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domingo, 29 de setembro de 2013

Seymour Hersh sobre Obama, NSA e o jornalismo “patético”

27/9/2013, [*] Seymour Hersh, The Guardian, UK (Resumo da entrevista)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Este artigo foi muito comentado na Birosca do Rolha (onde foi traduzido) na Vila Vudu. Os comentários foram inseridos ao longo do texto, em vermelho. Tivemos muitos outros comentários, os quais, infelizmente não foram anotados.

Seymour Herch em 11/69 quando denunciou o massacre de Mi Lai no Vietnã
Seymour Hersh tem ideias extremistas para consertar o jornalismo: fechar as agências de notícias NBC e ABC [as agências Estado e Folha, no Brasil, então... só se forem fechadas E o terreno salgado, para que ali nada mais nasça!]; demitir 90% dos editores [no Brasil, tem de ser 110%: todos os editores e, também, as respectivas esposas, namoradas etc. dos donos da empresa e de marketeiros e donos de institutos de pesquisa, pressupostos jornalistas!] e mandar os jornalistas de volta ao trabalho sério, que, diz ele, é trabalho de outsider.

Não é preciso muito para incendiar Hersh, jornalista investigativo que tem sido a nêmese dos presidentes dos EUA desde os anos 1960s, quando escreveu que o Partido Republicano é “o parente mais próximo, dentro do jornalismo dos EUA, de um grupo terrorista” [no Brasil, o mais parecido com grupo terrorista que temos por aqui são o Instituto Millenium e a Opus Dei. E, no Brasil, esses grupos terroristas são DONOS de toda a imprensa-empresa que vende produtos em língua portuguesa do Brasil].

Vive enfurecido ante a timidez dos jornalistas nos EUA, o fracasso do jornalismo que não confronta a Casa Branca e não consegue ser mensageiro impopular da verdade [no Brasil, é exatamente o contrário: o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) é mensageiro impopular da mentira. Mas o jornalismo e os jornalistas são igualmente incompetentes. Aqui, o jornalismo NÃO VÊ governo e presidente populares, de democratização e bem-sucedidos, porque o jornalismo brasileiro trabalha a serviço de uma mesma velha UDN elitista, sem votos, sem projeto democrático e sem vergonha na cara, que se apresenta hoje sob novas siglas].

NYT promove Obama desavergonhadamente
Para Hersh, o New York Times “gasta mais dinheiro para promover Obama do que jamais pensei que fosse possível” [No Brasil é o contrário, igualmente ruim: o Grupo GAFE gasta mais dinheiro para desconstituir governos eleitos, populares e bem-sucedidos, do que faria sentido para qualquer empresa comercial que dependa, pra viver, de ter alguma credibilidade. Isso se explica, porque, no Brasil, a imprensa-empresa é mais partido político conservador e reacionário, até, do que é empresa comercial]. E enfurece-se ante qualquer referência a morte de Osama bin Laden. “Nenhum jornal, nenhum jornalista, ninguém, na imprensa-empresa dos EUA, moveu uma palha para desmascarar aquela mentira gigante. Tudo, ali, é mentira. Não há, na história contada sobre a morte de bin Laden, sequer uma palavra que seja verdade” – diz ele, sobre o dramático raid dos SEALS da Marinha dos EUA em 2011 [No Brasil, a mentira gigante, mentira monstro, que NENHUM jornal ou jornalista moveu uma palha para desmascarar é a “Ação Penal 470”. Escandalosa foram, isso sim, a ação, o julgamento e a cobertura “jornalística” da tal “AçãoPenal 470”].

Hersh está escrevendo um livro sobre segurança nacional e dedica um capítulo ao assassinato de bin Laden. Diz que matéria recente, publicada por uma comissão paquistanesa “independente” sobre o complexo, em Abottabad, no qual Bin Laden foi cercado, não resiste a análise séria. “Nem quero começar a falar sobre o relatório dos paquistaneses! Digamos o seguinte: foi redigido com “apoio” norte-americano. É lixo. Não vale nada”. Para mais informação, teremos de esperar pelo livro.

