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sábado, 27 de agosto de 2011

Líbia, África e a Nova Ordem Mundial


Carta Aberta dos Intelectuais Africanos
Rosebank, Johannesburg, África do Sul.


Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Nós abaixo-assinados somos cidadãos africanos comuns, todos imensamente condoídos e indignados, vendo que africanos como nós estão submetidos aos horrores da guerra, atacados por potências estrangeiras que claramente repudiaram a visão nobre e relevante inscrita na Carta das Nações Unidas [1].

A ação de escrever essa carta é inspirada por nosso desejo, não de escolher lados, mas de proteger a soberania da Líbia e o direito do povo líbio de escolher seus líderes e determinar o próprio destino.

A Líbia é país africano.

Dia 10 de março, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana aprovou importante resolução (3) na qual se delineou o mapa do caminho para encaminhar a solução do conflito líbio, consistente com os deveres da União Africana nos termos do Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas.

Quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou sua Resolução n. 1.973, sabia da decisão da União Africana, anunciada sete dias antes.

Ao decidir ignorá-la, o Conselho de Segurança deliberadamente contribuiu para subverter a lei internacional, além de comprometer a legitimidade da ONU aos olhos dos povos africanos.

Desde então, por outros caminhos, tem ajudado a promover e aprofundar processo imensamente pernicioso de marginalizar a África entre as demais nações do mundo, também no que tenha a ver com solucionar os problemas do continente.

Indiferente ao que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU declarou sua guerra privada contra a Líbia, dia 17/3/2011.

O Conselho de Segurança deixou-se manipular pelo que o International Crisis Group (ICG), em seu Relatório sobre a Líbia, de 6/6/2011 [2], descreve como “matérias jornalísticas sensacionalistas segundo as quais o regime líbio estaria usando sua Força Aérea contra manifestantes”. 

Assim (mal) informado, o CS-ONU aprovou a Resolução n. 1.973, que autorizava que se impusesse uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia e que se tomassem “todas as medidas necessárias (...) para proteger civis e área populosas sob ameaça da Jamahiriya Líbia Árabe (...)”.

Assim, sobretudo, o Conselho de Segurança usou o conceito altamente controverso e sob o qual não há consenso entre os especialistas em direito internacional da “responsabilidade/direito de proteger”, chamado R2P, para justificar a intervenção militar de que trata o Capítulo VII, na Líbia.

Sob essa duvidosa cobertura, o Conselho de Segurança da ONU já cometeu longa lista de agressões que configuram a transformação desse Conselho em instrumento a serviço dos desejos dos estados militarmente mais poderosos dentre seus estados-membros.

Até agora, o Conselho de Segurança não conseguiu apresentar nenhuma evidência de sua autorização para o uso da força nos termos do Capítulo VII da Carta da ONU tenha sido resposta proporcional e adequada a uma situação que, na Líbia, e depois da intervenção militar, foi convertida em guerra civil.

Em seguida, o Conselho de Segurança ‘terceirizou’ ou ‘subcontratou’ a implementação de sua resolução para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), admitindo que essa aliança militar agisse como uma “coalizão de vontades”.

O Conselho de Segurança não cuidou de implantar qualquer mecanismo ou processo para supervisionar os ‘serviços’ do exército ‘subcontratado’, de modo a garantir que as provisões de suas Resoluções fossem completamente e satisfatoriamente atendidas. 
Tampouco fez qualquer esforço para monitorar e analisar as ações da OTAN ‘subcontratada’.

O Conselho de Segurança permitiu que se estabelecesse um “Grupo de Contato” sem qualquer legitimidade e sem autorização legal formal – mais uma “coalizão de vontades” – que, de fato, desconstituiu a própria autoridade do Conselho de Segurança como autoridade competente para interferir no futuro da Líbia.

