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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pepe Escobar – Obama & Estados do Golfo: Convescote com atlanticistas wahhabistas

16/5/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Fotos: Kevin Lamarque


Barack Obama reúne-se com representantes do CCG (14/5/2015)
A reunião de cúpula do presidente dos EUA Barack Obama com o Conselho de Cooperação do Golfo – CCG, em Camp David, essa semana, cabe melhor nos anais do surrealismo que da geopolítica.

A gangue do petrodólar do CCG – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrain e Omã – clamava por um “acordo de segurança” com Washington similar àquele “relacionamento especial” com Israel. Bem... Não vai acontecer, porque a coisa teria de ser aprovada pelo Congresso, absoluto não-não, considerando que o lobby pró-Israel controla a maioria do Congresso nos EUA.

Não sendo isso, a segunda opção seria espernear para arranjar alguma aliança formal com a OTAN. Ora, já existe praticamente isso mesmo, como na guerra à Líbia, que foi operação OTAN-CCG de fato. Pode-se chamar de atlanticismo wahhabista.

No final, o que com certeza obterão são mais armas norte-americanas cada dia mais caras. Isso sim, é fato consumado: bonança para o complexo industrial-militar – e mais pilhas de instrutores norte-americanos.

Quanto ao bônus extra, é pouco provável. Os sauditas também estão aos berros, querendo um escudo inexpugnável, feito escudo de mísseis de defesa, invencível, que os proteja da “agressão iraniana” Nonsense. Assumindo-se que haja algum acordo nuclear assinado pelo final de julho entre Irã e o P5+1 – do mais alto interesse para EU, China e Rússia – Teerã não só estará “normalizada” no ocidente, mas também receberá massivo influxo de fundos, logo que as sanções sejam levantadas.

Compare isso com a agenda não-dita – especialmente da Casa de Saud, dos falcões nos Emirados e do duro regime do Bahrain, que querem que o Irã continue sob sanção até o dia do Juízo Final, e que permaneça como estado pária perene no ocidente.

Barack Obama: EUA estarão com os Estados
do Golfo, contra “ataques externos”
O que torna tudo ainda mais absurdo é que os gastos militares dos países do CCG somados são muito mais altos que os do Irã. E também há divisões internas. Omã, menos linha dura que os demais membros do CCG, é amigável em relação a Teerã. E os Emirados Árabes Unidos – sobretudo via Dubai – não podem negar que estão vivendo tempos de vacas gordas em investimentos iranianos.

No final, lá veio o ‘'documento final'’ proverbialmente longo, vago, destacando que as partes devem fazer mais manobras militares conjuntas e cooperar em incontáveis campos, inclusive em matéria de mísseis balísticos de defesa. E há planos, também, para acelerar o armamento generalizado de todos. E repetiram sua “unidade” na luta contra ISISISILDaesh.

Cuidado com vassalos que pedem presentes

Não é mistério que o CCG – conveniente pós-apêndice do extinto Império Britânico – leva a palma no que tange a comprar lixo militar por bilhões de dólares e, no caso da Casa de Saud, também no que tange a fixar o preço do petróleo. Muitos dos membros do CCG recebem massivas populações de trabalhadores migrantes – quase todos vindos do sul da Ásia – que superam em número os locais e mal conseguem sobreviver, naquela armadilha suarenta em que caíram, com zero direitos humanos respeitados.

Absurdo extra aí, é Qatar e Arábia Saudita apoiando suas próprias redes, não necessariamente conflitantes, de jihadistas salafista na Síria. A Casa de Saud também disparou “operação cinética” ilegal ao estilo da “Tempestade Decisiva” do Pentágono, de guerra/bombas contra o Iêmen – operação que, reza a mitologia do Departamento de Estado, em termos os mais orwellianos, seria “esforço” ao qual Washington limita-se a “assistir”.

