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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A comédia sino-americana de erros


Entreouvido no frege da Maria Boa na Vila Vudu: “Artigo útil, só, para ver sionistas norte-americanos alinhando-se com a China” :-D)).

10/11/2014, [*] Spengler, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dos “Comentários” [aqui traduzidos]:

John Rintala – Top Commenter (Harvard University)
“Os que comentam que Spengler representa a linha pró-Israel, e surpreendem-se agora ao vê-lo falar dos chineses com [alguma] simpatia, têm de compreender que a China soube, muito cuidadosamente, neutralizar o lobby EUA-Israel, garantindo negócios lucrativos para os empresários israelenses; assim, preservou boas relações com Israel. A China vai construir uma ferrovia de Eilat, no Mar Vermelho, até Ashdod, no Mediterrâneo.”

Michael Ngan – Top Commenter (University of Victoria)
Muito obrigado, John Rintala, pelo esclarecimento. É a explicação mais plausível para a súbita conversão do “Spengler”, à racionalidade, sem repetir o sionismo doentio de sempre.


A odisseia da China (Teatro de Pequim)

PEQUIM – Tudo na tragédia acontece por alguma razão, e o resultado é sempre triste; na comédia, muitas coisas acontecem por acaso, e o resultado é quase sempre feliz. As relações sino-americanas não estão destinadas ao conflito, embora o conflito seja possível. Os desentendimentos que dificultam as relações entre os dois países mais poderosos do mundo permanecem no âmbito da comédia, não da tragédia. É o máximo a que se pode aspirar, porque não há quantidade possível de explicações que tornem chineses e norte-americanos compreensíveis uns para os outros.

Onde os chineses são defensivos e cuidadosos, os norte-americanos tendem a vê-los como agressivos; onde os chineses são ambiciosos expansionistas, os EUA os ignoram completamente. Os EUA são potência do Pacífico acostumada a dominar os mares. No pouco que os EUA dão atenção à política exterior chinesa, só fazem mostrar alarme quando a China faz exigências territoriais sobre ilhas microscópicas e não habitadas que Japão, Vietnã e as Filipinas também reclamam para si. Exceto para fazer soar como se fosse coisa séria a retórica de alguns líderes militares chineses, porém, as ilhas em disputa praticamente nem aparecem na escala das prioridades da China.

É o que aparece bem claramente na notícia segundo a qual, na semana passada, China e Japão divulgaram um “Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais”, resultado de reuniões entre o Conselheiro para Segurança Nacional do Japão, Shotaro Yachi, e o Conselheiro do Estado Chinês, Yang Jiechi. O documento sinaliza que serão criados “mecanismos para gerenciamento de crises, que evitem disputas”; e que os dois países servir-se-ão sempre de “consultas e diálogo”.

Nem o Japão nem a China têm qualquer interesse numa confrontação militar no Pacífico, embora os dois lados tenham usado as disputas pelas ilhas, em encenação dirigida aos respectivos eleitorados nacionalistas internos. O Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais é claro sinal de que a encenação ao estilo Kabuki já foi longe demais.

Samurai no teatro estilo Kabuki
Meme frequente, em resposta ao suposto expansionismo chinês no Pacífico, inventou uma aliança militar Índia-Japão, sob patrocínio dos EUA, para conter as ambições chinesas. Embora uns poucos nacionalistas indianos tenham abraçado a ideia, examinada de fora vê-se que não passou de gesto oco. Se Índia e China entrarem em confronto por causa, por exemplo, de fronteiras, o que o Japão poderia fazer para ajudar?!

O recém-eleito governo indiano de Narendra Modi jamais levou a sério a ideia. Ao contrário, depois da recente visita do presidente Xi Jinping à Índia, Modi já está de olhos postos em investimentos chineses dos quais a infraestrutura indiana carece com urgência. A economia passa por cima de questiúnculas sobre fronteiras em áreas montanhosas desabitadas que separam as duas nações mais populosas do mundo.