Confirmando essa desconstituição inadmissível, em reunião do dia 15/7/2011 em Istambul, esse “Grupo de Contato” “reafirmou que o Grupo de Contato continua como plataforma adequada e ponto focal de contato com o povo líbio, para coordenar a política internacional e ser um fórum de discussão do apoio humanitário e apoio pós-conflito”. 

Dada a omissão do Conselho de Segurança, as duas “coalizões de vontades” – a OTAN e o “Grupo de Contato” –, de fato e para todos os efeitos, reescreveram a Resolução n. 1.973.

Assim, as tais “coalizões de vontades” abertamente assaltaram um poder que legitimamente só o Conselho de Segurança poderia ter e puseram-se a trabalhar para derrubar o governo líbio, golpe que passou a ser designado como ‘mudança de regime’. Para esse objetivo, passaram a usar da força e de todos os meios para derrubar o governo líbio – objetivo que absolutamente nada tem a ver com as decisões do Conselho de Segurança da ONU.

Mediante esses artifícios e sem qualquer atenção às Resoluções n. 1.970 e 1.973, aquelas “coalizões de vontades” atreveram-se a declarar ilegítimo o governo da Líbia e a proclamar um ‘conselho nacional de transição’ organizado em Benghazi como “legítima autoridade governante na Líbia”.

O Conselho de Segurança da ONU é hoje absolutamente incapaz de explicar como as decisões tomadas pela OTAN e pelo “Grupo de Contato” teriam algo a ver com a questão crucial de “facilitar o diálogo com vistas às reformas políticas necessárias para encontrar solução pacífica e sustentável” para o conflito na Líbia. 

As ações de seus “subcontratados” – a OTAN e o “Grupo de Contato” – converteram a ONU em parte beligerante no conflito líbio, desnaturando a Organização cujo papel só poderia ser de pacificador neutro e equidistante, igualmente, das duas facções armadas que disputam o poder na Líbia.

Não bastasse, o Conselho de Segurança optou por repudiar a lei internacional, ao deliberadamente ignorar o que determina o Capítulo VIII da Carta das Nações Unidas sobre o papel das instituições regionais legítimas.

A “guerra ao terror” de George W. Bush contra o Iraque começou dia 20/3/2003. No dia seguinte, 21/3/2003, o jornal britânico The Guardian publicou um curto artigo assinado pelo conhecido neoconservador norte-americano Richard Perle, sob o título “Graças a Deus a ONU morreu. Seu fracasso abjeto só nos trouxe anarquia. O mundo precisa de ordem” [3].

Mas toda a arquitetura global do pós-Segunda Guerra Mundial, para manutenção da paz e da segurança internacionais centravam-se no respeito à Carta das Nações Unidas.

Hoje, o Conselho de Segurança da ONU deve saber que, pelo menos no que tenha a ver com a Líbia, atuou de modo que resultou em, e levou a, perder toda a autoridade moral para efetivamente presidir a discussão e o encaminhamento de processos criticamente importantes para que se alcance a paz global e se realize o objetivo da coexistência pacífica entre os povos do mundo.

Ao arrepio de tudo o que determina a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança autorizou e permitiu a anarquia que se abateu sobre o povo líbio.

Ao final disso tudo, o que se vê é que:

– muitos foram mortos ou aleijados;

– grande parte da infraestrutura do país foi destruída, o que empobreceu ainda mais o povo líbio; 

– a animosidade e as fissuras que dividem o povo líbio foram aprofundadas; 

– a possibilidade de chegar-se a um acordo negociado, inclusivo e estável tornou-se menor que nunca; 

– a instabilidade aumentou em todos os países vizinhos da Líbia, sobretudo nos países do Sahel africano (Sudão, Chad, Niger, Mali e Mauritânia);

– a África herdará desafio muito maior e mais difícil no que tenha a ver com questões de paz e estabilidade e, portanto, afastar-se-á ainda mais da via do desenvolvimento sustentável; e

– os que intervieram para perpetuar a violência e a guerra na Líbia fixarão os parâmetros sob os quais os líbios poderão decidir sobre o próprio destino e, assim, tornarão ainda mais limitado o exíguo espaço no qual os africanos lutam pelo seu direito a autodeterminação.

