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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Musil e meta-Musil: a inevitável Iª Guerra Mundial

1/7/2014, [*] David P Goldman, “Spengler”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O Homem sem qualidades" (capas originais)
O Ocidente não estava grávido, em agosto de 1914; só estava com prisão de ventre. Em vez de parir o futuro, esvaziou os intestinos com fúria.

Robert Musil
Nenhum desastre na história do mundo foi mais previsível nem de preparação mais demorada. O grande romance de Robert Musil, O homem sem qualidades, [1] mostra a elite vienense nos meses antes da guerra, com suas preocupações pequenas, sem se dar conta de que o mundo dela estava às vésperas de sumir. É o maior antirromance europeu, porque a premissa autorreferencial – os protagonistas não sabem o que todos os leitores sabem – impede que o romance tenha fim. Não há escolhas certas, porque nada pode impedir que aquele mundo-bolha exploda. Depois de Musil – meta-Musil, por assim dizer – vem a grande evacuação. O romance é considerado obra-prima no mundo de língua alemã. Poucos norte-americanos o conhecem e, dentre esses, ainda menos são os que compreendem o romance.

Agora, quando se aproxima o 100º aniversário da Iª Guerra Mundial, ouviremos número infindável de variações de lamentos pela Civilização Ocidental. Todos dirão mais ou menos o seguinte: no auge de sua prosperidade, de descobertas científicas e de realizações de grande arte, as nações europeias, de repente, inexplicavelmente, mergulharam em massacres mútuos e prepararam o terreno para o grande massacre que viria, de 1939 a 1945. Nada disso. Está errado, simplesmente errado.

A Europa já fizera a mesma coisa antes, por duas vezes: primeiro, na Guerra dos 30 Anos, de 1618-1648; e depois, outra vez, nas Guerras Napoleônicas, de 1797-1814.

Napoleão Bonaparte
As baixas francesas nas Guerras Napoleônicas foram comparáveis às da Iª Guerra Mundial, em relação à população. A França perdeu de 1,4 a 1,7 milhões de homens, sob Napoleão, de uma população total de 29 milhões. Tipicamente, no século XVIII, homens de 17-49 anos constituíam 1/5 da população. O total de contingente militar humano da França Napoleônica era de menos de 6 milhões de homens, o que significa que as baixas alcançaram 23-28% do total da população masculina ativa, mais do que na Iª Guerra Mundial. Muitos mais de outras nações também morreram; dos 500 mil soldados do exército poliglota de Napoleão que marchou para a Rússia em junho de 1812, só 16 mil voltaram.

Os eventos de 1914-1939, como Winston Churchill disse bem, foram “uma segunda Guerra dos 30 Anos”. De fato, a primeira Guerra dos 30 Anos foi, em vários sentidos, pior. Matou quase metade da população da Europa Central e deixou vazias grandes áreas da Espanha e da França.

Obnubilados como somos pela ideia de Progresso, do Iluminismo, rapidamente apagamos o precedente de nossos próprios problemas. Na leitura “das Luzes”, a Guerra dos 30 anos foi conflito religioso, a última orgia de sangue da superstição medieval, antes que a Idade da Razão varresse de vez as teias do fanatismo. É absolutamente falso: depois da revolta inicial, abortada, dos Protestantes da Boêmia contra o Império Austríaco, a Guerra dos 30 Anos tornou-se conflito franco-espanhol, luta de fanáticos dos dois lados, que acreditavam que a respectiva nação teria sido escolhida por Deus para ser agente Dele na Terra. Foi guerra religiosa, afinal de contas, mas guerra entre duas leituras nacionalistas pervertidas do cristianismo católico. A mesma megalomania etnocêntrica impeliu as nações da Europa na direção de 1914.

A guerra poderia ter sido evitada, afinal; e montar cenários nos quais teria sido evitada é uma espécie de prática artesanal doméstica, para historiadores. Esses cenários são mal disfarçadas ‘lições’ de política para o presente. Sou autor de um livro desses, de cenário em que a guerra seria evitada, a saber, uma guerra alemã preventiva contra a França durante a Primeira Crise do Marrocos de 1906 (vide “Why war comes when no one wants it”, Asia Times Online, 2/5/2006).

