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sábado, 24 de agosto de 2013

Quem é o terrorista? Violência e poder no Egito depois de Mursi

22/8/2013, [*] Mark LeVine, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François-Noël Babeuf
(...) Vi em Paris que a multidão simples e sem estudo havia sido levada pelos inimigos do povo a um cordial desprezo pela República. Disse para mim mesmo: a República está perdida, a menos que algum golpe de gênio a salve. O monarquismo com certeza não hesitará em retomar o controle sobre nós. Não vi ninguém disposto a reviver o ímpeto corajoso dos primeiros dias. Mesmo assim, disse a mim mesmo, o mesmo fermento de cuidado e amor por todos os homens ainda existe. Manifesto dos Iguais, 1796, (em português).

Palavras de François-Noël Babeuf, [epígrafe] o grande agitador político e jornalista do período da Revolução Francesa e advogado seminal do comunismo. Babeuf disse essas palavras quando estava sendo julgado por tentar derrubar o Diretório, então governo Republicano, para levar a situação que os revolucionários enfrentavam oito anos antes na direção de algo que se pode descrever como uma revolução ainda inacabada. Por eloquentes que fossem suas palavras, Babeuf foi mesmo assim considerado culpado e guilhotinado em maio de 1797.

Mohamed Mursi
Apesar do destino de Babeuf, essas palavras devem reconfortar os revolucionários no Egito, tomados por crescente senso de futilidade nas semanas que se seguiram ao golpe que afastou Mohamed Mursi do governo. Muitas revoluções passam por momentos de total remissão, e caem até muito mais abaixo que a atual situação no Egito. E em poucas há a dinâmica social política e econômica para retornar a um consenso revolucionário que tenha permanecido tão favorável quanto o que ainda há no Egito.

Mas muito mais interessantes que o exemplo inspirador de Babeuf e o que possa haver nele de inspirador para o Egito, são suas ideias sobre a violência. O pensamento de Babeuf para a França está entre os mais progressistas e igualitários de seu tempo, mas Babeuf não era pacifista. De fato, como muitos dos que militavam nos vários lados e facções da Revolução Francesa, ele via o uso da violência em grande escala, violência de massa, como prática necessária e estrategicamente valiosa. Por trás d’O Terror houve muitos revolucionários comuns que sentiam que a violência – e igualmente importante, o medo – que o definiram não eram apenas preço aceitável a pagar, mas, também, ferramentas crucialmente importantes para garantir a sobrevivência da Revolução e impedir o nível muitíssimo maior de violência que, diziam eles, seria desencadeada se a contrarrevolução vencesse.

As muitas verdades d’O Terror

Não consigo parar de pensar nas palavras de Babeuf e em suas ideias sobre o terrorismo, enquanto tento decifrar as acusações que voam de lado a lado entre os militares, o governo e a imprensa-empresa egípcios, e a Fraternidade Muçulmana e seus apoiadores, de que o outro lado cometeu violência ilegal e até atos de terrorismo contra o povo egípcio.

Tanto os militares como a Irmandade Muçulmana julgam-se "protetores do povo egípcio"
Enquanto os EUA e outros governos várias vezes tentaram limitar a definição legal de terrorismo a atos cometidos por entidades não estatais (exceto os “estados bandidos” [orig. rogue states]), praticamente toda a legislação internacional ainda considera como terrorismo todos os atos de ataque deliberado contra civis praticados seja por governos seja por grupos não estatais.

No Egito hoje, a prova de assassinato deliberado e de ataque terrorista, tanto por forças do governo como por forças e membros da Fraternidade Muçulmana e (alegadamente) por forças religiosas radicais é evidente e abundante demais para ser negada. Mas os estados têm maior responsabilidade para impor o império da lei e os padrões internacionais de respeito aos direitos humanos, mesmo – e sobretudo – quando os cidadãos não o façam. Quanto a isso, como Patrick Kingsley argumenta, acusatório:


Cercados pela retórica sobre o terrorismo islamista, poucos parecem dar-se contra que a maior parte do terrorismo veio, de fato, do estado.

Os "protetores" perseguem o povo nas ruas
Se algum dia houve situação que clama pela criação de uma Comissão da Verdade da ONU, é a violência dos dois últimos meses no Egito. Mas contar cadáveres e estabelecer que lado agiu mais “terroristamente” não é absolutamente a tarefa mais importante que espera os que buscam reduzir a violência atual. Cabe a esses, isso sim, compreender e explicar por que várias forças concorrentes recorreram a tamanha violência, mesmo sabendo que a violência sempre será claramente contraproducente com vistas à legitimidade e à sobrevivência de longo prazo.

Se autocolonizar, outra vez, outra vez...

Os militares, seus clientes e aliados, a Fraternidade Muçulmana, todos tentaram definir-se eles mesmos como protetores, garantidores e até como vanguardas da revolução de 25 de janeiro. São argumentos que há muito tempo são usados para justificar todas as formas de violência pelos Estados, contra forças que se oponham a eles. Se soam ridículo ante os eventos dos últimos dois meses, nem por isso seria adequado assumir que representariam elementos que competem entre eles num mesmo bloco contrarrevolucionário.

Antonio Negri
Em vez de meramente fazer oposição ao impulso revolucionário que varreu o Egito no início de 2011, o pós-25 de janeiro – liderado pelo Comando Supremo das Forças Armadas ou pela Fraternidade – centrou-se em como conduzir uma revolução passiva que absorvesse a incrível energia – ou a “potência”, como diz o filósofo italiano Antonio Negri – das massas de egípcios, garantindo mudança e desenvolvimento suficiente para diluir ou redirecionar o ímpeto e as esperanças revolucionárias da maioria da população, marginalizando e afinal privando as vozes revolucionárias remanescentes, de qualquer fatia significativa de poder.

Por algum tempo, a Fraternidade, com sua visão de mundo hierárquica, patriarcal, autoritária, embora tecno-moderna, e raízes sociais ostensivamente profundas, pareceu ser o grupo perfeito para administrar a revolução passiva, sem ameaçar o poder e os privilégio das elites da era Mubarak. É difícil dizer se foi a resistência dos elementos do antigo regime dentro do Estado, ou a arrogância, a incompetência e/ou a ganância da Fraternidade, ou algum tipo de combinação de todos esses fatores, o principal responsável pelo retumbante fracasso da Fraternidade na gestão do período de transição.

Fato é que, à altura da primavera desse ano, uma nova onda revolucionário já acumulava energia, e baseada na mesma energia bruta –Tamarod, Rebele-se! – que motivara a explosão revolucionária original de janeiro de 2011 (Fora!/Irhal!) ou na Tunísia, pouco antes (Saiam!/Degage!). Mas, então, mais facilmente redirecionada e cooptada que sua encarnação original.

