Mostrando postagens com marcador Tony Blair. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tony Blair. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Valores Britânicos: reais e imaginários


Como David Cameron faz o jogo do Estado Islâmico


3-5/4/2015, [*] Dan Glazebrook - Counterpunch
How David Cameron Plays Right Into the Hands of ISIS
Traduzido por Emex que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


David Cameron
por DonkeyHotey
David Cameron pisou na bola outra vez. Após os brutais ataques a visitantes do museu Bardo na Tunísia no mês passado, Cameron aproveitou para repetir uma das mais comuns e perniciosas falsidades de seu mandato como primeiro ministro, segundo a qual ele seria um firme defensor de uma série de perfeições morais que ele chama de “Valores Britânicos”.

Ao final, disse ele, nossos valores – liberdade de expressão, democracia, o primado da lei – ... haverão de se impor.

Convenientemente, ele só se esqueceu de dizer, é claro, que os atentados de Túnis foram o resultado direto de sua própria decisão resoluta, tomada em 2011, de transformar a Líbia num saladão de ultrassectários esquadrões da morte racistas, nos quais foram treinados os perpetradores dos atentados de Bardo.

Mas esse tema – o da obstinada fidelidade de Cameron aos valores britânicos frente aos ataques islamistas – foi exaustivamente trazido à tona a cada vez que um europeu somou-se às dezenas de milhares de vítimas líbias, nigerianas, malianas, sírias, argelinas e iraquianas de sua política de recrutamento de militantes sectários como ferramenta de mudança de regime. Por exemplo, quando Lee Rigby foi morto em Londres por um homem (Michael Adebolajo), a quem o serviço de inteligência britânica, o MI5, havia oferecido emprego  algumas semanas antes, Cameron disse que:

(...) os terroristas nunca vencerão porque eles não poderão com os valores que nos são caros, com nossa crença na liberdade, na democracia, na liberdade de expressão, em nossos valores britânicos, em nossos valores ocidentais.

E quando Mohammed Emwazi conquistou o status de celebridade instantânea, graças à mídia-empresa britânica, que repercutiu seus atos de decapitação de jornalistas e trabalhadores humanitários postados em YouTube, Cameron disse que os atos de Emwazi  eram “o extremo oposto de tudo o que este país representa”, isso apesar do fato de que seus próprios serviços de inteligência terem recrutado Emwazi para seus trabalhar para eles, da mesma forma como facilitaram a ida do provável treinador do mesmo Emwazi para a Síria.

Mohammed Emwazi (Jihad John)
O papel crucial de Cameron na criação e no apoio aos esquadrões da morte que ele diz combater é, no entanto, bem conhecido por aqueles que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio; eu mesmo e outros tantos temos extensivamente escrito sobre o tema aqui e alhures. O que quero criticar no presente texto é a afirmação de Cameron segundo a qual a democracia, o primado da lei, a liberdade de expressão e a tolerância são de fato “valores britânicos” seja lá em que sentido for. Na verdade, esses valores não têm origem britânica e nunca foram sinceramente praticados pelos governos britânicos.

Tomemos o exemplo da democracia. Nem mesmo os textos didáticos tradicionais afirmam que esta nasceu na Grã-Bretanha; supõe-se geralmente que Atenas foi o berço da democracia (ainda que haja cada vez mais evidências de que os atenienses se basearam em sistemas já existentes na África). É claro que Cameron tem uma resposta para isso. Em seu artigo publicado em Daily Mail depois da confusão do mítico “complô do Cavalo de Tróia”, ele escreveu que:

(...) muitos dirão que estes valores sãos vitais para outros povos de outros países... Mas a especificidade britânica está em suas tradições e em sua história, que dão esteio a estes valores e lhes permite continuar, florescer e se desenvolver. Nossa liberdade não surgiu do nada. Ela se enraíza em nossa democracia parlamentar.

O que ele não menciona é que essa versão particular da democracia está baseada numa profunda desconfiança em relação ao povo e foi consciente e abertamente arquitetada para mantê-lo o mais distante possível dos processos decisórios. É importante observar igualmente que o governo britânico sempre concedeu o poder de voto a apenas uma fração de privilegiados. E isso continua a ser assim. Os proprietários de negócios não aristocratas só tiveram o direito de voto em 1832, depois de se tornaram imensamente ricos; esse direito só foi estendido aos trabalhadores 35 anos mais tarde, mas apenas àqueles que recebiam os mais altos salários e gozavam de altos padrões de vida.

