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quinta-feira, 26 de março de 2015

Kolomoisky começa a devorar a Ucrânia

21/2/2015, [*] Valentin KATASONOV, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


ATUALIZAÇÃO:
24/3/2015 – “O regime do golpe na Ucrânia está diante do que parece ser guerra total entre ladrões, como o oligarca e senhor-da-guerra, Igor Kolomoisky, que foi presenteado com uma província só dele para governar, mas levou seu exército privado para Kiev afim de disputar a tiros o controle da empresa estatal de energia, o que complicou terrivelmente os esforços de propaganda do Departamento de Estado dos EUA” (mais sobre isso em “Oligarcas ucranianos engalfinham-se entre eles” (ing. Ukraine’s Oligarchs Turn on Each Other), Robert Parry, Consortium News, 24/3/2015).


Ver também:
●— 24/3/2015, New York Times em: Começou a guerra dos oligarcas na Ucrânia! (ing. Dispute Between Poroshenko and Billionaire Governor Threaten Ukraine Alliance) ou 24/3/2015, Russia Insider (ing. Ukraine’s Oligarch War Begins!)
●— 24/3/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker em: Estará o Tio Sam “queimando” Kolomoisky? (ing. “Is Uncle Sam “tossing” Kolomoiskii?)


Igor Kolomoisky, oligarca judeu aliado dos partidos nazifascistas Svoboda e Setor Direita (Pravy Sektor)
Há cerca de 25 anos, o capitalismo oligárquico começou a crescer em solo ucraniano. É coisa que se baseia na “seleção natural” – os oligarcas devoram pequenas e médias empresas, e o patrimônio do estado. Quando os recursos para acumulação primitiva de capital se esgotam, os oligarcas começam a devorar-se uns os outros, usando poder de governo, tomada fraudulenta de empresas, judiciário corruptos, sumiço de provas e até assassinatos, sendo necessários. São como vários escorpiões num vaso pequeno.

Rinat Akhmetov
Depois do golpe de 2014 na Ucrânia, o tal processo de “seleção natural” capitalista na Ucrânia foi repentinamente acelerado. Alguns dos oligarcas, como Dmitry Firtash, por exemplo, abandonaram a disputa, com outros. Rinat Akhmetov que chegou a ser o mais rico dos oligarcas ucranianos, já deixou a lista dos 100 mais ricos do mundo. O Bloomberg Billionaires Index derrubou-o, do 88º lugar, para o 121º. Em um ano, perdeu US$ 4,3 bilhões, o que o deixou com US$ 9,6 bilhões.

Agora, Petro Poroshenko e Igor Kolomoisky são os que chegam à disputa final. Difícil avaliar a situação dos negócios de Poroshenko depois que tomou posse, mas algumas informações sobre Kolomoisky caíram em domínio público.

As notícias mais recentes dizem que as ações da empresa de Kolomoisky caíram 25% dia 19/2/2015 na Bolsa de Londres. JKX Oil & Gas plc (JKX) é empresa com sede na Grã-Bretanha, para exploração e produção de hidrocarbonetos listada na Bolsa de Valores de Londres. Kolomoisky é coproprietário de Eclairs Group Ltd. que controla 27,47% das ações de JKX. Em maio de 2014, Nigel Moore, Diretor Executivo da empresa JKX escreveu aos acionistas para informar que a Eclairs, empresa registrada nas Ilhas Virgens, controlada mediante uma rede complexa de fundos offshore é, de fato, propriedade de Igor Kolomoisky (59,1%) e de Gennady Bogolyubov e família (40,9%). No meio do dia, as ações de JKX caíram repentinamente 34%. Ao final do dia, a queda estava em 25%, na comparação com os preços da abertura do pregão, pela manhã. A empresa opera basicamente na Ucrânia (85% da renda). (...) Especialistas acreditam que alguma empresa russa derrubou as ações da JKX. (...) Ao longo do ano, a JKX vinha seriamente perdendo posições. A ação caíra 73% ($250 milhões) nos doze últimos meses até o dia 4 de fevereiro.

Kolomoisky investiu na JKX há alguns anos, na esperança de converter milhões em bilhões em curto período de tempo. A empresa planejava lucrar na exploração e desenvolvimentos de depósitos de gás e petróleo de xisto. Em 2013, lançou o maior projeto da Europa, de extração de gás e petróleo de xisto. Especialistas denunciaram que seria desastre ecológico, com ecos que chegariam à Rússia e outros países vizinhos da Europa. A onda de protestos e caos que daí decorreu obrigou a Ucrânia a suspender o processo. Em seguida, a queda no preço do petróleo tornou o projeto economicamente inviável.

Petro Poroshenko
Mais uma história relacionada a Kolomoisky, cidadão israelense, e a JKX, empresa que ele controla. A empresa disse, em 16/2/2015, que iniciara procedimentos de arbitragem contra a Ucrânia, nos termos dos tratados da Carta de Energia [Orig. Energy Charter Treaty], tratados bilaterais de investimentos (com a Grã-Bretanha e a Holanda) exigindo uma indenização de US$ 180 milhões, relacionada à produção de petróleo e gás.

A JKX tenta receber a devolução de mais de US$ 180 milhões em aluguéis que sua subsidiária ucraniana pagara “ilegalmente” para produzir petróleo e gás na Ucrânia desde 2011. (...). E houve também outros pagamentos impostos à empresa. Em 2014, o parlamento ucraniano aumentou temporariamente o royalty para extração de gás, de 28% para 55% (para profundidades inferiores a 5 km), depois, o parlamento prorrogou a exigência até 2015. (...)

O mais engraçado é que Kolomoisky, que recebeu o governo da província de Dnepropetrovsk em março de 2014 e, portanto, é parte do governo ucraniano, inicie processos... contra o próprio governo do qual faz parte. Qual a novidade? Ele está habituado a fazer dinheiro a partir de “recursos administrativos”. Se conseguir que a corte internacional de arbitragem acolha o pedido de proteção judicial aos direitos de Kolomoisky e Bogoliubov (beneficiários ucranianos da empresa), Kolomoisky, na sequência, mobilizará seus “recursos administrativos” para conseguir que a Ucrânia pague todas as devidas “compensações”.

Igor Kolomoisky é exemplo luminoso de parasita que mama nas tetas do Estado. Naftogas é a empresa nacional de petróleo e gás envolvida com extração, transporte e refino de gás natural e petróleo cru. A Ukrnafta é a mais conhecida das suas subsidiárias, com 51% das ações sob controle da Naftogas. Formalmente, Ukrnafta é empresa estatal. Na prática, é controlada por Kolomoisky.

Dia 10/2/2015 a equipe de administração da Ukrnafta, controlada por Kolomoisky, protocolou uma reclamação, na corte administrativa de Kiev, contra o governo da Ucrânia, o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio e o Ministério de Energia, na qual exige que quatro representantes da empresa nacional Naftogaz Ukrainy sejam demitidos do comitê que controla as vendas de petróleo e de gás natural condensado e liquefeito de origem nacional. Os quatro foram nomeados por decisão do governo da Ucrânia, dia 16/12/2014.

Sergey Leshchenko
Sergey Leshchenko, membro do Parlamento, revelou as razão por trás de tão estranho comportamento. Segundo ele, ao longo de vários meses Kolomoisky vendeu patrimônio da Ukrnafta em leilões clandestinos. Os bens eram comprados pelo preço inicial menos 15%, por empresas controladas também por Kolomoisky, evidentemente sem qualquer concorrência. Em cada leilão, o oligarca ganhava e a empresa perdia entre meio bilhão e um bilhão de hryvnas (moeda da Ucrânia). Leshchenko explicou que, agora, Kolomoisky não pode mais obter esses bons descontos. Foi proibido de realizar um leilão com taxa de 15:1 hryvna/dólar (a taxa real é 23:1). A Ukrnafta, agora, quer sabotar outro leilão de petróleo vendido a preço de mercado. Na verdade, a Ukrnafta priva-se, ela mesma, de renda extra. Mas não é tão absurdo quanto parece, porque, por esse sistema, a companhia estatal abertamente protege os interesses do “patriota” Kolomoisky.

Kolomoisky sofreu grandes perdas em anos recentes, perdeu muito dinheiro. Perdeu US$ 2 bilhões na Crimeia, além de seus bens na Rússia e na parte sudeste da Ucrânia. Segundo a revista Forbes, Kolomoisky valeria hoje US$ 1,3 bilhões (quase a metade dos US$ 2,4 bilhões de dois anos atrás). Perdeu dinheiro, mas outros oligarcas ucranianos perderam ainda mais depressa que ele. E ele tem demonstrado muitos talentos e recursos para compensar as perdas. É homem esperto e impiedoso. Talvez, quem sabe, devore algum outro verme gordo, como Poroshenko, por exemplo. Mas... e depois?

O que restará, afinal, para devorar? A economia e o estado ucraniano acabarão destruídos. Segundo especialistas, a economia pode encolher de 10 a 20% em 2015. Depois, parasitas diferentes, de calibre “global” saquearão toda a riqueza acumulada por Kolomoisky. Os expropriadores-saqueadores ucranianos contemporâneos serão por sua vez também expropriados-saqueados. A Ucrânia e seus oligarcas são bom exemplo para quem ainda se interesse pelo processo de “seleção natural” no mundo do capitalismo predatório.
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[*] Valentin Katasonov (nasceu em 5/4/1950) tornou-se professor do Instituto Estatal de Moscou de Relações Internacionais (MGIMO) onde lecionou de 1972 até 1990. É conhecido autor russo no mercado financeiro internacional. É também cientista e escritor respeitado. Doutor em Ciências Econômicas e membro da Academia de Ciências Econômicas e de Negócios da Rússia. Em 1991, escreveu a monografia: “Uma grande potência ou potência ambiental?”; entre 1991-1993 trabalhou como Consultor Econômico da ONU.
No período 1993-1996 foi membro do Conselho Consultivo do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD). Entre 1996 e 2000 foi Vice-Diretor do Russian National Investment Bank. No período de 2001 a 2011 foi Diretor do Departamento de Relações Internacionais para Assuntos de Câmbio, Moedas e Fundos do BERD. A partir de 2012 tornou-se Analista Econômico independente (free-lance).
Escreveu durante a carreira inúmeros livros, ensaios, monografias e artigos publicados em diversos veículos de imprensa. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

FMI: empréstimos de Nova Guerra Fria à Ucrânia (1/2)

8/9/2014, [*] Michael Hudson, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Interessa aos Estados Unidos que o MERCOSUL seja desmontado e que projetos da era tucana sejam retomados. Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina − 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [**]

Fundo Monetário Internacional
por Latuff/2010
Em abril de 2014, logo depois de manifestações contra os cleptocratas na Praça Maidan e o golpe de 22 de maio de 2014, e menos de um mês antes do massacre de Odessa, do dia 2 de maio de 2014, o FMI aprovou um programa de empréstimos de US$ 17 bilhões para a junta na Ucrânia. A prática normal do FMI é emprestar no máximo duas vezes a cota de cada país num único ano. Aquele empréstimo feito aos golpistas da Ucrânia foi oito vezes superior à cota da Ucrânia.

Quatro meses antes, dia 29 de agosto 2014, exatamente quando Kiev começou a perder na guerra de limpeza étnica que movia contra a região do Donbass, no leste da Ucrânia, o FMI concedeu o primeiro empréstimo jamais concedido, em toda a história do Fundo, a país engajado em guerra civil, sem falar de fuga de capitais e da balança de pagamentos em colapso. Baseado em projeções fictícias, que “apagavam” as dificuldades de a instituição vir algum dia a ser paga, o empréstimo sustentou a moeda ucraniana, a hryvnia, por tempo suficiente para que os bancos dos oligarcas transferissem as contas em moeda ucraniana, antes que a hryvnia despencasse e passasse a valer, a cada dia, menos euros e dólares.

Esse empréstimo mostra até que ponto o FMI é um braço da política de Guerra Fria dos EUA. Os termos desse empréstimo impunham a austeridade “de praxe”, como se alguma “austeridade” pudesse estabilizar finanças de países devastados por guerras. Todo o dinheiro, obviamente, foi usado para reconstruir o exército. O leste da Ucrânia nada recebeu nem jamais receberá, por mais que se saiba que a infraestrutura local de hospitais, fornecimento de água e de geração de energia tenha sido destruída. Áreas civis, residenciais, precisamente as mais duramente atacadas, absolutamente não conhecerão os benefícios dessa rara prova de generosidade desinteressada, do FMI.

Um quarto das exportações da Ucrânia vinham dessas províncias do leste e eram vendidas principalmente à Rússia. Mas Kiev bombardeou e continua a bombardear as indústrias do Donbass e deixou as minas de carvão sem energia elétrica para operarem. Perto de meio milhão de civis já fugiram para a Rússia. Mesmo assim, o FMI elogia:

O FMI elogiou o compromisso do governo ucraniano, que se dedica a promover reformas econômicas, apesar do conflito em andamento.

Ridículo. Não surpreende que tais empréstimos e tais elogios não tenham sido noticiados nem na imprensa especializada em economia & business!


O empréstimo com certeza aumentou o conflito interno no próprio FMI, entre os economistas empregados, que se manifestaram abertamente na reunião anual de 2013 em Washington. Naquele momento, o problema foi o desastroso empréstimo de US$ 47 bilhões que o Fundo concedera à Grécia – naquele momento o maior empréstimo da história do FMI – tema de um documento interno do FMI, de 50 páginas, que vazou para o Wall Street Journal.

Reconhecendo que o FMI “subestimou gravemente o dano que as medidas prescritas de austeridade causariam à economia da Grécia,” economistas do quadro de empregados do FMI culparam a pressão exercida por países da eurozona para proteger “seus próprios bancos que tinham grande parte da dívida do governo grego” (...). O FMI projetara originalmente que a Grécia perderia 5,5% de seu output econômico entre 2009 e 2012. Mas o país perdeu 17% em termos reais, do PIB. O plano previa 15% de desemprego em 2012; chegou a 25%.

O Ato de Constituição do FMI proíbe que se façam empréstimos a países que claramente não têm condições para pagar, o que levou economistas do próprio FMI a declarar, na reunião anual, que a própria instituição estava violando suas regras de não fazer empréstimos podres, “a países incapazes de pagar as próprias dívidas”. Um daqueles economistas disse que aquela Análise de Sustentabilidade da Dívida não passava de “uma piada”; uma comissão oficial [europeia] descreveu-a como “histórias da carochinha para fazer crianças dormirem” e um ministro de finanças grego descreveu-a como “cientificamente ridícula”.

Na prática, o FMI simplesmente “adiantou” o dinheiro de que um país precisava para pagar seus banqueiros e acionistas, fingindo que mais austeridade ampliaria a capacidade de pagamento do país para reembolsar o empréstimo (não que só faria aprofundar a armadilha da dívida), enquanto Kiev usou o dinheiro também para despesas militares, para poder atacar as províncias do leste do país.

Tudo isso levanta a questão de se o empréstimo do FMI é de fato uma “dívida odiosa” que está sendo contraída por uma junta militar e roubada por insiders, dentro do governo.


John Helmer, do blog Dances with Bears [danças com ursos], calcula que:


Diferente do que o fez no mais recente empréstimo desastroso a Chipre, o FMI não revelou os próprios argumentos. Mas deixou claro que o Banco Nacional da Ucrânia [orig. National Bank of Ucrânia (NBU)] – o banco central ucraniano – estava simplesmente passando adiante o dinheiro para os cleptocratas que controlam todos os bancos do país como parte dos próprios negócios, e financiando o ataque militar contra o leste do país:

A proporção dos seguros e empréstimos a bancos aumentou de 28% do patrimônio do Banco Central ucraniano no final de 2010, para 56% no final de abril de 2014.

A situação financeira estava piorando. Ante os riscos crescentes de insolvência, já se sabe que os principais bancos da Ucrânia precisarão de mais US$ 5 bilhões além e acima dos US$ 17 bilhões que o FMI já se comprometeu a “fornecer”.

Na preparação para as eleições marcadas para outubro, as províncias do leste não têm condições objetivas para votar; e a junta já baniu o Partido Comunista e também está censurando televisões e jornais. Os partidos pró-guerra não conseguem conquistar eleitores nem no oeste do país (como já aconteceu no início de setembro). Há sinais de novo golpe do Setor Direita e de nacionalistas ucranianos aliados a neonazistas, comandados pelo oligarca Igor Kolomoisky, homem que mantém seu próprio exército privado. Lê-se, em Johnson’s Rússia List (não há versão online [1]):

Igor Kolomoisky
Ante a derrotada em guerra, está à vista nova mudança de regime. O espectro de um golpe ronda outra vez as ruas e praças de Kiev. Guardas da Guarda Nacional sobreviventes ameaçam voltar-se contra Poroshenko. Está tomando forma um terceiro movimento na Praça Maydan, para varrer do poder o atual governo. Os instigadores do movimento, dessa vez, são militantes dos esquadrões-da-morte criados com o dinheiro de Kolomoyskyy. É claro que são os oligarcas, jogando o próprio jogo contra Poroshenko. Kolomoyskyy mantém a seu serviço um forte exército privado, capaz de impor qualquer golpe.

Planos de privatização para a Ucrânia: FMI & EUA

Não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.
[Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães: — Com Aécio fora do jogo, EUA se inclinam para Marina − 6/9/2014, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Dario Pignotti] [***]

O principal problema da Ucrânia é que a dívida do país é denominada em dólares e euros. Parece haver um único meio para a Ucrânia levantar moeda estrangeira para pagar o que deve ao FMI e a financiadores da OTAN reunidos para ajudar a ocidentalizar a economia do país: vender recursos naturais, a começar por direitos do gás, e terra cultivável.

Aqui a figura sinistra de Kolomoisky ressurge, com total apoio dos EUA. Recente lei aprovada pelo senado [Senate Bill 2277]

(...) “ordena que a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA aprove empréstimos para todas as fases de desenvolvimento de projetos de petróleo e gás” na Ucrânia, Moldávia e Geórgia.

Hunter (E) e Joe Biden 
O filho do vice-presidente Biden, R. Hunter Biden, foi recentemente contratado para dirigir a empresa Burisma, empresa ucraniana de gás e petróleo registrada em Chipre, há muito tempo uma das favoritas dos operadores pós-URSS. A empresa tem suficiente influência sobre a política de Kiev, para fazer, da prospecção de gás de xisto em terras ucranianas um objetivo militar. Como se lê no Peu Report, citando relatório do periódico Economic Policy Journal: [2]

Soldados ucranianos ajudaram a instalar equipamento para produção de gás de xisto perto da cidade de Slavyansk, no leste da Ucrânia, que eles mesmos bombardearam sem parar ao longo dos três meses anteriores, disse a agência novorussa de notícia por sua página na internet, citando moradores da cidade. Civis protegidos pelo exército ucraniano estão já prontos para instalar equipamento de perfuração. Mais equipamento está chegando, dizem eles. Informam também que os militares estão cercando toda a futura área de extração.

A imprensa-empresa ocidental nada noticiou sobre os protestos populares no leste e no oeste da Ucrânia contra a extração do gás de xisto [orig. fracking] e por questões de uso do solo em geral, mas há pelo menos uma informação:

A população de Slavyansk, cidade localizada no coração do campo Yzovka de gás de xisto, organizou inúmeras ações de protesto no passado, sempre contra a exploração e desenvolvimento daquele tipo de recurso. Querem, mesmo, realizar um referendo para decidir sobre a questão...

O fracking polui o solo, a água e o ar
Países como a República Tcheca, os Países Baixos e a França já desistiram de projetos que tinham para desenvolvimento de gás de xisto em seus países. Não só esses, mas também a Alemanha, sempre importante, que há duas semanas anunciou que suspenderá “a perfuração em campos de gás de xisto, durante os próximos sete anos, por causa dos riscos de contaminação dos depósitos subterrâneos de água”. Aos EUA e ao FMI, só interessa reduzir a dependência dos europeus, do gás russo, e fazer a balança de pagamentos pender a favor dos EUA, não da Rússia, como mais um fator para conter os russos, na Nova Guerra Fria.

Mas tudo isso envolveu aliança potencialmente muito embaraçosa entre EUA e Kolomoisky, um dos principais proprietários da empresa Burisma, mediante seu Privat Bank. Robert Parry destaca que:

Kolomoisky foi nomeado pelo regime golpista para ser governador da província (Oblast) de Dnipropetrovsk, no centro-sul da Ucrânia. Kolomoisky também tem sido associado ao financiamento dos brutais esquadrões-da-morte que promovem ações de limpeza ética no leste da Ucrânia, contra russos.

Outro recurso natural ucraniano a ser vendido é terra agricultável. Já há ali pesado investimento da empresa Monsanto em grãos geneticamente modificados. Relatório recente distribuído pelo Oakland Institute, “Caminhando pelo lado oeste: Banco Mundial e FMI no conflito ucraniano” (ing.), descreve pressões para desregular o uso da terra agricultável ucraniana e promover a venda a investidores dos EUA e de outros países. O Instituto Oakland observa que “a IFC aconselhou o país a apagar todos os impedimentos para certificação de alimentos nas leis ucranianas“ e a “evitar aumentar desnecessariamente os custos para as empresas” com regulações sobre uso de pesticidas, aditivos etc..

Pare com os transgênicos!
O mais intrigante é que nem a Rússia nem a maioria dos países europeus aceitam produtos geneticamente modificados. Parece, assim, que o único modo pelo qual a Ucrânia conseguiria exportar seus alimentos é se a diplomacia norte-americana conseguir que a Europa derrube suas leis contra organismos geneticamente modificados. Pode ser mais uma dificuldade entre os EUA e países europeus membros da OTAN.

Será caríssimo reconstruir as instalações de infraestrutura de água e eletricidade destruídas pelas forças de Kiev em Donetsk – que enfrentará longo inverno, gelado e escuro. Kiev parou de pagar pensões e aposentadorias no Leste da Ucrânia.

Mesmo antes dos eventos da Praça Maidan, a população local já tentava impedir a extração de gás de xisto (fracking) , exatamente como a Alemanha e outros países europeus também estavam fazendo. A população também se manifestou várias vezes contra a apropriação de terras por cleptocratas ucranianos e por empresas como a Monsanto que operam com sementes geneticamente modificadas –, mais uma vez exatamente como a Alemanha e outros países europeus também têm reagido contra colheitas obtidas de organismos geneticamente modificados.

[Continua]



[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é professor e pesquisador de economia na Universidade de Missouri–Kansas City (UMKC) e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da "Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo" (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE).
________________________

[**] e [***] Notas acrescentadas pelos tradutores.

Notas de rodapé

[1] Marina Perevozkina e Artur Avakov, Moskovskiy Komsomolets, 4/9/2014, da Johnson’s Russia List, 6/9/2014, #14. Acrescentam que Putin ordenou o sequestro das propriedades de Kolomoyskyy na Crimeia e em Moscou.


[2] O relato acrescenta: Além da “questão do gás”, há também o fato de que foi o vice-presidente dos EUA Joe Biden quem mandou que o presidente Yanukovich retirasse suas forças policiais dia 21 de fevereiro de 2014, movimento que abriu caminho para o avanço das milícias neonazistas e para o golpe apoiado pelos EUA. Na sequência, três meses depois, a maior empresa privada de gás da Ucrânia, Burisma Holdings, contratou o filho de Biden, Hunter Biden, para integrar seu corpo de diretores.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Dez sinais que, se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, TODOS veriam

30/8/2014,[*] Dmitry Orlov, blog Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Desfile de uma coluna de tanques T-62 russos, com blindagem extra
5ª-feira passada, o governo ucraniano, ecoado por porta-vozes da OTAN, declarou que militares russos estariam agora operando dentro das fronteiras da Ucrânia. Ora... Pode ser que sim, pode ser que não. Como ter certeza? Já disseram coisa semelhante antes, a data mais próxima, dia 13 de agosto de 2014, depois outra vez dia 17 de agosto de 2014, e prova nenhuma, nem que fosse prova plantada ou prova-que-não-prova. Mas concedamos-lhes o benefício da dúvida. Seja você mesmo o juiz.

Roman Kretsul
Ofereço aqui essa útil listinha de dez sinais CLARÍSSIMOS, indiscutivelmente claros, que permitem que, ante qualquer um deles, você possa ter certeza de que sim, a Rússia invadiu a Ucrânia; ou de que, na ausência do sinal, você possa ter certeza de que não, a Rússia não invadiu a Ucrânia na 5ª-feira (28/8/2014), e as “notícias” da 5ª-feira não passam de fabulação (créditos para Roman Kretsul).

Porque se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia na 5ª-feira, já logo no sábado (30/8/2014) à tarde a situação em solo seria do seguinte tipo:

1. A artilharia ucraniana teria mergulhado em silêncio sepulcral quase imediatamente. Já não estaria bombardeando os distritos residenciais de Donetsk e Lugansk. Isso porque antes da invasão os russos já teriam localizado as posições deles, e na 5ª-feira à tarde aquela artilharia teria sido varrida do cenário, por ataques aéreos, de artilharia e com fogo de foguetes em terra, como item um da agenda do business. Os residentes locais estariam nas ruas, festejando o fim do horrível suplício a que estão submetidos.

2. O visual da atividade militar em solo em Donetsk e Lugansk teria mudado dramaticamente. Sem invasão, o que se viam eram pequenos grupos de combatentes resistentes; com invasão, seriam batalhões de 400 soldados e dúzias de blindados, seguidos de comboios de veículos de apoio (caminhões-tanques, de comunicações, cozinhas de campanhas, hospital de campanha e o resto todo). O fluxo de veículos passa a ser ininterrupto, plenamente visível pelos aviões de reconhecimentos e muito claro em fotos de satélites. Acrescentem-se as infindáveis conversas por rádio, sempre em russo, que qualquer um poderia interceptar. Significa que “invasão” é operação que ninguém consegue(ria) esconder.

3. Os militares ucranianos teriam sumido, desaparecido. Soldados, oficiais, comandos, teriam despido os uniformes, largado as armas, e feito o melhor que pudessem para misturar-se à população local. Ninguém se atreveria a apostar no exército ucraniano contra o exército russo. A única vitória militar da Ucrânia contra a Rússia aconteceu na batalha de Konotop em 1659, mas naquele tempo a Ucrânia era aliada ao Khanato da Crimeia; e, agora, todos já devem ter visto que a Crimeia não está lutando ao lado da Ucrânia.

Os NEONAZISTAS teriam desaparecido da Ucrânia
4. Se a Rússia tivesse invadido na 5ª-feira, haveria postos russos de controle por toda parte. Civis locais poderiam andar por onde quisessem, mas qualquer um associado com o governo da Ucrânia, estrangeiro ou nacional, estaria detido para ser interrogado. Um sistema de seleção já estaria implantado, para desmobilizar todos os recém alistados ao exército ucraniano e providenciar o retorno deles às suas regiões nativas; e voluntários e comandantes já estariam alocados em centros de detenção, até que se determinasse se ordenaram a prática de crimes de guerra.

5. A maioria dos pontos de fronteira na fronteira da Ucrânia já estariam sob controle dos russos. Alguns teriam sido reforçados com defesas aéreas e sistemas de artilharia e batalhões blindados, para dissuadir as forças da OTAN que por acaso se interessassem por fingir que invadiam alguma coisa. O trânsito de civis e bens humanitários é livre, claro. Homens de negócios podem passar, desde que preencham todos os formulários (escritos em russo).

6. Se tivesse invadido a Ucrânia, a Rússia já teria implantado sua zona aérea de exclusão sobre toda a Ucrânia. Voos civis já estaria cancelados, todos. Haveria uma legião de meninos-de-recados do Departamento de Estado dos EUA, agentes da CIA e do Mossad, muita gente de ONGs ocidentais, todos se empurrando nos guichês do aeroporto Borispol em Kiev. Vários agarrados nervosamente aos seus telefones por satélite, tentando falar com qualquer um. Políticos ocidentais exigem que aquela gente seja imediatamente evacuada, mas as autoridades russas precisam interrogar todos, antes de deixá-los partir, porque há alta possibilidade de que muitos deles estejam envolvidos (cúmplices) em crimes de guerra.

7. Aquelas caras-de-televisão ucranianas de sempre, como o presidente Poroshenko, Yatsenyuk e outros, teriam sumido, se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, e não estariam dando entrevista a TODOS os canais da mídia ocidental, sem parar. Ninguém, ninguém mesmo, saberia do paradeiro deles. Haveria boatos de que já teriam fugido do país. As mansões onde vivem teriam sido invadidas e destruídas e multidões teriam visto, embasbacadas, que as casas eram adornadas com urinóis de ouro. Nenhum oligarca ucraniano seria acessível, inencontráveis, exceto Igor Kolomoisky, senhor da guerra, descoberto em sua residência, abandonado pelos criados, morto por ataque cardíaco (contribuição do Saker).

A união do neonazismo ucraniano com a
oligarquia SIONISTA de Igor Kolomoisky (C)
8. Alguns dos mais de 800 mil refugiados ucranianos já estariam começando a voltar, da Rússia, se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia na 5ª-feira. Lá, têm de morar em barracas, alguns na região vizinha de Rostov, mas, com o inverno chegando, só pensariam em voltar para casa porque, se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, os bombardeios teriam acabado. E com os refugiados, já estariam chegando equipes de construção, caminhões de cimento, e caminhões com fios e tijolos e canos não parariam de chegar, para começar a reconstruir e reparar os estragos causados pelos bombardeios (tudo isso, claro, se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia na 5ª-feira).

Victoria "Foda-se a UE" Nuland (C) ladeada por elementos da "Junta de Kiev; à direita dela o "inefável" chefe do Partido Nazista Svoboda, Oleh Tyahnybok; atrás vemos o ex-boxeur Vitaly Klitschko; e à esquerda dela o não menos "inefável" PM Yats! 'Taí o Banderastão! 
9. Haveria a mais intensa atividade diplomática e militar em todo o mundo, especialmente na Europa; e as forças militares dos EUA estariam em alerta máximo, diplomatas entrando e saindo de jatinhos pelo mundo, em conferências sem fim. O presidente Obama já teria convocado conferência de imprensa, para anunciar que “ainda não temos uma estratégia para a Ucrânia”. A estratégia de sempre, dos conselheiros militares de Obama, de “bombardeie um pouco e ‘vamvê comé que fica’, ajudaria pouco (se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia na 5ª-feira).

10. Se a Rússia tivesse invadido a Ucrânia na 5ª-feira, Kiev já se teria rendido. Haveria tanques russos na Praça Maidan. Infantaria russa, cuidando dos remanescentes da Guarda Nacional da Ucrânia. Kiev estaria sob toque de recolher. A tomada de Kiev seria muito parecida com “Choque e Pavor” em Bagdá: uns poucos bangs em tom bem alto e, depois, um gemido.

Pronto. Armado com a lista acima, você mesmo pode decidir se a Rússia invadiu ou não invadiu a Ucrânia, na 5ª-feira passada (28/8/2014).


[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, “A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net