Como africanos, antevimos um futuro em que seríamos atores relevantes num sistema de relações internacionais justas, confiando que a ONU realmente zelaria pelo seu direito legítimo de atuar como “as fundações da nova ordem mundial”,

O Relatório do ICG citado acima diz:

“O que se pode prever para a Líbia, mas também para todo o norte da África, é cada vez mais terrível, a menos que se encontre meio pelo qual induzir os dois lados envolvidos no conflito armado na Líbia a negociar um acordo que permita transição pacífica para um estado pós-Gadaffi, pós-Jamahiriya, e que seja estado considerado legítimo pelo povo líbio. Uma saída política é, de longe, a melhor solução possível, ante a dificílima situação criada pelo impasse militar.”

Quando Richard Perle escreveu em 2003 sobre o “fracasso abjeto da ONU”, reclamava contra a ONU ter-se recusado a curvar-se ante a ditadura da única superpotência mundial, os EUA.

A ONU assumiu aquela posição, porque estava consciente da, e inspirada por, sua obrigação de agir como verdadeira representante de todos os povos do mundo, nos termos de abertura da Carta das Nações Unidas: “Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo das guerras...”

Contudo, e tragicamente, oito anos depois, em 2011, o Conselho de Segurança da ONU abandonou qualquer compromisso com essa determinação.

Açoitado pela humilhante experiência de 2003, quando os EUA demonstraram que o único poder é a violência, o Conselho de Segurança decidiu que mais fácil seria submeter-se à violência dos poderosos, que honrar o dever de respeitar o soberano desejo dos povos – também das nações africanas, é claro. Então divulgou a mensagem de que aceitava nada ser além de instrumento nas mãos dos senhores da violência mais brutal, os mais brutais no sistema das relações internacionais, e que a violência, portanto, passaria a comandar a ordenação dos negócios humanos.

Como africanos, temos de levantar-nos e reafirmar nosso direito e nosso dever de determinar nosso destino, na Líbia e em qualquer outro ponto de nosso continente.

Exigimos que todos os governos, em todos os cantos do mundo, também na África, que almejem alcançar genuíno respeito dos governados, como nós, ajam imediatamente para reafirmar “a lei pela qual todas as nações possam viver dignamente”. 

Exigimos que:

– tenha fim imediatamente a guerra de agressão da OTAN contra a Líbia; 

– a União Africana seja apoiada para implementar seu plano para ajudar o povo líbio a alcançar a paz, a democracia, prosperidade para partilhada e a reconciliação, numa Líbia unida; e que

– o Conselho de Segurança aja imediatamente para cumprir suas responsabilidades, como definidas na Carta das Nações Unidas.

Os que desencadearam tempestade mortal de bombas sobre a Líbia não devem persistir na autoilusão de que o aparente silêncio dos milhões de africanos signifique qualquer tipo de aprovação à campanha de morte, destruição e dominação que aquela tempestade parece assegurar.

Estamos confiantes. Reemergiremos vitoriosos, por mais que façam os semeadores de morte dos mais poderosos exércitos do mundo.

Responderemos na prática da vida e como africanos. Em todos os momentos e pelos meios necessários, agiremos resoluta e deliberadamente para defender o direito de os africanos da Líbia decidirem o próprio futuro e, por essa via, defenderemos o direito e o dever de todos os africanos determinarmos nosso destino.

O Mapa do Caminho proposto pela União Africana [4] ainda é o melhor caminho para garantir a paz ao povo da Líbia.

[seguem-se 140 assinaturas de intelectuais, artistas, professores, religiosos, políticos e personalidades africanos]



Notas dos tradutores
[1] Em português, Carta das Nações Unidas
[4] African Union proposes Libya roadmap to peace”, 10/4/2011, (em inglês).