As causas objetivas da guerra são bem conhecidas e infindavelmente analisadas. A Alemanha tinha a economia e população que mais rapidamente cresciam; os rivais, para conter sua influência, a cercaram.

● – Com a população estagnada, a França não poderia esperar reconquistar para si as províncias de Alsácia e Lorena que perdera para a Alemanha em 1870 – nem vencer qualquer guerra futura, a menos que fosse guerra imediata. Da paridade em meados do século 19, em 1914 a população alemã já era 1,5 vezes maior que a da França.

Mapa da França (Alsácia e Lorena no NE, em vermelho)
● – A Alemanha não poderia concentrar seu exército num ataque esmagador contra a França, se esperasse até a Rússia ter construído sua rede ferroviária interna.

● – A Áustria não conseguiria manter as etnias fracionadas dentro do Império, sem castigar a Sérvia. Não poderia garantir direitos iguais aos sérvios, sem provocar os húngaros, que tinham posição privilegiada no império; só restava suprimi-los.

● – A Rússia não poderia manter controle sobre a parte oeste industrializada do império – Polônia, Ucrânia, os estados do Báltico e a Finlândia – se a Áustria humilhasse seu aliado sérvio, e a Rússia dependia dessas províncias para o grosso dos impostos que arrecadava.

● – A Inglaterra não poderia manter o equilíbrio de poder na Europa, se a Alemanha esmagasse a França.

Alianças na Ia. Guerra Mundial (1914-1918)
Nenhuma dessas potências conseguiria prosseguir sem encarar risco existencial: no caso da França, uma posição enfraquecida, sem esperanças, ante a Alemanha; no caso da Alemanha, uma eventual ameaça por uma Rússia industrializada; no caso da Áustria, rompimento do Império, por efeito de agitação eslavófila; no caso da Rússia, a perda das províncias do oeste, que cairiam na órbita teutônica; e no caso da Inglaterra, a irrelevância no continente, com desafio inevitável contra seu poderio nos mares.

Há vários excelentes relatos dos eventos que levaram à eclosão da guerra em agosto de 1914, um mais recente dos quais é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark. [2] Cada um dos combatentes, de fato, dar-se-ia melhor se conseguisse declinar dos combates. Mas isso significaria abrir mão da reivindicação de superioridade nacional que motivara os combates. Combateram, em outras palavras, não porque tivessem, no sentido estrito da palavra, de combater, mas por causa do tipo de gente que eram. Evan deixa implícito que não estariam raciocinando. Mas com o quê, então, estariam sonhando?

Os europeus lutaram a Grande Guerra de 1914 para evitar converterem-se no que são hoje. Mas, como o homem na história de Somerset Maughan, [3] que tinha encontro com a morte em Samarra, deram um jeito de apressar o encontro.

Thomas Mann
Ainda causa escândalo na Alemanha, que o maior romancista alemão do século XX, Thomas Mann, tenha saudado com entusiasmo a chegada da guerra. Tinha o “coração incendiado” na declaração de guerra, e “sinto-me em triunfo com o colapso do odiado mundo da paz, com a desgraça da corrompida “civilização” mercantil-burguesa, eternamente inimiga do heroísmo e do gênio”. Mann louvou o “indispensável papel, como missionário”, da Alemanha; contrastou a Kultur alemã à mercenária Zivilisation ocidental.

Mann capturara o humor nacional. A Alemanha combateu a Iª Guerra Mundial sob o estandarte da Kultur. Em 1915, 93 dos principais intelectuais e artistas alemães assinaram manifesto em que justificavam o clamor da Alemanha por guerra, em nome da superioridade cultural. Esse é o cerne de uma fala de feia fama de Hans Johst, autor de uma peça teatral de propaganda nazista, Schlageter, [4] apresentada no aniversário de Hitler, depois de os nazistas terem chegado ao poder, em 1933: “Quando ouço a palavra cultura, solto a trava da minha pistola”. Entende-se, em geral, que essa fala mostraria que os nazistas eram analfabetos, o que não é verdade; Hitler era pintor, mau pintor, mas pintor; e amante da música. Na verdade, sempre manifestou rancor contra o sacrifício inominável que o velho regime exigia, a serviço dos velhos ideais.

