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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Obama: o enganador

3/9/2013, [*] Bruce Ackerman, Foreign Policy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dois mentirosos em ação: Barack Obama e James Clapper
A virada do presidente Barack Obama na questão da Síria chega como surpresa, dados seus recentes shows de desdém pelo Congresso. Há apenas poucos meses, as revelações de Edward Snowden forçaram o Diretor da Agência Nacional de Inteligência a admitir que mentira à Comissão de Inteligência do Senado – crime punível com cinco anos de prisão. Mas nem a confissão do crime fez com que o presidente substituísse Clapper por alguma cara nova que pudesse somar-se ao Congresso em alguma operação de limpeza, depois do escândalo da Agência de Segurança Nacional.

Abdel Fattah al-Sisi
O show seguinte de unilateralismo de Obama aconteceu em resposta ao golpe militar no Egito. A Lei de Assistência a País Estrangeiro impede qualquer ajuda a país cujo “chefe de governo devidamente eleito seja deposto por golpe militar”. Mas mesmo depois de os militares egípcios terem moído manifestantes nas ruas, a Casa Branca ainda insistia que “não é do alto interesse dos EUA” determinar “se houve golpe ou não”. Apesar de protestos do Capitólio, não se viu sinal algum de que o presidente obedeceria à lei.

Quando o drama mudou-se para a Síria, a política de Obama variou no rumo oposto. Dessa vez, os EUA não pagariam o general Abdel Fattah el-Sisi para matar manifestantes, mas passariam a bombardear Bashar al-Assad por matar civis com armas químicas – o que não está provado que tenha acontecido. O Secretário de Estado, John Kerry, lidera a carga e o mundo prende a respiração na angústia de esperar os primeiros ataques, depois que, surpreendentemente, Obama buscou o Congresso.

David Cameron
Num momento de terrível ironia histórica, a derrota do Primeiro-Ministro David Cameron na Casa dos Comuns, foi a causa que precipitou o desesperado movimento do presidente. Durante quase mil anos, a Constituição britânica excluiu o Parlamento de declarar guerra – o rei exigia para si esse poder, como “prerrogativa real”. Mas na guerra de George III contra seus colonos rebeldes, passou a ser imperativo para os Pais Fundadores nos EUA determinar que seu novo presidente tivesse papel diferente – e esse novo papel implicava que o Congresso tomaria, nos EUA, as decisões cruciais sobre guerra e paz. E então, dois séculos depois, o velho Parlamento Britânico reaparece para aplicar uma lição ao presidente imperial do outro lado do mundo.

Foi só em 2003, que Tony Blair decidiu que sua aventura com George W. Bush exigia algo mais que um decreto real. Para reforçar sua legitimidade democrática, Blair requereu aprovação formal do Parlamento – que obteria, porque seu partido tinha firme maioria na Casa. Mas em 2013, Cameron já não passava de cabecilha de uma vacilante coalizão Tory-Liberal, e não conseguiu os votos de que precisava.

Assim, o presidente Obama, decidido a atacar militarmente a Síria, viu-se na lamentável posição de ter conseguido ainda menos que Bush.

Tony Blair e George W. Bush,, outros mentirosos contumazes
Por mais terríveis que tenham sido os erros da Guerra do Iraque considerada a lei internacional, Bush e Blair conseguiram, sim, montar uma formidável “coalizão de vontades”. Por mais mentiras que Bush tenha mentido à opinião pública sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, ele, pelo menos, obteve a aprovação no Congresso.

Mas, no minuto em que os britânicos pularam fora, ficou claro que a coalizão internacional de Obama seria muito menos substancial que a outra, que apoiara Bush. E, se Obama não buscasse a aprovação do Congresso, se condenaria a ser atacado pela direita e pela esquerda, se sua intervenção unilateral lhe saísse pela culatra.