Jornalista fotografado ao sair de uma entrevista com Obama, mas  é também  de
qualquer um da imprensa-empresa do Brasil
O governo Obama mente sempre, sistematicamente, diz ele. Mas ninguém dos leviatãs da imprensa-empresa nos EUA o confronta, nem a televisão, nem os jornais, ninguém.

“É jornalismo patético. Os jornalistas são servis, obsequiosos [no Brasil, também são, mas mais obsequiosos à UDN e àquele atrasismo elitista doentio do Instituto Millenium, da Opus Dei e da embaixada dos EUA, do que a alguma autoridade eleita. Em relação a autoridade eleita, depende: se for eleita contra a maioria dos votos dos eleitores, ou, mesmo, se nem foi eleita (como no caso dos juízes do STF, então, sim: jornalismo e jornalistas brasileiros são, também, servis e obsequiosos, aos juízes que sejam servis e obsequiosos mais à imprensa-empresa, que à justiça]. Os jornalistas têm medo daquele cara [Obama]” – disse Hersh, em entrevista ao The Guardian. [No Brasil, os jornais-empresas e os jornalistas têm medo, sim, mas só de juízes decentes e também têm medo, muito, muito medo, de eleitor e de urna!].

“Antes, quando se tinha uma situação em que algo muito dramático aconteceu e o presidente e seu círculo de puxa-sacos controlavam a narrativa, sabia-se que algum jornalista trataria de trabalhar o mais possível para divulgar a verdadeira história. Hoje, não mais. Aproveitam o que o poder diga e tratam exclusivamente de reeleger o presidente [No Brasil é o contrário, igualmente ruim: não importa o que digam os fatos e todas as evidências, os jornais-empresas e jornalistas do Grupo GAFE publicam e repetem, e repetem, e repetem, sempre, o contrário do que digam os fatos e as evidências; vale dizer, noticiam a mentira. Não muda nunca. No Brasil, há dez anos o Grupo GAFE trabalha para NÃO reeleger o presidente preferido dos eleitores (e perde sempre! \o/ \o/ \o/)].

Duncan Campbell
Seymour Hersh duvida, até, de que as recentes revelações sobre a profundidade e o alcance do estado de vigilância, imposto ao país [e ao mundo!] pela Agência de Segurança Nacional dos EUA tenham algum efeito ou consequências duradouros.

Quem mudou o debate sobre a vigilância não foi a imprensa-empresa: foi Snowden

Hersh não tem dúvidas de que Edward Snowden, que vazou segredos da Agência de Segurança Nacional “mudou completamente a natureza do debate” sobre o estado de vigilância. Diz que ele e outros jornalistas já haviam escrito sobre a vigilância, mas Snowden mudou o jogo, porque exibiu provas documentais irrefutáveis – mas Hersh não tem qualquer esperança de que as revelações venham a mudar a política do governo dos EUA.

Duncan Campbell [jornalista investigativo britânico, que revelou a verdadeira história e desmascarou a Zircon], James Bamford [jornalista norte-americano] e Julian Assange e eu e a revista New Yorker, todos já havíamos escrito sobre a existência de vigilância constante, mas Snowden exibiu o documento. Isso mudou a natureza do debate: agora é fato” – diz Hersh.

James Bamford
“Editores adoram documentos” [no Brasil é o contrário: os editores ODEIAM documentos e provas; e amar, mesmo, só amam opiniões sempre repetidas dos mesmos “analistas”, sempre os mesmos, sempre os mesmos, sempre os mesmos...]. “Editores acovardados, que jamais publicariam matérias como essas, só se deixam convencer por documentos” [quem dera que, no Brasil, algum documento convencesse algum editor! Quem dera!]. “Os documentos de Snowden, sim, conseguiram mudar o jogo” – mas, na sequência, Hersh fala de suas poucas esperanças.