Quando o privilégio do sufrágio universal masculino foi conquistado na Grã-Bretanha em 1918, ele foi evidentemente negado às dezenas de milhares de súditos coloniais (inclusive aos muitos católicos da Irlanda do Norte), cujo trabalho e cujas riquezas criavam então condições relativamente privilegiadas para os súditos metropolitanos. Mesmo hoje, os poderes britânicos vão muito além de suas fronteiras territoriais, e os iraquianos, afegãos, líbios, somalianos e outros que estão sujeitos aos seus maiores abusos não têm voz na formação do governo. Se democracia significa que os subordinados ao poder têm alguma influência sobre aqueles que o detêm, a Grã-Bretanha lamentavelmente não cumpre tal requisito.

Tony Blair - Criminoso de Guerra
E quanto ao primado da lei? Uma vez mais, apesar dos 800 anos de existência da Carta Magna constantemente fanfarreada por Cameron, quando se trata de questões internacionais, ele tem tratado este aparentemente sacrossanto princípio britânico com o mais absoluto desprezo. Desde seu apoio à destruição do Iraque por Tony Blair em 2003, passando por seu próprio ataque fulminante à Líbia em 2011, Cameron tem sido um arrogante defensor da guerra de agressão- definida pelo Tribunal de Nuremberg, para que não esqueçamos, como

(...) não apenas um crime internacional; [mas] o crime internacional supremo, diferente de outros crimes de guerra apenas por conter em si toda a vileza que se possa acumular.

E até mesmo no âmbito doméstico, Cameron tem mais que alegremente violado o primado da lei quando lhe convém. Assim, ao menor sinal de agitação civil em 2011, o governo Cameron instruiu magistrados a que ignorassem suas próprias orientações legais e pusessem na cadeia qualquer pessoa “envolvida” na insurreição juvenil, por mais anódina que fosse sua infração, fazendo assim pouco caso da independência judicial.

Pior ainda, cada semana que passa é prolífica em evidências da aparente colusão entre serviços de inteligência, polícia e ministros do governo para facilitar e cobrir a mais horrenda escalada de abusos sexuais de crianças – e tudo indica que o governo Cameron tem feito todo o possível para atrasar as investigações e limitar suas consequências. O primado da lei pode ser muito valorizado na Grã-Bretanha, mas certamente ele não se aplica aos escalões sociais mais elevados que Cameron representa. Em matéria de tolerância e liberdade de expressão, a Grã-Bretanha parece sair-se um pouco melhor. Mas isso apenas se ignorarmos a história, a política estrangeira e a própria legislação antiterrorismo de Cameron. Historicamente, é muito difícil dizer que a Grã-Bretanha tem sido um modelo de tolerância.

Não precisamos voltar aos tempos em que o Rei Eduardo expulsou os judeus (muitos dos quais buscaram refúgio nos impérios islâmicos, historicamente muito mais tolerantes) ou àqueles das leis anticatólicas (em vigor até 1829 e abolidas apenas sob a ameaça de uma guerra civil na Irlanda) para nos depararmos com a discriminação institucionalizada: batidas policiais racializadas vêm aumentando desde 1999, quando o comitê de investigação MacPherson concluiu que a polícia britânica é “institucionalmente racista”.

Racismo da polícia britânica
Isso não chega a surpreender, visto que o próprio Império Britânico foi construído com base na intolerância e na discriminação, privando os povos nativos de direitos políticos e amiúde reduzindo-os a uma condição legal ligeiramente diferente daquela atribuída a animais ou propriedades. Quanto a isso, as leis de 2012 impostas pelo governo líbio sob tutela da OTAN, que ameaçam com a prisão perpétua os defensores do governo anterior e garantem impunidade a quem os matar, estão em plena harmonia com as práticas britânicas historicamente aplicadas no estrangeiro, e não têm nada a ver com nenhum mítico engajamento com “tolerância” ou liberdade de expressão. No plano interno, a definição de “extremismo” dada por Cameron inclui as variedades não violentas e se combina com novas propostas draconianas para garantir que todas as instituições educacionais  estejam livres de qualquer sombra de tais extremismos. Tais medidas são a própria antítese da liberdade de expressão, como já foi observado por analistas de todos os matizes políticos.

Mas talvez o que há de mais insidioso seja a declaração de Cameron segundo a qual “o modelo ocidental combinando uma vibrante democracia com a liberdade de empresa tem permitido grande progresso e prosperidade”. Na verdade, o “modelo ocidental” não tem sido baseado em nenhuma “vibrante democracia”, mas precisamente no seu oposto, com a expoliação da vasta maioria das pessoas submetidas ao seu jugo. Assim aconteceu com os autóctones da América do Norte, com os africanos escravizados num passado recente, com os incontáveis milhões de pessoas subjugadas pelas medidas de ajuste estrutural do FMI ou submetidas aos bombardeios da OTAN. Isso não foi tampouco baseado a liberdade de empresa. Estudiosos como Ha-Joon Chang   mostraram em detalhes que, na verdade, todas as nações ocidentais se serviram de um amplo protecionismo para alcançar suas prosperidades.

