Mostrando postagens com marcador Huffington Post. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Huffington Post. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A maior peregrinação que a humanidade conhece está em marcha, e você nunca ouviu falar dela!

24/11/2014, [*] Sayed Mahdi al-ModarresiHuffington Post (Blog)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Peregrinação do Arbaeen (24/11/2014)
Não é o Hajj muçulmano, nem o Kumbh Mela indu. Conhecida como Arbaeen, é a maior reunião de seres humanos que o mundo conhece. E você provavelmente jamais ouviu falar dela. Não apenas o número de peregrinos excede em várias vezes (vezes cinco!) o número dos que se reúnem em Meca, e é mais significativa, como peregrinação que o Kumbh Mela, que só acontece de três em três anos. Em resumo, a peregrinação de Arbaeen é a maior que o planeta conhece e, anualmente, reúne até 20 milhões de peregrinos. É o equivalente a 60% da população total do Iraque; e aumenta ano após ano.

O mais significativo é que a peregrinação do Arbaeen acontece no mais caótico e perigoso cenário geopolítico do mundo. O “Estado Islâmico”, também conhecido como ISIS ou ISIL ou ainda Daesh, definiu os xiitas como seu inimigo de morte. Portanto, nada enfurece mais o grupo terrorista que a visão de milhões de peregrinos xiitas em marcha para apresentar ao mundo o seu impressionante show de fé.

A peregrinação de Arbaeen tem outro traço específico. É ação religiosa-espiritual dos xiitas, mas sunitas, cristãos, iazidis, zoroastrianos e sabianos também se incorporam à peregrinação como se fossem devotos xiitas. É característica impressionante, dada a natureza sempre exclusiva dos rituais religiosos, e só pode ser interpretada de um modo: as pessoas, independente de cor ou credo, veem o Imã Hussein como símbolo universal, transfronteiras e metarreligioso de liberdade e de compaixão. A seguir vídeo resumo (11 minutos) da Peregrinação de Arbaeen totalmente narrado em inglês:


A causa pela qual você provavelmente nunca ouviu falar dessa peregrinação gigante, tem a ver com o fato de que a imprensa-empresa ocidental é comandada, hoje, por tabloides sensacionalistas, e toda a “grande” imprensa só faz “repercutir” noticiário construído para criar imagem negativa, degradada do Islã.

Se alguns manifestantes anti-imigração circulam em pequenos grupos pelas ruas de Londres, o “evento” logo chega às manchetes. O mesmo tempo de divulgação merece também qualquer marcha pró-democracia em Hong Kong ou contra-Putin na Rússia.

Mas 20 milhões de seres humanos que se põem em macha, em aberto desafio contra o terror e a injustiça, isso não é notícia e não aparece nas telas de televisão no ocidente. Alguma espécie de embargo não oficial sobre o noticiário cobre completamente a peregrinação doArbaeen , apesar de a história dos que a peregrinação rememora ter todos os ingredientes para atrair qualquer “público” televisivo; os números espantosos, a significação política, a mensagem revolucionária, o contexto de tensões e, até, a originalidade... Mas quando, afinal, uma história como aquela consegue chegar às mesas de editores dos grandes jornais e redes, sim, ela gera ondas de impacto e toca todos os povos, em todos os cantos do mundo.

Dentre os incontáveis indivíduos que foram inspirados pela peregrinação do Arbaeen está um jovem australiano que conheci há muitos anos, convertido ao islamismo. Evidentemente, ninguém toma decisão dessa natureza sem longo caminho de aproximação e de reflexão. Então, depois de perguntar, ouvi dele que, com ele, o caminho começara em 2003. Uma noite, ele assistia pela televisão o noticiário, e viu filas infindáveis, de milhões de peregrinos, que andavam em direção a uma cidade sagrada chamada Carbala, cantando um nome de homem que ele nunca havia ouvido: “Hussein”. Pela primeira vez em décadas, num evento televisionado, o mundo estava tendo uma primeira visão do fervor religioso no Iraque.

Derrubado o regime sunita do partido Ba'ath, os telespectadores ocidentais afinal queriam saber como os iraquianos responderiam a novos tempos, livres da perseguição religiosa. A “República do Medo” fora derrubada, e o gênio escapara da garrafa, para sempre. “Onde fica Carbala, e por que tanta gente está na estrada, caminhando para lá?” – contou ele, que se perguntava insistentemente. – “Quem é esse Hussein que inspira tanta gente a desafiar tantos perigos para homenageá-lo, 14 séculos depois de morto?”.

Peregrinação do Arbaeen (24/11/2014)
As cenas daquela matéria de 60 segundos pareceram-lhe especialmente emocionantes, porque eram diferentes de tudo que ele jamais vira. Uma conexão viva e calorosa reunia as pessoas num enxame, atraindo sempre mais e mais peregrinos para o que só se pode descrever como o irresistível campo magnético de Hussein. “Quem queira ver uma religião viva, que respira e caminha, que vá a Carbala” – disse ele.

