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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Snowden: Rugir pode dar dor de garganta

1/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Rediff blogs – Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Estação de espionagem da NSA em Bad Aibling, Sul de Munique, Alemenha
O jornal Russia Today, rede mantida pelo governo russo, com sede em Moscou, publicou uma coluna de sátira mordente [1] contra o modo suave como New Delhi respondeu, até agora, ao affair Edward Snowden. A coluna aparece assinada por autor indiano e RT, é claro, dirá que nada tem a ver com a opinião assinada de seus colunistas. Mas, dada a cultura midiática na Rússia, é interessante que a coluna apareça num poderoso órgão de mídia, ao qual o presidente Vladimir Putin vive a dar entrevistas exclusivas.

Vladimir Putin
O principal argumento do colunista é que faltou coragem política à Índia para dar nomes aos bois. É argumento virtuoso, no plano moral.

Mas... considere-se o assunto, de um outro ponto de vista. De modo geral, a liderança indiana assumiu, sobre a saga Snowden, uma posição que não difere, no fundo, da posição de Putin sobre o mesmo caso — a saber, que nada que seja absoluta novidade, no que Snowden divulgou para a opinião pública.

Em recente entrevista à Associated Press, Putin falou em tom de quase pouco caso sobre Snowden, como “sujeito estranho”, espantado demais ante os fatos, para que o Kremlin se interesse muito por ele.

Dilma Rousseff
Como a Rússia, a Índia também parece manifestar visão realista sobre o “Informante sem Fronteiras”. Nos dois casos, são políticos pragmáticos, que não se deixam levar por emoções nuas e cruas. Além disso, nem o primeiro-ministro indiano,  Manmohan Singh, nem Putin tem sobre os ombros a tradição de um passado revolucionário, e não se deixam tomar pela compulsão, como no caso da presidenta Dilma Rousseff do Brasil, para “rugir”.

Xi Jinping da China alinhar-se-ia com Manmohan Singh e Putin, no modo pós-moderno de reagir a espionagens e bisbilhotices, vendo-as como práticas ancestrais, que se devem esperar que continuem, enquanto a natureza humana for o que é e o sistema de Westphalia não se esgotar e der lugar a um sistema genuíno de governança global.

Xi Jinping e Manmohan Sing
O problema de rugir é que pode dar dor de garganta. É o que pode acontecer a Rousseff se persistir nos rugidos, até que não lhe reste outro remédio além de gargarejos de salmoura e um voto de silêncio até que recupere a voz. A vantagem de miar é que atrai os sentidos do ouvinte e o gato assegura melhor chance para chegar ao prato e lamber o leite. Bem feitas as contas, e considerado o longo prazo, a Índia não parece ter errado muito.
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Nota dos tradutores
[1] “Revelações de Snowden: Índia mia, Brasil ruge” (orig. Snowden fallout: India’s meow, Brazil’s roar”, Sreeram Chaulia, Russia Today, 29/9/2013).
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Política à moda Lula do Brasil: como derrotar os “anti-Presidente”


20/2/2012, *M. K. Bhadrakumar, Russia & India Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Luiz Ignácio Lula da Silva e Manmohan Singh. Foto: Reuters
Para governo que esteja no poder em democracia que funcione, o momento mais aterrorizante acontece quando se trata de tentar a reeleição, ao final de um primeiro mandato. Até políticos de nervos de aço tremem. A mística da democracia está em que não há jamais garantia alguma do rumo que tomará o veredicto das urnas.

Se chega ao final do mandato carregando o peso de maus resultados, o governo que aspire à reeleição se torna particularmente vulnerável. As estimativas podem provar-se completamente erradas – como se viu, por exemplo, quando o governo da Aliança Democrática Nacional que estava no poder na Índia antecipou as eleições parlamentares em 2004, certo de que venceria, empurrado por intensíssima campanha de mídia, que repetia incansavelmente que “a Índia brilha”. Terminou triturado nas urnas e despachado para o ponto mais escuro do mato político.

Rafael Correa, Presidente do Equador
Tudo isso torna absolutamente emocionante a reeleição de Rafael Correa à presidência do Equador, para um segundo mandado de seis anos.

Eleger-se para um segundo mandato, derrotando o peso das forças “antigoverno” e “anti-Presidente”, e com maioria ainda mais ampla que antes – e, além do mais, alcançando 58% dos votos logo no primeiro turno das eleições – não é coisa fácil em nenhuma democracia. Na Índia, ao que me recorde, só aconteceu uma vez desde a independência, quando Indira Gandhi beneficiou-se da euforia nacional que se seguiu à “criação”, por ela, de Bangladesh, em 1972.

Mas o novo mandato de Correa não está ancorado a qualquer nacionalismo inflado, que ele deliberadamente afastou, quando renegou as tradições regressivas do populismo demagógico sob líder carismático. A conquista de Correa é resultado de sólidas realizações no processo de transformar a economia política de seu país.