Obama mostrou potente instinto de autopreservação, nessa virada de último momento. Mas o ato terá consequências muito maiores do que as que Obama pretendia obter. É possível que tivesse ganho alguma coisa, vitória rápida e rasa, se tivesse proposto resolução ao Congresso que limitasse estritamente seu uso de força a um ataque cirúrgico, como dizia pretender fazer.

Mas a proposta formal que Obama enviou ao Congresso, [1] é perfeita e acabada, uma operação para tentar enganar todos, todo o tempo. Por aquela proposta, o presidente ficaria autorizado a “usar as Forças Armadas dos EUA”, inclusive soldados para combate em solo, e a usar força militar “dentro, para e a partir da Síria”.

Ainda mais: o presidente poderia agir para deter “o uso ou proliferação” de “armas químicas e de outras armas de destruição em massa” e intervir para “proteger os EUA e seus aliados e parceiros contra a ameaça dessas armas”.

Seria nada menos que aprovação “preventiva”, pelo Congresso dos EUA para intervenção militar em todo o Oriente Médio e em qualquer lugar do mundo.

John McCain e Lindsay Graham
Essa espantosa iniciativa de Obama, de tão espantosa, teria de levar, como levou, ao exame detalhado de suas premissas – atitude de que os EUA precisam hoje quase desesperadamente, num momento em que o governo vacila, da mais crua realpolitik no Egito, para o mais hipócrita moralismo na Síria. Além do mais, não há chance de que a maioria do Congresso una-se a John McCain e Lindsey Graham para endossar a quase inacreditável “carta branca” que Obama pediu.

Gerald Connoly
De fato, os deputados Chris Van Hollen (D-MD) e Gerald Connolly (D-VA) já prepararam e distribuíram outro texto de projeto de lei a ser votado [2] que só autorizará a missão limitada – a única da qual Obama falou publicamente em todas as suas falas para a opinião pública nos EUA.

O mais importante da nova proposta, é que o Congresso insiste em limite de tempo estrito para todos os usos de força – como foi feito na autorização ao presidente Ronald Reagan para que invadisse o Líbano em 1983. Mas, considerada a enorme diferença que separa essa limitação e a autorização absolutamente ilimitada que Obama pediu, deve-se esperar que alguma barganha de último minuto gere algum tipo de “solução intermediária” que satisfaça a maioria nas duas Casas.

Seja como for, o debate que virá estará marcando o fim da era do 11/9. Os próximos presidentes já chegarão bem avisados de que o povo americano já não apoia intervenções militares de vasto alcance no mundo islâmico.

Chris Van Hollen 
E mais uma boa coisa. Embora haja quem se preocupe com alguma perda de estatura de Obama de curto prazo, a grande preocupação de todos deve começar a ser a perda de credibilidade dos EUA de longo prazo – tanto moralmente, como resultado da conduta brutal dos EUA na guerra ao terror, quanto estrategicamente, pelas fracassadas intervenções militares no Iraque - e pela ainda mais viciosa e pervertida luta por poder no Oriente Médio. Muito mais do que reduzir os efeitos daninhos dessas políticas fracassadas, o debate que se aproxima no Congresso deve abrir as portas para reavaliação total dos fundamentos dessas políticas.  

[Aviso da Vila Vudu - Mas... Atenção, América Latina: Obama, o enganador, pode estar jogando muito alto, pensando em ganhar noutras frentes! OJO! ALERTA!]

John Kerry
Paradoxalmente, tudo isso pode libertar Obama para que se engaje em iniciativas diplomáticas mais construtivas. A defesa de um Acordo de Livre Comércio com a Europa tem probabilidade muito mais alta de gerar resultados duradouros, que o frenesi do secretário Kerry, que tenta alucinadamente inventar um acordo entre israelenses e palestinos.
A virada de Obama para a Ásia pode ser complementada por uma virada para a América Latina cujos problemas fundamentais são sistematicamente ignorados por uma Casa Branca continuamente atropelada pela mais recente crise no Oriente Médio.