Como pode um homem que foi morto há 1.396 anos manter-se de tal modo vivo, com presença tão palpável que ainda hoje arrasta milhões para sua causa, gente que assume aquele suplício, como seu próprio suplício? Ninguém se deixa arrastar para disputa alguma (menos ainda para disputa que começou em tempos remotos), a menos que tenha interesse pessoal direto na questão. Por outro lado, se você sente que alguém abraçou a luta pelo seu direito à liberdade, pelo direito que é seu, de ser tratado com justiça, pelo direito seu a viver com dignidade, qualquer ser humano sente que há aí interesse comum, e não é raro que a solidariedade de interesses e desejos alcance o ponto de conversão à fé daquele herói defensor de direitos.

A tragédia final

Hussein, neto do Profeta Maomé, é reverenciado pelos muçulmanos como o “Príncipe dos Mártires”. Foi assassinado em Carbala no dia que passou a ser chamado de Ashura, décimo diz do mês islâmico do Muharram, porque se recusou a jurar fidelidade a Yazid, califa corrupto e tirânico.

Ele, sua família e companheiros foram cercados no deserto por um exército de 30 mil homens, passaram fome e sede, depois foram degolados, narrativa de violência e horror que é recontada dos púlpitos todos os anos, desde o dia do massacre. Os cadáveres foram mutilados. Nas palavras do historiador inglês Edward Gibbon:

Em tempos e climas distantes, a cena da morte trágica de Hussein sempre despertará a simpatia do leitor mais frio.

Os muçulmanos xiitas rememoram a morte de Hussein, especialmente nos dias de Ashura; e depois, 40 dias adiante, no Arbaeen. 40 dias é a duração tradicional do luto em várias tradições muçulmanas. Em 2014, o Arbaeen cai na 6ª-feira, 12 de dezembro.

A longa trilha

Viajei a Carbala, cidade dos meus ancestrais, para ver por mim mesmo por que a cidade é tão impressionante. O que vi ali me provou que até a lente de maior abertura do arsenal tecnológico contemporâneo é ainda estreita demais para capturar o espírito dessa reunião agitada, mas pacífica.

Peregrinação do Arbaeen (2014)
Uma avalanche de homens, mulheres e crianças, mas as mulheres cobertas com véus negros são as que mais se destacam, enche o horizonte de um extremo a outro, até onde a vista alcança. As multidões eram tão imensas que havia bloqueios de centenas de quilômetros.

A distância de quase 690km entre a cidade portuária de Basra, ao sul, e Carbala torna longa a viagem, mesmo de carro; mas é inimaginavelmente árdua, a pé. Os peregrinos caminham durante duas semanas. Gente de todas as idades, ao sol escaldante durante o dia, e sob frio terrível à noite. Caminham por terreno acidentado, coberto de pedras soltas, estradas esburacadas, território vigiado por terroristas, bosques e mangues perigosos. Sem nenhum dos confortos mais básicos, ou equipamento de viagem, os peregrinos carregam pouco, além do amor pelo seu “Mestre Hussein”. Carregam flâmulas e bandeiras com o nome Dele, para fazer lembrar aos próprios peregrinos e ao mundo, o objetivo da peregrinação:

Sem egoísmo! Comparado a Hussein, ninguém vale coisa alguma.
Vida e morte, para mim, são uma e a mesma coisa,
E que seja, se me chamarem de louco!

A mensagem faz lembrar o épico recitado por Abbas, meio-irmão de Hussein e seu homem de confiança, que também foi morto na Batalha de Carbala em 680 dC, quando tentava encontrar água para as crianças sitiadas que morriam de sede. Com a segurança em tal estado que faz do Iraque a principal manchete em todos os jornais e televisões do mundo, não há dúvidas de que esses versos ainda são genuínos, em todos os sentidos.

Almoço grátis... jantar e café da manhã

Um aspecto dessa peregrinação que deixa perplexos os visitantes é a visão de milhares de cozinhas improvisadas, que os moradores de cada região preparam pelos campos, estradas e ruas pelos quais passam os peregrinos. Essas tendas (chamadas  Mawkeb) são pontos nos quais os peregrinos obtêm praticamente tudo de que necessitem. De refeições recém preparadas para comer, a espaço para descansar; telefones para ligações gratuitas para tranquilizar familiares; fraldas para bebês; praticamente tudo de que alguém possa precisar, tudo grátis. De fato, os peregrinos podem viajar sem levar absolutamente coisa alguma para a viagem de mais de 600km, além da roupa do corpo.

