se você não for asiático do sul ou sudeste da Ásia, vivendo de trabalho escravo. Imposto sobre a Renda não existe. À prova de Primavera Árabe. À prova, até, de protestos à moda Turquia e Brasil. Democracia? Nada. É o fim da história 2.0. Ah, se todo o planeta fosse um imenso Qatar!