Manifestante do grupo Tamarod
Essa dinâmica obriga a enfrentar a questão de por que as forças revolucionárias cujas ações precipitaram essas lutas pelo poder foram tão amplamente excluídas das próprias lutas, e tão significativamente incapazes de modelar o sistema político pós-Mubarak, até que o Tamarod apareceu em cena, essa primavera. A resposta terá de considerar o fato de que o campo de batalha no Egito pós-Mubarak – controle sobre as instituições e ideologia do estado egípcio – é campo no qual as forças revolucionárias sempre estão em terrível desvantagem, depois de consumido o ímpeto inicial de energia revolucionária.

O problema não é o estado egípcio. A própria instituição e os discursos do moderno estado-nação são inextrincavelmente atados a uma matriz de discursos – o capitalismo, o impacto ainda vivo de séculos de imperialismo e de colonialismo, os nacionalismos e o impulso destrutivo da modernidade em geral – que tantas vezes produz estados formatados para operar e funcionar como organizações-empresas criminosas e veículos (ou, pelo menos, conduítes) para o terror, mas apresentados como instituições de governança. Em particular, o tipo de ideologia nacionalista militarizada que está de repente dominando o Egito sempre justificou, dirigiu e muitas vezes pregou e defendeu o balanço manipulado de poder e a violência no coração da maioria das sociedades.

Michel Foucault
Na era colonial, pela qual passaram muitos países árabes, os mais negativos efeitos dessa dinâmica foram deslocados para as colônias. Dentro dos territórios colonizados, foram deslocados localmente, conforme as hierarquias sociais, econômicas e políticas existentes ou impostas. Como Michel Foucault mostrou em suas conferências de 1976 no College de France, os modelos e técnicas de mando que emergiram e foram tão brutalmente aplicados nas colônias, pela Europa, ricochetaram como bumerangues de volta sobre os mecanismos, instituições e técnicas de poder da Europa, permitindo que estados europeus “praticassem algo semelhante à colonização, ou uma colonização interna, neles próprios”.

Quanto aos países que a Europa colonizou, o bumerangue atingiu cada vez com mais força, cada vez que ricocheteou de volta à região, desde os governos ainda dependentes imediatamente pós-coloniais, durante décadas de mando militar “revolucionário”, até os anos neoliberais que começaram nos anos 1970s e incorporaram segmentos chaves das elites dos países, à altura dos anos 1990s. Fossem estados “liberais”, “socialistas” ou islamistas, a participação na nação sempre foi limitada e vedada por um quase permanente “estado de exceção”, ou distanciamento do corpo político, no qual nenhum cidadão poderia ser inserido a qualquer momento, e sobre o qual se teciam as redes étnicas e sectárias que sempre houve por baixo de todas as identidades oficiais nação-cêntricas.

Exercito invade a mesquita Al-Fath no Cairo
A ameaça e a realidade de morte física e social sempre estiveram no coração do modo como o poder, em suas várias modalidades – pastoral, soberano e disciplinar, como Foucault os categorizou – funcionou no mundo árabe, onde a família patriarcal e estruturas políticas patrimoniais ainda reinam. No Ocidente, essas formas emergiram uma depois da outra, embora com significativa sobreposição. No mundo árabe sempre foram, desde o início, e assim permanecem até hoje, rigidamente entretecidas, uma forma reforçando nas outras a capacidade de modelar os contornos das identidades e ações dos povos, de tal modo que qualquer mudança progressista sistemática é sempre difícil de imaginar e de buscar.

Dado o poder de sinergia do capitalismo moderno, do colonialismo e do nacionalismo, é fácil compreender o quanto é limitada a possibilidade de um movimento revolucionário gerar grande mudança na estrutura de governança de um país. Se não é bem-sucedido rapidamente, em assalto direto ao estado, assalto revolucionário que derrube as estruturas políticas existentes e redirecione a miríade de conduítes de poder que as atravessam, é mínima a chance de que a revolução consiga transformar por dentro o estado. (E, como a experiência do Iraque e agora da Líbia nos obriga a lembrar, é muito mais fácil desmantelar um estado, que construir um novo, não importa quantos recursos haja à disposição.) Assim acontece que muitas revoluções tornam-se passivas muito rapidamente depois do que parece ser o auge de seu poder.

Mudar o equilíbrio do poder?

A rápida disseminação da educação e a revolução tecnológica da última geração realmente abriram novos espaços para que jovens árabes desenvolvessem novas formas de resistência contra estados autoritários. Quando as condições econômicas amadureceram suficientemente, as ferramentas à disposição de uma nova geração de ativistas permitiram que se erguesse ali a primeira grande maré revolucionária do século 21.

Em 1/jul/2013 o povo egípcio reviveu a Praça Tahrir de jan/fev de 2011
A “juventude revolucionária” que comandou a revolução de 18 dias centrada na Praça Tahrir em janeiro-fevereiro 2011 tinha as ferramentas, o discurso e a ausência de medo para sacudir e até para parcialmente desalojar o sistema. Mas não teve capacidade para criar uma nova estrutura de estado para pôr naquele lugar, uma nova estrutura baseada em modalidades muito diferentes de poder, que não fosse dominada pelas elites de poder existentes. Tampouco conseguiram fazê-lo os liberais tão execrados, os quais, como todos os liberais em todo o mundo, são absolutamente incapazes de pressionar por mudança socioeconômica e política revolucionária, precisamente porque seus interesses estão sempre muito mais perto dos interesses das elites, que dos interesses das massas amargamente pobres, “analfabetos” (como ElBaradei e outros líderes liberais os chamam, arrogantemente) e compatriotas conservadores que seriam os maiores beneficiários de qualquer revolução por “pão, liberdade, justiça social e dignidade” que mereça o nome.

Hosni Mubarak
Hoje parece que o Egito voltou à era Mubarak, com repressão, propaganda e violência patrocinada pelo estado, em níveis ainda mais altos que antes de 25/1/2011. Mas embora as coisas pareçam desesperadoras da perspectiva dos que buscam mudança revolucionária, de fato a posição dos militares não é, nem de longe, tão firme como parecem crer os que estão distribuindo memes Mubarak 2014 pelo Facebook (e ainda não se sabe sequer se como piada ou seriamente).

Mediante qualquer mecanismo possível – ajuda, estímulo fiscal, aumento na produção e no comércio – o Egito precisa acrescentar dezenas de bilhões de dólares ao seu PIB, e imediatamente. Não em cinco ou dez anos, mas já, se quiser sobreviver aos problemas incapacitantes que enfrenta hoje, no plano social, econômico e de infraestrutura. Mesmo com massiva injeção de dinheiro saudita e dos Emirados, o Estado e o sistema de poder atualmente existente estão simplesmente corrompidos demais para levar desenvolvimento e riqueza à maioria da população, e não importa quanto de ajuda ou investimento estrangeiro jorre sobre o país.

