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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Putin faz uma oferta a Obama, sobre a Síria


26/5/2015, [*]  M.K. Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na roça do Cherosim na Vila Vudu: Aparentemente, o embaixador Bhadrakumar, nessa sua fé i-na-ba-lá-vel de que Obama é grande estadista” , ainda não sabe que “os EUA já decidiram que haverá guerra” (ver/ler em 25/5/2015, Rostislav Ishchenko, redecastorphoto: “Ucrânia: unida ou não, estado miseravelmente fracassado).
Por isso, não por qualquer outra razão, Putin sentiu que tem de tentar todas as possibilidades que haja, para salvar a paz, inclusive procurar e pôr-se na dependência do que Cameron faça ou deixe de fazer.
Hoje, todos dependemos de Putin, até Cameron e a BCC (Besta Conservadora Coroada) [pano rápido].

Vladimir Putin

O telefonema do Presidente Vladimir Putin para o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron na 2ª-feira (25/5/2015) tem de ser tomado como mais um sinal do gradual descongelamento das relações da Rússia com o ocidente, depois da visita que lhe fez o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, em Sochi recentemente (Vide Obama’s overture to Putin has paid off).
Putin usou a reeleição de Cameron como ocasião para reengajar a Grã-Bretanha, politicamente e diplomaticamente. Prima facie, o gesto de Putin é lisonjeiro. Vem num momento em que se ouvem muitas críticas dentro da Grã-Bretanha e nos EUA por a Grã-Bretanha ter-se convertido em ator menor nos assuntos globais.
Como escreveu Fareed Zakaria recentemente, com acerto [embora com aquele ar de idiota arrogante que é sua marca registrada (NTs)], Cameron passa a impressão de que não percebe que é sucessor de Pitt, Gladstone, Disraeli, Lloyd George, Churchill e Thatcher e nada faz além de manifestamente só “olhar para dentro”; e porque não fez grande discurso depois da reeleição sobre “um mundo de desafios” – a provável saída da Grécia da zona do euro, as ondas de migrantes que vêm das costas da África, a crise na Ucrânia, o Estado Islâmico e por aí vai. E por, no solene momento da posse, ter-se dedicado a expor um rascunho de plano para “garantir que melhores equipes de atendimento permaneçam nos hospitais do Reino Unido ao longo dos fins-de-semana”.
Moscou reserva-se o direito de discordar. Moscou sempre entendeu (mesmo no auge da Guerra Fria ou da perestroika de Mikhail Gorbachev) que há um único papel que cabe à Grã-Bretanha na política internacional, papel que, talvez, pode-se dizer, só a GB pode desempenhar – não a Alemanha, a França ou a Itália – a saber: servir de intermediária quando as coisas ficam realmente feias nas elações Rússia-EUA.
O documento distribuído pelo Kremlin sobre o telefonema de Putin para Cameron não foi tão lacônico como é usual, e até registra que Putin deixou uma via aberta para “cooperação construtiva” entre Rússia e Grã-Bretanha para promover a agenda bilateral e sobre questões internacionais. O comunicado sugere que Síria e Ucrânia figuraram entre os principais tópicos.
Bem obviamente, a Rússia vê a luta contra o Estado [Nada] Islâmico [EI] como ponto focal da crise na Síria; e quanto à Ucrânia, a ênfase está em encontrar “acordo duradouro”, o que demanda diálogo entre os representantes da região do Donbass e de Kiev.
nº 10 da Rua Downing, Londres