“Não sei se tudo isso significará alguma coisa no longo prazo, porque as pesquisas que tenho visto nos EUA... Basta que o presidente pronuncie as palavras “al-Qaeda, al-Qaeda”, para os eleitores aprovarem, com proporção de 2:1, qualquer tipo de vigilância. É reação perfeitamente idiota”.

Dar tempo ao tempo

Renata Lo Prete
[Essa parte da entrevista deve ser estudada ATENTAMENTE pela “jornalista” (só rindo!).  Renata Loprete, da Folha de S. Paulo, que NAAAAADA investigou e tudo publicou, totalmente na lôka, no dia seguinte, as loucuras de Roberto Jefferson (mentiroso hoje já condenado) contou a ela, sabendo, o doido, é claro, a quem escolhia, é claro].

Para os estudantes de jornalismo, a mensagem de Seymour Hersh é “deem tempo ao tempo, e andem”. Hersh já sabia da tortura de prisioneiros em Abu Ghraib cinco meses antes de poder escrever e publicar as denúncias, porque recebeu informes de um oficial do exército do Iraque que arriscara a vida numa viagem de Bagdá a Damasco para encontrar-se com Hersh e contar que havia prisioneiros que estavam escrevendo às famílias pedindo que viessem visitá-los para matá-los, porque haviam sido “desonrados”.

“Passei cinco meses à procura de alguma prova, porque, sem algum documento não havia notícia, e o que eu escrevesse seria desmentido facilmente”. [Não, é claro, no Brasil, onde as mentiras e loucuras de Roberto Jefferson, o doido, “avalizadas” pela “credibilidade” do “jornalismo” da Loprete e da FSP, NUNCA seriam desmentidas pela “credibilidade” (zero) do “jornalismo” (zero) do resto da camarilha do Grupo GAFE!].

Hersh volta a falar do presidente Bush dos EUA. Disse antes que a confiança da imprensa-empresa norte-americana para desafiar o estado e o governo dos EUA entrou em colapso depois do 11/9, mas afirma, sem vacilar, que Obama é pior que Bush.

“Você acha que Obama está sendo avaliado por algum padrão racional? Guantánamo foi fechada? Alguma guerra acabou? Alguém está prestando atenção ao que está acontecendo no Iraque? Alguém diz coisa com coisa sobre o que está acontecendo na Síria? Os EUA, nesse momento, estão fracassando nas 80 guerras em que estão metidos. Por que, diabos, Obama quer meter-nos em mais uma guerra? E os jornalistas? Estão fazendo O QUÊ?” – pergunta ele.

Para ele, o jornalismo investigativo nos EUA está sendo assassinado pela crise de confiança, falta de recursos e por uma ideia errada do que seja o serviço jornalístico.

“A impressão que tenho é que há gente demais à caça de prêmios. É jornalismo que só visa ao Prêmio Pulitzer” – diz. – “É um pacote. Basta selecionar um tema (não quero diminuir os que trabalhem), mas basta escolher um tema, como segurança para atravessar as ruas ou coisa do tipo. Não quero dizer que isso não interesse, mas há outras questões sobre as quais absolutamente ninguém investiga”.

Podemos assassinar civis em ataques de "drones"? Sim, podemos.

“Assassinato de civis, por exemplo. Como é possível que Obama continue a safar-se de críticas, ao mesmo tempo em que mantém o programa de assassinatos premeditados, por drones? Por que ninguém lhe pergunta sobre isso? O que o presidente tem a dizer em sua defesa? Por que não insistimos mais nessa investigação? Com que tipo de inteligência o presidente está operando? Por que ninguém abre a discussão sobre esse programa? Por que não descobrimos e divulgamos dados reais? Por que ninguém até hoje disse, pelos jornais, que se trata de assassinato premeditado apresentado como se fosse prática legal? Por que os jornais só fazem repetir dados de um ou dois grupos, sempre os mesmos, que monitoram a matança por drones? Por que nenhum jornal ou jornalista investiga diretamente os fatos, as fontes?”.