Peregrinação do Arbaeen (2014)
Ainda mais curioso é o modo como os peregrinos são convidados para comer e beber. Os organizadores das Mawkeb interceptam o caminho dos peregrinos e suplicam que aceitem suas oferendas, as quais, não raro, incluem pacote completo de serviço digno de reis: massagens nos pés, uma deliciosa refeição quente, um leito para você repousar enquanto suas roupas são lavadas e passadas e devolvidas quando você acorda. Grátis, tudo grátis, é claro.

Para ter algum termo de comparação, considere o seguinte: logo depois do terremoto no Haiti, todo o mundo mobilizado para ajudar, o Programa Mundial de Alimentos da ONU anunciou que entregara 500 mil refeições, no auge do esforço de ajuda. Os militares norte-americanos lançaram sua Operação Resposta Unificada, que reuniu os esforços de todas as agências e anunciou que, durante os cinco meses da catástrofe humanitária no Haiti haviam sido entregues 4,9 milhões de refeições aos haitianos.

Na peregrinação do Arbaeen estamos falando de garantir mais de 50 milhões de refeições por dia, o que dá um total de 700 milhões de refeições até o final da peregrinação, nada financiado por nenhuma ONU ou por organizações de caridade internacional, mas por trabalhadores e agricultores pobres, que passam fome, se preciso for, para que os peregrinos sejam bem atendidos, e economizam durante o ano inteiro, para que os visitantes tenham satisfeitas todas as suas necessidades. Tudo, inclusive a segurança, é feita por combatentes voluntários, que têm um olho no ISIL e outro olho no serviço de garantir a segurança dos peregrinos.

Para saber o que o Islã ensina – diz um coordenador de Mawkebnão olhem para o que fazem poucas centenas de terroristas bárbaros, mas o autossacrifício de que são capazes os milhões e milhões de peregrinos do Arbaeen.

Verdade é que a peregrinação deveria ser incluída no Livro Guinness dos Recordes, em várias categorias: maior reunião anual, mais longa mesa de jantar ininterrupta, maior número de bocas alimentadas gratuitamente, maior grupo de voluntários mobilizados num só evento – e tudo isso feito sob ameaça iminente de suicidas-bomba.

Devoção insuperável

A simples visão das multidões já deixa qualquer um boquiaberto. O que torna o espetáculo ainda mais extraordinário é que, dadas as condições de insegurança sempre crescente, aumenta ainda mais o número de pessoas que se reúnem para marchar e marchar em aberto desafio consciente contra as ameaças terroristas. A peregrinação, portanto, não é mero exercício religioso, mas uma firme declaração de resistência.

Peregrinação do Arbaeen (2014)
Circularam vídeos pela internet mostrando um suicida-bomba que se autoexplode no meio da multidão de peregrinos. Na sequência, a multidão aumentou, cantando:

Se nos cortarem pernas e mãos,
Rastejaremos para as Terras Santas!

Os horrendos ataques a bomba que acontecem sempre, durante todo o ano, quase sempre contra peregrinos xiitas e que fazem número incontável de vítimas, ilustram bem os perigos que os xiitas que vivem no Iraque enfrentam; e a insegurança não diminui. Pois nem a ameaça iminente detém os peregrinos – jovens e velhos, iraquianos e estrangeiros, que fazem, ano a ano, a perigosa jornada até a cidade santa.

Não é fácil para alguém de fora compreender o que inspira os peregrinos. Veem-se mulheres com bebês de colo, velhos em cadeiras de roda, pessoas em muletas, velhos cegos guiados só pelo próprio bastão. Encontrei um pai que andara todo o caminho, a partir de Basra, com o filho doente de paralisia cerebral, que não andava. Durante boa parte do percurso, o pai punha o filho à sua frente, segurado pela cintura e apoiado sobre seus próprios pés e os dois andavam. Dessa matéria prima fazem-se os filmes da “noite do Oscar”, mas Hollywood vive mais interessada em heróis ridículos que em heróis de carne e osso, cujos superpoderes são comprometimento e coragem.

Os que visitam o santuário de Hussein e de seu irmão Abbas não são movidos só por emoção. Cada vez que denunciam a natureza atroz da morte deles, reafirmam o comprometimento com aqueles mesmos ideais.

A primeira coisa que os peregrinos fazem quando chegam ao santuário é recitar o Ziyara, texto sagrado que resume o status de Hussein. No começo, Hussein é chamado “herdeiro de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus”. É proclamação muito profunda. Mostra que a mensagem de Hussein, de verdade, justiça e amor pelos oprimidos, é reconhecida como extensão presente e inseparável de todos os profetas enviados por Deus.

As pessoas vão a Carbala não para se deslumbrar com a paisagem – de tamareiras carregadas, ou para admirar a beleza cenográfica do mausoléu, ou para comprar, viajar, conhecer antigos sítios históricos. As pessoas vão a Carbala para chorar. Para elaborarem um luto antigo e aproximar-se da aura divina que cerca Hussein. Entram chorando no santuário sagrado, lamentando sempre o maior de todos os massacres, o maior ato de sacrifício jamais visto.