Mesmo hoje, as mais ponderosas indústrias do Ocidente – do agronegócio estadunidense ao poder financeiro britânico, passando pelas companhias farmacêuticas – são completamente dependentes de subsídios governamentais, o que fica claramente demonstrado pelos US$ 15 trilhões globalmente atribuídos aos banqueiros após o crash financeiro de 2007-2008. Protecionismo e colonialismo, e depois neocolonialismo, são as verdadeiras e contínuas bases da prosperidade ocidental.

Crash financeiro-2007-8
Atribuir essa prosperidade a uma série de “valores” os quais nunca foram levados a sério pelas elites governantes da Grã-Bretanha constitui não apenas uma falsificação da história, mas uma calúnia contra aqueles cuja expoliação e empobrecimento têm sido o reverso dessa prosperidade. Precisamos ser honestos sobre o papel das colônias britânicas nas Américas, na Ásia e na África na criação da prosperidade britânica, bem como sobre o papel dessa mesma prosperidade britânica no surgimento e na perpetuação da pobreza nos territórios colonizados. Só assim poderemos ter esperanças de genuinamente construir uma sociedade inclusiva baseada no respeito mútuo e na compreensão para todos aqueles que só estão aqui, na Grã-Bretanha, porque nós estivemos lá, colonizando seus territórios.

As elites que governam a Grã-Bretanha têm consistentemente minado os valores que elas afirmam abraçar – e ninguém fez mais isso do que o maior dos advogados dessa elite, o próprio David Cameron, cujo discurso nem por isso se vê desprovido de significação. Num certo sentido, o presente artigo passa ao lado do essencial ao tomar à letra os tais princípios sagrados e ao questionar a coerência do governo britânico nesse campo. Isso porque o verdadeiro objetivo do discurso de Cameron não é nunca foi estabelecer um padrão a cujo alcance deveríamos aspirar. Muito pelo contrário.

Seu único objetivo é fornecer um porrete com o qual massacrar o Islã. Não é que nós, os britânicos, devamos realmente praticar os tais “valores britânicos”; a questão é fornecer sólidas fundações para odiar as sociedades islâmicas, que sempre foram mostradas como sendo os grandes transgressores desses valores. Que não haja mal-entendido – e Cameron se empenha constantemente em afirmar – que “a vasta maioria dos muçulmanos britânicos cumpridores da lei compartilha estes valores”. Mas essa linguagem leva-nos a crer que os muçulmanos que compartilham tais valores o fazem graças a seu britanismo e apesar do Islã.

Ódio dos jovens muçulmanos (Egito, 1/2/2013)
O perigo desse discurso é múltiplo. Não apenas ele reforça os preconceitos ignorantes sobre a “aversão” do Islã à democracia, ao primado da lei e à tolerância, mas ele também justifica a rejeição de tais valores por grupos como o Exército Islâmico. Porque este último é o primeiro a acreditar na mensagem de Cameron, segundo a qual tais valores seriam “britânicos” e “ocidentais”. E assim, os povos que odeiam a Grã-Bretanha – o Ocidente e todo o mal que estes têm feito ao mundo – sentem-se no direito de odiar os valores que estas sociedades supostamente abraçam. Esquece-se ainda que a cultura islâmica têm, bem mais que o Ocidente, uma longa e orgulhosa história de prática desses valores democráticos. E por quê esquecem isso?

Porque eles acreditam nas distorções de sua própria história perpetradas por Cameron e outros de sua laia. Assim sendo, quanto mais Cameron proclamar que democracia, tolerância e primado da lei são apanágios britânicos – insinuando por esta mesma via que estes valores são estranhos ao Islã – mais jovens muçulmanos coléricos, que veem suas pátrias sendo destruídas pelos britânicos, cairão na órbita desses grupos que rejeitam estes valores. O que faz o jogo de Cameron. Mais muçulmanos juntando-se ao Exército Islâmico significa mais combatentes em sua guerra por procuração contra  Assad – isso sem um único soldado voltando pra casa dentro de um caixão. Isso, pelo menos, nos ajuda a entender quais são os verdadeiros valores de Cameron.
_______________________________________

[*] Dan Glazebrook é professor de História, articulista político e escritor britânico especializado em relações internacionais e crítico contundente do uso da violência pelo Estado britânico tanto no plano interno como na atuação internacional. Escreve usualmente para o Morning Star, Z magazine, The Independent, The Guardian, Al Ahram e Counterpunch entre outros. É um dos coordenadores, no Reino Unido da União Internacional de Parlamentares pela Palestina.
Recebe e-mails em: danglazebrook2000@yahoo.co.uk

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Gaza: Hamás rejeita golpe do “cessar-fogo”, de Tony Blair

15/7/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O GENOCÍDIO nazissionista é contra civis
A guerra que Netanyahu lançou contra a população de Gaza já matou até agora mais de 192 pessoas, 80% das quais, civis; feriu 1.400 pessoas, destruiu completamente 990 casas, danificou outras 1.700 casas e provocou bilhões de dólares em danos à infraestrutura em Gaza, inclusive do já frágil sistema de distribuição de água. Para quê?