Só a total transformação da economia política do país, que ninguém, além dos revolucionários, tem interesse em fazer pode alcançar aquele resultado. Os egípcios já sabiam disso, motivo pelo qual a Revolução de 25 de janeiro exigiu não apenas a substituição de Mubarak, mas o fim do governo militar e de todo o sistema.
A menos que os militares consigam operar um milagre econômico sem precedentes nos próximos meses, não será surpresa se se voltar a ouvir os cantos revolucionários da Praça Tahrir, mais uma vez. Quando acontecer, os militares e o estado profundo já não encontrarão, para culpar, nem a Fraternidade Muçulmana.
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[*] Mark LeVine é professor de história do Oriente Médio na Universidade de Irvine e professor visitante ilustre no Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Lund, na Suécia. Atualmente está escrevendo um livro sobre as revoluções no mundo árabe: The Five Year Old Who Toppled a Pharaoh.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A “Jihad” de Edward Snowden

10/6/2013, [*] Mark LeVine, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Assumamos, para argumentar, que o sentinela-apitador [orig. whistleblower ] da Agência de Segurança Nacional dos EUA Edward Snowden é o personagem que criou para ele mesmo: não mero patriota, mas um humanista, que se fartou de viver preso nas armadilhas de uma vida de sucessos, e decidiu que “a federação das leis secretas, julgamentos sem igualdade de direitos e poderes executivos absolutos que governam o mundo que eu amo têm de vir à luz, nem que seja só por um momento”.

Snowden, 29 anos, que vazou para o jornal The Guardian informações cruciais sobre o governo de vigilância clandestina que os EUA impõem ao mundo, mediante programas como PRISM e o “Informante Sem Limites”, acerta, com certeza, ao lançar luz sob o perigo que são as políticas de vigilância impostas ao mundo pelo governo Obama e a “guerra global ao terror” à qual servem aquelas políticas, e perigo não só para a democracia norte-americana mas, igualmente, para “o mundo inteiro”.

Os EUA engajaram-se numa jihad de proporções globais, não apenas nos dez últimos anos, mas, de fato, há mais de um século. Como em todos os impérios, no islâmico também, a jihad dos EUA começou pequena, mas rapidamente se expandiu, a partir do momento em que as condições políticas e econômicas que habitavam no coração do projeto e nas periferias afinal entraram no alinhamento adequado.

Josiah Strong
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Como se viu em outros impérios, os jihadistas norte-americanos buscaram suas raízes nas ideologias mais agressivas, que justificaram a disseminação, apresentada simultaneamente como inevitável e boa, enquanto – e não surpreende que assim tenha sido – apresentavam as oposições como irracionais, más e condenadas justamente a serem suprimidas pelos meios necessários. Como disse no século 19 o pregador protestante e arqui-imperialista Josiah Strong,  o emergente império norte-americano era destinado por Deus a governar a Terra, e o resto do mundo que se preparasse para pronta e submissa assimilação, ou seria “extinto”. Pelo menos na retórica, os grandes conquistadores islâmicos sempre tenderam a ser, no mínimo, mais generosos que isso.

Claro que os líderes norte-americanos sempre cuidaram de declarar a melhor das intenções, enquanto iam ocupando novos territórios, entrepostos ou esferas de influência, mesmo que a coluna de cadáveres de colonizados só aumentasse, já alcançando a casa dos muitos milhões, resultado da avançada para expandir, manter e defender o império norte-americano. As linhas entre jihad de defesa e jihad de ataque – e os EUA, como muitos países antes deles, desde sempre defenderam suas guerras como guerras de defesa, sancionadas por Deus e justas “em si” – foram sempre convenientemente confundidas. “Converter infiéis” – pela espada ou pelo napalm, sempre foi ação inseparável de proteger as fronteiras do império.

Para garantir que o povo norte-americano visse as aventuras externas de seus governos sob a luz adequada, era normal que o inimigo fosse definido como o contrário de tudo que os EUA defendiam, e como ameaça mortal ao modo de vida e, até, à existência dos EUA.

E é também verdade que, assim como no apogeu dos grandes impérios muçulmanos, e nos dias do pós-guerra e auge do poder dos EUA, a vida, sob o guarda-chuva imperial, quase sempre se comprovou muito melhor que as alternativas – pelo menos para os aliados íntimos e para os que viviam em semi (e, portanto, ainda não absolutamente exploráveis) periferias.

A ascensão do neoliberalismo

Mas essa dinâmica mudou, com a emergência do capitalismo neoliberal como forma dominante da organização econômica, política e até cultural nos anos 1970s – não só no chamado “terceiro” mundo, mas também nos países centrais do “ocidente”. O neoliberalismo criou uma dinâmica de neocolonização dentro dos EUA e de outros países “maduros”, tanto quanto no mundo em desenvolvimento, com o capitalismo – mais uma vez! – tornando-se tão predatório dentro das fronteiras norte-americanas, quanto longe delas. Cá e lá se assistiu a um crescimento econômico feito pela concentração sempre maior do poder das corporações e à custa de continuado crescimento da pobreza e da desigualdade.

As empresas titãs, que já dominavam a economia dos EUA e sua respectiva cultura obcecada por celebridades – “gênios” da tecnologia e czares do complexo industrial-militar – são, como se deveria esperar que fossem e não surpreende que sejam, precisamente as mesmas empresas que vivem hoje amancebadas no mesmo leito com os programas que Snowden revelou ao mundo.

Panopticon - tal como foi concebido no século XVIII por Jeremy Bentham
O desejo dos EUA de estabelecer a dominação de pleno espectrosobre todos os negócios do mundo, imediatamente depois do colapso do bloco soviético, militarizou-se definitivamente depois do 11/9/2001. A “Guerra ao Terror” – a jihad essencialmente ofensiva e automaticamente “justificada” – ofereceu a justificativa básica para a ânsia de acumular cada vez mais poder, poder “panopticônico”, como Snowden o descreveu, recolhendo a análise que Michel Foucault desenvolvera, de uma máquina radical de controle político criada por Jeremy Bentham no final do século XVIII.

Michel Foucault
Essa aparente dominação, ou, no mínimo, a ideia dessa dominação, converteu-se em componente núcleo de todo o aparato de inteligência dos EUA, produzindo visível maioria de relatórios de inteligência, que viria a alimentar o processo diário de tomada de decisões políticas ao longo dos anos, a partir da constituição e utilização dos programas que Snowden revelou.