Arbaeen em Carbala, vista do santuário (2014)
É como se cada fiel tivesse firmado um laço pessoal com o homem que nunca viram. Falam com ele e chamam seu nome; abraçam o monumento funerário; beijam o chão que leva ao santuário; tocam as paredes e as portas como se toca o rosto de um amigo perdido há muito tempo. É uma visão de proporções épicas. O que motiva essas pessoas é algo que tem de ser compreendido do caráter e do status do Imã Hussein e do relacionamento espiritual que os que o conheceram desenvolveram com sua lenda viva.

Se o mundo compreendesse Hussein, sua mensagem e seu sacrifício, começaria a compreender as raízes ancestrais do ISIS-ISIL e de seu credo de morte e destruição.

Há séculos passados, em Carbala, a humanidade testemunhou a gênese de monstruosidades impensáveis, sem sentido, cuja culminação apareceu personificada nos assassinos de Hussein. Foi a escuridão mais impenetrável versus a Luz Brilhante mais luminosa; uma exibição de vício versus um festival de virtude. Daí vem a potência do espectro de Hussein hoje.

A presença dele está primordialmente entretecida em todas as facetas da vida dos peregrinos. A lenda de Houssein encoraja, dá inspiração, os guerreiros de Houssein são transmutados e convertem-se em homens melhores. Não há obscurantismo ou escuridão programados pela imprensa-empresa que consigam extinguir sua luz.

“Quem é esse Hussein”? Para centenas de milhões de seus seguidores, uma pergunta assim tão profunda, capaz de arrastar para cá pessoas de outras religiões, só pode ser respondida depois de você ter marchado a pé até o santuário de Hussein.
_________________

[*] Sayed Mahdi al-Modarresi é um líder da fé muçulmana, palestrante em Teologia, e autor da obra recém impressa: “Why Muslims Are Weird, and Some Downright Crazy” (Por que os muçulmanos são estranhos e alguns são completamente loucos)

_______________

A seguir 2 vídeos documentários com quase 5 horas de duração (ambos) e algumas legendas em inglês, que mostram várias etapas da Peregrinação do Arbaeen – a maior demonstração de fé religiosa da Humanidade:


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Poder dos EUA no exterior evapora

16/7/2014, [*] Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Era uma vez, nem faz muito tempo, quando a capacidade do governo dos EUA para dirigir a política de outras nações era quase absoluta. Bastava que qualquer presidente dos EUA anunciasse publicamente qualquer política econômica ou militar para outra nação, e os efeitos eram instantâneos.

Os países que recusassem as instruções dos EUA eram declarados “párias”, ou inimigos, e imediatamente postos sob a mira da política externa dos EUA, expostos a receber sanções econômicas ou invasão militar; líderes desses governos “do mal” eram inevitavelmente declarados “iguais a Hitler”.

Essas nações tipo “eixo do mal” eram, então, exceções. Hoje, parecem “lançadoras de tendências”. Os “policiais” do mundo estão vendo suas instruções cada dia mais ostensivamente ignoradas, enquanto várias nações já cospem desafiadoramente na cara dos tais “policiais”.

Mas, como qualquer ditador−gorila com longa folha corrida de brutalidades, o governo dos EUA de modo algum aceitará conformado esse seu novo destino de potência de segunda classe, enquanto a recriação da nova ordem internacional exacerba tensões globais, com nações emergentes competindo por influência em países mais pobres que, em tempos passados, prestavam vassalagem aos EUA.

O sinal mais palpável da fraqueza dos EUA é a política norte-americana para a Rússia. O Departamento de Estado de Obama prometeu sanções “dolorosas” contra a política da Rússia na Ucrânia; mas os EUA já não conseguem nem arranhar de leve. Para realmente “doer” economicamente na Rússia, os EUA precisariam que seus aliados europeus obedecessem; e esses, precisamente, estão dando as costas aos planos anti-Rússia de Obama.


Não só [os países do G-7] não deram sinal algum de desejar esnobar o presidente da Rússia, como desejava os Sr. Obama, como, de fato, sequer manifestaram interesse em manter os esforços para isolar o Kremlin. Chamou a atenção, sobretudo, o governo francês, que repetiu que, sim, dará andamento ao negócio de $1,6 bilhões, da venda de navios de guerra a Moscou, e que, sim, treinará 400 marinheiros russos na França ao longo desse mês. E outros líderes europeus foram cautelosos sobre demarcar novas ‘linhas vermelhas’ e ameaçar novas sanções contra a Rússia.

O governo dos EUA meteu os pés pelas mãos, então, contra o governo francês. Quando a França não desistiu da venda de armas à Rússia, o governo Obama aplicou multa de US$10 bilhões ao maior banco francês, sob alegação de que teria participado de operações de lavagem de dinheiro.