Em comparação, o press-release distribuído do n. 10 da Rua Downing é bastante mais informativo sobre os 30 minutos de conversa telefônica de Cameron com Putin. Informa, nas entrelinhas, que há ampla confluência de opiniões sobre a Síria entre Moscou e Londres, no que tenha a ver com pôr fim à guerra civil e deter a maré montante do Estado [Nada] Islâmico (E [Nada] I).
Quer dizer que os dois governantes acertaram que seus conselheiros de segurança nacional “reiniciarão conversas” sobre a Síria. Claramente, significa que os serviços de inteligência russo e britânico retomarão os contatos. Putin e Cameron parecem ter cuidadosamente desviado do ponto nevrálgico desse tema, que é o futuro do governo de Assad num acordo político.
Mas a versão britânica insistiu incomodamente nas “profundas diferenças” entre Moscou e Londres sobre a crise na Ucrânia, destacando que a prioridade no momento é a plena implementação do Acordo de Minsk e o trabalho do grupo trilateral de contato (Ucrânia, Rússia e a OSCE) para resolver as “questões de destaque”.
Resumo, Putin atou os fios do diálogo de Rússia com Grã-Bretanha e os dois governantes sublinharam que os negócios estão recomeçando, demarcando a trilha luminosa da cooperação produtiva entre os dois países, no quadro do grupo P5+1 que negocia com o Irã.
Isso posto, o objetivo principal de Putin foi engajar Cameron, mesmo, na questão da Síria (sobre a Ucrânia, a Rússia tem motivos para dar-se por satisfeita com o “formato” Normandia existente, que reúne Alemanha, França e Ucrânia).
A última vez que Putin e Cameron falaram sobre a Síria foi em maio de 2013, quando Cameron esteve em Sochi para reunir-se com o russo. E, sim, o mundo já nem parece o mesmo que então havia.
O foco naquele momento foram os esforços para “ajudar a modelar” um governo de transição na Síria, e Putin concordou com a necessidade de pôr fim à violência, para impedir que o extremismo crescesse e deter a “fragmentação” da Síria.
Pode bem ser que as respectivas posições não tenham mudado desde maio de 2013 – GB a bradar que o presidente Bashar al-Assad tem de sair e garantindo apoio à “oposição” síria; e a Rússia, por seu lado, preocupada com um vácuo de poder que se criará no caso de o governo sírio colapsar, e com o crescimento dos grupos terroristas.
Mas, por assim dizer, a posição de Moscou naqueles dias mostra-se hoje perfeitamente correta. Depois das conversas em Sochi há dois anos, Putin disse que Rússia e Grã-Bretanha tinham “interesse comum em pôr fim à violência e em lançar um acordo de paz que preserve a Síria como estado integral e soberano”.
Hoje, e isso não é pouco, esse “interesse comum” só pode ter-se aprofundado. Moscou estará à espera de que Londres atravesse até o âmago do governo Obama, para lá implantar a imperativa, urgente necessidade de reabrir a trilha para moldar uma transição política na Síria.
O dramático avanço do Estado [Nada] Islâmico na Síria, que se consumou com a tomada de Palmira há três dias, fez aumentar a pressão sobre a estratégia dos EUA para a Síria. Os aliados regionais dos EUA já pressionam por uma mudança na estratégia dos EUA, com intervenção maior na Síria. A Turquia já beira literalmente a chantagem, e disse que os EUA estariam inclinados a garantir apoio aéreo aos terroristas rebeldes que lutam na Síria [chamados pelos EUA, pela Reuters e pela Leilane Neubarth de “milícias rebeldes sírias” (NTs)]. Mas funcionários do governo dos EUA têm repetido que nenhuma decisão foi tomada até agora.
Estado (NADA) Islâmico - criação de Israel e EUA