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Independências Africanas: Uma Amarga Ironia à Laia de Celebração

Independências Africanas
Uma Amarga Ironia à Laia de Celebração

René Naba*
07.Jul.10 :: Outros autores
René Naba

Com a arrogância que caracteriza o poder nos países imperialistas e um orçamento de 16,3 milhões de euros, e arvorando-se em tutor de África, Nicholas Sarkozy preparou 250 manifestações culturais e desportivas em França e em África, para comemorar os cinquenta anos de independência das ex-colónias francesas… No entanto, as comemorações mais parecem uma homenagem «ao passado colonial que à independência» dos países africanos. Um grupo de intelectuais africanos respondeu violentamente ao leviano presidente francês e com uma «amarga ironia», como se pode ver neste texto de René Naba.


A França celebra o cinquentenário das independências das suas ex-colónias africanas com a organização de duzentas e cinquenta (250) manifestações culturais e desportivas no seu território e em África. Mas esta profusão de celebrações realiza-se sobre a profunda ironia amarga de umas independências miseráveis.


Um orçamento de 16,3 milhões de euros foi atribuído para festejar um acontecimento que respeita aos seguintes catorze países: Benim, Burkina Faso, Camarões, República Centro Africana, Congo Brazaville, Costa do Marfim, Gabão. Madagáscar, Mali, Mauritânia, Níger, Senegal, Chade e Togo.

Num gesto provavelmente destinado a compensar o tratamento iníquo e injusto reservado aos «esquecidos pela República», a cereja no cimo do bolo será o desfile militar de 14 de Julho em que os exércitos das antigas colónias desfilarão nos Campos Elísios juntamente com o exército francês. Com excepção do exército da Costa do Marfim. A «ex-menina bonita» Francafrique [termo usado pelo neocolonialistas para a África francófona], cujo exército, em 2004, bombardeou uma posição francesa em Bouaké, «prefere celebrar este aniversário sozinha no âmbito da sua política nacional de refundação», explicou Jacques Toubon, ex-ministro da Cultura e da Francofonia e secretário-geral do Cinquentenário das Independências. «É a sua decisão soberana». Decisão soberana que, no entanto, ilustra a erosão da posição francesa no seu antigo domínio [pré carré].


Numa posição que contrasta com as manifestações contra o Irão durante a reeleição do presidente Mohamad Ahmadinejad em Junho de 2009, a França convidou todos os países africanos francófonos de África, independentemente do comportamento dos seus exércitos para com as suas populações: 500 mortos no Togo depois das discutidas eleições de 2005, 100 mortos nos Camarões durante os motins na fome de 2008, um conflito larvar desde 1982 em Casamance, região do sul do Senegal.

Para além do desfile militar, a França cumpriu o ritual dos encontros franco-africanos: uma cimeira franco-africana reuniu nos dias 31 de Maio e 1 de Junho em Niza, perto do paraíso fiscal do principado de Mónaco, uma reunião à porta fechada dedicada ao sector privado e à negociação de contratos, onde estiveram presentes 150 empresas africanas e 50 empresas francesas.


Durante a cimeira, realizada em plena tempestade mundial depois do mortífero ataque israelense a uma flotilha humanitária de pacifistas pró palestinos, Nicolas Sarkozi não foi parco em promessas, compromissos, belas frases de adulação dos dirigentes do continente, repetindo que «há que dar um lugar a África» nos fóruns internacionais, nomeadamente no Conselho de Segurança da ONU.

Com a perspectiva no horizonte da dupla presidência do G20 e G8 em finais de 2010, que pretende utilizar para reabilitação da sua imagem política depois da derrubada sofrida pela sua maioria nas eleições regionais de Março de 2010, Sarkozy necessita de África, pois esta representa 25% dos países membros da ONU.