A proverbial histeria da imprensa-empresa comercial norte-americana decidiu que o ISIS/ ISILDaesh pode estar a alguns passos de tomar o Texas ou bombardear New York. Mesmo assim a maioria dos companheiros associados do CCG continuam paranoicos: naquela sua visão de mundo obtusa, a única coisa indispensável é esmagar o falso Califato que empodera o governo de maioria xiita em Bagdá, liderado por Haydar al-Abadi do Partido Da’wa, que ameaça os wahhabistas por serem o que são: intolerantes, armados e perigosos.

Por tudo isso, certo de que nada como um renovado surto de paranoia, e calculando que não sairia de Camp David com os presentes que foi buscar do governo Obama autodescrito como “Não faça merda coisa estúpida”, o novo capo da Casa de Saud, o rei Salman, deu chilique, resolveu não ir e mandar o seu novo príncipe coroado, príncipe Muhammad bin Nayef. Afinal, esse é o homem da hora, na “nova” Casa de Saud, como examinei aqui.

Presidente Obama olha para o Vice-Primeiro Ministro de Omã, Sayyid Fahd bin Mahmoud Al Said (esq.) e para o Emir do Kuwait, Sheikh Sabah Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah (2º à esq.), ao receber representantes das seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em Camp David, Maryland, dia 14/5/2015
Onde está Osama?

E aí, surge o fantasma de Osama bin Laden.

Recente matéria assinada por Seymour Hersh, em que expõe o saco de mentiras da Casa Branca sobre o fim que deram a bin Laden continua a agitar as águas. Muitas das revelações já haviam sido noticiadas em 2011, por outras fontes.

O que emerge é que bin Laden foi inicialmente capturado pelos serviços secretos do Paquistão (ISI) e mantido sob estrita vigilância em Abbottabad desde 2006. Foi denunciado por um ex-alto funcionário da inteligência paquistanesa, que embolsou uma fortuna em troca da informação e vive hoje amoitado, com a família, na Virginia.

Importante jornal paquistanês dedicou-se à história por algum tempo. Em seguida, outro confirmou a identidade do informante.

Tendo assistido à CIA em ação do Af-Pak ao Iraque, não me surpreendi. A CIA jamais encontraria nem um dos cobertores marrons pashtuns de bin Laden, ao contrário do que ensinam mitos fixados por Hollywood, tipo A hora mais escura.

Quanto ao assassinato, foi – como se diz na gíria dos drones em Nevada – simples assassinato rotineiro, assassinato predefinido. Mais uma vez, diferente do que reza o mito, bin Laden não estava armado com sua Kalashnikov nem usou uma de suas esposas como escudo.

Hersh vai direto ao cerne da questão, quando escreve:

Mas o alto nível de mentiras continua a ser o modus operandi da política dos EUA, além das prisões secretas, ataques de dronesraids noturnos de forças especiais e por aí vai.

E elemento chave de todo o imbróglio é – mais uma vez – a longa mão da Casa de Saud. A citação radicalmente importante do artigo, de fonte top da CIA, falando a Hersh:

Os sauditas não queriam que a presença de bin Laden nos fosse revelada, porque ele era saudita; então disseram aos paquistaneses que o mantivessem fora de circulação. Os sauditas temiam que, se nós soubéssemos, pressionaríamos os paquistaneses para que deixassem bin Laden começar a nos contar o que os sauditas andaram fazendo com a Al-Qaeda. Eles estavam fazendo chover dinheiro – muito dinheiro! Os paquistaneses, por sua vez, temiam que os sauditas dessem com a língua nos dentes sobre [os paquistaneses] estarem com bin Laden. O medo era que, se os EUA soubessem de bin Laden por Riad, seria o inferno. Os EUA terem sabido sobre a prisão de bin Laden por um terceiro não foi a pior solução possível.

Examinei aqui por que toda a “guerra ao terror” é fraude. O que a torna a coisa diferente agora é que parece que os verdadeiros Masters of the Universe que comandam o eixo Washington/Wall Street começam a cansar-se da Casa de Saud.

Barack Obama: Patrocinador do terrorismo wahabbista
Agora, até o New York Times tem licença para publicar que:

Apoio saudita à jihad afegã há décadas ajudou a criar a Al-Qaeda.