[Aviso da Vila Vudu - Atenção, Rússia! Atenção, China! Atenção, América Latina!]

Mas tudo isso é para o futuro. O ponto crucial é perceber que algo especial está acontecendo. Uma disputa contra um déspota de liga de futebol de segunda-divisão está provocando uma grande virada na política dos EUA para o mundo. É momento em que o Congresso tem de encarar suas responsabilidades com a máxima seriedade.




[*] Bruce Ackerman é professor de Direito e Ciências Políticas em Yale e autor de The Decline and Fall of the American Republic.



Notas dos tradutores
[1] Texto em inglês, da proposta que Obama encaminhou ao Congresso dos EUA. Aquela proposta, se aprovada, lhe daria poder ilimitado, para fazer o que bem entendesse .

[2] 3/9/2013, New York Times, “Senate Resolution on Syria”, RESOLUÇÃO CONJUNTA A SER VOTADA (traduzida)

domingo, 4 de agosto de 2013

Caso Snowden: Obama completamente desnorteado

1/8/2013, [*] Yves Smith, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
Por causa da pose, do afamado ar cool, da cara de “sem drama”, é difícil detectar quando Obama está suando frio. Mas se se examina a substância de suas ações, é claro que o presidente já perdeu a pose, no mínimo no que tenha a ver com Snowden e as revelações sobre o estado de vigilância. Ainda não tenho certeza de que o presidente ande metendo os pés pelas mãos arrastado por alguma obsessão pessoal, ou se Obama já entendeu que escorrega velozmente para a posição de pato manco, e a frustração ante o poder que lhe escapa entre os dedos é mais visível no ponto mais sensível – a saber: a verdade sobre o que realmente faz a Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Um dos sinais de que Obama está fora de prumo é a quantidade de erros consecutivos nos contatos com a Rússia. A pressuposição patética de que bastaria Obama ordenar e Putin obedeceria parece corolário da certeza de que os russos cooperariam e entregariam Snowden, tão logo Obama “amaciasse” o líder russo. Dado o pé em que estão hoje as relações EUA-Rússia, esta ideia beira o delírio limítrofe e a irracionalidade.


Michael Hirsh
Na década seguinte ao colapso da URSS no final de 1991, os EUA deram aos russos muitos maus conselhos econômicos – nascidos da cabeça de consultores de livre mercado do Harvard Institute para Desenvolvimento Internacional e do FMI (...).

Aquela era de desconfiar dos EUA levou diretamente aos anos de Putin. Desde então, apesar das várias tentativas do que a ex-secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton chamava de “um reset” das relações, os EUA só fizeram estimular a desconfiança dos russos, insistindo em tratar os “russos como herdeiros das políticas e objetivos da União Soviética”, como Leslie Gelb e Dimitri Simes escrevem num novo artigo na revista The National Interest (...). Assim se criou a impressão de que as principais prioridades do ocidente, muito depois da Guerra Fria, ainda incluíam não apenas conter a Rússia, mas também transformá-la.

Putin tossiu um primeiro pigarro logo no início e tratou logo de lembrar aos EUA que Rússia e EUA não têm tratado de extradição e que, regra geral, a Rússia não extradita ninguém. Tratar o caso Snowden como “caso especial”, só porque os EUA “exigiam” que ele lhes fosse entregue, jamais entrou nas cogitações de Putin. Putin assumiu a posição segundo a qual não valeria a pena explorar Snowden e seu potencial gigante de causar problema aos EUA: “É como tosquiar porco: muito berreiro e nenhuma lã”.

Oleg Kalugin
Vale observar que essa formulação não veda a possibilidade de que a Rússia se interesse por trocar Snowden por indivíduos que vivem hoje nos EUA e que os russos querem ter de volta, como Oleg Kalugin, ex-agente da KGB.