Até a revista Forbes teve de reconhecer, embora sem entusiasmo, que “seus programas sociais foram aclamados”. Em termos simples, Correa assumiu o controle sobre a fabulosa riqueza do petróleo equatoriano, arrancando-a das mãos de empresas estrangeiras predatórias e, pode-se dizer, obsessivamente se dedicou a usar melhor os recursos para criar melhores condições de vida para os milhões de seus compatriotas pobres e despossuídos. O que Correa conseguiu fazer é fácil de ver: assistência pública gratuita à saúde, educação para os pobres. E, isso, em apenas seis anos. Não surpreende que os equatorianos o adorem. Quem disse que o socialismo morreu?

Vários sindicatos indianos estão iniciando uma greve nacional de dois dias, sem precedentes, a partir da 4ª-feira, para pressionar na direção de suas reivindicações, entre as quais assistência médica e salário mínimo. O Wall Street Journal observa que “as greves nacionais chamam a atenção para o descontentamento entre os trabalhadores que se sentem marginalizados da prosperidade econômica da Índia ao longo da última década”. A magnífica vitória de Correa deve servir para abrir os olhos do Congress Party que governa a Índia e que luta contra uma onda de “antigoverno”, “anti-Primeiro Ministro” e “anti-Presidente” que, sim, talvez já se tenha esvaziado até as eleições parlamentares de 2014.

Como derrotar os “anti-Presidente” em democracia que funcione e manter o poder político em eleições livres e justas?

Hugo Chávez
As democracias latino-americanas oferecem chave muito útil para responder essa pergunta. Primeiro, foi Hugo Chávez, que mostrou o caminho na Venezuela. E agora Correa, no Equador.

Mas, de fato, não há qualquer grande segredo. Ambos, Chávez e Correa, recorreram a políticas econômicas que nunca perdem de vista que a maioria do povo em seus países era desesperadamente pobre; os dois líderes jamais perderam de vista a evidência de que tinham de governar para o povo. Ambos construíram e executaram políticas de maior investimento para melhorar a vida da sociedade, e o Equador, em especial, conseguiu diminuição notável nos índices de pobreza, de quase cinco pontos percentuais nos primeiros quatro anos da presidência de Correa.

Mas, poder-se-ia dizer, Venezuela e Equador são países pequenos, comparados à Índia, país de dimensões continentais. A analogia com esses dois países faria algum sentido para a Índia? Em minha opinião, sim. De comum a todos é que a questão do desenvolvimento, nesses três países, está intimamente ligada à questão da pobreza. E democracia de melhor qualidade terá, necessariamente, de atacar esse problema.

Foi também a experiência de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil. Em certo sentido, a analogia com os governos Lula é mais interessante para a Índia. Lula também foi eleito em 2002 com plataforma popular/populista – variante da campanha que o Congress Party conduziu na Índia para vencer as eleições parlamentares de 2009, projetando-se assertivamente como partido da causa dos pobres. Depois de eleito, Lula aplicou políticas neoliberais dirigidas a estimular a taxa de crescimento da economia brasileira, cortando déficits de orçamento e abandonando subsídios sociais. A inflação subiu e a corrupção cresceu aos saltos, quase na mesma escala em que se viram os mesmos fenômenos na Índia em anos recentes.

O Brasil foi tomado por onda de descrença e cinismo, em tudo semelhante ao que se viu também na Índia. Mas Lula farejou, a tempo, o perigo. Quando viu que havia risco de seu governo ter tomado rumo errado, tão errado que comprometeria toda a sua massiva popularidade e a continuação de seu projeto político, Lula mudou o curso de seu governo.

Perry Anderson
Claro: aí está a real diferença, em relação às elites que governam a Índia. Para Lula, a mudança de curso foi processo natural, porque é político essencialmente comprometido com os mais pobres. Como Perry Anderson explicou a correção de rumo, em ensaio magnífico intitulado “O Brasil de Lula” (excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu) publicado na London Review of Books (Lula's Brazil) há dois anos:

Combinados, o rápido crescimento econômico e a forte transferência de renda conseguiram a maior redução na pobreza de toda a história do Brasil. Segundo algumas estimativas, o número de pobres caiu, de cerca de 50 para cerca de 30 milhões em apenas seis anos; a pobreza foi reduzida em 50%. Metade dessa transformação dramática pode ser atribuída ao crescimento, metade aos programas sociais – financiados pelos maiores ganhos, advindos do crescimento.

Para encurtar essa história, sob todos os aspectos, emocionante, Lula obteve a mesma maioria na reeleição de 2006, que obtivera quatro anos antes: 61% no segundo turno eleitoral. Mas, nessa reeleição, havia diferença essencial na alquimia da vitória eleitoral. Explica Anderson:  

Dessa vez a composição social do eleitorado era outra. Afastados por causa do “mensalão”, grande parte dos eleitores de classe média que se haviam reunido em torno de Lula em 2002 desertaram; e os pobres e os brasileiros de mais idade votaram em Lula, em maior número do que antes.
O Congress Party da Índia ainda tem muito o que aprender da história épica de Lula no governo do Brasil.