“O trabalho jornalístico não é apenas repetir que há um debate. Nosso serviço é ir além do debate como ele aparece e descobrir quem diz a verdade e quem mente, em todos os debates. Isso é o que já ninguém faz. Porque esse trabalho é caro, custa dinheiro, exige tempo, implica riscos. Ainda há uns poucos jornalistas de investigação – no New York Times, por exemplo. Mas os jornalistas só investigam para bajular o governo, mais do que jamais imaginei que fosse possível [no Brasil, o jornalismo e os jornalistas absolutamente nada investigam. No máximo, “investigam” as opiniões do senador Álvaro “Peruca” Dias, ou as opiniões do ex-ministro Celso “Tiro os sapatos e as calças, se os EUA mandarem” Lafer, ou opiniões de cepas variadas de sionistas, sempre os mesmos, e só]. É como se mais ninguém tivesse coragem de pensar fora do padrão (patrão) dominante, e só”.

Diz que, em vários sentidos, era mais fácil escrever sobre o governo do presidente George Bush. “A era Bush, acho que era mais fácil criticar o governo, que hoje, no governo Obama. No governo Obama é muito mais difícil” – diz Hersh.

Jean-Luc Godard
Para ele, os editores são covardes, e têm de ser demitidos [no Brasil, essa solução pouco ajudaria, porque, além dos donos das empresas-imprensa e dos editores, os próprios jornalistas e “âncoras” são o que Godard definiu como “fascistas sinceros”: eles continuariam a repetir as estupidezes que dizem e escrevem todos os dias, mesmo que nenhum editor ou patrão os mandassem dizê-las e escrevê-las, e até PAGARIAM, em vez de ser pagos, para dizê-las e escrevê-las diariamente, incansavelmente repetidas, sempre as mesmas estupidezes].

Hersh tampouco entende por que o Washington Post segurou os arquivos que recebeu de Snowden e talvez nem os tivesse publicado, se não chegasse a informação de que o The Guardian se preparava para publicar tudo.

Se Hersh mandasse na empresa “Mídia Norte-americana Inc.”, sua política de terra arrasada não pararia na demissão de editores. “Eu fecharia também todas as agências de notícias de todas as redes. Fecharia tudo. Tabula rasa. Para começarem do zero. As grandes NBCs, ABCs, não gostariam da minha ideia. Nesse caso, que recomeçassem, que fizessem qualquer coisa melhor do que o que fazem hoje, qualquer coisa”.

Atualmente, Hersh não está trabalhando como repórter: está preparando um livro que com certeza nenhum jornalista gostará de ler, ou que os jornalistas provavelmente apreciarão tão pouco quanto Bush e Obama.

“A república está em perigo, nos EUA. Mente-se demais, mente-se, pelos jornais e noticiários sobre tudo e todos. A mentira virou o gancho”. E suplica que os jornalistas façam algo contra esse estado de coisas.


[*] Seymour Myron “Cy” Hersh (Chicago, 8/4/1937) é jornalista de investigação norte-americano, ganhador do prêmio Pulitzer e especializado em geopolítica, atividades dos serviços secretos e assuntos militares dos Estados Unidos.
Principais feitos jornalísticos
  • Revelação do massacre de My Lai, no Vietnam, em novembro de 1969, o que lhe valeu o prêmio Pulitzer de 1970.
  • Revelação do projeto Jennifer (tentativa de resgate dos destroços do submarinosoviéticoK-129 promovida pela CIA, também em 1969, visando recuperar, em proveito dos Estados Unidos, dados e tecnologias soviéticas).
  • Revelação das atividades ilegais da CIAcontra organizações pacifistas e outros movimentos políticos de oposição, nos Estados Unidos, em 1974, o que resultou na demissão de James Jesus Angleton, chefe da contraespionagem da CIA.
  • Revelação da existência do Office of Special Plans (OSP) do Departamento de Defesa norte-americano, ao publicar o artigo “Selective Intelligence”, em 2003.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Como cobrir notícias da Síria a partir de Beirute