Mas... Não! Obama imediatamente rejeitou essa possibilidade, e pôs-se a insistir que a Rússia seria obrigada pela lei internacional a devolver Snowden (engraçado é que a lei internacional torna-se super operante quando Obama precisa dela, mas não em casos como o de Kalugin; dos prisioneiros alimentados contra vontade na prisão de Guantánamo; ou de crianças paquistanesas assassinadas por drones). Obama também disse que

Não vou mobilizar jatos bombardeiros para apanhar um hacker de 29 anos (...) Não telefonei pessoalmente ao presidente Xi nem ao presidente Putin, e a razão é... No.1: não tinha de telefonar.
No.2, temos muitos negócios com China e Rússia e não vou ter um caso de suspeito que tentamos extraditar elevado de repente ao ponto de eu me pôr a manobrar e negociar e comerciar uma vasta série de outras questões.

Sim, mas... e o que aconteceu em seguida? Ora bolas! Obama não mobilizou pessoalmente jatos bombardeiros, mas se você não tomar como agressão o que fizeram contra o avião em que viajava o presidente Evo Morales, tenho cá uma ponte que você talvez queira comprar. E embora Putin tenha pronunciado as palavras “não se cogita de extradição” na formulação mais clara possível, nem assim Obama deu sinais de estar captando a mensagem. Já citei algumas vezes essa passagem do blog Moon of Alabama, mas vale a pena relembrá-la:

Vladimir Putin
Putin deixou bem claro desde o início que não haveria extradição de Snowden. Ponto final. Funcionários russos repetiram incansavelmente a mesma coisa, inclusive hoje. Perguntado por um repórter se a posição do governo teria mudado, Dmitry Peskov disse a agências russas de notícias que “a Rússia jamais extraditou quem quer que fosse e jamais extraditará.

O que haveria, aí, tão difícil de entender? Por que os EUA continuam a tentar?

Parece ser coisa da personalidade de Obama. Ele pediu pessoalmente que Putin extraditasse Snowden, mesmo depois de Putin ter dito publicamente (e quando, portanto, havia chance zero de mudar de posição) que não haveria extradição. Agora, Obama está no mato sem cachorro. Como é possível levar, ELE, um “não”, bem na cara, de um país como a Rússia?

Há duas semanas, Obama telefonou a Putin e pediu-lhe que despachasse Snowden de volta para os EUA, mas Putin recusou, segundo um funcionário que foi informado sobre o telefonema. Depois dessa resposta, ressentida como grosseria, a equipe de Obama passou a dedicar-se à nova política de tratar Putin com ares de pouco caso.

Samuel Charap
O caso Snowden está afetando definitivamente as relações EUA-Rússia, não há dúvidas sobre isso. Se você deixa claro que algo é muito importante para os EUA e requeremos cooperação e nosso requerimento é rejeitado, a rejeição terá impacto no relacionamento mais amplo. Ninguém pode levantar o nariz ante o presidente dos EUA e esperar que o gesto não tenha consequências. Se o presidente envolveu-se pessoalmente no caso e recebeu um não como resposta, é como jogar pela janela o livro de regras – disse Samuel Charap, alto dirigente do Instituto Internacional Rússia e Eurásia de Estudos Estratégicos.

Então, sim. Certo. O livro de regras voou pela janela. Ferro na diplomacia pública. Nem se preocupe com o modo como o mundo verá os EUA. Trata-se de Obama, ofendidíssimo, porque Putin “levantou o nariz” para ele. Quem é esse tal de presidente da Federação Russa que se atreve a fazer tal desaforo para o Rei Obama dos EUA?

Parece até que Obama esqueceu que a Rússia ainda tem arsenal atômico.