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e seu blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O estranho relacionamento entre os EUA e os BRICS: “Obama telefona para a Índia, na calada da noite”


16/6/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama e Manmohan Singh
O telefonema que o presidente dos EUA Barack Obama fez para falar com o Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh, na 5ª-feira, foi surpresa. Aconteceu um dia depois de terminado o “Diálogo Estratégico EUA-Índia”, embora devesse ter sido feito, em momento oportuno, pelo menos 3-4 dias antes. O “Diálogo Estratégico” deu em nada e o melhor que se pôde extrair dele, segundo os especialistas de jornal, foi que o relacionamento EUA-Índia está “em pausa”, com as lideranças dos dois lados envolvidos em questões existenciais das respectivas políticas domésticas. Observadores mais argutos da comunidade mundial registraram que o “ímpeto” do relacionamento EUA-Índia esmoreceu – tomando emprestada expressão que se lia numa boa avaliação publicada na revista The Economist  [1].

Michael Froman
O pior momento, foi o “sermão” aplicado pelo vice-conselheiro nacional dos EUA para Assuntos Externos, Michael Froman [2], ao Ministro dos Assuntos Externos da Índia S M Krishna. Foi quebra de protocolo. Froman meteu o dedo no nariz do ministro, para que não houvesse dúvidas sobre a atitude que os EUA esperam do Primeiro-Ministro da Índia. Grosseria e falta de compostura. (No passado, pelo menos uma vez, o mesmo Froman gritou por telefone, digamos, o que bem quis, ao Vice-Presidente da comissão de Planejamento, Montek Singh Alhuwalia, que preferiu não tomar conhecimento dos maus bofes do norte-americano).

Krishna viajou para Washington com escala em Pequim (por assim dizer), onde insistiu na reivindicação de um lugar de membro,para a Índia, na Organização de Cooperação de Xangai, grupamento regional cuja simples menção basta para desestabilizar os EUA. E depois de Washington, o ministro indiano partiu diretamente para visita oficial de três dias a Cuba. Desnecessário dizer que a declaração conjunta distribuída ao final do “Diálogo Estratégico” manteve ensurdecedor silêncio sobre a real estrutura subjacente da estratégia regional dos EUA: o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia e o “reequilibramento” das forças dos EUA.

Nesse quadro, Obama provavelmente decidiu fazer um aceno simpático ao Ministro, depois de tê-lo mantido a segura distância gélida de si enquanto esteve em Washington. O documento da Casa Branca sobre a conversa telefônica entre o ministro Singh e Obama cuida atentamente de não fazer qualquer referência ao relacionamento EUA-Índia.

Mas não é documento que se deva tomar pelo valor de face, se se considera a extensa lista de desejos dos EUA (que abarca, de questões de comércio nuclear, à entrada da rede Wal-Mart no mercado indiano) que Obama tem sobre a mesa de trabalho no Salão Oval.

Pranab Mukherjee
Obama deve saber que podem acontecer mudanças nos serviços gerais do ministério das Finanças da Índia. A imprensa ocidental criticou o Ministro Pranab Mukherjee como o principal empecilho no caminho das “reformas” na Índia. As apostas são altíssimas, no jogo dos interesses dos EUA.

A Casa Branca insiste que a conversa Obama-Singh girou em torno de “questões regionais e internacionais de interesse mútuo” e o lastimável estado da economia global. Obama pegou o telefone no meio da noite para falar ao ouvido do Primeiro-Ministro da Índia sobre a crise na Eurozona ou sobre o G-20? Improvável.

É possível que Obama tenha falado sobre o Paquistão – sobretudo agora que se prepara para pedir desculpas oficiais pelo massacre de soldados paquistaneses em novembro passado. Outra vez, os EUA esperam que a Índia se posicione e esteja a postos para ajudar quando chegar a hora da decisão [3] sobre Síria e Irã, nas próximas semanas.

Minha impressão é que Obama tratou de tentar remediar o fiasco do “Diálogo Estratégico”, antes de que começassem os discursos fúnebres em Delhi. Seja como for, fato é que a declaração da Casa Branca diz que Obama e Manmohan Singh trataram de “questões regionais e internacionais de interesse mútuo” e do lastimável estado da economia global. [4] Não é pouco, nem trivial, que a Casa Branca informe que o presidente dos EUA telefonou ao Primeiro-Ministro da Índia para discutir esses assuntos, mesmo que nada disso tenha sido discutido. Quantos governantes no mundo são oficialmente declarados merecedores de tão rara distinção?   



Notas de rodapé
[1]16/6/2012, Less than allies, more than friends: America and India try to define a new sort of relationship [Menos que aliados, mais que amigos: EUA e Índia tentam definir um novo tipo de relacionamento], The Economist.
[2] 13/6/2012, First Post Economy em: India’s flip flops, poor business climate scaring away US investors.
[3] 14/6/2012, The National Interest em: The Path to War with Iran.



MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.