Até há bem pouco tempo, essa ‘'notícia'’ seria totalmente inadmissível. A mesma matéria também registra que o novo rei Salman

(...) foi homem de ponta da realeza e levantador de fundos para jihadistas a caminho do Afeganistão, da Bósnia, de vários destinos.

Não é coincidência que esse tipo de matéria apareça exatamente quando Salman “esnobou” Obama ao não dar as caras naquele convescote wahhabista-atlanticista em Camp David.

Assim sendo, eis a conclusão: os que pela primeira vez financiaram Osama bin Laden e depois pagaram aos paquistaneses para que o mantivessem fora de circulação, agora querem que Washington lhes dê todos os tipos de “garantias” de segurança, para terem certeza de que permanecerão para sempre no poder. E continuam a ser a matriz ideológica da qual brotam milhares de novos Osamas.

História assim tão inverossímil, só se for verdade.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.




sábado, 21 de junho de 2014

O fiasco ISIS/ISIL: na realidade, um ataque ao Irã

Desta vez não é uma conspiração da CIA?

18/6/2014, [*] Mike Whitney Counterpunch
Traduzido por mberublue


Imprensa-empresa, sempre servindo interesses...
Há alguma coisa que soa em falso em relação à cobertura da crise no Iraque. Talvez a forma pela qual a mídia a retrata, a mesma tediosa história repetidamente contada, com apenas pequenas alterações na narrativa. Por exemplo, eu li um artigo no Financial Times escrito pelo presidente do Conselho de Relações Exteriores, Richard Haass, onde ele diz que as forças militares de Maliki em Mosul “desapareceram”. Curiosamente, o editorial de Haass foi seguido por um artigo de David Gardner, que usou quase a mesma linguagem. Ele disse que “o exército desapareceu”. Daí decidi folhear os jornais um pouco e descobri que muitos outros jornalistas foram picados pelo inseto “desaparecido”. Notei que aconteceu também com vários outros veículos, incluindo Politico, NBC News, News Sentinel, Global Post, The National Interest, ABC News etc.. Agora, a única maneira pela qual uma expressão não comumente usada como essa aparece com tal frequência, é se os diversos autores estivessem buscando suas palavras copiando uma autoridade central (como provavelmente o fizeram). Claro que o efeito foi o contrário do que se pretendia, isto é, estas histórias fabricadas de antemão deixam os leitores a coçar a cabeça e sentindo que alguma coisa suspeita está acontecendo.

Claramente, alguma coisa suspeita ESTÁ acontecendo. Não dá para acreditar em toda essa fábula de que 1.500 jihadistas assustaram 30.000 guardas de segurança iraquianos fazendo-os tirar as calças, jogar seus rifles fora, trocar de roupas e correr para as montanhas. Não sei o que realmente aconteceu em Mosul, mas eu digo a vocês: não foi isso. A história toda está cheirando mal.

Vista aérea de Mosul, às margens do rio Tigre
Tudo o que aconteceu em Mosul cheira mal e então quase todos os jornalistas e peritos do MSM estão usando a história para desacreditar Maliki e sugerindo que talvez o Iraque esteja melhor sem ele. Haass já disse que isso mostra que toda a “lealdade do exército ao governo é só fachada”. Gardner falou que o fato sinaliza “uma rápida falência do estado”. Outro editorial de Nicolas Kristof ataca Maliki por outras razões, como sendo muito sectário.

Aqui, Kristof:

(...) a decadência do Iraque não é uma falha do presidente Obama. Não é uma falha republicana. Eles têm alguma responsabilidade, mas, esmagadoramente maior é a falha do primeiro ministro do Iraque, Nouri Kamal al-Maliki.