No total, a força aérea de Israel e mísseis israelenses atingiram mais de 2.000 “alvos”, enquanto cerca de 1.00o rojões de fabricação doméstica foram lançados de Gaza. Nenhum israelense foi morto pelos rojões que o Hamás e outros grupos da resistência antissionista lançou da Faixa.

Esta manhã (15/7/2014), havia conversa de um cessar-fogo, resultante, pelo que se dizia de um acordo negociado pelo ditador egípcio, general Sisi. O gabinete de segurança de Israel aceitou tudo imediatamente.

Pouco depois se soube que, na verdade, o tal “acordo do cessar-fogo” foi redigido, de fato, pelo criminoso de guerra e sionista Tony Blair.

Nenhum palestino jamais vira ou discutira ou esteve envolvido na criação do tal “acordo”. Os palestinos só souberam do “acordo” pela imprensa-empresa. Nada havia no dito “acordo”, senão que a luta parava, e alguma vaga promessa de futuras conversações. Por que, afinal, Israel assassinou tanta gente?!

O Hamás e outros grupos rejeitaram a encenação e mantiveram o fogo inefetivo de seus foguetes. O Hamás, que tem de manter o consenso com outros grupos mais radicais em Gaza, apresentou seu conjunto de condições para suspender os combates:

● – Fim de todos os ataques israelenses contra Gaza;
● – Abertura das passagens de fronteira para Israel e Egito;
● – Libertação dos membros do Hamás que Israel, sem razão alguma, prendeu na Cisjordânia, durante as últimas três semanas;
● – Pagamento, pela Autoridade Palestina, dos funcionários públicos em Gaza.

Os foguetes lançados de Gaza continuaram durante o dia e, no fim do dia, Israel recomeçou a bombardear tudo que restava ainda não destruído em Gaza. Políticos israelenses têm falado de um vago “objetivo” nesse ataque aos palestinos, que seria “desmantelar o Hamás”. Mas o Hamás tem apoio da população e, a menos que os israelenses matem toda a população palestina, o Hamás continuará a existir; conflito renovado e mais longo só tornará o Hamás cada vez mais forte.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar”  ou  “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pepe Escobar: “Tony Blair, Fantasma da Ópera”

18/6/2014, [*] Pepe Escobar, RT −Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Tony Blair (real)
O Fantasma da (trágica) Ópera Oriente Médio voltou. Matador que não deixa pegadas, não pode ser acusado de algum dia ter deixado de ser o sempre mesmo assassino insistente.

Sua mais recente obra fala por ela mesma: como uma máscara Kabuki empapada de chá Earl Grey, o Fantasma está sendo destripado com sua própria caneta, de fato, espada.

O fato de que o Fantasma mais uma vez, como sempre, consegue safar-se com seu vasto deserto de mentiras enroladas – em vez de ser mandado apodrecer em algum daqueles buracos de ‘entrega extraordinária’ – é eloquente do muito que ainda nos falta saber sobre as chamadas ‘elites’ ocidentais, das quais o Fantasma é lambe-botas fiel e prodigamente recompensado.

Quer dizer então que a “inação” ocidental na Síria... teria levado à mais nova tragédia no Iraque?! Desculpe, Tony, mas... Foi a sua ação, sua e de “Dábliu”, em 2003, aquela ação de “Choque e Pavor” de vocês; foi a ação de vocês que pôs em andamento toda essa tragédia shakespeareana.

O Fantasma sempre quis que o governo Obama bombardeasse a Síria, tanto quanto insistiu para que “Dábliu” destruísse logo o Iraque. A lógica do Fantasma nunca considerou que teria instalado em Damasco o mesmo Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) que hoje avança rumo a Bagdá.

E há a tal salvação que nunca para de desabar por lá – essa infindável, reciclada, reembalada “Guerra Global ao Terror” [orig. Global War on Terror (GWOT)], da qual o Fantasma foi o primeiro limpa-bosta. Assim sendo, o Fantasma tinha de estar a bordo da mais recente loucura norte-americana – que se chama ISIL como avatar de um novo 11/9.

Tony Blair (falso)
Na Síria, o Fantasma foi um dos primeiros instigadores da gangue infestada dos “rebeldes sem causa” de ISIL e da Frente al-Nusra. Se a lógica de bombardeio do Fantasma tivesse sido vitoriosa para a Síria – ele pregava uma Damasco como replay de Bagdá 2003 –, Aleppo seria, já há algum tempo, avatar de Mosul.