25/2/2013, As'ad AbuKhalil - Angry Corner, AlAkhbar – Beirute, Líbano
Traduzido por Lejeune Mirhan (com ajuda do Google translator)


Ás'ad AbuKhalil
Com base na cobertura jornalística sobre a Síria dada pelos jornais dos Estados Unidos tornou-se possível identificar certas características desta cobertura a partir de Beirute.

1. Escreva os artigos, mas você vai depender de uma série de mal pagos e pobres tradutores locais que podem traduzir e interpretar para você;

2. Ligue para o escritório de imprensa da família Hariri e para as assessorias de imprensa de grupos de exilados sírios que irão direcioná-lo assim que chegar à cidade;

3. Você nem vai precisar sair de sua casa: o trabalho pode requerer apenas o uso de Skype de forma extensiva. Você não precisará nem ter que olhar endereços do Skype: a assessoria de imprensa da família Hariri e seus aliados da oposição síria no exílio irão lhe fornecer nomes e podem até mesmo inventar alguns nomes para você;

4. Você deve ser emotivo em sua cobertura e simpático aos grupos armados sírios, da mesma forma como não é certo ser emocional em cobrir o lado árabe do conflito árabe-israelense;

5. Cubra o sofrimento humano de forma extensiva, a menos que esse sofrimento seja causada justamente pelo grupos armados sírios;

6. Não cite os verdadeiros líderes muçulmanos dos grupos de exilados sírios. Ao invés disso, cite os sírios que vivem em países ocidentais, a fim de dar um rosto ocidentalizado à oposição síria do exterior;

7. Tente minimizar o papel da Arábia Saudita, do Catar, do Kuwait da Turquia que apoiam os grupos armados sírios;

8. Sinta-se à vontade para participar de campanhas que angariem fundos através de seus artigos, fazendo constantes referências às dificuldades e à falta de armas e equipamentos dos grupos de oposição síria armados. Se for possível, mostre algumas pessoas com lágrimas e choros também;

9. Faça uma tentativa de mostrar o lado humano dos grupos armados: publique imagens de umas crianças combatentes, afirmando que elas são filhos e tudo que elas representam a face humana dos grupos armados;

10. Nunca fale com os dois lados do conflito. Um dos lados, apoiado pela Arábia Saudita e Qatar é suficiente;

11. Lembre-se: carros-bomba não são tão ruins quando usados pelo lado apoiado pelos EUA. Carros-bomba são apenas armas de destruição hediondos quando são usados pelos inimigos dos EUA;

12. Nos seus artigos sobre a intervenção estrangeira na Síria, lembre-se que a intervenção da Arábia Saudita, do Qatar, do Bahrein, da Turquia, da Jordânia, da OTAN, de Israel, da União Europeia e dos EUA não é realmente intervenção. Estes países praticam apenas gestos humanitários de boa vontade. Só use o termo “intervenção estrangeira” se você se referir à Rússia, ao Irã e ao Hezbollah;

13. Na cobertura de intervenção de libaneses na Síria, lembre-se que estamos falando apenas sobre o Hezbollah. Intervenção (militar ou não) pela família Hariri e pelos grupos salafistas não conta e não justificar uma intervenção;

14. Lembre-se que o critério do jornalismo profissional na cobertura sobre a Síria é a mídia de príncipes sauditas e da família Hariri;

15. Boatos e mentiras espalhadas pela família Hariri e pela mídia sauditas só devem se servir para a impressão de jornais se servirem aos propósitos da propaganda da coligação liderada pelos EUA;