Há também uma dimensão estratégica sobre o crescente bom entendimento que se constata entre China e Índia. Do ponto de vista da Índia, o apoio chinês ao exército paquistanês é motivo de preocupação, mas pode servir como faca de dois gumes. O Paquistão permanece sob o risco de ataque pelo Islã militante, e o principal garantidor da estabilidade do país é o exército. A China quer fortalecer o exército como escudo contra os radicais islamistas, que ameaçam tanto a província chinesa de Xinjiang quanto a Índia; e fortalecer o exército paquistanês, provavelmente, atende tanto aos interesses indianos quanto aos interesses da China.

Analistas chineses estão espantados, sem fala, ante a resposta dos EUA ao que veem como show sem importância no Mar do Sul da China; e a Índia só os preocupa tangencialmente. Ainda estão dando tratos à bola para compreender por que a resposta que emergiu do estrago que os EUA promoveram na Ucrânia foi relacionamento muitíssimo ampliado entre EUA e Rússia.

Por um princípio de diplomacia, a China não aprecia separatistas, porque já tem seus próprios separatistas a enfrentar, a começar pelos uigures muçulmanos na província de Xinjiang. Mas Washington jogou todas as suas fichas na certeza de que os tumultos da Praça Maidan em Kiev ano passado arrancariam a Crimeia do controle russo; o que realmente aconteceu foi que a Crimeia, onde está localizada a principal base naval de águas temperadas da Rússia, foi reintegrada à Federação Russa.

S-400 - Sistema anti-aéreo de mísseis  de defesa
(clique na imagem para aumentar)
Quando, em retaliação, o ocidente impôs sanções contra a Rússia, Moscou moveu-se para o leste – resposta óbvia, e resposta com forte impacto sobre o poder no ocidente. Não apenas a Rússia abriu suas reservas de gás à China, mas também aceitou fornecer à China sua mais sofisticada tecnologia militar, inclusive o formidável sistema de defesa aérea S-400. No passado, a Rússia sempre resistiu contra fazer isso, por causa dos esforços chineses para copiar, por engenharia reversa, os sistemas russos. A crise da Ucrânia mudou tudo isso.

Só agora, afinal, analistas ocidentais observam que a nova aproximação entre russos e chineses pode criar dificuldades para o ocidente. O New York Times devotou manchete de primeira página às opiniões de observadores soviéticos, os suspeitos de sempre, na edição do dia 9/11/2014.

Era óbvio há meses, e deveria continuar óbvio imediatamente antes do fato: o ocidente meramente empurrou “Mano” Putin-Coelho [orig. B'rer Putin] para a floresta densa a leste dele. De todos os erros de cálculo na política do ocidente desde a IIª Guerra Mundial, esse foi, talvez, o mais estúpido. E lá ficam os chineses, hoje, a coçar a cabeça, sem acreditar em tal boa sorte não esperada.

Claro que, sim, é erro falar de aliança Rússia-China; mas está em desenvolvimento um condomínio sino-russo na Ásia. Os negócios de energia e defesa entre Moscou e Pequim são importantes por eles mesmos, mas se tornam muito mais importantes no contexto do que pode ser o mais ambicioso projeto econômico de toda a história: a Nova Rota da Seda. O Pacífico pouco promete à China. Japão e Coreia do Sul são economias maduras, consumidores, tanto quanto concorrentes, da China.

Expansão no Pacífico simplesmente nada tem a oferecer à economia da China. O que a China deseja é ser inexpugnável dentro das próprias fronteiras: gastará generosamente para desenvolver mísseis terra-mar suficientemente potentes para despachar porta-aviões, submarinos de caça e sistemas de defesa aérea dos EUA.

A China prospecta nas direções oeste e sul: energia e minérios na Ásia Central; comida no sudeste da Ásia, portos de águas mornas no Oceano Índico, mercado vasto e acesso aos mercados mundiais onde estejam. A rede de ferrovias, oleodutos, gasodutos e telecomunicações que a China está construindo através das ex-repúblicas soviéticas e através da própria Rússia a levará até o Mediterrâneo [1] e será como trampolim para o comércio chinês com a Europa.