Claro que Kristof não se compara ao porta voz imperial, Tom Friedman. Quando se trata de fanfarronices idiotas, Friedman ainda é o número um. Ele é o “jornalista especialista” que pode resumir tudo em apenas um artigo no jornal Sunday Times, intitulado Five principles for Iraq (Cinco princípios para o Iraque – NT):

O próprio primeiro ministro xiita do Iraque, Nouri Kalam al-Maliki, demonstrou que não gostaria de ver um Iraque democrático ou pluralista. Desde o dia 1, ele tem usado seu gabinete para instalar xiitas em postos chaves da segurança, desprezando políticos e generais sunitas e direcionando dinheiro para as comunidades xiitas. Em uma palavra, Maliki se mostrou um completo imbecil. Para além do cargo de primeiro ministro, Maliki também ocupa o Ministério da Defesa, do Interior, e de conselheiro da Segurança Nacional, colocando também seus comparsas no controle do Banco Central e do Ministério das Finanças. Maliki tinha como escolher: fazer um governo sectário ou inclusivo. Ele escolheu o sectarismo. Nada lhe devemos. (Cinco princípios para o Iraque – Tom Friedman, New York Times).

Friedman matou no peito, hein? Falando em outras palavras, a razão pela qual o Iraque se tornou uma bandalheira geral, nada tem a ver com a invasão, a ocupação, os esquadrões da morte, com Abu Ghraib, a opção Salvador, a infraestrutura destruída, o ambiente poluído até as raízes, ou a guerra viciosa e sectária iniciada pelos Estados Unidos através de seu programa maluco de contrainsurgência. Não, não. A razão de ter o Iraque se transformado em lixo é o fato de que Maliki é sectário. Maliki malvado! Soa familiar?

Foi Putin na semana passada. É Maliki nesta semana. Quem será o próximo?

De qualquer forma, existe uma razão para tudo o que aconteceu em Mosul, mesmo que eu não possa verificar a autenticidade. Verifique este post no blog Syria Perspectives:

‘Izzaat Ibraaheem Al-Doori
(...) Teórico de primeira hora do partido Ba’ath e braço direito de Saddam Hussein, ‘Izzaat Ibraaheemn al-Douri, nativo de Mosul (...) procurou aliados em um Iraque pós Saddam muito hostil ... ainda no jogo e procurado para ser executado pelo governo de al-Maliki, al-Douri ainda controla uma vasta rede de sunitas iraquianos do partido Ba’ath que operam de maneira similar à velha Organização Odessa que ajudou a fuga de nazistas depois da Segunda Guerra Mundial (...) ele ainda não tem uma estrutura de apoio necessária para hostilizar e derrubar al-Maliki, então ele fundou uma aliança esdrúxula no ISIS/ISIL através dos gabinetes de Erdogan (Turquia) e Bandar (Arábia Saudita). Nossos leitores podem perceber que a invasão de Mosul foi realizada por antigos oficiais iraquianos ba’atistas, suspeitos de abandonar seus postos, largando para trás uma força militar de 52.000 homens sem qualquer liderança, forçando dessa maneira um completo colapso das defesas da cidade. Não é possível considerar como coincidência o planejamento da ação e a colaboração prestada. (O núcleo do ISIS – uma espécie invasiva – Ziad Fadel, Syrian Perspectives).

Tenho lido variações da mesma explicação em outros blogs, mas não tenho como saber se isso corresponde à verdade ou não. Mas o que sei é que esta explicação é muito mais crível que a outra, porque traz profundidade e detalhes mais que suficientes, tornando o cenário bem plausível. A versão oficial – o “desaparecimento” – não tem nada disso. Ela apenas coloca uma versão fantasiosa na expectativa de que o povo acabe por acreditar, nem que seja na base da fé. Por quê? Só em razão de ter aparecido nos jornais? Pois esta é uma razão muito boa para não acreditar em nada.

A lenda do “exército desaparecendo” é apenas mais uma das muitas versões inconsistentes na apresentação que a imprensa-empresa faz de qualquer evento. Outra charada é a razão pela qual Obama assiste aos jihadistas bagunçarem o Iraque inteiro sem que ele mova uma palha para contê-los. Será mesmo que ninguém acha isso um tanto quanto estranho? Quando foi que um presidente em exercício nos Estados Unidos deixou de responder imediata e duramente a agressão similar?