Agora que Obama aprendeu que não pode jogar com Putin de um lado para outro, tudo sugere que os EUA tentam oferecer gente e mais gente que interesse aos russos, em troca de Snowden (agradecimentos, pela dica, a Deontos):

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Mas depois de ter forçado o avião de Morales a fazer um pouso de emergência, e depois dos desenvolvimentos das duas últimas semanas (em breve haverá outras notícias atualizadas), Obama já não está conseguindo sequer disfarçar o desespero e a urgência em capturar Snowden. Para piorar, e perversamente, quanto mais as negociações se arrastam, mais valioso Snowden vai-se tornando, com revelações que não cessam de pingar, pingar, pingar (com todo o material agora sob a guarda do jornal The Guardian e do jornalista Glenn Greenwald), e o estado de segurança oficial cada dia mais impotente, o que torna toda a situação cada dia mais frustrante para Obama. Putin, hoje, canta do poleiro mais alto. Pode continuar a rejeitar ofertas e mais ofertas dos EUA, esperando, enquanto a oferta sobe, sobe, sobe.

Glenn Greenwald
Agora, enquanto Snowden assume importância simbólica indevida (dado que o verdadeiro jogo está nas mãos de Greenwald e do jornal The Guardian; ter acesso a Snowden é interessante, mas não suficiente para impedir que os vazamentos prossigam), objetivamente, o governo dos EUA está na pior posição de todo o quadro.

Vários leitores desse blog Naked Capitalism resistem a dar importância à apertada derrota da emenda Amash, semana passada, que teria posto sob cabresto o estado de segurança, apostando que a votação não passou de encenação. Mas a emenda Amash teria proibido a transferência de fundos públicos para uso da Agência de Segurança Nacional para a finalidade de “coletar números de telefones e outros registros de qualquer pessoa que não seja alvo de investigação”. A emenda foi rejeitada por 217 a 205 votos.

A rejeição, por tão apertada margem de votos é evento de proporções sísmicas.

Keith Alexander
Lembremos que graças ao sistema “pagar e votar” que rege os dois partidos, a liderança na Câmara de Representantes manda muito mais, nos membros, que há 25 anos. As lideranças dos dois partidos e a Comissão de Inteligência da Câmara opuseram-se à emenda e fizeram cerrada campanha pela rejeição. O diretor da Agência de Segurança Nacional, Keith Alexander, falou sob sigilo aos deputados, para dizer, sem meias palavras, que haveria consequências terríveis caso a emenda fosse aprovada. Até a Casa Branca distribuiu declaração  em que se empenhou diretamente a favor da rejeição da emenda. Ouvi dizer, na Câmara de Representantes, que ninguém, ali, conseguia recordar outro caso em que o governo inteiro tenha jogado todo o seu peso contra a aprovação de alguma emenda. Figurões da comunidade de Defesa estiveram na mídia, em tempo integral, fazendo as mais aterrorizantes ameaças sobre os danos que a aprovação daquela emenda traria para interesses dos EUA. Como ouvi de um assessor, no Congresso: “Quebraram braços e pescoços para obter a rejeição”.  

Alan Grayson 
Pouco depois da votação, Alan Grayson convidou alguns membros para uma sessão agendada para a manhã da 4ª-feira, 31/7, na qual Greenwald deporia por teleconferência. Richard Clarke, presidente do Grupo de Segurança Contra-terrorismo e um dos membros do Grupo de Segurança Nacional também estava agendado para participar. 24 horas depois de Grayson ter anunciado a reunião, que despertou considerável interesse entre os membros, Clarke desistiu. De início, disse que havia um conflito de agenda, mas logo ficou claro que recebera, do governo, uma dose de tratamento Elizabeth Warren – foi convidado para outra missão (nada de alto valor monetário, mas prêmio prestigiado, de participação em processo interno) e foi informado de que, caso participasse daquela reunião, perderia a chance de ver-se incluído na outra iniciativa.