Thomas Mann entusiasmava-se com a estética da guerra: as mesmas qualidades e as mesmas atitudes que dão forma à arte dão forma à guerra. Por estranho que soe, por mais que perturbe, Mann estava absolutamente certo: a arte e a guerra exigem o mesmo irrestrito comprometimento existencial.

Num artigo de 2010, argumentei que isso ajuda a explicar por que os israelenses tão frequentemente são músicos tão notáveis, os melhores musicistas do mundo clássico. Não apenas herdaram muitos dos melhores professores da Europa Central, mas, como nação, amam e buscam, muito mais do que temem e rejeitam, o risco; e o que faz as grandes interpretações musicais é um senso de risco. “Und setzet ihr nicht das Leben ein/Nie wird euch das Leben gewonnen sein” cantam os soldados da cavalaria de Wallenstein, no drama de Schiller, de 1799, sobre a Guerra dos 30 Anos: se você não aposta a própria vida, não ganha a vida para você mesmo. Com a Alemanha destroçada em 1945, Mann declarou então que a cultura alemã chegara ao fim. Esse é o ponto de seu grande romance do pós-guerra, Doutor Fausto: [5] o protagonista, Adrian Leverkuhn, enlouquece compondo uma cantata atonal cujo objetivo é “retomar” a 9ª Sinfonia de Beethoven – para substituir por aleatoriedade vazia, a harmonia ordenada do passado europeu.

Europa durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648) 
(Clique na imagem para aumentar)
Os asiáticos, que abraçaram em grandes números a música clássica ocidental, devem estranhar muito que essa arte magnífica seja tão negligenciada em suas terras de origem. A resposta é que nós, no ocidente, nós todos, soltamos a trava da pistola quando ouvimos a palavra “cultura”. A cultura harmoniosa, ordeira e otimista da Europa de pré-1914 é carregada de lealdade à tradição, quer dizer: de atitudes que nos levaram para as trincheiras. Desprezamos a cultura, porque abominamos a autoridade, a tradição, a lealdade, quer dizer, virtudes que os asiáticos ainda cultivam. Abominamos arte que exija de nós que reconheçamos autoridade superior – do gênio subordinado à tradição, ao precedente – e preferimos uma cultura popular que tudo nivelaria, com a qual nós podemos nos identificar como supostos iguais (vide American Idolatry, Asia Times Online, 29/8/2006). Mas há uma dimensão da arte ocidental – a abertura para o risco – que a maioria dos asiáticos tem muita dificuldade para entender.

George Weigel
O importante historiador católico George Weigel observa que, em 1914, até o clericato católico “bebeu fundo no poço de um nacionalismo que parecia além do alcance da crítica cristã moral. Assim, quando o Colégio de Cardeais reuniu-se em setembro de 1914 para eleger um sucessor do Papa Pio (...), o cardeal alemão Felix von Hartmann disse ao cardeal belga Desiré Mercier “Espero que não tenhamos de falar de guerra”, ao que Mercier respondeu de bate pronto: “E eu espero que não tenhamos de falar de paz”.  

Weigel cita o capelão alemão que cantava “Fúria sobre a Alemanha! Oh, grande guerra santa da liberdade!”, e o bispo anglicano de Londres, que conclamava os fiéis de sua congregação a matar alemães: “Matem-nos, não matar por matar, mas matar para salvar o mundo; matar os bons, e também os maus. Matar”. Weigel pensa que esse nacionalismo maligno tem raízes no século anterior à Iª Guerra Mundial. Não concordo. A megalomania da “nação eleita” motivou franceses e espanhóis, os dois lados da Guerra dos 30 Anos. Como escrevi em meu livro de 2011, How Civilizations Die (and Why Islam is Dying, Too) [Como as civilizações morrem (e por que o Islã também está morrendo)]:

Não só os interesses temporais do estado francês, mas a crença apaixonada em que a França seria A Nação Eleita, motivaram Richelieu e Tremblay a prolongar as guerras religiosas dos anos 1620s por trinta anos, matando vasta proporção da população da Europa Central (…) Se a Guerra dos 30 Anos foi genuinamente guerra religiosa, de católicos contra protestantes, a França, como o mais poderoso país católico, deveria ter apoiado a Áustria católica. Mas a França não podia apoiar a demanda das dinastias Habsburgo austríaca e espanhola, que queriam o título imperial e o direito de representar a Cristandade. E a França, em vez de apoiar, decidiu arruinar a Áustria e a Espanha, para estabelecer-se ela mesma.

Como os franceses (...) a corte espanhola também acreditava que a Espanha era a nação escolhida por Deus como sua Procuradoria terrena. O monge e teórico político Juan de Salazar escreveu, em 1619, em seu tratado Politica Española que “os espanhóis foram eleitos para realizar o Novo Testamento assim como Israel foi eleita para realizar o Velho Testamento. Os milagres com que a Providência favoreceu a política espanhola confirmam essa analogia do povo espanhol com o povo judeu, de modo que a similaridade dos eventos em todas as épocas, e o modo singular como Deus manteve a escolha e o governo do povo espanhol, declaram que esse é o povo escolhido pela lei da graça, assim como o outro foi o escolhido antes, no tempo das escrituras (...) Daí se pode concluir, das atuais circunstâncias, como das sagradas Escrituras, que a monarquia espanhola perdurará por muitos séculos e será a última monarquia”. Segundo Stanley Payne, aí se vê “atitude não incomum na corte e em parte da elite de Castela”.

E adiante:

A atormentada urgência de cada nação de ser “a escolhida”, experimentada na pele, começou com a primeira conversão de pagãos europeus; estava incorporada na Cristandade Europeia, na fundação. Cronistas cristãos põem os monarcas europeus recém batizados no papel de reis bíblicos; e suas nações, no papel da Israel bíblica. A primeira vez que se ouviu autoproclamação como “nação escolhida” foi no auge da primeira das Idades das Trevas: do cronista do século VIº, São Gregório de Tours (538-594); e do clérigo ibérico do século VIIº, Santo Isidoro de Sevilha.

Os Santos Isidoro de Sevilha e Gregório de Tours foram, de certo modo, os Bialystock e Bloom, [6] da Idade das Trevas; os Produtores do show “a fundação da Europa”: venderam 100% do show a cada um e a todos os reizinhos. Não se pode culpar os produtores. Transmutar os invasores bárbaros que infestavam o arruinado império dos romanos, em cristãos, foi talvez o mais notável feito político de toda a história mundial, mas requereu muita lábia, que teria consequências assustadoras, chocantes, no longo prazo. Os restos das imundícies do velho paganismo europeu acumularam-se nos enroscados intestinos da Europa, até que os terríveis eventos de 1914-1945 puseram tudo para fora.

Sigmund Freud
A visão autenticamente católica de um império universal não conseguiu impor-se, ela própria, sobre os reclamos mais tangíveis de sangue e terra. Os europeus não lutaram as guerras de 1618, 1814 ou 1914 como cristãos, mas como criptopagãos. Essa foi a discussão entre os críticos judeus, de Heinrich Heine a Franz Rosenzweig e Siegmund Freud. Freud escreveu:

Não podemos esquecer que todos os povos que hoje se destacaram na prática do antissemitismo só se tornaram cristãos em tempos relativamente recentes, às vezes obrigados por compulsão sangrenta. Pode-se dizer que todos foram ‘mal batizados’ [também “mal cristianizados” (NTs)]; sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que seus ancestrais sempre foram, barbaramente politeístas. Ainda não superaram o ressentimento e a rejeição que lhes inspira a nova religião, que foi imposta a eles; e que eles projetaram sobre a fonte da qual veio a eles o cristianismo. [7]