É nesse ponto que a ideia de jihad torna-se relevante para a história de Snowden. Assim como todas as doutrinas da guerra são usadas e abusadas por seus expoentes, assim também a jihad foi usada e abusada por muçulmanos desde sempre, desde que existe o conceito. Mas, ainda assim, o conceito é altamente relevante na situação na qual, num certo momento, gente como Snowden, Bradley Manning e outros “sentinelas-apitadores” de consciência [orig. whistleblowers] descobrem-se enredados.

O conceito de jihad tem raízes – tanto gramaticais quanto teológicas – no conceito de luta e empenho pessoal e comunitário pelo aprimoramento.

É verdade que, no período clássico do Islã, essa conotação estava ampla e diretamente associada à guerra, e incontáveis intelectuais islamistas, ao longo das eras, tenderam a desqualificar a interpretação segundo a qual o Profeta Maomé estabelecia diferenças entre uma jihad menor (violenta) e uma jihad maior (espiritual/pessoal). Mesmo assim, na era moderna, a noção de jihad “da língua” ou “da pena”, assim como a ideia de jihad como jornada pessoal e comunitária para o aperfeiçoamento, tornou-se cada vez mais importante em várias linhas do discurso político muçulmano. Essa interpretação chegou até a ser usada para justificar e explicar os levantes árabes, como brotaram, inicialmente – em modalidades relativamente não violentas – na Tunísia e no Egito.

A explicação de Snowden para suas ações deixam entrever alguém que perdeu toda a fé no sistema para sanar injustiças mediante meios democráticos, legislativos, normais. Como disse em entrevista ao The Guardian, ele esperou durante anos que os líderes políticos dessem atenção à tendência potencialmente fatal de esterilizarem-se todas as principais liberdades constitucionais. Até que, afinal, se deu conta de que:  

(...) não se pode viver à espera de que outros ajam. Eu esperei que os políticos agissem. Mas acabei por perceber que liderança só tem a ver com ser o primeiro a fazer alguma coisa.

BradleyManning                                                             Edward Snowden
Como Bradley Manning, talvez com mais sofisticação, Snowden percebeu que o único modo de existir num estado dedicado a assaltar todas as liberdades civis dos cidadãos teria de ser, bem literalmente, declarar sua pessoal jihad contra aquele estado.

Uso aqui o termo jihad, em vez de guerra, porque Snowden, claramente, não declarou guerra alguma; não está usando nenhum tipo de violência contra o estado norte-americano. De fato, é exatamente o oposto disso.

Mas Snowden retirou-se, afastou-se completamente, do campo da ordem e do poder do estado ao qual, literalmente, ele jurara fidelidade; pôs-se fora do alcance das leis daquele estado, e, essencialmente, declarou jihad moral, política e ideológica contra todas as mais importantes políticas daquele estado. Nesse sentido, há muito de traição em suas ações – mas só trai um sistema que, ele próprio, e essencialmente, já traiu os cidadãos e já declarou guerra contra todos os mais altos ideais, sem os quais já não há Estados Unidos da América.

Que Snowden tenha declarado sua  jihad pela pena e pela língua, não pela proverbial espada, combina muito bem com uma interpretação moderna/progressista de jihad, e o põe, com honra, no campo da vanguarda da Primavera Árabe – de todos que se recusaram a participar de um sistema que, afinal, perceberam como irremediavelmente fracassado. Como o próprio Snowden disse:

O governo atribui-se um poder que não tem direito de exercer. Não há supervisão pública. O resultado disso é que gente como eu tem espaço para ir muito além do que lhe é permitido ir.

É claro que o governo Obama dirá que Snowden não tem o direito de se autoatribuir esse tipo de poder. Só líderes eleitos teriam esse poder, em sociedade democrática. E, como todos, do diretor da Segurança Nacional aos deputados e senadores das comissões de Inteligência já estão argumentando, por menos que gostemos das tais políticas, todas elas foram legitimamente votadas e aprovadas pelos legítimos representantes do povo dos EUA.

Jim Sensenbrenner
Talvez até seja verdade, embora, como Jim Sensenbrenner, congressista e principal autor da Lei Antiespionagem [orig. Patriot Act] (documento que dá base legal para toda a vigilância clandestina que Snowden revelou) argumenta, o que está sendo feito, de fato, implica abuso da lei  e está sendo feito sem consulta à maioria dos representantes do povo no Congresso. Mas o que Snowden e Manning afinal perceberam é que o sistema está tão grave e perigosamente fraturado que teriam de se autossacrificar, eles mesmos, se preciso fosse, para fazer parar o crime repetido. Porque não poderiam continuar a viver, eles com eles mesmos, se não agissem como agiram.

Alguns poucos homens valentes

É altamente instrutivo que a coragem de uns poucos homens valentes como Bradley Manning e Edward Snowden tenha causado maior dano à hegemonia do poderoso e sempre bem entrincheirado aparato de guerra dos EUA, que até hoje ninguém conseguiu ameaçar tão gravemente quanto eles, que legiões de soldados da al-Qaeda, inspirados por ela, ou de terroristas treinados. A verdade é que Snowden não se deixou intoxicar pelo gigantesco poder que tinha ao alcance dos dedos. Em vez disso, cuidou de selar a fonte – e essa é ação de altíssimo potencial revolucionário, a ser aprendida por outros que queiram seguir seu chamado. Snowden é jihadista autêntico, grande homem de jihad profunda.

Se dois trabalhadores relativamente inferiores na hierarquia da inteligência, como Manning e Snowden, têm acesso a informação tão crucial para tantas das políticas do governo de seu país, e às mentiras e meias verdades sobre as quais aquelas políticas baseiam-se, imagine-se o que podem fazer 20 ou 200 Snowdens, 20 ou 200 Mannings. Podem, sim, arrancar milhões de norte-americanos dos seus sofás e pô-los nas ruas, a exigir o tipo de reforma política para a qual, até hoje, nenhum político foi realmente empurrado, queira ou não queira reformas.

Ninguém é obrigado interpretar como jihad a luta de Snowden, mas, depois de mais de uma década de desastrada e sangrenta “guerra ao terror” contra o mundo muçulmano, jihad é uma bela palavra para definir esse tipo de decisão político-pessoal vital.

Escolha-se, para definir, qualquer outra palavra, e nada muda: esses dois homens mostraram ao governo, à inteligência norte-americana, às burocracias militar e empresarial em todo o mundo que, sim, eles também têm voz e têm escolhas. Que absolutamente não estão condenados a viver como parafusos de uma máquina de opressão. Que obedecer a governo opressor não é a única escolha que resta a ninguém – por mais alto que seja o preço a pagar.

Resta-nos esperar que mais alguns bravos, pelo menos, se inspirem na ação de Manning e Snowden, esses dois pioneiros.