Mas aparentemente nem toda essa macaqueação foi suficiente. A possibilidade de criar-se um canal de contato direto entre Greenwald e outros “sentinelas vazadores” [orig. whistleblowers] e membros do Congresso, que, num certo momento, configurou-se bem claramente, foi sentida por Obama como ameaça grave demais. Jane Hamsher comenta os desenvolvimentos

Jane Hamsher 
O presidente Obama sempre, historicamente, considera o Congresso como uma antessala do inferno. Uma das maiores queixas dos Democratas no Congresso sempre foi que o presidente não os consulta nem os inclui na modelagem de sua agenda legislativa, e nem se fala de dar uma passada por ali, para conversar um pouco. Imagine-se, portanto, a surpresa geral quando, de repente, o presidente anunciou que viria hoje ao Capitólio, para reunir-se com todos os Democratas – exatamente na véspera do início das férias de agosto.

Por coincidência, Alan Grayson foi obrigado a cancelar a audiência sobre a Agência de Segurança Nacional marcada para hoje, durante a qual se ouviria o depoimento de Glenn Greenwald do The Guardian. Grayson organizara a audiência bipartidária para dar aos críticos dos programas de vigilância ilimitada da Agência de Segurança Nacional uma oportunidade para expor suas preocupações, e controlar a maré montante de “informação sempre errônea e viciada” distribuída pela comunidade de inteligência.

Gen. James Clapper
Especificamente, o encontro repentinamente agendado aconteceria com o chamado “Caucus Democrata”. Não conflitava diretamente só com a sessão para ouvir Greenwald, mas dado que esse período de atividade do Congresso se encerra na 6ª-feira, seria impossível reagendar a teleconferência para adiante, ainda nessa semana (tipo “não se conseguiu sala desocupada”). Muita gente me disse que o gambito de Obama ficou escandalosamente claro e óbvio para todos, no Congresso.

Consideremos, então, o que aconteceu: temos um presidente que encara um jornalista como ameaça pessoal e que faz o diabo para impedir que o jornalista fale diretamente aos congressistas. Nada disso, é claro, intimida Greenwald. Um dos pontos do testemunho da 4ª-feira (tecnicamente, não seria audiência) era dar oportunidade a Greenwald para responder a Obama, James Clapper e Keith Alexander, que haviam declarado que os programas da Agência de Segurança Nacional eram limitados.

Edward Snowden
Se você ainda não leu as informações que Greenwald acaba de distribuir sobre o programa Xkeyscore, o The Guardian resumiu os pontos mais críticos: 

Um dos programas top secret da Agência Top Secret de Segurança Nacional dos EUA permite que os analistas pesquisem – sem qualquer autorização ou mandado judicial – todas as vastas bases de dados em que se arquivam e-mails, chats online e os históricos de mensagens e contatos de milhões de indivíduos (segundo os documentos distribuídos pelo sentinela tocador de apito [orig. whistleblower] Edward Snowden).

Os arquivos lançaram luz sobre uma das falas mais controversas de Snowden, de sua primeira entrevista por vídeo publicada pelo jornal The Guardian dia 10/6.

Eu, sentado à minha mesa – disse Snowden - podia ouvir e copiar tudo de todos, de você, do seu advogado, do seu contador, de um juiz da corte suprema e até do presidente. Bastava que eu tivesse um endereço pessoal de e-mail.

Mike Rogers
Funcionários dos EUA apressaram-se a desmentir veementemente essa específica parte do que Snowden disse. Mike Rogers, o Republicano presidente da Comissão de Inteligência da Câmara de Representantes, disse, sobre a frase de Snowden: “É mentira. Está mentindo. É impossível para ele fazer o que diz que poderia fazer”.

Mas os materiais de treinamento para o programa XKeyscore agora distribuídos detalham precisamente como os analistas podem usar o programa e outros sistemas para pesquisar nas gigantescas bases de dados da Agência, bastando para tanto preencher um simples formulário em tela, e fornecer qualquer vaga justificativa para a pesquisa. A solicitação não é fiscalizada por nenhum juiz da Suprema Corte ou de qualquer outra corte ou tribunal nem por qualquer funcionário da própria Agência de Segurança Nacional, antes de ser processada.