Nunca. Os Estados Unidos sempre respondem. O padrão nunca muda. “Pare o que você está fazendo agora mesmo, ou vamos bombardeá-lo até que só restem pedacinhos”. Não é essa a resposta típica?

Claro que é. Mas até agora Obama não fez nenhuma ameaça. No lugar disso, ele condicionou seu apoio a al-Maliki ao dizer que o presidente encurralado precisa “começar a acomodar os sunitas através de participação em seu governo” antes que os Estados Unidos possam “dar uma mãozinha”. Que diabos de resposta claudicante é essa? Confira esta nota da MNI News:

O presidente Barak Obama alertou nesta sexta feira (13/6/2014) ao primeiro ministro iraquiano Nouri al-Maliki que os Estados Unidos precisam que ele comece a efetivar a participação sunita em seu governo, ou verão os Estados Unidos parar a ajuda que ele necessita, algumas tropas dos EUA no terreno para prevenir contra um ataque a Bagdá.

Barack Obama e Nouri al-Maliki na Casa Branca
Obama enfatizou, em uma aparição ante as câmaras antes de sua mensagem do meio dia, que, embora esteja considerando as opções para uma intervenção militar nos próximos dias, o movimento inicial deve ser de Maliki. (Obama adverte o Iraque de Maliki, procurando a acomodação de sunitas – MNI)

Alguma vez na vida você já leu absurdo igual? Imagine se, vamos dizer, as hordas jihadistas reunam-se a apenas 50 milhas de Londres e estejam ameaçando invadir a qualquer momento a cidade. Será que Obama dirigiria ao primeiro ministro David Cameron a mesma mensagem?

“Ora, Dave... gostaria mesmo de ajudar vocês, mas antes disso, vocês têm que colocar alguns desses terroristas em seu governo. Tudo bem, Dave? É apenas para mostrar alguma ação afirmativa com os terroristas.”

Parece (e é) uma insanidade, uma loucura, mas é isto que Obama quer que Maliki faça. Então, que se passa? Por que, em vez de ajudar, Obama fica fazendo ultimatos? Talvez a agenda de Obama seja diferente da de Maliki, e os acontecimentos que estão em curso atualmente lhe beneficiem...

É o que parece, com certeza. Basta olhar o que Friedman diz logo em seguida no mesmo artigo. Ajuda a esclarecer algumas coisas. Disse ele:

Pode ser que o Irã, assim como seu astuto comandante da Guarda Revolucionária Força Quds, General Qassem Suleimani, não seja tão esperto, afinal. Foi o Irã que armou seus aliados xiitas com bombas de formato especial que mataram e feriram tantos soldados americanos. O Irã nos quer fora. Também foi o Irã a pressionar Maliki para que não assinasse um tratado com os Estados Unidos que daria às nossas tropas cobertura legal para permanecer no Iraque. O objetivo do Irã era a hegemonia regional. Bem, Suleimani: “A confusão é sua”. Agora suas forças estão dispersas na Síria, Líbano e Iraque, enquanto as nossas estão voltando para casa. Tenha um bom dia. (Cinco princípios para o Iraque, Tom Friedman, New York Times)

Qassem Suleimani
É interessante, não é? Basicamente, Friedman admite finalmente que todo esse fiasco é sobre o Irã, que se tornou o grande vencedor no jogo da guerra do Iraque. Naturalmente, isso irrita profundamente o pessoal em Washington, Tel Aviv e Riad. Como a irritação não tem fim, cozeram este plano pateta para remover Maliki totalmente ou pelo menos cortar rente suas asas. Não é o que está acontecendo? É por isso que Obama aponta uma arma para a cabeça de Maliki e lhe diz que tem que comer um saco de sal antes de ser ajudado pelos Estados Unidos. Porque ele está decidido a enfraquecer a força hegemônica do Irã em Bagdá.