[*] Mark LeVine é professor de história do Oriente Médio na Universidade da Califórnia-Irvine e professor visitante ilustre no Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Lund, na Suécia e autor do livro sobre as revoluções no mundo árabe: The Five Year Old Who Toppled a Pharaoh

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Egito em “bloco-negro”: tática anarquista de revolução de rua


2/2/2013, Mark LeVine*, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também
·        7/11/2011, redecastorphoto, Eduardo Febbro, Página 12 em: A praça sem chefes, ordens, capitães e hierarquias
·        2/4/2012, redecastorphoto, Al Ahram, Cairo –Egito em: Torcidas organizadas no Cairo: a Revolução dos Ultras

O bloco-negro - no Egito  dizem que eles são os defensores de manifestantes contrários ao governo do presidente Mohamed Mursi 
Da outra vez que rapazes mascarados, vestidos in black, causaram confusão equivalente no Egito, a culpa foi de Satanás. Ou, pelo menos, foi o que disseram o governo Mubarak e a Fraternidade Muçulmana, durante o caso infame que ficou conhecido como “Caso dos Metaleiros Satânicos”, em 1997, quando mais de 100 metaleiros – músicos e fãs – foram presos e ameaçados até de morte, simplesmente porque usavam roupas pretas e gostavam de música extremamente, digamos, barulhenta.

A perseguição aos metaleiros egípcios (ou “metal-aliens”, como muitos deles se autodenominam) foi constante em toda a cena underground no Egito, durante toda a década seguinte. Mas manteve-se subterrânea, sem deixar-se ver à superfície até meados dos anos 2000s, quando emergiram movimentos como Kefaaya, e ocorreram as principais greves no centro industrial de Mahallah. Nesse período viu-se nascer uma militância renovada, embora intermitente, que se manifestaria no levante revolucionário do final de 2010 e início de 2011.

Manifestante do bloco-negro hoje
 (3/2/2013) no Cairo, Egito
Não me surpreende ver que alguns dos principais organizadores dos 18 dias de protesto eram velhos amigos da cena metaleira egípcia. A aparentemente inesperada reemergência dos “blacks” entre os revolucionários remanescentes no Egito, especialmente as marcas visuais do chamado bloco-negro – o qual, embora sempre descrito como “grupo” pela mídia, por comentaristas e pelo governo, não é bloco nem grupo, mas, antes, um conjunto de táticas e estratégias – traz de volta à memória momentos ainda vivos, tanto dos sons do metal egípcio quanto da pulsação anarquista que sempre marcou o ritmo dos movimentos originais de protesto em Tahrir.

Metaleiros e anarquia – como, aliás, sempre disseram as autoridades políticas e religiosas no Egito, cada vez com mais fúria – sempre andaram juntos, pode-se dizer, naturalmente.

Na verdade, sempre houve clara, embora pouco comentada, presença anarquista no levante original em Tahrir; tradicionalmente se vendem livros anarquistas nas bancas ao longo da rua Talat Harb, onde o grupo organizou marcha e oração pública. E a própria Tahrir permanece, em vários sentidos, como exemplo das ideias de horizontalismo (horizontalidad) e autogestão que são o coração da moderna teoria e prática anarquistas.

Raízes do Anarquismo Egípcio

 Anthony Gorman
O anarquismo tem longa história no Egito e, mais amplamente, em todo o Levante. Como o demonstrou a pesquisa do professor Anthony Gorman da Universidade de Edinburgh, as raízes do anarquismo chegam aos anos 1860s, quando os primeiros refugiados políticos italianos começaram a chegar aos subúrbios hospitaleiros de Alexandria e outras cidades egípcias, onde inspiraram a criação da “Universidade Popular Livre” [orig. “Free Popular University”] em 1901.

O Egito, naquele momento, estava no auge de uma campanha sem precedentes, cada vez mais desesperada, de modernização conduzida pelo estado, que aumentou a integração do país à economia global durante a primeira e, em certo sentido a mais intensa fase da globalização. De fato, o movimento constante das comunidades do norte do Mediterrâneo para e pelos litorais leste e sul ao longo de séculos – com mercadores, escravos, piratas, operários e ativistas – é lição seminal de o quanto o Mediterrâneo sempre foi tradicionalmente integrado e, deve-se esperar, voltará a sê-lo.

Italianos e gregos, que no fin de siècle estabeleceram brilhantes comunidades de dezenas de milhares nas maiores cidades das costas sul e leste do Mediterrâneo, foram-se envolvendo cada vez mais nos movimentos trabalhistas locais, para os quais trouxeram forte dose de anarquismo, inclusive de anarcossindicalismo, especificamente focado nas lutas trabalhistas mediante a auto-organização. Já há notícias de greves construídas e agitadas por anarquistas, de prisões por trabalho ilegal de organizar trabalhadores já nos anos 1890s e até antes.

O anarquismo, como qualquer outra ideologia política que concorresse contra o nasserismo, foi posto de lado durante os dias de glória do panarabismo nos anos 1950s e 60s. Mas pelo menos alguns anarquistas egípcios contemporâneos traçam as próprias raízes até os movimentos dos anos 1940s [em árabe].

O crescimento do movimento antiglobalização corporativa

O surgimento do anarquismo no Egito no século 19 é o contexto histórico que ajuda a entender que ressurja hoje, durante a grande era de luta de integração global puxada pelo sistema global neoliberal ocidental – mas já não dominada por ele. Desde que Sadat iniciou a abertura – infitah – nos anos 1970s, o Egito passou a ser profundamente – mas desfavoravelmente – incorporado ao sistema global, mediante relações de dependência com os EUA, com o FMI e com o Banco Mundial, como fora já dependente na economia global puxada pela Europa, no século 19.

Mubarak, o pai, e ainda muito mais o filho tentaram usar as políticas neoliberais para fortalecer o poder das elites econômicas dentro do Egito e globalmente. Políticas de privatização e liberalização abriram portas com as quais nem a elite egípcia jamais sonhara, ampliando muito o controle que exerciam sobre a economia. O problema foi e continua a ser sempre o mesmo: maior concentração de riqueza nas mãos dos mais ricos só acontece, se se precariza cada vez mais a posição econômica de vasta maioria da população. O processo exigiu, em seguida, não apenas repressão sempre crescente, mas também a cooptação de novos atores para a elite do poder: fosse a emergente burguesia nos anos 1990s (cujo caso exemplar é o próprio Gamal Mubarak), fosse o alto comando da Fraternidade Muçulmana, na última década.

De Marrocos à Síria, as lutas por “liberdade”, “justiça social”, “democracia”, “pão” e, especialmente “dignidade” – palavra chave para as lutas antineoliberalismo, pelo menos desde que o movimento Zapatista introduziu o conceito no centro de seu discurso político no início dos anos 1990s – são sempre, sobretudo, lutas contra o neoliberalismo. Quanto a isso, são a continuação natural das lutas dos movimentos antiglobalização corporativa da América do Norte e da América Latina e, depois, das lutas europeias dos anos 1990s e início dos anos 2000s (cujos casos exemplares são Buenos Aires, Londres, Seattle, Praga e Gênova), lutas que em seguida se converteram no movimento antiguerra que emergiu nos EUA quando da invasão do Iraque.