Claramente a Turquia interessa-se mais pela “mudança de regime” na Síria do que por alguma luta contra o Estado [Nada] Islâmico; e a prioridade de Obama é que a estratégia que ele tinha para combater o Estado [Nada] Islâmico está em frangalhos [e agora se trata de salvar a própria cara (da estratégia e de Obama) (NTs)].
A avaliação de Putin deve ser que Obama não está inclinado a favor de solução militar na Síria, dada a extrema fragilidade da unidade do país, e o perigo real de que só o Estado [Nada] Islâmico ganhará se a Síria fragmentar-se. (DebkaFile, que tem contato com a inteligência de Israel noticiou que uma coluna do Estado [Nada] Islâmico está a caminho da fronteira da Síria com a Jordânia, onde estão 7 mil soldados das forças especiais dos EUA).
Tudo considerado, portanto, o telefonema de ontem para Cameron significa que Putin está levando indiretamente ao conhecimento de Obama que a Rússia está interessada em cooperar com EUA e Grã-Bretanha em termos práticos, na busca por uma solução política e, em termos imediatos, para pôr fim ao levante do Estado [Nada] Islâmico mediante cooperação em tempo real entre as agências de inteligência (as sanções ocidentais contra a Rússia também congelaram a cooperação entre os espiões). 

Evidentemente a questão síria está ganhando nova criticalidade, e Putin não tem nenhum problema de ego com Obama. Putin espera que Cameron fale com Obama nos próximos um, dois dias, como desenvolvimento do telefonema de ontem.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Valores Britânicos: reais e imaginários


Como David Cameron faz o jogo do Estado Islâmico


3-5/4/2015, [*] Dan Glazebrook - Counterpunch
How David Cameron Plays Right Into the Hands of ISIS
Traduzido por Emex que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


David Cameron
por DonkeyHotey
David Cameron pisou na bola outra vez. Após os brutais ataques a visitantes do museu Bardo na Tunísia no mês passado, Cameron aproveitou para repetir uma das mais comuns e perniciosas falsidades de seu mandato como primeiro ministro, segundo a qual ele seria um firme defensor de uma série de perfeições morais que ele chama de “Valores Britânicos”.

Ao final, disse ele, nossos valores – liberdade de expressão, democracia, o primado da lei – ... haverão de se impor.

Convenientemente, ele só se esqueceu de dizer, é claro, que os atentados de Túnis foram o resultado direto de sua própria decisão resoluta, tomada em 2011, de transformar a Líbia num saladão de ultrassectários esquadrões da morte racistas, nos quais foram treinados os perpetradores dos atentados de Bardo.

Mas esse tema – o da obstinada fidelidade de Cameron aos valores britânicos frente aos ataques islamistas – foi exaustivamente trazido à tona a cada vez que um europeu somou-se às dezenas de milhares de vítimas líbias, nigerianas, malianas, sírias, argelinas e iraquianas de sua política de recrutamento de militantes sectários como ferramenta de mudança de regime. Por exemplo, quando Lee Rigby foi morto em Londres por um homem (Michael Adebolajo), a quem o serviço de inteligência britânica, o MI5, havia oferecido emprego  algumas semanas antes, Cameron disse que:

(...) os terroristas nunca vencerão porque eles não poderão com os valores que nos são caros, com nossa crença na liberdade, na democracia, na liberdade de expressão, em nossos valores britânicos, em nossos valores ocidentais.

E quando Mohammed Emwazi conquistou o status de celebridade instantânea, graças à mídia-empresa britânica, que repercutiu seus atos de decapitação de jornalistas e trabalhadores humanitários postados em YouTube, Cameron disse que os atos de Emwazi  eram “o extremo oposto de tudo o que este país representa”, isso apesar do fato de que seus próprios serviços de inteligência terem recrutado Emwazi para seus trabalhar para eles, da mesma forma como facilitaram a ida do provável treinador do mesmo Emwazi para a Síria.

Mohammed Emwazi (Jihad John)
O papel crucial de Cameron na criação e no apoio aos esquadrões da morte que ele diz combater é, no entanto, bem conhecido por aqueles que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio; eu mesmo e outros tantos temos extensivamente escrito sobre o tema aqui e alhures. O que quero criticar no presente texto é a afirmação de Cameron segundo a qual a democracia, o primado da lei, a liberdade de expressão e a tolerância são de fato “valores britânicos” seja lá em que sentido for. Na verdade, esses valores não têm origem britânica e nunca foram sinceramente praticados pelos governos britânicos.