No entanto, um jornal de Burkina Faso, Le Pays, recusou o direito de Sarkozy se arvorar em advogado de África num assunto de tanta importância, e considera que cabe à União Africana levar a cabo a luta por um lugar de África como membro permanente no Conselho de Segurança, porque este continente «tem interesse em encontrar um advogado melhor que Sarkozy, pois enquanto ex-potência colonial, a França não representa um apoio muito credível».


Por outro lado, meia centena de movimentos políticos denunciou a dupla face da política francesa em relação a África: «uma política externa depredadora do ponto de vista económico, destruidora do meio ambiente e contrária aos interesses dos povos africanos e do povo francês, e uma política migratória que aponta os africanos como bodes expiatórios, em vez de os ajudar e regularizar a sua situação».

«A França, numa Europa-fortaleza, denuncia hipocritamente a afluência de refugiados económicos e climáticos criados com a sua contribuição, em vez de actuar sobre as causas que as ajudas ao desenvolvimento, amiúde desviadas dos seus objectivos, nunca poderão combater eficazmente», conclui o comunicado.


Desejada por Sarkozy, «a grande festa africana de 4 de Julho de homenagem aos “tirailleurs”» [africanos integrados no exército francês] corre o risco de homenagear mais o passado colonial que a independência. Há realmente alguma coisa a comemorar ou pelo contrário tudo teria de ser revisto? A pertinente pergunta colocada pelo intelectual camaronês, Achile Mbembé, não parece ter provocado muita reflexão a Paris.


A oferta dos serviços de África ao resto do mundo

Por seu lado, recorrendo à ironia, um grupo de intelectuais africanos elaborou o seguinte curriculum vitaede África á laia de comemoração co cinquentenário da independência da África francófono, que reproduzimos sem qualquer retoque.


Este é o texto integral, um grito de dolorosa realidade:


À Europa, América e Ásia,

Assunto: Pedido de emprego.

Colegas,


Especializada em golpes de Estado, na guerra, e sobretudo na venda e subcontratação de matérias-primas, eu, África, venho pela presente dar a conhecer uma exaustiva lista de matérias-primas e outras riquezas, com o objectivo de lhes evitar eventuais problemas relacionados com a pobreza, tudo totalmente garantido e a preços vantajosos. Ofereço-lhes, entre outras coisas:


- URÂNIO PROCEDENTE DO NÍGER.

- CACAU DE PRIMEIRA QUALIDADE PRODUZIDO NA COSTA DO MARFIM.

- PETRÓLEO DO GOLFO DA GUINÉ.


Devo precisar que o serviço pós-venda e a assistência associada aos meus produtos incluem as prestações dos meus filhos. Portanto, estou sempre disposta a fazê-los chegar até vós, por quaisquer que sejam os caminhos e os meios, para que façam trabalhos físicos de qualquer espécie ou natureza.


Assim, a qualidade dos meus homens e mulheres favorecerá a rapidez no serviço e uma facilidade p+ara a transformação dos produtos, qualquer que seja a amplitude da procura.


Assegurando a garantia e a manutenção dos produtos distribuídos, por último, que os nossos contratos, feitos por medida, garantirão sempre a permanência das suas riquezas e temos a certeza que isso será para vós um aval que nos fará merecer a vossa confiança.


Junto o meu curriculum vitae, rico em misérias, onde encontrará uma ampla informação sobre os meus conhecimentos e experiência.


Convencida de que dar uma efectiva contribuição ao seu desenvolvimento, conhecendo a sua astúcia e garantindo-lhes, se necessário, leis favoráveis, recebam, colegas, a expressão da minha devoção e da minha estupidez sem precedentes.


CURRICULUM VITAE ;


NOME: Continente.

APELIDO: Africano.

IDADE: Berço da humanidade.

ESTADO CIVIL: Solteiro, con mais de mil milhões de filhos.

DIRECÇÃO: Sul de Europa, a este da América.

OBJECTIVO: Pôr os meus filhos e os meus recursos à disposição dos demais para contribuir para o desenvolvimento destes últimos.