16. Preconceito e intolerância contra alauitas é essencial para compreender o conflito na Síria. Por favor, consulte todos os alauitas, incluindo bebês, como sendo guerrilheiros. Isto tornará mais fácil para justificar seu assassinato pelos grupos armados;

17. Tente o seu melhor para esconder as lideranças islâmicas, que são fanáticos membros dos grupos armados da oposição síria externa. Em vez disso, tente encontrar alguém usando calça jeans e afirme em seus textos que ele é liberal e secular. Se possível, não o mostre armado;

18. Qualquer história de deserção por uma pessoa, mesmo que seja apenas um soldado, ou um assistente de um motorista de um funcionário menor do governo local, isto deve ser dada mostrado com o maior destaque;

19. Por favor, esqueça a nossa hostilidade passada para a rede de TV Al-Jazeera. Essa TV agora mudou e nós a consideramos como um canal exemplar que representa a propaganda magnífica da família real do Qatar. E está do nosso lado;

20. A família Hariri irá fornecer-lhe todos os nomes e números de telefone de seus homens no departamento de Segurança Interna e todos os libaneses que estão dispostos a fornecer qualquer informação ou rumor que irão contra os interesses do Hezbollah e você poderá citar esses indivíduos como "altos funcionários da segurança libanesa do governo" seja lá o escalão que eles forem;

21. Todos os interesses israelenses devem estar sempre fortemente representados na sua cobertura, e Israel deve ser sempre retratado como o amigo do povo sírio. A sua ocupação e seus ataques ao território sírio não devem ser mencionados;

22. Assim como a cobertura da oposição iraquiana exilada antes de 2003, lembre-se de que todas as figuras da oposição síria no exílio são inteligentes, bem articuladas;

23. Ao falar sobre as armas químicas da Síria, por favor não mencione nunca o arsenal israelense de armas de destruição em massa. Ao invés disso, mostre sempre os israelenses como vítimas. Use imagens de israelenses posando com máscaras de gás, sempre que você escrever sobre as armas químicas da Síria;

24. Lembre-se, seu trabalho serve para elevar a moral e não para "cobrir" a história. Toda semana, você precisa escrever algo que surta como efeito a impressão de que o regime de Bashar está caindo e que os rebeldes estão prestes a assumir o controle de Damasco;

25. É importante lembrar aos leitores que 99% do povo sírio apoia os EUA e Israel e que 99% deles se opõem ferozmente ao regime. Canalhas e bandidos são apenas os apoiadores do regime;

26. Em menor escala, o sucesso da oposição síria no exílio deve ganhar apoio entre todas as minorias na Síria. dessa forma, a assessoria de imprensa da família Hariri em Beirute irá fornecer-lhe os números de telefone de um cristão, um druso, um curdo e até mesmo um alauita que se opõem ao regime de Bashar;

27. Conhecimento da língua árabe: como sempre na cobertura do Oriente Médio, não será necessária. Você precisa apenas saber que é um sanduíche de falafel.


sábado, 8 de dezembro de 2012

Jornalistas progressistas reúnem-se em off, com Obama. Algum problema?


7/12/2012, Erik Wemple, Washington Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu:
Se há verdade sob o sol no mundo do capital, é que nenhum jornalismo-empresa jamais foi ou algum dia será promotor da democracia dos muitos, como já ensinaram Gabriel Tarde e Gramsci. Não é nos EUA, nem é – muito menos –, no Brasil, onde as empresas-imprensa são as mais burras & broncas & reacionárias & incompetentes do continente e, ao que parece, da galáxia. O que aí vai, nesse artigo traduzido, vai como um alerta: – nenhum político do campo progressista, no Brasil, cometa a ESTUPIDEZ de supor que haveria “jornalistas progressistas” empregados de empresas-imprensa udenistas, golpistas e reacionárias, os quais mereceriam tratamento especial. Não há; se houvesse, já teriam sido demitidos. Mas mesmo que haja ainda algum, e enquanto não for demitido, os OUTROS jornalistas empregados e fascistas sinceros – encarregar-se-ão de DETONAR os “companheiros” pressupostos “progressistas”. Há abundante discurso pronto para ajudar a fazer isso, amparado na ideologia, na má consciência do jornalismo liberal. ISSO, precisamente, é o que se vê já feito, nos EUA, hoje, na matéria abaixo.
Portanto, a palavra-de-ordem tem de ser: em nenhum caso se deve dar entrevista (nem boa-tarde!) a qualquer dos veículos ou jornalistas do Grupo GAFES (Globo-Abril-FSP-Estadão-RBSul), mesmo que o jornalista seja, pessoalmente considerado, pressuposto “democrata” ou pressuposto “amigo da gente”.