Tomemos o exemplo da democracia. Nem mesmo os textos didáticos tradicionais afirmam que esta nasceu na Grã-Bretanha; supõe-se geralmente que Atenas foi o berço da democracia (ainda que haja cada vez mais evidências de que os atenienses se basearam em sistemas já existentes na África). É claro que Cameron tem uma resposta para isso. Em seu artigo publicado em Daily Mail depois da confusão do mítico “complô do Cavalo de Tróia”, ele escreveu que:

(...) muitos dirão que estes valores sãos vitais para outros povos de outros países... Mas a especificidade britânica está em suas tradições e em sua história, que dão esteio a estes valores e lhes permite continuar, florescer e se desenvolver. Nossa liberdade não surgiu do nada. Ela se enraíza em nossa democracia parlamentar.

O que ele não menciona é que essa versão particular da democracia está baseada numa profunda desconfiança em relação ao povo e foi consciente e abertamente arquitetada para mantê-lo o mais distante possível dos processos decisórios. É importante observar igualmente que o governo britânico sempre concedeu o poder de voto a apenas uma fração de privilegiados. E isso continua a ser assim. Os proprietários de negócios não aristocratas só tiveram o direito de voto em 1832, depois de se tornaram imensamente ricos; esse direito só foi estendido aos trabalhadores 35 anos mais tarde, mas apenas àqueles que recebiam os mais altos salários e gozavam de altos padrões de vida.

Quando o privilégio do sufrágio universal masculino foi conquistado na Grã-Bretanha em 1918, ele foi evidentemente negado às dezenas de milhares de súditos coloniais (inclusive aos muitos católicos da Irlanda do Norte), cujo trabalho e cujas riquezas criavam então condições relativamente privilegiadas para os súditos metropolitanos. Mesmo hoje, os poderes britânicos vão muito além de suas fronteiras territoriais, e os iraquianos, afegãos, líbios, somalianos e outros que estão sujeitos aos seus maiores abusos não têm voz na formação do governo. Se democracia significa que os subordinados ao poder têm alguma influência sobre aqueles que o detêm, a Grã-Bretanha lamentavelmente não cumpre tal requisito.

Tony Blair - Criminoso de Guerra
E quanto ao primado da lei? Uma vez mais, apesar dos 800 anos de existência da Carta Magna constantemente fanfarreada por Cameron, quando se trata de questões internacionais, ele tem tratado este aparentemente sacrossanto princípio britânico com o mais absoluto desprezo. Desde seu apoio à destruição do Iraque por Tony Blair em 2003, passando por seu próprio ataque fulminante à Líbia em 2011, Cameron tem sido um arrogante defensor da guerra de agressão- definida pelo Tribunal de Nuremberg, para que não esqueçamos, como

(...) não apenas um crime internacional; [mas] o crime internacional supremo, diferente de outros crimes de guerra apenas por conter em si toda a vileza que se possa acumular.

E até mesmo no âmbito doméstico, Cameron tem mais que alegremente violado o primado da lei quando lhe convém. Assim, ao menor sinal de agitação civil em 2011, o governo Cameron instruiu magistrados a que ignorassem suas próprias orientações legais e pusessem na cadeia qualquer pessoa “envolvida” na insurreição juvenil, por mais anódina que fosse sua infração, fazendo assim pouco caso da independência judicial.

Pior ainda, cada semana que passa é prolífica em evidências da aparente colusão entre serviços de inteligência, polícia e ministros do governo para facilitar e cobrir a mais horrenda escalada de abusos sexuais de crianças – e tudo indica que o governo Cameron tem feito todo o possível para atrasar as investigações e limitar suas consequências. O primado da lei pode ser muito valorizado na Grã-Bretanha, mas certamente ele não se aplica aos escalões sociais mais elevados que Cameron representa. Em matéria de tolerância e liberdade de expressão, a Grã-Bretanha parece sair-se um pouco melhor. Mas isso apenas se ignorarmos a história, a política estrangeira e a própria legislação antiterrorismo de Cameron. Historicamente, é muito difícil dizer que a Grã-Bretanha tem sido um modelo de tolerância.