ESPECIALIDADES: Golpes de Estado, guerras, genocidios.

ESTUDOS E FORMAÇÃO:

• - Estudos superiores na ESOCE (Escola Superior Ocidental de Comércio de Escravos).
• Estudos superiores na AFRICA (Escola Africana de Formação para a Reeleição de Incompetentes, Zaragateiros, Usurpadores e Egoístas).


TÍTULOS:
• MRTS (Medalha de Mérito de «Tirailleur» Senegalês).
• GPRTT (Genocídio mais Rápido de todos os Tempos).
• CPRMPP (Continente mais rico Mas o mais Pobre).
• CPTS (Continente Mais Afectado pela Sida).
• CPDPP (Continente onde os Presidentes duram mais no Poder).
• PMDDP (Primeiro em Matéria de Dilapidação de Dinheiro Público).
• CPE (Continente Mais Endividado).
• CN (Continente Negro).


EXPERIÊNCIA:
• Participação nas duas guerras mundiais.
• Golpes de Estado:

• 1952: Egipto, Mohammed Naguib derruba Faruk I.
• 1958: Sudán, Ibrahim Abbud derrubabdalá Khalil.
• 1963: Congo, David Moussaka e Félix Mouzabakani derrubam Fulbert Yulou.
• 1963. Togo, Enmmanuel Bodjollé derruba Sylvanus Olympio.
• 1965: Argélia, Houari Boumediene derrubahmed Ben Bella.
• 1965: Zaire, Mobutu Sesse Seko derruba Joseph Kasa-Vubu.
• 1966: Ghana: Kwame Nkrumah é derrubado por uma junta militar enquantam visitava a China.
• 1966: Burkina Faso, Sangoulé Lamizana derruba Maurice Yaméogo.
• 1966: Burundi, Michel Micombrero derruba Ntare V.
• 1966: República Centro Africana, Jean Bédel Bokassa derruba David Dacko.
• 1966: Nigéria, Johnson Aguiyi-Ironsi derruba Nnamdi Azikiwe.
• 1966: Uganda, Milton Obote derruba Edward Mutesa.
• 1968: Mali, Moussa Traoré derruba Modibo Keita.
• 1969: Libia, Muammar Gadafi derruba Idris I.
• 1969: Sudán, Gaafar Nimeiry derruba Ismail al-Azhari.
• 1971: Uganda, Idi Amin Dada derruba Milton Obote.
• 1973: Ruanda, Juvenal Habyarimana derruba Grégoire Kayibanda.
• 1974 Etiopía, Aman Andom derruba Hailé Sélassié I.
• 1974: Etiopía, Mengistu Haile Mariam derrubaman Andom.
• 1974: Níger, Seyni Kountché derruba Hamani Diori.
• 1975: República Federal Islâmica das Comores, Said Mohamed Jaffar derrubahmed Abdalá.
• 1975: Nigéria, Yakubu Gowon derruba Johnson Aguiyi-Ironsi.
• 1975: Chad, Noel Milarew Odingar derruba François Tombalbaye.
• 1976: Burundi, Jean Baptiste Bagaza derruba Michel Micombero.
1976: República Federal Islámica de las Comores, Ali Soilih derruba Said Mohamed Jaffar.
• 1977: Congo, Joachim Yhombi-Opango derruba Marien Ngouabi.
• 1977: Etiópia, Mengistu Haile Mariam derruba Tafari Benti.
• 1978: República Federal Islâmica de las Comores Said Atthoumani derruba Ali Soilih.
• 1978: Mauritania, Mustafá Ould Salek derruba Moktar Ould Daddah.
• 1979: República Centro Africana, David Dacko derruba Bokassa I.
• 1979: Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo derruba Francisco Macías Nguema.
• 1979: Chade, Goukoni Oueddei derruba Félix Malloum.
• 1979: Uganda, Yusufu Lule derruba Idi Amin Dada.