Os homens não são moderados. Não somos tão diferentes de nossos pais como gostamos de crer. Os europeus hedonistas, sem filhos, de hoje, são o mesmo povo que lutou e morreu aos milhões pelo rei pelo país em 1618 ou 1814. Qualquer coisa pela qual valha a pena viver vale também que se morra por ela; se não se consegue pensar em nada por que morreríamos, implica que tampouco temos algo por que viver – exatamente como os europeus de hoje. A Europa aprendeu por muito tempo que sangue e terra, Kultur e Grandeur, eram itens pelos quais não valeria a pena lutar. Mas a Europa nada encontrou, pelo qual viver, depois que rejeitou para sempre os deuses nacionais de seu passado violento. Está morrendo de nervoso e tédio, desgostosa do próprio passado e descuidosa do próprio futuro, sem querer pôr filhos no mundo nem, que fosse, para assegurar a própria sobrevivência por mais um século.

“Muito foi salvo”, escreveu um soldado da Grande Guerra, J R R Tolkien, mas “muito tem agora de morrer”. Apesar de Hans Johst, a cultura europeia não morrerá: como aconteceu com a guarda da cultura grega clássica, que passou para as mãos de europeus, a arte europeia – pelo menos, com certeza, sua música – passará para as mãos de asiáticos.



Notas dos tradutores

[1] MUSIL, Robert [1880-1942], O homem sem qualidades (1930-33-43), Nova Fronteira, 1978, trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth, 2 vol., 786 pp (romance inacabado).

[2] CLARK, Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a primeira guerra mundial, 1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[3] “Encontro com a morte em Samarra”. É o trecho final de uma peça escrita por Somerset Maughan em 1932. Lê-se, em português
.
[4] Schlageter, Albert Leo: sobre o personagem título.

[5] MANN, Thomas [1875-1955]. Doutor Fausto (1947), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, trad. Herbert Caro, s/d.

[6] Referência aos personagens do filme The Producers, primeiro filme de Mel Brooks, de 1968 (Zero Mostel faz o papel de Max Bialystock, produtor de uma peça teatral; e Gene Wilder é Leo Bloom, seu secretário). Em português, lê-se alguma coisa (de segunda mão) em O Estado de S.Paulo, em 1969 sobre a peça teatral (“Os Produtores”) que foi montada no Brasil; talvez ajude a entender a metáfora.

[7] FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939 [1934-38]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXIII.
_________________________________

[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribui frequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearns e Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

A história jamais contada – nem antes, nem hoje – da guerra


Muito além da história de um menino e um cavalo 

26/2/2012, Adam Hochschild, TomDispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também
17/3/2011, “Como os anos ‘80s programaram os EUA (e o mundo) para a guerra”, David Sirota, Salon 

Adam Hochschild

Bem antes do centenário, em 2014, do início da “guerra para pôr fim a todas as guerras”, a Ia. Guerra Mundial já parece aparecer por todos os lados, no dia a dia dos EUA. “Cavalo de Guerra”, de Stephen Spielberg estreou em 2.376 salas de cinema e concorre em seis categorias do Oscar; ao mesmo tempo em que a peça de teatro em que se baseou o filme prossegue arrastando multidões para filas intermináveis em New York e uma segunda montagem está em fase final de produção para viajar pelo país.

Além disso, um seriado de televisão, de alta audiência nos últimos dois meses, “Downton Abbey” [1], acaba de encerrar a temporada com um beijo inesperado. Em sete episódios, aquele mundo de sobe-desce-escadarias e amor proibido e confusões dinásticas levou os norte-americanos para bem longe, desde o meio da guerra, em 1916, até depois do Armistício, com a própria venerável abadia que dá título à serie convertida em hospital para soldados feridos convalescentes. Outros seriados sobre a guerra  1914-1918 estão a caminho, entre eles uma minissérie do canal HBO-BBC baseada nos quatro romances de Ford Madox Ford, “Parade’s End”; e uma adaptação para a televisão do romance “Birdsong” de Sebastian Faulks, patrocinada pela rede NBC.