Não precisamos voltar aos tempos em que o Rei Eduardo expulsou os judeus (muitos dos quais buscaram refúgio nos impérios islâmicos, historicamente muito mais tolerantes) ou àqueles das leis anticatólicas (em vigor até 1829 e abolidas apenas sob a ameaça de uma guerra civil na Irlanda) para nos depararmos com a discriminação institucionalizada: batidas policiais racializadas vêm aumentando desde 1999, quando o comitê de investigação MacPherson concluiu que a polícia britânica é “institucionalmente racista”.

Racismo da polícia britânica
Isso não chega a surpreender, visto que o próprio Império Britânico foi construído com base na intolerância e na discriminação, privando os povos nativos de direitos políticos e amiúde reduzindo-os a uma condição legal ligeiramente diferente daquela atribuída a animais ou propriedades. Quanto a isso, as leis de 2012 impostas pelo governo líbio sob tutela da OTAN, que ameaçam com a prisão perpétua os defensores do governo anterior e garantem impunidade a quem os matar, estão em plena harmonia com as práticas britânicas historicamente aplicadas no estrangeiro, e não têm nada a ver com nenhum mítico engajamento com “tolerância” ou liberdade de expressão. No plano interno, a definição de “extremismo” dada por Cameron inclui as variedades não violentas e se combina com novas propostas draconianas para garantir que todas as instituições educacionais  estejam livres de qualquer sombra de tais extremismos. Tais medidas são a própria antítese da liberdade de expressão, como já foi observado por analistas de todos os matizes políticos.

Mas talvez o que há de mais insidioso seja a declaração de Cameron segundo a qual “o modelo ocidental combinando uma vibrante democracia com a liberdade de empresa tem permitido grande progresso e prosperidade”. Na verdade, o “modelo ocidental” não tem sido baseado em nenhuma “vibrante democracia”, mas precisamente no seu oposto, com a expoliação da vasta maioria das pessoas submetidas ao seu jugo. Assim aconteceu com os autóctones da América do Norte, com os africanos escravizados num passado recente, com os incontáveis milhões de pessoas subjugadas pelas medidas de ajuste estrutural do FMI ou submetidas aos bombardeios da OTAN. Isso não foi tampouco baseado a liberdade de empresa. Estudiosos como Ha-Joon Chang   mostraram em detalhes que, na verdade, todas as nações ocidentais se serviram de um amplo protecionismo para alcançar suas prosperidades.

Mesmo hoje, as mais ponderosas indústrias do Ocidente – do agronegócio estadunidense ao poder financeiro britânico, passando pelas companhias farmacêuticas – são completamente dependentes de subsídios governamentais, o que fica claramente demonstrado pelos US$ 15 trilhões globalmente atribuídos aos banqueiros após o crash financeiro de 2007-2008. Protecionismo e colonialismo, e depois neocolonialismo, são as verdadeiras e contínuas bases da prosperidade ocidental.

Crash financeiro-2007-8
Atribuir essa prosperidade a uma série de “valores” os quais nunca foram levados a sério pelas elites governantes da Grã-Bretanha constitui não apenas uma falsificação da história, mas uma calúnia contra aqueles cuja expoliação e empobrecimento têm sido o reverso dessa prosperidade. Precisamos ser honestos sobre o papel das colônias britânicas nas Américas, na Ásia e na África na criação da prosperidade britânica, bem como sobre o papel dessa mesma prosperidade britânica no surgimento e na perpetuação da pobreza nos territórios colonizados. Só assim poderemos ter esperanças de genuinamente construir uma sociedade inclusiva baseada no respeito mútuo e na compreensão para todos aqueles que só estão aqui, na Grã-Bretanha, porque nós estivemos lá, colonizando seus territórios.