Quanto mais se mexe, mais o Fantasma se parece e soa como herdeiro de comandantes britânicos – que também não deixavam pistas – no Afeganistão do século 19. Vejam, por exemplo, essa consequência não planejada das bombas dos EUA em 2001 contra o Afeganistão: agora temos hazaras – xiitas afegãos – combatendo lado a lado com iranianos ao lado do exército sírio de Bashar al-Assad, contra os “rebeldes” sírios que o Fantasma tanto apoia. Oh, Tony! Essa, nem seu velho chapa Peter “Senhor das Trevas” Mandelson explicaria.

Por falar nisso, o Fantasma sempre foi crente fiel no “mal” do Irã, e vivia a “alertar” que Teerã estaria a ponto de montar sua bomba atômica (velhos hábitos são duros de matar... O Fantasma já era assim, sem tirar nem pôr, no tempo de Saddam.)  Assim sendo, imaginem seu estupor digno de um Dick Cheney, agora, quando Washington e Teerã estão a ponto de discutir em Viena algum tipo de ação conjunta para combater contra o ISIL no Iraque, e até “mega-falcões” feito o senador Republicano Lindsey Graham andam a ejacular palavras inimagináveis (“Provavelmente precisaremos da ajuda do Irã para conservar Bagdá”).

O Fantasma nunca conseguiria ligar os pontos geopolíticos do Afeganistão e Iraque até Líbia e Síria; seria incapaz de perceber, em resumo, que não há projeto estratégico anglo-norte-americano de política exterior de longo prazo – para o que o Pentágono ainda chama de o “arco de instabilidade”. Se algum dia houve palavra de ordem, foi aquela, de “Dábliu”: “ou você está conosco, ou está com os terroristas”. Agora, é palavra de ordem de pés para cima, porque nesse preciso instante o poder anglo-norte-americano está “com os terroristas”, da Líbia até a Síria; uma perversão previsível da velha, consagrada “Dividir e Governar”.

O governo Obama fará o diabo para arrancar um Acordo para o Estado das Tropas [ing. SOFA] do Afeganistão – expressão em código para “Liberdade Duradoura” para sempre (com forças especiais “discretas” como estrelas invisíveis.) Washington já admitiu que está enviando “ajuda letal” aos rebeldes “moderados” na Síria (em teoria, são os malucos da Frente Islâmica, não a Frente al-Nusra ou o ISIL). Como se os agentes hollyúdeanoides da CIA não soubessem que as tais armas com certeza serão ou compradas ou roubadas pelos jihadistas mais linha duríssima.

Tropas inglesas em Basra, sul do Iraque em 2/7/2004
O ISIL no deserto sem fronteiras entre Síria e Iraque já é um proto-califato. E o revide desse processo de armar esses ditos “moderados” – não há moderados; não há Talibã “moderado” – será nunca menos que horrendo, apavorante. Entre as vítimas haverá curdos na Síria, no Iraque, na Turquia e no Irã; turcomenos no Iraque (já está acontecendo essa semana); e, claro, cristãos por toda a parte (como já aconteceu na Síria).

Bombardear para democratizar (segunda tentativa)

Agora, o Fantasma prega uma “intervenção” dos EUA no Iraque; primeiro, você os mata de fome; depois, bombardeia e bombardeia até pôr em ruínas o país deles; depois, você bombardeia outra vez as mesmas ruínas e chama a coisa de “democracia”; depois você ocupa a coisa; depois, você infesta a coisa com jihadistas; depois, eles chutam o traseiro de vocês e põem vocês a correr de lá; depois, os jihadis fazem o inferno, por lá (agora com o novo alento de US$ 425 milhões roubados de um cofre do governo em Mosul, e sem contar as cargas de dinheiro que chegam dos wahhabistas no Golfo, para comprar todos aqueles Toyotas branquinhos); depois, você reocupa suavemente aquele inferno inteiro. Essa é a salvação que nunca para de desabar por lá.

Quanto à ideia – repetida igualmente pelo Fantasma e pelos neoconservadores norte-americanos – de que o ISIL seria ameaça à segurança ocidental (“tentando fazer mal à Europa, à América e outros povos”, nas palavras de Kerry), é perfeita imbecilidade; é piada tão monumental quanto a vastíssima rede alada de satélites norte-americanos que NÃO CONSEGUEM ver uma longa fila de Toyotas branquinhos avançando pelo deserto ocidental do Iraque – rumo à total desintegração de quatro divisões do exército do Iraque.

Eles disseram que viram, que perceberam, que acompanharam; e que guardaram sigilo. Essa saiu diretamente do manual do Império do Caos. Por que não estimular mais mortes entre sunitas e xiitas? É Dividir para Governar! Eles que comam cadáveres – e se matem uns os outros para sempre, como nos oito anos de guerra Irã-Iraque.