Rota da Seda via sul da Ásia e OM (terra e mar)
(clique na imagem para aumentar)
Toda a massa continental eurasiana tornar-se-á, provavelmente, zona econômica chinesa, sobretudo agora, com a Rússia muito mais disposta a aceitar os termos da China. Que os EUA tenham facilitado esse processo, tornando-o realidade antes até do esperado, pondo-se a atirar contra moinhos de vento na Ucrânia, confunde os chineses, sim; mas não impede que eles usufruam os resultados.

É difícil estimar o impacto de tudo isso, mas é provável que a influência chinesa expanda-se para o oeste, numa escala que o ocidente ainda nem começou a imaginar. Não se sabe se a China tem ideia clara das implicações que pode ter sua Nova Rota da Seda. A implosão da posição geopolítica dos EUA jogou oportunidades e riscos à porta de Pequim, para grande surpresa de Pequim.

Há um ano, funcionários chineses diziam, privadamente, que seu país acompanharia “a liderança da potência dominante” em tudo que tivesse a ver com segurança do Oriente Médio, incluídas as tentativas iranianas para adquirir armas atômicas. Ao longo das últimas várias décadas, a China deixou que os EUA se aproximassem do Golfo Pérsico, enquanto ia aumentando a dependência chinesa daquele petróleo. Em 2020, a China espera estar importando 70% do seu petróleo, a maior parte do qual virá do Golfo.

O pensamento chinês mudou radicalmente nos últimos poucos meses, em parte por causa do colapso do estado iraquiano e do crescimento do Estado Islâmico. Nada mais difícil que encontrar algum especialista chinês que ainda creia que os EUA possam realmente cuidar da segurança do Golfo Pérsico. As opiniões dividem-se entre os que pensam que os EUA são simplesmente incompetentes, e os que pensam que os EUA desejam, deliberadamente, desestabilizar o Golfo Pérsico.

Para muitos (...), os EUA têm interesse em desestabilizar o Golfo para atingir a China. Outro proeminente analista chinês disse que o Estado Islâmico é comandado por oficiais sunitas treinados nos EUA durante a “avançada” [orig. surge] de 2007-2008, e por elementos do velho exército de Saddam Hussein; o que explicaria por que o EI tem mostrado tanta competência militar e organizacional.

A ideia é plenamente justificável, sim: o general David Petraeus ajudou a treinar os 100 mil que fizeram o “Despertar Sunita”, para criar “equilíbrio” de poder contra o regime de maioria xiita que os EUA haviam ajudado a pôr no poder em 2006. Como, perguntam os chineses, o governo Bush e Petraeus poderia ter sido tão absolutamente estúpido? É tarefa hercúlea convencer os chineses de que, sim, sim, eles foram, sim, tão absolutamente estúpidos.


A atitude da China em relação a Washington já é hoje de declarado desdém. Sobre as eleições de meio de mandato nos EUA, o jornal oficial do governo chinês, Global Times, escreveu:

O presidente pato-manco será ainda mais firmemente imobilizado? Fez serviço insípido, quase nada deu a quem o apoiou. A sociedade norte-americana cansou-se de banalidade do presidente que elegeu.

Mas o declínio da influência dos EUA na região da qual a China obtém a maior parte do próprio petróleo não é evento feliz para Pequim.

A China não previu o fim da rédea solta que dera aos norte-americanos e não sabe ainda com certeza o que fará a seguir. Tentou manter um equilíbrio entre os países com os quais comercia e que são hostis entre eles. Vendeu muitas armas convencionais ao Irã, por exemplo, e alguns mísseis balísticos, antigos, pouco sofisticados.

Mas a China vendeu à Arábia Saudita seus mísseis ultrassofisticados de médio alcance, top-de-linha, o que deu aos sauditas “formidável capacidade de contenção” contra o Irã e outros possíveis adversários. A China obtém mais petróleo da Arábia Saudita que de qualquer outro país, embora as importações de Iraque e Omã para a China estejam aumentando depressa. Por que Iraque e Omã são mais próximos do Irã, a China quer que, ali, haja equilíbrio.

A opinião chinesa está dividida quanto às implicações de o Irã obter armas atômicas: alguns estrategistas creem que o equilíbrio nuclear na região bastará para impedir que qualquer daqueles países use as tais armas; outros temem que ação nuclear no Golfo venha a deter o fluxo de petróleo, o que derrubaria a economia chinesa. A China uniu-se às negociações no grupo P-5 “+1” (dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) sobre o status nuclear do Irã, mas não ofereceu política independente da política do presidente Barack Obama.