As elites que governam a Grã-Bretanha têm consistentemente minado os valores que elas afirmam abraçar – e ninguém fez mais isso do que o maior dos advogados dessa elite, o próprio David Cameron, cujo discurso nem por isso se vê desprovido de significação. Num certo sentido, o presente artigo passa ao lado do essencial ao tomar à letra os tais princípios sagrados e ao questionar a coerência do governo britânico nesse campo. Isso porque o verdadeiro objetivo do discurso de Cameron não é nunca foi estabelecer um padrão a cujo alcance deveríamos aspirar. Muito pelo contrário.

Seu único objetivo é fornecer um porrete com o qual massacrar o Islã. Não é que nós, os britânicos, devamos realmente praticar os tais “valores britânicos”; a questão é fornecer sólidas fundações para odiar as sociedades islâmicas, que sempre foram mostradas como sendo os grandes transgressores desses valores. Que não haja mal-entendido – e Cameron se empenha constantemente em afirmar – que “a vasta maioria dos muçulmanos britânicos cumpridores da lei compartilha estes valores”. Mas essa linguagem leva-nos a crer que os muçulmanos que compartilham tais valores o fazem graças a seu britanismo e apesar do Islã.

Ódio dos jovens muçulmanos (Egito, 1/2/2013)
O perigo desse discurso é múltiplo. Não apenas ele reforça os preconceitos ignorantes sobre a “aversão” do Islã à democracia, ao primado da lei e à tolerância, mas ele também justifica a rejeição de tais valores por grupos como o Exército Islâmico. Porque este último é o primeiro a acreditar na mensagem de Cameron, segundo a qual tais valores seriam “britânicos” e “ocidentais”. E assim, os povos que odeiam a Grã-Bretanha – o Ocidente e todo o mal que estes têm feito ao mundo – sentem-se no direito de odiar os valores que estas sociedades supostamente abraçam. Esquece-se ainda que a cultura islâmica têm, bem mais que o Ocidente, uma longa e orgulhosa história de prática desses valores democráticos. E por quê esquecem isso?

Porque eles acreditam nas distorções de sua própria história perpetradas por Cameron e outros de sua laia. Assim sendo, quanto mais Cameron proclamar que democracia, tolerância e primado da lei são apanágios britânicos – insinuando por esta mesma via que estes valores são estranhos ao Islã – mais jovens muçulmanos coléricos, que veem suas pátrias sendo destruídas pelos britânicos, cairão na órbita desses grupos que rejeitam estes valores. O que faz o jogo de Cameron. Mais muçulmanos juntando-se ao Exército Islâmico significa mais combatentes em sua guerra por procuração contra  Assad – isso sem um único soldado voltando pra casa dentro de um caixão. Isso, pelo menos, nos ajuda a entender quais são os verdadeiros valores de Cameron.
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[*] Dan Glazebrook é professor de História, articulista político e escritor britânico especializado em relações internacionais e crítico contundente do uso da violência pelo Estado britânico tanto no plano interno como na atuação internacional. Escreve usualmente para o Morning Star, Z magazine, The Independent, The Guardian, Al Ahram e Counterpunch entre outros. É um dos coordenadores, no Reino Unido da União Internacional de Parlamentares pela Palestina.
Recebe e-mails em: danglazebrook2000@yahoo.co.uk

domingo, 28 de setembro de 2014

Irã apresenta-se como aliado natural do Ocidente

26/9/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Neguimbró, na Vila Vudu:  
ZeroHedge  que traduzimos  diz que Obama estaria preso numa arapuca armada pelos sauditas, que só pensam em detonar primeiro a Síria e, na sequência, o Irã.

O embaixador Bhadrakumar  que traduzimos aqui  diz com todas as letras que:

(1) nem “meia dúzia de Arábias Sauditas” fariam da tal “coalizão” de Obama coisa que preste;
(2) que Obama faz-e-acontece e manda pácas; e que
(3) Obama estaria acolhendo alguma “coalizão” que o Irã estaria oferecendo.