• 1980: Burkina Faso, Saye Zerbo derruba Sangoulé Lamizana.
• 1980: Guiné-Bissau, Joo Bernardo Vieira derruba Luiís de Almeida Cabral.
• 1980: Libéria, Samuel Doe derruba William Richard Tolbert.
• 1981: República Centro Africana, André Kolingba derruba David Dacko.
• 1982: Burkina Faso, Jean Baptiste Ouédraogo derruba Saye Zerbo.
• 1982: Chade, Hissene Habré derruba Goukouni Oueddei.
• 1983: Burkina Faso, Thomas Sankara derruba Jean-Baptiste Ouédraogo.
• 1983: Nigéria, Muhammadu Buhari derruba Shehu Shagari.
• 1984: Guiné, Lansana Conté derruba Louis Lansana Beavogui.
• 1984: Mauritania. Maaouiya Ould Taya derruba Mohamed Khouna Ould Haidalla.
• 1985: Uganda, Basilio Olara Okello derruba Milton Obote.
• 1985: Sudán, Swar al-Dahab derruba Gaafar Nimery.
• 1986: Sudão, Ahmed al-Mirghani derruba Swar al-Dahab.
• 1987: Burkina Faso, Blaise Campaoré derruba Thomas Sankara.
• 1987: Burundi, Pierre Buyoya derruba Jean-Baptiste Bagaza.
• 1987: Tunis, Zine el-Abidine Ben Ali derruba Habib Bourquiba.
• 1989: Sudão, Omar el-Béchir derruba Ahmad al-Mirghani.
• 1990: Libéria, Prince Johnson derruba Samuel Doe.
• 1991: Mali, Amadou Toumani Touré derruba Moussa Traoré.
• 1992: Argélia, o Alto Conselho de Segurirança derruba Chadli Bendjedid.
• 1995: República Federal Islâmica das Comores, Ayouba Combo derruba Said Mohamed Djohar.
• 1996: Burundi, Pierre Buyoya derruba Sylvestre Ntibantunganya.
• 1996. Níger, Ibrahim Baré Mainassara derruba Mahamane Ousmane.
• 1997: Zaire/República Democrática do Congo, Laurent Désiré Kabila derruba Mobutu Sese Seko.
• 1999: União das Comores, Azali Assoumani derruba Tadjidine Ben Said Massounde.
• 1999: Costa do Marfim, Robert Guéi derruba a Henri Konan Bédié.
• 1999: Guiné-Bissau, Ansumane Mané derruba Joao Bernardo Vieira.
• 1999: Níger, Daouda Malam Wanké derruba Ibrahim Baré Mainassara.
• 2003: República Centro Africana, François Bozizé derruba Ange-Félix Patassé.
• 2003: Guiné-Bissau, Verissimo Correia Seabra derruba Kumba Yala.
• 2005: Mauritania, Ely Ould Mohamed Vall derruba Maaouiya Ould Taya.
• 2008: Mauritania, Mohamed Ould Abdel Aziz derruba Sidi Mohamed Ould Cheikh Abdallahi.
• 2008: Guiné, Moussa Dadid Camara usurpa o poder na morte de Lansana Conté.
• 2009: Madagascar, Andry Rajoelina denuncia e derruba com uma rapidez impressionante o régime de Marc Ravalomanana.
• 2010: Níger, Salou Djibo derruba Tandja Mamadou.


OUTROS MÉRITOS:

Analfabetismo, desescolarización, desempleo y pobreza.


PREFERÊNCIAS:

• Distúrbios, ter muitos filhos e fome.
• Amarga celebração de umas independências miseráveis.

* Escritor, jornalista e ex-responsável do mundo árabe muçulmano no serviço diplomático da Agência France-Press.


Este texto foi publicado em: Cinquantenaire de l’indépendance de l’Afrique francophone, amère dérision en guise de célébration



Tradução de José Paulo Gascão do DiarioInfo