De fato, não há aí qualquer novidade. Cineastas e romancistas são, há muito tempo, fascinados pelo modo como uma Europa pré-1914, solar, otimista, povoada de imperadores com capacetes emplumados e desfiles de belos hussardos transformou-se, tão rapidamente, em campo de esquartejamento em massa em escala jamais vista. E há boas razões para examinar atenta e cuidadosamente a Ia. Guerra Mundial.

Naquela guerra morreram cerca de 9 milhões de soldados e número ainda maior de civis. Foi a fagulha que incendiou o genocídio dos armênios e a Revolução Russa, deixou em ruínas fumegantes áreas imensas da Europa e reformatou o mundo para pior, em todos os sentidos imagináveis – sobretudo porque deixou o campo semeado para uma segunda guerra global ainda mais mortal.

Há boas razões pelas quais os norte-americanos sejamos particularmente acossados pelo que  aconteceu naqueles anos ao país que aparece em todos aqueles filmes e seriados de televisão: a Grã-Bretanha. Em 1914, a Grã-Bretanha estava no auge da glória, superpotência global indiscutível, que comandava o maior império que o mundo jamais conhecera. Quatro anos e meio depois, a dívida interna já estava multiplicada por dez, mais de 720 mil soldados britânicos estavam mortos e outras centenas de milhares, feridos e mutilados, muitos sem braços, pernas, olhos, genitais.

A conta pesou particularmente sobre as classes mais educadas que forneceram os jovens tenentes e capitães que comandaram suas tropas para fora das trincheiras, diretamente contra o fogo mortífero das metralhadoras. Para dar um único exemplo assustador, morreram 31% dos homens que se formaram em Oxford em 1913.

“Varridos para longe, numa explosão rubra de ódio” 

Pois curiosamente, em todos esses espetáculos de menino e cavalo, cargas épicas de cavalaria, trincheiras enlameadas e amor e separações de tempos de guerra, os autores de “Cavalo de Guerra”, “Downton Abbey” e – não há dúvidas – dos similares que logo estarão aparecendo nas telas de cinema e televisão nos EUA, passam muito ao largo do maior drama moral daqueles anos de conflito, e drama que ainda ecoa hoje, nesses tempos de novas guerras caras e desnecessárias. Todos esses filmes e seriados de televisão deixam fora dos enredos, sempre, parte muito importante dos personagens ativos naquele momento. 

A Ia.  Guerra Mundial não foi só combate entre exércitos rivais, mas foi também combate duríssimo travado entre os que entendiam que a guerra fosse alguma espécie de cruzada nobre, de um lado; e, de outro, os que só viam, da guerra, o que nela há de absoluta loucura.

Em muitos países as prisões encheram-se de gente que se opunha à guerra. Mais de 500 homens foram presos, nos EUA, naqueles anos, por declararem “objeção de consciência” e recusarem-se a lutar; outros muitos foram presos por se manifestar contra os EUA envolverem-se no conflito. Eugene V. Debs esteve preso, naqueles anos, como líder de um sindicato de ferroviários, mas passou muito mais tempo atrás das grades – mais de dois anos –, por insistir em que os norte-americanos resistissem ao alistamento militar. Condenado por crime de sedição, ainda estava preso na penitenciária federal em Atlanta, em novembro de 1920, quando, muito depois do final da guerra, recebeu quase um milhão de votos, como candidato Socialista à presidência dos EUA.

Um protesto nos EUA contra a guerra converteu-se em tragédia quando, em 1917, a polícia de Oklahoma prendeu cerca de 500 pessoas que se manifestavam contra o alistamento militar obrigatório [2] – brancos, negros e nativos norte-americanos – participando do que chamaram de Rebelião do Milho Verde [orig. “Green Corn Rebellion”], contra “guerra dos ricos, que querem que os pobres lutem.” Houve três mortos e muitos feridos.

Também na Alemanha e na Rússia as prisões encheram-se de militantes que se opunham à guerra. Mas o país onde se constituiu o maior e mais bem organizado movimento antiguerra – e aqui, os criadores de filmes e seriados de televisão “de época” e perucas, tão ardentemente amados pelo público norte-americano anglófilo, perdem excelente e crucial oportunidade – foi a Grã-Bretanha.