O programa XKeyscore, os documentos alardeiam, é o sistema de “mais amplo” alcance de toda a Agência de Segurança Nacional de desenvolvimento de inteligência a partir de redes de computador – o que a Agência chama de Digital Network Intelligence (DNI) [Rede de Inteligência Digital]. Um dos documentos diz que o programa cobre “praticamente tudo que um usuário típico faz na internet”, incluindo conteúdo de e-mails, websites visitados e pesquisa, além dos respectivos metadados.

Os analistas da Agência de Segurança Nacional dos EUA também podem usar o sistema XKeyscore e outros sistemas da Agência para obter interceptação “em tempo real” da atividade de indivíduos na Internet.

Monica Lewinsky
Por mais danosas que sejam essas revelações, a reação da Agência e, agora, a atitude suspeita de Obama, que não está negociando com honestidade com o Congresso e já começa a tentar “qualquer coisa” para impedir que Greenwald fale (e até os mais empedernidos congressettes já começam a suspeitar que nem Obama conseguirá safar-se como “falso inocente”) já começam a dar sinal de que há risco de o tiro sair pela culatra. Basta ter em mente que o que derrubou Nixon, em Watergate, e o que mais dano causou a Clinton no affair Monica Lewinsky não foram os eventos propriamente ditos, mas as tentativas de esconder os eventos.

Aqui e agora, a Agência de Segurança Nacional e o governo dos EUA parecem incapazes de aceitar que Greenwald tem, sim, os documentos, e que prosseguirá metodicamente a liberar as informações. Se a Agência de Segurança Nacional sabe o que Snowden copiou (e dizem que sabem), então devem saber muito bem o que ele pode divulgar. Apesar disso, insistem em mentir descaradamente, todos os dias, em todos os jornais e televisões, mentiras que Greenwald tem meios para desmascarar, acima de qualquer dúvida possível, com o próprio material da Agência de Segurança Nacional.

O governo dos EUA e seus principais funcionários parecem organicamente, constitucionalmente, incapazes de reconhecer que não têm meios para deter o processo que já está em andamento, a menos que... façam explodir a redação do jornal The Guardian, ou tentem, sabe-se lá... um golpe de Estado?! (Mas eu, pessoalmente, tenho certeza de que ambos, Greenwald e Snowden, têm cópias de itens críticos do material entregues a mãos suficientes, provavelmente do próprio The Guardian, de tal modo que a publicação dos documentos prosseguirá, mesmo que algo aconteça ao jornal e aos jornalistas ou ao próprio Snowden). O estado de vigilância parece incapaz de entender que não tem meios para vencer essa luta e que, se não fizerem pelo menos algum esforço para embarcar no ônibus, correm o risco de acabar sob as rodas.

A reunião convocada por Grayson foi adiada para setembro. As táticas de procrastinação de Obama, que acabará por levar a discussão para o horário nobre no próximo outono, tem tudo para acabar como gol contra. Permaneçam sintonizados nesse canal. 

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[*] Yves Smith anima incisivamente o popular blog financeiro "Naked Capitalism" desde 2006. Passou mais de 25 anos em empresas financeiras e atualmente dirige a Aurora Advisors, uma empresa de consultoria especializada em gestão, consultoria financeira corporativa e serviços financeiros, sediada em New York. Experiência anterior inclui Goldman Sachs (em finanças corporativas), McKinsey & Co. e Sumitomo Bank (como chefe de fusões e aquisições). Yves escreveu para publicações nos Estados Unidos e na Austrália, incluindo The New York Times, The Christian Science Monitor, Slate, The Review Board Conference, Institutional Investor, The Daily Deal e Australian Financial Review. [Yves é graduada no Harvard College e Harvard Business School].