Teatros de violência

Muitos dos princípios anarquistas de organização que os ativistas de “bloco negro” egípcios adotaram como seus – como a autodemocracia, com organização descentralizada, e os confrontos não raras vezes violentos com as forças de segurança e outros símbolos do poder sistêmico – já foram princípios orientadores também da primeira geração de ativistas do “bloco negro”, no movimento antiglobalização e anticorporações. São ativistas que emergiram, não só de círculos anarquistas, mas também de grupos como Ya Basta!, Tutte Bianche e Attac (que já têm ramos em alguns países árabes).

Os anarquistas também foram fortemente impactados por movimentos de base latino-americanos, o principal dos quais, os Zapatistas no México, como já escrevi em meu livro Why They Don’t Hate Us [Por que não nos odeiam], de 2005, constituíram o melhor modelo a seguir, para vários movimentos políticos de jovens. O próprio instituto RAND (.pdf) já alertava  que “o levante Zapatista demonstrou  como novas tecnologias possibilitaram que “enxames” de “moscas” atacassem e eventualmente derrubassem governos”. Essas são, precisamente, as táticas que se viram em ação na fase de definição, na Praça Tahrir, da revolução egípcia.

Pode-se contra-argumentar que a “Batalha de Seattle”, no final de 1999, contra a OMC, que pela primeira vez pôs o movimento nas manchetes e no mapa do ativismo mundial, jamais teria recebido a atenção que recebeu, não fosse a violência contra propriedade privada que se viu na prática dos manifestantes; aquela violência foi e continua a ser fenômeno raro nos EUA, exceto nos “tumultos” de rua em comunidades onde vivam minorias pobres.

Mas já era bem claro, em setembro de 2000, no protesto contra o FMI em Praga, que o uso da violência revolucionária, embora teatral e limitado à propriedade e a forças de segurança, estava-se tornando contraproducente. A Polícia servia-se da ameaça de violência para usar forças cada vez maiores e mais violentas que passaram a prender e atacar violentamente também as manifestações pacíficas; além de servir-se cada vez mais frequentemente de táticas de infiltrar-se nos próprios movimentos. O clímax aconteceu no assassinato de um ativista italiano, Carlo Giuliano, em Gênova, durante protestos contra reunião do G8, em julho de 2001, apenas dois meses antes de os ataques de 11/9 deslegitimarem completamente qualquer tipo de protesto violento nos EUA e Europa, por toda a década seguinte.

Posto em fórmula reduzida, a rotinização da violência nos movimentos contra a propriedade privada, custou caro ao movimento antiglobalização; para começar, custou-lhe parte significativa do apoio nos EUA e Europa; e, isso, porque nesses países a maioria da população ainda não estava sofrendo sofrimento insuportável, sob o sistema existente; sem isso, não havia meio pelo qual a população pudesse estar preparada para ou disposta a suportar o nível de caos, de desordem e de disrupção que a violência revolucionária visava a gerar. É possível que os anarquistas e os ativistas mais hard-core dos movimentos antiglobalização corporativa realmente trabalhassem para e desejassem “o fim do sistema”, como tantos egípcios cantavam desde o início do levante (e, de fato, desde antes do levante), mas praticamente todos os demais que enchiam a Praça Tahrir desejavam apenas um processo de reformas menos doloroso.

Todos os movimentos de militância de oposição política tornaram-se ainda mais difíceis durante os anos da Guerra ao Terror de Bush, tanto porque o público estava menos tolerante com qualquer oposição, como, também, porque os governos implantaram leis antiterror, aumentaram os controles e a vigilância, perseguiram e em vários casos assassinaram militantes ativistas.

A militância de oposição reapareceria a seguir, com o crescimento dos movimentos Occupy globais, mas, sobretudo, na Grécia, Espanha e, em certo grau, também nos EUA. Mas mesmo em meio à pior crise econômica desde a Grande Depressão, as táticas de bloco-negro afastaram do movimento, no mínimo, tanta gente quanta conseguiram atrair, levando observadores normalmente sérios e sóbrios, como Chris Hedges, a definir a tática do bloco negro (de fato, como vários outros, Hedges também fala erradamente do “movimento”) como “o câncer do movimento Occupy”.

Globalização super bombada, no mundo árabe

O mundo árabe e, em termos amplos, o mundo muçulmano, constituem ambiente muito diferente para lutas contra o neoliberalismo e as várias políticas aí envolvidas, se comparados às sociedades capitalistas ocidentais avançadas. Ganhos sem precedentes gerados pelo petróleo permitiram desenvolvimento superficial muito rápido nos pequenos países do Golfo, nos últimos 20 anos; mas no que tenha a ver com a situação econômica e política em que vivem as populações da vasta maior parte da região, as coisas só fizeram piorar horrivelmente ao longo da última geração. Isso, ao mesmo tempo em que a capacidade de as populações se conectarem culturalmente – se não economicamente nem politicamente –, integrando-se aos movimentos e ideias globais, aumentou a níveis também sem qualquer precedente.

Numa sala de conferências onde havia 500 pessoas, nos protestos em Praga contra o FMI, em 2000, ninguém levantou a mão quando perguntei se havia ali gente vinda do mundo muçulmano. Mas poucos anos depois, o número de ativistas do Oriente Médio e do Norte da África já aumentava notavelmente em manifestações pela paz global e/ou por justiça global; ao mesmo tempo, beneficiavam-se também das oportunidades criadas para eles por governos e ONGs ocidentais, para se interconectarem entre eles e seus pares, nas redes, oficinas, conferências que se chamavam “da sociedade civil”, no período que se seguiu à invasão dos EUA contra o Iraque.

A internet, é claro, tornou muito mais fácil aprender sobre táticas – como a tática do bloco-negro – e permitiu que vários grupos na Região e para além e que partilhavam objetivos e atitudes similares, tomassem conhecimento da existência uns dos outros. Ao mesmo tempo, o crescimento do movimento dos Ultras – claramente inspirado em movimento de torcidas organizadas de times europeus de futebol – garantiu o laboratório de testes perfeito para experimentar e aperfeiçoar táticas agressivas, eventualmente violentas, de confronto com forças de segurança e gangues armadas por regimes ditatoriais. Essas táticas, entre os dias 28/1/2010 e 4/2/2011, literalmente salvaram a revolução egípcia.