Arianna Huffington, do Huffington Post é, em geral, franca e cooperativa e tem prazer em falar sobre sua empresa e seu jornalismo.

Erik Wemple
Quer dizer... Exceto quando ela é convidada para encontro secreto na Casa Branca, com o presidente Obama. “Foi encontro em off. Não há portanto o que comentar” – respondeu o porta-voz do Huffington Post, Rhoades Alderson, ao ser perguntado se sua chefe podia atender ao telefone.

Ante a negativa, esse blog suplicou, observando que só queria fazer perguntas de rotina sobre o processo jornalístico no Huffington, agora que a jornalista-proprietária participava de reuniões em off com o presidente dos EUA”. “Entendi, mas a resposta é a mesma” – disse Alderson.

A mesma resposta pronta. Jornalistas ganham a vida trabalhando a favor da abertura, da partilha de informações, de falar com funcionários públicos e informar o grande público. Mas, nesse caso, os “convidados de Obama” não estão, exatamente, informando muito. Nesse caso, apesar de jornalistas, nada informarão ao grande público.

Praticamente toda a linha de frente do horário nobre da rede MSNBC lá estava, na Casa Branca – Al Sharpton, Ed Schultz, Rachel Maddow, Lawrence O’Donnell – na 3ª-feira à noite. Mas não falam sobre o assunto. Dois nomes da página de opinião do Washington Post – Jonathan Capehart e Greg Sargent – sentaram-se àquela mesa. E recusam-se a comentar, com um bom colega de trabalho, o que lá se passou. 

Um porta-voz de Josh Marshall de Talking Points Memo, também suspeito de ter participado da reunião, respondeu o seguinte: “Foi reunião em off. Josh não comentará”. Markos Moulitsas do afamado Daily Kos, outro suspeito de ter estado lá, também não fala: “Desculpe, mas não discuto sobre as pessoas com quem me encontro ou deixo de me encontrar. Obrigado. Markos” – respondeu esse, por e-mail, ao Erik Wemple Blog.

Barack Obama
O silêncio que cerca esses “progressistas influentes” – como a Casa Branca os chama – pode ter aberto um precedente histórico. Talvez seja a primeira vez em que a Casa Branca reúne-se com jornalistas, e a opinião pública obtém mais informação da Casa Branca... que dos jornalistas. A Casa Branca, pelo menos, distribuiu a seguinte nota:

Essa tarde, na Casa Branca, o presidente encontrou-se com jornalistas progressistas influentes, para conversar sobre a importância de impedir qualquer aumento de impostos sobre as famílias de classe média, fortalecer nossa economia e adotar abordagem equilibrada para a redução do déficit.

Os progressistas influentes de hoje não são, absolutamente, pioneiros. Há muitos casos de reuniões off-the-record entre jornalistas e presidentes. Uma delas aconteceu em 2006, plenamente off, entre apresentadores conservadores de programas de rádio e o presidente George W. Bush. Foi “parte de intensa campanha do Partido Republicano para arregimentar e reenergizar um exército crucialmente importante de apoiadores que não davam sinal de estarem tão completamente “fechados” com a Casa Branca como no passado” – segundo o New York Times.