BNP PARIBAS - Multado em US$ 10 bilhões
A arrogância padrão-Bush, que levou os EUA ao desatino de multar um banco francês, despertou a fúria dos franceses, do governo e da opinião pública, e em nada ajudou a melhorar a imagem dos EUA em outros países europeus. Mas a dominação que os EUA exercem sobre o sistema financeiro global – por causa do status do dólar, como moeda mundial de reserva – que ainda é uma das derradeiras formas de poder dos EUA sobre o mundo – também está perdendo a “pegada”.

Com a França discursando contra os EUA, outro forte aliado europeu, a Alemanha, fez o que, antes, seria impensável: expulsou do país o chefe da inteligência dos EUA (CIA) na Alemanha. O jornal Huffington Post comentou:

O escândalo fez congelarem as relações com Washington, que caíram a temperaturas jamais vistas desde que o predecessor de Angela Merkel opôs-se à invasão do Iraque, em 2003.

O poder dos EUA desabou para profundidades tais, que o governo Obama já não consegue sequer controlar politicamente o Afeganistão, nem mesmo com o país afogado sob o peso descomunal da ocupação militar pelos EUA. As recentes eleições afegãs foram atingidas por denúncias de fraude – mais uma vez! – que ameaçam destroçar ainda mais o país, rompendo completamente a frágil colcha de retalhes de “alianças” que a diplomacia dos EUA vem tentando costurar lá, para manter a aparência de “democracia” e alguma ilusão de “domínio” pelos EUA.

O New York Times ofereceu tímida explicação para os eventos:

(…) os EUA têm hoje muito menos influência que em 2009. Depois de anos de assistir funcionários dos EUA se curvarem ante Karzai, para serem repetidamente desautorizados por ele, já poucos dão crédito às ameaças dos EUA de retirarem as tropas e cortar a ajuda. E cada crise sucessiva por fraudes eleitorais – esse ano é a terceira em cinco anos, incluindo as eleições parlamentares de 2010 — diminuiu ainda mais a fé de muitos afegãos no governo imposto a eles pelos EUA.

Joe Biden
O ruidoso fracasso da política dos EUA no Iraque está encobrindo o resultado ainda parcial de erros igualmente ruidosos também na Síria. A influência dos EUA no Iraque é tão fraca, que o establishment norte-americano parece aprovar a total fragmentação do Iraque, que foi a “solução” dos EUA para a Iugoslávia: criar nações menores, divididas por etnias e mais fáceis de controlar. O velho plano do vice-presidente Joe Biden para o Iraque é grande passo naquela direção, que Obama parece estar tentando implementar até hoje, mesmo que nada diga sobre isso.

O erro ainda maior que os EUA cometeram na Síria foi talvez ainda mais comprometedor contra o poder dos EUA que o “casamento” dos EUA com os ditadores do Golfo para financiar e armar grupos extremistas fundamentalistas sunitas.

Quando Obama inventou aquela tal “linha vermelha” e inventou também que a Síria a teria “infringido” – o que jamais passou de deslavada mentira do quilate das armas de destruição em massa que nunca existiram no Iraque – mas nada fez como reação real, o mundo logo viu. Ameaças só ameaçam, se seguidas por atos e consequências, e os EUA foram impotentes para “punir” a Síria, assim como já haviam fracassado no movimento para “disciplinar” a Rússia. Todos os “aliados” que Obama reuniu para castigar a Síria deram-se conta de que os EUA nada fariam; dali em diante, foi-se tornando cada vez mais difícil formar alianças, como se constata hoje contra a Rússia.

"Acho que você usou tudo na Síria"
Obama e a Linha Vermelha
Agora, os EUA já enfrentam uma avalanche de “maus modos”, quando até o pequenino Bahrain já desafia abertamente o poder norte-americano.

O editorial do New York Times sobre o assunto levava o título de A má decisão do Bahrain:

Bahrain pareceria país que de modo algum expulsaria alto diplomata dos EUA sob acusações feitas com estardalhaço, dado que naquele estado do Golfo está ancorada a V Frota da Marinha dos EUA e o país depende da proteção dos EUA para defendê-lo, sobretudo contra ataques do Irã. Pois o Bahrain fez exatamente o que ninguém esperaria que fizesse (...).

Esses atos ultrajantes obrigam a questionar o respeito que o Bahrain demonstra pela aliança com os EUA (...). Até aqui, o governo Obama, que trabalhou para manter os laços com a monarquia apesar de preocupações sobre direitos humanos, respondeu fracamente. Tem de avançar, para deixar claro que tal comportamento é inaceitável.

Bahrain - Ilha no Golfo Pérsico
Principal  base naval dos EUA no Oriente Médio
Com cada vez mais e mais nações a questionar a autoridade dos EUA – aqueles mesmos países passam a gravitar na direção de outras potências – Rússia e China, etc. – que têm mais a oferecer, além de ameaças, sanções, espionagem e venda de armas. É inevitável que o processo em andamento, de deterioração do poder dos EUA, continuará. A questão é até que ponto irá o governo dos EUA, na reação. Superpotências não cedem o próprio status– que hoje gera muitos lucros para as grandes empresas norte-americanas – sem guerra.