Friedman também aponta que o acordo do Estado das Forças poderia permitir que as tropas americanas permanecessem no Iraque. Como al-Maliki rejeitou o acordo, Washington se enfureceu e preparou o picadeiro para esta última farsa. Por bem ou por mal, Obama quer porque quer reverter essa decisão. É apenas a forma pela qual Washington toca seus negócios, torcendo braços e quebrando pernas. O mundo inteiro sabe disso.

Para entender o que acontece hoje em dia no Iraque, temos que aprender um pouco de história.

Em 2002, a administração Bush encarregou a Rand Corporation “de desenvolver e dar forma a uma estratégia de pacificação de populações muçulmanas nos locais onde os Estados Unidos têm interesses comerciais ou estratégicos”. O plano desenvolvido se chamou “Estratégia dos Estados Unidos para o mundo muçulmano depois de 9/11” – o qual recomendava que os EUA, “alinhem sua política aos grupos xiitas que pretendem mais participação nos governos e mais liberdade política e expressão religiosa. Se esse alinhamento puder ser edificado com sucesso, irá erguer uma barreira contra movimentos radicais islâmicos e construir a fundação de uma posição estável dos Estados Unidos no Oriente Médio”.

Os Bushies
Os Bushies decidiram seguir esse plano maluco que provou ser um erro tático monumental. Ao lançar todo o poder de sua força no apoio aos xiitas, eles dispararam uma rebelião sunita massiva que iniciou cerca de 100 ataques por dia contra soldados dos Estados Unidos. Por sua vez, estes ataques levaram os EUA a uma contrainsurgência selvagem que levou à morte dezenas de milhares de sunitas e reduziu o país a ruínas. Os ataques cruéis de Petraeus se ocultavam por trás da cortina de fumaça de uma enganosa política de Relações Públicas em uma guerra civil sectária. Foi uma guerra genocida contra o mesmo povo que agora Obama tacitamente apoia em Mosul e Tikrit.

Neste caso, houve uma grande mudança da política, certo? O fato de que os EUA têm uma abordagem de ficar longe do ISIS/ISIL parece sugerir que a administração Obama acabou por abandonar a estratégia Rand completamente e neste instante, procura maneiras de apoiar os grupos sunitas em seu esforço para derrubar o regime de Assad em Damasco, enfraquecer o Hezbollah e diminuir o poder do Irã na região. Apesar de ser estratégia ao mesmo tempo implacável e desprezível, ao menos faz algum sentido, na lógica perversa da expansão imperial, o que o plano Rand nunca fez.

O que está acontecendo atualmente no Iraque foi antecipado por Seymour Hersh em 2007, no seu artigo “The Redirection”. (O redirecionamento) O autor Tony Cartalucci, em seu próprio artigo, faz uma ótima resenha desta peça. Diz ele:

Tony Cartalucci
O “redirecionamento”, documentos (...) dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel, na intenção de criar e posicionar extremistas sectários em toda a região para confrontar o Irã, a Síria e o Hezbollah no Líbano. Hersh aponta que estes “extremistas sectários” ou eram a Al Qaeda ou eram vinculados à Al Qaeda. O exército ISIS/ISIL que se move para Bagdá é o resultado final dessa conspiração, um exército que se move e opera com impunidade total, ameaçando derrubar o governo sírio, purgar as forças pró Irã no Iraque e também ameaçando o próprio Irã através de criação de pontes que mantenham a salvo tanto a OTAN quanto a Al Qaeda em paraísos na Turquia, no Norte do Iraque e até as próprias fronteiras iraquianas... Isso é, de fato, uma reinvasão do Iraque para atender a interesses ocidentais − mas desta vez sem a participação direta das forças ocidentais – e sim com uma força ocidental por procuração, da qual o ocidente procura desesperadamente negar qualquer conhecimento ou conexão. (America’s Covert Re-Invasion of Iraq, Tony Cartalucci, Information Clearinghouse)

Devagar vamos chegando ao fundo da questão, certo? Agora talvez já sejamos capazes de identificar a política que guia todos esses eventos. O que sabemos com certeza é que os Estados Unidos precisam quebrar a força iraniana no Iraque. Mas a pergunta é: como eles planejam conseguir isso?