Não surpreende que, quando foram perdendo a capacidade de modelar a situação política, nos dois anos que se passaram depois do levante, os Ultras e simpatizantes que se reuniram à volta deles tenham partido à busca de novas estratégias, novas táticas e novos símbolos para reacender a velha chama e o ímpeto inicial, e, tão importante quanto isso, para reassumir também o controle da própria narrativa nacional, caminhando na direção de terreno mais favorável.

Elemento dos blocos-negros mascarado com balaclava
Membros dos Socialistas Revolucionários, o maior grupo de anarquistas, em termos de conhecer estratégias e ter clareza dos próprios objetivos políticos (e os quais, consequentemente, foram diretamente atacados pelo Exército egípcio e, também, pela Fraternidade Muçulmana), repetidamente disseram, em longos contatos comigo desde o início da Revolução, que a chave do sucesso estaria em manter-se capaz de aprender e ensinar de/para círculos cada vez mais amplos da população.

A explosão da discussão sobre a tática de blocos-negros no Egito – que se vê hoje muito mais entre o governo, os apoiadores e a mídia de língua árabe, além dos grandes jornais egípcios, no que na mídia do resto do mundo – é prova de o quanto a estratégia política dos Socialistas Revolucionários sempre esteve corretamente orientada.

Se se examina a proliferação de páginas na internet de e sobre os blocos-negros (dentre muitas outras, aqui, aqui e aqui), videopronunciamentos de ativistas [ver também aqui], tuítes e os muitos que adotam o visual e os logotipos dos blocos-negros, e discussões com amigos dentro do movimento mais amplo dos Ultras (dentre outros que muito têm aprendido com as mudanças estratégicas introduzidas pelos blocos-negros), é bem claro que, embora a adoção das táticas de blocos-negros tenha um centro de irradiação a partir dos Ultras, de modo algum se limita às torcidas organizadas, uma vez que nem todos os que adotaram as balaclavas negras para cobrir o rosto são ou algum dia foram membros de qualquer das duas principais torcidas organizadas de equipes de futebol no Egito, Zemalek ou Ahly.

É também bem claro que, embora os ativistas que apareceram com a ideia de identificar-se publicamente com a tática conhecessem bastante bem sua história recente, seria errado assumir que partilhassem (ou, sequer, que algum dia tenham construído debate consistente sobre) alguma agenda ou filosofia política anarquista consequente; tampouco se deve supor que todos conhecessem em profundidade o discurso anarquista histórico que sempre modelou o movimento Occupy global mais amplo. Esse, vale a pena lembrar, é que foi diretamente inspirado pelos 18 dias históricos de resistência popular na Praça Tahrir – se não nasceu ali, integralmente, do estilo-fundamento anarquista de auto-organização revolucionária.

Por outro lado, alguns ativistas autoidentificados dos blocos-negros egípcio informam, como sua “universidade de origem” a UNAM (Universidad Autónoma de México), que tem longa história de parentesco e afiliação com os Zapatistas; além disso, se observa também um retorno a algumas das análises sobre as táticas de bloco negro que se escreveram antes de 2001, as quais mostram forte semelhança entre os desafios que o movimento enfrentava no ocidente, naquele momento, e enfrenta hoje no Egito.  

A revolução como destruição criativa

Imediatamente depois das vitórias eleitorais da Fraternidade Muçulmana e do Partido Fraternidade e Justiça, o desempenho anêmico da “oposição” oficial, representada pela Frente de Salvação Nacional, e uma população desesperadamente carente de qualquer tipo de recuperação econômica empurraram as forças revolucionárias, num primeiro momento, para uma posição defensiva. Mas os protestos de massa e, em seguida, a violência que cercou o veredito de Port Said, além do segundo aniversário do início do levante de 25 de janeiro, ofereceram condições para recalibrar todos os relógios e projetos políticos. O bloco-negro tornou-se símbolo público da oposição militante que está, sim, literalmente, em marcha contra uma ordem emergente e ainda instável.

Difícil exagerar os perigos que um movimento popular de protesto bem organizado (mesmo que auto-organizado e descentralizado) pode impor à elite do poder político no Egito. O chefe militar, Abdel Fatah al-Sissi, não erra quando diz que os protestos em curso ameaçam levar ao colapso do Estado; tampouco erram os juízes e procuradores em definir como terroristas  os especialistas nas táticas do bloco-negro. Mas o que, afinal, seria uma revolução, se não tiver como objetivo o colapso do Estado que há? E como esperar que os que ocupam hoje aquele poder em disputa não se sintam aterrorizados pelos que hoje confrontam aquele poder?

Todas as revoluções verdadeiras implicam um ato supremo de destruição criativa – um impulso anárquico de reordenamento, que destrói a velha ordem, ao mesmo tempo em que já vai criando algo novo que tomará o lugar da velha ordem. O motivo pelo qual muitas revoluções perdem o rumo ou são sequestradas por forças quase sempre diferentes e não raras vezes opostas às que lhes deram origem é, precisamente, o fracasso nessa passagem revolucionária decisiva: da fase e dos discursos destrutivos, para a fase e os discursos criativos gerativos. Vale para as revoluções religiosas axiais, inclusive nas fés abraâmicas, tanto quanto vale para as modernas revoluções políticas no México, na Rússia, na China ou no Irã.

O impulso anárquico tem raízes diretas no fato de que nasce do sistema existente. Mas se um Estado – vale dizer, o arranjo e a rede das relações de poder vigentes – tiver de ser substituído por outro, um novo sistema tem de substituir o velho que se desintegra. Assim também uma verdadeira revolução é combinação potentíssima do que o sociólogo Manuel Castells chama de identidades de “resistência” e de “projeto”; a primeira é estreita, fechada, hostil ao diferente; a segunda é aberta, receptiva e orientada para o futuro.

Sem essas duas identidades, não se pode “pôr abaixo o sistema” e criar outro mundo que o substitua. Assim também, não se pode manter dezenas de milhões de pessoas em apoio cerrado à destruição, se ninguém consegue sequer entrever qualquer visão positiva de futuro.

O problema é que, embora as duas metades da “destruição criativa” revolucionária sobreponham-se quase perfeitamente durante boa parte do período revolucionário, em algum momento futuro a destruição tem de ceder; e a criação tem de ocupar os espaços como processo dominante; ou a revolução torna-se autodestrutiva, niilista, é cooptada ou acaba por ser redirecionada (quase sempre por forças militares já organizadas, nos fenômenos que se conhecem como “bonapartismo” ou “cesarismo”). Nessa situação, os apoiadores resistentes desistem facilmente da resistência e passam a apoiar ativamente qualquer estabilidade que qualquer antigo regime restaurado (mesmo que não passe do que havia antes, metido em novos uniformes ou ternos) lhe ofereça.