A avançada do ISIL é remix da guerra civil sunitas-xiitas de 2006-2007, cujos efeitos (a pré-avançada norte-americana) documentei em meu livro-reportagem Red Zone Blues. Naquele época, eu tinha base em Bagdá; quando a al-Qaeda-no-Iraque tomou Dora, nos arredores de Bagdá, lá ficaram por pouco tempo. Os próprios sunitas rebelaram-se contra aquela “visão de mundo” medieval jihadista.

Seja como for, o Fantasma conseguiu o que queria: para todas as finalidades práticas, o Iraque está quebrado, irrecuperavelmente fragmentado e não pode ser “consertado” (terminologia de Colin Powell). Os curdos já resolveram um dos problemas mais difíceis de resolver do pós-Choque e Pavor: já reacomodaram a [divisão] Sykes-Picot, tomando a região de Kirkuk, rica em petróleo (para nem falar do planalto de Nineveh).

Forças curdas Peshmerga correm para se esconder depois que um helicóptero do exército iraquiano os confundiu com militantes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) em Jalawla na província de Diyala, 14/6/2014.  
E como prova adicional de que o ISIL nada tem a ver com ameaça à segurança ocidental, os tanques e artilharia pesada que capturaram no Iraque foram redirecionados para a Síria, em seu impulso para agredir Damasco.

Tudo isso é demais para o Fantasma digerir. Talvez ele deva começar por ler esta Declaração sobre Eventos Recentes em Mosul e Outras Cidades no Iraque, em que os sindicatos de trabalhadores do Iraque rejeitam tudo que aconteceu desde antes de 2003, antes até de o Fantasma viver seu momento luzes-da-ribalta.

Quanto ao argumento chave do Fantasma, de que o que está acontecendo agora no Iraque seria resultado de pouca – não de muita – produção/promoção de guerras, pelo ocidente, é húbris do Fantasma.

O dito “Oriente Médio” – de fato, o Sudoeste Asiático – é uma ficção ocidental imposta pelas potências coloniais às populações locais. O que o Pentágono descreveu desde o início dos anos 2000 como o “arco de instabilidade” é uma profecia de anarquia que se autocumpre, com pinceladas de (falsa) “paz” representadas por aquelas repugnantes petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (tipo precisamos do “nosso” petróleo).

E além do mais, há o lento mas inexorável processo de integração da Eurásia –ao longo das muitas, muitas, miríades de novas rotas da seda comandadas pela China. Tudo isso é anátema para o império do caos e para o seu assecla com o qual mantém a tal “relação especial”. Assim, o Sudoeste Asiático sempre em caos perpétuo é mais que bem-vindo. Podem esperar: o Fantasma, intoxicado de húbris, demandará ainda mais gasolina para jogar sobre sua ópera urdida no ocidente, e que já está em chamas.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/  articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Crimeia – mais uma crise produzida artificialmente

14/3/2014, [*] Neil Clark, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia
O ministro russo de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, disse que a crise Ucrânia/Crimeia foi “produzida artificialmente, por motivos puramente geoestratégicos”. Acertou.

É importante entender que não se trata de caso único, mas apenas de mais uma numa longa sequência de “crises” ou deliberadamente infladas ou artificialmente criadas pelas potências ocidentais, para promover seus próprios interesses geoestratégicos.

O secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, disse que a Crimeia é (seria) a “maior crise na Europa no século 21”. Mas não é a primeira vez que políticos ocidentais falaram em tons tão alarmistas em anos recentes.

Há exatamente 15 anos, em março de 1999, foi a “crise” do Kosovo – com líderes ocidentais a “declarar” que, a menos que a OTAN empreendesse ação militar urgente, milhares de albaneses kosovares seriam mortos por forças sérvias, as quais, como estávamos sendo “informados”, estavam engajadas em brutal guerra de genocídio.

Tony Blair
Dia 23/3/1999, o primeiro-ministro britânico Tony Blair disse, na Câmara dos Comuns:

Temos de agir para salvar de uma catástrofe humanitária milhares de homens, mulheres e crianças inocentes, da morte, da barbárie e da limpeza étnica, praticadas por uma ditadura brutal.

Também foi “crise” artificialmente criada, porque o que acontecia no Kosovo era conflito de baixa intensidade entre forças iugoslavas e combatentes do Exército de Libertação do Kosovo [Kosovo Liberation Army, KLA] apoiados pelo ocidente.

O serviço do KLA era atacar forças iugoslavas, provocar resposta violenta de Belgrado, que pudesse ser usada como pretexto para a intervenção pela OTAN que destruísse um país socialista independente que resistira contra a globalização. Era indispensável criar uma “crise”, para justificar a ação militar da OTAN.