Bem. Eles poderiam se utilizar de seus velhos amigos, os ba’athistas com os quais têm estado em contato desde 2007. Pode até dar certo. Em seguida, para que a mistura tenha credibilidade, terão que adicionar alguns jihadistas.

Bem. Mas significam estes fatos que Obama está apoiando ativamente ao ISIS/ISIL?

Não. Não necessariamente. Outras agências de inteligência já têm conexão com o ISIS/ISIL, que podem não precisar de apoio direto dos EUA. (Nota: muitos analistas dizem que o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham [Islamic State of Iraq and al-Shan – ISIS] recebem generosas doações da Arábia Saudita e Qatar, ambos convictos aliados dos Estados Unidos). De acordo com o London’s Daily Express: “por meio de aliados como a Arábia Saudita e o Qatar, o ocidente (tem) apoiado vários grupos rebeldes que então, se transformaram no ISIS e outras milícias ligadas à Al Qaeda (Daily Teleghraph, 12/06/2014).

O que importa, no que concerne a Obama, é que os objetivos estratégicos do ISIS/ISIL coincidem com os dos Estados Unidos. Ambos querem maior representação política para os sunitas, ambos querem minimizar a influência política do Irã no Iraque e ambos apóiam um plano suave de divisão que o antigo presidente do Conselho de Relações Exteriores, Leslie H. Gelb, chamou de “a única estratégia viável para corrigir o erro histórico (do Iraque) em movimento para a criação de três estados, o que solucionaria a situação: curdos no norte, sunitas no centro e xiitas no sul”. Este é o motivo pelo qual Obama não atacou ainda a milícia, mesmo que tenham marchado até a 50 quilômetros de Bagdá. Ocorre que os EUA se beneficiam com o desenvolvimento da situação até agora.

Áreas do Iraque e da Síria ocupadas pelo ISIS/ISIL
(em vermelho)
Vamos resumir:

Dependendo da situação, o governo dos Estados Unidos, “apóia” ou “não apóia” o terrorismo?
Sim.

As agências de inteligência fornecem armas e apoio logístico às organizações terroristas na Síria?
Sim.

A CIA também?
Sim.

O governo Obama deu sinais de que gostaria de ou se livrar de Maliki ou diminuir de muito o seu poder?
Sim.

Acontece assim porque a atual disposição fortalece a influência regional do Irã?
Sim.

O ISIS/ISIL acabará por invadir Bagdá?
Não. (Trata-se apenas de mero palpite, mas espero que alguma coisa já tenha sido tratada entre a equipe de Obama e os líderes do partido Ba’ath. Caso Bagdá realmente estivesse em perigo, provavelmente Obama agiria de forma diferente, com maior seriedade).

A Síria e o Iraque serão fracionados?
Sim.

O ISIS/ISIL é uma criação da CIA?
Não. De acordo com Ziad Fadel, “ISIS/ISIL é criação de um homem que sozinho jogou com a Al-Qaeda como um iô-iô. Bandar bin Sultan”.

É possível que o ISIS/ISIL receba ordens de Washington?
Provavelmente não, mesmo levando-se em conta que suas ações parecem coincidir com objetivos estratégicos dos EUA. (Este é o ponto!)

A relutância de Obama quanto a lançar um ataque contra o ISIS/ISIL indicam que ele pretende enfraquecer o poder do Irã no Iraque, redesenhar o mapa do Oriente Médio e fazer nascer novas regiões politicamente irrelevantes dominadas por senhores da guerra e líderes tribais?
Sim, sim e sim.


 [*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censoredpor um reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition. 
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Esfacela-se mais uma “frente-contra” inventada pelos EUA

O CCG − Conselho de Cooperação do Golfo RACHOU!