Enquanto isso, o crescimento do extremismo islamista preocupa Pequim, como teria, mesmo, de preocupar. Pelo menos, algumas centenas de uigures estão lutando incorporados ao Estado Islâmico, presumivelmente para aprender competências de terrorista a serem levadas de volta à China. Analistas chineses têm opinião nada apreciativa da abordagem que o governo Obama adotou para enfrentar o Estado Islâmico, mas não têm qualquer alternativa a propor. É questão cada dia mais importante. A instabilidade ameaça o projeto da Rota da Seda em vários centros crucialmente importantes.

A China não nutre qualquer simpatia pelo que analistas ali costumam chamar de “Islã político”. O flerte entre EUA e Fraternidade Muçulmana – Obama flertou e importantes senadores Republicanos, como o senador John McCain, também flertaram – é visto pelos chineses como incompetência, ou pior. Mas a China não tem capacidade para perseguir terroristas islamistas, se não pelo deslocamento de uns poucos marinheiros na costa da Somália.

O processo de construir políticas na China é cauteloso, conservador e dirigido por consensos. A preocupação dominante, acima de todas as demais, entre os chineses, é a própria economia chinesa. O ritmo das transformações do Oriente Médio surpreendeu os chineses; agora, tentam decidir o que fazer a seguir.

A política pro forma dos chineses é unir-se às conversações sobre o Irã e oferecer-se para unir-se às conversações do “Quarteto” (ONU, EUA, União Europeia e Rússia) sobre a questão Israel-Palestina; mas nenhuma dessas iniciativas tem muito a ver com as atuais preocupações dos chineses.

Não se pode ainda prever o que a China fará no futuro. Mas parece inevitável que os interesses básicos da China levem o país a envolvimento muito maior e mais profundo na região, tanto maior e mais profundo quanto mais avance a retirada dos EUA.


Nota dos tradutores
[1] Ver também, 16/11/2014, redecastorphoto: Pepe Escobar, “Rota de Seda da China, à glória”, traduzido.

[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribuifrequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearnse Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Musil e meta-Musil: a inevitável Iª Guerra Mundial

1/7/2014, [*] David P Goldman, “Spengler”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O Homem sem qualidades" (capas originais)
O Ocidente não estava grávido, em agosto de 1914; só estava com prisão de ventre. Em vez de parir o futuro, esvaziou os intestinos com fúria.

Robert Musil
Nenhum desastre na história do mundo foi mais previsível nem de preparação mais demorada. O grande romance de Robert Musil, O homem sem qualidades, [1] mostra a elite vienense nos meses antes da guerra, com suas preocupações pequenas, sem se dar conta de que o mundo dela estava às vésperas de sumir. É o maior antirromance europeu, porque a premissa autorreferencial – os protagonistas não sabem o que todos os leitores sabem – impede que o romance tenha fim. Não há escolhas certas, porque nada pode impedir que aquele mundo-bolha exploda. Depois de Musil – meta-Musil, por assim dizer – vem a grande evacuação. O romance é considerado obra-prima no mundo de língua alemã. Poucos norte-americanos o conhecem e, dentre esses, ainda menos são os que compreendem o romance.

Agora, quando se aproxima o 100º aniversário da Iª Guerra Mundial, ouviremos número infindável de variações de lamentos pela Civilização Ocidental. Todos dirão mais ou menos o seguinte: no auge de sua prosperidade, de descobertas científicas e de realizações de grande arte, as nações europeias, de repente, inexplicavelmente, mergulharam em massacres mútuos e prepararam o terreno para o grande massacre que viria, de 1939 a 1945. Nada disso. Está errado, simplesmente errado.

A Europa já fizera a mesma coisa antes, por duas vezes: primeiro, na Guerra dos 30 Anos, de 1618-1648; e depois, outra vez, nas Guerras Napoleônicas, de 1797-1814.

Napoleão Bonaparte
As baixas francesas nas Guerras Napoleônicas foram comparáveis às da Iª Guerra Mundial, em relação à população. A França perdeu de 1,4 a 1,7 milhões de homens, sob Napoleão, de uma população total de 29 milhões. Tipicamente, no século XVIII, homens de 17-49 anos constituíam 1/5 da população. O total de contingente militar humano da França Napoleônica era de menos de 6 milhões de homens, o que significa que as baixas alcançaram 23-28% do total da população masculina ativa, mais do que na Iª Guerra Mundial. Muitos mais de outras nações também morreram; dos 500 mil soldados do exército poliglota de Napoleão que marchou para a Rússia em junho de 1812, só 16 mil voltaram.

Os eventos de 1914-1939, como Winston Churchill disse bem, foram “uma segunda Guerra dos 30 Anos”. De fato, a primeira Guerra dos 30 Anos foi, em vários sentidos, pior. Matou quase metade da população da Europa Central e deixou vazias grandes áreas da Espanha e da França.

Obnubilados como somos pela ideia de Progresso, do Iluminismo, rapidamente apagamos o precedente de nossos próprios problemas. Na leitura “das Luzes”, a Guerra dos 30 anos foi conflito religioso, a última orgia de sangue da superstição medieval, antes que a Idade da Razão varresse de vez as teias do fanatismo. É absolutamente falso: depois da revolta inicial, abortada, dos Protestantes da Boêmia contra o Império Austríaco, a Guerra dos 30 Anos tornou-se conflito franco-espanhol, luta de fanáticos dos dois lados, que acreditavam que a respectiva nação teria sido escolhida por Deus para ser agente Dele na Terra. Foi guerra religiosa, afinal de contas, mas guerra entre duas leituras nacionalistas pervertidas do cristianismo católico. A mesma megalomania etnocêntrica impeliu as nações da Europa na direção de 1914.

A guerra poderia ter sido evitada, afinal; e montar cenários nos quais teria sido evitada é uma espécie de prática artesanal doméstica, para historiadores. Esses cenários são mal disfarçadas ‘lições’ de política para o presente. Sou autor de um livro desses, de cenário em que a guerra seria evitada, a saber, uma guerra alemã preventiva contra a França durante a Primeira Crise do Marrocos de 1906 (vide “Why war comes when no one wants it”, Asia Times Online, 2/5/2006).

As causas objetivas da guerra são bem conhecidas e infindavelmente analisadas. A Alemanha tinha a economia e população que mais rapidamente cresciam; os rivais, para conter sua influência, a cercaram.

● – Com a população estagnada, a França não poderia esperar reconquistar para si as províncias de Alsácia e Lorena que perdera para a Alemanha em 1870 – nem vencer qualquer guerra futura, a menos que fosse guerra imediata. Da paridade em meados do século 19, em 1914 a população alemã já era 1,5 vezes maior que a da França.

Mapa da França (Alsácia e Lorena no NE, em vermelho)
● – A Alemanha não poderia concentrar seu exército num ataque esmagador contra a França, se esperasse até a Rússia ter construído sua rede ferroviária interna.

● – A Áustria não conseguiria manter as etnias fracionadas dentro do Império, sem castigar a Sérvia. Não poderia garantir direitos iguais aos sérvios, sem provocar os húngaros, que tinham posição privilegiada no império; só restava suprimi-los.

● – A Rússia não poderia manter controle sobre a parte oeste industrializada do império – Polônia, Ucrânia, os estados do Báltico e a Finlândia – se a Áustria humilhasse seu aliado sérvio, e a Rússia dependia dessas províncias para o grosso dos impostos que arrecadava.

● – A Inglaterra não poderia manter o equilíbrio de poder na Europa, se a Alemanha esmagasse a França.

Alianças na Ia. Guerra Mundial (1914-1918)
Nenhuma dessas potências conseguiria prosseguir sem encarar risco existencial: no caso da França, uma posição enfraquecida, sem esperanças, ante a Alemanha; no caso da Alemanha, uma eventual ameaça por uma Rússia industrializada; no caso da Áustria, rompimento do Império, por efeito de agitação eslavófila; no caso da Rússia, a perda das províncias do oeste, que cairiam na órbita teutônica; e no caso da Inglaterra, a irrelevância no continente, com desafio inevitável contra seu poderio nos mares.

Há vários excelentes relatos dos eventos que levaram à eclosão da guerra em agosto de 1914, um mais recente dos quais é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark. [2] Cada um dos combatentes, de fato, dar-se-ia melhor se conseguisse declinar dos combates. Mas isso significaria abrir mão da reivindicação de superioridade nacional que motivara os combates. Combateram, em outras palavras, não porque tivessem, no sentido estrito da palavra, de combater, mas por causa do tipo de gente que eram. Evan deixa implícito que não estariam raciocinando. Mas com o quê, então, estariam sonhando?

Os europeus lutaram a Grande Guerra de 1914 para evitar converterem-se no que são hoje. Mas, como o homem na história de Somerset Maughan, [3] que tinha encontro com a morte em Samarra, deram um jeito de apressar o encontro.

Thomas Mann
Ainda causa escândalo na Alemanha, que o maior romancista alemão do século XX, Thomas Mann, tenha saudado com entusiasmo a chegada da guerra. Tinha o “coração incendiado” na declaração de guerra, e “sinto-me em triunfo com o colapso do odiado mundo da paz, com a desgraça da corrompida “civilização” mercantil-burguesa, eternamente inimiga do heroísmo e do gênio”. Mann louvou o “indispensável papel, como missionário”, da Alemanha; contrastou a Kultur alemã à mercenária Zivilisation ocidental.

Mann capturara o humor nacional. A Alemanha combateu a Iª Guerra Mundial sob o estandarte da Kultur. Em 1915, 93 dos principais intelectuais e artistas alemães assinaram manifesto em que justificavam o clamor da Alemanha por guerra, em nome da superioridade cultural. Esse é o cerne de uma fala de feia fama de Hans Johst, autor de uma peça teatral de propaganda nazista, Schlageter, [4] apresentada no aniversário de Hitler, depois de os nazistas terem chegado ao poder, em 1933: “Quando ouço a palavra cultura, solto a trava da minha pistola”. Entende-se, em geral, que essa fala mostraria que os nazistas eram analfabetos, o que não é verdade; Hitler era pintor, mau pintor, mas pintor; e amante da música. Na verdade, sempre manifestou rancor contra o sacrifício inominável que o velho regime exigia, a serviço dos velhos ideais.

Thomas Mann entusiasmava-se com a estética da guerra: as mesmas qualidades e as mesmas atitudes que dão forma à arte dão forma à guerra. Por estranho que soe, por mais que perturbe, Mann estava absolutamente certo: a arte e a guerra exigem o mesmo irrestrito comprometimento existencial.

Num artigo de 2010, argumentei que isso ajuda a explicar por que os israelenses tão frequentemente são músicos tão notáveis, os melhores musicistas do mundo clássico. Não apenas herdaram muitos dos melhores professores da Europa Central, mas, como nação, amam e buscam, muito mais do que temem e rejeitam, o risco; e o que faz as grandes interpretações musicais é um senso de risco. “Und setzet ihr nicht das Leben ein/Nie wird euch das Leben gewonnen sein” cantam os soldados da cavalaria de Wallenstein, no drama de Schiller, de 1799, sobre a Guerra dos 30 Anos: se você não aposta a própria vida, não ganha a vida para você mesmo. Com a Alemanha destroçada em 1945, Mann declarou então que a cultura alemã chegara ao fim. Esse é o ponto de seu grande romance do pós-guerra, Doutor Fausto: [5] o protagonista, Adrian Leverkuhn, enlouquece compondo uma cantata atonal cujo objetivo é “retomar” a 9ª Sinfonia de Beethoven – para substituir por aleatoriedade vazia, a harmonia ordenada do passado europeu.

Europa durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648) 
(Clique na imagem para aumentar)
Os asiáticos, que abraçaram em grandes números a música clássica ocidental, devem estranhar muito que essa arte magnífica seja tão negligenciada em suas terras de origem. A resposta é que nós, no ocidente, nós todos, soltamos a trava da pistola quando ouvimos a palavra “cultura”. A cultura harmoniosa, ordeira e otimista da Europa de pré-1914 é carregada de lealdade à tradição, quer dizer: de atitudes que nos levaram para as trincheiras. Desprezamos a cultura, porque abominamos a autoridade, a tradição, a lealdade, quer dizer, virtudes que os asiáticos ainda cultivam. Abominamos arte que exija de nós que reconheçamos autoridade superior – do gênio subordinado à tradição, ao precedente – e preferimos uma cultura popular que tudo nivelaria, com a qual nós podemos nos identificar como supostos iguais (vide American Idolatry, Asia Times Online, 29/8/2006). Mas há uma dimensão da arte ocidental – a abertura para o risco – que a maioria dos asiáticos tem muita dificuldade para entender.

George Weigel
O importante historiador católico George Weigel observa que, em 1914, até o clericato católico “bebeu fundo no poço de um nacionalismo que parecia além do alcance da crítica cristã moral. Assim, quando o Colégio de Cardeais reuniu-se em setembro de 1914 para eleger um sucessor do Papa Pio (...), o cardeal alemão Felix von Hartmann disse ao cardeal belga Desiré Mercier “Espero que não tenhamos de falar de guerra”, ao que Mercier respondeu de bate pronto: “E eu espero que não tenhamos de falar de paz”.  

Weigel cita o capelão alemão que cantava “Fúria sobre a Alemanha! Oh, grande guerra santa da liberdade!”, e o bispo anglicano de Londres, que conclamava os fiéis de sua congregação a matar alemães: “Matem-nos, não matar por matar, mas matar para salvar o mundo; matar os bons, e também os maus. Matar”. Weigel pensa que esse nacionalismo maligno tem raízes no século anterior à Iª Guerra Mundial. Não concordo. A megalomania da “nação eleita” motivou franceses e espanhóis, os dois lados da Guerra dos 30 Anos. Como escrevi em meu livro de 2011, How Civilizations Die (and Why Islam is Dying, Too) [Como as civilizações morrem (e por que o Islã também está morrendo)]:

Não só os interesses temporais do estado francês, mas a crença apaixonada em que a França seria A Nação Eleita, motivaram Richelieu e Tremblay a prolongar as guerras religiosas dos anos 1620s por trinta anos, matando vasta proporção da população da Europa Central (…) Se a Guerra dos 30 Anos foi genuinamente guerra religiosa, de católicos contra protestantes, a França, como o mais poderoso país católico, deveria ter apoiado a Áustria católica. Mas a França não podia apoiar a demanda das dinastias Habsburgo austríaca e espanhola, que queriam o título imperial e o direito de representar a Cristandade. E a França, em vez de apoiar, decidiu arruinar a Áustria e a Espanha, para estabelecer-se ela mesma.

Como os franceses (...) a corte espanhola também acreditava que a Espanha era a nação escolhida por Deus como sua Procuradoria terrena. O monge e teórico político Juan de Salazar escreveu, em 1619, em seu tratado Politica Española que “os espanhóis foram eleitos para realizar o Novo Testamento assim como Israel foi eleita para realizar o Velho Testamento. Os milagres com que a Providência favoreceu a política espanhola confirmam essa analogia do povo espanhol com o povo judeu, de modo que a similaridade dos eventos em todas as épocas, e o modo singular como Deus manteve a escolha e o governo do povo espanhol, declaram que esse é o povo escolhido pela lei da graça, assim como o outro foi o escolhido antes, no tempo das escrituras (...) Daí se pode concluir, das atuais circunstâncias, como das sagradas Escrituras, que a monarquia espanhola perdurará por muitos séculos e será a última monarquia”. Segundo Stanley Payne, aí se vê “atitude não incomum na corte e em parte da elite de Castela”.

E adiante:

A atormentada urgência de cada nação de ser “a escolhida”, experimentada na pele, começou com a primeira conversão de pagãos europeus; estava incorporada na Cristandade Europeia, na fundação. Cronistas cristãos põem os monarcas europeus recém batizados no papel de reis bíblicos; e suas nações, no papel da Israel bíblica. A primeira vez que se ouviu autoproclamação como “nação escolhida” foi no auge da primeira das Idades das Trevas: do cronista do século VIº, São Gregório de Tours (538-594); e do clérigo ibérico do século VIIº, Santo Isidoro de Sevilha.

Os Santos Isidoro de Sevilha e Gregório de Tours foram, de certo modo, os Bialystock e Bloom, [6] da Idade das Trevas; os Produtores do show “a fundação da Europa”: venderam 100% do show a cada um e a todos os reizinhos. Não se pode culpar os produtores. Transmutar os invasores bárbaros que infestavam o arruinado império dos romanos, em cristãos, foi talvez o mais notável feito político de toda a história mundial, mas requereu muita lábia, que teria consequências assustadoras, chocantes, no longo prazo. Os restos das imundícies do velho paganismo europeu acumularam-se nos enroscados intestinos da Europa, até que os terríveis eventos de 1914-1945 puseram tudo para fora.

Sigmund Freud
A visão autenticamente católica de um império universal não conseguiu impor-se, ela própria, sobre os reclamos mais tangíveis de sangue e terra. Os europeus não lutaram as guerras de 1618, 1814 ou 1914 como cristãos, mas como criptopagãos. Essa foi a discussão entre os críticos judeus, de Heinrich Heine a Franz Rosenzweig e Siegmund Freud. Freud escreveu:

Não podemos esquecer que todos os povos que hoje se destacaram na prática do antissemitismo só se tornaram cristãos em tempos relativamente recentes, às vezes obrigados por compulsão sangrenta. Pode-se dizer que todos foram ‘mal batizados’ [também “mal cristianizados” (NTs)]; sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que seus ancestrais sempre foram, barbaramente politeístas. Ainda não superaram o ressentimento e a rejeição que lhes inspira a nova religião, que foi imposta a eles; e que eles projetaram sobre a fonte da qual veio a eles o cristianismo. [7]

Os homens não são moderados. Não somos tão diferentes de nossos pais como gostamos de crer. Os europeus hedonistas, sem filhos, de hoje, são o mesmo povo que lutou e morreu aos milhões pelo rei pelo país em 1618 ou 1814. Qualquer coisa pela qual valha a pena viver vale também que se morra por ela; se não se consegue pensar em nada por que morreríamos, implica que tampouco temos algo por que viver – exatamente como os europeus de hoje. A Europa aprendeu por muito tempo que sangue e terra, Kultur e Grandeur, eram itens pelos quais não valeria a pena lutar. Mas a Europa nada encontrou, pelo qual viver, depois que rejeitou para sempre os deuses nacionais de seu passado violento. Está morrendo de nervoso e tédio, desgostosa do próprio passado e descuidosa do próprio futuro, sem querer pôr filhos no mundo nem, que fosse, para assegurar a própria sobrevivência por mais um século.

“Muito foi salvo”, escreveu um soldado da Grande Guerra, J R R Tolkien, mas “muito tem agora de morrer”. Apesar de Hans Johst, a cultura europeia não morrerá: como aconteceu com a guarda da cultura grega clássica, que passou para as mãos de europeus, a arte europeia – pelo menos, com certeza, sua música – passará para as mãos de asiáticos.



Notas dos tradutores

[1] MUSIL, Robert [1880-1942], O homem sem qualidades (1930-33-43), Nova Fronteira, 1978, trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth, 2 vol., 786 pp (romance inacabado).

[2] CLARK, Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a primeira guerra mundial, 1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[3] “Encontro com a morte em Samarra”. É o trecho final de uma peça escrita por Somerset Maughan em 1932. Lê-se, em português
.
[4] Schlageter, Albert Leo: sobre o personagem título.

[5] MANN, Thomas [1875-1955]. Doutor Fausto (1947), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, trad. Herbert Caro, s/d.

[6] Referência aos personagens do filme The Producers, primeiro filme de Mel Brooks, de 1968 (Zero Mostel faz o papel de Max Bialystock, produtor de uma peça teatral; e Gene Wilder é Leo Bloom, seu secretário). Em português, lê-se alguma coisa (de segunda mão) em O Estado de S.Paulo, em 1969 sobre a peça teatral (“Os Produtores”) que foi montada no Brasil; talvez ajude a entender a metáfora.

[7] FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939 [1934-38]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXIII.
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[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribui frequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearns e Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.