Neguim aki tá achano que a gente tem de resolver de que lado estamos: ou estamos com Obama ou estamos com Putin. Mas ainda não decidimos, sequer, se essa questão tem alguma importância. Então, continuamos a traduzir qualquer coisa que faça qualquer sentido. E depois a gente vê de que lado ficamos.

Qualquer coisa que faça qualquer sentido é melhor que a opinião dos williamswaacks e daqueles “especialistas” de araque lá-dele, no canal (PAGO!) GloboNews.

De garantido, garantido mesmo, só sabemos que NÃO ESTAMOS COM OBAMA, pela suficiente razão de que “Obama” não existe: ou “Barack” é boneco de ventríloquo do império anglo-sionista & Wall Street, ou “Barack” é boneco de ventríloquo da Arábia Saudita, do Golfo Reacionário & Wall Street. E a gente aki é BRICS, pró Movimento dos Não Alinhados, pelo Sul-Sul, pró ALBA, pró Condenados da Terra, contra golberys, soros, marinassilvas et alii.

E “Putin”, além de ser BRICS, é, pelo menos, entidade TOTALMENTE EXISTENTE [pano rápido].
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Morador caminha sobre escombros dos bombardeios dos EUA no Iraque (23/9/2014)
A grande maioria com que a Casa dos Comuns em Londres aprovou há apenas algumas horas a resolução de apoiar a proposta do governo para unir-se aos EUA nos ataques contra o Estado Islâmico no Iraque catapultou o Primeiro-Ministro, David Cameron, para a mais crucialmente importante posição na estratégia do presidente Barack Obama. Com a Grã-Bretanha ao seu lado, os EUA não dependem tanto da desconjuntada “coalizão dos desejantes/dispostos”, enquanto que, sem a Grã-Bretanha, mesmo que ali houvesse seis Arábias Sauditas, a coalizão continuaria sem valer grande coisa.

Cameron já começou a preparar-se. Seu encontro na 4ª-feira (24/9/2014)em New Yorkcom o Presidente do Irã, Hassan Rouhani (pouco antes da votação na Câmara dos Comuns) foi simbólico: foi o primeiro encontro de britânicos e iranianos desde a Revolução Islâmica de 1979; mas Londres jamais teria feito movimento historicamente tão importante, se já não soubesse, de antemão, que a integração do Irã na comunidade internacional é iminente.

Acordo nuclear Irã - EUA
De fato, a fachada do processo P5+Alemanha já foi posta de lado, e Washington e aliados europeus selecionados estão negociando diretamente com Teerã, marginalizando completamente a Rússia. As consultas EUA-Irã intensificaram-se e as declarações iranianas também apontam na direção de uma real possibilidade de emergir um acordo nuclear até o final de novembro.

Como já escrevi, as duas vias – o papel do Irã na “coalizão” comandada pelos EUA contra o Estado Islâmico; e as conversações nucleares – estão correndo pescoço a pescoço. Ninguém mais nem tenta argumentar na direção oposta – de que as duas vias não estejam interligadas.

Cameron e Rouhani em New York (24/9/2014)
Num discurso extraordinário à Assembleia Geral da ONU na 5ª-feira, 25/9/2014 (um dia depois da reunião Cameron-Rouhani), o presidente iraniano disse com total clareza que um acordo nuclear abrirá infinitas possibilidades de cooperação entre o ocidente e o Irã. O argumento de Rouhani é constituído de dois passos:

(a) o ocidente que trate de ver que o Irã é seu único “aliado natural” no Oriente Médio; e
(b) se o problema nuclear for resolvido, o Irã poderá trabalhar com o ocidente, para criar um Novo Oriente Médio.

Com toda a certeza, Washington e Londres verão isso como o mais perto que o Irã jamais chegou de mostrar que está disposto a ajudar numa transição política na Síria, como ajudou na transição no Iraque, transição que satisfez plenamente Obama.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.