Quatro anos depois, foi a “crise” das Armas de Destruição em Massa do Iraque. Era preciso fazer alguma coisa contra armas mortais de Saddam que nos “ameaçariam” mortalmente, todos nós – disseram os líderes ocidentais. Não podíamos esperar, sequer, que os inspetores de armas da ONU concluíssem sua inspeção.

Se não agirmos agora, voltaremos ao que já aconteceu antes e, claro, a coisa toda recomeça e ele prossegue no desenvolvimento daquelas armas e são armas perigosas, particularmente se caírem em mãos de terroristas que nós sabemos que querem usar aquelas armas se puserem as mãos nelas  disse Blair.

Crianças nasceram deformadas pelo bombardeio com urânio
empobrecido no Iraque
Dia 28/4/2003, quando ainda não se viam nem sinal de armas de destruição em massa de Saddam, Blair disse:

Antes de começarem a gritar sobre a ausência de Armas de Destruição em Massa, sugiro que esperem um pouco mais.

Já se passaram 11 anos, e ainda estamos esperando.

Na década passada, foi a “crise” nuclear do Irã. Ouvimos repetidamente a elite ocidental a repetir que a República Islâmica estaria desenvolvendo armas nucleares que seriam clara ameaça não só contra o Oriente Médio, mas para o mundo inteiro. Dar conta da “ameaça” nuclear iraniana seria a nossa mais urgente prioridade. Em janeiro de 2011, o secretário britânico de Defesa, Liam Fox alertou que o Irã já teria armas nucleares ao final de 2012.

Mas até 2013 já se foi, e o Irã ainda não tem as tais armas nucleares.

Depois, foi a “crise” da Líbia em 2011. Contaram-nos que forças do coronel Gaddafi estariam massacrando gente inocente e estavam a um passo de lançar ataque genocida contra civis em Benghazi. Mais uma vez, teríamos de lidar com mais essa “crise” urgentíssima.

Simplesmente não podemos parar e deixar um ditador cujo povo o rejeitou matar o próprio povo indiscriminadamentedeclarou o primeiro-ministro David Cameron, vivendo um dos seus grandes dias de Tony Blair.

Barack Obama
Confrontados com essa repressão brutal e a crescente crise humanitária, ordenei que naves de guerra dirijam-se ao Mediterrâneo. Aliados europeus declararam-se dispostos a enviar recursos para deter a matançadisse o presidente Barack Obama, dia 28/3/2011.

Como no caso da “crise” no Kosovo e da “crise” das armas de destruição em massa no Iraque, a resposta ocidental à “crise” na Líbia foi também um ataque militar.

Em agosto de 2013, mais uma “crise” – o ocidente a declarar que o governo sírio teria usado armas químicas mortais contra o próprio povo. Mais uma vez a conversa foi que teríamos de agir com rapidez e firmeza para enfrentar mais aquela “crise”. Só a diplomacia russa e a opinião pública nos países ocidentais conseguiram impedir um ataque militar, pelos EUA ou liderado pelos EUA, contra a Síria.

E agora, em março de 2014, a nova “crise” é a “invasão” de Putin na Ucrânia e a ameaça que a Rússia faz contra uma Ucrânia independente e “democrática”, embora governada fascistas. E essa, não esquecer, é “a maior crise na Europa no século 21”.

Gareth Porter
De fato, nenhum dos eventos acima foi realmente crise alguma – incluindo a Crimeia. Não havia genocídio no Kosovo. O Iraque jamais teve armas de destruição em massa. O Irã não tem programa algum de produção de armas atômicas: foram, todas essas, “Crises Manufaturadas” [Manufactured Crisis]”, para usar o título do novo livro do jornalista-investigador Gareth Porter.  

A forças de Gaddafi não estavam massacrando civis na Líbia – nem Gaddafi algum dia ameaçou massacrar civis em Benghazi. As forças líbias faziam lá exatamente o que forças iugoslavas faziam em 1999: combatiam uma guerra contra insurgentes inflados e pagos pelo ocidente.

Na Síria, todas as provas – além da lógica mais elementar – sugerem que foram os rebeldes, não o governo sírio, que lançaram o ataque químico em Ghouta – para tentar conseguir um ataque de intervenção militar por exércitos ocidentais. E, claro, não há nem houve qualquer “invasão” russa na Ucrânia.

Mas – e aqui está o ponto mais importante – as respostas ocidentais a essas “crises” criadas artificialmente, elas, sim, geraram crises reais. A “crise” do Kosovo foi “enfrentada” com 78 dias de bombardeio brutal na Iugoslávia, que destruiu toda a infraestrutura do país e deixou milhares de mortos e feridos; e, porque a OTAN usou bombas de urânio baixo-enriquecido, levou a um pico no número de casos de câncer. Os direitos humanos, sim, também foram gravemente feridos.