Enquanto o governo dos EUA recorre sempre à carta da intervenção militar para tentar manter o próprio poder sobre outros países, os trabalhadores nos EUA têm de organizar-se para falar cada vez mais alto, e exigir que as centenas de bilhões de dólares pagos pelos contribuintes norte-americanos sejam afinal usados para construir e manter escolas, atendimento à saúde dos cidadãos, projetos de infraestrutura e para atender todas as muitas carências da tão longamente negligenciada sociedade civil nos EUA.

[*] Shamus Cooke é trabalhador de Serviço Social, sindicalista e escritor ligado a Workers Action.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Congresso uruguaio votará projeto de lei que autoriza produção doméstica de maconha


Depois de legalizar o aborto...

15/11/2012, Pablo Fernandez, Huffington Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: IMPRESSIONANTE! No Brasil, há “teóricos” [só rindo!] de televisão, até para ensinar a macaquear os ternos de Obama (“Na cola de Obama: escolha o terno certo para seu tipo físico”, Rede Globo, 29/11/2012  [1]). Mas NÃO HÁ jornalismo no Brasil que informe sobre o Uruguai, nosso vizinho de porta.
O jornalismo brasileiro é o pior do mundo.
O jornalismo do Huffington Post não é muito melhor. Na matéria abaixo, suprimimos todos os trechos em que O JORNAL E O JORNALISTA manifestam opiniões exclusivamente deles, representam exclusivamente o pensamento da empresa-imprensa que publica a notícia e não interessam a ninguém mais que a eles mesmos.
Assim, corrigimos o enviesamento doentio, também do jornalismo norte-americano. Lá, como cá, todos os jornalistas “ético-fascistas” defendem a “guerra às drogas” à moda do Departamento de Estado dos EUA, vale dizer: à bala e bem preservados os lucros estratosféricos das grandes empresas privadas do tráfico, que vivem de corromper o Estado e as empresas-imprensa.

Processamento de maconha ou marijuana 
Montevidéu, Uruguai – (...) O projeto de lei que será votado [provavelmente em 2013] no Congresso do Uruguai é mais liberal do que o que foi proposto há meses pelo governo do presidente José Mujica (...). [2]

O projeto, se aprovado, criará um Instituto Nacional Cannabis, com competência para autorizar indivíduos e empresas a produzir e vender maconha para consumo recreacional e medicinal e para usos industriais. Permitirá também o cultivo doméstico de pequenas quantidades de maconha e a a posse do produto para consumo pessoal.

Coletta Youngers
A base do projeto e a mesma: criar mercados controlados pelo Estado. O Estado participa com o quadro legal” – disse à Associated Press Coletta Youngers, especialista em políticas para as drogas do Washington Office para a América Latina, que trabalhou em Montevidéu como assessora dos parlamentares e outros especialistas locais na redação da nova lei. “A principal diferença em relação ao projeto original é que agora se incorporou a possibilidade de cultivo para uso pessoa e criaram-se os “clubes cannabis” (cooperativas de produção e venda), que não havia no projeto inicial”.

A nova lei uruguaia visa a extinguir o mercado ilegal, permitindo que usuários comprem maconha legalmente, sem alimentarem a indústria e o comércio ilegais e violentos, que se servem da maconha para criar dependentes de drogas mais pesadas, como cocaína e seus derivados. (...)

A lei a ser votada permite que qualquer cidadão uruguaio cultive a planta (até seis vasos e produza até 480 g de marijuana por floração) em casa e tenha em seu poder até 40g. As pessoas podem-se unir em grupos legais de até 15 cultivadores e usuários que, juntos, são autorizados a cultivar até 90 plantas e produzir até 7,2 kg por ano. A lei preservará o sigilo quanto à identidade dos compradores.

Vários aspectos da proposta são semelhantes à lei recentemente aprovada no estado do Colorado, EUA, que também permite o cultivo doméstico de seis vasos por floração para consumo pessoal. No estado de Washington, contudo, a lei não permite o cultivo doméstico da planta. As novas leis, em todos os casos, manifestam significativa mudança na opinião pública, sobre a marijuana, disse Youngers.

Pablo Fernandez
O governo uruguaio ainda está pesquisando para definir o melhor modo de implementar as novas leis” – disse Youngers. “Trata-se de um experimento. Nenhum país tentou nada semelhante a isso. O Uruguai entende que precisa de uma lei geral, que demarque o grande contexto, mas o governo quer preservar a máxima flexibilidade para fazer os ajustes que se revelem necessários na prática”. (...)