5/3/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comemoração do dia da libertação do Kuwait em 25/2/2014
Há muito tempo os EUA tentam firmar uma frente anti-Irã nos países árabes no Golfo Persa. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), fundado em 1981, incluía Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O braço militar do CCG, o escudo peninsular, foi formado sob orientação dos EUA e como uma grande feira cativa para a venda de armas fabricadas nos EUA:

Gostaríamos de expandir nossa cooperação de segurança com parceiros na região, trabalhando de forma coordenada com o CCG, inclusive mediante a venda de artigos norte-americanos de defesa, através do CCG, como organização. Esse é um passo adiante natural, para melhorar a colaboração EUA-CCG, e permitirá que o CCG adquira capacidades militares críticas, inclusive itens para defesa com mísseis balísticos, segurança marítima e contraterrorismo − disse o secretário de Defesa, Chuck Hagel
...

[Hagel] disse que nos últimos dez anos, a venda de armamento militar avançado dos EUA às nações do CCG alterou o equilíbrio militar a favor do CCG e contra o Irã.

O Conselho de Cooperação do Golfo (antes de "rachar")
Hoje, o CCG rachou:

Arábia Saudita, Bahrain e os Emirados Árabes Unidos retiraram seus embaixadores de Doha, na 4ª-feira (5/3/2014), como protesto contra a interferência do Qatar em seus assuntos internos, anunciaram em declaração conjunta.

Os três países árabes do Golfo tomaram a decisão, depois do que os jornais descreveram como “reunião tempestuosa” em Riad, tarde da noite, na 3ª-feira (4/3/2014), entre os ministros de Relações Exteriores das seis nações que formam o CCG.

Os países do GCC “empreenderam esforços massivos para entenderem-se com o Qatar, em vários níveis, para chegar a uma política unificada (...) para garantir a não interferência, direta ou indireta, nos assuntos internos de cada um dos estados membros” – diz a declaração.

As nações também pediram ao Qatar, apoiador do movimento da Fraternidade Muçulmana, banido na maioria dos estados do Golfo, que “não apoie qualquer partido que ameace a segurança e a estabilidade de qualquer membro do CCG” – citando, em particular, as campanhas pela imprensa contra aqueles membros.

A declaração diz que, apesar de o emir do Qatar , Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, ter-se comprometido com esses princípios, em mini-cúpula realizada em Riad em novembro, com o emir do Kuwait e o monarca saudita, o Qatar não cumpriu o compromisso que assumiu.

Os investimentos do Golfo em empresas do Qatar caíram depois de divulgada a declaração, mas o Qatar ainda tem alguns instrumentos de pressão, porque fornece gás natural aos Emirados Árabes Unidos. Kuwait e Omã, também membros do CCG não convocaram seus embaixadores.

O Qatar não está navegando com segurança no Golfo Pérsico
Qatar e Arábia Saudita vêm lutando pela liderança do “arquivo sírio”, em torno de interpretações ideológicas do Islã, mas também em torno da posição anti-Irã fanática da Arábia Saudita. Omã é outro país que não adere muito firmemente à posição anti-Irã liderada por EUA/sauditas, no CCG. Agora, os EUA têm em mãos mais um grande problema de política exterior.

Os EUA parecem estar falhando em todos os cantos onde tentam unir seus “aliados” em campanha anti-alguém, sob comando dos EUA.

Na Europa, os “aliados” dos EUA discordam quanto a possíveis sanções contra a Rússia, e não seguirão o comando anti-Rússia que os EUA preferem. No sudeste da Ásia, os “aliados” dos EUA, Coreia do Sul e Japão batem cabeça um contra o outro, e não acompanharão os EUA em sua campanha anti-China. Agora, com o CCG rachado, a campanha anti-Irã comandada pelos EUA no Golfo parece também estar fazendo água.

As aspirações de política externa de total dominação pelos EUA enfrentam dificuldades, com os “aliados” cuidando cada vez mais dos próprios interesses, em vez de acompanhar a liderança, tantas vezes lunática, de Washington.

Aí está um fato histórico, que os atores da política exterior em Washington ainda não entenderam.
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Dos COMENTÁRIOS a esse postado:

Ver em:E o Kuwait está fazendo sua rebelião à parte, contra o CCG. (Postado por Mina − Mar 5, 2014 7:27:35 AM)



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of  Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir: