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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Pepe Escobar: A Eurásia como nós (e os EUA) a conhecemos está morta

18/4/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Vá andando, caia fora daqui, Move over (vídeo acima), Guerra Fria 2.0. A verdadeira história, agora e no futuro próximo, em suas muitas e muitas declinações, e, claro, descontados os muitos solavancos pela estrada, é uma nova Eurásia integrada, que se vai forjando aí à nossa frente.

O projeto chinês imensamente ambicioso de uma Nova Rota da Seda continuará em intersecção com a União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia. E dia virá quando a União Europeia acordará e descobrirá um fervilhante eixo de comércio e trocas que se estenderá de São Petersburgo a Xangai. É sempre pertinente lembrar que Vladimir Putin vendeu visão similar e ainda mais abrangente, na Alemanha, há uns poucos anos – e que se estendia de Lisboa a Vladivostok.

Vai demorar – e serão tempos difíceis. Mas é inexorável esse face lift radical da Eurásia. Implica o sonho excepcionalista – os EUA como hegemon na Eurásia, que ainda parecia viável na virada do milênio – dissolvendo-se rapidamente, bem aí diante dos olhos de todos.

Rússia pivoteia-se para leste, e China, para oeste

Algumas boas cabeças nos EUA ainda são essenciais para a completa desconstrução dos aspectos negativos, e porque apontam para os perigos da Guerra Fria 2.0. Dmitri Trenin, do Centro Carnegie Moscou, por sua vez, ocupa-se mais com os aspectos positivos e propõe um mapa do caminho para a convergência eurasiana.

A parceria estratégica Rússia-China – do comércio de energia à defesa e ao desenvolvimento da infraestrutura – só se firmará cada vez mais, com a Rússia em movimento de pivô para leste, e a China, para oeste. Geopoliticamente, não significa uma Moscou subordinada a Pequim, mas um relacionamento cada vez mais simbiótico, trabalhosamente desenvolvido em múltiplos estágios.

Os BRICS – que já virou palavrão em Washington – já têm apelo muito mais global, e tanta influência quanto o já superado G-7. O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, pronto para entrar em operação antes do final de 2015, é alternativa chave para os mecanismos controlados pelo G7 e para o FMI.

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX – SCO, em inglês) deve incorporar Índia e Paquistão já na próxima reunião na Rússia, no verão (julho-agosto/2015), e a inclusão do Irã como membro oficial, pós-sanções, é negócio praticamente sacramentado para 2016. A OCX está finalmente desabrochando como fórum chave para a cooperação para desenvolvimento 

Nova Rota da Seda - Projeto Completo
(clique na legenda para aumentar)
A “Grande Europa” de Putin, de Lisboa a Vladivostok – que significaria UE + UEE – pode ter de esperar, enquanto a China super turbina sua Nova Rota da Seda por duas vias, por terra e marítima. Enquanto isso, o Kremlin se concentrará numa estratégia paralela – para usar capital e tecnologia do leste da Ásia para desenvolver a Sibéria e o Extremo Oriente da Rússia. O yuan será moeda de reserva em toda a Eurásia em futuro muito próximo, e o rublo e o yuan regerão sem tumultos o comércio bilateral.


O fator alemão

A “Grande Europa” de Lisboa a Vladivostok inevitavelmente depende de uma solução para o quebra-cabeça alemão. Os industriais alemães veem claramente as maravilhas de a Rússia garantindo à Alemanha – muito mais que à UE como um todo – um canal geopolítico e estratégico privilegiado para o Pacífico Asiático. Mas não se pode dizer o mesmo dos políticos alemães. A chanceler Angela Merkel, seja qual for a retórica, continua a dançar conforme a música de Washington.

A estratégia do Oleogasodutostão Russo já estava implantada – via os gasodutos Ramo Norte e Ramo Sul – quando o vai-e-volta interminável da UE obrigou Moscou a cancelar o Ramo Sul e lançar o Ramo Turco (o qual, no fim, aumentará os custos da energia para a UE). A UE, em troca, teria acesso virtualmente gratuito aos imensos recursos e ao mercado interno da Rússia. O desastre na Ucrânia significa o fim de todos esses elaborados planos.

Alemanha já é a condutora de facto, da UE, desse trem econômico expresso. Como poderosa usina de exportações que é, a única via para que a Alemanha avance não é rumo ao ocidente ou ao sul, mas rumo leste. Daí aquele portentoso espetáculo de uma orquestra de industriais salivantes, quando Xi Jinping esteve na Alemanha na primavera de 2104. Xi propôs nada menos que uma linha de trens de alta velocidade para conectar a Nova Rota da Seda, de Xangai a Duisburg e Berlim.

Nova Rota da Seda de Xangai a Duisburg (Lisboa) por terra e por mar
Ponto chave que os alemães não deixarão de ver: um ramo vital da Nova Rota da Seda é o remix da linha Transiberiana, para trens de alta velocidade. Uma das linhas dos BRICS amarelo para Pequim e Xangai faz um pit stop estratégico em Moscou.

Esse Império do Caos...

A estratégia de Pequim de “Rumo ao Ocidente” por terra está abençoadamente livre de intromissões da hiperpotência – do remix da Transiberiana às rotas ferroviárias e rodoviárias através dos “-stões” da Ásia Central, direto até Irã e Turquia. Além disso, a Rússia a vê como uma simbiose, considerando resultado de ganha-ganha que os “-stões” da Ásia Central saltem simultaneamente para bordo da União Econômica Eurasiana e do que Pequim chama de Cinturão Econômico da Rota da Seda.

Enquanto isso, em outros fronts, Pequim toma o máximo cuidado para não antagonizar os EUA, hiperpotência reinante. Vejam por exemplo, essa entrevista bastante franca, mas também altamente diplomática, ao Financial Times, do Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang.

Um aspecto chave da parceria estratégica Rússia-China é que os dois países veem claramente que a política exterior massivamente incoerente de Washington é o principal alimentador do caos – exatamente o que também acho que seja, como escrevi em meu livro Empire of Chaos.

Financial Times entrevista Li Keqiang em 31/3/2015
No que tenha especificamente a ver com China e Rússia, é essencialmente caos, tipo dividir para governar. Pequim vê que Washington está tentando desestabilizar a periferia da China (Hong Kong, Tibete, Xinjiang), além de ativamente interferir nas disputas do Mar do Sul da China. Moscou vê que Washington está obcecada com a expansão infinita da OTAN e não deixará pedra sobre pedra, no esforço para boicotar todo o trabalho da Rússia a favor da integração eurasiana.

Daí, pois, a morte por abandono da estratégia geopolítica russa de antes. Acabou o trabalhar para se sentir incluída, como membro do clube da elite ocidental, tipo o G-8. Acabou o buscar alguma parceria estratégica com a OTAN.

Sempre especialista competente em planejar bem, com antecedência, Pequim também vê que a incansável demonização não só de Putin, mas da Rússia como um todo (tipo “submeta-se, porque se nãããããõ...”) é uma espécie de ensaio geral do que poderá ser aplicado, no futuro, contra a China.

Deng Xiaoping
Apresento-lhes os imponderáveis

Estão abertas as apostas sobre como evoluirá o fatídico triângulo EUA-China-Rússia. Uma das possibilidades é que siga o seguinte padrão: os norte-americanos falam grosso e levam um carregamento de porretes; os russos não se intimidam e falam de volta, enquanto silenciosamente se preparam estrategicamente para uma longa e difícil transformação; os chineses seguem uma doutrina do “Pequeno Timoneiro”, Deng Xiaoping, modificada – conversam muito diplomaticamente, mas já não se dedicam a manter a crista baixa [orig.while no longer keeping a low profile].

Pequim já está a par do que Moscou anda sussurrando: Washington, a excepcionalista – declinante ou não – jamais tratará Pequim como igual ou respeitará interesses nacionais chineses.

No grande capítulo dos imponderáveis, aceitam-se apostas sobre se Moscou usará essa grave, tripla crise – sanções, guerra do preço do petróleo, desvalorização do rublo – para aplicar processos que mudem radicalmente o jogo e lançar nova estratégia de desenvolvimento econômico. Sessão de Perguntas e Respostas de Putin, pela televisão, embora carregada de respostas intrigantes, nada trouxe de muito claro sobre isso.

Xi Jinping e Vladimir Putin na Base Naval de Woosung  em 29/5/2014
Outro grande imponderável é se Xi, armado com soft Power [poder suave], carisma e muito, muito dinheiro, conseguirá pilotar simultaneamente a ligeira correção de rumo do modelo econômico e uma avalanche Rumo ao Oeste, de modo que não terminem por alienar os muitos parceiros potenciais da China para a construção das estradas da Nova Rota da Seda.

Um último super imponderável é se (ou quando, se algum dia) Bruxelas decidirá assumir um simbiose mutuamente combinada com a Rússia. Isso, em direção completamente oposta à atual postura de total antagonismo que vai além das questões geopolíticas. A Alemanha, sob Merkel, parece já ter escolhido continuar submetida à OTAN e converter-se, portanto, em ninharia estratégica.

Temos aqui, portanto, os prolegômenos de uma Ásia Expandida, de Xangai a São Petersburg – incluindo, crucialmente, Teerã – em vez de uma Eurásia Total, de Lisboa a Vladivostok. A Eurásia Total pode ter sido partida, ou está partida, pelo menos por enquanto. Mas a Ásia Expandida move-se com grande pique. Haverá um tsunami de esforços, pelos suspeitos de sempre, para parti-la em pedaços.

E isso será fascinante assistir a isso. Como Moscou e Pequim olharão para o ocidente – politicamente, comercialmente e ideologicamente – sem arriscar-se a uma guerra? Como lidarão com tamanha pressão? Como venderão a estratégia dos dois países a grandes fatias do Sul Global pelas mais variadas latitudes asiáticas?

Mas uma batalha, pelo menos, está ganha. Bye, bye Zbigniew Brzezinski! O seu sonho hegemonista de um Grande Tabuleiro de Xadrez acabou...

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pepe Escobar – Rússia: Jogo de poder por trás da “mudança de regime”

16/3/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Império do Caos

Com “amigos” como o Presidente do Conselho da Europa, Donald Tusk e o comandante da OTAN general Philip Breedlove [literalmente “filho do amor”, ou, mais, “da raça do amor” (NTs)], a União Europeia (UE) com certeza não precisa de inimigos.

O general Breedhate [literalmente “filho do ódio”, ou, mais, “da raça do ódio”(NTs)] anda encarnando seu melhor arremedo de “Dr. Fantástico”, a alertar que a Rússia-do-mal está invadindo a Ucrânia todos os dias. O establishment político alemão não está gostando.

Tusk, no encontro com o presidente Obama dos EUA, virou de cabeça para baixo a máxima “Divide e Impera”: insistiu que “adversários estrangeiros” tentam dividir os EUA e a União Europeia (EU) – por mais que, na verdade, sejam os EUA que só fazem tentar dividir a Rússia e a União Europeia. Na mesma linha, culpou a Rússia – que se teria aliada ao falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que Tusk está(ria) fazendo? A UE que assine o sistema fraudulento concebido pelos EUA-empresa, conhecido como Tratado Transatlântico de Parceria para Comércio e Investimento [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)], nada além de uma OTAN comercial. E daí em diante o “ocidente” reinará para sempre.

A OTAN pode, sim, realmente, encarnar o paradoxo geopolítico/existencial máximo: uma aliança que existe para administrar o caos que ela mesma cria e ceva.

E ainda, orbitando em torno da OTAN, há muitas outras táticas diversionistas até onde a vista alcança. Considerem-se as mais recentes jaculatórias do conhecido russófobo Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski. Em conferência no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, o Dr. Zbig pregou que EUA e Rússia devam acertar entre elas que, no caso de a Ucrânia vir a ser membro da UE, ela nunca será membro da OTAN.

Zbigniew Brzezinski
Ora, ora, caro Doctor, temos um problema. A UE tem interesse zero em incorporar um estado falido, mantido vivo artificialmente (sistema caríssimo de vida artificial) pelo FMI, e mergulhado, tecnicamente, numa guerra civil.

Por outro lado, os EUA têm interesse monolítico, não diviso, em meter a Ucrânia como membro da OTAN: aí está todo o fundamento digamos “racional” para a incansável demonização pós-Maidan, do Presidente Putin da Rússia.

Digamos que seja manobra do Dr. Zbig; pensamento maníaco-desejante de neoconservador; coisa pela qual algumas facções do Império do Caso/Masters of the Universe morreriam; ou todas as anteriores; o alvo definitivo, radical, é conseguir “mudar o regime” na Rússia e esquartejar a Rússia. A inteligência russa sabe tudo dessa “história secreta”.

A reação igual e contrária, da Rússia, exige que, para haver qualquer acordo, só se se acabarem as sanções contra a Rússia; fim do ataque especulativo contra o rublo/guerra dos preços do petróleo; todos os países do leste europeu fora da OTAN; a Crimeia reconhecida como parte da Federação Russa; o leste da Ucrânia convertido em região autônoma, mas ainda como parte da Ucrânia.

Todos sabemos que, tão cedo, não acontecerá (se algum dia acontecer). Assim, o mais provável é que continue essa horrível atmosfera de Guerra Fria 2.0 – além de campanha de incansável demonização da Rússia, que já começa a dar seus frutos.

Uma nova pesquisa Gallup mostra que mais americanos veem hoje a Rússia – mais que a Coreia do Norte, a China e o Irã – como inimigo público n. 1 dos EUA e como principal ameaça contra o ocidente.


O sonho do Império do Caos, de conseguir “mudança de regime” na Rússia, sempre foi condição absoluta para que os EUA controlem grandes porções da Eurásia. Um fantoche em Moscou – cópia carbono de Yeltsin, o pateta beberrão – facilmente “liberaria” todos os imensos recursos naturais da Rússia para o “ocidente”, junto com os dos “-stões” contíguos, na Ásia Central, como brinde.

Oleogasodutostão - transporte dos tubos
Se, por outro lado, a Rússia mantém sua influência, mesmo indireta, na Ucrânia e sobre o petróleo e gás natural da Ásia Central, Moscou é capaz de se projetar outra vez como superpotência. Como se vê, é sempre sobre a dominação do Oleogasodutostão Eurasiano; tudo que não seja isso significa como ameaça direta ao mundo unipolar.

A inteligência russa está bem consciente da incansável pressão dos EUA sobre a Rússia, com vistas a arrancar pedaços da Rússia, enfraquece-los, até que a Rússia seja convertida em terra devastada e caos, não diferente de Iraque ou Iêmen – com seus recursos naturais fluindo livremente para o “ocidente”.

Esse é o motivo pelo qual a pressão continua gigantesca, já alcançando proporções de guerra nuclear. Mas alguns adultos na UE, parece, estão começando a entender do que realmente se trata.

A UE simplesmente não tem dinheiro para realmente investir nos “-stões” da Ásia Central ou para bombear bilhões de euros (desvalorizados) em oleogasodutos através do Azerbaijão. Líbia, Nigéria e o Oriente Médio (do Iraque até o Iêmen) são uma confusão só. A UE não recebe nenhuma garantia de fornecimento de energia, nem do Oriente Médio nem do Norte da África. E se não receber garantias da Rússia, de que a energia continuará a fluir até lá, não terá nenhuma garantia, de coisa alguma.

Esse conjunto de circunstâncias expõe o fantasma de uma Guerra Fria 2.0 que vai esquentando muito perigosamente. Desnecessário dizer, Polônia, Ucrânia e outros leste-europeus desamparados nunca passarão de peões, se explodir guerra civil total na Ucrânia – objetivo explícito daquela Terra do Nunca, o Kaganato de Nulands, ou Nulandistão.

Num cenário – admitidamente aterrorizante – de guerra, a Rússia fechará o espaço aéreo do leste da Ucrânia servindo-se de seus sofisticados mísseis de defesa. Pela primeira vez na história seriam usadas armas nucleares táticas. A Europa lá ficaria, basicamente sem defesas, no caso de os Drs. Fantásticos da OTAN serem tentados a iniciar guerra nuclear total.

Seja como for, os Mísseis Balísticos Cruzadores Intercontinentais e mísseis cruzadores e jatos de caça da OTAN não fariam nem cócegas nos sistemas S-400 e S-500 de mísseis russos de defesa.

S-400 - Mísseis anti-aéreos (2009)
(clique na imagem para aumentar)
S-500 - Mísseis anti-aéreos (2014)

Provocar o urso russo é posição perdedora. A Rússia já desligou-se do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa – o que é negócio realmente sério (a OTAN está mais que muito alarmada). E, isso, ainda sem falar que Moscou já anunciou que tem pleno direito de instalar (e talvez já tenha instalado) armas nucleares na Crimeia. Enquanto isso, os militares russos continuam a testar as defesas inimigas, mandando seus aviões voar sobre o perímetro protegido pela OTAN.

A Eurásia balança de um minuto para outro, entre reconciliação e provocação. Cui bono?Quem ganha com isso? Moscou é mestra em manter Washington e OTAN cercadas, num mar de palpites.

Isso é que é cantar! (vídeo a seguir)


Putin foi o primeiro a propor, anos atrás, que se criasse uma rota comercial que iria de Lisboa a Vladivostok, incluindo também a China, usando trens de alta velocidade para evitar os oceanos e mares controlados pelos EUA. Foi o plano original movido a comércio, em vez de alguma aliança China-Rússia contra a OTAN.

O que o Império do Caos conseguiu na Ucrânia, pelo menos por enquanto, foi dividir a Eurásia em três blocos em disputa entre eles: Alemanha-França aliadas aos EUA (mas os dois países já muito preocupados com os “desenvolvimentos” da “aliança”); a Rússia; e a China perturbada pelo Japão. Mais uma vez, é “Divide e Impera” – com os EUA como hegemon perpétuo, sempre capaz de adaptar e acionar sua proverbial estratégia de política exterior: “Bombardeie e Abuse”.

Mas a ópera (geopolítica) só acaba depois que a dama gorda canta. [2] A parceria estratégica Rússia-China continua a evoluir – bastará ver as próximas reuniões dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai na Rússia, nesse verão.

A riqueza de petróleo e gás natural da Rússia e Ásia Central continuará a fazer a volta, de volta, para China e Ásia. E em poucos anos o mantra dos “Excepcionalistas que reinam sobre as ondas” deixará de ser fator determinante pró excepcionalistas.

Mudar o regime? Vão sonhando.
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[1] “Venha passear no meu cruzeiro”: Frankie Ford, em "Sea Cruise" (cruzeiro marítimo). Levado ao ar no programa Saturday Night Beech-Nut Show, 21/3/1959. Vídeo a seguir:


[2] No orig. Yet it ain’t over till the fat (geopolitical) lady sings. Sobre “Depois que a dama gorda canta”, vide Edward Hugh, 25/11/2012:

Os jornalistas financeiros em todo o mundo ficaram surpreendidos e intrigados quando ouviram, muito recentemente, Christine Lagarde utilizar uma estranha expressão. “Sabem: a coisa só termina depois que a dama gorda canta, como diz o ditado” – disse ela aos espantados jornalistas numa conferência de imprensa em Manila. Que senhora gorda, e o que é que ela canta, devem ter sido questões que atravessaram a mente de muitos dos presentes. Se fossem ver, descobririam que, longe de ser alguma nova deixa de sabedoria feminina que a Diretora-Geral do FMI quisesse transmitir, a frase, na verdade, tem origem no mundo machista dos negócios e dos comentadores desportivos de jogos cujo resultado se mantém incerto até ao último minuto, e, nos negócios, para significar que um negócio não está efectivamente fechado até que seja feito o último lance.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto. 
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.  

quinta-feira, 12 de março de 2015

Caos: Prática e Aplicações

10/3/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Império do Caos
A palavra “caos” anda aparecendo por todos os lados ultimamente, no mundo cada vez mais tendente-ao-colapso no qual nos foi dado viver. Pepe Escobar até publicou um livro sobre o tal. Intitulado Empire of Caos, descreve um cenário “no qual uma plutocracia norte-americana projeta cada vez mais a própria desintegração interna sobre todo o mundo”. O caos de Escobar é caos-com-objetivo; o objetivo é “impedir uma integração econômica da Eurásia que deixaria os EUA como não hegemon, ou, pior ainda, como outsider”.

Escobar não é o único a pensar por essas linhas; eis o que disse o presidente Vladimir Putin na Conferência Valdai em 2014:

Diktat unilateral e a imposição de modelos produzidos por um, não por muitos, produzem resultado exatamente oposto. Em vez de conciliar os conflitos, aquela atitude só os leva à escalada; em vez de estados soberanos e estáveis, o que vemos é a disseminação de caos crescente, e em vez de democracia, o que se vê é os EUA a darem apoio a gente muito duvidosa, que vai de declarados neofascistas a islamistas radicais.

Por que apoiam esse tipo de gente? Apoiam-nos, porque decidiram usá-los como instrumento ao longo do percurso até conseguirem seus objetivos. Mas queimaram os dedos e recolheram a mão. Nunca canso de me surpreender com o modo como nossos parceiros repetem sempre os mesmos erros e caem sempre na mesma armadilha. Como dizemos em russo: “pisam sempre nos dentes do mesmo ancinho [que sobe e bate-lhes sempre no mesmo nariz].

Mas fato é que o caos de Escobar tampouco parece estar funcionando bem. A integração eurasiana permanece perfeitamente nos trilhos, sem derrapar, com China e Rússia agindo agora como unidade econômica, política e militar, e com outros estados eurasianos muito querendo ganhar lugar e função na tal unidade. A União Europeia, pelo menos por enquanto, está sendo excluída da Eurásia, porque está efetivamente sob ocupação dos EUA, mas esse estado de coisas não deve durar muito, por causa de problemas orçamentais. (Mais precisamente, deve-se dizer que está sob ocupação da OTAN; mas, se se avança um pouco mais, logo se vê que a OTAN é, de fato, os militares norte-americanos sob fachada europeia metidos a tapas naquela cidade com ares de Potemkin).

Império do Caos
Assim, a palavra “império” parece bastante mal posta aí. Impérios são empreitadas ambiciosas que visam a exercer pleno controle sobre seus domínios, e que diabo de império seria esse, se a principal atividade imperial é pisar, dia sim, dia também, sempre no mesmo ancinho? Império idiota? Melhor então logo de “Império Idiota”.

Verdade é que há grande quantidade de atividades imperiais ridículas que... só rindo! Pode-se até escolher.

Por exemplo: onde já se viu armar e treinar oposição moderada que se opõe a governo que você quer derrubar; descobrir que, armada, a tal oposição já nada tem de moderada; tentar então bombardear a amaldiçoada oposição moderada... e falhar até no bombardeio nada moderado?! [risos muitos].

Alguns alegam, em tom crítico, que o império, sim, funciona, porque alguém em algum lugar está lucrando com esse caos. Sim, alguém está ganhando; mas tomar esse ganho como sinal de sucesso imperial equivale a ser assaltado a caminho do supermercado e definir o assalto como sinal de sucesso econômico. Sucesso nada tem a ver com isso. Mas a “desintegração interna” de Escobar é boa candidata a boa explicação: a desintegração interna do império começou a vazar e está espalhando caos por todos os cantos. Mesmo assim, os EUA continuam a empreender todos os esforços para controlar, principalmente pressionando igualmente amigos e inimigos, e exigindo obediência sem perguntas. É o que alguns têm chamado de “caos controlado”.

Mas... o que seria “caos controlado”? Como alguém controlaria o caos? Será, sequer, possível? Pensemos.

Teoria do Caos

Há um ramo da matemática chamado Teoria do Caos. Lida com sistemas dinâmicos que exibem um dado conjunto de comportamentos:

● Em toda e qualquer relação de causa e efeito que possa ser observada, pequenas diferenças nas condições iniciais causam grandes diferenças no resultado. O exemplo clássico é o “efeito borboleta” pelo qual, por hipótese, o bater de asas de uma borboleta influencia o curso de um furacão semanas depois. Ou, então, exemplo mais significativo, se se descreve o mercado de ações como sistema caótico; nesse caso investir um milhão de dólares num fundo “de índice” pode resultar num portfólio de cerca de um milhão de dólares alguns meses depois; mas investir um milhão e um dólares pode resultar num portfólio de menos um trilhão de dólares e uns trocadinhos.

O Efeito Borboleta
● Imprevisibilidade para além de curto período de tempo: dado que a informação inicial sobre um sistema é finita, o comportamento do sistema é imprevisível além de um curto período de tempo. Dado que a informação sobre um sistema da vida real é sempre finita, sempre limitada ao que se pode observar e medir, os sistemas caóticos são, por sua própria natureza, imprevisíveis.

● Sobreposição topológica: toda e qualquer dada fase de qualquer dada região de um sistema espacial acabará eventualmente por se sobrepor a região contígua. Os sistemas caóticos podem ter vários diferentes estados, mas um dia todos esses estados se misturarão. Por exemplo: se um dado banco for definido como sistema caótico, com dois diferentes estados – de solvência e falido – esses dois estados um dia se misturarão.

Os matemáticos gostam de brincar com modelos de caos que são determinísticos e temporalmente não variantes: podem repetir uma simulação muitas e muitas vezes, mudando levemente os dados de entrada; e observam o resultado. Mas os sistemas caóticos no mundo real são não determinísticos e variam no tempo: não apenas produzem resultados furiosamente diferentes a partir de mudança muito pequena nos dados de entrada, mas, também, produzem resultados diferentes todas as vezes. E ainda mais: mesmo que existissem sistemas caóticos deterministas na natureza, não teríamos como distingui-los dos chamados sistemas “estocásticos” – que reconhecem o acaso.

Teoria do Controle

Outro ramo da matemática que lida com modos de controlar processos dinâmicos. Exemplo típico de controle nesse sentido é um termostato: mantém constante a temperatura ligando o aquecedor, se a temperatura cai abaixo de certo limite; e desligando novamente, se sobe acima de certo outro limite. (A diferença entre os dois limites é chamada “histerese” [gr. “atraso”). Outro exemplo típico é o piloto automático: é um equipamento que computa a diferença entre a rota programada e a rota real, chega ao que se chama “sinal de erro” e aplica esse sinal de erro para controlar o mecanismo e manter na rota o avião ou o navio.

Há muitas variações sobre esse tema, mas o esquemão geral é sempre o mesmo: meça o que sai do sistema; compare com a referência; compute o sinal de erro; e aplique-o de volta ao sistema como realimentação negativa.

Teoria Moderna de Controle e Sistema de Piloto Automático
Para que seja possível aplicar a Teoria do Controle a um sistema, esse sistema tem de obedecer a determinados princípios. Um é o princípio da superposição: o que sai do sistema tem de ser proporcional ao que entra. Estabilizadores do lado esquerdo sempre fazem o barco virar para a esquerda; mais estabilizadores do lado esquerdo fazem o barco virar mais depressa para a esquerda. Outro desses princípios é a invariância no tempo: o barco reage sempre do mesmo modo a mudança no ângulo do estabilizador, todas as vezes. É absolutamente necessário que assim seja.

Mas muitas aplicações da Teoria do Controle têm de pressupor também a linearidade: mudanças no comportamento do sistema são pressupostas linearmente proporcionais a mudanças no controle que entra no sistema. Dado que todos os sistemas do mundo real são não lineares, faz-se praticamente sempre um esforço para dotar qualquer sistema de um ponto plano linear no meio de seu campo de utilidade. Vire um pouquinho o estabilizador do navio, e o navio faz a curva, como o esperado; vire depressa demais, e o estabilizador engripa e não funciona mais.

Aplicar a Teoria do Controle a sistemas caóticos é arriscado, por causa da questão da “controlabilidade”: é possível pôr um sistema num específico estado, simplesmente aplicando específicos sinais de controle? Num sistema caótico, pequenos sinais de erro podem produzir diferenças muito grandes no que sai do sistema. Assim sendo, sistema caótico não pode ser controlado. Mas sistema incontrolável pode às vezes ser estabilizado e posto em girar em ciclo dentro de uma parte específica aproveitável, ou pelo menos não letal, de sua fase espacial. De modo geral, para estabilizar um sistema, ele tem de ser observável: tem de ser possível medir o que sai do sistema e usar essa medida para produzir as correções. Mas mesmo um sistema não observável mesmo assim ainda pode ser estabilizado, se se detecta seu estado de tempos em tempos e aplica-se um controle de sinal para ir empurrando o sistema, aos poucos, progressivamente, na direção certa.

Eis um exemplo da vida real. Suponha que você corra por uma pista coberta de lama, num carro com pneus carecas. Em algum momento acontecerá algum tipo de perturbação que transformará esse sistema controlável, em sistema não controlável: o carro derrapará. Dado que não se pode mais dirigir o carro, ele deslizará na direção da barreira, de um lado ou de outro da estrada. Também se tornará não observável: com o carro derrapando, tornou-se impossível observar a trajetória do carro baseado em rápido exame de derrapagens passadas naquela estrada. É possível estabilizar essa situação?

Sim, acontece que é. É um truque que aprendi de um piloto de jatos de combate e que tive oportunidade de aplicar no exato cenário que acabo de descrever. Se o caça se põe a pular e girar pelo céu completamente fora de controle, o que o piloto tem de fazer e fazê-lo parar de pular e voltar ao voo nivelado. Faz-se isso sacudindo a cabeça para frente e para a trás, ao ritmo dos pulos e giros, dando toquinhos no manche, também ao ritmo dos pulos e giros, sempre de olho na linha do horizonte, até que os pulos e giros vão diminuindo e se consegue meter o horizonte outra vez na horizontal.

Num carro, o serviço do motorista é fazer o carro parar de derrapar sem bater nem de um lado nem do outro dos muros dos dois lados da estrada. Consegue-se isso girando a cabeça ao ritmo da derrapada, sem perder de vista os dois muros e dando toquinhos na direção, também em ritmo com as derrapadas, ao mesmo tempo em que se desloca o carro para que não bata nos muros. Se o carro estiver derrapando em sentido horário, toquinhos no volante em sentido horário o farão andar para a frente, e toquinhos em sentido anti-horário o farão andar para trás; toquinhos simultâneos no breque também ajudarão a fazer parar o movimento do carro para frente e para trás.


Aí está bem tipicamente o melhor que se pode fazer para controlar o caos: usar pequenas perturbações-toquinhos para manter o sistema dentro da faixa dos estados satisfatoriamente seguros e úteis, mantendo-o afastado de não importa quantos sejam os estados perigosos e inúteis. Mas vai aqui mais uma “dica”: essas aplicações da teoria do controle a sistemas caóticos exigem que já se conheçam, desde antes, as propriedades do sistema caótico.

É muito arriscado tentar essas aplicações, se o sistema evolui sempre, em resposta àquelas pequenas perturbações-toquinhos. Em situações que envolvam política ou assuntos militares, aplicar duas vezes a mesma medida para controlar é ideia tão boa quanto contar duas vezes a mesma piada ao mesmo público: a piada passa a ser você.

A moral dessa história já deve ter aparecido bem clara: assim como no carro na estrada coberta de lama, qualquer idiota é capaz de fazer/deixar o carro parar, mas o mesmo idiota dificilmente terá a presença de espírito, a habilidade e os nervos de aço indispensáveis para fazer o carro parar longe de qualquer dos dois muros que ladeiam a estrada. Vale o mesmo para os supostos construtores do “império do caos controlado”: ninguém duvida de que sejam capazes de gerar o mais perfeito caos. O que absolutamente não são capazes de fazer é mover-se de tal modo que consigam extrair algum proveito daquele caos; não têm, sequer, as competências necessárias para estabilizar o que desestabilizaram. Nada, absolutamente nada, garante que não acabem mortos eles mesmos, explodidos contra o muro.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, “A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net