Juan Vaz, ativista militante pró legalização da maconha no Uruguai, e que trabalhou com os funcionários do governo uruguaio na redação do novo projeto, declarou-se satisfeito com o texto encaminhado ao Congresso, mas disse que preferiria que as cooperativas de plantação de maconha fossem maiores, com mais de 15 membros.

Seja como for” – disse ele – “as coisas estão acontecendo. Muitos detalhes ainda podem ser melhorados, mas vivemos tempos de mudança, para os quais não há receitas prontas. Ninguém, antes, tentou esse caminho”.




Notas dos tradutores
[1] 29/11/2012, TVGlobo, Mais Você, em: “Na cola de Obama e 007: escolha o terno certo para seu tipo físico
[2] Sobre o projeto original, 19/9/2012, Programa de las Americas, Raúl Zibechi em: Uruguay rechaza la “guerra contra las drogas”, (em espanhol).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

As raízes do sucesso do Brasil

2/11/2010, Jeffrey W. Rubin*, Huffington Post – The Roots of Brazil's Success

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A importante e sólida vitória de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais do domingo passado confirma a exemplar trajetória do Brasil, a partir da ditadura militar dos anos 1970s, até se converter na pujante democracia que é hoje. Exportações em expansão, eleições disputadas com plena transparência, e índices entusiasmantes de redução da pobreza, o Brasil continua a dar passos importantes no caminho de tornar-se potência mundial. E domingo o Brasil elegeu uma mulher, ex-combatente da resistência à ditadura e membro do Partido dos Trabalhadores, de tendências de esquerda. Tudo isso faz do Brasil moderno uma história de desenvolvimento bem sucedido em plena era da globalização, pleno de conteúdo político e de importantes lições históricas.

Um hemisfério com mais países com trajetória semelhante à do Brasil pode alterar todo o mapa geopolítico do mundo. A América Latina está demonstrando que democracia e respeito crescente aos direitos humanos podem conviver em harmonia com crescimento econômico – se houver projeto para incluir os mais pobres e as minorias. Nasce aí um projeto de desenvolvimento com características seculares e de não-violência, que pode ganhar impulso global.

Se esse projeto tiver de nascer e prosperar sem a dominação dos EUA, mas com os EUA como base complementar de poder político e cooperação econômica ao sul do canal do Panamá, então o projeto de modernidade secular pode ser resgatado do controle histórico que EUA e a Europa sempre tiveram sobre ele. De fato, ao promover a União das Nações Latino-Americanas (Unasul) e ao oferecer suporte econômico para os vizinhos Bolívia e Paraguai, o presidente Lula, que ainda governa, já deu passos significativos naquela direção, com o que o país já está plenamente qualificado para ocupar lugar no Conselho de Segurança da ONU.

(...) Vários analistas lembram que é preciso tempo para aprofundar reformas que, afinal, reduzam a desigualdade, melhorem a educação e controlem a destruição do meio ambiente. Mas só o crescimento econômico já ajudou a melhorar os padrões de vida dos mais pobres e liberou o governo propriamente político para, afinal, começar a cuidar dos problemas de raiz. Resultado disso, economistas, políticos e especialistas em política latino-americana e brasileira nos EUA já começam a projetar para o futuro os sucessos que o Brasil já alcançou. Vários têm partido da experiência bem-sucedida no Brasil, para extrair dessa experiência a lição de que a globalização pode ser dirigida – por tecnocratas democraticamente empenhados e comprometidos com governos democráticos – para que produza, ao mesmo tempo, ganhos mensuráveis nos lucros das exportações e estabilidade eleitoral.

Mas seria ingenuidade supor que alguma economia crescerá por muito tempo antes da próxima crise econômica. E tampouco se deve imaginar que algum novo sistema democrático tem décadas de tempo para reduzir a miséria e a violência antes do próximo levante, da próxima onda de violência, ou da próxima intervenção militar suposta necessária para impor a ordem. Por isso é tão importante entender as origens do sucesso do Brasil, para que se construam políticas que permitam que as reformas econômica e política sejam reformas sustentáveis.

O Brasil é hoje uma história de sucesso na América Latina por várias razões que raramente se avaliam adequadamente.

Primeiro, a transição até a democracia, no Brasil, foi acompanhada por inúmeros e importantes movimentos de base, em vários casos, movimentos de ativismo radical. Aquele ativismo modelou a Constituição aprovada em 1988, que garante a descentralização de recursos e a participação dos movimentos sociais na construção das políticas. Amplos movimentos feministas, pela preservação do meio ambiente, pela distribuição de terras, pela agricultura familiar, de defesa das minorias homoafetivas, e os movimentos de favelas nos centros urbanos, que se espalharam pelo Brasil nos anos 1980s e 1990s também ajudaram a modelar profundamente o modo como os cidadãos brasileiros se foram democratizando e redemocratizando – como que para mostrar também a eles mesmos que a discussão política se fazia nas ruas, tanto quanto nas instituições formais, e que era preciso agir simultaneamente nas duas frentes.