Karen Tumulty, veterana repórter de política do Washington Post lembra que a Casa Branca de Clinton tinha o hábito de convocar repórteres para sessões off-the-record com o presidente, como encontro de apresentação dos que estavam começando a cobrir a Casa Branca ou uma ou outra viagem internacional. “O presidente reunia os novos repórteres e discutia longamente com seis, oito deles” – conta Tumulty. É cena que parece muito mais inocente do que a que se viu na 3ª-feira, e que, nos termos em que foi apresentada pela própria Casa Branca, mais parece situação para “fazer a cabeça” [orig. lobby] de gente que já dá sinais de pensar como a Casa Branca de Obama, sem qualquer atenção à transparência, porque nunca se saberá se os jornalistas progressistas não se porão, doravante, a apenas repetir o que ouviram do presidente.

Obama pede "off the records" 
O silêncio forçado sobre o que lá se passou só estimula a especulação; estímulo que esse blog aceita, com prazer. Talvez Schultz, da rede MSNBC, tenha dito ao presidente: “Nós, aqui reunidos em torno dessa mesa, estamos com o senhor, presidente.” Talvez o presidente tenha manifestado sua frustração por aqueles jornalistas esquerdistas não atacarem a oposição com fúria suficiente. Talvez alguém tenha falado do canal Fox News, e os demais, em volta da mesa, lá ficaram, balançando a cabeça. Talvez o presidente tenha pedido conselhos ao grupo, embora jornalista que assistiu a outras reuniões off-the-record na Casa Branca no passado, diga que, isso, é pouco provável: “Meu palpite, baseado na minha limitada experiência, é que presidentes, em geral, interessam-se mais por se explicar, do que por ouvir conselhos” – diz. Tanto quanto se sabe, os convidados pressionaram o presidente para que “abrisse tudo”, tudo on the record, apesar de, hoje, se sentirem obrigados a não comentar os próprios esforços.

Mas... basta de falar mal de jornalistas importantes e seletos. O verdadeiro problema aqui é um presidente que teme a exposição pública, ou teme, no mínimo, grupos de repórteres famintos por respostas. A sempre citada professora da Towson University, Martha Joynt Kumar, reuniu números que comprovam a baixa disponibilidade de presidentes para conferências de imprensa e sessões de perguntas & respostas com jornalistas. Verdade seja dita: Obama ultrapassa muitos em termos de entrevistas concedidas (568, comparadas às 190, de George W. Bush; às 187, de Bill Clinton; às 294, de George H.W. Bush; e às 224, de Regan, no mesmo período de governo).

David Leonhardt, diretor da sucursal do NYTimes em Washington, observa que “não tenho notícias de o Times ter sido algum dia convidado para entrevistas on-the-record com o presidente Obama, desde 2010”. Nenhuma regra do Times proíbe conversas em off com presidentes. Sessões mais aprofundadas, diz Leonhardt, produzem dividendos que se veem na matéria publicada. “Acho que leva a conversas mais ricas e a melhor cobertura”, continua. “Mas não me canso de repetir que a cobertura será sempre melhor, se o repórter não se deixar envolver nessas conversas, e o mesmo vale para conversas com o presidente”. “A dinâmica é a mesma, com outros altos funcionários”, diz Leonhardt.

Então, está dito.

Conspirações off-the-record com Obama fedem, por duas razões. (1) Se o presidente diz algo que é notícia a um dos convidados, a notícia, com certeza, vazará da sala. As reuniões off-the-record com Clinton, diz Tumulty, “começaram a ficar problemáticas depois de um certo ponto, porque detalhes sempre vazavam, ou um ou outro repórter conseguia algo que estivesse procurando, e a notícia logo aparecia”. O off, em outras palavras, era tempo perdido. E (2) se o presidente nada diz que seja notícia, que mereça ser publicado... para que servem as reuniões em off? Quer dizer: tempo perdido, também.