A principal razão pela qual a oposição à guerra conquistou tantos defensores era bem simples: em 1914, a ilha-nação ainda não havia sido atacada. O invasor alemão marchara contra a França e contra a Bélgica, mas a Alemanha esperava que a Grã-Bretanha se mantivesse neutra. Muitos britânicos também esperavam. Quando a Grã-Bretanha entrou na guerra, sob o argumento de que os alemães teriam violado a neutralidade dos belgas, uma minoria continuou a repetir que misturar-se em conflitos entre outros países seria desastroso erro.

Keir Hardie foi dos mais destacados opositores à guerra, desde o início. Deputado ao Parlamento e líder sindical, Hardie, aos 21 anos, vivera mais da metade da vida como mineiro de carvão e jamais frequentou qualquer escola. Aprendeu a ler, sozinho, aos 17 anos; e foi dos maiores oradores de seu tempo. Hipnotizava multidões, com sua fala, as sobrancelhas escuras e uma impressionante vasta barba ruiva. Esmagado pelo desespero, ao ver milhões de trabalhadores europeus matando-se entre eles, em vez de se unirem em torno da causa de todos os trabalhadores do mundo, Hardie morreu em 1915, mal entrado nos 50 anos, mas já com as barbas completamente brancas.

Dentre os muitos que muito valentemente levantaram-se contra a febre da guerra, cujos comícios foram muitas vezes violentamente interrompidos pela polícia ou por gangues patrióticas, está a conhecida feminista radical Charlotte Despard. Seu irmão mais jovem, curiosamente, era Marechal de Campo, Sir John French, comandante-em-chefe do Front Ocidental durante o primeiro ano e metade da guerra. Outra família dramaticamente dividida foi o famoso clã Pankhurst, das suffragettes: Sylvia Pankhurst tornou-se opositora feroz do conflito, enquanto sua irmã Christabel sempre foi, desde os primeiros dias, fervorosa patriota batedora de tambor a favor do esforço de guerra. As duas irmãs não só deixaram de falar uma com a outra, como também criaram e mantiveram jornais rivais pelos quais, frequentemente, atacavam a posição antagonista.

O importante jornalista de investigação, Edmund Dene Morel, e o afamado filósofo Bertrand Russell, ambos britânicos, foram dois outros apaixonados militantes antiguerra. “Essa guerra, de tão vasta, é guerra trivial”, Russell escreveu [3]. “Não se vê em jogo nenhum grande princípio; nenhum alto propósito humano, nem de um lado, nem de outro.” Horrorizava-o ver seus concidadãos “Varridos para longe, numa explosão rubra de ódio”.

Russell escreveu, com notável franqueza, sobre a dificuldade de mover-se contra a corrente da febre nacional a favor da guerra, “quando toda a nação é tomada de violenta excitação coletiva. É necessário esforço tão grande para resistir à voz geral, quanto seria necessário para resistir à fome ou à paixão sexual extremas; e há a mesma sensação, de que se anda contra o instinto”. 

Ambos, Russell e Morel passaram seis meses presos, por suas opiniões. Morel foi sentenciado a trabalhos forçados e carregava sacos de juta de 50kg até a oficina da prisão, mal vestido e mal alimentado ao longo do inverno gelado, com as caldeiras da prisão desligadas, por causa do racionamento nacional de carvão.

Mulheres como Violet Tillard também cumpriram penas de prisão. Ela trabalhava num jornal do movimento antiguerra proibido em 1918, e foi presa por recusar-se a revelar onde estavam escondidas as prensas nas quais se produzia o jornal. Outra, dentre as heroínas esquecidas do movimento contra a Ia. Guerra Mundial, foi Emily Hobhouse, que atravessou clandestinamente a Suíça (neutra), até Berlim, esteve com o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, expôs a ele um possível plano de paz, voltou à Inglaterra e tentou repetir a operação com o governo britânico. Foi expulsa por funcionários do Gabinete, taxada de excêntrica. Mas, num conflito no qual morreram 20 milhões de pessoas, Emily Hobhouse foi o único civil que viajou de um lado ao outro da guerra, e voltou, trabalhando pela paz.