Segundo, a transição brasileira para a democracia foi “gradual”, iniciada ainda no período em que os militares permaneciam no poder, pela emergência de um novo partido político, o Partido dos Trabalhadores (PT). Muito significativamente, o PT autodefiniu-se como partido de esquerda radical, mas que, já de início, rejeitou o leninismo e o comando político de URSS e de Cuba. Desde o nascimento, o PT deu destaque às práticas democráticas – assembleias, debate e discussão antes de qualquer decisão partidária – na organização interna e nas arenas políticas municipais, estaduais e nacionais.

Terceiro, no plano econômico, a democracia brasileira foi fortalecida pelos governos do presidente Lula, que, ao mesmo tempo em que promoveu o desenvolvimento da infraestrutura, da indústria e da produção agrícola para exportação, também promoveu a produção de etanol e de petróleo, que tornou o país autossuficiente em termos de energia. Os governos centrais sempre tiveram papel crucial no planejamento da economia e dos investimentos desde os anos 1930s, quando teve início a industrialização e o país buscou maior autonomia econômica, como resposta à recessão mundial.

Essa presença do Estado na economia várias vezes produziu benefícios de longo prazo, embora com alguns revezes. Durante a ditadura militar, os generais promoveram a infraestrutura e parcerias entre o Estado, o setor privado e investidores estrangeiros. Essas intervenções do Estado brasileiro na economia levaram aos anos chamados “do milagre brasileiro”, mas que conheceram também os picos mais baixos da autoestima, da autovisão da “grandeza do Brasil”, quando o país passou a depender de petróleo importado e de empréstimos externos. Na direção oposta à dos governos que os antecederam, os governo Lula responderam com a autossuficiência energética e com o pagamento de tudo que o país devia ao Fundo Monetário Internacional, FMI.

Todos os democratas devem saber ver que, na bem-sucedida história recente do Brasil, a mobilização dos movimentos sociais e a proeminência de um partido de esquerda, com visão social, tiveram papel de destaque, desde os anos da ditadura, antes da chamada “democratização”, ao longo de quase 30 anos de eleições.

Também merece destaque o ativismo social e o desenvolvimento de um partido que nasceu das ruas para as instituições, e de posições anticapitalistas para a aceitação de mecanismos de mercado, sem exigir que todos os demais partidos fizessem o mesmo. A democracia brasileira ainda é marcada por tensões entre as soluções políticas e como avançar na direção do equilíbrio econômico sustentado sem perder de vista as metas de bem-estar social.

Os democratas também devem saber ver que o planejamento econômico do governo, no qual o Estado tem papel crucial no que tenha a ver com investimento e propriedade, produziu resultados benéficos, tanto no plano econômico quanto no plano político. Planejamento de longo prazo, compromisso e expertise em planificação do Estado assentaram as bases do ‘boom’ econômico de hoje. Esse processo sofreu uma interrupção nos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, professor com tendências marxistas que, contudo, nos anos 1990s abraçou teorias de livre mercado e privatizou vários setores da economia brasileira.

O processo pode, agora, sofrer outra inflexão, uma vez que a presidenta eleita Rousseff busca parceiros no setor do petróleo para financiar seus ambiciosos projetos educacionais e ambientais. Como já se viu acontecer com as mobilizações populares e a radicalização de um partido político, que abraçou ideias da esquerda, mas não as velhas soluções da esquerda, os brasileiros têm agora boa chance de prosseguir na construção de um ‘modelo’ que mistura políticas econômicas de diferentes tipos e mantém a tensão entre o setor privado e o setor estatal, que não perde o poder de iniciativa.

Nessa tensão, precisamente, está a força da democracia brasileira. E daí se podem extrair importantes lições para o futuro. A inclusão de cidadãos – pobres, mulheres, indígenas, negros, classe média, setor privado – mediante diferentes modalidades de participação política e produção econômica aprofundou e fortaleceu a democracia brasileira. Esses cidadãos agora integrados, por sua vez, esperam que venham as reformas que lhes dará melhores condições imediatas de vida, mas que de nenhum m modo brotariam nem só das eleições nem só dos mercados separadamente.

Para que haja reformas sustentáveis no mundo em desenvolvimento é indispensável que haja ativo movimento social e adesão total aos procedimentos democráticos, planejamento estatal da economia e respeito aos compromissos dos negócios e dos mercados. A presidenta Rousseff muito bem fará se continuar a desafiar as ortodoxias políticas e as ortodoxias econômicas, ao mesmo tempo em que continua a promover cada vez mais igualdade e mais inclusão social, no que pode vir a ser uma primeira história de sucesso social econômico e global, no planeta.

*Jeffrey W. Rubin é Professor de História Latino-americana e Pesquisa, no Instituto de Cultura, Religião e Negócios Globais da Boston University, onde dirige o Projeto “Reformas Sustentáveis”.