O que fez de Tahrir evento realmente revolucionário durante 18 dias, mas, infelizmente, poucas vezes desde então, foi que, naquela praça, se via, sentia-se a possibilidade de um novo Egito, um Egito diferente, um Egito capaz de realizar os melhores sonhos dos seus filhos. Jovens e velhos, ricos e pobres, muçulmanos e coptas, metaleiros e sufis, todos irradiavam silmiyya – a alegria da paz – por mais que berrassem sem parar, o mais alto e forte possível, dia e noite, incansáveis.

Viveu-se ali uma experiência limítrofe, paradoxal, experiência que Adel Iskandar, professor de Georgetown e coeditor de Jadaliyya, relembrou em conversação recente sobre a situação atual. Para ele, foi “fenômeno de duas fases: a primeira, de 25/1 a 4/2, foi violenta, confrontacional, disputada à moda do bloco-negro (...); a segunda, de 4-11/2, foi a Tahrir do imaginário utópico... Essas duas fases continuam a existir e manifestam-se em frequência alternada”. 

A questão chave é, claro, como controlar a oscilação, sobretudo se não se pode jamais ter certeza de qualquer ponto de virada, nem se está virando, nem para que lado viraria. Já há dois anos, o “estado” egípcio vive em curto circuito; a estrutura mais interna – o estado profundo onde operam os senhores do poder e por cujas mãos fluem toda a riqueza e todo o poder no Egito – permaneceu aparentemente estável, e está crescendo um pouco, com a Fraternidade Muçulmana e suas próprias redes de poder e patrocínio já sendo absorvidas, embora com alguma dificuldade, naquela velha elite. Mas, fora daquele núcleo mais duro, o estado continua gelatinoso e poroso; e se a oposição pode arrancar dali algum poder e alguma legitimidade, é verdade, também, que o próprio sistema pode andar, como alertou o general al-Sissi, diretamente para o colapso.

Milhões, se não dezenas de milhões de egípcios compreendem que se a estrutura do Estado re-enrijecer-se na forma que parece ter hoje, todos estarão mais ou menos recongelados em mais ou menos o mesmo lugar em que viviam sob Mubarak, ou serão empurrados ainda mais para as margens; ou serão completamente cuspidos para fora do estado. De fato, o “estado de emergência” mais uma vez declarado, agora por presidente democraticamente eleito, e os ataques contra mulheres organizados por forças claramente alinhadas ao velho regime, refletem essa necessidade desesperada de desarticular o maior número possível de redes de poder popular, antes de que o novo sistema endureça novamente.

É quando entram em cena as táticas de combate dos blocos-negros

As táticas dos blocos-negros são hoje uma das mais criativas, das mais imaginativas respostas ao endurecimento geral no Egito. Os “especialistas” que a desqualificaram como soluções idiotas não conhecem, nem compreendem, a história das táticas anarquistas e o quanto já se provaram produtivas no Egito revolucionário.

A questão é como a maioria dos egípcios, que não estão diretamente envolvidos nos combates de rua (mas são diretamente afetados por eles) compreenderão essa dinâmica. Como reagirão ao tipo de violência tática produtiva de que são prova e instrumento os princípios anarquistas e as táticas de bloco negro, se continuarem ativas nas ruas e o governo responder com violência ainda maior?

Será que perceberão o aspecto projetivo e criativo dos protestos e os aceitarão como tática necessária e único meio não apenas para concluir o serviço de derrubar o velho sistema, mas, também, para construir economia social e política realmente nova para o Egito? Ou se concentrarão só no elemento destrutivo, de resistência destrutiva que há neles – como se aí estivessem para acelerar a desintegração social, política e econômica e gerar o caos, de tal modo que qualquer sistema religioso-autoritário, por impalatável que pareça ao primeiro trago, logo parecerá melhor alternativa?

Em todos os casos, temos de analisar o trabalho tático dos blocos negros, antes de julgá-los. A lealdade desses grupos militantes aos demais manifestantes já foi várias vezes posta à prova. Semana passada, quando mulheres foram brutalmente atacadas na Praça Tahrir, e já nem grupos como Operação Antiabuso Sexual conseguiam protegê-las ou afastá-las de onde estavam, ativistas de blocos negros surgiram não se sabe de onde e, com porretes e lança-chamas dispersaram grupos de atacantes armados e conseguiram levar as mulheres e outros ativistas para local seguro, de onde foram retiradas em segurança da Praça.

Sucesso limitado, futuro melhor?

Vale a pena observar que o sucesso do Zapatismo sempre foi muito limitado à própria região. Os Zapatistas conseguiram criar uma zona autônoma – embora constantemente ameaçada – para grupos indígenas mexicanos que vivem na região de Chiapas. Não alteraram fundamentalmente a economia mexicana, nem derrotaram, nem lhe impuseram ameaça significativa, ao “neoliberalismo global”, contra o qual o movimento abriu guerra dia 1º de janeiro, há 19 anos.

Subcomandante Marcos
A frase que o subcomandante Marcos disse a turistas desapontados por não poderem visitar ruínas maias em Chiapas, no dia em que a revolução começava – “Perdoem, mas hoje estamos fazendo uma revolução aqui” – também já foi ouvida por muitos turistas impedidos de visitar o Museu de Antiguidades da Praça Tahrir durante a revolução.

De fato, embora conter a marcha brutal do neoliberalismo nas montanhas Lacondonas de Chipas seja, sem dúvida, grande vitória, a revolução egípcia não se implantará se se limitar só a uma região ou só a um grupo social. O sucesso inicial e a vitória final dependem, precisamente, de que se infiltre por toda a sociedade e alcance todo o país. Não há revolução parcialmente vitoriosa, nem pequenos territórios “libertados”, como Tahrir, conseguirão sobreviver cercados por um oceano de autoritarismo neoliberal da Fraternidade Muçulmana protegido pelos militares.

É bem visível que as táticas de bloco-negro e os militantes anarquistas revolucionários não conseguirão no Egito muito mais do que os Zapatistas conseguiram em Chiapas.

Mas se os revolucionários anarquistas de blocos negros no Egito conseguirem manter em desequilíbrio os donos do poder, enquanto vão injetando novo ânimo na oposição que os jovens já comandaram em Tahrir, oferecendo-lhes visão positiva criativa de resistência e estratégias que permitirão levar a revolução egípcia para o seu terceiro ano de lutas, convencendo números crescentes de cidadãos comuns a não desistirem e a manter ativada a luta por liberdade real, dignidade e justiça social, terão cumprido muito dignamente um papel de máxima importância nessa torturada transição pela qual passa o Egito, de governo autoritários para, afinal, algum sistema realmente democrático.





Mark Levine* é professor de História do Oriente Médio na UC Irvine, e professor-visitante emérito do Centro de Estudos do Oriente Médio na Lund University, Suécia. É autor de The Five Year Old Who Toppled a Pharaoh  [O pequeno de cinco anos que derrubou um Faraó] (no prelo).