Por que os norte-americanos sabemos mais sobre guerra, que sobre paz? 

Ao final da guerra, mais de 20 mil homens na Grã-Bretanha haviam desobedecido à ordem de alistamento militar e, por questão de princípio, vários recusaram a alternativa de serviço civil imposta aos que declaravam objeção de consciência contra a guerra (dirigir ambulâncias no front, ou serviço obrigatório na indústria de guerra). Mais de 6.000 deles cumpriram sentença de prisão – até hoje, é o maior número de prisioneiros políticos, em qualquer das ditas grandes democracias ocidentais.

Nada havia de fácil ou simples, nesses processos de resistência. Os que se recusavam a alistar-se eram perseguidos e humilhados (gangues patrióticas os perseguiam com ovos podres pelas ruas), metidos em prisões sob condições duríssimas, e perderam o direito de votar por cinco anos. Mas com o final da guerra, em país devastado que chorava seus mortos e começava a perguntar-se o quê, afinal, poderia justificar aqueles quatro anos de carnificina, muitos começaram a ver sob outra luz os resistentes que sempre se haviam manifestado contra a guerra. Mais de meia dúzia deles chegaram a ser eleitos para a Casa dos Comuns; e o jornalista Morel tornou-se o principal porta-voz do Partido Trabalhista em questões internacionais. 30 anos depois do Armistício, um sindicalista chamado Arthur Creech Jones, que passara dois anos e meio na prisão, por resistir contra a guerra, foi indicado membro do Gabinete britânico.

A bravura desses homens e mulheres que insistiram em dizer o que pensavam sobre uma das maiores questões de seu tempo custou-lhes muito caro: ouviram zombaria, sofreram nas  prisões, viveram tragédias familiares, perderam amigos e empregos. E, hoje, continuam esquecidos, num momento em que a resistência contra guerras sem sentido deveria ser objeto de celebração diária. Em vez disso, ainda, quase sempre, tendemos a celebrar os que combatem – vencedores e derrotados –, muito mais do que celebramos os que se opõem sempre a todas as guerras.

Não são só os filmes e seriados de televisão a que assistimos, mas também os monumentos e  museus que construímos. Não surpreende que, como o general Omar Bradley disse uma vez, os norte-americanos “sabemos mais sobre guerra, que sobre paz”. Em geral, vemos as guerras como ocasião para heroísmos, e algum heroísmo pode até acontecer. Mas muito maior heroísmo, heroísmo do grande, que tanta falta faz em Washington nessa última década, é obrigar-se a pensar se alguma guerra algum dia fez sentido. Quem queira recolher lições de guerras passadas, que procure. Se procurar, encontrará uma história muito mais profunda a contar, que a história de um menino e um cavalo.




Notas dos tradutores
[1] Sobre a novela, ver: “Downton Abbey”.
[2] Dia 6/4/1917, o presidente Woodrow Wilson, recentemente eleito para um segundo mandato, ao qual concorrera com o slogan “Ele nos manteve longe da guerra”, compareceu a uma sessão conjunto do Congresso dos EUA e pediu que o Congresso aprovasse uma declaração de guerra contra a Alemanha Imperial. O Congresso acedeu; a declaração foi aprovada por 373-50 votos pelos deputados e por 82-6 votos pelos senadores. Pouco mais de um mês depois, dia 18/5/1917, o Congresso aprovou a lei que tornava obrigatório o alistamento militar para todos os jovens em condições de lutar, e agendado para um único dia, 5/6/1917. A Rebelião do Milho Verde aconteceu nos dias 2-3/8/1917. [3] RUSSEL, Bertrand, 1916, “An appeal to the intellectuals in war-times”, in Justice in War-Time, apud BUITENHUIS, Peter, 1987, The Great war of words: British, American, and Canadian propaganda, London: UBC Press.