Em nenhum local [na Europa] há tal nível de medo entre tantas minorias, depois que foram atacadas simplesmente pelo que são – lia-se no relatório sobre o Kosovo, distribuído pelo Minority Rights Group International em 2006.

A "crise" no Iraque assassinou milhares de famílias
A “crise” das armas de destruição em massa do Iraque levou à invasão ilegal, da qual o Iraque ainda não se recuperou, nem dá sinais de conseguir recuperar-se ainda por muito tempo – com mais de 1 milhão de mortos e o país assolado por violento conflito sectário. O ano passado foi o mais mortífero no Iraque desde 2008, com mais de 7 mil mortos. Em 2002-3 os neoconservadores não paravam de falar da “crise” das armas de destruição em massa no Iraque e de como seria necessária ação urgente. Agora, que a crise é real no Iraque, estão calados.

A “crise” nuclear iraniana levou a sanções draconianas impostas ao país – o que levou o povo iraniano a ter de enfrentar dificuldades extremas – (como noticiado por Russia Today) e a aumento acentuado no preço do petróleo também para a Europa, exatamente algo de que não precisávamos em tempos de forte recessão. Milhões de pessoas sofreram desnecessariamente por causa de medidas tomadas para enfrentar uma “crise” que, para começar, nunca existiu.

A Líbia antes e depois do "bombardeio humanitário" dos EUA-OTAN
(clique na imagem para aumentar)
A “crise” líbia de 2011 levou a um assalto brutal, pela OTAN, contra o país, que provocou milhares de mortes; a agora a Líbia, como o Irã, é país destroçado, ainda afligido por vasto conflito. Também nesse caso, os que não paravam de falar sobre uma “crise humanitária” na Líbia em 2011 mantêm-se hoje estranhamente silenciosos.

A “crise” gerada por um ataque de armas químicas que jamais aconteceu quase levou à eclosão de grande guerra regional e, pode-se supor, teria levado a uma IIIª Guerra Mundial, mas, na sua obsessão por derrubar o governo Baathista, o ocidente e seus aliados regionais ainda apoiam os rebeldes violentos e, assim prolongam o sofrimento da guerra para milhões de sírios.

Agora, outra vez estão em ação os inventores seriais de “crises”, dessa vez tentando convencer-nos de que um referendo na Crimeia e a possibilidade de que a Crimeia, cuja população é formada de quase 60% de russos étnicos, volte à Rússia, seria uma grave “crise”.

E mais uma vez os passos que nos propõem – sanções contra a Rússia – só levarão a mais crises e a crises mais graves que a “crise” inventada: as sanções serão desastrosas para as economias ocidentais, especialmente para as economias europeias.

Sergey Aksyonov, PM da Crimeia, anuncia o resultado do Referendo de 16/3/2013 -
95,7% da população da Crimeia participou da votação
Ao mesmo tempo em que as elites ocidentais esperam que percamos o sono por causa de crises artificialmente criadas, como a da Crimeia, as verdadeiras crises, as crises reais que afetam a vida de milhões de pessoas comuns no ocidente e por todo o mundo são ignoradas por aquelas mesmas elites. O aquecimento global. O número recorde de desemprego entre os jovens. A distância sempre crescente entre ricos e pobres. A queda rápida no padrão de vida das pessoas comuns em todo o ocidente. Essas são as crises que governos seriamente democráticos deveriam estar enfrentando. Em vez de enfrentá-las, a elite ocidental prefere inventar crises novas.

A história recente ensina que sempre que governos ocidentais e a imprensa-empresa que sempre lhes é servil só fazem falar de uma “crise” internacional e alertar que “algo tem de ser feito”, o melhor a fazer é nada. Absolutamente nada.

Concentremo-nos em enfrentar as crises reais – a destruição do meio ambiente, o crescimento da pobreza, da desigualdade e do desemprego. E não nos deixemos enganar pelas “crises” artificiais, em direção às quais as elites ocidentais tentam desviar nossa atenção.


[*] Neil Clark é jornalista, escritor, radialista e blogueiro. Escreve para vários jornais e revistas no Reino Unido e outros países, incluindo The Guardian, Morning Star, Daily Express, Sunday Express, Mail on Sunday, Daily Mail, Daily Telegraph, New Statesman, The Spectator, The Week e The American Conservative. É comentarista regular da Rússia Today,  BBC TV e as rádios Sky News, Press TV e Voz da Rússia. É co-fundador da Campaign For Public Ownership (twitter @PublicOwnership). Seus trabalhos podem ser encontrado no premiado blog de Neil Clark. Tweets sobre política internacional em: @ NeilClark66